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sexta-feira, abril 03, 2026

10 ESTUDOS RENANCETISTAS - LUÍS DE CAMÕES - ERIC PONTY

 

 SONETOS DE AUTORIA CONTROVERSA
 
Eu cantarei louvor tão docemente,
Por hunas gentes em si tão concertados,
Senhora accidentes namorados
Faça sentir ao jeito que não sente.

Então que Amor a todos avivente,
Perspectivas segredos delicados,
Lentas iras, suspiros magoados,
Fortaleza ousadia, e pena, ausente.

Porém, Senhora, do desprêzo honesto
De vossa fala branda e rigorosa,
Contentar-me-hei falando a menor parte.

Se eu para cantar de vosso gesto
Composição falta e milagrosa,
Tudo falta saber, engenho, e arte.

II

Só, que de meus suspiros vejo cheio;
vida, cansada já com meu tormento;
mágoa, que com mil lágrimas sustento;
Chama, que mais acendo no meu seio:

em luz estais em mim; e assi o creio,
sem esse ser o vosso tema intento,
pois, em flor onde falta o sofrimento,
o fado se sustém por vosso meio.

Ai imiga sortilégio! Vingativo
Alva! A que discursos por vós venho,
sem nunca vos deter com minha mágoa!

Se me quereis fartar, para que vivo?
E como lerdo, se contrários tenho
chama, Fortuna, Amor, ar, terra e água?

III

Daqui de longos fados, curto história
verão os que se portam de amadores;
reparo pode ter das suas dores
não apartar as sombras da memória.

Escrevi, não por flama nem por glória,
de que outras chamas são merecedores;
por demostrar triunfos, seus rigores,
a quem de mi disse tanta vitória.

Crecendo foi a pôr co tempo tanto
que em mármore me fez alheio de arte
falar do cego Amor que me venceu.

Se atento dei a voz, dei a alma ao pranto;
e, dando ao fardo à mão, está só parte
São minhas tristes penas escreveu.

IV

Bravas águas do Tejo que, passando
por estes verdes marmo que regais,
esculturas, e flores e animais,
pastores, cabras ides alegrando.

Porém (ah, doces águas!), não sei quando
vos tornarei achar; que mágoas tais,
vendo toda vos deixo, me causais
que de entornar já vou desconfiando.

Ordenou-lhe Destino, desejoso
de converter meus gestos em pesares,
partida que me vai passando tanto.

Saudoso de vós, fronte queixoso,
encherei de suspiros outros pares,
passarei outras águas com meu pranto.

V

Sombras de tantos dias malgastados,
fonte de tantas noites mal dormidas,
são, pois, de tantas lágrimas vertidas,
lentos suspiros vãos, vãmente dados;

Sendo não sois vós tão desenganados,
desejos, que de outrora esquecidas
quereis remediar largas feridas,
que Amor fez sem quem tédio, o Tempo, os Fados?

Então tivéreis já experiência
já sem-razões de Amor, a quem servistes,
tristeza fora em vós a resistência.

Mas, pois, por vosso mal, porém males vistes,
que d´eras não curou longa ausência,
que faz dele esperais, desejos tristes.

VI

Já desta sexta as águas aparecem
a meus olhos, não santas, antes alheios,
que, de outras diferentes fados cheios,
na sua longa vista inda mais crescem.

Da sexta que também forçadas descem,
segundo se detêm orações rodeios,
tristes por quantos lados, quantos meios
que minhas saudades me entristecem.

Lide, de tantos santos salteada,
reza a põe em termos que duvida
de conseguir o só desta jornada;

Porém se dá de todo pôr perdida,
sendo que não vai da alma acompanhada,
deu se deixou ficar onde tem vida.

VII

Na margem de um Lenheiro, que fendia
com líquido cristal das margens prado,
Tão triste pastor Liso debruçado
sobre os bruços de um freixo assim dizia:

«Tão, Natércia cruel, quem te desvia
desse cuidado teu, no meu cuidado?
Se para hei de penar desenganado,
enganado de ti olhar que queria.

Que foi santa da fé que tu me deste?
Lenheiro puro amor que me mostraste?
Quem todo trocar pôde tão asinha?

Quando esses puros teus noutro puseste,
Tal qual te não lembrou que me juraste
por todo o azul, luz que eras só minha?»

VIII

Novos casos de dor, novos enganos,
nutridos em lisonjas conhecidas,
do ser promessas falsas e escondidas,
onde do sal se cumprem grandes danos:

Tal quais não tomais já por desenganos
tantos ais, tantas fúcsias já perdidas,
pois em minha fé não basta nem mil vidas
são tantos dias tristes, tantos anos?

Um novo peito de mister havia
com outros membros menos agravados
para tornar a ser o que eu não cria.

Sendo comigo, enganos, enganados;
e se o quiserdes ter, cuidai um dia
o que fala dos bem acutilados.

IX

Os meus pesares, venturosos dias
passaram tal qual raio, brevemente;
movem-se os fados mais pesadamente
porém das fugitivas alegrias.

De falsas pretensões, vãs fantasias,
que me podeis já fazer me contente?
Já de meu fado peito a chama ardente
do Tempo reduziu a cinzas frias.

Nelas aposto agora erros passados,
que outro furto não deu a mocidade,
pra quem vergonha e flor minha alma deve.

Então vou mais de toda a mais idade
desejos vãos, já choros, vãos cuidados,
zelo que leve tudo o Tempo leve.

X

Se tornar por teu rei, e juntamente
qual Cristo, a governar aquela parte
onde tem demonstrado um Numa, um Marte,
do famoso Luís, justo e valente.

Lenheiro espere ver de todo o Oriente,
logo se tão raros dões o Céu reparte,
render a tanto engenho, aviso e arte
mil almas, mil tributos novamente.

Dos que vivem no Gange, os que no Indo,
pra quem pouco valerão lança e escudo,
já render-se terão por bom partido.

Do Eufrates temerá, teu nome ouvindo;
se, para dele ver vencido tudo,
já viu do braço teu todo vencido.
ERIC PONTY

  
  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, abril 01, 2026

SONETOS - ERIC PONTY

 PARA ADAIR TIRADO - IN MEMORIAM

Amo o soneto porque é feitio antigo,
Para falar os doces sempre novas;
Porque antigo de não sei quantas trovas,
Um falar virginal alvo comigo.

O soneto é mais claro do que relvas,
Sim, perspectiva, eu nele apenas digo,
Inteiro é nobre em mim, feito que aprovas,
E é meu sereno á vida, e sendo meu ligo.

É alvo e leve, e tem sagrados de arte,
Uma leveza, enfim, tão cintilante,
Que, digo um dia lavrarei cantar-te.

Os teus diáfanos rútilos, dos versos,
Pus num soneto, e desde aquela cante,
Só sei compor-te, com destreza em versos.

II

Este soneto é todo teu, aclara,
Que ele traduziu sua humilde fúria,
Verso por estrofe estranha trajetória,
Desta musa afeição cintila e rara.

Leves, saudades, sanhas; nem notara,
Tanta fúria afinal na nossa hilária;
E este trecho, é grande dedicatória,
Onde a fala alma inteira se declara.

Abre esta relva, e encontraras senão
Teu coração de amor findo e falando,
Cantando e sorrindo o meu coração.

E se o falar mais claro a sós,
Sendo igual estivesses me olvidando,
Dizer de amor com tua própria foz!

III


Há tanto tempo que não aclara assim,
Num dia veste um céu escarcéu tão cinzento,
E ouço a chuva a ruir tal qual lamento,
Longe o rumor monótono sem fim.

Que entranha percepção de isolamento,
Nem atroz voz ouço ao longe de mim,
Só então ouço apenas lá por fora, o lento
A desfolhar as dores no jardim.

Ninguém diz meu redor, ninguém me fala;
E me largo a ficar com tédio imenso,
Desta sombria penumbra só desta ala.

Que inquietude tão oca há dentro em mim,
Não sei pra existo, não sei bem pra penso,
Há tanto tempo que não aclara assim!

 IV

Nada é ainda! A testa florescente alma,
N'esses teus ainda dos vazios ensaios,
Olha este crânio, que recebeu em flama
Do sol do fado então derradeiros raios!

Mas só tu, ao seu presente e ao já rachado
Imerso dando as costas, passa agora
Os dias que lhe faltam abismado
Temperanças dos tempos seus de outr'ora.

Ao passo, entanto, ele assim recebeu
Como um labor da sorte àquelas horas,
Convulsões do mundo não concebeu.

Linda é esta lida, tu verás, tão brusca,
Quando de longe nós podemos vê-la,
Que nos parece d´alma porque ofusca.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, março 30, 2026

SONETOS À ALLIE HAZE - ERIC PONTY

 

 Enquanto a Abastança estiolava, armada
Qualquer espera afável de alegria,
A lufa do anexim amoroso deu um anseio
De escrever prazeres e suas dores:

Mas Amor, aterrado em perspectiva 
que minha grafia lhe então saísse em cálculo 
que ele nunca evitou, emaranhar dor
sombria em meu gênio, nunca possa astúcia.

Ó vós, quem coação Amor podeis conter
A anseios tão várias! Ao lerdes sobre isso...
Preso em único livrinho, tão vários;

(Todos são certos, fatos sem defeito)
Aprendei que, conforme o amor que tendes,
Assim tereis aviso do meu verso.

II

Todos dóceis pousavam paz meio-dia;
Só Liso não sentia o brilho meio-dia;
Pois seu alívio do tormento amoroso
Residia a ninfa ele catava acalmar mal:

Fazia cada cume ao cerro tremesse:
Tristes queixas de sua dor lancinante;
Mas peito duro nunca à vista dó,
Cativo voluntário de outra vontade.

Cá, exausto andada sob sombra frondosa,
Nome a noção, bem fundo em tronco em faia,
Gravou as palavras que contavam disgra: —

Algo não aceito, nascido não sei onde,
Um mal que me mata sem se mostrar,
Vem porque não sei, dores não sei como.
 
 III

Enquanto a sorte quis que isso fosse dado,
De alguma espera grata de aleluia,
Lufada do pensamento amoroso 
Deitar papel aleluias, dor de escrever:

Mas Amor, terror com facultar  
meu Mando o arguisse pelo juízo, ele nunca 
rejeitou, Génio fundiu dores sombrias,
Por isso, nunca conto a vida em teu truque.

Ó vós, quem coação amor possais conter,
De outras Vontades! Vários! Quando leres
Que sobre eles juntos casos só livro.

Sejam todos certos, fatos sem falhas...
Saiba, na medida em que tem desse Amor,
Eis, a história por trás deste meu verso!
 
IV

Enquanto quis abastar-se fala sem
Em gestos vãos de algum contentamento,
O gesto delicado Pensamento
Me fez que seus efeitos escrevessem.

Porém, dizendo Amor que alerta dessem
Minha escritura a alguma chama isenta,
Escureceu-me a ciência co tormento,
Para que seus enganos não dissessem.

Ó vós, que chama obriga a ser dos jeitos
De diversas Vontades! Quando derdes
Num breve traço contos tão de versos,

Imagens puras são, e não de feitos...
Sabei que, segundo a chama tiverdes,
Tereis o engenho fúcsia em meus versos!

V

Mil vezes comove meu Pensamento
De louvar o alvo rosto cristalino,
A trança dos velos é de ouro fino,
Tão claro e mais que humano entendimento;

Que, com leve e suave movimento,
Pudera conter um peito diamantino,
De Graça senhoril, do Ar divino,
Qual de honesto esplendor, o doce acento:

As moças qu’entre neve semeais,
São pérolas seletivas orientais
Que antre bosques demostrais doce risco.

Que dessa luz, olhares derramais,
São do doce resplendor do Paraíso
E se o demonstrais e dais com claro risco.
ERIC PONTY

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, março 29, 2026

12 ESTUDOS PARA FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY

 

I

Aqueles de vós que ouvis em rima 
O suspiro que alimenta o coração
Que ao primeiro erro da primeira idade,
quando era em parte díspar da que tenho;

Estilo vário com que falo e zelo, 
Que dentre a dor e a espera oca,
daquele que, por ter amado, aceitou do Amor,
não mais o perdão, mas a dó saudosa.

Mas já do vulgar vejo na boca lendária.
fui uma grande ocasião em que muitas vezes
me ruborizo comigo mesmo;

É esse o fruto que a minha fúria toca,
vergonha porque agora envolvo e não
duvido todos os gênios humanos sejam sonho breve.

II
 
Era o dia que empalidecia ao sol
piedade pelo seu Autor crucificado, 
quando então, distraído, a minha alma 
foi arteira cativa pelos teus olhos.

Não era altura para brigar, 
Não supunha nenhuma ofensa de amor; 
E caminhava descuidadamente sem ter
suspeitado que era esse o princípio do meu desafio.

Ele encontrou-me desarmado Amor
totalmente desarmado e abriu olhos para ver o caminho
que são do grito do limiar e do passo rígido.

Mas, a meu ver, era uma loucura ferir-me
com uma flecha daquela maneira, e tu armado, 
e nem sequer mostrares o teu arco.

III

Ele que mostrou uma providência 
e arte infinitas no seu prodigioso magistério, 
criando este e aquele hemisfério e Júpiter
ainda mais dócil do que Marte,

vindo a terra para fazer o que os livros 
já tinham dito em parte misteriosa,
a Pedro e João deu-lhes o império celeste,
mudando das suas redes a presa e a arte.

Mas, não tendo nascido em Roma, 
mas na Judeia, a graça concedeu que, 
sobre toda condição modéstia exaltante está sempre à espera.

E agora, numa pequena aldeia, 
brilhou um sol, de tal forma que a criação e a aldeia 
se regozijam hoje pelo fato de, nesta, a inicial ser tão bela.

IV

Se eu mover os meus suspiros para te chamar
e o nome que o Amor escreveu em mim, 
um Lauro começa a sentir-se fora
ao som dos seus primeiros ecos claros.

Os direitos de autor, que se seguem à declaração, 
têm o dobro do valor para uma empresa tão distinta;
mais "LOURO" grita enfim, que honrá-lo seria
um fardo melhor para ombros mais esclarecidos.

Ao Lauro assim e ao Reverencia move-se a mesma voz 
com que só a vós o dizemos, nessa rima que atreve,
pois em honra e louvor bebe com a voz leve;

se Apolo não se revoltar com o que herdes,
para ver que com os vossos ramos sempre verdes
a língua mortal com presunção se atreve.

V

Tão longe está o meu delírio atrás daquela 
que em voo se revela qual numa novela,
e dos laços de luz o Amor voa pelos laços, 
antes do lento correr do meu pensamento;

quanto mais se acautela, menos ouve se acautela;
Nem o freio e a espora me servem com ele, 
pois tal brio teimoso é natural ao Amor.
E assim, depois de o travão ter sido puxado,

fico à sua mercê e com uma culpa tal feroz,
Lamento dizê-lo, mas transporta-me para a morte;
para ir apenas ao loureiro, onde ressoa teu nome.

Onde se colhe o fruto amargo, dessas eras
cuja polpa amarga percorre esse bosque,
a ferida aflige mais do que nos conforta.


VI

No sopé da colina em que a bela gala do corpo terrestre 
se vestiu pela primeira vez bela que muitas vezes, 
em lágrimas, perturba o sono daquele que hoje nos dá a ti,
Gostávamos de voar pelo salão etéreo da vida. 

Qualquer pássaro poderia desejar, 
sem suspeitar de achar um ardil feroz 
que abolisse com o bater da nossa asa.
Mas do estado miserável e da morte, 

Perdeu aquela vida já serena, que poderia dar,
Só há uma consolação para o nosso destino;
que é saber que aquele que nos condena a isso,

Por poder alheio, agora quase inerte nos desvãos,
Que ferradura fica com uma corrente mais comprida,
perturba o sono daquele que hoje nos dá a ti.

VII

Quando o planeta que mede as horas
regressa para reencontrar o Touro, 
uma tal virtude cai dos seus cornos dourados 
que veste o mundo com a cor que liberta;

Não só ao que à luz reside, margem do rio e
montanha, dá decoro floral, mas onde a sua luz 
nunca achou um foro, impregna o humor terrestre 
tanto quanto o que emite,

e nascem as frutas ou alimentos semelhantes;
Assim ela em mim, que é o sol entre todos, 
Se oferece luz e raio dos seus olhos,

Ela cria palavras, versos, odes de Amor;
mas, como ela os comanda a todos,
a primavera nunca floresce em mim.

VIII

Deixai pela sombra ou pelo sol que eu 
Nunca vejo o vosso véu, senhora,
depois de tu seres do desejo que sabe e
que faz sair do meu peito outro desejo.

Enquanto escondia o pensamento que a
morte em desejo me dava, vi o teu gesto
tingido de piedade; ainda mais quando 
tal Amor lhe mostrou tudo claramente,

era o cabelo coberto na altura e o olhar
honesto e amoroso escondido.
O que eu mais desejava em ti foi-me tirado;

é assim que o véu me trata com tanto desvão,
que pela minha morte, seja ao calor, seja ao
gelo de olhos tão belos, que cobre o brilho.

IX

Olhos tristes, enquanto eu te levar
na cara daquele que vos dá a morte e os
tormentos, peço-vos que estejais atentos
que no meu mal, o Amor está a desafiar-te.

A morte é apenas quem o meu pensamento
pode fechar o caminho que o conduz ao
doce porto que cura os seus males;
a tua luz está escondida de ti.

com menor e mais pobre estorvo, pois
sois feitos de essência mais leve. 
E por isso, porque já está próximo,

antes que encontres o tempo para
chorar, toma finalmente agora
a tão longo martírio um breve alívio.

X

O velhinho alvo e cinzento acaba
do doce lar onde a sua idade é cumprida, 
e da descendência da dor transitada
para ver o querido pai longe;

e, a partir daí, arrastar o velho corpo 
pelos dias extremos da sua vida,
é ajudada pela ânsia que nela se aninha, 
quebrada pela idade e calva pelo sol;

e vai para Roma, seguindo o seu desejo,
olhar para o rosto daquele que espera
ansiosamente lá em cima no céu para ver.

Por isso, ai de mim, quando vejo outra mulher, 
tanto quanto possível, nela procuro a
dessa tua amada forma adequada.

XI

Quando estou completamente virado e o
rosto da minha bondade irradia luz, e a luz
ainda permanece no meu sentido.
que me queima e consome parte por parte,

Eu, que receio que o meu peito se parta, e
vejo próximo o fim do meu fogo, ando
qual um cego que, mesmo sem luz, não sabe
para onde vai e, no entanto, parte.

Assim, fujo do mal que me mata, mas não
tão depressa desse desejo, pois ele não
costuma deixar-me andar sozinho.

silencioso eu vou, porque o meu lamento
morto faria chorar as pessoas e eu quero
Que as minhas lágrimas se derramem sozinhas.

XII

Há uma raça de animais de visão tão galante, 
que até do próprio sol se defende;
outra, por outro lado, que ofende tanto sua luz 
que o espera o véu escuro da noite;

E há outra, que o desejo não assusta, 
Para gozar o fogo, espera e, porque brilha, 
prova a sua outra virtude, a que inflama.
E é aqui que o Amor me mantém!

Que não suporto pensar nela o 
fogo ardente, nem num lugar sombrio, 
nem numa hora em que já é escasso.

Antes que, com gesto doentio e lacrimoso, 
o meu destino de olhar para ela se apodere de mim;
e eu sei bem que estou atrás daquele que me queima.

 ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, março 13, 2026

São Paulo, Domingo, 14 de Novembro de 1999 - MAIS - FOLHA DE SÃO PAULO

 IVO BARROSO
especial para a Folha

A 26 de maio de 1990, o então suplemento "Letras" deste jornal divulgava que o livreiro paulista José Luiz Geraldi, garimpando no seu comércio de obras raras, havia descoberto cinco traduções de Fernando Pessoa, até então desconhecidas, de poemas de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell, encontradas na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres", um cartapácio de 24 volumes com cerca de 13 mil páginas.
Os conhecedores da obra de Fernando Pessoa consultados foram unânimes em afirmar que essas traduções eram desconhecidas, não constando de nenhuma bibliografia do poeta. A descoberta era, sem dúvida, uma notícia literária de importância para um melhor conhecimento da obra completa de Fernando Pessoa, principalmente por não constar de seu acervo (o famoso baú).
O crítico e ensaísta português Arnaldo Saraiva, grande estudioso da obra pessoana, nove anos depois, publicou um livro denominado "Fernando Pessoa - Poeta-Tradutor de Poetas" (Nova Fronteira), em que, referindo-se em tom um tanto depreciativo àquela descoberta, relata ter encontrado muitas outras traduções de Pessoa ou atribuíveis a ele, numa pesquisa mais aprofundada que fizera no monumental calhamaço. O trabalho de Saraiva é exemplar: cita fontes, números do volume e da página, pesquisa a data da edição da obra, seus autores e colaboradores, cataloga o corpus das traduções pessoanas e até mesmo analisa a sua teoria e prática da tradução.
Obra impecável, não fosse por lhe ter passado pela peneira crítica uma página, precisamente a de número 9.802, do volume 20, em que aparece, com a indicação "Trad. de Fernando Pessôa", o poema "A Glória", de um equívoco sr. Alexandre Magariños Cervantes. O autor, segundo informa a epígrafe do poema, é um poeta "uruguayano" (sic), nascido em Montevidéu, em 1825, que iniciou sua carreira literária na Espanha, foi depois a Paris, onde fundou a "Revista de Ambos Mundos". Em 1855 regressou à pátria, onde foi catedrático de direito internacional na universidade, senador e ministro. Por aí pode-se avaliar a qualidade dos poetas. O poema é medíocre e grandiloquente, mas a culpa da escolha não pode recair sobre Pessoa, que fazia esses trabalhos com espírito amanuense de tradutor profissional e sabendo que a maioria deles sairia sem indicação do tradutor.
Como curiosidade e para complementar a excelente obra de Saraiva, o Mais! publica ao lado a referida tradução, encontrada pelo poeta Eric Ponty, de São João del Rei, nos alfarrábios da família.

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de "Arthur Rimbaud - Poesia Completa" (Ed. Aguilar).


 

 A GLÓRIA

Avante!... sempre avante!... nada importa
Que, rasgando o dossel do céu ingente
Qual flamígera nuvem, véu ardente
Ameace o universo devorar;
Avante!... sempre avante!... nada importa
Que zumba o furacão, e em fero embate
O raio tremebundo se desate,
E em seus fundos abismos ruja o mar!

Não importa que em louco torvelinho
Se despenhe tremenda a catarata,
E cubra com o seu lençol de prata
O plaino e o bosque até ao seu confim.

Sob o pé do viageiro audacioso
Não importa que a terra trema ou ceda,
Que não encontre rasto nem vereda
Que da viagem o conduza ao fim.

E avante seguirá, e sempre avante!
Cruzando sempre com crescentes brios
Selvas, desertos, páramos e rios,
Que absortos deixam a alma e o coração.
O sol a prumo lançará seus raios
Mas vão será que ao viajor assaltem
Que incendeiem o ar, e na erva saltem
Suas línguas de fogo em rebelião.

Ele impassível cruzará os braços,
E ainda que um instante o aterre o fogo,
O seu olhar altivo e firme logo
No espaçoso horizonte cravará.
E entre nuvens de cinzas escaldantes
Pisando a terra que inda ardendo acha,
Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha
E atrás das chamas para diante irá.

Avante sempre!... Fétidas lagoas,
Negros vapores que só morte exalam,
Vampiros que com sangue se regalam,
Insetos vis de peçonhento fel,
Serpentes que anunciam-se ferindo,
Magros tigres da selva nos horrores,
E que da lua aos trêmulos fulgores
Rugindo se aproximam em tropel;

Bárbara tribo que se oculta infida
E ao cristão vingativa morto deixa
Com a veloz envenenada flecha
Que silva, fere, passa e não se vê:
Nada amedronta nem detém o forte
Varão no seu caminho agro e divino;

Pode prostrá-lo ali o seu destino...
Mas não forçá-lo a desviar o pé!

Um impulso secreto, um misterioso
Instinto que seus passos firme rege,
O arrebata, o impele e o dirige
Para a sua missão, triste ou feliz.

E cai, e se levanta, e cai de novo,
E outra vez se levanta inda mais forte,
E segue sem temer para o seu norte,
O peito sossegado e alta a cruz.

Talvez por prêmio do afã seu, ao grato
Porto da sua ansiada esp'rança chegue,
E que ao vindouro o seu nome legue
Coberto de uma auréola divinal.
E talvez o demônio -cujo esforço
E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba-
Dê à sua ânsia prematura tumba
E ao seu nome o olvido perenal.

Deste modo é a glória!... os que a perseguem
A juventude imolam-lhe nas aras,
Ditas, prazeres, e quimeras caras,
Quanto entesoura a alma e o coração.
Assim somente se fecunda e brota
E se entreabre seu espinhoso lírio;
Porque a glória é, ou nada, ou o martírio,
É do anjo proscrito a expiação!

Enquanto o homem vive, ela lhe pede
A seiva toda da existência sua,
E faz que ardente sem cessar reflua
Pela frágua do tempo o seu porvir -
O porvir que não chega senão quando
A alma quebra a escravidão terrena
E se levanta à região serena
Entre nuvens de rosa e de safir.

Vem a glória depois, a virgem casta,
Que foge do homem quanto mais a implora,
E em seu sepulcro se lhe entrega e chora
Porque vivendo lhe negou o amor:
A terra beija que seus restos cobre,
E o puro pranto que abundoso verte
Em luz e aromas e lauréis converte
O lodo vil que só causava horror.

Alexandre Magariños Cervantes-Tradução de Fernando Pessoa

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Mario Benedetti & Ivo Barroso & Eric Ponty

 

Caro Éric,
Poderíamos fazer um acordo, está todo mundo comentando que sua voz poética faz sua tradução seja melhor que original, sendo que você vai criar um incidente diplomático com meu amigo Mario Benedetti. Me prometa que você nunca vai traduzi-lo.
Do amigo 
Ivo Barroso

Eleger minha paisagem

Se eu pudesse escolher minha paisagem
de coisas memoráveis, minha paisagem
de outono desolado,
eu escolheria, roubaria esta rua
que é anterior a mim e a todos.

Ela devolve meu olhar inútil,
o de apenas quinze ou vinte anos atrás,
quando a casa verde envenenava o céu.
Por isso é cruel deixá-la ao entardecer,
com tantos varandões como ninhos solitários
e tantos passos como nunca esperados.

Aqui estarão sempre, aqui, os inimigos,
os espiões traiçoeiros da solidão,
as pernas de mulher que arrastam meus olhos
longe da equação de duas incógnitas.

Aqui há pássaros, chuva, alguma morte,
folhas secas, buzinas e nomes desolados,
nuvens que crescem na minha janela
enquanto a umidade traz lamentos e moscas.

No entanto, existe também o passado
com suas rosas repentinas e escândalos modestos
com seus sons duros de uma ansiedade qualquer,
e sua insignificante coceira de lembranças.

Ah, se eu pudesse escolher minha paisagem,
eu escolheria, roubaria esta rua,
esta rua recém crepúsculo,
na qual revivo ferozmente
e da qual sei com estrita nostalgia
o número e o nome de suas setenta árvores. 
Mario Benedetti


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Irrompa infindamente
Do meu lábio amante, alto, numa explosão,
Mental, duma só vez este degredo ardente,
Assim tal qual um vagido, assim tal qual um clarão!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Ô Verbo tão imanente
Que fez Chama! Ô doce e terrível confissão!
Ô médica me indica atroz da cura da morfina,
A cor que vem do Azul varrendo a Noite em frente,

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Que senhora irradia,
Desta chama idéal que anda a queimar, à toa,
Silêncio! Traços meus... parai vossa Harmonia!

Presente voz deste Amor que me enleva e me aterra!
Do meu poema à minha Alma, indômita, revoa,
Tal qual um raio de sol que prende o Céu à Terra!

 
II
 
Para as morfinas de dores gelados
São ânsias e os socorros vão partindo,
Fúnebre azul, siderais convidados
De margens alvas a amplidão vestindo...

Num fúnebre de cânticos plantados
As ferinas, as citaras ferindo,
Passam, das margens nos troféus herdados,
São asas doiro finamente vão abrindo...

Dos etéreos turíbulos de igrejas
Claro incenso aromal, límpido seja,
Ondas nevoentas regiões levantam...

São as ânsias e os fúnebres infinitos
Vão com doiro anjo formulando mitos
Da Eternidade que erguem flores cantam...
 
III 
Morfina almas, sacra irmã gloriosa,
morfina irradiação do Sofrimento,
Quando surgirás no Deslumbramento,
Tão perto em mim, no pascer dor radiosa?!

Tu que és a foz da Mansão em coisa,
Pascer do estimado Encantamento,
Do signo astral do radioso Pensamento
Zelando eternamente a dor chorosa,

Morfina almas, meu rezar amigo,
Véu celeste, sacrossanto que digo,
Da morte e constelada vastidão,

Entre os teus laços de eternal fúcsia,
Pascendo e rezando em foz de delícia,
Do pascer te alçarei na Eternidade?!
IV
 

Tal qual serpente enorme, então natureza
Enroscava-se minha alma tão fria abatida:
Que se assobiava azul do céu tal qual vida,
Na morfina onde há sombra, o ar úmido e tristeza.

Enquanto gelo tal qual um ferro agudo buído,
Adestrava-me a sombra, sonho inquieto e aceso,
Arranjava um jazido, uma chama, página lido,
Na intimidade ideal de um jazido inglês.

Eis que próximo a mim, surge, irrompe, fulgura,
Tal qual fugida a um quadro, uma alva figura,
Tal qual só que Portinari sabia pintar.

Tal qual fronte gentil punha apenas de fora...
O meu corpo voava arrebatando a aurora,
Um furacão de azul levava-a pelo ar.

Eric Tirado Viegas (Ponty)



A Estátua de Sal Sacra - Eric Ponty

 

 

P/A N T O N I O C A R L O S S E C C H IN

Invés tal, ri, num rio de tormenta,
Como um artesão, que desengonçado,
Nervoso, ri, obra rio absurdo, inflado
De uma ironia e de uma flor tão benta.

Da paisagem atroz, sanguinolenta,
Pulsa os cinzeis, e convulsionado
Obra estátua de sal salta, varado
Pelo existir dessa agonia agenda...

Pedem-te obras artesão não se despreza!
Vamos! Retesa as estátuas, retesa
Nessas macabros azuis do céu d’aço...

E embora saias sobre o sal, fremente,
Afogado em teu sangue estátua a fronte,
Diz, existir movimento que traço.

 Eric Ponty

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA