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sexta-feira, março 13, 2026

São Paulo, Domingo, 14 de Novembro de 1999 - MAIS - FOLHA DE SÃO PAULO

 IVO BARROSO
especial para a Folha

A 26 de maio de 1990, o então suplemento "Letras" deste jornal divulgava que o livreiro paulista José Luiz Geraldi, garimpando no seu comércio de obras raras, havia descoberto cinco traduções de Fernando Pessoa, até então desconhecidas, de poemas de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell, encontradas na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres", um cartapácio de 24 volumes com cerca de 13 mil páginas.
Os conhecedores da obra de Fernando Pessoa consultados foram unânimes em afirmar que essas traduções eram desconhecidas, não constando de nenhuma bibliografia do poeta. A descoberta era, sem dúvida, uma notícia literária de importância para um melhor conhecimento da obra completa de Fernando Pessoa, principalmente por não constar de seu acervo (o famoso baú).
O crítico e ensaísta português Arnaldo Saraiva, grande estudioso da obra pessoana, nove anos depois, publicou um livro denominado "Fernando Pessoa - Poeta-Tradutor de Poetas" (Nova Fronteira), em que, referindo-se em tom um tanto depreciativo àquela descoberta, relata ter encontrado muitas outras traduções de Pessoa ou atribuíveis a ele, numa pesquisa mais aprofundada que fizera no monumental calhamaço. O trabalho de Saraiva é exemplar: cita fontes, números do volume e da página, pesquisa a data da edição da obra, seus autores e colaboradores, cataloga o corpus das traduções pessoanas e até mesmo analisa a sua teoria e prática da tradução.
Obra impecável, não fosse por lhe ter passado pela peneira crítica uma página, precisamente a de número 9.802, do volume 20, em que aparece, com a indicação "Trad. de Fernando Pessôa", o poema "A Glória", de um equívoco sr. Alexandre Magariños Cervantes. O autor, segundo informa a epígrafe do poema, é um poeta "uruguayano" (sic), nascido em Montevidéu, em 1825, que iniciou sua carreira literária na Espanha, foi depois a Paris, onde fundou a "Revista de Ambos Mundos". Em 1855 regressou à pátria, onde foi catedrático de direito internacional na universidade, senador e ministro. Por aí pode-se avaliar a qualidade dos poetas. O poema é medíocre e grandiloquente, mas a culpa da escolha não pode recair sobre Pessoa, que fazia esses trabalhos com espírito amanuense de tradutor profissional e sabendo que a maioria deles sairia sem indicação do tradutor.
Como curiosidade e para complementar a excelente obra de Saraiva, o Mais! publica ao lado a referida tradução, encontrada pelo poeta Eric Ponty, de São João del Rei, nos alfarrábios da família.

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de "Arthur Rimbaud - Poesia Completa" (Ed. Aguilar).


 

 A GLÓRIA

Avante!... sempre avante!... nada importa
Que, rasgando o dossel do céu ingente
Qual flamígera nuvem, véu ardente
Ameace o universo devorar;
Avante!... sempre avante!... nada importa
Que zumba o furacão, e em fero embate
O raio tremebundo se desate,
E em seus fundos abismos ruja o mar!

Não importa que em louco torvelinho
Se despenhe tremenda a catarata,
E cubra com o seu lençol de prata
O plaino e o bosque até ao seu confim.

Sob o pé do viageiro audacioso
Não importa que a terra trema ou ceda,
Que não encontre rasto nem vereda
Que da viagem o conduza ao fim.

E avante seguirá, e sempre avante!
Cruzando sempre com crescentes brios
Selvas, desertos, páramos e rios,
Que absortos deixam a alma e o coração.
O sol a prumo lançará seus raios
Mas vão será que ao viajor assaltem
Que incendeiem o ar, e na erva saltem
Suas línguas de fogo em rebelião.

Ele impassível cruzará os braços,
E ainda que um instante o aterre o fogo,
O seu olhar altivo e firme logo
No espaçoso horizonte cravará.
E entre nuvens de cinzas escaldantes
Pisando a terra que inda ardendo acha,
Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha
E atrás das chamas para diante irá.

Avante sempre!... Fétidas lagoas,
Negros vapores que só morte exalam,
Vampiros que com sangue se regalam,
Insetos vis de peçonhento fel,
Serpentes que anunciam-se ferindo,
Magros tigres da selva nos horrores,
E que da lua aos trêmulos fulgores
Rugindo se aproximam em tropel;

Bárbara tribo que se oculta infida
E ao cristão vingativa morto deixa
Com a veloz envenenada flecha
Que silva, fere, passa e não se vê:
Nada amedronta nem detém o forte
Varão no seu caminho agro e divino;

Pode prostrá-lo ali o seu destino...
Mas não forçá-lo a desviar o pé!

Um impulso secreto, um misterioso
Instinto que seus passos firme rege,
O arrebata, o impele e o dirige
Para a sua missão, triste ou feliz.

E cai, e se levanta, e cai de novo,
E outra vez se levanta inda mais forte,
E segue sem temer para o seu norte,
O peito sossegado e alta a cruz.

Talvez por prêmio do afã seu, ao grato
Porto da sua ansiada esp'rança chegue,
E que ao vindouro o seu nome legue
Coberto de uma auréola divinal.
E talvez o demônio -cujo esforço
E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba-
Dê à sua ânsia prematura tumba
E ao seu nome o olvido perenal.

Deste modo é a glória!... os que a perseguem
A juventude imolam-lhe nas aras,
Ditas, prazeres, e quimeras caras,
Quanto entesoura a alma e o coração.
Assim somente se fecunda e brota
E se entreabre seu espinhoso lírio;
Porque a glória é, ou nada, ou o martírio,
É do anjo proscrito a expiação!

Enquanto o homem vive, ela lhe pede
A seiva toda da existência sua,
E faz que ardente sem cessar reflua
Pela frágua do tempo o seu porvir -
O porvir que não chega senão quando
A alma quebra a escravidão terrena
E se levanta à região serena
Entre nuvens de rosa e de safir.

Vem a glória depois, a virgem casta,
Que foge do homem quanto mais a implora,
E em seu sepulcro se lhe entrega e chora
Porque vivendo lhe negou o amor:
A terra beija que seus restos cobre,
E o puro pranto que abundoso verte
Em luz e aromas e lauréis converte
O lodo vil que só causava horror.

Alexandre Magariños Cervantes-Tradução de Fernando Pessoa

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Mario Benedetti & Ivo Barroso & Eric Ponty

 

Caro Éric,
Poderíamos fazer um acordo, está todo mundo comentando que sua voz poética faz sua tradução seja melhor que original, sendo que você vai criar um incidente diplomático com meu amigo Mario Benedetti. Me prometa que você nunca vai traduzi-lo.
Do amigo 
Ivo Barroso

Eleger minha paisagem

Se eu pudesse escolher minha paisagem
de coisas memoráveis, minha paisagem
de outono desolado,
eu escolheria, roubaria esta rua
que é anterior a mim e a todos.

Ela devolve meu olhar inútil,
o de apenas quinze ou vinte anos atrás,
quando a casa verde envenenava o céu.
Por isso é cruel deixá-la ao entardecer,
com tantos varandões como ninhos solitários
e tantos passos como nunca esperados.

Aqui estarão sempre, aqui, os inimigos,
os espiões traiçoeiros da solidão,
as pernas de mulher que arrastam meus olhos
longe da equação de duas incógnitas.

Aqui há pássaros, chuva, alguma morte,
folhas secas, buzinas e nomes desolados,
nuvens que crescem na minha janela
enquanto a umidade traz lamentos e moscas.

No entanto, existe também o passado
com suas rosas repentinas e escândalos modestos
com seus sons duros de uma ansiedade qualquer,
e sua insignificante coceira de lembranças.

Ah, se eu pudesse escolher minha paisagem,
eu escolheria, roubaria esta rua,
esta rua recém crepúsculo,
na qual revivo ferozmente
e da qual sei com estrita nostalgia
o número e o nome de suas setenta árvores. 
Mario Benedetti


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Irrompa infindamente
Do meu lábio amante, alto, numa explosão,
Mental, duma só vez este degredo ardente,
Assim tal qual um vagido, assim tal qual um clarão!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Ô Verbo tão imanente
Que fez Chama! Ô doce e terrível confissão!
Ô médica me indica atroz da cura da morfina,
A cor que vem do Azul varrendo a Noite em frente,

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Que senhora irradia,
Desta chama idéal que anda a queimar, à toa,
Silêncio! Traços meus... parai vossa Harmonia!

Presente voz deste Amor que me enleva e me aterra!
Do meu poema à minha Alma, indômita, revoa,
Tal qual um raio de sol que prende o Céu à Terra!

 
II
 
Para as morfinas de dores gelados
São ânsias e os socorros vão partindo,
Fúnebre azul, siderais convidados
De margens alvas a amplidão vestindo...

Num fúnebre de cânticos plantados
As ferinas, as citaras ferindo,
Passam, das margens nos troféus herdados,
São asas doiro finamente vão abrindo...

Dos etéreos turíbulos de igrejas
Claro incenso aromal, límpido seja,
Ondas nevoentas regiões levantam...

São as ânsias e os fúnebres infinitos
Vão com doiro anjo formulando mitos
Da Eternidade que erguem flores cantam...
 
III 
Morfina almas, sacra irmã gloriosa,
morfina irradiação do Sofrimento,
Quando surgirás no Deslumbramento,
Tão perto em mim, no pascer dor radiosa?!

Tu que és a foz da Mansão em coisa,
Pascer do estimado Encantamento,
Do signo astral do radioso Pensamento
Zelando eternamente a dor chorosa,

Morfina almas, meu rezar amigo,
Véu celeste, sacrossanto que digo,
Da morte e constelada vastidão,

Entre os teus laços de eternal fúcsia,
Pascendo e rezando em foz de delícia,
Do pascer te alçarei na Eternidade?!
IV
 

Tal qual serpente enorme, então natureza
Enroscava-se minha alma tão fria abatida:
Que se assobiava azul do céu tal qual vida,
Na morfina onde há sombra, o ar úmido e tristeza.

Enquanto gelo tal qual um ferro agudo buído,
Adestrava-me a sombra, sonho inquieto e aceso,
Arranjava um jazido, uma chama, página lido,
Na intimidade ideal de um jazido inglês.

Eis que próximo a mim, surge, irrompe, fulgura,
Tal qual fugida a um quadro, uma alva figura,
Tal qual só que Portinari sabia pintar.

Tal qual fronte gentil punha apenas de fora...
O meu corpo voava arrebatando a aurora,
Um furacão de azul levava-a pelo ar.

Eric Tirado Viegas (Ponty)



A Estátua de Sal Sacra - Eric Ponty

 

 

P/A N T O N I O C A R L O S S E C C H IN

Invés tal, ri, num rio de tormenta,
Como um artesão, que desengonçado,
Nervoso, ri, obra rio absurdo, inflado
De uma ironia e de uma flor tão benta.

Da paisagem atroz, sanguinolenta,
Pulsa os cinzeis, e convulsionado
Obra estátua de sal salta, varado
Pelo existir dessa agonia agenda...

Pedem-te obras artesão não se despreza!
Vamos! Retesa as estátuas, retesa
Nessas macabros azuis do céu d’aço...

E embora saias sobre o sal, fremente,
Afogado em teu sangue estátua a fronte,
Diz, existir movimento que traço.

 Eric Ponty

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Dois Poemas de Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 Quer meus versos, rainha de olhos briosos e doces!
Infeliz, sabes muito bem que, com os cães ínvidos,
Os críticos rancorosos, com lábios franzidos,
Que perdem em farrapos as estrofes dilaceradas,
Toda a pálida raça com a fronte amarelada de fel,
Cujo fel é o luto eterno pela prosperidade alheia,
Eu ladro com toda a força, e mais alto que os outros.
Ó poetas divinos, não sou mais um de vôs:
Fizeram-me um nicho onde fico à espreita,
No rodapé do jornal, qual um cão agachado;
E há muito tempo, no altar da minha alma,
Derrubei a urna de ouro onde brilhava a chama.
Para mim, não há mais primavera, nem arte, nem sono;
Não há mais quimeras loiras com sorrisos rubros,
Nem pombas privadas, de pescoço alvo e pés rosados,
Que bebem da minha taça e pousam no meu dedo.
Minha poesia está morta, e eu não sei mais nada,
Exceto de que tudo é feio, exceto de que nada é bom.
Eu encontro, por natureza, o mal em todas as coisas,
Dessas manchas do sol, o verme de cada rosa,
Triste enfermeiro, vejo os ossos sob a pele,
A cortina por dentro e o reverso do véu.
Assim eu vivo. - Como a bela musa antiga,
Erguida sob as longas pregas de tua túnica alva,
Com cabelos negros em duas ondas abertas,
Como o palato de flores douradas estreladas,
Sem ferir os pés com esses cacos de vidro,
Poderia ela descer até mim nessa terra?
Mas as belas sempre são intensas sobre nós:
Os leões botam focinhos ruivos sobre as patas.
O que a Musa de grandes asas não faria,
A Virgem aoniana de graças eternas,
Com teu doce beijo e a glória em recompensa,
Fazes, ó rainha! E em meu coração surpreso
Sinto brotar os versos e, toda alegre,
Abrir-se numa flor a rima brotada!


A campainha matinal enfim tocou a hora

Em que as pálidas, que um dia muito vivo toca,
Perto da sílfide que dorme vão deslizar sem ruído
No coração dos nenúfares e das belas da noite;
Giselle desfalecente com tuas poses suaves
Lentamente ofuscar-se sob teu sudário de rosas,
E não se vês mais do fantasma encantador
Do que uma pequena mão aberta para teu amante.
- Então aparece, tal qual caçadora soberba,
Arrastando teu veludo sobre o veludo da grama,
Um sorriso na boca, um raio nos olhos,
Mais fresca que a aurora que desabrocha na borda dos céus;
Bela com teu olhar azul, tua trança dourada,
Que a Grécia teria adorado em teus altares alvos;
Mármore puro de Paros, que as Graças, em coro,
Em teu grupo admitiriam como quarta irmã.
- Da floresta mágica fulgurando a abóbada,
Uma luz viva se espalha, - e duvidamos
Se o dia, que renasce em teu brilho vermelho,
Vem de tua presença ou se vem do sol!
Giselle morre; Albert, perturbado, se eleva,
E a realidade faz o sonho ofuscar-se;
Mas em atrações divinas, em casto prazer,
Que sonho pode valer tua realidade!
Sim, Forster, eu admirava teu ouvido divino;
Me entendeu bem, do elogio sendo então óbvio:
Como ela é encantadora de se ver nas faixas sinuosas
De teus cabelos ingleses tão ricamente dourados!
Nunca Benvenuto, deus da cinzelagem,
Traçou sobre a prata um niello mais fino,
Nem na alça de um vaso enrolado de ornamentos.
Com contorno mais gracioso e um sabor mais fascinante!
Desabrochando no canto da tua têmpora azulada?
Ela parece, em meio à tua brancura de alabastro,
Uma flor viva, uma rosa de carne,
Uma concha retirada do mar!
Como em um mármore grego, ela é reta e pequena,
E o molde foi tirado daquele de Afrodite.
Abençoada a joia que, com teus lábios de ouro,
Beija teu lóbulo rosa, - e mais feliz ainda
Aquele que pode derramar, ó favor sem igual!
Nos contornos perolados de tua concha vermelha,
Tremendo de emoção, empalidecendo, perturbado,
Uma palavra misteriosa, ouvida tão-só por ela!

Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

LA CHIMÈRE - Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

Uma jovem quimera, lábios da minha taça,
Nesta orgia, deste do beijo mais do doce.
Ela tinha olhos verdes, e até tua garupa
Ondulava em torrente o ouro dos cabelos ruivos.

Nesta asa de gavião tremiam nos teus ombros;
Ao vê-la voar, me saltei sobre tuas costas;
Fazendo-a dobrar colo de salgueiro até mim,
Enfiei minha mão qual um pente em teus cabelos.

Ela se debatia, lhe gritando e furiosa,
Mas em vão. Abatia flancos com meus joelhos;
Então ela me disse com tão uma voz graciosa,
Mais clara a prata: Mestre, para onde vamos?

Além do sol e além deste espaço aonde Deus, 
Só chegaria qual após da eternidade;
Mas antes chegarmos fado, asas jazerão cansadas:
Pois quero ver do meu sonho se tornar fato.

Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Requiem para mim - Eric Ponty

 

Eric Ponty & Ivan Junqueira 

Requiem – Officium


O nó ardente ao mal, minha longa espera,
sombra e um laço contados, me vi unido,
a Morte soltou, e tal peso eu nunca senti,
Nem se acredito que morra de dor.

Não desejando Officium fosse aceito,
Pequeno laço me deixou estendido
E em nova oferta de outro fogo aceso,
para que assim não pudesse escapar.

Desejo não tivesse me lembrado,
preso no laço teria ardido logo,
tanto mais quanto sou lenha mais seca.

E mais uma vez, Morte me libertou
Sendo desfez o nó, e apagou do fogo:
contra o qual não vale astúcia e esforço.

 
Requiem - Kyrie Eleison

Senhor Deus, Misericórdia meu holocausto,
Para os terrestres Kyrie Eleison no mármore,
Ver nem onde sentisse só tão livre,
Nem tantas queixas dessa paixão ouvisse;

Nem vale que oferecesse mais lugares
onde, para chorar, eu me escondesse;
Nem imagino que em Deus tivesse o Amor 
Ninhos tão suaves, nem em qualquer margem.

As águas, as brisas, galhos, as aves, 
Dos peixes e as flores, e a grama, e, falam
Implorando que ela arda em chamas vãs. 

Mas, que do céu me reclama, memória 
Dessa morte amarga, implora eu evite 
Azuis tramas mundanas, de vãs tranças.
 
 Requiem - Dies Irae

Mil vezes, aí, no meu amado refúgio,
fugindo de mim mesmo Dies Irae pessoas,
com meu choro banhei então dessas ervas
desse meu suspiro ardente quebrou o ar.

Mil vezes, tão desconfiado, me escondi,
entre sombras, procurando com mente
desse prazer que da Morte me tirou,
Aquele costumo chamar com frequência.

Ora na forma de Narciso ou de outra
que no fundo d´almas está morando
Sai para descansar em uma margem,

ora eu a vi, que pela grama que andando,
E, pisando flores como uma alma viva,
E em teu aspecto dó de mim lhe mostrando.
 
 
Requiem – Offertorium

Que Alma feliz que tanto a mim vieste,
Consolar minhas noites dolorosas,
com olhos que a Morte tornou mais vivas
do Offertorium que teu o olhar humano:

Agradeço-te porque ao meu peito ferido
permitiste curar-se com o teu olhar!
Assim, voltam a estar mesa presentes
as tuas belezas onde antes brilharam.

Onde te cantei pelos muitos anos,
agora, quão vês, estou lamentar:
não chorando por ti, por meus danos.

E consolo para minha ansiedade,
Te reconheço, quando voltas, vendo
teu andar, tua voz, teus olhos, e trajes.
 
Requiem – Sanctus

Sanctus, tu descoloraste o rosto sacro,
e desses olhos mais lindos apagou;
à alma que mais se inflamou então em virtude
tu soltaste desse nó mais gracioso.

Tu roubaste, repente meu glorioso
bem, e teu doce sotaque silenciou,
pelo que me lamento atormentado
Em tudo o que ouço e vejo então me é odioso.

Mas regressar consolar tanta dor,
para onde a Piedade conduz tua alma:
E outra ajuda minha alma nunca espera.

E se como ela fala, e ao falar brilha,
pudesse dizer, faria arder desse amor,
não direi de homem, coração de Sanctus.
 
Requiem - Agnus Dei

Tão rápidos são o tempo e o pensamento
que me devolvem minha amada morta,
que nenhum remédio consegue me cura:
mas nenhum mal sinto enquanto a vejo.

Mas o Amor, de que em tua cruz me atormenta,
De então tremer quando a vê junto à porta
da alma que me mata, ainda tão de alerta,
É doce à vista e de acento tão suave.


Como Agnus Dei ao teu abrigo, altiva vem,
do coração sombrio e grave expulsando,
Fronte serena, o pensamento triste.

A alma, que teus olhos não suportam,
«Bendita a hora», diz imo suspirando,
«que abriste este caminho com tua luz!»
  
 
 Requiem - Lux Aeterna

Se aquela suavidade com suspiros,
Daquela ouço, for minha Lux Aeterna
– Que, embora agora esteja no céu, 
que vive, sente e anda, ama e respira –

pudesse retratar, sei minha lira
comovesse tão zelosa e piedosa
regresse para mim, teme que na passagem
eu possa me perder, e cuida da minha alma.

Me ensina a seguir em frente; e eu, que entendo,
ditos com murmúrios baixos e piedosos,
Tuas súplicas e cândidas ternuras,

Devo cumprir tua lei; que é tua piedosa
Benigna palavra, se bem compreendo,
É capaz de enternecer pedras mármores.
 
Requiem – Lacrimosa

Ar de suspiros eu enchi, Lacrimosa,
Montanha para a doce planície,
onde nasceu aquela que tinha em mão,
Se meu coração em flor, e já maduro,

E quando, subindo ao céu, alma me deixou
de tal forma que, em teu abrigo distante,
procurando com meus olhos, sombras
ao meu lado não restou nenhum seco.

Não há pedras nestas montanhas serras,
nem nestes campos ramos ou folhagem,
nem flor nestes vales, nem folha ou erva,

nem brota gota de água destas fontes,
nem há fera nestas florestas tão feras,
que ignorem esta dor dessa tão amarga.
 Requiem – Epitaphium

Como é o mundo! Agora acho ameno,
o que mais me irritava; e vejo que sinto,
que, para minha saúde, tive tormento,
Breve guerra para uma paz duradoura.

Ó esperança, ó desejo, tão variável,
Mais ainda pensamento Epitaphium!
Quão pior seria auferir aleluia
daquela alma que está em glória perene!

Mas crido cego, minha mente surda,
Desviaram tanto que, por força viva,
Me empreendi a corrida morte.

Abençoada aquela que pra ribeira
voltou meu curso, e meu desejo ardente
com elogios freou, pra que eu não feneça!
 
ERIC PONTY
 
 
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sábado, fevereiro 14, 2026

Senhor Deus, Misericórdia - Eric Ponty

Uma chuva amarga fúcsia escorre em meu rosto
soprado vento de suspiros angustiados
se olhos se voltarem pra olhar tão-só pra ti,
por quem estou separado da humanidade.

Não há equívoco teu sorriso doce e aliviado
acalma o ardor de todos os meus desejos
me resgatando deste martírio ardente
enquanto mantenho meu olhar fixo em ti;

Mas então meu ânimo de repente esfria
quando vejo, ao partir, ditas predestinadas
desviando teu movimento gentil da minha vista.

Liberada, enfim, por duas chaves amorosas,
E alma abandona o peito para seguir ti,
Perdida em pensamentos, ela se afastou.

Eric Ponty

 
 
 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Contemplar Estrelas - Eric Ponty

 P/ Olavo Bilac

 Os ruídos nuvens exalaram pompas, 
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte logros! 
pascer do sempre mármore do raro! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Ó templo, anima abunda despejar! 
Acedem douros climas que dá treva, 
Das friezas das minas, quisto os transcreva.

ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA