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terça-feira, outubro 25, 2022

Tender Buttons - Gertrude Stein - Uma Leitura - ERIC PONTY

Gertrude Stein's The Autobiography of Alice B. Toklas (1933) é uma autora emblemática na autobiografia lésbica, se não típica. Não sendo típica porque embora obedeça à maioria das convenções genéricas dessa autobiografia, está escrita na voz de outra: é A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein publicado pela Cosac Naify (2009) com tradução de José Rubens Siqueira.  Além disso, Alice B. Toklas não sendo apenas mais uma pessoa, não apenas Gertrude Stein, sendo a consorte de vida de Gertrude Stein, sua amante - esposa. 

Gertrude e Alice estão enterradas juntas no cemitério de Père Lachaise. Apesar seguir o tópico "Antes de eu vir a Paris" da autobiografia, abrindo com o início da vida de Alice, envia esta informação num breve parágrafo inicial:

 Talvez o meu filho é que tenha morrido. Me lembro sempre de um de seus axiomas: se tem de fazer uma coisa, faça com graça. Ele me disse também que uma anfitriã não deve nunca se desculpar por qualquer falha nos arranjos da casa, porque uma anfitriã existe na medida em que existe uma anfitriã que não falha. Como eu estava dizendo, vivíamos todos confortavelmente juntos em minha mente não havia nenhum desejo ativo ou ideia de mudança. A perturbação da rotina de nossas vidas pelo incêndio, seguida da vinda do irmão mais velho de Gertrude Stein, fez a diferença.

Mrs. Stein trouxe com ela três pequenas pinturas de Matisse, as primeiras coisas modernas a cruzar o Atlântico. Eu a conheci nessa época de perturbação geral e ela me mostrou as pinturas, também contou muitas histórias de sua vida em Paris.

Se no muito breve primeiro capítulo, "Antes de Chegar a Paris", sugerindo que a vida de Alice legitimamente pôr-se em "Minha Chegada a Paris", o título do segundo capítulo. 

Se no fato, o primeiro capítulo cobriu toda à vida de Alice antes de conhecer Gertrude Stein, terminando com um longo parágrafo que já é um prólogo com dessa vida com Gertrude. Descreve com algum pormenor como chegou a conhecer Stein e anota como "desta forma começou a minha nova vida plena". 

Inusitado está "autobiografia" é, fazendo o que doutras autobiografias lésbicas fazem: Sendo desobedecer às regras convencionais da autobiografia. Stein o faz escrevendo a vida de sua amante na voz de sua amante e do seu ponto de vista, assim como por extensão, transformando numa autobiografia nessa história de um casal, não de uma só pessoa. 

Stein as une, em casa, por assim dizer - um ato impossível na época - tornando suas vozes indistinguíveis: falam de feitio intercambiável. Se estas variações no formulário sugerem que o gênero existente, tais parâmetros disponíveis, da autobiografia, não serão suficientes para às lésbicas. Essa interrupção genérica pode ser, de fato, a mais prevalente, sendo característica distintiva das memórias lésbicas ou autobiografia, embora este dissidente assuma formas diferentes ao longo dos séculos.

Começando com um dos primeiros exemplos de autobiografia lésbica, encontramos o que se tornará um provoco genérico recorrente. Um fragmento de Sapho apresenta o que pode ser estimado uma equivalência lésbica:

Não ouviu uma só palavra 
Sinceramente, gostava de estar morta.
Quando ela saiu, ela chorou,
Muito; ela disse-me: "Esta despedida deve ser
suportou, Saffo. Eu vou de má vontade."
Eu disse: "Vai, e sê feliz.
mas lembre-se (você sabe
bem) há quem deixas algemado pelos amores.

Neste caso, um poema nunca é entendido necessariamente para cumprir os termos da pessoalidade. A poesia, como a prosa ficcional, pode ser escrita em primeira pessoa, sem que se assuma que está na voz ou sobre a vida do autor, mesmo quando a protagonista partilha o próprio nome do escritor; no entanto, nesses casos - como no fragmento de Sapho - é muitas vezes uma pista de que estamos a ler um romano (ou poème) à clave, uma versão ficcional ou ficcionalidade do fato.

Se pode haver versões mais adequadas da verdade, que não são ficção ou ficção, é outra questão contestada sobre memórias e autobiografia: afinal, toda a escrita é mediada, construída, trabalhada; isto não é uma contestação particular à escrita da vida lésbica, embora disfarçar "fatos" ou construir "ficções" possa ser individualmente importante para um escritor preocupado com o assunto perigoso ou tabu da cobiça do mesmo sexo.

Num gênero individualmente fecundo para descobrir a escrita de vidas lésbicas não está apenas na poesia que pode ser dirigida apaixonadamente ou intimamente desta outra mulher, mas também na variante ainda mais destilada desta troca: as missivas.

E, na verdade, às vezes os poemas e as missivas nem sempre são espontaneamente distinguíveis. Emily Dickinson escreveu poemas apaixonados e o que se pensa serem missivas de amor à sua cunhada Susan Huntington Gilbert Dickinson, ou "missivas-poemas" ("uma categoria que inclui poemas e cartas assinadas com poemas ou com estrofes de poesia"). "Oh Susie", Emily história a Sue, em fevereiro de 1852, numa missiva reconhecível como missiva: "Eu aninhar-me-ia perto do teu coração quente, e nunca mais ouviria o vento soprar, ou a dilúvio bater, igualmente." Em meados dos anos 1860, Dickinson historiou uma compaixão análoga numa missiva-poema:

Afetuosa Sue,
. . .
para a Mulher
que eu prefiro,
Aqui está o Festejo -
Quando as minhas mãos
são Gatas, Seus
dedos serão
achado no interior -
De nossa bela vizinha
"mudou-se" em maio...
Deixa uma
Sem importância.
Leve a chave para
o Lírio, agora, e
Vou riscar a Rosa...

Se Gertrude Stein escreveu regularmente à sua consorte Alice B. Toklas em uma confissão análoga desse poema e dessa missiva. Cá temos um dos tais exemplos:

Neném precioso
As estrelas brilhantes e adoráveis
meu Neném, eu fiz muita literatura
e eu amei o meu Neném que eu levava
leito e eu amo o meu Neném, ...

Mesmo tais missivas, que parecem ser as mais não mediadas da escrita - presumivelmente orientadas para um outro leitor em particular - podem estar disfarçadas num mundo onde essas paixões das mulheres do mesmo sexo são estimadas loucas, ou nem sequer acatadas, naquilo que agora nos referimos como "invisibilidade lésbica".

 Se em outras palavras, para toda essa escrita que pode ser decodificada e sendo interpretada à luz da crescente visibilidade lésbica, ainda há toda essa escrita que não temos: ou porque tal escrita passa reservado ao nosso olhar interpretativo - há códigos que jazem ininterruptos e códigos que talvez nem sequer reconheçamos como instruções - ou porque, por todas as razões de temor e estigma, nunca foi na realidade escrito.

II – Capítulo Tender Buttons de Gertrude Stein:

Tender Buttons foi publicado pela primeira vez na Primavera de 1914 por Claire Marie em Nova Iorque. Stein começou a escrever o livro no Verão de 1912, enquanto tentava compor uma série de pequenos poemas em prosa sobre objetos do quotidiano e da vida quotidiana. A obra reuniu-se rapidamente e, no início de 1914, Stein já o tinha terminado. Em fevereiro desse ano, ela foi abordada por Claire Marie Press, que manifestou interesse em publicar alguns dos seus escritos. Considerou enviar-lhes as suas peças, mas ficou convencida de que este novo trabalho em três partes seria uma melhor opção. Claire Marie não era uma editora grande ou prestigiosa, mas uma empresa obscura que foi criada por um poeta excêntrico de Nova Iorque, Donald Evans. Stein tinha-se tornado conhecido por Evans através do seu amigo mútuo Carl Van Vechten. 

O nome do livro, Tender Buttons, tem sido muito discutido pelos críticos de Stein, com interpretações que vão desde a ideia de que ela escolheu duas palavras familiares e as colocou juntas para criar um sentido do incógnito, até outras alegações de que o título é uma referência a mamilos. Stein não tinha nome para a obra até muito perto da data de publicação; ela só informou Evans do título um mês antes de ele o divulgar. O livro está dividido em três secções: 'Objetos',' Alimentação' e 'Quartos'.

Nestes poemas inovadores em prosa, Stein descreve o mundano e comum com uma gramática experimental, transformando formas conhecidas em ideias novas e desconhecidas. Durante este tempo, foi fortemente influenciada por Picasso e Cubismo e tentou incorporar alguns dos aspectos mais radicais da sua arte na sua escrita.
Desta edição de Tender Buttons para essa edição trouxemos quatro temas de prosa poética de Gertrude Stein:

UMA GARRAFA SELADORA.

Qualquer negligência de muitas partículas a uma fenda, qualquer negligência disto faz com que à sua volta o que é chumbo em cor e certamente descolorir em prata. O uso disto é múltiplo. Supondo que um certo tempo selecionado é assegurado, supondo que é mesmo necessário, supondo que nenhum outro extrato é permitido e que não é necessário mais manuseamento, supondo que o resto da mensagem é misturado com uma agulha muito longa e esguia e mesmo que possa ser qualquer borda preta, supondo que tudo isto, no seu conjunto, fez um vestido e supondo que era real, suponhamos que a maneira mesquinha de o afirmar foi ocasional, se o supomos em Agosto e ainda mais melodiosamente, se o supomos mesmo no incidente necessário de não haver certamente meio termo no Verão e no Inverno, suponhamos que isto e um povoado elegante um povoado muito elegante é mais do que de consequência, não é final e suficiente e substituído. Este que foi tão gentilmente um presente foi constante.

UM VESTIDO LONGO.

Qual é a corrente que faz a maquinaria, que a faz crepitar, qual é a corrente que apresenta uma longa linha e uma cintura necessária. O que é esta corrente. O que é o vento, o que é. Onde está o comprimento sereno, está lá e um lugar escuro não é um lugar escuro, apenas um branco e vermelho são pretos, apenas um amarelo e verde são azuis, um rosa é escarlate, um arco é de todas as cores. Uma linha distingue-o. Uma linha apenas a distingue.

UM GELO AZUL

Um casaco azul é guiado, guiado e guiado, que é a cor particular que é utilizada para esse comprimento e não qualquer largura nem sequer uma sombra.

O PIANO
Se a velocidade estiver aberta, se a cor for descuidada, se a seleção de um cheiro forte não for embaraçosa, se o suporte do botão for segurado por toda a cor ondulada e não houver cor, não houver cor nenhuma. Se não houver sujidade num alfinete e não puder haver nenhuma dificilmente, se não houver, então o lugar é o mesmo que em pé. Isto não é um costume obscuro e nem sequer atua de tal forma que uma contenção não seja espalhada. Isso é espalhado, fecha-se e levanta-se e, estranhamente, não é estranho que o centro esteja em pé.

CONCLUSÃO:

Sobretudo seguindo as recomendações de Natalie Barney's e destas cópias registradas de Janet Flanner, o almanaque foi lido como tal um romano à clef", mas, segundo uma leitora numa resenha nos esclarece que tal romance está circunscrito quanto ao estilo de linguagem à Década de 30 com expressões típicas daquele período parisiense de gays e lésbicas.

O texto de Barnes sugere não só que a representação literária ou "visibilidade" não elucida as particularidades da vida lésbica, mas também que qualquer representação direta de tal vida simplesmente reproduziria, como o que já é versado e normativo. As vidas lésbicas são estranhamente nomeadas personagens desta história, então um texto impenetrável começa a fazer sentido como um gesto lúdico em relação à representação lésbica, tornando as figuras visíveis, mas ainda obscuramente peculiares. Além disso, ao tornar tão difícil discernir quem é quem ou mesmo o que está incidindo.

Neste caso, um poema nunca é entendido essencialmente para cumprir os termos da pessoalidade. A poesia, como a prosa ficcional, pode ser escrita em primeira pessoa, sem que se assume que está na voz ou sobre a vida do autor, mesmo quando a protagonista partilha o próprio nome do escritor; no entanto, nesses casos - como no fragmento de Saffo - é muitas vezes uma pista de que estamos a ler um romano (ou poème) à clave, uma versão ficcional ou ficcionalidade do fato.

Essas relações lésbicas desencadearam ao ponto de libertar toda esta paixão e problemas da experiência sexual das mulheres. Mesmo as lésbicas que não eram doutrinadas pelo feminismo tinham muitas vezes essa sua vida sexual regida pelo segredo e pela vergonha. Não sendo preciso ter um papel de posicionamento para explicar por que é que se pode ter vergonha e temor dos seus desejos sexuais. não podem ser simplesmente reveladas: é preciso haver uma nova linguagem para compreendê-las ou expressá-las.

As mulheres são infetadas pela dúvida sexual desde à infância, e duma predisposição para o lesbianismo não sendo uma cautela para fora do tradicional receio feminino e estupidez das tais anteposições sexuais.

Os Modernistas articularam esta onda deste frenesim, e assim o desvio sexual tornou-se uma questão de "cruzeta" no sentido do termo estudos culturais - uma inquietação manifestada no discurso público e retrabalhadas tanto no popular no "altivo”. Das tais formas ditas culturais.

No entanto, como argumentou Michel Foucault, o puro cultural investimento na sexualidade, especialmente no pacto entre as formas de ser sexual e destas noções de fato, interioridade e informação, intensificou-se a duma febre no século XIX e início do século XX.

Se dessas linhas cruzam-se e divergem para desenvolver uma rede do que Foucault chamou de “ponto(s) de transferência denso(s) para relações de poder".  Esta rede abrangeu a rede Queer do modernismo feminino, de língua inglesa.

Para além das coordenadas mínimas de tempo e lugar - Saffo viveu a ilha de Lesbos na viragem do século VII para o VI a.C. – as realizações literárias e reputação são os "fatos" mais fiáveis sobre os quais os estudiosos concordam. Como "a mulher poetisa mais conceituada da Grécia e Antiguidade Romana", Sapho escreveu poesia lírica - canções acompanhadas por uma Lira - que foi recolhida por estudiosos em Alexandria séculos após a sua morte; desta, pouco sobreviveu, e quase só em fragmentos.

Se formalmente, tal autobiografia lésbica contemporânea jaz a mexer com tais regras comuns. Mesmo tais "romances" que são inscrições nesta primeira pessoa sobre lésbicas explorações e escapadelas e nas quais da protagonista é chamada pelos mesmos nome destas autoras nos dando a mesma questão controversa de categoria que a do Poema de Saffo continuando a ser o único artifício para contar à vida duma lésbica como percorremos neste ensaio sobre obras de Gertrude Stein Tender Buttons 

TRAD. ERIC PONTY

POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

segunda-feira, outubro 24, 2022

EXEQUIAS ELETIVAS PELO SUÍCIDIO DE JEAN LUC GODARD - ERIC PONTY

Das minhas experiências de salvação em outros endereços Leitor-Crítico não sabia nada, por isso também não podia saber nada dos entendimentos que me haviam levado a essa disposição de me suicidar; precisava tentar adivinhá-los e, de acordo com avaliação geral que tinha a meu respeito, me indicou o que há de mais abjeto, áspero e burlesco. E não hesitou um só instante em me dizer isso precisamente daquela maneira. o embaraço que assim me causou não era nada em comparação com a vergonha que, na sua opinião, eu iria infligir ao seu nome com esse ato de suicídio até traduzi o soneto vinte e dois de Shakespeare:

O meu espelho não me envelhecer face,
Se juventude andarem mãos dadas;
Mas quando tempo o marcou também,
Saberei que o tempo já me apanhou.

E por toda a beleza que viste apenas,
É o vestuário do meu coração: apenas,
Se ele viveu em ti como tu vives,
Porque deveria ser mais velho tu.

É por isso que estou a apelar ti,
Cuidar de ti, amor, quão eu cuido de ti,
Teu doce coração que eu, no meu peito,

Lido com os males como uma criança,
Deu-me o seu coração: se o reclamar,
Que acabas a minha e ainda te gabas.

Pelo contrário, ambos os suicídios, teriam se tornado suicídios. orientados pela razão, na medida em que toda a força do meu entendimento foi dia e noite agregada nesse plano, a primeira vez durante anos, a segunda talvez durante um certo tempo como a expansão da filosofia de Camus.
Mais um indício da sua contenção inteiramente errada é o fato de que Leitor-Crítico possa crer que eu, o inerme, o indeciso, o conjeturado, me decida de uma pancada por um suicídio. Uma vez fascinado talvez pelo suicídio de Jean Luc Godard.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

UM SONETO DE PAUL VERLAINE E DUMA EXPLICAÇÃO - ERIC PONTY

O estorvo eficaz, porém — excepcionalmente autônomo em afinidade ao caso singular —, era que, do ponto de vista devoto, sou manifestamente inábil de me questionar. Isso se revelada no fato de que, a partir da ocasião em que decido me censurar, não arrumo repousar, a cabeça abrasa dia e noite, isto já não é existência, fico arfando desesperado de um lado para outro. Não são propriamente as apreensões que importunam isso, no fato correm juntas inúmeras apreensões, de acordo com a minha tristeza e meticulosidade, mas não são elas o crucial; na veracidade elas desvirtuam a fio, como os inseto nas tarefas do poema; o que me aborda de modo crucial é outra coisa. É a pressão generalizada do receio, do temor, do autodesprezo, e, demonstrar isto aqui minha isotopia de Paul Verlaine:

3 anos antes

Após empurrar a porta estreita e frágil,
E comecei a andar no pequeno jardim,
Que, quente, iluminava sol da manhã,
Salpicar para as flores com faíscas húmidas.

E que nada mudou. Havia a pérola pobre,
Coberto pelas cadeiras, vime de videira,
Que bomba repetiu o seu sopro argentino,
E álamo, já antigo, desta queixa eterna.

Tal como antes, as rosas vibram, tal quão antes,
E lírios orgulhosos balançam ao vento,
Que cada cotovia cruza é-me familiar.

Até achei estátua de Veleda no seu sítio,
Com gesso lascado, no final da passagem,
E envolto no cheiro suave desta reseda.

Mas muito mais formidável é o temor por mim mesmo. Esse deve ser percebido assim: já sugeri que na minha atividade literária e naquilo que se pauta com ela realizei pequenas provas de bem-estar e saída com uma sequela quase nula; muita coisa me aprova que duramente elas terão assiduidade. Apesar disso é meu carecer, ou antes: minha vida versa em velar por elas, em não aceitar que se aborde perigo algum que eu possa desviar — com sequela, nem mesmo a probabilidade dessa ameaça do silêncio.

Das minhas experiências de salvação em outros endereços Leitor-Crítico não sabia nada, por isso também não podia saber nada dos entendimentos que me haviam levado a essa disposição de me suicidar; precisava tentar adivinhá-los e, de acordo com avaliação geral que tinha a meu respeito, me indicou o que há de mais áspero e burlesco. E não hesitou um só instante em me dizer isso precisamente daquela maneira. o embaraço que assim me causou não era nada em comparação com a vergonha que, na sua opinião, eu iria infligir ao seu nome com esse ato de suicídio até traduzi o soneto vinte e dois de Shakespeare:

XXII

O meu espelho não me envelhecer face,
Se juventude andarem mãos dadas;
Mas quando tempo o marcou também,
Saberei que o tempo já me apanhou.

E por toda a beleza que viste apenas,
É o vestuário do meu coração: apenas,
Se ele viveu em ti como tu vives,
Porque deveria ser mais velho tu.

É por isso que estou a apelar ti,
Cuidar de ti, amor, quão eu cuido de ti,
Teu doce coração que eu, no meu peito,

Lido com os males como uma criança,
Deu-me o seu coração: se o reclamar,
Que acabas a minha e ainda te gabas.

Mais um indício da sua contenção inteiramente errada é o fato de que Leitor-Crítico possa crer que eu, o inerme, o indeciso, o conjeturado, me decida de uma pancada por um suicídio. Uma vez fascinado talvez pelo suicídio de Jean Luc Godard, lembrei-me de um poema de Saffo, ora, isso não adveio — o que é intenso não comporta avaliação — mas talvez tenha advindo algo pior. Aqui, aliás, peço-lhe encarecidamente que não se olvide de que nem de longe creio numa culpa da sua parte Leitor-Crítico que difundiu sobre mim como tinha de difundir, só que precisa deixar de considerar como uma perversidade característico da minha parte o fato de eu ter cedido a desta influência:

Uns dizem exército de cavaleiros, outros,
falemos soldados a pé, outros ainda dizem uma frota,
Sendo melhor da terra escura.
Digo que é o que se ama.

Todos podem compreender isto – considerar,
que Helena, sobrepujando de longe a beleza,
dos mortais, deixados para trás,
Do melhor de todos

Para velejar para Tróia. Ela lembrou-se que
nem filha nem pais queridos,
Como [Afrodite] a levou para longe

Prefiro ver o seu adorável passo,
E o brilho radiante do seu rosto,
que todas as carruagens de guerra em Lydia,
De soldados que lutam em armas.

Impossível ... de acontecer
. . humano, mas para rezar por uma parte
. . e para mim também.

Ouso falar que em toda a sua vida não incidiu nada que tivesse ostentado uma tal acepção para Leitor-crítico como, para mim, as provas de suicídio. Não quero falar com isso que você não tenha vivido nada tão extraordinário; pelo oposto, sua vida foi muito mais rica, cheia de apreensões e densa do que a minha, mas justamente por isso não lhe incidiu nada dessa natureza. É como se alguma pessoa encerrasse de elevar-se cinco degraus de uma opinião e uma segunda pessoa apenas um dos degraus, mas que, pelo menos, é tão superior quanto aqueles juntos; o primeiro vai pisar não só os seis degraus, mas também centenas e quilíades que dos outros objeção , terá desobediente uma vida extensa e muito cansativa, porém nem um dos degraus que ascendeu terá sido admirável como, para o segundo, aquele degrau inusitado, primeiro, alto, impraticável de montanha com as seivas todas de que prepara, e que não só não pode elevar-se como também não acontecer por cima dos fatos do Leitor-crítico, que desta vez crítica à tradução de um soneto de Paul Verlaine, que eu traduzi sendo que eu cito a seguir:

Dedico-vos estes versos por beata,
Dos vossos olhos, onde um sonho ri,
Não quero que rejeite a sua alma boa,
Estes versos se erguem angústia fatal.

Infeliz! Marasmo odioso mantém,
Não dá moedas e vai, ciumenta, louca,
Incluindo mesmo que alcateia de lobos,
Pendurar meu destino, ensopado em sangue.

Sofro e sofro de uma forma tão horrível,
Inicial lamento do homem Adão,
Mas écloga mansa, com meu checar.

Pelo contrário, ambos os suicídios, teriam se tornado suicídios. orientados pela razão, na medida em que toda a força do meu entendimento foi dia e noite agregada nesse plano, a primeira vez durante anos, a segunda talvez durante um certo tempo qual expansão da filosofia de Camus. 

ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

sábado, outubro 22, 2022

DESEJOS - Paul Verlaine - TRAD. ERIC PONTY

Ah! As orastes! As de amantes primeiras!
Pêlos dourados, olhos azuis, carne em flor;
Então, dentre o cheiro de corpos jovens,
Carícias espontâneas e meditativas.

Todos os dias felizes já se foram há muito,
Duas dessas canções! Face à primavera,
E dores fugiram dos Invernos sombrios,
Meu nojo, meu emburramento, minha miséria!

Por isso, dou por mim cá, ermo e sombrio,
Desesperado e triste, mais frio que homem velho,
Que um órfão pobre sem a sua irmã mais velha.

A mulher dos amores tão quentes e fofos,
Morena, pensativa, doce e nunca assombrada,
Por vezes nos beija, quão uma criança, na testa!
TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

Gaspara Stampa – Rime - XI - Trad. Eric Ponty


Árvore feliz, impetuosa, límpida,
Onde dois ramos nascidos no mundo,
Que sobem, e que já estão tão altos,
Raramente surgiram doutros ramos:

Ramos que vão pra o grande Scipi a paro,
Se outros fossem cada vez mais louvados,
(Os meus olhos de sorte sabem disso,
Que felicidade num deles eu olhei-o),

Para si, tronco, ramos, sempre o céu,
Orvalho de chuva, que não os ofenda,
Por calor estação adversa, nem geada.

Folhagem e sombra abrem-se, espalham-se,
Tão verde para tudo; de honrado zelo,
Odor, flores, frutas toda Itália prestar.
 Rime - XI - Trad. Eric Ponty
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY


sexta-feira, outubro 21, 2022

QUINTO POEMA - POETA SAFO - TRAD. ERIC PONTY


Ó Divina Filha do mar, de Nereus, deixai
Que meu irmão retorne aqui intacto
E deixai que o seu coração anseie
Ser competido.

E que rompa todos os erros do passado,
E assim tornar-se jovialidade para amigos,
Duma tristeza para inimigos - podes
Que nunca ninguém nos enfadar-se

E que ele deseje dar à sua irmã
Mais honra; da tristeza cruel,
. . da angústia do passado

. . Ouvir [guizo da] semente de mexoeira
 ... Que as pessoas acusam,
Nunca. ... Mais uma vez nada
Durante muito tempo

E ... se distinguir...
. . . Afrodite venerada, vós
 . . velar [ele] do mal...
SAFO - TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

SEGUNDO POEMA - POETA SAFO - TRAD. ERIC PONTY



Vem até mim de Krete para este Templo Sagrado,
cá para o seu doce bosque de maçãs,
nos altares a fumarem com incensos.

A água fria ondula por meio de ramos das maçãs,
Lugar todo sombreado de rosas,
das folhas murmuradas
Do qual o sono agreste profundo desce.

Onde cavalos pastam, prado jaz florescer
flores de primavera, movem nos ventos,
respirarem tão suave ...

Aqui, Afrodite, logo irá reunir-se ...
Se deitar em copos dourados de néctar
admirável mesclado
com tais alegrias.
SAFO - TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

PRIMEIRO POEMA - POETA SAFO - TRAD. ERIC PONTY

 


No trono de muitos matizes, Afrodite Imortal,
Filha de Zeus, tecendo artimanhas: peço-vos,
Não quebreis do meu espírito, ó Rainha,
Com dor ou tristeza.

Mas venha - se alguma vez antes de longe,
Ouviste a minha voz e escutaste,
E deixando a do seu pai,
Casa Dourada que você regressou.

A sua carruagem jungida com lindos pardais
Atraindo-o veloz sobre a terra escura
Numa nuvem rodopiante de asas debaixo
Do céu pelo meio do ar

de repente aqui. Abençoada, com um sorriso
no seu rosto imortal, pergunta
do que voltei a sofrer
e porque é que volto a juntar

E o que no meu coração selvagem eu mais desejo
Calharia: "Uma vez mais quem devo
convencer a regressar para o seu amor?
Safo, quem quis te enganar?

Se agora ela foge, em breve acossará.
Se rejeitar presentes, então ela lhe dará.
Se não amar, em breve vai amar-te
Mesmo contra a sua vontade.

SAFO - TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

Ao Leitor - Charles Baudelaire - Spleen et idéal - Trad. Eric Ponty


A tolice, o erro, o pecado, a sovinice,
Ocupando nossos espíritos e corpos,
Que nos alimentam nossos amáveis remorsos,
Quais mendigos nutrem seus parasitas.

Pecados são teimosos arrependimentos, 
Nós fazer pagar muita nossa confissão 
Nossas voltas alegres lodosos caminhos
Crentes vis choros lavar todas nossas nódoas. 

Sobre orelha do mal do Satã Trismegisto, 
Que ilude longamente nossa alma encantada, 
E o rico metal tinir de nossa vontade 
É tudo vaporiza por sábio tão químico. 

Este diabo que tem filhos que nos agitam! 
Aos objetos repugnantes nós encontramos 
Cada dia versa inferno nossos decaídos passos 
São horrores defeitos das trevas que fedem. 

Como um deboche pobre sexual comido, 
A teta martirizada antiga meretriz, 
Nossas fugas passagens prazeres clandestinos 
Nos incitarmos bem fortes qual velha laranja. 

Apertando formigar como milhão vermes, 
Em nosso cérebro bródio um povo demónios, 
Quando nós respiramos Morte em nossos pulmões, 
Desce rio invisível com surdas queixas. 

Se violência, veneno, punhal, incêndio, 
Não faz passa borda de agradáveis desenhos, 
Nas telas banais lastimáveis destinos, 
Nossa alma, hélas não está passar suficiente ousada.

Mas dentre meio dos chacais, panteras, os linces, 
Macacos, escorpiões, abutres, serpentes, 
Monstros estridentes urrar, rosnar, rastejantes 
Em mendicidades infames de nossos vícios. 

Ele não está mais feio, mais perverso, mais imundo, 
Ainda nem empurre grandes gestos nem grandes gritos, 
Ele tenha-o de boa vontade da terra um caco 
E em bocejo tão tíbio engolindo o mundo. 

Este é tédio! _ Olhar carrega choro involuntário, 
Sonhas cadafalso fumegante seu assovio 
Tu conheces leitor, este mostro delicado 
_. Hipócrita leitor – meu semelhante – meu irmão! 

Trad. Eric Ponty

POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

quinta-feira, outubro 20, 2022

SONETO SEIS - FRANTESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

Se o meu desejo é mal orientado,
Pra seguir quem em voo é recusado,
E que dos cordões do Amor Luz e solto,
Voar antes minha corrida lenta.

Que quanto mais recordar do envio,
Na estrada segura, menos me ouve,
Nem vale pena estimulá-lo ou dar-lhe,
Pois o Amor, pela sua natura, torna;

Depós, quando força reúne a si própria,
Sendo contínuo em senhoria dele,
Que me faz transportar até à morte;

Só para vir loureiro onde é recolhido,
Fruta não madura, que as feridas doutros,
Do sabor afligem mais do que conforta.

 FRANTESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY


ERIC PONTY POR ERIC PONTY - ADVERTÊNCIA SOBRE AUTORIA DESTE BLOG

10. O Nome do Senhor é uma torre fortíssima: a ele mesmo se acolhe o justo, e será exaltado. - Livro dos Provérbios

 

POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

quarta-feira, outubro 19, 2022

SONETO CINCO - FRANTESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY


Quando movo meus suspiros chamo,
E nome que o Amor me escreveu no peito,
LAU-dando começa ouvir falar frente,
Som do seu primeiro acento doce;

O seu status RE-al que então se ecoa,
Duplica meu valor pra uma empresa alta;
Ma “TA-ci,” grita multa, "fazer a honra,
É doutros seres humanos que é de ti".

Assim LAU-dare RE-verire ensina,
Própria voz, embora outros o chamem,
Ou de toda reverência e honra digna;

Se não fosse Apollo que desdenhada,
Falando do seu ramo sempre verde,
Lingua mor-TA-l presunçosa vegna.

FRANTESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY
GILBERTO MENDONÇA TELLES E ERIC PONTY


IRMA VEP DO REMAKE DO REMAKE - ERIC PONTY

Ainda abalado com o suicídio Jean Luc Godard e o descaminho do cinema dito de elite, encontrei por acaso, na internet Irma Vep da HBO MAX que faz o espectador adentrar nesse mundo quase surreal. Quem me deu a ideia foi Alice Penna, e, e fazendo jus a ela adicionei sua imagem no fim do artigo.

A narrativa apresenta uma visão bem interessante dos bastidores, assim como discute qual a função do entretenimento e o cinema dito cult nos dias atuais, em que produções antigas são repaginadas de modo apressado.

A série trabalha muito bem por pretexto de Alicia Vikander. Ela aciona com primor a carteira de uma atriz experimentada por filmes comerciais e que tenta variar essa visão fazendo algo tido como cult. Claro, a contextura acercar-se dos problemas na vida pessoal da personagem dela, sobretudo os de licença amorosa, para sobrepor uma camada extra de dramalhão.

E ficar ambíguo com Irma Vep, em afinidade ao que está sendo gravado ali, faz parte da charada. Porque nem mesmo os personagens sabem direito onde se enfiaram.

A minissérie fazer jus a ser vista por causa dessa marcha insana, do encanto de Alicia Vikander e de todo o universo cinematográfico metalinguístico armado.

Com o encanto da hipnotizante Alicia Vikander, atriz sueca vencedora de Oscar, Irma Vep convida o espectador para uma viagem insensato no mundo do cinema (ou seria TV?). A confusão oferecida pela narrativa é só um dos ares curiosos e charmosos da minissérie, que propõe um olhar crítico sobre os bastidores da indústria do entretenimento.

Alicia interpreta Mira Harberg, uma celebridade americana da mais alta prateleira em Hollywood, famosa por fazer filmes de heróis tipo Marvel. Desiludida, ela decide dar um breque nesses trabalhos comercializais e acolhe ser protagonista de um projeto experimental, gravado em Paris (França).

Mira topa liderar o remake do filme (real) Les Vampires, um marco do cinema mudo francês da década de 1910. Um dos baratos de Irma Vep é classificar esse projeto. Para o diretor René Vidal (Vincent Macaigne), cotado apesar de ser voltário e difícil, trata-se de um filme cult extenso, pois ele jamais iria se render ao delicado produto que são as séries de TV.

Na verdade, o que René está gravando é mesmo uma série de TV, queira ele ou não. Irma Vep entra naquela bate-papo travada em Hollywood quando a matéria são minisséries, ou “um filme de oito horas dividido em oito partes”, como pronunciam por aí. 

Para acrescer a dose esdrúxula da minissérie, Irma Vep foi criada por Olivier Assayas, cineasta francês que por sua vez fez um filme de fato chamado Irma Vep, lançado em 1996. A atração da HBO acaba sendo uma versão ajustada desse longa moderno, que o remake do remake… produto de uma indústria que namora fazer remakes.
Les.Vampires.1915.Louis.Feuillade

Alice Penna para Elton Avila

POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

Sacerdócio da Poesia – O caso da tradução do soneto de duas poetisas - Eric Ponty

Meu prezado Leitor-Crítico, 

Eis que o meu material era tão alheio um ao outro, quando me censurar por falta de atenção intelectual, para mim, sempre foi misterioso esta total carência de impressionabilidade em relação à consternação e à embaraço que poderia me cominar com palavras e juízos: era como se Leitor-crítico não tivesse a menor noção de sua força crítica sobre qual material continham sua isotopia, por exemplo, este poema de Elizabeth Barrett dos Sonetos da Portuguesa:


XLIII

Quão é te amo? Deixa contar passagens,
Amo-te à finura, largura e altura,
Minha alma pode alcançar-te, ao sentir-se,
Para os fins do Ser e Graça ideal.

Amo-te na altura do dia-a-dia,
Precisão mais silente, luz sol das velas,
Amo-te livre, enquanto homens Direito,
Amo-te pura, eles se abrem Louvor.

Amo-te com a paixão posta em uso,
Nas velhas agonias, com fé da infância,
Amo-te com amor pareci perder.

Meus santos idos, - amo-te sopro,
Risos, prantos, toda vida! - e, Deus, quis.
Só te amarei melhor depois da morte.

Mas o estorvo mais importante a tradução é a convicção já inextirpável de que tudo o que é necessário ao sustento da forma ou mesmo à sua direção é aquilo que reconheci em Leitor-Crítico — na veridicidade tudo junto, o bom e o mau, tal como isso está organicamente uniformizado em Leitor-Crítico, ou seja, força e desdém pelo outro, saúde e uma certa falta de medida, dom oratório e escassez, crédito e descontentamento com todos, ascensão diante do mundo e tirania, noção dos homens e suposição em relação à maioria; depois, bens literários sem qualquer desvantagem, como produtividade, constância, presença de espírito, esperança, insolência, ainda mais cuja minha isotopia se deu da forma explicitada como neste soneto isotopicamente neste de Gaspara Stampa:



II

Ele foi próximo ao do que o Criador, que
Nem na tua altura ao tolo retardou,
Em forma humana vem se demonstrar,
Do ventre virginal saindo pela frente.

Quando digno, de meu ilustre senhor,
Tantos prantos esparsos ele pode,
Achar num lugar maior no meu ninho,
Fazer ninho abrigo da minha essência.

Onde eu sou rara e de alta ventura,
Acolhi prazer dormir só mais tarde,
Tenho fé digna do eterno cuidado.

Até cá axiomas, olhares retornam,
Para ele, símbolos de cada medida
Claro e alegre, só quando gira e guarda.

Tratava-se do fato de que Leitor-Crítico carecia causar essas desilusões ao Poeta, sempre e por começo, graças ao seu ser conflitante, em termos literários, e, mais ainda: de que o espírito de contradição se fortalecia incessantemente pela economia de pesado, de tal forma que no fim se aperfeiçoava se conferindo até como jeito, mesmo que às vezes Leitor-Crítico tivesse opinião igual ao meu, e por fim, já que essas desenganos não eram as desilusões da vida literária, elas desabavam no cerne da questão, pois isso dizia respeito à sua pessoa, de Leitor-crítico de todos os fatos. O sustento, registro, a fiúza, a alacridade em torno disto ou daquilo não se defendiam até o fim quando Leitor-Crítico era contra ou quando a sua aversão podia ser simplesmente presumida; e ele podia sem dúvida ser afetada em praticamente tudo o que eu fazia em termos de literatura.

ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

terça-feira, outubro 18, 2022

SONETOS DE SHAKESPEARE - FAÇA VOCÊ MESMO - ERIC PONTY

 


Xll

Se olhar relógio e ver que o tempo voa,
Deixar dia se demude, uma noite turva;
Se eu vir a violeta murchar toa,
Há pêlos cinzentos soíam ser loiros;

Se em árvores talhadia que oferecia,
Sua sombra pra os bandos não há folhagem,
Que trigo, em fardos, já colhidos, cerdas,
Carroças com suas barbas de Outono;

Depois questiono pra vossa beleza,
Si também será a pastagem do tempo,
Desta renúncia que bela e graciosa.

E padecem enquanto crescem novos,
Tempo corta tudo: quando se gera,
Ter-lhe-á feito frente, mesmo ele leve.

TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

Sacerdócio da Poesia – O caso da tradução do soneto de Paul Valéry – Eric Ponty

Meu prezado,

Mas não assentei essa questão, e sim a vivi desde meti a fazer métrica. De início certamente testei a mim mesmo diante de fazer métrica, mas de qualquer ninharia; e diante de qualquer ninharia Leitor-crítico me convencia, pelo exemplo, e, pela sua instrução — tal como tentei descrevê-la —, da minha inaptidão; e o que era válido em qualquer ninharia e lhe dava razão tinha, de ser claro, de ser monstruosamente válido diante da coisa mais formidável, ou seja: diante da tradução. Até os meus experimentos de tradução, cresci mais ou menos como um homem de interesses que de fato vivi o dia a dia com inquietações e maus presságios, mas sem um documento carece. Tudo é registrado, mas nunca submetido a uma análise. Chega porém o momento em que o balanço é forçoso no esforço, ou seja: a tentativa de tradução como este poema da Abelha de Paul Valéry dedicado a Francis de Miomandre:

O quê, e tão fino, e tão mortal,
Deixe levar, abelha loira,
Não tenho, meu cesto de compras,
Apenas um sonho de renda.

Colhi ao peito a bela cabaça,
Em quem o Amor morrer ou desce,
Que um pouco de mim é corado,
Viena tem carne esfera e rebelde!

Estou a carecer mui um tormento,
Um mal vívido e bem final,
Melhor um tormento dormir!

Então, meu fim sem iluminar,
Por certo ínfimo alerta douro,
Sem quem o Amor morra ou durma!

Mas o obstáculo mais importante a tradução é a convicção já inextirpável de que tudo o que é necessário ao sustento da forma ou mesmo à sua direção é aquilo que reconheci em Leitor-Crítico — na verdade tudo junto, o bom e o mau, tal como isso está organicamente uniformizado em Leitor-Crítico, ou seja, força e desdém pelo outro, saúde e uma certa falta de medida, dom oratório e insuficiência, crédito e desagrado com todos, elevação diante do mundo e tirania, noção dos homens e suspeita em relação à maioria; depois, bens literários sem qualquer desvantagem, como produtividade, firmeza, presença de espírito, esperança, audácia.

Que esse efeito apesar disso lhe seja absorvente, que Leitor-Crítico se desista inconscientemente a reconhecer como produto de Leitor-crítico, se deve justamente ao fato de que em sua mão e o meu material eram e são tão alheios um ao outro.
Eis que o meu material era tão alheio um ao outro, quando me censurar por falta de atenção intelectual, para mim, sempre foi misterioso esta total carência de impressionabilidade em relação à consternação e à embaraço que poderia me cominar com palavras e juízos: era como se Leitor-crítico não tivesse a menor noção de sua força crítica sobre qual material continham sua isotopia.

É bem na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de previamente impossível falar com tranquilidade sobre uma coisa com a qual não carece ou que espontaneamente não parta de Leitor-Crítico, Leitor-crítico: seu caráter dominador de Leitor-crítico não o consente ao menos que eu dê um exemplo, do meu fazer literário como este belo soneto de Paul Valéry cuja minha isotopia se deu da forma explicitada anteriormente.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

segunda-feira, outubro 17, 2022

A ABELHA - PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY

 


Λ Francis de Miomandre


O quê, e tão fino, e tão mortal,
Deixe levar, abelha loira,
Não tenho, meu cesto de compras,
Apenas um sonho de renda.

Colhi ao peito a bela cabaça,
Em quem o Amor morrer ou desce,
Que um pouco de mim é corado,
Viena tem carne esfera e rebelde!

Estou a carecer mui um tormento,
Um mal vívido e bem final,
Melhor um tormento dormir!

Então, meu fim sem iluminar,
Por certo ínfimo alerta douro,
Sem quem o Amor morra ou durma!

PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY

POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

Sacerdócio da Poesia – Soneto Quarto – Petrarca - Oficina da Isotopia - Eric Ponty

Meu prezado,

Poderei sempre contrapor isso quando me censurar por falta de atenção intelectual. Para mim, sempre foi inexplicável sua total carência de impressionabilidade em relação à angústia e ao embaraço que podia me cominar com palavras e juízos: era como se você, Leitor-crítico, não tivesse a menor conhecimento da sua força. Também eu com certeza muitas vezes o magoei com a maneira do fazer literário, mas a seguir sempre o distingui, isso me fazer sofrer, mas eu não podia me conter, refrear a palavra, já me arrependia enquanto a fazia. Mas você Leitor-crítico desferia sem mais as suas, não se apiedar-se de ninguém, nem durante nem depois, contra você Leitor-crítico estava-se totalmente sem defesa crítica, que, permite ao menos que eu dê um exemplo, do meu fazer literário como este quarto soneto de Petrarca cuja minha isotopia se deu desta maneira:

Que’ ch’ infinita providenzia et arte,
mostrò nel suo mirabil magistero,
che criò questo et quell’altro emispero,
et mansueto più Giove che Marte,

vegnendo in terra a ’Iluminar le carte,
ch’ avean molt’anni già celato il vero,
tolse Giovanni da la rete et Piero,
et nel regno del ciel fece lor parte;

di sé nascendo a Roma non fe’ grazia,
a Giudea sì, tanto sovr’ ogni stato,
umiltate esaltar sempre gli piacque.

Ed or di picciol borgo un sol n’à dato,
tal che natura o ’l luogo si ringrazia,
onde sì bella donna al mondo nacque.


É bem na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de antecipadamente impraticável falar com calma sobre uma coisa com a qual não carece ou que facilmente não parta de você, Leitor-crítico: seu caráter dominador de Leitor-crítico não o permite ao menos que eu dê um exemplo, do meu fazer literário como este quarto soneto de Petrarca cuja minha isotopia se deu deste estilo:

O que a infinita providência e arte,
Demostrada admirável magistério,
Que aleijaram este àquele hemisfério,
E mais domado Júpiter que Marte.

Vindo à terra a 'Iluminar le carte,
Já tinha oculta a verdade há mui anos,
Levou Giovanni da rede e Pedro,
E no Reino dos Céus fizeram parte;

De ter nascido em Roma, não perdoou,
Na Judeia, mui acima de cada estado,
Da humildade sempre o satisfez.

E cá duma pequena aldeia, um sol deu,
De tal forma que a natura ou lugar,
Donde nasceu tão bela mulher mundo.

Em suma, que esse efeito apesar disso lhe seja absorvente, que você se desista inconscientemente a reconhecer como produto de Leitor-crítico, se deve justamente ao fato de que a sua mão e o meu material eram e são tão estranhos um ao outro.

Eis que o meu material era tão estranho um ao outro, quando me censurar por falta de atenção intelectual, para mim, sempre foi inexplicável esta total carência de impressionabilidade em relação à consternação e à embaraço que poderia me cominar com palavras e juízos: era como se Leitor-crítico não tivesse a menor conhecimento de sua força crítica sobre qual material eram e são tão estranhos um ao outro.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY



domingo, outubro 16, 2022

SACERDOCIO DA POESIA - ERIC PONTY

Meu prezado,
Me perguntou de modo recente por que eu afirmo ser Poeta por receio de você. Como de maneira, não lhe soube responder, em parte precisamente por causa do receio que tenho de você, em parte porque na motivação desse receio intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa postagem. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o receio e suas implicações me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entrosamento com a questão de poesia.

Para você a questão sempre se ofereceu em termos muito simples, pelo menos avaliando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente, na de muitos outros. Para você as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhe duro na vida acadêmica com toda vontade, sacrifique tudo pelos títulos, sobretudo para ser reconhecidamente, e graças a isso eu vivi “alheio carga acadêmica”, desfrutei de inteira liberdade para estudar o que queria, não precisei ter qualquer apreensão com o meu sustento e, portanto, nenhuma apreensão; em troca você não exigiu gratidão pelos títulos conquistados.

E de fato você me recrimina por isso como se fosse desculpar minha, como se por acaso eu tivesse podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outro endereço, ao passo que você não tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido brilhante demais para mim, que não ofereço importância no exercício poético.

A isso retribuía, ademais, sua superioridade espiritual. Você havia subido tão alto nas graduações acadêmicas, contando apenas com a próprias perspectivas, que tinha confiança infinda na sua opinião particular. Enquanto jovem postulante, isso não foi para mim tão ofuscante como mais tarde para um postulante a poeta. Da sua poltrona da sua graduação acadêmica você regia a realidade acadêmica. Seu conceito era certo, todas as outras, incoerentes, insensatas, tão grande era seu crédito que você não carecia de modo algum ser consequente, sem, no entanto, deixar de ter motivo. Podia também ser o caso de você não ter conceito alguma sobre um argumento e, logo, os conceitos possíveis atinentes a ele careciam ser sem advertência erradas. Você podia, por exemplo, censurar os parnasianos, depois os simbolistas, depois os da geração de 45, na verdade não sob esta ou aquela aparência, mas sob todos, e no final não carecia mais ninguém além de você. Você admitia para mim o que há de incompreensível em todos os leitores críticos, cujo direito está fundado na sua graduação, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me semelhava.

Esse seu modo habitual de ver as coisas eu só pondero justo na medida em que também creio que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa por ter nascido assim. Se pudesse levá-lo a distinguir isso, então seria aceitável, não para um novo projeto — para tanto nós dois estamos velhos demais — mas sem equívoco duma espécie de paz; não a renúncia, mas com certeza um amortecimento das suas eternas censuras de minhas assim chamadas traduções.

Poderei sempre contrapor isso quando me censurar por falta de atenção intelectual. Para mim, sempre foi inexplicável sua total carência de impressionabilidade em relação à angústia e à embaraço que podia me cominar com palavras e juízos: era como se você não tivesse a menor conhecimento da sua força. Também eu com certeza muitas vezes o magoei com a maneira do fazer literário, mas a seguir sempre o distingui, isso me fazer sofrer, mas eu não podia me conter, refrear a palavra, já me arrependia enquanto a dizia. Mas você desferia sem mais as suas, não se apiedar-se de ninguém, nem durante nem depois, contra você estava-se totalmente sem defesa crítica.

Nem era disso que se tratava. Pelo contrário, tratava-se do fato de que você precisava causar essas desilusões ao Poeta, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório, em termos literários, e, mais ainda: de que o espírito de impossibilidade se fortalecia incessantemente pelo acúmulo de pesado, de tal forma que no fim se aperfeiçoava se conferindo até como estilo, mesmo que às vezes você tivesse conceito igual ao meu, e por fim, já que essas desilusões não eram as desilusões da vida literária, elas caíam no cerne da questão, pois isso dizia deferência à sua pessoa, de Leitor-crítico de todos os fatos. O alento, a assentamento, a fidúcia, a alacridade em torno disto ou daquilo não se amparavam até o fim quando você era contra ou quando a seu capricho podia ser simplesmente presumido; e ele podia sem dúvida ser afetada em praticamente tudo o que eu fazia em termos de literatura.

A isso retribuía, ademais, sua superioridade espiritual. Você havia subido tão alto nas graduações acadêmicas, contando apenas com a próprias perspectivas, que tinha confiança infinda na sua opinião particular. Enquanto jovem postulante, isso não foi para mim tão ofuscante como mais tarde para um postulante a poeta. Da sua poltrona da sua graduação acadêmica você regia a realidade acadêmica. Seu conceito era certo, todas as outras, incoerentes, insensatas, tão grande era seu crédito que você não carecia de modo algum ser consequente, sem, no entanto, deixar de ter motivo. Podia também ser o caso de você não ter conceito alguma sobre um argumento e, logo, os conceitos possíveis atinentes a ele careciam ser sem advertência erradas. Você podia, por exemplo, censurar os parnasianos, depois os simbolistas, depois os da geração de 45, na verdade não sob esta ou aquela aparência, mas sob todos, e no final não carecia mais ninguém além de você. Você admitia para mim o que há de incompreensível em todos os leitores críticos, cujo direito está fundado na sua graduação, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me semelhava.

Nem era disso que se versava. Pelo contrário, abordar do fato de que você carecia causar essas decepções ao poeta, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório, mais ainda: de que o espírito de contrassenso se fortalecia incessantemente pela acúmulo de material, de tal forma que no fim ele aperfeiçoava se impondo até  mais como costume, mesmo que às vezes você tivesse opinião igual à minha, e enfim, já que essas desenganos não eram as desilusões da vida comum, elas incidiam no cerne, pois isso dizia deferência à sua pessoa de leitor crítico, grau de todas as coisas. O alento, a consignação, a confiança, a alacridade em torno disto ou daquilo não se sustentavam até o fim quando você era contra ou quando a sua aversão podia ser meramente afetada; e ela podia sem equívoco ser afetada em praticamente tudo o que eu poderia vir a escrever.

É bem na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de antecipadamente impraticável falar com calma sobre uma coisa com a qual não carece ou que facilmente não parta de você: seu caráter dominador de Leitor-crítico não o permite.

Em suma, que esse efeito apesar disso lhe seja absorvente, que você se desista inconscientemente a reconhecer como produto de Leitor-crítico, se deve precisamente ao fato de que a sua mão e o meu material eram tão estranhos um ao outro.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

sábado, outubro 15, 2022

AZUL BABEL - ED. LARANJA ORIGINAL - RODRIGO PETRONIO - SÂO PAULO

 

ERIC PONTY E A VOZ DA TRADUÇÃO

O presente trabalho de seleção e tradução de poetas de línguas e nacionalidades diversas, levado a cabo pelo poeta e tradutor Eric Ponty, amplia o horizonte da poesia brasileira e da poesia de língua portuguesa em diversos sentidos. Em primeiro lugar, embora alguns dos poetas traduzidos sejam conhecidos do público, parte destes poemas nunca fora traduzida ao português ou encontra-se há muito fora de circulação. 

É o caso de Paul Èluard, Petrarca, Shakespeare, John Keats, Ezra Pound, Soror Juana Inés de la Cruz, George Seferis e Paul Verlaine. Os poemas selecionados por Ponty se somam ao repertório de traduções destes poetas realizadas por Onestaldo de Pennafort, Péricles Eugenio da Silva Ramos, Jamil Almansur Haddad, Guilherme de Almeida, Josely Vianna Baptista, José Paulo Paes, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Dirceu Villa, entre outros poetas-tradutores, antigos e atuais. Desse modo, este trabalho de Ponty contribui não apenas para a formação de um cânone nacional da poesia de língua portuguesa, mas para a formação de um cânone transnacional de poesia em língua portuguesa. 

POETA E CRÍTICO LAUREADO RODRIGO PETRONIO