A imposição empírica da linguagem ao encontrar resistência no
campo do simbólico antecipa-se à tecnologia e o registro virtual, a saber o
acontecimento, de maneira a incrementar o imaginário, i.e a diferença, que a
linguagem poética desenvolve, colocando-se o leitor frente à divisão
progressiva entre o saber e o fazer, o conhecimento e a técnica.
O fascínio que a imagem
exerce sobre o espectador diante do espelho, diante da imagem transformada em
realidade, é o mesmo que a metáfora exerce ao abarcar o universo da
subjetividade transformada agora em "paisagem sem órgão", segundo a
expressão de Gilles Deleuze. A relação entre o sujeito e a imagem é uma relação
de consciência e sentido, cujo distanciamento tem a aproximá-los unicamente a
imagem. Tal desdobramento lingüístico mantém o fascínio que a poesia de Eric
Ponty desencadeia ao associar o homem (HOMO) a imagens com o sentido de
homenagens dirigidas em última instância a pintores e poetas que recria ou
traduz como Rilke ou Yeats.
O ato seco (...)
de um grito, sombra de nós, memória do que somos e se desfaz nos gestos que
findam (...) como o degredado em solo árido, - é sempre uma tentativa de
captura do eco que se impõe diante de uma galeria de imagens-signos, que Eric
Ponty homenageia, recorrendo ao espelho, fascinado diante do que vê. Não admite
a fuga, como o herói diante das réstias do dia.
As suposições do
aqui, o poeta admite como projeções da memória, reatando assim um vínculo
platônico, que se evidencia com a memória eletrônica em relação ao sujeito, com
a qual dialoga. Nesta medida, dissecação para o grito ultrapassa a contingência
temporal de eco, sobrepondo-se ao deus ex machina a serviço da ciência que o
poeta domina em seu laboratório da vontade de saber.
A marca da
solidão é a Verdade no espelho e o toque inapreensível do real, o qual condena
o poeta a estar só na multidão. O que se vê à volta é o "mesmo" tal
um duplo a espreitar os transeuntes. Tudo é suposição, um retornar ao passado,
onde o começo é sempre um fim.
As Homo-imagens
são gritos - de um Vincent Van Gogh, a desfigurar o eu na visão delirante de
girassóis em movimento no campo amarelo da esquizofrenia.
O cerimonial das
máscaras na "praça de Bruxelas (poema X a James Ensor) conduz-nos a todos
ao mesmo fim. Nessa leitura e constatação Eric Ponty fundamenta o trágico
roteiro das homenagens desenrolado antes por um Leopardi, um Augusto dos Anjos,
um Nilto Maciel mais recentemente, expressões dolorosas da dialética epigonal
de Hegel, originária de Heráclito. O poema IIº dedicado a Paul Gaugin reedita a
evasão do banqueiro-pintor"amotinado". Na pintura de Gustav Klint o
poeta vê labirinto de detalhes que se aprofundam ao olhar. No adorno das telas
"há uma rebelião de mandalas (...) contra o mundo". Francis Bacon
(XIII) encerra em laboratório um grito que recompõe a "essência dos
crimes". Edward Hopper (XIV), pinta a solidão soturna do mundo, a
decadência no exílio sem horizonte. Tal realismo denota o instante imóvel do
nada, segundo o ilustrar sua visão do mundo coincide com o fenômeno cibernético
da imagem cuja captura iluminada inaugura o estágio avançado de uma
verticalidade sensorial a emergir enquanto unidade e consciência. Frida Kahlo
(XV), "singra atônita por imagens sonoras de uma androgenia natimorta que
permanece em invólucro". Em Lucien Freud (XVI) as prisões do eu são
perpetradas nos quadros sob "um lençol alvo de um Davi”."Doem as
efígies (o poeta constata) saídas (...) de uma lua (...) de sonho e realidade
infinita." Uma "angústia oceânica perpassa a rotina de Sísifo".
A mesma rotina é estigma na qual Edvard Munch (XVII) concentra o grito
cromático que capta em murmúrio irônico de eterno riso.
Dirigindo-se a
Mme. de Stael, em suas Homo-imagens o poeta diz: "a dor da realidade não
escapa aos tiros de bandidos de um tempo árido. Abismos não pertencem ao cartão
postal da realidade." Os poetas Ivan Junqueira, Ivo Barroso e Ferreira
Gullar são vozes de um coro que dialoga com o Mito. No mergulho na
subjetividade de um Floriano Martins, um Cláudio Willer, o poeta concebe um
presságio transformado em "prodígio em todo o mundo", que Calderon de
la Barca pressentiu ao dar como título a um de seus dramas o provérbio A vida é
um sonho e Eric Ponty transmuda em "sonho de máscaras de almas (...) em
decomposição sobre a mesa." Em relação a Donizete Galvão se lê: ...
"a consciência não é um grifo. Fruto de luz, (...) é como a pedra: sólida,
intransponível."
No estudo das
Elegias de Duino, de Rainer Maria Rilke, o poeta alude ao grito como de uma
possível estátua muda. "De que adianta celebrar tua beleza (indaga) se aos
ouvidos os sons são mudos?" A um epitáfio de Borges, acrescenta um de
mármore ao luar "a desbravar a cidade alta." Na Elegia a Abraão,
dedicada a Ytzhak Rabin, a contradictio oppositorum, fulcro dialético do ser, é
tratada de maneira inexorável. Nada está além do conflito bélico travado
milenarmente entre homens de fé na região autóctone de Deus e o Filho
unigênito. Grassa a loucura entre o Muro das lamentações e o Sepulcro de Jesus.
A voz do poeta há de alcançar o bom senso daquela raça a ponto de aplacar a
fúria de palestinos e israelenses. Tudo cessa diante da aberração. O escritor refere-se
inclusive às insones ruas de Minas.
Na dedicatória a Cláudio Leitão Las Calles - Jorge Luiz Borges -
as ruas são as mesmas de Minas a corroer e sussurrar o passado túrgido ainda
tangendo a amplidão azul. O elogio às ruas às gerais de Minas chega ao Sol,
arquétipo segundo Eric Ponty do ouro que funda "veias na rocha." Em
saudação ao poeta uruguaio Alfredo Fressia." A Montevidéu de Lautréamont
"disseca os ais do poeta numa paródia que tem seu limite no aeroporto de
Iquitos e repete o Número de Pitágoras, o Numinoso. Eric Ponty percebe a voz de
Santa Cecília no Laudate Dominum de Mozart, no oratório epifânico de Bach, no
Quarteto de Beethoven, no exílio de Nabuco de Verdi, em Moisés e Araão de
Schoenberg, em Chopin, onde anjos barrocos anunciam outra melodia. O esoterismo
de Yeats está na tradução de Eric Ponty ao confessar o poeta irlandês
"paixão à dama, vergonha e clemência ao Senhor, afirmando que ele próprio
é a luz do dia."Eu carrego o sol em minha xícara dourada/ e a luz em uma
bolsa prateada", repete Yeats antes de concluir que "um osso embranqueceu
e secou ao vento."
Tal é o belo roteiro de HOMO-IMAGENS
- Dissecação para o grito, do poeta de São João del Rey, Eric Ponty.
Foed Castro Chamma – Poeta,escritor e tradutor. Transmutação
da Pedra (Grande Prêmio de Poesia da 2*Bienal Nestlé de Literatura Brasileira)
– Publicou O Poder da Palavra, em 1959; Labirinto em 1967;Ir a ti, em 1969. Em
1971, reuniu os três livros sob o titulo geral de Andarilho e a aurora para uma
co-edição com o convenio do MEC.Sons de Ferraria. Como tradutor: Mickiewicz
Poemas (tradução) Epigramas Latinos Paráfrases e Navio Fantasma foram
publicados em 1998.Bucólicas de Virgilio. Escreveu também Filosofia da Arte em
2000.