terça-feira, dezembro 25, 2018

A EFIGIE DE JOB - ERIC PONTY


Errante palmilhasse vagamente
uma paisagem de Minas, espessa,
e na torre da tarde um sino louco


se misturasse ao som de meus palatos
sendo pausado e seco; margens pairassem
no céu de cinzas, e suas nuvens pretas


sutilmente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda sêus montes
e de meu próprio ser desentranhado,


A efigie do Job jaz se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter olhado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um tom que fosse impuro
nem um brilho maior que o ponderável


Pelas pupilas vastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela visão exausta de mentar


toda uma realidade que transcende
a própria epifania sua debuxada
no verbo do mistério, nos abismos.


Abriu-se em palma pura, e convidando
quantos pedidos e intuições restavam
a quem de os ter olhado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e versos sempre repetimos
os mesmos sem Lenheiros tristes périplos,


convocando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o fato inédito
da natura mítica das coisas mistas,


assim me disse, embora voz alguma
ou tinir ou eco ou simples percussão
atestasse ninguém, sobre a façanha,


A outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de


teu ser contrito e nunca demostrou,
mesmo afetando dar-se ou refazendo,
e a cada instante mais se retraindo,


veja, repara, ausculta: essa miudeza
sobrante a toda auréola, essa abnuência
sublime e formidável, mas hermética,


essa fatal explicação da vida,
do perplexo primeiro e singular,
nem conheces jamais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre tua crença para agasalhá-la.”


As mais soturnas fontes e edifícios,
que nas oficinas se colabora,
o que ideado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,
recursos que se erra dominados,
e as ilusões e os impulsos e os tormentos


e tudo que definha o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber


nos sons rancorosos dos saltérios,
retorna ao fundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,
suas vaidades altas mais que todos
monumentos erguidos à vontade:


e a memória do Deus, fez e o solene
sentimento tez forte, que padece
no talhe da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance
e me clamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e o preceito,


a esperança mais mínima — nesse zelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre raios do Deus inda se filtra;


como defuntas sanhas convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face


que vou pelas paisagens demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante em mim há tantas tardes,


passasse a comandar minha verdade
que, já de si volúvel, encerrava
semelhante a essas dores reticentes


em si mesmas feridas e fechadas;
como se um tom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,


baixei olhares, incurioso, lasso,
desdenhando olhar a coisa ofertada
que se abria gratuita a meu empenho.


A relva mais estrita já pousara
sobre a paisagem de Minas, pedregosa,
e a efígie do Job jaz, repelida,


se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que vertera,
seguia vagaroso, nos chão densos.
ERIC PONTY

quarta-feira, novembro 21, 2018

verso livre o caralho que não sabe fazer poesia

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE VERSO LIVRE E VERSO REGULAR NO JORNAL CÂNDIDO, EDIÇÃO DE NOVEMBRO
Pensata | Antonio Carlos Secchin
A coluna Pensata abre espaço para que autores reflitam sobre um tema sugerido pela equipe do Cândido. Nesta edição, o poeta e crítico Antonio Carlos Secchin discute sobre a viabilidade ou não de qualquer um escrever e publicar poesia e, ainda, se não há verso livre demais sendo praticado e publicado pelos poetas brasileiros contemporâneos.
EM TORNO DO VERSO
Antonio Carlos Secchin
Em 1980, Carlos Drummond de Andrade publicou A paixão medida. Valho-me desse belo título para tecer algumas considerações sobre o verso. De certo modo, podemos considerar o poema como a prática de uma “paixão” que, simultaneamente, se insere em alguma “medida”, algum andamento rítmico que lhe dá força e expressão.
Um dos maiores equívocos que se perpetuam, inclusive em salas de aula universitárias, é o de que, em contraposição ao verso tradicional, o livre não tem métrica! Ora, a métrica é exatamente o que define o verso, em oposição à prosa, cujo limite é estabelecido pela mancha tipográfica do fim de uma linha, e não pelo recorte (rítmico) arbitrado pelo poeta. O que se pode dizer é que o verso livre não apresenta métrica regular, constante, mas nunca que prescinde de alguma “medida”, sem o quê não seria verso. Sem falar, ainda, em certos experimentos do final do século XIX/ início do XX, quando poetas, desejosos de ampliar os horizontes expressivos do poema, porém sem atingir o patamar do verso livre, valeram-se da forma intermediária dos “versos polimétricos”, que rompiam a rígida simetria dos predecessores ao mesclarem medidas diversas num mesmo texto, respeitando, porém, alguns parâmetros de regularidade na elaboração de seus desvios: por exemplo: submissão das métricas ao limite infranqueável de doze sílabas; manutenção de um modelo reiterativo de variação métrica ao longo do texto, cerceando a livre expansão do verso.
Outro equívoco, ainda mais rudimentar, consiste em definir verso livre a partir da inexistência da rima. Ora, verso livre é matéria estritamente rítmica, conforme assinalamos, sem nada a ver com a questão eufônica da rima. O verso sem rima é denominado “branco”, e é de prática antiquíssima. Vide, em nossas letras, O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, em decassílabos brancos. Como, porém, a dupla “métrica/rima” costumava vir unida, tomou-se uma coisa pela outra, na errônea concepção de verso livre pelo viés da rima.
...
Na literatura brasileira, a atribuição do pioneirismo no emprego do verso livre é assunto controverso. O simbolista Mário Pederneiras é o nome mais citado, embora antes dele os hoje também ignorados Guerra-Duval e Alberto Ramos (sob o pseudônimo de Marcos de Castro) tenham praticado a modalidade — que se consolidou, de fato, na década de 1920, após a Semana de Arte Moderna de 1922.
É inegável a fecunda contribuição, o sopro renovador do verso livre contra o engessado domínio do sub-Parnasianismo que entre nós grassava nos primeiros anos do século passado. A consideração, todavia, deve ser matizada, pois não é a utilização (ou a recusa) de um recurso em si que irá previamente assegurar a qualidade de um texto. Ao romper as barreiras da métrica regular, o verso livre forneceu a (falsa) perspectiva de um facilitário irrestrito: bastava alguém não saber metrificar para dizer-se poeta. Algo bem diverso da simples ignorância do verso tradicional foi sua superação por parte de quem o dominava com maestria — e a obra de Manuel Bandeira é cabal demonstração do fenômeno: partiu do exercício inicial com formas consolidadas para o extraordinário versilibrismo de Libertinagem, de 1930. Sem nos esquecermos de grandes poetas que trilharam o caminho inverso: Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, partidários do verso livre na década modernista, retornaram à “paixão medida” cerca de 20 anos depois. Muitos críticos, inclusive, consideram que nessa prática se inscreve o que de melhor Drummond produziu, em Claro enigma, de 1951.
Deve-se evitar o erro de considerar o verso livre necessariamente superior ao metricamente regular, legislando-se ditatorialmente em nome da liberdade. Onde o poeta colhe seus melhores resultados, aí reside o efetivo espaço de sua manifestação criadora. O cerceamento por barreira voluntária às vezes é combustível que faz girar a máquina poética. Em prol da hegemonia do verso livre, recalca-se, por exemplo, o fato de que quase toda a obra de um dos maiores poetas brasileiros do século XX, João Cabral de Melo Neto, é pautada pela observância de métrica e rima regulares. Se, de um lado, a rima restringe o universo vocabular, de outro, exatamente por isso, pode conduzir a imagens inesperadas, que, sem ela, provavelmente jamais ocorreriam ao poeta.
Um renomado e talentoso escritor contemporâneo, tentando menosprezar certa visão do poema, declarou que não lhe interessava a poesia como “caixinha de sonoridades”. Retomemos a imagem. Sim, em geral pela curta extensão, o poema é uma “caixinha”, mas que pode conter todas as sonoridades, não apenas as que os caciques designam como “poeticamente corretas”. Sim, que nela caibam todos os ritmos, os regulares, os não regulares, as rimas, as não rimas, as dissonâncias, as eufonias. Caixinha que condensa a linguagem em seu estado de máxima potência: para essa vocação talvez sirva a poesia, que não se deixa capturar em nenhuma fórmula de modelo ou de antimodelo.
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Poeta e ensaísta, Secchin publicou, entre outras obras, João Cabral: a poesia do menos (1985) e Todos os ventos (poemas reunidos, 2002, ganhador dos Prêmios da ABL, da Biblioteca Nacional e do Pen Clube). Com a obra Desdizer, lançada ano passado, o autor voltou à poesia 15 anos após a publicação de Todos os ventos.

segunda-feira, novembro 19, 2018

Eric Ponty e a trilha solar - Jacob Klintowitz

 
          É notável o amor de Eric Ponty pelo diálogo luminoso, pelo confronto radioso. Ele almeja a sensação ofuscante da solidariedade e da fraternidade. Entre ele e o outro se estende, por sua iniciativa, um percurso solar, uma estrada de permanente luz. Ele, a cada momento, internamente, no fazer, no desejar o encontro com o outro, no procurar a absoluta comunicação com o outro, estabelece uma fusão de temperatura tão elevada que funde os metais. É no outro que ele se vê, É no outro que ele está. Em Eric Ponty o poema é uma maneira de meditar e nesta introspecção ele vê a si mesmo e conforma o mundo segundo um modelo clássico, pois este poeta, é preciso que se diga logo, é o homem da palavra.
Eric Ponty escolheu as flores do pintor Oscar Araripe para nelas ter uma nova vida. Não uma simples vivência, mas uma integração da qual ele emergiu com poemas nascidos desta empatia. Ponty está entusiasmado e nos entusiasma, pois tem em si a presença divina, melhor descrição grega de entusiasmo.
Certamente a pintura é o universo do silêncio. E este silêncio tão rico de significados, tão impregnado do simbólico, nos provoca, entre tantas reações, a de tentar a equivalência da emoção e da palavra. E este é o reino de Eric Ponty, o das palavras tão ricas em significados. Também a palavra poética é feita de silêncios, de espaços, de impregnações que sempre se renovam a cada vez que as lemos. Mas o silêncio da pintura e o silêncio da palavra são diferentes entre si e o poeta nos apresenta esta dessemelhança e, curiosamente, esta fraternidade tão íntima entre estes silêncios. É exatamente isto o que nos impregna, a sensação de que o mundo é construído de individualidades feitas de uma única matéria.
Talvez nos poemas de Ponty exista certa música das esferas. É um encantamento que nos atinge. E talvez toda a arte contenha a música das esferas. Melhor para nós que este eco cósmico tenha ressonância e mantenha o mistério. O mistério do mistério da arte é que ao equacioná-lo não o perdemos, pois continua misterioso. Eric Ponty mantém aceso este athanor: vemos a transformação da matéria em matéria sutil e percebemos que são aparências, somente aparências. E nos comove.
Ponty, que tem esta integração como um de seus métodos de trabalho, escolheu a pintura de Oscar Araripe uma das mais líricas da nossa arte. A pintura de Araripe tem a convicção de que a virtude da arte não é a aparência e que as suas flores, por exemplo, são memórias da emanação da perfeição. Não as flores, mas a flor primordial. E não a flor primordial, mas a memória da flor primeira que não foi vista, mas sentida. É a razão pela qual as flores das pinturas de Araripe são a memória da emanação da flor primeva que, na verdade, jamais foi vista, mas que o poeta pintor sabe como evocá-la.
É neste mundo de aparências, memórias, evocações, que o poeta Eric Ponty, por sua vez, a cada momento, mergulha nesta seara tão rica e rara, a de se integrar à obra criada de outro artista para deste contato intimo nos apresentar uma renovada lírica, tão original e envolvente. Em nós este diálogo e empatia entre formas de gêneros diferentes provoca a alegria do encontro, pois estamos convidados a conviver com este momento tão raro, o do nascimento da forma.
Eu, no início deste texto, pensei em trazer o testemunho histórico de poetas que escreveram sobre artes plásticas ou que fizeram poemas a partir do convívio intimo com a arte. Juntei nomes ilustres para ilustrar o processo, como os de Charles Baudelaire e Manet, Rainer Maria Rilke e Auguste Rodin, A combinação entre poetas e pintores, como sabemos, é fantástica. Como é o caso de Guillaume Apollinaire e Pablo Picasso, ou de Rainer Maria Rilke e Auguste Rodin. Ou de Geir Campos e Israel Pedrosa. João Cabral de Mello e Joan Miró.  Ou de Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes e Candido Portinari.   Ou de Carlos Drummond de Andrade e Israel Pedrosa. Ou de Walmir Ayala e Milton Dacosta. Ou de Mirian de Carvalho e César Romero. Floriano Martins e Antonio Bandeira, Eduardo Eloy e Lucy Barbosa. Ferreira Gullar e Amílcar de Castro e Siron Franco. Haroldo Campos e Claudio Tozzi e Hermelindo Fiaminghi. Oswaldo de Andrade e Tarsila do Amaral. Pensei em explicar a ação de cada um destes poetas, mas desisti, pois é tão forte a parceria e integração entre as flores líricas de Oscar Araripe e a poesia de Eric Ponty e o entendimento do mundo que oferecem, que nada mais deveria ser explicado.
Devo destacar a coragem de Eric Ponty ao escolher este processo de criação a partir do cotejo inicial com uma obra de arte já criada. E acho uma justiça poética desvendar esta coragem do poeta com os versos de outro poeta, a nossa mestra Cecília.
 
 “Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.”
 
Aceitação. Viagem. 1939. Cecilia Meireles...