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sexta-feira, fevereiro 06, 2026

SONETOS & POEMA - FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO

 I

Era o dia em que os raios pesados do sol
Empalideciam em dó pelo teu Senhor padecedor,
Quando caí cativo, senhora, deste olhar
Belos olhos, forte preso a corda do amor.

Não tive então tempo para me defender
Ou buscar abrigo dos golpes súbitos do Amor;
Eu andava seguro, sem entender nenhum mal, quando
minhas dores abriram em meio às disgras gerais.

O amor me achou inteiro indefeso dos meus olhares,
onde as fúcsias soem fluir, ele viu essa passagem
aberta para o meu peito. Tua flecha voeja.

E aborda o alvo onde deve jazer para sempre.
É pouca honra para me ferir assim, nem demonstrar
bem armada contra ele, nem mesmo o teu arco! 

 III

Mil vezes busquei fazer pazes com teus belos olhos, 
ó minha doce inimiga tão formosa guerreira,
E lhe ofereci meu peito; mas mal sabia eu
Que teu espírito brioso se rebaixaria tanto.

No entanto, se outra quiser prender esse peito,
Viverá ela em esperanças incertos e sonhos falsos;
Já que eu desprezo todas as coisas que tu desdenhas,
Ele não é mais meu quando desprezado por ti.

Se expulso, não podes achar amparo contigo  
Em tua passagem errante, nem ficar sozinho, 
Nem ir aonde outros chamam em vão por ti.

Longe de tua passagem natural, deves então se desviar.
Sobre nossas duas almas este pesado dolo repousará,
Mas mais sobre a tua, pois é quem meu peito mais ama.
 

IV

Meu rival resplandecente, em cujo rosto inconstante
Tu vês os olhares que o Amor e do céu apreciam,
Encantam com uma beleza que não é tua, uma graça
Alegre e doce além de qualquer aparência mortal.

Foste por teu conselho maligno, minha senhora,
Que me expulsou de teu coração gentil.
Triste exílio! Agora, na solidão, eu definho,
Incapaz de habitar com tamanho valor.

Se eu estivesse seguro ali, não deverias me ferir 
com teu espelho intenso, afagando só a si mesma, 
De tão orgulhosamente se fazendo bela!

Pense em Narciso e teu prazer vaidoso!
Como ele, se tornará uma flor, mas onde
O gramado digno de uma planta tão rara?

V

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo o teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram tão jovens, que dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo coração selvagem se regressaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons vários, teus rostos se ardiam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes tão juntos”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, ele então se afastou.

Assim, ele alastrou flores e palavras; até que em mim
Uma alegria trêmula se espalhou ao redor do meu coração.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, que se fez alegre! 


VIII

Para qualquer criatura que habita a terra,
(Exceto aquelas cujos olhos odeiam o sol)
O tempo de trabalhar é enquanto ainda é dia;
E quando enfim os céus acendem tuas estrelas,
O homem volta para casa, animais se abrigam na brenha
E deparam repouso pelo menos até o alvorecer.
Mas eu, desde a primeira hora em que o alvorecer precoce
Para sacodir a escuridão da terra,
Despertando os animais em todas as brenhas,
Não tenho trégua em suspirar pelo sol,
E quando à noite observo as estrelas flamejantes
Eu me lamento, ansiando então pelo dia.
Quando a noite afasta o dia brilhante,
E nossa noite profunda traz o alvorecer para os outros,
Tristemente, contemplo as estrelas cruéis
Que formaram meu corpo a partir da terra sensível,
E amaldiçoo o dia em que vi o sol,
Até parecer alguém criado na brenha.
Nem sonho que alguma vez tenha pastado na brenha
Uma criatura tão selvagem, seja de noite ou de dia,
Como aquela que lamento na sombra e no sol,
E não me canso de chorar, seja à noite ou ao alvorecer,
Pois, embora meu corpo mortal seja da terra,
Meu amor imutável vem contigo das estrelas.
Antes que eu volte para vos, ó estrelas intensas,
Ou caia em pó nesta brenha apaixonada,
E deixe meu corpo qual um pedaço de terra sem vida;
Que ela tenha piedade, que em um único dia
Possa expiar por longos anos! Que antes do alvorecer
Pudesse me abençoar, desde o pôr do sol!
Ó, se eu estivesse com ela desde o pôr do sol,
E ninguém para nos observar além das estrelas soturnas
Apenas uma noite! E que não houvesse alvorecer!
Nem que ela se transformasse em brenha frondosa,
Escapando de meus braços, como naquele dia
Quando Febo acompanhou Dafne pela terra.
Mas em um caixão sem sentido eu repousarei,
E o dia chegará repleto de pequenas estrelas,
Antes que o sol brilhar sobre um alvorecer tão doce.

FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Três Sonetos - Para Auta de Souza - Eric Ponty

Segue dos traços do Pastor enquanto é fia...
Soube do então bruno vale para o horizonte,
Que a coroa de sempre das fúcsias te afronte
Na vitória da então crença que lhe porfia.

Não te detenhas na sombra escabrosa via
E que a taça amarga de fel não te amedronte
Louvar deste madeiro que te dobrou a fronte
Para que essa estrada cruel, de áspera e fria.

Enquanto há sol, que avança então na subida,
De alma desfalecente e consumida agonia,
Então bendizendo o martírio que te eleva!

Seja por essa Luz tua excelsa recompensa,
Porque a noite da morte agonia é triste e densa
Para aqueles que dormem sombras sob da treva.

II

Minh’ alma é triste até para à morte,
Tu que então trevas me sepultaste?
Minh’ alma triste qual a dor aterra
Beija então teus passos. Cordeiro aferra!

Que noite negra, tão cheia destas sombras.
Não foi a noite que aqui então passaste?
Estrelas tão lindas neste céu brilharam.
Voltou-me o teu riso, já quase do horto.

Não tenhas medo então do sofrimento.
E sendo ele é a escada do Paraíso...
Contemplar os astros do firmamento,

Olha para estrelas... No céu então escuro
Parecem ser risos amortalhados...
Assim, nestas trevas do mundo impuro!

III

Partiu-se do fio branco e tão delicado,
São dos sonhos de Minh ‘alma que desditosa...
E das contas do rosário assim tão quebrado,
Que caíram como folhas de que umas rosas.

Tu debalde eu as procuro tão lacrimosas,
Que são estas doces relíquias do Passado,
Para que guardá-las nesta urna perfumosa,
Deste meu seio nesse cofre imaculado.

Aí! se eu ao menos por uma, só lhe pudesse,
Que d’estas contas se achar que me fizesse,
Lhe Lembrar um mundo de alegrias tão doidas...

Feliz tão séria..., Mas Minh ‘alma lhe atenta,
De que em vão procura uma continha benta:
Quando então partiste m’as levaste com todas!

ERIC PONTY

  

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos - FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY

 

Senhora, não a vi afastar-se na relva sombria,
Na sombra escura ou sob céus serenos
O véu que abriga teu rosto gracioso
Desde percebeu pela primeira vez a paixão intensa.

Que afasta tudo o mais do meu coração.
Enquanto eu arrumava manter adágios valiosos ocultos —
Esses sonhos matam todos os meus sentidos ardentes —
Vi compaixão revelada em teu rosto,

Mas depois que o Amor traiu o teu desejo,
Jogando um véu sobre teus cabelos dourados,
E teu olhar gentil se retirou para dentro de si mesmo.

O que mais eu aprecio agora não vejo mais —
Tão perto que aquele véu pesado me restringe,
A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos.
II

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo em teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram jovens, se dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo peito selvagem se voltaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons variados, teus rostos se inflamavam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, se afastou.

Assim, espargiu flores e palavras; até que em mim,
Alegria trêmula se espalhou ao redor do meu peito.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, tão alegre!
FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY
 
  
  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, fevereiro 01, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 9
É o momento em que o planeta que marca as horas
retornar mais uma vez para fazer morada em Touro,
cujos chifres flamejantes cá derramam poder
E decoram o mundo com cores recém-criadas.

Não apenas o que se estende diante de nós,
Das margens e colinas, ele adorna com flores,
mas coisas ocultas nunca veem o alvorecer
E, ele torna férteis com umidade terrena;

Para que nos deem frutos e coisas iguais;
Assim, ela, que é sol entre todas as mulheres,
movendo os raios dos belos olhos, em mim.

Dá origem a pensamentos, atos e palavras de amor —
não importa, porém, num os controles ou transforme,
Sendo que primavera para mim nunca chegará.

10
Coluna gloriosa sobre a qual repousar,
nossa esperança e grande renome do Lácio,
que nem mesmo a ira de Júpiter com chuva forte
Ainda se desviou da passagem verdadeira:

Não há então palácios, teatros, galerias aqui;
em vez disso, abeto, faia, pinheiro se erguem —
entre a grama verde e a encosta da montanha próxima,
onde nós, na poesia, descemos e subimos —

Para abranger nossos intelectos da terra ao céu;
há um rouxinol que, nas sombras,
lamentar docemente e chora durante toda a noite,

E abarba cada peito com pensamentos de amor.
Por bondade, só tu interrompeste a perfeição,
mantendo-se longe de nós aqui, meu senhor.

F. Petrarca - Trad. Eric Ponty

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Uma negra possuída pelo diabo puto - S. Mallarmé - Trad. Eric Ponty

Uma negra possuída pelo diabo puto,
Quer provar a miúda consumida pelo novo prado,
E o fruto maligno sob teu vestido esfarrapado; 
Essa glutona inventa alguns truques tão astutos. 

Contra barriga, ela raspa dois seios jovens e ledos 
E, mais alto do que a mão poderia abichar o ser. 
Bate bruno de teus pés calçados com botas sem medo
Assim qual uma língua inexperiente no prazer. 

Contra a nudez assustada desta gazela 
Que treme, qual um elefante louco, deitada ela
De costas, espera. Espantar com ânsia.
Sorri com dentes infantis para a guria.
 
E, entre coxas, onde a vítima se estica. 
Içando a pele negra sob o pelo que fica. 
Ela impele para fora o palato a boca estranha ecoar,
Pálida e rosada como uma concha do mar.

 S. Mallarmé

O poema pertence ao género normalmente referido como obsceno. Descreve, ou melhor, narra (uma vez que a cena está em movimento) a posição erótica normalmente conhecida como sessenta e nove — com a tripla peculiaridade de ser um sessenta e nove entre duas mulheres, um sessenta e nove entre uma adulta e uma criança, um sessenta e nove entre uma negra e uma branca. Mas o que mais me interessa não é a obscenidade, mas o voyeurismo, que é duplo: Mallarmé não só nos faz espreitar algo tão estritamente privado como uma cena de amor lésbico, mas também algo privado dentro dessa privacidade, que é o interior do sexo femíneo, normalmente oculto da vista pelos púbicos.

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sábado, janeiro 31, 2026

PARA OS MEUS 102622 LEITORES - ERIC PONTY

 Que alegre parece ser essa guirlanda, e que
bem moldada com flores, em teus cabelos dourados!
Um pouco à frente, cada flor (eu juraria)
compete para ser a primeira a beijar sua face luminosa.
Ó vestido feliz vinte e quatro horas, e agora,
que prende os seios e flui com elegância,
e renda feliz de ouro que semelha se importar
Apenas por aquelas amuras e por aquele regaço (eu juro)!

Veja, em teu peito, aquela fita é muito alegre,
Não por tua beleza ou tua borda dourada,
Mas por aquele descanso ali mesmo e por aquele jogo.
E aquele cinto fino – ó doce embate –
Diz para si mesmo: Aqui mesmo, ó, deixe-me envelhecer!
Entendes agora o que meus braços fariam.

Para Giovanni, aquele de Pistoia.

Alarguei um bócio, com essa tristeza,
Se eu tivesse, tal qual os gatos da Lombardia,
Bebida água suja em grande batelada, –
O que faz o estômago inchar até o queixo.
Barba até as estrelas e uma nuca que prendo
Nos ombros, peito de harpia – esse sou eu;
E, ainda pingando, o pincel, como podes ver,
Deixou meu rosto maculado por dentro e por fora.

Para dentro da barriga adentraram meus quadris,
E com o assento eu contraponho a corcunda
E, tal não consigo olhar, em vão eu vou.
Na frente, minha pele está esticada e quase se vira,
Mas atrás as rugas formam um monte,
E curvado eu ando igual um arco sírio.

É por isso que, curvado e manchado,
até mesmo meus pensamentos emergem da minha cabeça:
atirar com um arcabuz torto é ruim.

Defenda minha pintura morta,
Giovanni, e minha honra que se amaina:
este lugar é ruim; além disso, eu não sou pintor.

MICHELANGELO BUONARROTI - TRAD.ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sexta-feira, janeiro 30, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 

EU TE ACEITO

[CONTEMPLAÇÃO DO SYMBOLO OLVIDADO]POR [ERIC PONTY]

            Há defensores, na área da poesia, de uma coisa chamada "transcriação", processo que, alega-se, superaria os percalços do velho ato de traduzir. Tudo se resumiria, no caso, a priorizar a forma, relegando o sentido a um segundo plano. Aceita a tese, caberia ao transcriador recriar integralmente o poema. 

É uma escolha, claro, e, como tal, discutível.  

       Eric Ponty não se alinha entre os transcriadores. Prefere simplesmente filiar-se ao grupo dos tradutores. E, assim como Renan recomendava escrever apenas sobre aquilo de que gostamos, Ponty só traduz os poetas de sua preferência. Paul Valéry é um deles. E se não é obrigatório, é recomendável haver afinidade entre o tradutor e a obra. E essa comunhão estética entre o tradutor e o traduzido, deixadas as possíveis diferenças de lado, está patente nos poemas aqui recolhidos.

     Ainda caminhando na senda mallarmaica, o autor de Le cimetière marin desbastou sua poesia de toda forma de sentimentalismo, rejeição comparável a seu repúdio à egolatria romântica. Mas essa poesia, a de Valéry, carrega uma musicalidade ausente (ou pouco relevante) em Mallarmé e expressivamente atuante em Rimbaud e Verlaine. Aliás, é deste último o apelo: de la musique avant toute chose...

     E é esta música que o tradutor Eric Ponty capta.

João da Penha - Escritor e jornalista, traduziu os poetas russos Sierguei Iessiênin, Alieksandr Blok, Marina Tsviêtáieva e Anna Armátova


quinta-feira, janeiro 29, 2026

SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS - Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty

  SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS (1590-1650)



CHRISTOPHER MARLOWE

Coroado, cingido, vestido e calçado com luz e fogo,
Filho primogênito da manhã, estrela soberana!
Alma mais chegada da nossa estava mais afastada,
Mais distante no abismo do tempo, com tua lira.

Pendia mais alto sobre a veemência da aurora
Onde todos cantaram juntos, todos os que existem,
E todas as canções estreladas atrás de teu carro
Ressoaram em teia, todas nossas almas o aclamam, senhor.

"Se todas as penas que os poetas já tiveram
Mantido o anseio dos pensamentos de teus mestres,"
E qual com a pressa de carruagens em movimento.

O voo de todos os teus espíritos fosse impacto
Em direção a um grande fim, sua glória - não, não então,
Ainda não poderia ser assaz louvado pelos homens.

WILLIAM SHAKESPEARE


Nem que línguas dos homens e dos anjos, todas em uma
Falassem, poderias ser dito a palavra que poderia Te falar.
Córregos, ventos, bosques, flores, campos, montanhas, 
sim, o mar, que poder há em todos para louvarem o sol?

Teu louvor é este, - ele não pode ser louvado por ninguém.
Homem, mulher, criança, louvam a Deus por ele; mas ele
Não exulta por ser adorado, mas por ser.  Ele é;
Ele é; e, sendo, se considera tua obra bem-feita.

Toda a alegria, a glória, toda a tristeza, a força, todo o gozo,
São dele: sem ele, o dia seria noite na Terra.
O tempo não o admite, desde o era do tempo.

Todos alaúdes, harpas, todas violas, flautas, todas liras,
Ficam mudos diante de ti, antes Duma corda se suspenda.
Todas as estrelas são anjos, mas o sol é Deus.

BEN JONSON 

De base ampla, de frente farta, multiforme,
Com muitos vales cobertos de hera e videiras,
Onde as fontes de todos os riachos correm vinho,
E muitos penhascos de frente para a tempestade,

A montanha onde os pés de tua musa se arrefeceram
Os gramados que se apraziam com tua dança divina
Ainda brilhas com fogo do qual soia brilhar
Das tochas que se acendem em torno da dança.

Nem menos, nas alturas dos jazigos cinzentos,
Videntes de grande pensar, com luzes do céu acesas no peito
Conversam: e o rebanho de coisas insignificantes.

Sabes, ou por açoite ardente ou por haste ardente
Quando a ira se ergueu e riu em tua fronte larga
Abrumando tua alma com sombras das asas do trovão.


 

UM ESTUDO DE MEMÓRIA

 

Se essa ainda é uma alma viva que aqui verse-as,
Semelhava mais intensa aumento de numerar fontes
E vestida pelo tempo e pela dor com coisas mais belas
A cada ano que ia, via cumprir-se um novo ano de armada,

A morte não pode ter mudado nada do que a tornou prezada;
Bondade meio humorística, alegria de olhos graves nas asas
Sensatez intensa, voz mais alegre do que cordas que tocais;
A mais esplêndida calma, coroada com um ânimo conquistador;

Sendo então um espírito inviolável que sorria e cantava
Por força da natureza e necessidade heroica
Mais doce e forte do que o sonho ou o feito mais imponente;

Uma canção que cintilava, uma luz de onde ressoava a música
Tão alto quanto as alturas mais ensolaradas do pensar mais gentil;
Tudo isso deveria ser, ou tudo o que ela era não seria nada.


Além do vento norte, havia a terra de outrora onde os homens 
viviam alegres e sem culpa, vestidos e sustentados
Com as vestes intensas da alegria e com o doce pão do amor,
O rebanho mais branco do rebanho materno da Terra.

Ninguém poderia usar em seus sobrolhos registrados
Uma luz de fama mais bela do que a que cintila sua cabeça,
Cujo amor pelas crianças e pelos mortos
Todos os homens agradecem: eu vejo ao longe!

Uma valiosa mão morta que nos une, e uma luz
A mais bela e benigna da noite,
A noite do doce sono da morte, na qual pode haver.

Uma estrela para mostrar seu peito na visão coeva
Alguma ilha mais feliz no mar Elísio
Onde Rab possa lamber a mão de tua amada Marjorie.

Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty
 
  
   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA