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domingo, outubro 25, 2026

Burlesca - Palhacinhos na Gangorra" - Alexandre Schubert - Compositor - Poeta Eric Ponty

Sábado será a estreia de "Burlesca", para trompa solo no concerto do Prelúdio 21. Escrevi para o trompista e amigo de longa data Sávio Faber a partir de uma imagem e uma poesia de outro amigo, o Eric Ponty. A poesia está publicada no livro "Menino retirante vai ao circo de Brodowski" em que o Eric escreve sobre quadros do grande Portinari. É uma peça de caráter circense, baseado na poesia/quadro "Palhacinhos na Gangorra". O concerto será no CCJF, Centro Cultural Justiça Federal, às 15:00, com entrada franca e terá obras dos amigos do Prelúdio 21: Caio Senna, José Orlando Alves, Marcos Lucas, Neder Nassaro e Pauxy Gentil-Nunes.

  

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

DIE FACKEL - NR. 2 WIEN, MITTE APRIL 1899 - KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY

Caro camarada Kraus, 

ainda se lembra daquela noite em que me desabafou sobre o seu sofrimento e, gemendo, exclamou que lhe era vedado dizer o melhor que acreditava poder dizer, e que estava cansado de, repetidamente, gozar com os erros de estilo do ministro da Agricultura — de dizer as coisas como elas são e de esperar, dessa forma, poder ser útil ao seu país, à sua cidade e à sua classe social. Tal como as coisas estão hoje, isso só se pode fazer sozinho. Nas peças de Ibsen «A Aliança da Juventude» e «O Inimigo do Povo», pode aprender quais as considerações que qualquer proprietário capitalista de uma fábrica de opinião tem, e deve ter, — nomeadamente em relação aos detentores do poder local, que estão mais próximos do que os poderosos políticos e com quem se cruza com muito mais frequência. Só quem não tem segundas intenções políticas, sociais ou de natureza social pode dizer tudo isto. Experimente com confiança! Será que a sua força é suficiente? Isso só se revelará no próprio trabalho. Tem de sair do ambiente dos cafés, onde encontrou a sua sátira preferida, «A Literatura Demolida»; caso contrário, apesar do seu grande talento e da invejável frescura do seu humor, corre o risco de cair na monotonia. Tem de, como se costuma dizer tão bem nos jornais, bater as asas com mais vigor. Encontrará ajudantes, companheiros de viagem ou, pelo menos, aqueles que gostariam de voar consigo; pois é grande o número de homens e mulheres que procuram um lugar onde possam expressar livremente a sua última palavra. E se não der certo — eh bien, então terá, pelo menos, avaliado a sua própria capacidade e estará, tal como outrora o Battenberger, mais rico numa experiência interessante.<<
Bem: parece que está a correr bem. Tenho aqui à minha frente o primeiro número da «Fackel»; parece-me um começo promissor e o sucesso, como me escreveram amigos de Viena logo após o primeiro dia de vendas, está, pelo menos por enquanto, garantido. Espero que isso não o torne vaidoso. A vaidade é a primeira hipoteca sobre a honra, disse Bismarck. Mas, se a minha impressão não me engana, o senhor não tem qualquer talento para tal vício. Isso é bom; pois um conhecido comum acabou de-me informar que o senhor já vendeu quase trinta mil exemplares. Todo o respeito pela demanda literária vienense! Não se preocupe: o senhor não se tornará arrogante. Ainda tem muito a fazer, muito a melhorar, a aprender, a rever. Não sei, nem posso saber, se as situações e as pessoas que o senhor ataca com espírito e humor são realmente tão más como a sua pena afiada as descreve. Nas suas realizações, a imprensa vienense está, de facto, infinitamente acima da berlinense. Vocês têm — para falar apenas da secção cultural e citar os nomes que me vêm à cabeça neste momento — grandes talentos como Speidel, Hanslick, Gelber, Wittmann, Goldbaum, Groß, Herzl, Hevesi, J. J. David, Bahr (sim: não se surpreendam, apesar de todas as excentricidades e máscaras, também o Bahr!), Chiavacci, Poetzl e muitos outros; contam com talentos jornalísticos de primeira linha, como Victor Adler e Austerlitz (considero o «Arbeiter-Zeitung», independentemente do ponto de vista político, o jornal mais bem editado na língua alemã) e, nos vossos jornais, não se permite que a incompetência provinciana se espalhe, como acontece nos nossos. E quanto à «corrupção e ao clientelismo», de que se queixam?... Provavelmente não é diferente do que se vê noutros lugares. Os vienenses que vêm até aqui dizem-me sempre: «Sim, aí há menos talentos, mas mais personalidade!» Meu Deus!... Mas a incompetência, vista de longe, costuma parecer muito cheia de personalidade e convicção. Espero que vocês aprendam cada vez mais a reconhecer que os males provêm da instituição, não das pessoas. Desde que o jornalismo se tornou uma atividade gerida pelo grande capital, um negócio lucrativo dirigido por pessoas alheias à profissão, que lhe indicam o caminho de acordo com os seus interesses particulares, tornou-se exatamente o que tinha de se tornar. Tudo isto já foi dito e previsto por Lassalle muito melhor do que eu seria capaz. No seu país, pelo menos dois grandes jornais — talvez sejam mais —
dirigidos por escritores, a sério, e não apenas aparentemente; não acha que, para alguém com sensibilidade literária, a compreensão com Bacher e Benedikt ou com Adler — menciono aqui estes três senhores, que pessoalmente têm certamente naturezas bastante diferentes, apenas como potências literárias reunidas — é mais fácil do que com Mosse, Lessing, Ullstein e outros proprietários de grandes «plantações de opinião» berlinenses? Por favor, tenha isso em mente e trate com toda a delicadeza os eventuais pecadores! O que devem fazer, afinal, os meios e quartos de talento? Eles rastejam para onde está quente. Temos de tentar fazer com que o trabalhador jornalístico deixe de estar separado dos meios de produção, que dirija efetivamente os jornais que escreve e não seja obrigado a proclamar duas vezes por dia, com grande veemência, aquilo em que não acredita. Caso contrário, chegaremos muito rapidamente a uma situação à americana e o jornalismo — para o qual hoje já as notícias e as reportagens são mais importantes do que o estilo, a competência, o conhecimento especializado e a convicção — deixará completamente de ser um ramo da literatura. Quando os jornalistas, que «por natureza não são piores do que os outros filhos da Terra», perceberem que: que é possível viver fora do sistema de suborno, que se pode dizer o que se pensa, chamar um gato de gato sem receio, então unir-se-ão, sacudirão o jugo, renunciarão aos direitos de tributo a que agora recorrem para melhorar as suas finanças, deixarão de pagar ao seu alfaiate e à sua amante semanal com bilhetes gratuitos, e deixarão de fazer publicidade para colegas impotentes «colegas, e deixar a escrita de peças, a tradução e a edição para aqueles que não exercem o papel de juízes nas disputas literárias e teatrais. Só assim poderemos ter uma imprensa limpa e eficaz, uma que seja mais do que um caixote do lixo de notícias ou um alimento temperado à pressa para nervos cansados e da qual se possa falar bem em congressos, sem que os augures se riam por dentro, com as mãos bem gordas, durante os magníficos discursos.

Por isso, regozijo-me com o vosso exemplo, regozijo-me com a vossa coragem e com a vossa energia jovem e fresca, que, na primeira edição da «Fackel», se descarrega com a intensidade de uma pantera, em fúria e escárnio. Mantenha-se firme; quando as pedras nos forem atiradas de volta com violência, guarde-se da amargura e, no meio do alvoroço literário e das disputas jornalísticas, não se esqueça dos grandes temas do esforço humano, nem das relações económicas que tudo explicam e tornam tudo perdoável... Rothberger é, afinal, um tema melhor do que Julius Bauer (de quem, aliás, só conheço algumas piadas más, mas eficazes, contadas por Bönhase) e, na Áustria — pelo menos assim me parece, à distância —, há tarefas ainda mais importantes do que dar um tapinha nos dedos manchados de tinta de palhaços desprezíveis... Não pense, de forma alguma, que subestimo esta tarefa! Se eu não considerasse o seu esforço meritório, nem a luta higiénica contra a contaminação do terreno que se estende entre a literatura e o teatro necessária e útil, então não lhe teria escrito, com uma neurite no meu braço direito pecador, uma carta tão longa que — conheço bem os editores de novos jornais! — acabará por publicar. Queria apenas alertar para o perigo de um estreitamento do horizonte. Com os melhores votos para si e para os seus planos ousados, aos quais desejo um vasto campo de ação e uma forte repercussão, permaneço-lhe cordialmente dedicado,

 Maximilian Harden.

 

   POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, outubro 24, 2026

RITO DE PASSAGEM OU EXAUSTÃO DO POSSÍVEL - ERIC PONTY

 PARA ANTÔNIO TORRES

I
Pomposo dia desses calham nas sombras, 
desses cintilam, nas tumbas dos jazigos, 
dessa angústia longo céu fundiu os logos! 
O lar, desse sempre mármore do lar! 

Após que do penar, quais dessas tumbas, 
protegeu do espectro vivos desafrontas! 
da coragem duro fim que se acostuma 
do pequenino véu mausoléu apruma.

A silente fronte céu apascentar! 
Sobre admirar-se à luz quando recusa 
da ópera de vasta eterna dessa lousa, 

Ó templo anima dormido suspirar! 
Assente douro, missas que desta erva, 
calmas das Minas, quisto nos reserva.
II
Soberbo desse véu pascido do mundo,
grande do pouso! Do céu ascende chama, 
do meu solene! Casa a pascer calma, 
soberbo doura mil igrejas, Minas! 

Estação da morada, aspira luto, 
se qual duma pena aprumo que costumo, 
tudo resguarda olhar vazio do culto,
qual desse Altíssimo entre ser assuma. 

Da cintilação alastrar-se tão serena,
do pobre desdém de se ouve tão amena, 
desse tão fundido bronze ulterior cena. 

É feito encanto altera estratosfera,
do qual fera a boca sino do fastio. 
E deu som vero brônzeo desse fundo.
III
Da alma conduz-se empíreo desse sopro, 
das rumorosas dores do murmúrio
vazio do véu vagar-se à terra altera, 
após do bardo esguelho do entranhável.

Repudia do que intenso passo ao espaço, 
das solenes já das casas sombras passo,
da réstia total cabal ilusão,
tragando grácil ser consumição,

Dos cedros de expostas folhas do fastio,
reprimir das pujanças dos indícios, 
quais dessas cruzes clamam por piedade! 

Renda se dedica clima da pureza: 
De que se aspira!...Cruz junto à rudeza, 
suposto ombrear da triste da igualdade!
IV
Ô para ser, de ser si mesmo toado,
nasce declive, do imo desse próximo, 
desse que via que invade do mais todo, 
de que oferto eco minha voz fraterna.

Sombra de azeda, tez dessa quimera, 
que atear-me da calma do soturno! 
Sombra da falsa imagem da ramagem, 
Esplendor dessa fronte da linguagem.

São meus ateados visos estimados,
quais das visões que perdem fins ruidosos 
Da Minas de terra pascem destes ósseos? 

Fagulha jaz trespassa ausentados. 
réstia soberba plena do folguedo, 
estilhar do terrestre à voz saciado. 
V
Eva me deu domínios destes cedros, 
mesclada pedras, marmo sombrios mundos, 
fardo de maçãs trêmulas das árvores; 
jazem tangendo escura luz sepulta! 

Impura escura idólatra dos mármores, 
É solitário canto do pastor, 
perpétuos dos carneiros sentenciosos, 
tamanho gritos mortes desses horrores.

Distantes dos ausentes em penumbras, 
hinos altivos, sons tanger ruidosos,
daqui da escura à terra dos auxílios.

Aqui futuro que arde mais da usura, 
quais ranger voz isenta do futuro, 
tudo que parte, e, arde, aceita, e cura.
VI
Não dê severo passo da existência,
maça largada espírito rendido,
morte devassa livre permanência, 
solenes são dos passam foz dos lácios. 

Dos que fornecem secos do degredo,
medial do funéreo, lado desse acerto,
ausentes pensam erro de si ao serro,
credo repleto doa qual do sistema.

Dê sigilosa voz inanição,
não faz contenham ossos dos fulgores, 
remorsos, réstias cores da paixão.

As consequências dão vastos haveres,
quaisquer ocasos vindos dessas árvores,
passarem marmo látego dos cárceres.
VII
Seres das sombras tramam-se das dores,
são breves vozes hinos dos alvores, 
fundiram ser cerrado dessa murta,
vermelha argila traga à tíbia luta.

Vértebras dessas lousas tão idênticas, 
tíbia findada fia fragmento a terra! 
Vozes transeuntes pascem mansões margens, 
ritos das minas, sol pálpebra ilhada.

Tudo houve sobre esvai terra foi fogo,
danças das tíbias, crânios pascem relvas,
olhos tão vivos, faces desafogos.

Veio enlevado teceu luz do jogo, 
do douro que brilhou serros fenderam, 
dos últimos tons, ogros que correram, 
VIII
Olhar resguarda quê, da grande palma,
quer desse ajuste dores ainda silvas,
cores tão vivas, palmas tão vibradas,
tudo nos foca! Poros passam dos silvos.

Impaciência, Eva pasceu nesses hortos,
acenam quando dão carpem recusa,
que reconhecem tez que lhes repulsa,
tíbia vazia deste ágrafo lenheiro.

Mentira de Eva dos que lhes acusam,
de eternal riso, crânio desse meio,
segredo do degredo da maça ao seio.

Corra do prado! Fuga d´alma acusa,
do cedro confunde vivos nos vazios,
que desconhece traz dos campesinos!
IX
Erva imortal traspassa do serrado,
diluidor desse seio do doirado,
do marmo fez o leito fraternal,
tom do murmuro tece do final! 

De quem lhe bebe essência tão marmórea 
Do corpo vazio de olhar de mineral! 
Profundo dia, das noites inabitadas, 
em indulgências dessas tantas portadas.

Noite difunde véus pasceram mais, 
Da sombra do seixo geme iniludível, 
cedro que está sob lua pasce jamais!
X
Degredo de este ser do que alucina, 
pendor, ardor, lhe trama terá acima? 
Importa nome! Quis fazer do nomeado!
Em quais das lousas quis se convencer!  

A relva pétrea assunta até que encima,
pedra que medra, está não tolhe mais,
pascer dos medos, credos incumbirem,
clima retorna à luz do retornado.

A Luz evade prado condenado!
Ah! Lua... Qual réstia sombra do enluarado
calmos lilases grados evadem mais! 

Senão!  Do turvo não! Senão da via! 
Que luto desses marmo se rondeia 
reluz, conduz que luar pastoreia!
XI
Partam do prado, formas evasivas! 
Carpem do meio à relva desse tempo,
Oh Esplendor, deste luar tão elevado,
Retornar a calma! Céu rubor nublado! 

Grada lua alva, lírios dormitados, 
rubras esferas, zênite formados, 
das mil das mil das palmas tão feridas, 
da suave carne azul, pascer dessa lua.

Da cintilante lua passa retorna 
túmulo paz idêntica dos hortos! 
Tempo descrê!…do lazer jazigos ter!
XII
Tristeza de olhar carpe lua do céu,
justo do fogo queima pelas lajes,
dessa passagem que à lua que pranteia,
nessa marmórea paz tece do douro.

São mansos cantos cânticos tão breves,
que se aplaina da fala deste sempre,
suave da foz que carpe desta lide,
findo coevos poentes de tão leves.

Intensa luz que paz marmo nos traz:
Oh vão vagou mortais das lides vagas! 
Oh vácuo do marmóreo do enlevado! 

Que meditado véu passar do céu,
Dissolvam corpos! Quebrem tíbia alçada! 
Repicar torres calmas destes mortos!

  ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

AS CINCO MUSA - A VOZ DO POETA - ERIC PONTY

 I

Corpo de mulher, essência de uma deusa grega
você chega a este meu mundo, com a tez clara,
onde é possível se ouvir no sussurro deste tempo
os cantos de deusas de um dia de outrora Grécia.

Suas mãos são duas alças de um paraquedas  
que não deixa findar na minha solidão poética
que esculpe como a polpa do barro vermelho
cerne da essência da crença deste ocidental.

De mim, desta minha meditação solitária, eu,
deste eu tamanho como as serras de minério 
fundo e ermo, ego fundido no veio da rocha
esculpido no talhe desta pedra ou da madeira.

Na minha perspectiva eu avisto paisagens
planejo caravelas e mares e fados longínquos, 
fundo um dique para que as águas da consciência
não a acobertem com suas marés taciturnas.

Minha voz é um eco cheio de minhas memórias
que perpassa pelo clima frio e seco serrano
que dialoga com os movimentos dos pássaros
e bate lentamente como um sino de bronze.
  
II
      
Você se parece com o mundo telúrico e eterno
seu corpo é como uma ágata rara, de clara lua,
sumo do cantarolar dos pássaros pela aurora,
fundo e murmúrio de um riacho recém nascido.
        
Meu eu indivíduo de transeunte e selvagem 
que procura a polpa da terra e cerne da pedra
esculpindo pela rocha esta forma mais finda
estátua do marmóreo bronze destas serras.
    
Solitário eu meu canto eu estava no horizonte
estava só como um abismo ermo e taciturno
de onde não era possível perspectivar a manhã 
com seus ares de leve e alva brisa entranhada.

Em meu peito se acasalaram os pássaros
e a noite adormeceu como uma jovem morena
enquanto lá fora sussurrava o tanger da aurora
e o meu canto era o repicar de uma picareta.

Ah musas claras deste meu panteão sem Apolo,
de onde sobreviver é a grande Odisséia humana
e as rezas são apenas ecos de um dia terminado
eu me ajunto e me uno a este seu chamado.

III

Eu estava meditando só por entre os pássaros
e estes levantaram vôos levando consigo o meu eu
fundiram-se o azul céu como sua tonalidade
este fundo e forma essências do mesmo horizonte.

Em mim se fez uma noite tão escura como o breu
na imensidão deste fundo infinito havia os ecos
o rugir das estrelas e das constelações mortas
enterradas sem epitáfios dentro dos negros buracos.

Na imensidão deste meu eu tão noturno e só
não tangia o seu corpo moreno de tez clara
este branco leite de uma via-Láctea sucumbida
que em mim se fez como uma canção poderosa.

Ah musas eu quero sobreviver às suas setas
forjar minha uma nova essência desta alma  
como um sobrevivente de uma batalha abissal
fazer meu neste cantar tão presente do agora.

IV
 
É rubra e de cabelos de um milharal ao sol
de amarelo rumor que tange pelo cotidiano
de tez dissimulada e de palavras de ternura
numa verde praça de um Barão qualquer.

Tenho receio da ação do tempo e das horas
que possam em seus ponteiros ferir sua tez
ofuscar estes cabelos amarelos que douram
ao sol do tempo ao refletir esta minha solidão.

Quero o verbo hermético, de fundo marinho,
velado livro de um Valéry de um cemitério,
onde uma flecha zênica paira no ar estático,
como um sol sem movimentos ao meio-dia.

V

Perplexo e solitário eu estava só num beco
e este meu eu escapou de mim como ave,
um pássaro negro que adentra no espaço,
este não traz o agora da guerra, a poesia
que perpassa como um sussurro ao ouvido.

Este eu forjado pelas entranhas noturnas
pode dialogar com o eco da noite e tanger
com a aurora, por uma fina e tênue brisa,
que se lança como raio de eco de um galo
pelo delineamento e linhas de uma serra.

Na solidão apareceu-me como uma deusa,
como de um oásis de um deserto olvidado
e narravam antigas histórias sucumbidas,
de onde seu nome era recitado como salmo.

ERIC PONTY

  

   POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quinta-feira, outubro 22, 2026

Dessa legião de anjos azuis? - ERIC PONTY

 Talvez, se dirigir-te a verbo, te sintas esfalfado,
E, no entanto, domar, quem o poderá
Contra essa legião de anjos azuis?

Pois a veracidade é que ponderaste os influentes,
Avigoraste as mãos consumidas;
Contra essa legião de anjos azuis?

Tuas expressões içaram o que já sucumbia,
E ampararam os joelhos dos que iam despenhar-se,
Contra essa legião de anjos azuis?

Agora, que a martírio desceu sobre ti, estás esfalfado.
Na ocasião em que ela se vexa, nada mais podes improvisar,
Contra essa legião de anjos azuis?

Teu dó não é a tua fiúza,
Tua expectativa e a justiça em tua passagem
Contra essa legião de anjos azuis?

E no entanto, pensa, quem é este que feneceu casto?
E onde estão as criaturas justas que foram aniquiladas?
Por mim, vi que os obreiros da perversidade
E os que disseminam a amargura, acolhendo o dano,
Contra essa legião de anjos azuis?

Pelo sopro de Criador são extintos,
E acabados ao sopro do seu mordexim.
E os dentes já não valem coisa alguma,
Contra essa legião de anjos azuis?

Quanto a mim, senti acercar-se uma denúncia furtiva,
E meu escutado apreendeu um som inaudível.
Nos axiomas das visões noturnas,
Quando um intenso letargo achata as criaturas,
Contra essa legião de anjos azuis?

Um pavor, um latejo me fascinaram
E comoveu todos os meus artifícios;
Um sopro resvalou sobre a meu semblante,
A penugem dos meus restos mortais se franziu,
Contra essa legião de anjos azuis?

Então a sombra se içou, e não perfilhei seu semblante,
Que permanecia numa visão diante dos meus olhares;
Ouvi um estrondo estrangulado e uma voz:
Dessa legião de anjos azuis? 

ERIC PONTY

 

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

UMA MULATINHA... - Stéphane Mallarmé – Trad. Eric Ponty

 

Uma negra que sacudida pelo demônio;
Quer provar, como uma criança triste, frutos novos;
E também criminais sob sua veste rasgada;
Glutona se prepara para tarefas astutas:

Ao seu ventre, feliz, compara dois mamilos;
E, tão alto que a mão não consegue alcançar,
Ela lança o golpe obscuro de suas botas;
Assim feito dalguma língua esquerda ao prazer.

Contra a nudez medrosa então dessa gazela
Que treme, deitada costas feito elefante louco;
Deitada de costas, espera e se admira com zelo,

Rindo com seus dentes ingênuos de criança;
E, entre suas pernas, onde a vítima se deita,
Erguendo uma pele negra aberta sob crina,
Avança o palato dessa boca tão estranha,
Pálida e rosada como concha marinha.

Stéphane Mallarmé – Trad. Eric Ponty
  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

terça-feira, outubro 20, 2026

Eu, Doutora, não sou algum banqueiro - Eric Ponty

ERIC3PONTY@YAHOO.COM  

Eu, Doutora, não sou algum banqueiro,
Que viva de guardar alheia grana;
De tosco fato, d ’expressões passageiras,
Dos frios beiços, e dos sóis tão amado.
Tenho próprio missal, e nele avisto;
Dá-me vinho, saliva, fruta, azeite;
Das alvas ovelhinhas tiro há efígie,
E mais as finas lãs, de que me avisto.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu aspecto numa fonte,
Dos anos inda não está fartado:
São pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a foz celeste;
Nem falo letra, que não seja minha,
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos fortes da aventura,
Só apreço lhes dou, gentil Doutora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser penhora.
É bom, minha Doutora, é bom ser dono
De um antanho, que cubra livro, e prado;
Porém, gentil Doutora, o teu agrado
Vale mais q’um Lenheiro, e mais q’um trono.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa afetuosa, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos morena
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Doutora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os prados levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, a nédia grana.
Já destes bens, Doutora, não conciso:
Nem me cega a paixão, que o fundo arrasta;
Para viver feliz, Doutora, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Irás a divertir-te na capoeira,
Sustentada, Doutora, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta joga jogadores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Depois de nos ferir a mão da sorte,
Ou seja, neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas expressões os senhores.

I

É gentil, é Doutora a minha Altéia;
Das tranças, a modéstia de seu rosto
Que inspiram no meu jeito maior gosto
Que ver o próprio verso quando ondeia.

Mas, lendo o lindo peito de Dircéia
A nova sujeição me verso exposto;
Ah! que é mais jocoso, mais decomposto
Que a pura esfera, de anil astros cheia!

Prender as duas com grilhões estritos
Se uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres gestos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de escrito dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

II

Num fértil seio de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Formosura mostrava
Com alegre expressão o seu tesouro.

De uma parte, um montão de prata e ouro
São letras de valor o pão curvava;
Daqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grana e louro.

- Findou – diz-me então – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna as concedo, vai, da cura.

Escolhi, acordei, e não vi a fada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca passa há passar de ser sonhada.

III

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Sendo acreditei às vezes, que cri, Ormia,
Que a tua singeleza então igualaria
A tua mais que angélica pura aparência.

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Se para ao menos conheci que não devia
Pôr nas mãos de uma externa galhardia
Desse prazer, o sossego e a inocência.

Enganei-me, fatal, com teu semblante,
E nada me admiro musa de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdeste mais em me enganares:
Que tu não acharás se um firme amante,
E eu posso então traidoras ter milhares.

IV

De ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama furtar no feito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não olhares meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Desconheço ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que está alma sente.

Talvez que então bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é farta,
Por inocente assim melhor lhe assista;

Pois quando só na ideai ma retrata,
Debuxa dos fortes com que prende a vista,
Camufla as obras com que ofende, ingrata.

Eric Ponty

 

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

TRÊS LIEDS À MEMÓRIA DE NUNO JÚDICE - ERIC PONTY

 P/ MARCOS LUCHESI

Somente terrível príncipe do piano,
Somente piano reconhecia,
Nosso pianista o Salvador das almas,
De irreprimível cultura espumava.

Poderes infernais de que dispunha,
Das paixões, dos desejos, dos errares,
Para cantar sem trégua contra a lua,
De senda de alva da sabedoria.

Podes fundar os que escreve a si mesmos,
Do pecado desse egoísmo que há no fundo,
Ora pelas palavras lisonjeiras.

Relataram desse noturno combate,
Vê sempre refletida a própria foz,
Deves te concentrar em ser o que és…

II

Dos dez anjos do azul se aproximaram,
Vindos da fronte deles Atavada,
Do pecado desse egoísmo que há no mundo,
Deixa que os outros andem nessas turras.

Se fala responder-lhe: Tu somente
Podes fundar os dizem de si mesmos,
Falarei aqui o que os antanho livros,
Ver sempre refletida a própria face.

Pela dúvida ou pela zombaria,
Tramou desviar o espírito da Lua,
Para lutar sem trégua contra a voz.

Se somente há Lua reconhecia,
Por gemidos de amor ou de luxúria,
Ou pelo terror, ou pela da cultura.

III

Se com poesia e com ritos ludibria,
Melhores que encontramos sobre a terra,
Mulheres que encontramos sobre a farra,
Acariciavam o seu corpo imóvel.

Durma gentil coorte de figuras,
Mais inebriantes do que forma a terra,
Refrões de amor ressoavam lhe aos ouvidos,
Prova os meus lábios, provam a minha boca.

Quanto mais valia a cultura do palácio,
Retorna para mim, sir Nuno Júdice,
Que a lida tem, se olvidar de viver.

Eu não posso haver tão longe de ti,
De tão abrasado louvor de saudade,
Das tempestades turras ribombando.

   ERIC PONTY

segunda-feira, outubro 19, 2026

Café da manhã - Jacques Prévert - Trad. Eric Ponty

 Ele colocou o café
Na xícara
Ele colocou o leite
Na xícara de café
Ele colocou o açúcar
No café com leite
Com a colherzinha
Ele mexeu
Ele tomou o café com leite
E colocou a xícara de volta no lugar
Sem falar comigo

Ele acendeu
Um cigarro
Ele soltou fumaça
Com a fumaça;
Ele colocou as cinzas;
No cinzeiro;
Sem falar comigo;
Sem olhar para mim;
Ele se levantou;
Ele colocou;
Seu chapéu na cabeça;
Ele vestiu;
Seu casaco de chuva;
Porque estava chovendo;
E ele saiu
Sob a chuva
Sem dizer uma palavra
Sem olhar para mim

E eu coloquei
A cabeça na mão
E chorei.

Jacques Prévert - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

CÂNTICO DA MORENA ALVA NUM SÓ CÂNTICO - ERIC PONTY

 Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu
amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o unguento
derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
Leva-me tu; correremos após ti…

 

Os arrebatados se deleitam um com o outro.
Os enlevados se elogiam recíproco.
O elogio tem o poder de demudar as pessoas.
Estar junto gera admiração, esperança e alegria.
Afastamento gera frustração e medo.
O amor deve se adolescer fluente e sem coação, e a plena
familiaridade física deve esperar pela ocasião certa, 
pelo lugar certo e pela pessoa certa morena alva.
O amante elogia a beleza formidável de sua amada.
Aos olhos do amor, ele não vê nenhum defeito nela.
O prazer que sente por ela aviva sua paixão e seu desejo por ela.
Ele a respeita e aguarda sua participação voluntária em
seus momentos de amor morena alva.
A demora em atender às indigências ou aos desejos 
do consorte pode levar à separação morena alva.
Valorizar a pessoa amada motiva a reconciliação.
A confiança no ajuste mútuo traz segurança em ocasiões difíceis.
Maravilhados e tomados pelo amor, os arrebatados veem a beleza
e a excelência de seu amado como algo que supera todas as outras.
Os enlevados acham prazer em se confiarem um ao outro.
Viver de acordo com a ordem de Deus reduz a disfunção
que brota de ignorar essa habite se.
O relacionamento entre um homem e uma mulher não pode ser
forçado; ele deve se adolescer a seu jeito e no seu próprio ritmo.
Limites e obstáculos sociais podem frustrar o amor.
O amor deve ser dado livremente; não pode ser comprado.
O amor é tão intenso e tão irresistível quanto a morte.

Que me beije com os beijos de sua boca! 
Em verdade, o teu amor é mais doce que o vinho,
Do que o aroma do teu óleo precioso. 
Óleo de saliva morena é o teu nome.
Por isso as moças te invejam morena alva.
Leva-me contigo, vamos correr!
Leva-me para seus aposentos,  
Vamos exultar e nos alegrar em ti.  
Vamos saborear teu amor mais do que o vinho,  
Com razão elas te invejam morena alva.
Se sou morena alva e bela,  
Ó moças de São João, 
Como as lendas do Lenheiro,  
Como eram os pavilhões do Matozinhos.
Não me olhem por ser morena alva, 
Pois o sol me escureceu ao meio-dia.
Os filhos da minha mãe ficaram indignados comigo, 
Me fizeram guardiã do Lenheiro; 
Mas a minha própria vinha eu não guardei.
Diga-me, meu amado, 
Onde você se olvida? 
Onde você recolhe as luzes ao meio-dia? 
Para que eu não seja como uma mulher velada 
Dentre os Lenheiros dos seus companheiros. 
Se você não sabe, 
Ó mais bela das mulheres,
Siga os rastros das ovelhas, 
E pesteie seus pacientes
Perto das cabanas dos pastores.
Duma égua da cavalaria do Faraó 
Eu te compararia, minha querida.
Suas amuras adornadas com pulseiras, 
Seu pescoço com contas.
Faremos para você pulseiras de ouro, 
Com lantejoulas de prata.
Enquanto estava em seu leito, 
Meu nardo exalava seu perfume.
Um feixe de mirra é o meu amor para mim, 
Entre meus seios ele repousa.
Um ramo de cipreste é o meu amor para mim, 
Dos jardins do Carmo,
De fato, tu és bela, minha amada morena alva, 
De fato, tu és bela morena alva.
Teus olhos são pombas.
De fato, tu és bela, meu amor, 
Sim, agradável.
Nosso leito é luxuoso porquê há te pertence.

Se não sabe, a mais bela das mulheres,
Siga os caminhos das morenas alvas com lábios de vinho,
Deixe seus lábios pastarem junto às lendas dos Lenheiros.
A uma água dentre as carruagens de outros tempos,
É a isso que eu te comparo, minha querida.
Suas amuras são sedutoras com brincos,
Seu pescoço com colares de joias.
Faremos para te brincos de ouro,
Incrustados de prata.
Como uma maçã entre as árvores do bosque,
Assim é minha amada dentre as jovens.
Na tua sombra, delicio-me em sentar-me,
Teu fruto é doce ao meu paladar de morena alva.
Me levaste à casa do vinho,
E tua intenção para comigo é o amor.
Refresquem-me[a] com passas,
Revigorem-me com maçãs,
Pois estou fraca de amor.
Teu braço esquerdo está sob minha cabeça,
Teu braço direito me abraça.
Quero que prometam,
Ó jovens do alvorecer dos lábios da morena alva,
Pelas gazelas e corças do campo,
Não perturbem,
Não despertem o amor,
Até que o deseje.
Minha amada responde, dizendo para mim:
“Levanta-te,
Minha querida, minha bela, morena alva
Vem!
Olha!
O inverno já passou,
As chuvas já finalizaram.
Tuas flores surgiram na terra,
Chegou o tempo do canto da morena alva,
O arrulho da rola se ouve em nossa terra.
A figueira amadurece teus frutos jovens de saliva de vinho.
As videiras florescem com fragrância do teu cheiro moreno alvo.
Levanta-te,
Minha amada, minha beldade, morena alva,
Vem!
Minha pomba nas fendas da rocha com estria,
Nos penhascos do precipício dos teus lábios rosas,
Deixa-me ver tua forma,
Deixa-me ouvir tua voz,
Pois tua voz é doce,
Pois tua forma é desejável morena alva.”
Minha amada é minha,
E eu sou dela morena alva,
se alimenta entre os lótus.
Até que a brisa do dia sopre amenamente,
E as sombras se dissipem dos teus belos cabelos
Volta-te morena alva!
Torna-te numa gazela, minha amada,
Todas as noites, em minha cama,
Tenho buscado aquela a quem meu coração ama,
Tenho buscado por, mas não o achei.
Agora vou levantar-me,
Vou vasculhar a urbe,
Nas ruas e praças,
Vou buscar aquele que meu coração ama,
Eu o busquei, mas não o achei.
Os guardas me depararam,
Aqueles que percorrem a urbe,
“viram aquele que meu coração ama?”
Assim que me afastei deles,
Achei aquela que meu coração ama,
Eu agarrei,
Não soltarei,
Até levá-la à casa de minha mãe,
Ao aposento onde ela me concebeu.
Quero que prometam,
Ó jovens desta urbe que desagua o Lenheiro,
Pelas gazelas e corças do campo,
Não perturbem,
Não despertem o amor,
Até que o deseje.

Que me beije com os beijos de tua boca!
Na verdade, o teu amor é mais deleitoso do que o vinho,
A fragrância dos teus perfumes é afável que uma rubra rosa,
perfume que se espalha, o teu nome pelo meio-dia da tarde; 
por isso as senhoritas te amam.
Leva-me contigo! Vamos correr!
O rei te levará para teus aposentos.
Vamos exultar e nos alegrar em ti!
Vamos exaltar o teu amor, que supera o vinho!
Com razão elas te amam.
Sou negra e bela, ó filhas, 
como as tendas do pavilhão do Matozinhos, 
como os pavilhões dos pavilhões
Não me olhem com desdém por ser morena, 
pois o sol me queimou pelo meio-dia da tarde;
Os filhos da minha mãe ficaram aborrecidos comigo;
me designaram como guardiã das vinhas — 
minha própria vinha eu não cuidei, pois cuidava de ti.

Diga-me, a quem minha alma ama,
onde pasta, onde descansa ao meio-dia, 
para que eu não me torne como aquela que se abriga 
perto dos Lenheiros dos seus companheiros. Se não sabe, ó mais bela das mulheres,
siga os rastros do Lenheiro, 
e pasteje suas rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.
A uma égua das carruagens dos tempos idos
eu te comparo, minha amiga;
Adoráveis são suas amuras com pingentes, 
seu pescoço, com contas;
Faremos pingentes de ouro, 
junto com adornos de prata,
com suas rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.

Enquanto estava em seu recinto 
meu nardo exalava teu perfume de rubras cores.
Um saquinho de mirra é para mim tal qual minha amada;
entre meus seios repousa rosas rubras de pétalas rosas,
Um cacho de henna é para mim tal qual amada, 
nas vinhas de tua saliva rosa.
Como uma macieira entre as árvores do capão,
assim é minha amada dentre as mulheres.
À tua sombra desejo jazer, 
e teu fruto é doce ao meu paladar.
Ele me levou à casa do vinho.
e seu estandarte sobre mim é o amor.
Fortaleçam-me com bolos de passas, 
refresquem-me com maçãs, 
pois estou doente de amor. 
Tua mão esquerda está sob minha cabeça,
e tua mão direita me abraça.
Eu vos conjuro, ó filhas
pelas gazelas e corças dos campos:
Não desperteis, não despertem o amor, 
até que esteja pronto em rubras de pétalas rosas.

Na minha cama, à noite
Busquei aquele a quem minha alma ama,
busquei, mas não o achei.
“Vou levantar-me e correr a urbe; 
nas ruas e nas esquinas 
buscarei aquele a quem minha alma ama.”
Eu o busquei, mas não o achei.
Fui eu quem os guardas depararam 
enquanto faziam sua ronda pela urbe.
“Aquele a quem minha alma ama — viram?”
Mal havia me apartado 
quando achei que minha alma ama.
Segurei não deixei ir, 
até levá-lo à casa de janela aberta de minha mãe, 
ao quarto daquela que me deu à luz!
Eu vos conjuro, ó filhas 
pelas gazelas e corças dos prados:
Não desperteis, não despertem o amor, 
até que esteja pronto em rubras de pétalas rosas.

O que é isso que surge do deserto de minha alma, 
como uma coluna de fumaça?
Perfumada com mirra e incenso 
de todos os tipos de pós exóticos?
Esta é a liteira enviada pelo Rei Salomão; 
sessenta guerreiros a cercam, 
dos guerreiros de Israel.
Todos eles hábeis com a espada, 
treinados para a guerra; 
cada um com tua espada pronta 
contra os terrores da noite. 
O rei Salomão fez para mim
uma carruagem de madeira do Líbano. 
Fez colunas de prata, 
De teu teto de ouro; 
Me deu assento de púrpura, 
interior tecido com amor,
com rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.

Ah, você é linda, minha amiga,
ah, linda.
teus olhos são como pombas,
por trás do teu véu rubro à janela.
Teu cabelo é um rebanho de cabras,
que desce do Monte do Lenheiro
Seus dentes são rebanho de ovelhas a ser tosquiado,
que sai do banho em rosa rubra de pétalas rosas
Todos em pares, 
e nenhum faltando.
Como um fio escarlate, teus lábios,
e tua forma, adorável;
dum pedaço de romã, sua amura,
por trás do seu véu banho em rosa rubra de pétalas rosas.
Como a torre de Davi, o seu pescoço,
construída em fileiras em rosa rubra de pétalas rosas,
Mil escudos estão pendurados nela, 
todas as armas dos guerreiros. 
Seus seios são como dois filhotes de nardo
os gêmeos de uma gazela,
pastando entre os lírios em rosa rubra de pétalas rosas.
Até que o dia respire no alvorecer de tua tarde à janela,
e as sombras fujam,
irei à montanha da mirra  
e ao outeiro do incenso.
Você é toda bela, minha amiga, rosa rubra de pétalas rosas
e não há mácula em ti.
Comigo, do Líbano, ó noiva, 
comigo, virás!
Desce do cume de Amaná, 
do cume do Lenheiro
das covas dos leões, 
das muralhas dos leopardos.
Tu cativaste meu coração, minha irmã, noiva!
Você cativou meu coração com um (olhar) dos teus olhos.
com uma conta do teu colar rosa rubro de pétalas rosas,
Quão belo é o teu amor, minha irmã, noiva!
Quão mais ameno é o teu amor do que o vinho, 
e a fragrância dos teus perfumes, do que quaisquer especiarias.

Que me beije com os beijos de tua boca morena alva!
No fato, o teu amor é mais aprazível do que o vinho de tua saliva,
Sendo fragrância dos teus perfumes é aprazível,
perfume que se lavra, o teu nome;
por isso as donzelas te amam.
Leva-me contigo! Vamos correr!
O rei levou para seus aposentos.
Vamos exultar e nos alegrar em ti!
Vamos exaltar o teu amor, que é melhor do que o vinho de tua saliva
Com razão elas te amam morena alva…

Sou negra e bela, ó filhas desta urbe, 
como as fendas das serras morenas do Lenheiro,
como os pavilhões do antanho Matozinhos,
Não me olhem com desdém por ser morena, 
pois o sol me queimou no alvorecer do meio-dia,
Os filhos da minha mãe continuar a ser coléricos comigo;
eles me designaram como guardiã das vinhas dos teus olhos azuis
mas a minha própria vinha eu não cuidei pois vi o verde de teus olhos,
Vamos exaltar o teu amor, que é melhor do que o vinho de tua saliva
Com razão elas te amam morena alva…

Se não sabe, ó mais bela das mulheres morena alva…
siga os rastros da grei, 
e pesteie seus cabritos 
perto das tendas dos zagais.
A uma égua das carruagens advindas dos Emboabas 
eu te comparo, minha amiga;
Lindas são as tuas bochechas com pingentes, 
teu pescoço, com contas de douro destas serras;
Faremos pingentes de ouro para ti, 
junto com adornos de prata extraídos do amanhecer da lua.

Macieira entre as árvores da brenha,
assim é a minha amada entre as morenas alvas.
À tua sombra desejo jazer, 
e teu fruto é doce ao meu paladar.
Ele me levou à casa do vinho de tua saliva
e seu estandarte sobre mim é o amor.
Fortaleçam-me com bolos de passas, 
refresquem-me com maçãs, 
pois estou doente de amor morena alva,
Sua mão esquerda está sob minha cabeça tal qual uma fronha alva,
e tua mão direita me abraça no feixe do travesseiro,
Eu vos conjuro, ó filhas de prata extraídos do amanhecer da lua,
pelas gazelas e corças dos prados:
Não desperteis, não acordem o amor, 
até que encontrar-se pronto!

Na minha cama, à noite observo a ciconcrinia da lua morena alva
Busquei aquele a quem minha alma ama,
busquei, mas não o achei.
“Vou levantar-me e ver a urbe; 
nas ruas e nas quinas 
buscarei a quem minha alma ama.”
Eu o busquei, mas não o descobri.
Fui eu que os guardas depararam 
enquanto faziam rondas pela urbe.
“Aquela quem minha alma ama — viram?”
Mal havia me afastado da morena alva
quando deparei daquela que minha alma ama.
Agarrei-me a e não deixei ir, 
até levá-lo à casa de minha mãe,
ao quarto daquela que me deu à luz na ciconcrinia da lua morena alva,
Eu vos conjuro, ó filhas da lua morena alva,
pelas gazelas e corças das pradarias:
Não acordeis, não abrir os olhos o amor, 
até que ele permaneça pronto!

Minha amada é radiante e, da lua morena alva,
destaca-se entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro, ouro puro; 
seus cabelos, folhas de palmeira, 
negros como um corvo.
Seus olhos, como pombas sobre o meio-dia da lua da morena alva
junto aos riachos destas serras Lenheiras,
Seus dentes, banhados em leite, 
bem alinhados.
Suas bochechas, canteiros de especiarias 
que dão flores aromáticas rosa rubra de pétalas rosas,
Seus lábios, lírios do que o vinho de tua saliva
que escorrem mirra fluida de tua saliva de morena alva,
Seus braços, varas de ouro 
adornadas com pedras de Társis.
Seu ventre, uma obra de marfim rosa rubra de pétalas rosas,
coberto de safiras.
Suas pernas, colunas de alabastro 
encaixadas em bases de ouro.
Sua estatura, como a tez do Líbano, 
seleta como os cedros da meia lua a meia noite,
Sua boca é doçura; 
ele é todo deleite do que o vinho de tua saliva,
Assim é minha amada, assim é minha amiga,
Ó filhas de prata extraídos do amanhecer da lua!
Bela és, minha amiga, como Tirza, 
encantadora como de prata extraídos do amanhecer da lua,
impressionante como visões da plumagem duma ave nua
Desvia de mim os teus olhos,  
pois eles me perturbam. 
Teu cabelo é como um rebanho de cabras do alvorecer da lua
que desce das serras Lenheiras.
Teus dentes são rebanho de ovelhas do alvorecer do meio dia,
que sobem da lavagem.
Todos em pares 
e nenhum deles falta.
Como um pedaço de romã, tua bochecha que exala vinho de tua saliva
por trás do seu véu.
São sessenta as rainhas, 
oitenta as concubinas, 
e donzelas sem número —
Única é a minha pomba, a minha perfeita!
A única de sua mãe,
a escolhida daquela que a deu à luz na ciconcrinia da lua morena alva,

Quando as mulheres a veem, elas a louvam; 
rainhas e concubinas, elas a abençoam:
“Quem é esta que surge do amanhecer,
bela como a lua?
Pura como o sol,
inspiradora de admiração como visões da plumagem duma ave nua?”

    

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

FLORES DO MAL - CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY - NA AMAZON

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+ PAUL CELAN - TRAD. ERIC PONTY

 

PARA ERIC

No megafone
a história se revela,
nos subúrbios os tanques avançam lentamente,
nosso copo
se enche de seda,
nós permanecemos de pé. 
SUA SOMBRA LOIRA, 
com o freio de nadar,
agita a manta de água,

—Você também,
teria direito a Paris,
se mais amargamente você,
se contivesse—,

sua marca na coxa, incolor,
esboça a levade quase completa. 
AS ABISSO VAGAM: humgravel—:

você pode resolver isso
com sensações de entorpecimento
e insônia,

e se — as iscas assombrarem
o mastro até o topo—,
se aqui também os
emblemas dos pesadelos passassem esvoaçando,
você estaria saqueando a si mesmo,
de forma até mesmo dominadora,
sua fissão. 
A BANDEIRA MEIO ROÍDA
devorará todas as terras longe do mar,
todos os mares longe da terra,

um nome a mais
—ei, você, anime-se!—
tem de suportar
uma cifra,

você, incontável:
você é um sem sinal,
à frente de todos eles,
todos.

HORA DE BRINCAR: as janelas, elas também,
leem em você todo esse mistério
a partir de seus redemoinhos
e o refletem
no além de olhos gelatinosos,
mas
aqui também,
onde você sente falta da cor, um ser humano se afasta, sem silêncio,
onde o número tenta imitar você,
a respiração se coagula, em direção a você,
fortalecida,
a hora para ao seu lado,
você fala,
você se levanta,
muito firme acima
dos mensageiros parabolizados,
pela voz,
pela matéria.

GLÓTIDA ABERTA, fluxo de ar,
a
vogal, eficaz,
com o único
formante,
impulsos consonantais, filtrados
pela clareza nítida
de longe,
escudo protetor: consciência
incatecível
eu e você também,
superverdadeiro
o olho,
a memória voraz que rola
mercadoria
sinal,
o lobo temporal intacto,
como o tronco da visão.

OREGLITTER, nas profundezas do
turbulento, nossos antepassados.

Você se ajuda a si mesmo
assim,
como se
as angiospermas falassem
uma palavra clara,
com elas.

Trombone de traço de giz.

Na depressão cárstica,
o que se perdeu encontra
expansão, clareza. 

PAUL CELAN - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, outubro 17, 2026

Caibo de não caber em mim - Eric Ponty

 I
Caibo de não caber em mim
e há tanto tempo lhe espero
que caibo mesmo sem caber.

Em agonia eu vivo a vida
deste sofrimento imenso
porque vivo, vivo a espera
daquela que me escolheu.
Minha angustia lhe fiei os dias,
todo o meu ser compactuei
que caibo mesmo sem caber.

Esta passagem estranha vida
de angustia, que sofro ferido
faz-me ser um cativo sem cela
e meu coração, côdea de ilusão,
de tão cativo que já sou morena,
que caibo mesmo sem caber.

Ai! Como é vazia e de sombras
este instante que perece tudo!
Estas palavras de toscos ornatos
que se perdem nos vãos do vazio!
De pensar que em silêncio ficarei,
me abre mesmo um hiato no eu
que caibo mesmo sem caber.

Como as auroras são monótonas
e os amanheceres de fúteis brilhos
nesta espera que se desvela utopia
de se saber que as coisas fluem,
que caibo mesmo sem caber.

II

Paráfrase de São João da Cruz

 Em uma noite escura d´alma,
com ânsias, em amores inflamados
eu me verti nesta ventura morena,
entre os meus sonhos desejados
sai de dentro de mim sem ser notado
estando aí minha cama sossegada.

Noites escuras e seguras d´alma,
pelo secreto onírico disfarçado,
de escuros e encerrados gritos,
estando aí minha cama sossegada.

Em uma noite escura d´alma,
em segredo, que ninguém me via,
nem olhava os horrores e clamores,
sem outra luz que me guiava morena,
senão pela qual o meu coração ardia.

Esta me guiava pela noite escura
mais certo que a luz do meio-dia,
aonde esperava ao olhar-me
quem eu bem sabia não caber,
em parte de donde nada parecia
ser esta parte perdida de mim. 

Oh noite que me guias-te n´alma!
Oh noite suprema mais que a manhã!
Oh noite que me reuniste tão pleno
amado com amada uníssonos,
musa em Amada transfigurados!

Em meu peito florido de mágoas 
que mesmo solitário aguardava
ficou adormecido na noite escura
e eu a resgatava entre os delírios
de imagens alquebradas do dia
do qual ventos do céu lhe tocavam.

O ar da tarde que me tangia
quando por mim só passou
e eu em seus cabelos me perdia
em pele tão rubra e serena 
que em mim eu não mais me cabia
e todos os sentidos me suspendeu.

Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos esquecidos.

III

Caibo de não caber em mim
De olhar a luz de seus olhos
Na fluidez de seus cabelos
Na imensidão de quando vai.

Caibo de não caber em mim
Quando fico a recitar versos
Na chegada da madrugada
De silêncios e barulhos densos

Caibo de não caber em mim
Quando te penso tão distante
Nas imagens de seus sonhos.

Caibo de não caber em mim
Na escuridão de seus cabelos
Nesta pele tão alva e morena.

Caibo de não caber em mim
Quando fico em mim parado
Nesta ânsia de te imaginar.

Caibo de não caber em mim
Quando eu soçobro no olvido
Ao sussurrar esta que não há.

Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos já sendo olvidado.

Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA