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terça-feira, setembro 01, 2026

ALMANAQUE DAS LESBOS -Barnes, Djuna. - TRAD. ERIC PONTY

 

 
 
A raposa com o casaco vermelho,
A Descarada de Cabeça de Mel,
O osso frontal foi suave lambido
Com caracóis de cânhamo feito os das Tulipas,
A Doxy com o colete do Kid
A farfalhar feito o «Katie-did»,
Com os olhos da Pantera sombrios e pálidos,
E pés de pomba para andar.
Jóquei com a pélvis volumosa,
Lutadora de bundas largas com a parte traseira saliente
De uma égua de um ano, firme, lustrosa e com rugas,
A Domadora a cheirar à sua Fera,
A Jade estrelada, com o seu passo masculino,
As irmãs gémeas, unidas por uma fita,
A baleia-jubarte Jester, à vontade,
Os seus Jollies enroscavam-se no trapézio.
A Virgem com o Canto da Perdiz,
Avançando com a sua bola azul que rola,
A Rainha, que durante a noite recusou
As pontas da coroa do seu marido
Ali, para se sentar a sua «Serva da Felicidade»
Todo este longo ano vai ser assim!
Para todos os planetas, estrelas e zonas
Corram meninas até aos os vossos ossos da medula!
E todas as marés anunciam
De nenhum outro Estado, propriamente dito!

Barnes, Djuna- TRAD. ERIC PONTY

 
 ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

segunda-feira, agosto 31, 2026

120.146 LEITORES DO MEU BLOGUE - HOMENAGEM PÓSTUMA - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT - IVO BARROSO

 120.146  LEITORES DO MEU BLOGUE

HOMENAGEM PÓSTUMA  - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT


 DAR NOME AOS GATOS

O nome dos gatos é um assunto matreiro,
E não passatempo dos dias indolentes;
Podem me achar doido igual a um chapeleiro
Mas um Gato tem três nomes diferentes.
O primeiro é o nome que a família mais usa,
Como Pedro, Augusto, Estêvão, ou brejeiros
Como Vítor, Jorge, ou Jonas ou Fiúza...
Mas nomes que são no entanto corriqueiros.

IVO BARROSO - SAUDADES ETERNAS
 

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 
 

quinta-feira, agosto 27, 2026

VINTE E DOIS SONETOS E UMA ELEGIA PARA UMA MUSA EM LUZ - ERIC PONTY

 Aquela que só comunica com as luzes e janelas mora no 3 andar quando surgirá para mim


 I – Oferta de paixão

Sabe, acaso, o que é paixão? – É um pouco de espera,
É fragmento de um ser que vão diz o que pensa.
E o poeta? É um fazedor, de coração que sente,
Cuja alma para a lide é sempre incompreendida.

Pois bem, vou lhe dar paixão, e do simplesmente
Neste verso que escrevo e jamais será foi dito…
Quando, a sós, ficar disgra, e estiver esquecida,
Lerei-o que eu distante hei de ser devoto.

Já sinto – e não sei bem lhe recompensar quê,
- Que se um dia você me acende-se apenas na luz
Feita de mim qual eu já quero um pouco de você.

Mas pode ser mentira… É bem gostar portanto
Que você me ilumine apenas janela
Se não quer ser comigo uma grande decepção.
 
 II – Tatuagem a tua sombra

É por muito te querer que não quero mais viver;
Sou mísero, artista… e lhe estimo a nobreza;
Agora, tu és luz, e habitas a riqueza,
- por que ilude em mim?... Busca por outro então parte…

Este louvor eu sonhei, é um símbolo de se parte,
- é o mesmo devoto à sua singeleza…
Falo eu, mas somente, - eu faço essa certeza –
No soneto fizer julgando pintar-te a consagrar.

É um sonho… uma quimera…uma ilusão dar-te,
Que não pode lide…que o tempo irá apagar,
Feito a estrela que risca e não se avisa.

Não iluda mais em mim… Busca então um outro alarde!
Há uma desdita entre nós… Tu não podes me falar
E é por muito te adorar que quero então aceitar-te.
 
 III – Expectativa e espera por ti

Espero-te… E sei bem que eu só que te aguardo…
Cá tu me tens… Constante e eterna é minha espera…
- Por que hei sofrer assim sempre devoto e sincero
Por mais que expectativa eu lide, e a vida eu arda.

Chegarás… E lerás uma resposta esquiva
Ao que indagar-te…E eu que tanto desejo
Renderei outra vez disgra à palma, cativa,
- enquanto iluminarás feliz… desespero…

Há um imenso poder na sua maturidade,
E esse seu ar de mansa tortura e meiguice
Estraçalhar-lha ao seus pés toda minha lealdade.

Que fazer? Hei de sempre perdoar suas luzes…
E se aguarda, nem sei… Olvidando que disse então,
Sou eu enxugar o pranto e ainda proponho minha alma.


IV – Agonia sem ti

A luz do nosso louvor, pressenti, na agonia,
Das suas falas, rápidas, e luz amiúde,
Se eu tantas, com o fardo imenso te escrevia,
Tão roucas me aproximavam reposta apenas.

Soneto que a sofrer, te tatuo agora a margem,
Adiava a fatalidade sempre, dia a dia,
Buscando então iludir em vão meu sofrer
Muito amiúde eu soubesse quanto me iludia.

Hoje… Já não foi mais lindeza para mim,
Dizes, ( feito quem tem piedade), que é fazer
Não continuarmos amiúde… E tens razão; afinal.

Há muito eu a esperava e pressentia o ar…
Fez-se! Que hei de iludir? Agora seria a lide
Se ela não viesse nunca…e eu ficasse te aguardar.

V – Prece feita para seu colo

Em seu calmo semblante e em seu olhar estático,
Há iludido, - bem sei, - um mistério de outrora,
Quem sabe que pecaste…e eu fui seu pecado,
Que te fez olvidar que és soberba e és mulher.

Hoje és sacra… Horas quem passaram, - é o passado,
- dela já não terás uma efígie sequer…
E sua flor que se tornou funesta e amargurada,
Sepultar no silente… e em seu árduo mister…

Mais à frente está a lide… a lide humana e formosa!
Sua ausência é uma prece; seu passado: Conjectura,
Seu futuro: um rosário sacro, altar, uma vela.

Evadida do fundo, - ao ver-te, à luz noturna,
- não sei se te admire à renúncia suprema,
Foste lastimar a sua imensa covardia. 

VI – A GATA – I

Este meu verso inteiro seu, aparta,
Que ele traduz gata em humilde glória,
Letra  por letra, estranha trajetória,
Miado nossa afeição ciumenta e cara.

Beijos, afagos, sonhos… Nem fizera
Tanto miado afinal na coxa história…
E esta letra, é alegre dedicatória
Onde a minha gata inteira se declara.

Aparte este verso… E encontrará então
Sua afeição de gata miando e rosnando,
Feição sorrindo qual minha emoção.

E se dizer mais finda quando a sós,
É feito se estivesse engatinhando
Miar de gata com a sua própria foz.
 
 VII – A GATA – II

Se esse olhar seu no meu verso, imerso,
Procurarem diversas gatinhas,
- não tente detilhar: mil emoções
Nós as temos miados sós, todo rosnado.

Os meus rosnados cá existe apartados,
Feito a língua sapeca e as dimensões
No véu íntimo de suas ilusões,
Grunhidos fel interior partilhado de olhos.

Não procures uma gata surpreender,
- A língua que uma lambida desnuda,
Dizer outras, aceitam, sem carinhos.

Umas, são dizeres…Outras, ao contrário,
- No mistério da lida as contas formam
Cascatas que são mágoas de seu rosário.

VIII – Aos seus pés de rainha

Aguarda-te… E sei bem que eu lhe aguardo,
Cá me tens… Flagrante e eterna expectativa,
- Por que hei de ser sincero na perspectiva,
Por mais iluminado eu seja  por sua imagem.

Chegará enfim… E terás a mim sombra esquiva,
Afinal te indagar… Eu que tanto te sonho na lide,
Hei dizer novamente a minha fala cativa,
- enquanto indagarás pura… e eu desespero…

Há um imenso pudor nessa sua sinceridade,
E esse seu falar de imensa ternura de fêmea,
Estraçalha na sua língua toda minha imensidade.

Que dizer? Hei de sempre ressoar o que dizes,
E ti aguarda, nem sei… Olvidando seus pés,
Sou eu aguardo o fardo e ainda medito te bainha…
 
 IX – Iluminado por ti

Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
Está própria passagem jaz tão benta,
Dir-se-ia ter a flor, tão consumida olhar,
Quando flosrece em pétala junto a mim.

É um clarim a soar feito um paraíso,
Misto angelical e de deslumbramento,
Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
É apartar a ternura que nasce em pétala em mim.

Beijo-te instante às mãos em flores indo beijar-te,
Na dupla comoção (jaz lenta a ternura)
Em que meu olhar inteiro se reparte.

- já perceber em meu estranho acalanto,
Que há uma fruta entre o interno e fraterno,
Entre um demónio e o ardor do pastor em flor.

X – Epifania

Seus seios… Quando os sonhos, quando aparto,
Nessa ânsia dos seus peitos  incontentado,
- são aureolas de anjo envolvendo as santas,
Florações róseas duma carne em louvor.

E das manhãs… quando afinal entre efígies,
Das paisagens do leito então soltam nus,
- pintam, não sei, dois fartos girassois,
Hóstia ostenta a dizer dois sermões.

- Na primavera ardente dum louvor,
Que existe para nossa una comoção,
Procura à sombra e perseguindo à luz.

Túmido entre flores sensuais ao luar,
Feito duas cerejas presas as árvores,
São dois pomos de louvor de carne. 
 
 XI - Quem lhe disse que sua ausência dormita 

Quem lhe disse que sua ausência pausa olvido,
Mal soube louvar, porque se louvar soubera,
(Ausência que faz sua) morte que não aparta,
São conjecturas dum louvor desconhecido.

Poderá se olvidar que estou ferido,
Pela mecha traçoeira, quando se aparta,
Cheirar ao acaso a caixa de boceta,
Essência  da alma furor penetrante.

O veloz animal a sebe então partido,
A fruta nos apara a chaga que se deleita,
Por ti foi deferida a exaustão da ausência.

Não apartas, pois em ver-me assim flexado,
Que a ferida então consumida pelo louvor,
Queima, e em qualquer chaga, será ardida.

XII – Com vosso amar

Tal vosso amar é uma vela arder ignorante,
Qual vosso amar chama apartar mais prudente,
Tal vosso amar se absolve envolvente dissolvente,
Qual vosso amar faria o mais constante.

Tal vosso amar falante sendo galante,
Qual vosso amar é freira culpada insolente,
Tal vosso amar é chaga humilde e arrogante,
Qual vosso amar é louvar displicente.

Tal vosso amar luzido e obscuro,
Qual vosso amar é nata que então pano cobre,
Tal o vosso amar é custo do mais iníquo.

Tal vosso amar é dizer o que é mais puro,
Qual vosso amar nobre o que é mais obre,
Tal vosso amar é sobre o que é mais louro.
 
 
 XIII – Duma Lírica Portuguesa

No regaço de amor quase estava,
Dormitar tão formosa se atrevia,
No coração que mais isento dizia,
Que sua própria fala de amor matava.

Ela em olhar a luz contemplava
De quanto esquiva o mundo reluzia,
Tudo, porém, pensando lhe dizia
Que todo aquele fel ela o causava.

Sonhava que, graduado em seus louvores,
De saber de ambos mais atreve a Ventura,
Assim teve a dúvida aos senhores.

Se bem me ferem sempre então sem ter cura,
De menino os ardentes louvores e pendores,
Mais me fere efígie de sua formosura.

XIV – Ausência sua e dos seus lábios

Não fales que não sofro – meu sofrimento
Profundo com um motivo nos lábios mui vez afago,
Da dor – é feito a pedra que vai – cai pro fundo
Sob a face amena e serena e tranquila efígie.

Um instante de puro douro – um segundo,
Mui vezes me basta, e já me dou pelo seu afago,
Se inveja, invejo aquele que não jaz tão fundo,
Tem mundos para além dolhar ardente de afago.

Que eu não faço a dizer que afago e me atormento,
É sofrimento a gente maldizer-se à toa agora,
Sendo viver essa lida entre lento e um lamento.

Já, não! Ei sei que sofrer, mas apartar – que importa,
Desta hora de dizer aos homens que fundo é belo,
Dessa… suprema agonia… minha lida conforta…

IX – Duma Lírica Portuguesa II

Em laços baixos fui um tempo apartado,
Estrondoso castigos dos meus erros:
Ainda agora arrojando cravo os ferros,
Que a sorte, a meu pesar, tem já pensado.

Sacrifiquei a lida a meu cuidado,
Louvor não quer carneiros e nem bezerros,
Li mágoa assisti misérias, cri em desterros,
Contudo que me estava assim ordenado.

Já falei-me com pouco, dispensando zelo,
Sendo era o contentamento lastimoso,
Só por ser que cousa era olhar ledo.

Mas minha era disgra, que eu já agora entendo,
A sorte pega, e o fato duvidoso
Me esculpiram de gestos de haver medo.

XVI – Duma Lírica Portuguesa III

Quando da fera vista e largo riso,
Formando estão meu olhar mantimento,
Tão carregado sinto esse pensamento,
Que me jaz ser a terra então Narcíso.

Faço do bem feminino estou diviso,
Que qualquer  outro bem julgo alento,
Assim que em forma tal, segundo a lida,
Pouco bem a fazer que se alça ao siso.

Já louvar-vos, formosa, não me findo,
Porque quem possa as graças farto sente,
Falará que não pode conhecê-las.

Pois de larga estranheza sois ao fundo,
Já não é de entranhas, Dama excelente,
Que que vossa tez, tivesse céu e firmamento.

IVII -  Lua de Mel

Ei-la toda de alva. Jaz aos pés intenso céu,
Feito em flores de espuma, espalhando o véu,
Neste  olhar, dentro dos olhos entreabre um fel,
Carrega um bereú mais em forma bocetaria.

Jaz lábios… Ah! Na boca formosa há labor de mel,
Sendo a carícia dada em flor se enlaça em cada chão,
- e que tremor na pele, ao deixar ao papel,
No nome dá ela, o meu… o dos dois se faz então…

Quem lhe disse da lida? Lida é sonhar outra lida,
Desta passagem azul, desse enlaçado embaraço,
Faz sentir-se ao seu lado formosa e preferida.

Aos seus pés reféns feito nuvem alva ao prado intenso,
Quem falará ao seguir apoiada ao seu laço,
Não pensa em que se passa em direção ao véu. 

XVIII – Gata Angorá

Jaz vi perder seu alço às alvas rosas,
Tão quase escurecer-se a clara luz
Diante de umas mostras pegasosas,
Tal Vênus mais que jamais engrandecia.

A formosura, enfim, olhei tão fermosa,
Que louvor a si mesma se diria,
Mais que temia o pensamento altivo,
Já não ser para ter clamor tão farto.

Agora tudo então está diferente,
Que faz mover os peitos ao grande espanto,
Que nasceste tal Júpiter quanto potente.

Se enfada já do fundo jazer pelo mundo,
Já às aves pousam ao céu o suave acalanto,
Mais que a ausência dela se emagrece prato.

XIV – Gata na paisagem à margem do prado

Canta, agora em louvor, que a gata pasce,
Entre às úmidas ervas sossegada nasce,
E já no alto Lenheiro encanta e renasce,
Na sacra serra à sombra recostada.

Olhares ao chão, tendo a mão na sua face,
Está para se escutar apartada do prado,
E com silente entristecido estão as ninfas,
Olhares destilando se em alvas linfas.

O prado as rosas alvas que estão tão rubras,
Sendo está suavemente apresentado,
Nestas solicitas leves e breves abelhas.

A sua cabeça se reclina ao som divino,
Com sussurro agradável então voando,
Das cândidas e pacíficas dessas serras.

XX – Fragmento do seu vestido azul

Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Sobre  nós tenho olvido e hei de apartar,
Não há letra que valha uma gata de pranto,
Nem teorema que traduz essa segunda flor.

Nem escrito que se exprima o encanto em dor,
De um pedaço de véu do seu vestido azul,
Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Nesta lida, tenho inscrito sobre nossa ausência.

Não deveria existir o fragmento escrito infinito,
Destes gestos de alvor da luz entre três janelas,
Do louvor que me enlevo entre vãs horas de espera…

Quanto me sinto no profundo indefinido imenso céu,
Sendo que eu o acho tão grande intensidade escrevo,
Parece-me tão rouco daquilo que agora relevo…

XXI – Doçura efeito do seu desejo

Qual pensamento Ovídio desterrado,
Nesta aspereza do Prado imaginado
Ter-se de seus pesares apartados,
Deste escuro e puro nascimento.

Dos seus prados via estar nascendo,
Dos saudosos rios desse Lenheiro,
Sua alva esposa desamparada aparta,
Feito o seu natural lhes permitia beiro.

Só sua doçura musa o acompanha,
Nos prazerosos versos que escrevia,
Desta causa atirar o sentimento feito dela.

Qual a pena que com causa então se padece,
Tal muito doí a que se não merece,
Já pondo em doçura efeito do seu desejo.

XXII – Soneto do pensamento da amada à sombra

Sei que sempre é enfim, - distante agonizo,
Mil vezes que não fia, mas que ainda hei de fiar,
Perto aparte – meu Jesus!... Faço mais que uma disgra,
Que olvida-se nesta lição do instante divino.

Medito que a foz que escorre desse meu soneto a pino,
Fará soar no prado longínquo sons em tom de violino,
- e hei de deixá-la farta ao doce vinho escorrer
Dos seus lábios e da sua boca em tom fino.

Ao meu fardo, no instante, embalado emudeceu,
Já os seus lábios que afino em som violocelo,
Eu de todo do incenso que esvai dos seus cabelos.

E seremos neste soneto em silêncio jazer mudo,
Mas meus olhares enfim, serão assim sem fim,
E meus olhos em olhares puseram todo e tudo…


 Te consagro na elegia

Estes versos, leitora minha,
Que ao teu deleite eu consagro,
Que só têm de bons,
Conhecer eu que são maus,
Nem deputá-los vou querer,
Nem quero recomendá-los,
Porque isso fora querer,
Fazer deles muito caso,
Não agradecido eu lhe busco,
Pois não deves bem olhado,
Estimar o que eu nunca,
Julguei que fora suas mãos,
Em sua  liberdade eu me ponho,
Se quiseres censurá-los,
Pois que afinal, te estás,
Neles estou muito afinal,
Não havendo coisa mais livre,
Que o entendimento humano,
Pois que Deus nos violenta,
Porquê eu hei de violentá-lo?
De quando quiseres dele,
Que quando mais inumano,
Me medires, então
Que fica ainda mais obrigado,
Pois deves minha musa,
O mais sancionado pranto,
(que é murmurar), segundo
Um adagio cortesão.
E sempre lhe servirei, pois,
O seu agrado, não tê-la agradado,
Se te agrado tu divertes,
Murmuras senão lhe quadro,
Bem eu pudera dizer-te 
Por desculpa, que não há nada dado,
Local para então corrigi-los,
Na brisa dos traslados,
Que chegam de diversos versos,
De que alguns homens,
Matam a sorte do sentido,
Que é o cadáver do vocábulo,
Que quando eu tê-los feito,
Haverá de ter sido em curto espaço,
Que padeceram então o seu ócio,
Pressões feitas deste meu estado,
Que tenho então mais idade,
E contínuos embaraços,
Tais, que dizendo isso em versos,
Levo a pluma trotando,
Porém, isto tudo não serve,
Pois pensará que eu me elogio,
De que quizá foram contudo bons,
Ao fazei-los, porém, de despaço,
Não querendo que tu creias,
Se não é que vou contudo dar-vos,
Nessa intensa luz, tão só,
Obedecer este meu mandato;
Isto é se gosta de crê-los,
Que sobre isto eu não me mato,
Pois por fim farás o que
De que puseres nesses cascos,
Sendo Deus, que isto não é mais
Dar-te à mostra desse pano;
Senão lhe agrada então essa peça,
Não me entregue essa elegia de fardo. 

II
 Aos vossos olhos apresenta-se amor,
este verso, por ficar do seu lado na lida
iluminado por tanto sol vindo dos seus lábios,
digno de tal divindade do seu vestido alvo,
Divirtam-se só por um bocadinho
é o máximo que conseguirá aspirar,
que fosse um grande desafio ousar ocupá-la.
Como ousar para vos servir
é uma imprudência cortês,
defendido na sua intenção deste seu olhar,
consagra-se ao vosso altar.
Com todo o respeito pelas vossas janelas,
pede, no seu disfarce,
para não vos dar motivos para especular,
mas apenas o que explicar.
Que seja lido com tanto prazer na sua mandeixa,
que, orgulhoso, se expandirá pelas horas a margem
os momentos de atenção a séculos de vaidade.
Procura-se tornar-se imortal os seus seios de azul,
que favor tão celestial é medido na estimativa
a preces eternas.
Tudo o que está contido em vós
por ter sido decifrado, dá-o,
porque não se trata de um erro na fé
propor, mas sim duvidar da minha devoção.
A atenção com que é apresentado
não espera que lhe agradeçam;
que, na vossa paixão, acreditar
Começa por não esperar minha súplica,
O respeito é tão resignado ao vosso amar
vai para os vossos altares ser devota do amor,
que a primeira oferenda é não ter vontade,
mas ter lealdade ao vosso ser.
A ousadia de se atrever não pretende desculpar,
que, ao procurar-vos, a sua razão
aumentou a sua indignidade.
Um descuido da vossa parte exige que,
porque, sendo enfim um verso assim,
para que a atenção não se desviasse
com erros decorrentes da ociosidade.
Deseja muito, pois não ignora
que, por piedade natural de ser vosso devoto
deve ter mais cuidado com o voto
mais a negligência do que a ânsia.
Mas nem esquecimentos nem atenções
Será que estes confins versos  conseguirão,
porque é daquelas coisas indignas,
e vocês são incapazes de fazer isso.
Criou-vos como divindades;
mas, ao ver a vossa beleza,
uma vez que não há outra opção senão devotar,
justifica-se por não saber.
Isso leva-o a deduzir que, crer o máximo possível já,
ainda se vangloria de que é a sua face a não ser a sua teimosia.
E se, por natureza, quanto do oculto penetrais,
tudo o que é saber porque então me amais assim
já não será uma questão de adivinhar.

 III
 Amor estou condenado,
Á morte suave dos seus cabelos,
Por decreto do seus olhos alvos,
Na sentença atirada
Ao apelo resistindo suas mãos,
Escuta-me que não tenho por culpado,
A quiçá para confessar que seja negado.
Porque te tão informado
Disse, que meu peito seja ofendido,
Há enfim de ferro condenado,
Mas a notícia incerta, que não é ciência,
Que tenha na realidade experiência.
Sim outros créditos são dados
Porque aos seus olhares é enfim negado
Para o sentido trocado,
De que a lei ao meu colo se faz entregar,
Pois liberal me amplia os rigores,
E avara me restringe os favores?
Se então de outros olhares alvos tenho visto,
Para matar-me aos seus atirados olhares,
Se há outro carinho assisto,
Assistir-me implacável os louvores,
E se de outro amor de seus lábios me diverte,
Você que tem sido enfim minha vida dê a morte,
Se, outro alegre, hei me admirado
Nunca, alegre, me admire ou se faça olhar,
Se então lhe falei do seu agrado,
Eterno desagrado que enfim possua,
E, se outro amor, inquieta  o meu sentido,
Segue-me alma tu, que na minha alma
Haverá de tê-la sido enfim minha vida dê a morte,
Mas suposto que eu morro,
Sem resistir a minha infeliz sorte,
Que me dê só quero,
Licença de que venha então vir escolher,
Eu contudo minha sorte que irá apartar minha morte,
Deixa a morte nesta minha eleição medida,
Pois, em suas mãos ponho enfim minha sorte,
Não padeça de seus rigores na minha vida então lida,
Quando de amores eu possa vir morrer,
Tu cre e eu posso enfim permanecer na margem,
Que morrer de amor, não me dê de desculpas,
Não culpado, não é menos morte, contudo, honrada.
Perdão se enfim lhe venho lhe pedir,
De muitas ofensas que lhe hei feito,
Em dizer-lhe minha amada,
Que se as ofensas são, pois são o seu despeito,
E com mui razão te ofendeu o meu trato,
Pois que eu, com querer-te, te faço ingrata.
ERIC PONTY

 ericponty@outlook.com

terça-feira, agosto 25, 2026

OS JARDINS E A MORTE EM NILO SILVA LIMA - ERIC PONTY

Teoria literária que se concentra em debates de poesia, entre outras coisas, na importância relativa das diferentes formas de ver os poemas: um poema é tanto uma estrutura feita de palavras (um texto) como um acontecimento (um ato do poeta, uma experiência do leitor, um acontecimento da história literária). Para o poema concebido como construção verbal, uma questão importante é a relação entre o significado e as características não-semânticas da língua, tais como som e ritmo. Como fazer as características não-semânticas da linguagem trabalho? Que efeitos, conscientes e inconscientes, têm eles? O que tipos de interação entre características semânticas e não-semânticas podem ser esperado; como tais versos ara o poema como ato, uma questão-chave tem sido a relação entre o ato do autor que escreve o poema e o do orador ou 'voz que aí fala. Este é um assunto complicado. O autor não falar o poema; para o escrever, o autor imagina-se a ele próprio ou outra voz que o fale. Para ler um poema - por exemplo, 'O Segredo - é dizer as palavras, 'Dançamos em círculo e supomos que . . . O poema parece ser um enunciado, mas é o enunciado de uma voz de estatuto indeterminado. Ler as suas palavras é colocar-se na posição de as dizer ou então imaginar outra voz a dizê-las - a voz, dizemos muitas vezes, de um narrador ou orador construído pelo autor. Assim temos, por um lado; o indivíduo histórico, e, em uma à outra, a voz desta afirmação em particular. Intermediário entre dessas duas figuras é outra figura: a imagem de uma voz poética que emerge do estudo de uma série de poemas de um único poeta A importância destes diferentes números varia de um poeta para outro e de um tipo de estudo crítico para outro. Mas em pensando no lírico, é crucial começar com uma distinção entre a voz que fala e o poeta que fez o poema, criando assim está figura da voz.

É difícil imaginar que tipo de situação levar alguém a falar desta forma ou que ato não poético seria atuando. A resposta que provavelmente encontraremos é que estes os oradores estão a deixar-se levar e a encerar de forma poética e extravagantes posturas. Se tentarmos compreender estes poemas como imitações fictícias dos atos da fala comum, o ato parece ser o de imitar a poesia em si. r. Mesmo os poemas sardónicos são baseados em condensações hiperbólicas, como quando o gelo reduz a atividade para dançar em círculo e trata as muitas formas de conhecimento como 'supondo'. Ao abordamos aqui uma questão teórica importante, um paradoxo que parece deitar-se no centro da poesia lírica. A extravagância da poesia inclui a sua aspiração ao que os teóricos têm chamado desde os tempos clássicos sublimes": uma relação com o que excede as capacidades humanas de compreensão, provoca espanto ou intensidade apaixonada, dá ao falante uma sensação de algo para além do humano. Mas isto é a aspiração transcendente está ligada a figuras retóricas tais como apóstrofe, o tropo de abordar o que não é um verdadeiro ouvinte, personificação, a atribuição de qualidades humanas ao que não é humana, e prosopopeia, a concessão da fala a inanimados objetos. Como podem as mais elevadas aspirações de verso estar ligados a tais dispositivos retóricos?

Quando a letra da canção se desviou ou tocou no circuito de comunicação para dirigir-se ao que não é realmente um ouvinte - um vento, um tigre, ou o coração - isto é por vezes dito para significar um sentimento forte que leva o orador a rebentar ausente fora em discurso. Mas a intensidade emocional prende-se especialmente com o ato de endereço ou invocação própria, que frequentemente deseja um estado de coisas é tenta chamá-lo à existência pedindo aos objetos inanimados que se dobrem ao desejo do orador. A hiperbólica exige que o universo o ouvir e agir em conformidade é um movimento pelo qual os oradores se constituem como poetas sublimes ou como visionários: alguém que pode dirigir-se à Natureza e a quem pode responder. O 'O' de invocação é uma figura de vocação poética, um movimento pelo qual a fala a voz afirma não ser um mero falante de verso, mas uma encarnação de tradição poética e do espírito de poesia. Se constituem como poetas sublimes ou como visionários: alguém que pode dirigir-se à Natureza e a quem pode responder. 'O' de invocação é uma figura de vocação poética, um movimento pelo qual a fala a voz afirma não ser um mero falante de verso, mas uma encarnação de tradição poética e do espírito de poesia. Os poemas narrativos relatam um evento; as letras, podemos dizer, esforçam-se por ser um evento. Mas não há garantias de que o poema funcione, e apóstrofe - como as minhas breves citações indicam - é o que é mais flagrante, mais embaraçosamente 'poético', mais mistificador e vulnerável a despedimento como um disparate hiperbólico. 'Levanta-me qual uma onda, uma folha, uma nuvem'! Claro, puxa a outra. Ser um poeta é esforçar-se para trazer este tipo de coisa arreda, para apostar que não será descartada qual um monte de disparates, não é o caso de Nilo Silva Lima.

ERIC PONTY

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   


segunda-feira, agosto 24, 2026

A Musa Sobre o Tempo - Eric Ponty

 

Uma jovem mulher sob um louro alvo;
vi-a mais branca e mais fria que a neve;
sem ter sido tocada pelo sol por muitos e muitos anos;
e sua voz, seu belo rosto e seus cabelos;
me agradaram tanto que a tenho diante dos olhos;
e sempre a terei, esteja eu na colina ou na margem.
Então, meus pensamentos estarão na margem,
onde não se encontra folha verde no louro;
quando meu peito estiver pacato e meus olhos secos,
veremos o fogo nevar, a neve arder;
não tenho tantos fios nestes cabelos
quantos eu gostaria de esperar por aquele dia durante anos.
Mas como o tempo voa e os anos fogem,
de modo que se chega à morte num instante,
seja com cabelos escuros ou brancos,
seguirei a sombra daquele doce louro
sob o sol mais ardente e pela neve,
até que o último dia feche estes olhos.
Nunca se viram olhos tão majestosos,
nem em nossa época, nem nos primeiros anos,
que me derretem como o sol derrete a neve,
de onde brota a margem lacrimosa
que o Amor conduz aos pés do duro louro,
cujo copo é de diamante e ouro.
Temo mudar de rosto e de cabelos antes
que, com certo dó, os olhos me despontem
meu ídolo esculpido no louro vivo,
pois, se não me engano na conta, 
que, suspirando, vou de margem em margem,
noite e dia, no calor e na neve.
Por dentro, fogo; por fora, neve pura de seus cabelos,
apenas com esses pensamentos, com outros velos,
sempre chorando, irei por todas as margens,
para talvez despertar dó nos olhos
de alguém que nascerá daqui a mil anos,
se esse louro puder viver tanto tempo.

Na doce época da juventude,
que viu nascer e ainda quase em seus primórdios
o desejo selvagem que, para meu mal, cresceu,
pois cantando a dor se ameniza,
cantarei como vivi em liberdade
enquanto o Amor, com desdém, 
se alojou em minha morada;
depois contarei como, por culpa,
me elevou-me demais e o que disso me aconteceu,
pelo que me tornei exemplo para muita gente;
mesmo que minha dura disgra
esteja escrita em outro lugar, de tal forma que mil canetas
já se cansaram dela, e em quase todos os vales
ressone o som dos meus suspiros profundos,
que dão credibilidade à vida penosa.
E se aqui a memória não me ajuda,
como costuma fazer, desculpe-lhe os tormentos
e um pensamento que só lhe causa angústia,
tal que faz com que ela vire as costas a tudo o mais
e me faz esquecer de mim mesmo à força,
pois aquele que está dentro de mim 
é o meu certo eu, e eu sou apenas a casca.
Digo que, desde o dia em que o Amor, pela primeira vez,
me atingiu, muitos anos haviam se passado,
de modo que eu já havia mudado minha aparência juvenil,
e, ao redor do meu coração, pensamentos gelados
havia formado uma camada quase adamantina,
que não permitia que o duro sentimento se abrandasse;
nenhuma lágrima ainda molhava meu peito,
nem perturbava meu sono, e o que não existia em mim
parecia-me um milagre nos outros. Lasso, o que sou? O que fui?
A vida e o fim, e o dia louva a noite;
pois, ao ouvir o cruel sobre o que falo,
até então atingido por sua flecha,
não tendo ido além da saia,
ele levou em sua comitiva uma mulher poderosa,
cuja presença pouco me valeu ou me vale
engenho, força ou pedir perdão;
E os dois me transformaram no que sou,
transformando-me, de homem vivo, em um louro verde,
que, mesmo na estação fria, não perde suas folhas.
Como eu me senti quando, pela primeira vez, percebi
minha pessoa transfigurada,
e vi os cabelos se transformarem naquela folhagem,
da qual já esperava que se fizesse sua coroa,
e os pés com os quais me apoiei, me movi e corri,
como cada membro responde à alma,
tornarem-se duas raízes sobre as ondas,
e ambos os braços se transformarem em dois ramos!
Nem menos ainda me arrepia
o fato de ter sido coberto por penas brancas;
naquele momento em que, fulminada e morta, jazia;
minha esperança, que se elevava demasiado alto;
pois, como eu não sabia onde nem quando;
eu a reencontraria, sozinha, chorando,
ali fui levado por ti, e à noite vagava,
buscando nas margens e nas águas;
e nunca mais minha língua se calou,
enquanto pude, sobre sua queda maligna,
por isso assumi, com meu canto, a cor de um cisne.
Assim, percorri as margens amadas,
de modo que, quando queria falar, sempre cantava,
implorando misericórdia com voz estranha;
nem jamais, em tons tão doces ou tão suaves,
souber fazer ressoar os lamentos amorosos
que fizessem o coração, áspero e feroz, se humilhar.
Como foi ouvir isso? Pois a lembrança me atormenta.

O tempo passa e as horas estão tão prontas
para conduzir a viagem,
que não tenho tempo regular
nem mesmo para pensar em como corro rumo à morte;
mal surge no Leste um raio
de sol, que, ao chegar à outra montanha
do horizonte oposto,
você o verá por passagens longos e sinuosos.
As vidas são tão curtas,
tão pesados e frágeis os corpos
dos homens mortais,
que, quando me vejo tão distante
daquele majestoso rosto,
sem poder mover as asas com o desejo,
pouco me resta do alívio de sempre,
nem sei por quanto tempo viverei neste estado.
Todo lugar me abruma onde não vejo
aqueles majestosos olhos suaves
que guardavam as chaves
dos meus doces pensamentos enquanto a Deus agradou,
e para que o duro exílio me afligisse ainda mais,
se durmo, passagem ou me sento,
nada mais peço, jamais,
e o que vi depois deles me aborreceu.
Quantas montanhas e águas,
quanto mar, quantos rios
me ocultam aqueles dois olhos,
que, como um belo céu sereno no meio do dia,
dissipam minhas trevas,
para que a lembrança delas me consuma ainda mais,
e o quanto minha vida era alegre naquela época,
que a presente, amarga e enfadonha, me ensine.
Ai de mim, se ao refletir se reaviva
aquele desejo ardente
que nasceu no dia em que eu
deixei para trás a melhor parte de mim,
e se o amor se vai para o longo olvido
Quem me leva à isca?
Para que minha dor cresça,
e por que, em vez de ficar calado, não me domo?

ERIC PONTY

DOIS SONETOS DE AMOR E CEM SONETOS CARPIDOS NAS NOITES - ERIC PONTY

 A Musa


É Insensatez, Musa, da miséria e rezado,
Diluir nossas camas trançadas nosso cerne.
E, qual luz filial, devoramos remanso lardo,
Quais os andrajos perdem comer restos carne.

Nossas carnes são pertinazes, em pensar;
Oferecer francos nossos votos fé crivos
E retornam alegres mensagens de pesar,
Em pensar lamúrias irão cravar os laivos.

Barqueiro infernal herdado Gil dos internos,
Don Sebastião, acalma nossa alma cativa,
É tudo sinal mais raro de nosso anseio ativa
Sublimados por trevas herméticas ternas.

Real o louvor compor todas as nossas rodas!
Grosso objeto abjeto, vemos traçar carnal;
Em Poente dia estamos traço adiante infernal,
Louvor ao bulir meio luar podres hordas.

Sendo um libertino negro foi trepar e beijar,
O triste e aflito ventre duma velha Santa aleijar
Praticarmos prazer furtivo quando passar,
Da viúva já doída cingimos rodear cona abusar.

Ao mármore, formigar, qual milhão verves arrebóis,
Nos Túmulos dessa nação infernal nossos heróis,
Quando contemplamos, visão flui nossos pulmões,
Sorção oculto rito se arrastam em laivas mãos,

Sem falar, ou se ardor crime, incesto, estupro
Ainda não adornamos nosso bom plano escopro,
Gesto banal de nossos destinos deploráveis,
É só nossa calma não tem esta seiva criveis.

Mas tal todas mortais, esferas, maldizes,
Quilombos, qual escorpiões, açudes crentes,
Uivam, gritam, berram, batem protestam, fins
Daquelas infames reuniões desses entes. 

Sendo criatura apenas é mais pulha e falsa!
Apesar não fazer bons modos, nem chãos cristos,
Sendo voluntaria varreria a terra que alça
E um bocejo entalado em todo imerso rito;

Essa é Crença!  - Olhares cheios choros rezados,
Pelos sermões, enquanto prega pia d’água rezas.
Musa, tu também julgas mostrar meigos lábios:

- Musa hipócrita, - Ó cúmplice, és meu incesto!


MANDIGA


Quando, após um decreto dos gestos das blasfêmias,
O Judeu é trazido adiante neste vulto árduo,
Sua mãe aterrorizada e cheia de fogos fátuos,
Ergue punhal cerra a Deus, que compadece fêmea:

- Ah! Seria eu gerado um nó inteiro de víboras
Em vez de ter comido vulto objeto ridículo!
Maldita seja à noite que fiz alegria efêmera
Quando do meu ventre armou o meu espetáculo. 

Dentre todas as mulheres vis me escolheste
Para ser sua repugnante ao meu ser de efígie,
Desde não posso lançar vulva deformada
chamas, qual uma velha carta d´amor queimada.

Indo vomitar o ódio com qual me esmaga ventre,
Sobre o órgão sinistro de maldade risível,
E torcer tão árduo que desta árvore miserável
Que não pode pôr seus botões cus entre. 

Assim, mãe engoliu a espuma da verve ódio,
E não compreendendo os projetos eternos,
Sendo própria prepara fundo ventre terno
A pira reservada aos crimes de uma mãe.

No entanto, protegido por um Anjo invisível,
A criança proscrita é encantada pelo sol,
Em tudo o que come, tudo o que bebe crível,
Ele acha ambrosia doce e néctar encarnado.

A cabriola com vento, conversas com nuvens,
E cantar, transportado, segue a porta da cruz;
E o Anjo que o segue em odisseia margens,
Chora vê-lo despreocupado qual ave reluz.

Todos aqueles amavam assisti-lo o credo,
Ou, encorajado pela sua tranquilidade,
Ousada prova de torcer gemido enredo,
E testar sobre ele sua desumanidade.

Com o pão e cicuta destinados à sua boca
Eles misturam essas cinzas e os salpicos,
E, hipócritas, dizem mal o que ele toca
Sentem réus se pisarem vultos seus picos. 

Seu consorte vai sobre os mercados gritar
Flama: "Desde me considera justa a adorar,
Vou imitar os ídolos da antiguidade,
E eu quero ser ente Dourada deidade;

Vou ficar ébrio nardo, incenso, mirra, mijo,
E com genuflexões, tais vinhos licores,
A ver se, eu sorrindo, possa usurpar rijo,
Em imo admirado ao preito devido horrores!

Quando me cansar piadas impiedosas ruas, 
Deixarei sobre ele a minha mão forte e crua;
E minhas unhas, feito garras de harpias limo,
Indo cortar uma passagem direto seu imo.

Esse imo que vibrar numa ave qual cova
Rasgar, todos sangrentos, de seu peito nodoa,
E do desdém, eu vou atirá-lo no pó cova, 
Ao saciar fome de meu cão favorito doa!

Aos céus, onde seu olho vê um trono radiante,
Pio, o Judeu, sereno, ergue os laços braços,
Brilho faiscante de seu vulto sarado diante,
Esconder sua vista a multidão curiosa traços:

Gabando a Ti, ó Deus, nos envia sentimento,
Qual remédio divino das nossas certezas 
Ao melhor da mais pura essência discernimento
Preparar os fortes aos êxtases santas rezas!

Eu sei que tu reservas um lugar ao judeu,
Dentro fileiras bentas das lenhas regiões,
Tu o convides pra queima materna que deu,
Dos Tronos, Virtudes e das Dominações.

Sei que tal sofrimento é a única nobreza
Que fera ao inferno nunca estão pra beleza,
Isso a tecer-me fria minha coroa mística,
Ao tributar cada idade e cada universo físico.

Mas as joias perdidas da antiga Judeia,
Metais sem fundamento, as pérolas da ideia,
Marcante por sua própria mão, não seria certo
Pra esse diadema esplendor deslumbre perto.

É coroa será feita do nada além luz pura
Tirados do monte bento de raios primitivos,
Olhares mortais, em mais findo brilho fura,
Não são mais manchados, ferais desses divos!

I

 Eram os cabelos espalhados ao vento
que, em mil doces laços, os envolviam,
e a luz encantadora ardia sem medida
naqueles belos olhos, que hoje são tão raros;

e o rosto parecia assumir uma cor piedosa
(não sei se verdadeira ou falsa):
eu, que tinha no peito a brasa do amor,
que surpresa se de repente me inflamei?

Seu andar não era algo mortal
mas de forma angelical, e as palavras
soavam como algo além da mera voz humana:

um espírito celestial, um sol vivo
foi o que eu vi, e se agora não fosse assim,
seria uma ferida que o arco causou e que não se cura.

II

Ao fugir da prisão onde o Amor me manteve
por muitos anos, fazendo de mim o que bem lhe parecia,
seria muito longo contar-vos quanto eu a ignorei
o quanto a nova liberdade me pesou.

Meu coração me dizia que, por si só, não saberia
viver nem um dia; e então, no caminho, surgiu-me
aquele traidor sob máscaras tão enganosas,
que, mais astuto do que eu, acabaria por me iludir.

Por isso, suspirando várias vezes para trás,
disse: “Ai de mim, o jugo, as correntes e as algemas
eram mais doces do que andar em liberdade!”

Pobre de mim, que tarde percebi meu mal,
e com quanta dificuldade hoje me debato
para me livrar do erro em que eu mesmo me envolvi.

ERIC PONTY

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

domingo, agosto 23, 2026

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 I

Vôs que ouvirão, em fragmentos dispersos de rima,
o som dos suspiros com os quais alimentei meu coração,
na minha primeira loucura juvenil, quando, em parte,
eu era um homem diferente daquele que sou hoje,

os tons mutáveis com que falo e choro,
entre minhas esperanças vazias e minha dor inútil,
entre aqueles que sabem amor, por meio da provação, 
pode apoderar-se perdão, e até mesmo a dó, assim espero.

Mas agora vejo por quanto tempo, quando era jovem,
fui motivo de piada na boca de todos,
pelo que frequentemente me encho de vergonha;

este é o fruto de minha peregrinação enlouquecida,
com penitência e uma apreensão clara de uma coisa:
o prazer deste mundo é um sonho breve.

24

Se a honrada folhagem que prescreve
a ira do céu quando o grande Júpiter troveja,
não tivesse me negado a coroa,
que sói adornar quem escreve em verso,

eu seria amigo dessas Tuas divas,
que o século abandona vilmente;
mas essa injustiça já me afasta,
da inventora das primeiras azeitonas,
    
pois o pó da Etiópia não ferve
sob o sol mais escaldante, como eu brilho,
ao perder algo tão querido que me pertencia.

Busquem, pois, uma fonte mais tranquila,
pois a minha não tem nenhum líquido,
exceto aquele que, chorando, eu derramo.

25

Amor chorava e eu com ele, por vezes,
de quem meus passos nunca se apartaram,
olhando, por meio de fatos amargos e estranhos,
vossa alma desunida de Teus laços;

cá que Deus a conduziu ao caminho reto,
erguendo ambas as mãos ao céu com o peito,
agradeço a Ele, que às justas preces humanas
atende afável com tua misericórdia.

E se, ao retornar à vida amorosa,
para dar as costas ao belo desejo,
você encontrou valas ou colinas pela passagem,

Para mostrar quão espinhoso é o caminho,
e quão alpino e árduo é o ascenso,
onde a apropriada coragem exige que o homem se apoie.

26

Não se vê na terra ninguém mais feliz do que eu,
navio que lutou contra as ondas e foi vencido,
quando as pessoas, com expressão de dó,
sobem à margem para dar graças;

nem há quem se sinta mais feliz ao sair da prisão
do que aquele que teve a corda enroscada no pescoço,
ao ver, mais do que eu, aquela espada desembainhada
que travou tão longa guerra contra meu senhor.

E todas vós que louvais o Amor em versos,
ao bom testemunho das palavras amorosas
rendei honra que antes estava perdida;

pois há mais glória no reino dos eleitos
de um espírito convertido, e mais se estima,
do que de noventa e nove outros perfeitos.

31

Esta alma gentil que parte
chamada prematura para a outra vida,
se lá em cima for tão bem-vinda quanto deve ser,
terá a parte mais bem-aventurada do céu;

Se ela continuar entre a terceira luz e Marte,
mas visão do sol ficará desbotada,
pois, ao contemplar sua beleza infinita,
as almas dignas estarão espalhadas ao seu redor;

se ela se pousasse sob o quarto círculo,
cada uma das três seria menos bela,
e somente ela teria a fome e o clamor;

No quinto círculo ela não habitaria,
mas se voar mais alto, tenho plena confiança
de que, com Júpiter, todas as outras estrelas serão cobertas.

 32

Quanto mais me beiro do dia extremo,
que a desdita humana habitua tornar breve,
mais vejo o tempo passar ligeiro e leve,
e minha esperança nele, enganosa e tola.

Digo aos meus pensamentos: “Não iremos muito longe
falando de amor agora, pois o duro e pesado
fardo terreno, como neve fresca,
vai-se derretendo, e assim teremos paz;

“pois com ele cairá aquela esperança
que nos fez delirar por tanto tempo,
e o riso e o choro, e o medo e a ira:

“assim veremos claro então como muitas vezes
outros se aventuram em coisas duvidosas,
e como amiúde se suspira em vão.”

 33

Já brilhava a estrela do amor
no Oriente, e a outra que Juno
costuma deixar com ciúmes no Norte
girava raios, resplandecente e majestosa;

A velhinha já se levantara para fiar,
nua e descalça, e acendera o carvão,
e aquela estação afligia os amantes,
que, por costume, os leva a chorar;

Quando minha esperança, já conduzida ao verde,
chegou ao peito não pela passagem de sempre,
que o sono mantinha fechado e a dor entorpecido —

quão transformada, ai de mim, em relação à de antes! —
e parecia dizer: “Por que perdes tua coragem?
A visão destes olhos ainda não te foi tirada.”

34

Apolo, se ainda vive o belo desejo
que te ardia nas ondas da Tessália,
e se já não tens os amados cabelos loiros,
devido ao passar dos anos, já olvidados,

Gelo preguiçoso e pelo tempo áspero e cruel,
que perdura enquanto teu rosto se oculta,
defende agora a honrada e sagrada copa,
onde primeiro tu e depois eu fui envolvido,

e pela virtude da esperança amorosa
que te sustentou na vida amarga,
despeja o ar dessas impressões;

assim, juntos, com admiração, veremos
nossa mulher sentada sobre a grama
e fazendo de braços sombra para si mesma. 


FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA