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segunda-feira, setembro 28, 2026

SONETOS ELISABETANOS PARA MINHA DOUTORA - ERIC PONTY

 

 
 

Contemple-se limpidez e diga ao seu aspecto
que já se reproduza sem demora de ato;
se não renovar sua frescura em outro,
desolará o mundo e uma mãe noutro.

Pois que donzela haverá tão altiva
ponto de fechar seu vergel à sua causa?
E quem tão brioso que prefira
privar-nos do encanto com sua sorte?

Você é conceito vivo de sua mãe assaz;
vê em você o frescor de primaveras;
também, na vetustez, poderá ser vista.

E se verá na idade qual douro que agora vive.
Mas se preferir que não se lembrem mais de ti,
Não os tenha, e conceito morrerá consigo.


II

Encanto transbordante, por que deixas
tua deixa de encanto apenas em ti mesma?
A Natureza quase nada dá de graça:
apenas presta àqueles que dão sem limites.

Por que, então, belo egoísta, abusas
da bondade com que foste dotada?
Usurário transitório, por que afadigas
tal falta e não achas descanso?

Se teu único cliente és tu mesmo,
revogarás sugando teu próprio encanto;
assim, quando enfim chegar tua hora.

Reserva irás contrapesar teu saldo?
Sem uso, teu encanto é algo caçado;
usada, se torna teu algoz traçada.


III


As horas francas que esculpiram
desse rosto que cativa nos olhares
serão as mesmas que, como tiranos,
desgraçarão o que agora irradia graça.

O tempo insensível transfigura
o verão garboso em inverno feroz:
a seiva esfriada, os galhos nus,
o belo sob a neve, desse prado árido;

Dessa essência do verão de não continuar
Tão cativa em seu cárcere cristalino,
a bondade e seu efeito, ambos perecem.

Mesmo tempo, sem deixar memória viva.
As flores, mesmo que hibernem, destiladas,
não faíscam mais, mas guardam a essência.


V

Vê só! Quando a luz suave renasce
e teu feixe que surge nesse Oriente,
todos os olhos prestam homenagem
há sagrada majestade deste astro.

E quando, já em sua meia-idade, alcança,
robusto e ainda jovem, o cume etéreo,
destes olhares não deixam de adorá-lo,
enquanto seguem sua travessia dourada.

Mas quando se retira lentamente
em carruagem cansada, tal qual um ancião,
destes olhos que o honravam já se desviam.

Se deixam de seguir em seu fluxo.
Tu, que estás no zênite da jornada,
sem filhos, perecerás desapercebido.


VI

Será que o medo do choro de uma viúva
te fará desperdiçar tua vida sozinho?
Se pereceres sem deixar descendência,
do mundo chorará qual de uma esposa.

Se grávida de viuvez e não de vida,
pois não deixas rastros ao partir,
enquanto outras viúvas, quando olham
para os olhos de teus filhos, veem o pai.

O que um esbanjador gasta no mundo
passa de uma mão para outra, não se perde.
O belo, quando desperdiçado, dura pouco;

De quando não é usado, se destrói para sempre.
Não ousa há bater no amor ao próximo no peito
de quem já cometeu então um crime tão abjeto.

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

AS FLORES DO MAL - CHARLES BAUDELAIRE - TRADUZIDO POR ERIC PONTY - A VENDA NA AMAZON.COM.BR

 

 
 
 
 
 
 
 
 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

MEU SEGREDO - FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY


 S. Agostinho — Petrarca. 

S. Agostinho. O que tens a dizer, ó homem de pouca força? Com o que estás a sonhar? O que procuras? Não te lembras de que és mortal? Petrarca. Sim, lembro-me muito bem disso, e um arrepio percorre-me sempre que essa lembrança surge no meu peito. S. Agostinho. Que te lembres, de fato, como dizes, e que tenhas cuidado consigo mesmo. Ao fazê-lo, poupar-me-ás muitos problemas. Pois não há dúvida de que recordar a própria miséria e meditar frequentemente sobre a morte é o auxílio mais seguro para desprezar as seduções deste mundo e para acalmar a alma no meio das suas tempestades e turbulências, desde que tal meditação não seja superficial, mas penetre até aos ossos e à medula do coração. No entanto, temo muito que aconteça no teu caso o que já vi em tantos outros, e que te vejas a enganar-te a ti próprio. Petrarca. Em que sentido te referes? Pois não compreendo claramente o sentido das suas observações. S. Agostinho. Ó raça de homens mortais, é isto que, acima de tudo, me deixa espantado e temeroso por vós, quando vos vejo, por vossa própria vontade, agarrados às vossas misérias; fingindo que não conheceis o perigo que paira sobre as vossas cabeças e, se alguém vê-lo colocar diante dos vossos olhos, tentais afastá-lo da vossa vista e colocá-lo bem longe. Petrarca. Em que sentido somos assim tão loucos? S. Agostinho. Achas que existe algum homem vivo tão irracional que, se se visse acometido por uma doença perigosa, não desejasse ansiosamente recuperar a bênção da saúde? Petrarca. Não creio que se tenha ouvido falar de tal caso. S. Agostinho. E achas que, se alguém desejasse algo com toda a sua alma, seria tão ocioso e descuidado ao ponto de não recorrer a todos os meios possíveis para obter o que desejava? Petrarca. Ninguém, penso eu, seria tão insensato. Santo Agostinho. Se estamos de acordo nestes dois pontos, devemos também concordar num terceiro. Petrarca. Qual é esse terceiro ponto? S. Agostinho. É este: tal como aquele que, através de profunda meditação, descobriu que é infeliz desejará ardentemente deixar de o ser; e tal como aquele que formulou esse desejo procurará concretizá-lo, assim também aquele que procura será capaz de alcançar o que deseja. É evidente que o terceiro passo depende do segundo, tal como o segundo depende do primeiro. E, por isso, o primeiro deve ser, por assim dizer, uma raiz de salvação no coração do homem. Ora, vós, homens mortais, e tu próprio, com todo o teu poder de espírito, continuais a dar o vosso melhor, através de todos os prazeres do mundo, para arrancar do vosso coração está raiz salvadora, o que, como disse, me enche de horror e espanto. Com justiça, portanto, sois castigados pela perda desta raiz da salvação e pela consequente perda de tudo o resto. Petrarca. Prevejo que está queixa que apresentas venha a ser longa e exija muitas palavras para a desenvolver. Importarias, portanto, de adiá-la para outra ocasião? E para que eu possa chegar com mais segurança à tua conclusão, poderíamos dedicar um pouco mais de tempo às premissas? S. Agostinho. Tenho de fazer uma concessão à tua lentidão de espírito; por isso, por favor, interrompe-me em qualquer ponto que desejares. Petrarca. Bem, se tiver de falar por mim próprio, não consigo acompanhar a vossa linha de raciocínio. Santo Agostinho. Que obscuridade pode haver nisso? Sobre o que está agora em dúvida? Petrarca. Creio que há uma infinidade de coisas pelas quais ansiamos ardentemente, que procuramos com toda a nossa energia, mas que, no entanto, por mais diligentes que sejamos, nunca obtivemos nem jamais obteremos. Santo Agostinho. Isso pode ser verdade em relação a outros desejos, mas no que diz respeito ao que estamos agora a discutir, o caso é totalmente diferente. Petrarca. O que o leva a dizer isso? Santo Agostinho. Porque todo o homem que deseja ser libertado da sua miséria, desde que o deseje sinceramente e de todo o coração, não pode deixar de obter aquilo que deseja. Petrarca. Ó padre, o que é isto que estou a ouvir? Na verdade, são poucos os homens que não sentem que lhes faltam muitas coisas e que não confessariam que, até certo ponto, são infelizes. Qualquer um que questione o seu próprio coração reconhecerá que assim é. Por consequência natural, se a plenitude da bênção torna o homem feliz, tudo aquilo de que carece irá, na mesma medida, torná-lo infeliz. Todos os homens gostariam de se livrar deste fardo de infelicidade, como todos sabem; mas todos sabem também que muito poucos têm sido capazes de o fazer. Quantos são aqueles que sentiram o peso esmagador da dor, seja por doença física, seja pela perda de entes queridos, seja pelo cativeiro, pelo exílio, pela pobreza extrema ou por outras desgraças que demoraria demasiado tempo a enumerar; e, no entanto, aqueles que sofrem estas coisas têm, com demasiada frequência, de lamentar que não lhes seja permitido, como sugeris, serem libertados. Para mim, então, parece-me absolutamente indiscutível que uma multidão de homens é infeliz por obrigação e contra a sua vontade. Santo Agostinho. Tenho de te levar bem para trás no tempo e, tal como se faz com os muito jovens, cuja inteligência é fraca e lenta, tenho de te pedir que sigas o fio do meu discurso a partir dos seus elementos mais simples. Pensava que a tua mente fosse mais avançada e não fazia ideia de que ainda precisasses de lições tão infantis. Ah, se ao menos tivesses tido em mente aquelas máximas verdadeiras e salvadoras dos sábios que tantas vezes leste e releste comigo; se, permito-me dizer, tivesses trabalhado para ti próprio em vez de para os outros; se tivesses aplicado o teu estudo de tantos volumes à orientação da tua própria conduta, em vez de à vaidade e à conquista do elogio vazio dos homens, não precisarias de repetir tais loucuras mesquinhas e absurdas. Petrarca. Não sei aonde queres levar-me, mas já sinto o rubor a subir-me à testa e sinto-me como um aluno perante um professor zangado. Antes de saberem do que são acusados, pensam em muitas ofensas de que são culpados e, à primeira palavra que sai dos lábios do professor, ficam cheios de confusão. Nesse mesmo caso, também eu estou consciente da minha ignorância e de muitas outras falhas e, embora não perceba o sentido da vossa admoestação, como sei que quase tudo de mau pode ser-me imputado, coro-me ainda antes de termos terminado de falar. Por isso, peço-vos que expliquem mais claramente qual é esta acusação mordaz que me dirigiste.
S. Agostinho — Petrarca. S. Agostinho. O que tens a dizer, ó homem de pouca força? Com o que estás a sonhar? O que procuras? Não te lembras de que és mortal? Petrarca. Sim, lembro-me muito bem disso, e um arrepio percorre-me sempre que essa lembrança surge no meu peito. S. Agostinho. Que te lembres, de facto, como dizes, e que tenhas cuidado consigo mesmo. Ao fazê-lo, poupar-me-ás muitos problemas. Pois não há dúvida de que recordar a própria miséria e meditar frequentemente sobre a morte é o auxílio mais seguro para desprezar as seduções deste mundo e para acalmar a alma no meio das suas tempestades e turbulências, desde que tal meditação não seja superficial, mas penetre até aos ossos e à medula do coração. No entanto, temo muito que aconteça no teu caso o que já vi em tantos outros, e que te vejas a enganar-te a ti próprio. Petrarca. Em que sentido te referes? Pois não compreendo claramente o sentido das suas observações. S. Agostinho. Ó raça de homens mortais, é isto que, acima de tudo, me deixa espantado e temeroso por vós, quando vos vejo, por vossa própria vontade, agarrados às vossas misérias; fingindo que não conheceis o perigo que paira sobre as vossas cabeças e, se alguém vê-lo colocar diante dos vossos olhos, tentais afastá-lo da vossa vista e colocá-lo bem longe. Petrarca. Em que sentido somos assim tão loucos? S. Agostinho. Achas que existe algum homem vivo tão irracional que, se se visse acometido por uma doença perigosa, não desejasse ansiosamente recuperar a bênção da saúde? Petrarca. Não creio que se tenha ouvido falar de tal caso. S. Agostinho. E achas que, se alguém desejasse algo com toda a sua alma, seria tão ocioso e descuidado ao ponto de não recorrer a todos os meios possíveis para obter o que desejava? Petrarca. Ninguém, penso eu, seria tão insensato. Santo Agostinho. Se estamos de acordo nestes dois pontos, devemos também concordar num terceiro. Petrarca. Qual é esse terceiro ponto? S. Agostinho. É este: tal como aquele que, através de profunda meditação, descobriu que é infeliz desejará ardentemente deixar de o ser; e tal como aquele que formulou esse desejo procurará concretizá-lo, assim também aquele que procura será capaz de alcançar o que deseja. É evidente que o terceiro passo depende do segundo, tal como o segundo depende do primeiro. E, por isso, o primeiro deve ser, por assim dizer, uma raiz de salvação no coração do homem. Ora, vós, homens mortais, e tu próprio, com todo o teu poder de espírito, continuais a dar o vosso melhor, através de todos os prazeres do mundo, para arrancar do vosso coração está raiz salvadora, o que, como disse, me enche de horror e espanto. Com justiça, portanto, sois castigados pela perda desta raiz da salvação e pela consequente perda de tudo o resto. Petrarca. Prevejo que está queixa que apresentas venha a ser longa e exija muitas palavras para a desenvolver. Importarias, portanto, de adiá-la para outra ocasião? E para que eu possa chegar com mais segurança à tua conclusão, poderíamos dedicar um pouco mais de tempo às premissas? S. Agostinho. Tenho de fazer uma concessão à tua lentidão de espírito; por isso, por favor, interrompe-me em qualquer ponto que desejares. Petrarca. Bem, se tiver de falar por mim próprio, não consigo acompanhar a vossa linha de raciocínio. Santo Agostinho. Que obscuridade pode haver nisso? Sobre o que está agora em dúvida? Petrarca. Creio que há uma infinidade de coisas pelas quais ansiamos ardentemente, que procuramos com toda a nossa energia, mas que, no entanto, por mais diligentes que sejamos, nunca obtivemos nem jamais obteremos. Santo Agostinho. Isso pode ser verdade em relação a outros desejos, mas no que diz respeito ao que estamos agora a discutir, o caso é totalmente diferente. Petrarca. O que o leva a dizer isso? Santo Agostinho. Porque todo o homem que deseja ser libertado da sua miséria, desde que o deseje sinceramente e de todo o coração, não pode deixar de obter aquilo que deseja. Petrarca. Ó padre, o que é isto que estou a ouvir? Na verdade, são poucos os homens que não sentem que lhes faltam muitas coisas e que não confessariam que, até certo ponto, são infelizes. Qualquer um que questione o seu próprio coração reconhecerá que assim é. Por consequência natural, se a plenitude da bênção torna o homem feliz, tudo aquilo de que carece irá, na mesma medida, torná-lo infeliz. Todos os homens gostariam de se livrar deste fardo de infelicidade, como todos sabem; mas todos sabem também que muito poucos têm sido capazes de o fazer. Quantos são aqueles que sentiram o peso esmagador da dor, seja por doença física, seja pela perda de entes queridos, seja pelo cativeiro, pelo exílio, pela pobreza extrema ou por outras desgraças que demoraria demasiado tempo a enumerar; e, no entanto, aqueles que sofrem estas coisas têm, com demasiada frequência, de lamentar que não lhes seja permitido, como sugeris, serem libertados. Para mim, então, parece-me absolutamente indiscutível que uma multidão de homens é infeliz por obrigação e contra a sua vontade. Santo Agostinho. Tenho de te levar bem para trás no tempo e, tal como se faz com os muito jovens, cuja inteligência é fraca e lenta, tenho de te pedir que sigas o fio do meu discurso a partir dos seus elementos mais simples. Pensava que a tua mente fosse mais avançada e não fazia ideia de que ainda precisasses de lições tão infantis. Ah, se ao menos tivesses tido em mente aquelas máximas verdadeiras e salvadoras dos sábios que tantas vezes leste e releste comigo; se, permito-me dizer, tivesses trabalhado para ti próprio em vez de para os outros; se tivesses aplicado o teu estudo de tantos volumes à orientação da tua própria conduta, em vez de à vaidade e à conquista do elogio vazio dos homens, não precisarias de repetir tais loucuras mesquinhas e absurdas. Petrarca. Não sei aonde queres levar-me, mas já sinto o rubor a subir-me à testa e sinto-me como um aluno perante um professor zangado. Antes de saberem do que são acusados, pensam em muitas ofensas de que são culpados e, à primeira palavra que sai dos lábios do professor, ficam cheios de confusão. Nesse mesmo caso, também eu estou consciente da minha ignorância e de muitas outras falhas e, embora não perceba o sentido da vossa admoestação, como sei que quase tudo de mau pode ser-me imputado, coro-me ainda antes de termos terminado de falar. Por isso, peço-vos que expliquem mais claramente qual é esta acusação mordaz que me dirigiste.

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, setembro 27, 2026

O TRIUNFO DO AMOR - FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

Era a época em que, com tristeza, eu prestava tributo
Com meus suspiros, àquele dia agridoce,
Que deu origem às minhas tediosas aflições;
O sol agora atravessava orgulhosamente os chifres do Touro,
E Faetonte havia retomado sua habitual corrida;
Quando o Amor, a estação do ano e minha própria situação difícil,
Me levaram a buscar aquele lugar solitário,
No qual frequentemente descarrego minha mente sobrecarregada:
Lá, cansado de pensamentos delirantes e gemidos impotentes,
O sono selou meus olhos e, com meus sentidos ausentes,
Minha imaginação desperta avistou uma luz brilhante,
Na qual apareciam longa dor e breve deleite.
Vi então um poderoso general,
Como alguém que, por alguma vitória gloriosa,
Devesse ir em triunfo ao Capitólio:
Eu (que não estava acostumado a tal espetáculo,
Nesta era fraca, onde não temos valor,
A não ser orgulho) admirei seu traje, estranho e corajoso,
E, tendo erguido meus olhos, que estavam cansados,
Compreender aquela visão era toda a minha preocupação.
Quatro corcéis brancos como a neve puxavam a carruagem flamejante;
Lá estava sentado o menino cruel; um teixo ameaçador,
Sua mão direita empunhava, e sua aljava guardava flechas,
Contra cuja força nenhum elmo ou escudo resistia.
Duas asas bicolores adornavam seus ombros;
Por outro lado, estava totalmente nu; e ao redor de seu trono
Havia mil mortais: alguns capturados em batalha,
Muitos feridos por dardos e muitos mortos.
Ansioso por saber novidades, levantei-me e avancei
Tão longe que me tornei um entre os demais;
Como se tivesse sido morto pela dor do amor
Antes do meu tempo; e olhando através da comitiva
Desse rei sedento de lágrimas, eu teria avistado
Alguns dos meus velhos conhecidos, mas não distingui
Nenhum rosto que conhecesse: se algum deles estivesse ali,
Estariam transformados pela prisão, pela morte e pelas angústias.
Por fim, surgiu um fantasma, menos triste que os outros,
Que, ao se aproximar, me chamou pelo nome,
E disse: “Isso é obra do Amor.” “Quem serás tu”,
Respondi, muito surpreso, “que assim me reconheces?
Pois não me lembro de ter visto teu rosto.”
Ele assim respondeu: “É este lugar sombrio
Que embota tua visão, e este jugo pesado que eu carrego:
Caso contrário, sou um toscano; teu amigo e querido
À tua lembrança.” Sua frase habitual
E sua voz revelaram então quem ele era.
Assim, nos retiramos para um canto e deixamos a multidão,
Quando ele assim falou: “Há muito esperava
Vê-lo aqui conosco; seu rosto parecia
Ameaçá-lo não menos. Eu prezo
Suas profecias; mas vi quanta preocupação
Acompanha a vida de um amante; e devo ter cuidado.”
“No entanto, muitas vezes fui derrotado no campo de batalha,
E às vezes ferido”, disse eu, “mas me recusei a render-me.”
Ele sorriu e disse: “Ai de mim! Tu não vês,
Meu filho, quão grande é a chama que te aguarda.”
Naquela época, eu não sabia o que ele queria dizer com aquelas palavras:
Mas agora compreendo, pelo terrível acontecimento;
E isso está tão firmemente gravado em minha memória,
Que nem mesmo gravuras em mármore poderiam durar mais.
Enquanto isso, minha juventude impetuosa perguntou assim:
“Quem serão essas pessoas? Desejo muito
Saber seus nomes; por favor, permita-me perguntar.”
“Acho que em breve isso será uma tarefa desnecessária”,
respondeu meu amigo; “tu farás parte da comitiva,
e os conhecerás a todos; esta corrente cativante
teu pescoço deverá suportar (embora tu tenhas pouco medo),
e antes mudarás tua bela forma e cabelos,
do que te livrar da cruel prisão,
por mais que lutes por tua liberdade;
No entanto, para satisfazer teu desejo, vou relatar
o que aprendi. O primeiro que detém tal poder,
por quem renunciamos às nossas vidas e liberdades,
o mundo o chamou de Amor; e ele (tu sabes,
mas saberás melhor quando ele se tornar
teu senhor, como agora é para mim)
É manso na infância, feroz na maturidade;
É melhor acreditar nisso por aqueles que sentem sua fúria.
A verdade disso você descobrirá por si mesmo,
Eu te aviso agora, por favor, guarde isso em sua mente.
Da ociosidade e da libertinagem ele é frequentemente fruto;
Alimentado por fantasias agradáveis, e é chamado de,
Ou transformado em deus por homens vaidosos e tolos:
E, como recompensa, alguns encontram sua ruína;
Outros, uma escravidão mais dura devem suportar
Do que muitas milhares de correntes e ferrolhos podem causar.
Aquele outro nobre senhor é o conquistador
Da conquistadora Roma, levado cativo pela bela
Rainha egípcia, com sua arte persuasiva,
Que reivindica a maior parte de suas honras;
Por ter cativado o vencedor do mundo com seus encantos,
Seus troféus são todos dela por direito de armas.
O próximo é seu filho adotivo, cujo amor
Pode parecer mais justo, mas não se mostra melhor;
Pois, embora tenha se casado com sua amada Lívia,
Ela foi seduzida e afastada do leito de seu marido.
Nero é o terceiro, desdenhoso, perverso, feroz,
E, ainda assim, uma mulher encontrou maneira de penetrar
Em sua alma irada. Vê, Marcus, o sério
E sábio imperador, é escravo da bela Faustina.
Esses dois são tiranos: Dionísio,
E Alexandre, ambos desconfiados,
E, ainda assim, ambos amados: o último recebeu uma justa recompensa
Por seu medo infundado. Sei que já ouviram falar
Daquele que, por Creusa, na rocha,
Lamentou Antandro por tanto tempo; cujo golpe guerreiro
De uma só vez vingou seu amigo e conquistou seu amor:
E do jovem a quem Fedra não conseguiu convencer
A abusar do leito de seu pai; ele abandonou o lugar,
E, por sua virtude, perdeu a vida (pois os amores vis
E indignos se transformam rapidamente em fúria).
Isso a matou também; talvez em justa vingança
Pelo injustiçado Teseu, pelo Hipólito assassinado,
E pela pobre e abandonada Ariadne: assim,
Muitas vezes se prova que aqueles que culpam falsamente
Outros, em um mesmo fôlego, condenam a si mesmos:
E aqueles que foram culpados de traição,
Não precisam reclamar, se forem enganados.
Contemplem o bravo herói feito prisioneiro
Com toda a sua fama, e conduzido entre essas irmãs:
Que, enquanto ele se alegrava ao ver a morte de uma,
Sua morte aliviou o sofrimento da outra.
O próximo que se segue, embora o mundo admire
Sua força, o Amor o aprisionou. O outro, cheio de ira,
É o grande Aquiles, aquele cujo destino lamentável
Foi causado pelo Amor. Demofonte não odiava
A impaciente Filis, mas provocou sua morte.
Este é Jasão, aquele a quem Medeia tem
Obrigado pela maldade; ela se mostrou fiel ao pai,
Falsa, cruel com o irmão; com quem ela amava,
Ficou furiosa, por ser supervalorizada por seus méritos.
Em seguida vem Hipisípile, triste, desprezada,
Magoada ao ver o amor de um estrangeiro prevalecer
Mais do que o seu próprio, um grego. Aqui está a frágil
Bela Helena, com ela o pastorcinho,
Cujos olhares fixos feriram a Grécia e arruinaram Tróia.
Entre outras almas chorosas, você ouve o lamento
Que Ônone profere, com a partida de seu Páris;
E Menelau, pela dor que sentiu
Ao perder sua esposa. Hermiona está triste,
E clama por seu querido Orestes em seu auxílio.
E Laodâmia, aquela donzela infeliz,
Lamenta a morte de Protesilau. Argia provou ser
Mais fiel a Polinices do que a amada
(Mas falsa e cobiçosa) esposa de Anfiarao.
Os gemidos e suspiros daqueles que perdem a vida
Pelas chamas implacáveis deste senhor bondoso, você ouve:
Não consigo citar nem metade de seus nomes.
Pois não aparecem apenas homens que amam,
Os próprios deuses preenchem este bosque de murta:
Você vê a bela Vênus, presa pela artimanha de Vulcano,
Com o irado Marte; Prosérpina, afastada
de Plutão, a ciumenta Juno, o Apolo de cabelos dourados,
que ousou desafiar a coragem do jovem deus:
e, orgulhoso de seus troféus, zombou do arco
que, na Tessália, lhe desferiu tal golpe.
O que direi? — Aqui, em uma palavra, estão todos
os deuses que Varro menciona, grandes e pequenos;
Cada um preso por inúmeros laços,
E Júpiter acorrentado à frente da carruagem.”

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

AMARELLO AMOR - CURTA RARO -

 

 PARA MINHA DOUTORA COM LOUVOR

 
A gata, do sono e das plumas ociosas
baniram do orbe toda a valentia,
por isso está quase confusa em seu lado
nosso temperamento, derrotada pelo jeito;

E tão extinta está toda luz branda
do céu, pela qual a vida nasce se molda,
que é estimado por ser um portento
daquele que quiser fazer nascer sua ama.

“Vai pobre e nua, minha consciência”,
Que dote do louro, que do mirto?
diz a turba, voltada para o ganho da paciência.

Terás poucos cúmplices na outra passagem:
por isso te peço ainda mais, coração gentil,
não me abandones na tua dadivosa obra.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, setembro 26, 2026

NO JARDIM DA INFANTA - ALBERT SAMAIN - TRAD. ERIC PONTY

Minha Alma é uma infanta em vestido de gala,
Cujo exílio se reflete, eterno e real,
Nos grandes espelhos desertos de um antigo Escorial,
Assim como uma galera esquecida na enseada.

Aos pés de sua poltrona, deitados com nobreza,
Dois galgos escoceses de olhos melancólicos
Caçam, quando lhe apraz, os animais simbólicos
Na floresta do Sonho e do Encanto.

Seu page favorito, chamado Naguère,
Lhe lê poemas encantadores em voz baixa,
Enquanto, imóvel, uma tulipa entre os dedos,
Ela deixa que seu mistério se esvaia dentro dela...

O parque ao seu redor estende sua copa frondosa,
Mármores, seus lagos, escadarias com balaustradas;
E, solene, ela se embriaga com esses sonhos ilustres
Que os nobres horizontes guardam para nós.

Ela está ali, resignada, gentil e sem surpresas,
Sabendo bem demais para lutar, pois tudo é inevitável,
E sentindo-se, apesar de certo desdém inato,
Sensível à compaixão como a onda à brisa.

Ela está ali, resignada e serena em seus pensamentos,
Apenas mais sombria quando evoca em sonho
Alguma Armada afundada na mentira eterna,
E tantas belas esperanças adormecidas sob as flores.

Noites pesadas demais de púrpura, onde seu orgulho suspira,
Os retratos de Van Dyck, com seus belos dedos longos e puros,
Pálidos em veludo preto sobre o ouro envelhecido das paredes,
Com seus ares grandiosos e antigos, fazem-na sonhar com reich.

As antigas miragens douradas dissiparam seu luto,
E, nas visões em que seu tédio se dissipa,
De repente — glória ou sol — um raio que a atinge
Acende nela todas as chamas do orgulho.

Mas, com um sorriso triste, ela acalma essas agitações;
E, temendo a multidão em meio aos tumultos violentos,
Ela escuta a vida — ao longe — como o mar...
E o segredo se torna mais profundo em seus lábios.

Nada agita com um arrepio a água pálida de seus olhos,
Onde se assentou o Espírito velado das Urbes fenecidas;
E pelas salas, onde as portas giram sem ruído,
Ela caminha, encantando-se com mistérios suaves.

A água vazia das fontes ali cai em cascata,
E, pálida na encruzilhada, com tulipa nas mãos,
Ela está ali, refletida nos espelhos de outrora,
Como uma galera olvidada na baía.

Minha alma é uma miúda em vestido de gala.

ALBERT SAMAIN - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

POEMA - FRANCIS VIELÉ-GRIFFIN - TRAD. ERIC PONTY

 Contra o céu febril de um outono, ela ergue
O orgulho de seu perfil estranho e de sua garganta;
Em seu vestido, o sangue do cisne que ela degola;
E em seus olhos azul claros, ternura sorri maliciosa.

Ele gira ao redor dela, como neve virgem,
Penas, cujo troféu os ventos levam embora;
A onda de sua pele, de sua camisola desabotoada,
Jorra como espuma, transborda e se espalha.

Gota a gota, espirrando a seiva exuberante
De seus seios fecundados em noites de feridas amargas,
O hálito quente de suas narinas inchadas
Faz cair aos seus pés delicados o leite morno do sonho.

O vestido se ajusta em pregas na cintura;
- Vestido de linho manchado e cinto dourado fosco; -
Em seu ombro robusto, uma marca púrpura;
E sua boca cantarola uma canção contrária à natureza.

Ela sobe sem pressa pela trilha verde e canta,
Canta palavras requintadas ao acaso, ao som de um tema vaga;
E segue, muito pálida, pelo caminho que ziguezagueia    
Em direção ao cume eterno, onde a aurora lenta se torna alva.

E eu lhe digo, maravilhado: “Estranha deusa,
Que sobes ao cume com esse ar majestoso,
Por que teus pés apagam o brilho da grama?
Por que essas flores que tua mão de arcanjo murcha assim?”

O nojo segue teus passos como um cão faminto;
Tua sombra esteriliza e teu hálito queima;
Tu afugentas diante de ti a aurora, que recua:
A alma está sem ideal, a rima sem resposta.

A noite sobe atrás de ti pela encosta do cerro, noite densa,
Noite fria que penetra no coração, noite de pavor
Onde paira a loucura erótica que exalta
Teu reinado impuro e o pecado de sua demência.

Por que, enquanto rezo e imploro em vão
A ti, o Enigmático de olhos azuis como ametistas,
Que quebras o instrumento e fascinas o artista,
Temes esses brilhos de incêndio que se avistam a Leste?

Teus cães uivam; lá longe, sopra um vento estrondoso;
Por que esse brilho pálido em teus olhos? Tu, a amante
Impenetrável, cujo amor único nos assombra,
Ó tu, cujo capricho exalta e desonra?

Hécate tríplice, que cresces e diminuis;
À tua única vontade, mãe da glória ou da infâmia,
Por que te deténs, hesitante e pálida,
Rígida e com os olhos fixos, lá longe, nos cumes nus?

Eis que surge o dia real no céu de outono:
A sombra recua como uma maré impura
E o azul inocente, imaculado,
Cresce como uma praia que emerge e cintila! 
Ártemis está de pé no cume escalado,
Envolvida em sua clâmide arcaica e olha
Para a planície deslumbrante e a floresta tagarela,
Inalando o aroma revigorante que emana da Vida;

A sombra de seus cabelos é como uma auréola,
A doçura de seus olhos, como uma confissão sem vergonha,
A voluptuosidade casta de seu peito domina
Os desejos pervertidos e a paixão louca.

Ressoa a grande lira nas mãos do corifeu,
Virgem, o dia resplandece nos frisos do antigo templo;
Para ti, do universo que tua misericórdia contempla,
O amor de sua alma sedenta se eleva em hino!
    

FRANCIS VIELÉ-GRIFFIN-TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, setembro 25, 2026

MUSA EDITORA - SÃO PAULO - RECADO II - ANA CÂNDIDA

 Eric,

Oscar Araripe respondeu imediatamente.

Mandei e-mail com cópia para vc e coloquei o bol, voltou.

Mas ele foi gentil e aberto, para todas as conversas necessárias, primeiro o contrato, bom para vocês dois, bom para todos, depois o lançamento. 



Temos duas prioridades:

1. Menino Retirante, editais aonde o livro não foi. Isto está sendo visto. 
2. Flores de Tiradentes, lançamento e também inscrever em editais. Seguramente tem apelo.

Dos detalhes de todos os trâmites necessários, vamos tratando por aqui e amarraremos da melhor forma no nosso encontro pessoal.
Quando precisar que eu ligue. É só marcar.

A Editora Laranja Original reconheceu que errou e me pediu desculpas. Não sei se por inexperiência ou ignorância, ela infringiu o Código de Ética da CBL, além de outros ritos jurídicos editoriais entre pares, internacionalmente pacificados. Não se prospecta livro vivo do catálogo de outra editora. Fui amigável, resolvi a minha parte, para você está também tudo resolvido com eles?
 Nas circunstâncias,o  contrato deles é nulo. Enganei-me, pensei que tivesse sido você a oferecer o livro a eles. Você me esclareceu. 

Agora vamos ao trabalho. A cada dia o seu cuidado. E estamos nos cadastrando na Metabooks tb, a grande plataforma internacional alemã, que tem escitório no Brasil, a que todos os livreiros recorrem

Com estima e consideração,

Ana Cândida


quinta-feira, setembro 24, 2026

JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY

 A PULGA


Marca, mas essa pulga, e a marca do esta
um pouco do que tu me recusas;
A chupar-me, em primeiro lugar, e agora sugar-te,
E, essa pulga nossos dois sangues embaralhados.
Tu sabes que isso não pode ser dito
por pecado, nem vergonha, nem perda duma não inserida cabeça;
No entanto, esta goze antes de seduzir,
E mimar presunção com um sangue feito dos dois.
E esta, infelizmente! É mais do que qualquer de nós faria.

A estadia, três vidas em uma pulga poupada,
Onde estamos quase, sim, mais do que os casados estávamos
Esta pulga é você e eu, e esta
Em nosso leito conjugal, e o templo do casamento.
Embora os pais guardem ressentimentos, e você, foram atendidos
E no claustro, estes vivem em paredes do azeviche.
Mas o uso que o hábil para me matar
Não deixe para que o suicídio sucedido,
É sacrilégio, três pecados, matando três.

Cruel e brutal, tens tu uma vez
roxa no teu prego de inocência?
Onde poderia esta pulga ser culpada
Exceto no que queda que ela chupar de ti?
Mas tu triunfante, e dizer-te que tu
Encontrar-me não te escondas nem aos mais fracos agora.
Si fiel, então, saiba como falsos temores;
Apenas assim, muita honra, quando tu me lucras
Será desperdício, como essa pulga morta levou vida de ti.

Uma boa amanhã


Pergunto pela minha sorte das quais que tu e eu
Não, até que nós amamos? Não desabitue até então?
Mas adular no país prazeres, afirmação infantilmente?
Ou ofegando, as sete travessas do esconderijo?
Foi assim; mas este, todos os prazeres das fantasias serão;
Se é que alguma vez qualquer beleza me fez ver,
Que eu desejei, e ter tido, foi, mas um sonho de ti.

E agora um bom amanhã para o nosso despertar das almas,
Que fez ver uns aos outros fora do medo;
Para amar todo o amor dos outros olhos controlam,
E fez um pequeno espaço em qualquer lugar.
Que mar-descobridores de novos mundos têm ido;
Deixar os mapas para outros mundos dos mundos têm mostrado. 
Deixar-nos possuir um mundo; cada um tem um e é um.

O meu rosto em teus olhos, o teu no meu aparece,
e a verdadeira planície corações fazem na face o resto;
Onde podemos encontrar dois melhores hemisférios
Sem forte ao norte, sem declínio do ocidente?
Tudo o que morra, não misture partes iguais;
Se os nossos dois amores, ou tu e eu.
Amor também é igual a nada pode retardar, nada pode morrer.

Vá e pegue uma das estrelas,
obtenha com a criança, raiz da mandrágora
diga-me onde todos os últimos anos serão
ou que fissura do pé do diabo
ensina-me a ouvir sereias cantando
ou para manter a inveja, ferroada,
e descoberta
qual vento
serve para fazer avançar uma mente honesta.

Se tu és nascido em locais estranhos
as coisas invisíveis para ver
viagem dez mil dias e noites
até que idade branca de neve serão teus cabelos em ti,
tu, quando, tu retornares enfraquecerão há afirmação
todas estranhas maravilhas que se abateram sobre ti,
e jurar,
não onde
vive uma mulher verdadeira e justa.

Se tu encontrares uma, deixe-me saber,
por exemplo duma peregrinação que foram suaves.
mas não, não quero ir,
embora a próxima porta, possa atender,
embora ela fosse correta, quando você julgou o
e, por último, até que você escrevesse a sua carta,
já ela
vontade seria
falsa, antes eu venha, a duas, ou três.


Mulher de Constância 


Agora tu me amaste um dia inteiro
amanhã quando te deixar, o que queres tu dizer?
Queres então anteriores alguns novos votos feitos?
Ou dizer que agora
não são apenas as pessoas que se foram?
Ou que juramentos feitos na cobardia reverencial
do amor, e sua fúria, qualquer um pode renunciar?
Ou, como veros mortos veros casamentos desfazem
para os amantes dos contratos, nas imagens das pessoas,
atadas, mas até dormir na imagem mortal, se desatam?
Ou, o seu próprio final para se justificar,
para que queria mudar e para a mentira, você
não possa ter forma, mas a mentira para ser vero?
Vã lunática, contra estes escapos eu poderia
disputar e conquistar, se eu iria;
que eu me abstenha de fazer,
por que amanhã eu possa pensar assim também. 

Á obra


Tenho feito uma coisa das mais corajosas
a todos a se lembrará das suas riquezas;
e já um dos mais bravos se queixara a Primavera
ou seja, para se manter escondido.

Ele foi, mas uma loucura agora para comunicar
à arte da pedra especular,
quando ele, que pode ter de aprender a arte
para cortar, possa encontrar nenhuma.

Assim, se eu agora deveria pronunciar esta,
Outros, porque não mais
tais coisas para o trabalho, não há
será que o amor mas como antes.

Mas ele, que belezas dentro
porventura achadas, todas para fora tem fastio,
para quem ama as cores, e a pele,
ama, mas suas roupas mais antigas.

Se, como eu, você também não
na virtude de mulher veja
E atrever-se ao amor, e dizê-lo,
E olvidar o que ele e ela.

E se esse amor, embora coloque assim,
dos profanos homens que você oculte,
que, sem fé no presente entregado,
ou, se o fazem, não respeitam;

então você ter feito uma coisa mais brava
a todos a se lembrará das suas riquezas;
E mais bravos dali, Primavera,
ou seja, para manter que encobriu

O Nascer do sol


Ocupado velho tolo, indisciplinados ao Sol
Por que me rejeitas assim,
através de janelas, e através das cortinas, chamado por nós?
Preciso de teus gestos amantes das estações ocorridas?
Aquela Dose pedante desgraçado, vá xingar
à tarde na escola-meninos e azedos aprendizes
vá dizer ao tribunal de caçadores que o rei vai de cavalgada
Chamada país formigas para a colheita.
Amores são todos iguais, não há estação conheça o clima
nem horas, dias, meses, que são os trapos do tempo.

Teus feixes reverendos e vigoroso
Sublime por isso te parece?
Eu poderia o eclipse em uma nuvem leva-las com uma piscadela,
mas que eu não iria perder sua visão tão longo.
Se os seus olhos são teus, não são cegos
Olhe, e amanhã mais tarde diga-me,
Se ambos os teus das Índias de especiarias e de minas
estarás onde tu deixar-vos, ou deitar-vos aqui comigo.
Pergunte para os reis que tu viste ontem,
E ouvirás, "todos aqui numa cama de leigos."

Ele tem todos os estados, e todos os príncipes que eu;
Nada mais do que isso;
Os príncipes, mas reproduzir-nos; em comparação a este,
Toda honra é imitar, todas riquezas da alquimia.
Tu, sol, és metade tão feliz como nós,
Na medida em que o contrato do mundo é assim.
Tua idade pede facilidade, e uma vez que teus deveres deves ser
para aquecer o mundo feito para aquecer-nos.
Brilho aqui é para nós, e tu estás em todos os lugares.
Este leito és teu centro, essas paredes tua esfera. 

JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quarta-feira, setembro 23, 2026

IV.xiv. Epitáfio - Victor Hugo - Trad. Eric Ponty

Alma jovem ou idosa, sábia ou imprudente
Vagando numa nuvem de céu em céu
Conforme a precisão o chame ou o impulso o seduza,
Viajante, o senhor está vagando por longe — mas por quê?
Aqui está o destino de sua jornada!

A morte, cujo passo triunfante está por toda parte, 
Envolveu minhas glórias em uma escuridão expiatória. 
Meu próprio nome sofreu seu cruel destino, 
E se meu vazio guarda algo rico ou belo, 
O olvido sombrio o esconde de seu olhar curioso! 

Assim, transeunte, eu segui em frente — qual fará; 
O rio afundou em sua nascente sem deixar vestígios. 
Sente-se neste mármore quebrado e fique em silêncio. 
Descanse um pouco do fardo que cansa sua raça; 
Eu também depositei um fardo neste lugar.

Se você busca sombra ou abrigo, venha: sua cama 
espera por você; aqui você dormirá, longe de toda agitação. 
Se sua frágil barca está enfrentando o oceano negro, 
aqui estão tanto o recife quanto o porto — bem à sua frente!

Você não sente aqui algo que o perturba, 
Que prende seus pés com suas correntes imperiosas? 
Neste refúgio e ponto de encontro 
Você não consegue ler seu nome em letras misteriosas?

Tu, ator efêmero de um papel mal ensinado, 
Todo homem, fraco de medo ou ousado de raiva, 
Vestindo uma capa camponesa ou uma estola real, 
Passa, por sua vez, seu momento no palco.

Não pise nos mortos de forma descuidada: 
Você deve descer, como eu fiz, até a cidade deles. 
O homem passa, pálido e moribundo, dia após dia; 
Quem sabe para onde o vento levará suas cinzas?

Isso está por vir — e, no entanto, você mal se comove! 
Como assim! Nem uma oração? Nem mesmo um gemido fraco? 
Todo o seu vazio fala com você — e não é ouvido!

Você parte..., mas por que se importar com esta pedra? 
Dentro de um túmulo, o que seus olhos tristes poderiam ver? 
Um grão de poeira, um fragmento de osso seco, 
N a d a — exceto a Eternidade.

Victor Hugo - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

terça-feira, setembro 22, 2026

DOIS POEMAS DE STUART MERRILL - TRAD. ERIC PONTY

ACEITO SUA MÃO 

A RAINHA ROSEMONDE


«Quem, entre vocês, viu a rainha Rosemonde
Que erguia sobre nossas testas o brilho de tuas mãos?»
Perguntavam aos transeuntes dos caminhos tranquilos, 
Aqueles cuja caminhada errante nada detém.

A rainha Rosemonde não virá mais, jamais,
Com os cabelos ruivos que lhe roçavam a cintura, 
Para depositar sua coroa aos pés dos peregrinos 
Que lhe comoviam o peito com cantos de outro mundo.

Teus estandartes, agora ausentes, ó rainha Rosemonde, 
Já não misturam ao crepúsculo seus tons púrpura e dourados; 
Já não se ouve o uivo das matilhas e o som das trombetas, 
Nas profundezas da floresta nem nas margens do mar.

Estás morta para sempre, ó rainha Rosemonde,
Entre teus cavaleiros sangrando sob o sol,
Ou estás dormindo, com os olhos unidos em sono mágico, 
Na torre mais alta do rei de Trebizonda?

Será que a rainha Rosemonde ainda é bela,
Com teu manto malva cingido por um cinto de prata?
Teu olhar, no qual se reflete um céu azul mutável,
Será que enlouquece os mendigos cujo amor selvagem ruge?

Será que a rainha Rosemonde repousa sob as flores,
Entre as folhas e as flores que o inverno espalhou?
Teus cabelos eram dourados sob um aro de ferro
E tua boca parecia uma peônia redonda.

Ai de mim! A rainha Rosemonde já não existe,
A não ser uma palavra vaga que flutua no sopro dos anciãos,
Enquanto, na vigília, após os cânticos religiosos,
Eles recitam os nomes dos reis falecidos da região.

E ninguém mais responde, rainha Rosemonde,
Aos pálidos peregrinos que, torcendo as mãos,
Perguntam aos transeuntes dos campos e caminhos,
Quando o inverno bate no coração da terra profunda: 
“Quem, entre vocês, viu a rainha Rosemonde?”

BALLET NO CEMITÉRIO


Vamos dançar ao sol, ó minha Alegria,
Sobre os túmulos da Morte I
Tua boca é a romã à mercê 
Dos desejos das abelhas douradas.

Será que ouvimos os sinos,
Esta manhã, tocando a campainha fúnebre? 
Cala-te, pois as horas se aproximam 
Do bom amor em teus braços cansados.

E depois canções, e depois dança 
Sobre as lilases amontoadas
Não há flores em abundância
A não ser no doce jardim dos finados.

Teus cabelos são uma auréola
De fogo ruivo contra o azul do céu.
Ó Morte, como você é louca 
Por querer manchar esse ouro puro!

A dança furiosa da vida,
Vamos dançá-la e cantá-la
Até fazer estremecer, encantada,
A poeira de todos daqueles finados.

Que outrora amavam as rosas,
As mulheres e as crianças douro,
E todos os lábios desabrochados
E todos os beijos triunfantes.

Para minhas canções e para a sua dança
Não será preciso nem o som
Das flautas enlouquecidas, nem a cadência
Das liras na floresta florida.

Mas apenas teus gemidos, ó brisa,
Que nos ciprestes te dormem,
E o silêncio sem surpresas
Do sono eterno dos mortos!

STUART MERRILL - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 


QUINZE CANÇÕES - MAURICE MAETERLINCK - TRAD. ERIC PONTY

 

 I

ELE acorrentou-a em uma caverna gelada. 
Ela colocou uma placa na porta.

A chave caiu no oceano: 
A donzela também esqueceu a lâmpada. 
Ela esperou pelos dias da primavera; 
Ano após ano, sete se foram,

E a cada ano um passava por ela.
Ela esperou durante o frio do inverno,
E suas madeixas, também esperando,
evocavam a luz que outrora conheceram.

Elas buscaram a luz, elas a acharam,
Rastejaram pelas rochas e ao redor,
E fulguraram as rochas com todo o seu ouro.
Ele chega ao anoitecer de outrora: 

Maravilhado com a visão prodigiosa,
não ousa se aproximar da luz.
Ele acredita que seja um sinal místico,
ou talvez uma fonte de onde jorra ouro,
ou anjos em sua diversão divina: 
Ele se vira e segue seu caminho, em tempos passados.

II

Se um dia ele voltar,
O que se dirá então?

Diga que alguém o esperava,
Sempre, mas que já morreu.
Sim, mas se ele me perguntar mais,
E ainda assim não me reconhecer?
 —Fale como qualquer irmã faria,

Para que ele não sofra.

Se ele perguntar para onde você foi,
O que devo responder? 
—Entregue-lhe então meu anel de ouro,
Não lhe dê nenhuma resposta.

Se ele me perguntar por que o corredor 
mostra um chão silencioso? 
—Mostre a ele, então, a lâmpada apagada
e a porta aberta.

Se ele me perguntar a hora

em que você adormeceu? 
—Diga a ele, diga a ele que eu sorri
para que meu amor não chorasse!

III

Três mataram as jovens criadas,
para ver o que se escondia em seus corações.

O primeiro coraçõezinho estava cheio de felicidade,
e eis que, por onde quer que seu sangue corresse, 
três serpentes sibilavam até que três anos se passassem

O segundo estava cheio de bondade,
E eis que, por onde quer que seu sangue corresse, 
Três cordeiros se alimentavam até que três anos se passassem

O terceiro estava cheio de dor e sofrimento,
E eis que, por onde quer que o sangue vermelho escorresse,
Três arcanjos mantinham sua vigília.

IV

DONZELAS com os olhos vendados
(Ó, soltem os lenços de ouro!) 

Donzelas com os olhos vendados,
Elas buscaram seus destinos.

Ao meio-dia, abriram de par em par
(Ó, guardem os lenços de ouro!) 

Ao meio-dia, abriram de par em par
O palácio na planície:

Lá, saudaram a vida 
(Amarrem bem os lenços de ouro!) 

Lá, saudaram a vida,
E voltaram de volta.

V

AS três irmãs cegas 
(A esperança não é fria),
As três irmãs cegas 
Acendem suas lâmpadas de ouro.

Eles sobem à torre
(Eles, vocês e nós),
Eles sobem à torre
Para aguardar o sétimo dia.

“Ah”, diz alguém, virando-se;
(Ainda assim, vamos ter esperança),
“Ah”, diz alguém, virando-se;
Ouço nossas lâmpadas acesas.

Ah, o segundo diz:
(Eles, vocês e nós),
Ah, o segundo diz:
É o passo do rei...

Não, o mais santo diz:
(Ainda assim, vamos ter esperança),
Não, o mais santo diz:
Mas nossa luz se apagou.

VI

AI, então,
veio alguém até aqui para dizer:
(Ó criança, estou com medo!) 
Veio alguém até aqui para dizer:
Que era hora de partir às pressas...

Uma lâmpada acesa eu trago,
(Ó criança, estou com medo!) 
Uma lâmpada acesa eu trago,
E me aproximo!

Na primeira porta,
(Ó criança, estou com medo!) 
Na primeira porta,
A chama tremeu densamente.

Então, num instante,
(Ó criança, estou com medo!) 
Então, num instante,
A chama falou e acenou.

A terceira porta está aberta
(Ó criança, mas isso é medo!) 
A terceira porta está aberta,
E a chama se apagou.

VII

ORLAMONDE tinha sete filhas
Quando a fada morreu
As sete donzelas, as sete filhas,
Partiram em busca do mundo lá fora.

Então acenderam suas sete lâmpadas; 
Por todas as torres elas buscaram;
Abriram nada menos que quatrocentos salões;
Mas, ao fim do dia, não o descobriram.

Chegaram às cavernas profundas e ecoantes;
Desceram, embora o ar estivesse frio,
Seguiram adiante e, em uma porta resistente,
Descobriram então uma chave de ouro.

Elas avistam o oceano pelas frestas; 
Temem morrer lá fora; 
Batem na porta imóvel,
Não ousam abri-la inteiramente.

VIII

ELA tinha três coroas de ouro: 
A quem ela deu as três?

Uma ela deu aos seus queridos pais,
E compraram três canas de ouro,
E a cultivaram com até que a buganvília se abordasse.

E uma para aqueles que a amavam de verdade: 
E compraram três redes de ouro,
E a mantiveram até o outono chegar.

E uma ela deu àqueles que gerou,
E compraram três algemas de ferro,
Para acorrentá-la até o fim do inverno.

IX

EM DIREÇÃO Ao castelo, ela seguiu seu caminho;
(O sol mal havia surgido no mar),
Em direção ao castelo, ela seguiu seu caminho; 
Os cavaleiros olhavam uns para os outros e desviavam o olhar;

 As mulheres não diziam uma palavra sequer.

Ela parou diante da porta;
(O sol mal havia surgido no mar),
Ela parou diante da porta; 
Ouviram a rainha enquanto ela andava 
dum lado para o outro pelo chão,
E o rei que lhe perguntou o que ela queria.

"O que busca, ou para onde vai?
(Tenha cuidado, é difícil enxergar),
O que procura, ou para onde vai? 
Será que alguém espera por você lá embaixo? " 
Mas ela não disse nem uma palavra, nem uma única palavra.

Lá desceu ela em direção ao desconhecido;
(Cuidado, é difícil enxergar),
Lá desceu ela em direção ao desconhecido,
E em volta da rainha seus braços se estenderam; 
Nenhuma das duas disse uma palavra; 
Sem dizer nada, seguiram seu caminho.

O rei chorava na soleira, com o coração partido 
(Cuidado, é difícil enxergar),
O rei chorava junto à porta aberta; 
Ouviram os passos da rainha,
E o barulho das folhas caindo onde ela havia passado.

X

Seu amante seguiu seu caminho,
(Ouvi o portão)
Seu amante seguiu seu caminho,
Mas ela continuava alegre.

Quando ele voltou,
(Ouvi a lâmpada)
Quando ele voltou,
Outro se juntou aos dois.

E encontrei a morta,
(Ouvi o grito de seu espírito)
E encontrei a morta,
Aquela que ainda o espera.

XI

Mãe, mãe, você não ouve?
Mãe, eles estão chegando; há notícias para contar! —
Dê-me suas mãos, minha querida filha:
Não passa de um navio que navega bem.

Querida mãe, tenha acurado, preste atenção! 
—Eles vão apesar, minha filha, 
Partem a toda presteza.
Mãe, o perigo é grande, ai de mim!

—Filha, minha filha, isso vai passar logo.
Mãe, mãe, Ela está se aproximando!
—Está lá embaixo no porto, minha querida filha.
Mãe, mãe, Ela está abrindo a porta!

—Filha, eles vão embora, para nunca mais voltar.
Mãe, Ela está entrando! Tenho medo! 
—Filha, eles já içaram a âncora.
Mãe, ouço ela falando baixinho. 
—Filha, minha filha, são eles que estão partindo.

Mãe, Ela faz as estrelas se apagarem!
—Filha, são as velas de uma embarcação sombria.
Mãe, Ela continua batendo na janela!
—Filha, talvez ela esteja mal fechada...

Mãe, mãe, minha visão estão ficando embaçada... 
—Filhinho, eles estão navegando para o mar aberto.
Por todos os lados, só consigo ouvir a voz Dele...
 —Ó filhinho, o que é isso, e quem é Ele?

XII

Agora todas as suas lâmpadas estão acesas,
O sol ilumina o jardim por todos os lados—
Agora todas as suas lâmpadas estão acesas;
O sol brilha por todas as frestas:
Abram bem as portas do jardim.

Todas as chaves das portas se perderam,
Devemos ser pacientes, aconteça o que acontecer;
As chaves caíram da torre bem no alto.
Devemos ser pacientes, aconteça o que acontecer,
Esperar e esperar enquanto os dias passam.


Os dias que estão por vir abrirão as portas.
As chaves estão a salvo na vasta floresta.
A floresta resplandece por todos os lados;
A luz da folhagem que se desvanece se derrama,
resplandecente sob as portas.

Os dias que ainda estão por vir,
Os dias que estão por vir, que eles temem e que falharão,
Os dias que estão por vir nunca chegarão;
Pois dia após dia morrerão como nós,
Assim como nós, neste nosso túmulo.

XIII

Irmãs, irmãs, trinta anos
Procurei onde ele pudesse estar;
Trinta anos procurei por ele:
Nunca o vi.

Trinta anos percorri o caminho;
Longa e quente a estrada;
Irmãs, ele estava em toda parte,
Aquele que ainda não está.

Irmãs, triste é a hora e já é tarde.
As tiras das minhas sandálias se soltam.
Assim como eu, o entardecer se vai,
E minha alma está doente.

Vocês, que têm dezessete anos,
Partam e procurem-no também;
Irmãs, irmãs, peguem meu cajado,
Procurem por todo o mundo.

XIV

Havia três irmãs ansiosas por morrer!
Cada uma colocou sua coroa de ouro,
E partiram em busca de sua morte.

Elas vagaram pela floresta: “Dá-nos nossa morte, 
ó antiga floresta, pois aqui 
estão nossas três coroas de ouro.”

A floresta esboçou um sorriso,
E deu a cada uma dois beijos,
Que lhes revelaram claramente o futuro.

Havia três irmãs ansiosas por morrer:
Elas vagaram em busca do mar:
E o encontraram após três verões.

“Dá-nos a nossa morte, ó velho oceano,
Pois aqui estão nossas três coroas de ouro.”
Então o oceano começou a chorar:

Trezentos beijos ele deu às três,
E todo o passado ficou claro para elas.
Havia três irmãs ansiosas por morrer:
Por um tempo, procuraram a cidade que buscavam;
Encontraram-na bem no meio de uma ilha.

“Dá-nos a nossa morte, ó cidade antiga,
Pois aqui estão nossas três coroas de ouro.”

A cidade se abriu ali mesmo, na hora,
E as cobriu com beijos carinhosos,
Que lhes revelaram claramente o presente.

XV

Cântico da Virgem em “Irmã Beatriz”


Estendo, a cada pecado,
A cada alma que chora,
Minhas mãos cheias de perdão,
Vindas das profundezas estreladas.

Não há pecado que perdure,
Quando o amor mantém vigília;
Não há alma que lamente,
Quando o amor, ao menos uma vez, já chorou.

E embora em muitos caminhos,
Da terra, o amor se perca,
Suas lágrimas me encontrarão,
E não se desviarão.

MAURICE MAETERLINCK - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA