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terça-feira, outubro 18, 2022

Sacerdócio da Poesia – O caso da tradução do soneto de Paul Valéry – Eric Ponty

Meu prezado,

Mas não assentei essa questão, e sim a vivi desde meti a fazer métrica. De início certamente testei a mim mesmo diante de fazer métrica, mas de qualquer ninharia; e diante de qualquer ninharia Leitor-crítico me convencia, pelo exemplo, e, pela sua instrução — tal como tentei descrevê-la —, da minha inaptidão; e o que era válido em qualquer ninharia e lhe dava razão tinha, de ser claro, de ser monstruosamente válido diante da coisa mais formidável, ou seja: diante da tradução. Até os meus experimentos de tradução, cresci mais ou menos como um homem de interesses que de fato vivi o dia a dia com inquietações e maus presságios, mas sem um documento carece. Tudo é registrado, mas nunca submetido a uma análise. Chega porém o momento em que o balanço é forçoso no esforço, ou seja: a tentativa de tradução como este poema da Abelha de Paul Valéry dedicado a Francis de Miomandre:

O quê, e tão fino, e tão mortal,
Deixe levar, abelha loira,
Não tenho, meu cesto de compras,
Apenas um sonho de renda.

Colhi ao peito a bela cabaça,
Em quem o Amor morrer ou desce,
Que um pouco de mim é corado,
Viena tem carne esfera e rebelde!

Estou a carecer mui um tormento,
Um mal vívido e bem final,
Melhor um tormento dormir!

Então, meu fim sem iluminar,
Por certo ínfimo alerta douro,
Sem quem o Amor morra ou durma!

Mas o obstáculo mais importante a tradução é a convicção já inextirpável de que tudo o que é necessário ao sustento da forma ou mesmo à sua direção é aquilo que reconheci em Leitor-Crítico — na verdade tudo junto, o bom e o mau, tal como isso está organicamente uniformizado em Leitor-Crítico, ou seja, força e desdém pelo outro, saúde e uma certa falta de medida, dom oratório e insuficiência, crédito e desagrado com todos, elevação diante do mundo e tirania, noção dos homens e suspeita em relação à maioria; depois, bens literários sem qualquer desvantagem, como produtividade, firmeza, presença de espírito, esperança, audácia.

Que esse efeito apesar disso lhe seja absorvente, que Leitor-Crítico se desista inconscientemente a reconhecer como produto de Leitor-crítico, se deve justamente ao fato de que em sua mão e o meu material eram e são tão alheios um ao outro.
Eis que o meu material era tão alheio um ao outro, quando me censurar por falta de atenção intelectual, para mim, sempre foi misterioso esta total carência de impressionabilidade em relação à consternação e à embaraço que poderia me cominar com palavras e juízos: era como se Leitor-crítico não tivesse a menor noção de sua força crítica sobre qual material continham sua isotopia.

É bem na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de previamente impossível falar com tranquilidade sobre uma coisa com a qual não carece ou que espontaneamente não parta de Leitor-Crítico, Leitor-crítico: seu caráter dominador de Leitor-crítico não o consente ao menos que eu dê um exemplo, do meu fazer literário como este belo soneto de Paul Valéry cuja minha isotopia se deu da forma explicitada anteriormente.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

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