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quarta-feira, junho 03, 2026

DOIS POEMAS DE ROBERT FROST- TRAD. ERIC PONTY

 Por conta própria

Para o meu próprio mundo


UM dos meus desejos é que aquelas árvores sombrias,
Tão antigas e firmes que mal se movem com a brisa,
Não fossem, por assim dizer, a mero disfarce da tristeza,
Mas se estendessem até os confins da perdição.

Nada me impediria de, algum dia, 5
Fugir para a sua imensidão,
Sem medo de descobrir terras acendidas,
Ou estradas onde as rodas lentas espalham a areia.

Não vejo por que eu deveria voltar,
Ou por que aqueles não deveriam seguir meus passos 10
Para me arrumar, aqueles que sentiriam minha falta aqui.

E ansiariam saber se ainda os amava.
Não me descobririam diferente daquele que conheciam —
Apenas mais certo de tudo o que confiava ser verdade.

A CASA FANTASMA


Moro numa casa solitária, eu sei;
Que desapareceu há muitos verões atrás,
E não deixou outro vestígio além das paredes da adega,
E uma adega onde a luz do dia penetra,
E crescem framboesas silvestres de caule roxo. 5
Sobre cercas em ruínas, as videiras protegem;
A floresta volta ao campo de ceifa;
A árvore do pomar formou um pequeno bosque
De madeira nova e velha, onde o pica-pau bate;
O caminho que leva ao poço está curado. 10
Eu jazo com o coração inexplicável dolorido
Naquela morada ofuscar-se, lá tão distante
Naquela estrada abandonada e olvidada
Que já não tem poeira para o sapo se banhar.
A noite chega; os morcegos negros voam e se lançam; 15
O mocho-de-bico-curto vem para gritar;
E para se calar, cacarejar e esvoaçar por ali:
Eu o ouço começar bem longe;
Muitas vezes, para dizer o que tem a dizer;
Antes de chegar para dizê-lo em voz alta. 20
É sob a pequena e fraca estrela de verão.
Não sei quem são essas pessoas mudas
Que compartilham o lugar sem luz comigo —
Aquelas pedras sob a árvore de galhos baixos
Sem dúvida têm nomes que o musgo desfigura. 25
São pessoas incansáveis, mas lentas e tristes,
Embora sejam dois, sempre juntos, a moça e o rapaz, — 
Sem que nenhum deles jamais cante,
E, no entanto, considerando tantas coisas,
São os companheiros mais amenos que se poderia ter.

 Robert Frost-TRAD.ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, maio 27, 2026

LOUVOR A AFRODITE - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY


Ó Safo, por que estás sempre
Cantando louvores à abençoada
Rainha do céu?

Por que o coração em teu peito
Sempre volta, em seu anseio,
A palpitar pela Deusa?

Por que teus sentidos, insaciáveis,
Estão sempre em busca do amor
Indescritível e imortal?

Ah, graciosa Filha de Chipre,
Nunca, como mortal,
Me cansarei de te servir.

Vem, por minha causa, de Creta a este templo sagrado,
onde se encontra teu encantador bosque de macieiras,
e os altares exalam fumaça
de incenso;

ali, a água fria canta entre os galhos das macieiras,
e todo o lugar está coberto pela sombra das rosas,
e das folhas trêmulas um sono mágico
desce.

Ali, um prado com pastagem para cavalos floresce com…
Flores, e doces
Brisas sopram


Ali, pegando as guirlandas, Cypris,
em taças douradas, luxuosamente,
deixe o néctar misturado com alegria
ser servido como vinho
(para estes meus amigos e seus.)

SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

quinta-feira, maio 21, 2026

Alexandrinos na Paisagem - Análise Crítica - Avelina Ferraz - Portugal

 Alexandrinos na Paisagem apresenta-se como uma obra de rara ousadia estética, marcada por uma intensa experiência linguística. Desde as primeiras páginas, percebe-se que o autor não pretende oferecer ao leitor uma poesia de fácil apreensão; ao contrário, constrói um universo verbal deliberadamente denso, onde o som, o ritmo e a imagem assumem protagonismo sobre a linearidade discursiva.

A obra dialoga com tradições poéticas que evocam Mallarmé, Paul Valéry, o decadentismo finissecular e determinadas experiências barrocas da língua portuguesa. Não por acaso, o próprio autor explicita essa filiação ao incluir uma “Imitação de Paul Valéry”, peça em que a musicalidade do verso e a abstração metafísica se entrelaçam.

Eric Ponty revela domínio do verso alexandrino enquanto estrutura poética, mas ultrapassa o rigor métrico clássico. O alexandrino, aqui, deixa de ser apenas forma. A cadência dos poemas cria atmosferas que oscilam entre o sagrado e o onírico, entre o pastoral e o metafísico, conduzindo o leitor por imagens de rara estranheza: jardins, mármores, aves, neblinas, águas, sinos, ruínas e figuras litúrgicas compõem uma iconografia recorrente, quase ritualística.

Salientamos a forma como Eric Ponty trabalha a palavra: há um deliberado rompimento com a lógica narrativa tradicional. Em certos momentos, o texto parece querer regressar a um estado primordial da língua, em que o significado nasce da vibração fonética e da associação intuitiva entre as palavras.

Outro aspecto relevante é a presença da paisagem enquanto entidade espiritual. A natureza em Alexandrinos na Paisagem não é decorativa; respira, sofre, canta e participa da condição humana. As estações inspiradas em Vivaldi, por exemplo, transformam os ciclos naturais em estados da alma, convertendo primavera, verão, outono e inverno em expressões emocionais e filosóficas.

Como editora, é possível afirmar que Alexandrinos na Paisagem se destaca como uma obra de personalidade literária incomum, destinada a leitores que apreciam poesia de elaboração formal sofisticada e de intensa carga simbólica. Trata-se de um trabalho que honra a tradição poética, que procura reinventá-la, inscrevendo-se com singularidade no panorama contemporâneo da poesia em língua portuguesa.

 Avelina Ferraz - Portugal



domingo, maio 03, 2026

4 ESTUDOS RENANCETISTAS - TORQUATO TASSO - ERIC PONTY

Este primeiro soneto é quase uma introdução à obra: nele, o poeta afirma merecer louvor por ter se arrependido imediatamente de seus devaneios e exorta os amantes, com seu exemplo, a devolverem ao Amor o domínio sobre si mesmos.

Se reais foram essas aleluias e de ardores;
por isso então chorei e cantei em versos variados,
que podiam igualar então para som das armas
e das glórias dos heróis e os amores castos;

E se o meu não foi dos coros mais obstinados,
nem dos afetos vãos, não deveria carpir disso,
pois parece-me que pois então mais louvável
do arrependimento, desse onde a honra se honra.

Ora, com do meu exemplo, tão amantes sensatos,
ao lerem meus deleites e o vã desejo,
pois retirem ao Amor se o freio das almas.

Desde que outros enxuguem logo as lágrimas quentes
por razão, às vezes o coração se irrite, se é
doce ao guardar no peito desejo amoroso.

II 

Descreve a beleza de sua amada e o início de seu amor, que surgiu em sua juventude.

 Era da minha idade, naquele alegre abril,
movida pela fantasia, a alma juvenil,
que já sendo em busca em belezas sedutoras.
Tão de prazer em prazer, espírito gentil,

quando me surgiu uma mulher muito idêntica,
em sua voz, a um anjo Cândido: asa até não 
demostrou, mas quase eleita surgia se adequar 
Ao meu estilo gracioso. Milagre tão novo!

Ela aos meus versos e eu; cercava seu nome 
com plumas altivas; e um pelo outro voamos 
à prova. Esta foi aquela cuja luz suave;

Essa foi aquela cuja uma luz tênue e tão suave,
Chorar sozinho e cantar me faz bem,
primeiros ardores espalham um doce olvido.


III

 Segue-se a mesma descrição sobre a ampla 
fronte, o cabelo dourado e brilhante
ondeava minado, e o brilho do belo olho
avocava o chão florido de maio.

E julho aos coros de ardor sem medida.
No seio branco, o Amor, graça, zombava, 
E não ousou ofendê-lo; e a brisa 
Que dessa conversa cortês e sábia.

entre as rosas, ouvia-se crebra o sopro 
Eu, que vi aquela forma celestial,
fechei os olhos e disse: “Ai de mim, quão!

É tolo olhar ousar fixar-se nela!”
Mas do outro perigo não me apercebi:
pois cerne me foi dolo pelos ouvidos.

IV 

 Isso demonstra como o amor que a visão de sua amada despertou nele foi avivado pelo seu canto.

Seus gestos suaves e seu feitio charmoso
já haviam falido o gelo que armava o peito 
de desdém; e os vestígios do antigo ardor
eu reconhecia no meu peito transformado;

Com a doce isca de um suave engano:
assim me incitava o sedutor Amor,
que nos belos olhos havia achado refúgio;
Quando eis que um novo canto tocou o coração,

e alimentava o mal com prazer, com a doce 
isca de um suave engano: assim me premia 
sedutor Amor, que no belo olhar havia. 

Quando, de repente, o coro entoou uma nova canção,
No coro, e soprou em seu fogo, e mais ardentes 
tornou as chamas que antes plácidas e tranquilas;

Nem o crescer, nem o brilhar tal qual vento;
nunca vi rostos tão comovidos, prazer
qual o fogo nos crescia dos seres e as faíscas.

TORQUATO TASSO - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

segunda-feira, abril 27, 2026

Samira, Escrevo-vos de um país distante. (Henri Michaux & Luís de Camões) - Eric Ponty

Samira, Escrevo-vos de um país distante. «Aqui», disse ela, «só temos sol uma vez por mês, e por pouco tempo.»
Já estamos a esfregar os olhos com dias de antecedência.
Mas foi em vão.
O tempo é implacável.
O sol só aparece na hora certa.
Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco como tua tez vista por um poeta que pouco conheço, mas foi vencido pelo cansaço.

Na metade do céu subido ardia
Mão clara, almo Pastor, quando deixavão
Céu verde pasto as cabras, e buscavão
Desta frescura suave água fria.

Com folha das árvores, tão sombria,
Raio candente as aves se amparavão:
Neste módulo esfregar, que cessavão,
Só nas roucas cigarras, paz sentia.

Quando Liso pastor n’hum campo verde
Samira, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tão tristes derramam.

Porque te vás de quem por ti se olhas,
Palhas quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.


V

Escrevo-vos do outro lado do mundo.
É importante que saiba isto.
Muitas vezes, as árvores tremem.
Recolhemos as folhas.
Têm uma quantidade incrível de nervuras.
Mas para quê?
Já não há nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, envergonhadas.

Será que a vida na Terra não poderia continuar sem vento?
Ou será que tudo tem de tremer, sempre, sempre?

Já a roxa e tão alva Aurora destoucava
Os doutros velos de ouro delicados,
E das urzes os campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava;

Quando do gentil gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente pelos prados;
Pastores tão unos, e ambos apartados,
De quem mesmo pavor não se apartava.
Com verdadeira pranteia Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha asseada,
Porque fenece jaz quem vive ausente;

Pois lide sem ti não resta ao nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Afrontar esperanças da tornada.


Há também agitação subterrânea e, dentro de casa, como se fossem acessos de raiva que se lançassem contra vós, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, e o que se vê não tem a menor importância.
Nada, e, no entanto, trememos.
Porquê? Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco.

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

domingo, abril 12, 2026

Sibilas de Samira III - (DOZE QUASI SONETOS DA SIBILA) - Eric Ponty

 P/Samira Agostine

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que fardo? Quem mo diria?
Porventura estaréo em mim atentando?

Se terão na Samira, como ou quando
Deles me vim tão hoje de alegria?
Ou se estardo aquele alegre dia
Que torne a vê-los, fronte figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se achardo em Samira muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência teus doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

II
Samira sou, Senhora, neste engano.
Tratar dele consiga é escusado,
Que mal pode de vês ser enganado
Quem de outras como vês tem desengano.

Já sei que foi à custa de meu dano
Que sé no doce dar tendes zelado;
Mas pera como eu sou de vês julgado,
Mui vãs são as esp’rancgas deste ano.

Tratei gréo tempo o Amor, e daqui veio
Conhecer Samira facilmente,
Que tal é, gentil Dama, o demonstrais.

De treslida caístes neste enleio;
Querei de mim o que eu quiser boamente,
Que no al a costa arriba caminhais.

III

Samira minha, se de pura inveja
Louvor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhares luz que o Sol deseja,

Não me pode colher que vos não veja
Nesta mão, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos verei sempre debuxada,
Por mais cruel da tarde que me seja.

Nela vos vejo, e vejo não renasce
Tão belo e fresco prado deleitoso
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.

Os lírios tendes fia e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem tiver só, se há tanto bem na terra!

 IV

Mil vezes se mexer meu pensamento
A louvar o Alvo rosto cristalino,
Da trança de Samira d'ouro fino, 
O vivo e mais que terno entendimento.

Que com meigo e suave movimento
Pudera irromper coração diamantino,
Tão graça imperante o ar divino,
A digna majestade o doce acento.

Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Com pérolas de seleção orientais,
Que atroe rosas mostrais no doce rizo.

Que essa luz que olhares derramais
É o doce resplendor do paraíso,
Pois me demonstrais, e dais com claro rizo.

 V

O sol é grande, caem com tua calma as aves
Da era, em tal sazão lhe soe ser fria:
Esta agora do alto então cai acordar-me-ia,
Samira não, mas vãos cuidados graves.

Samira quando quererão duros fados
Içar minha esperança tão caída;
Ou porque, se de todo é já perdida,
Arrumar podereis meus bens passados?

E tu despeitosa honra e fama,
Responde-me com tão mortal olvido,
Não tens a tanta fé algum ido!

Por amor me vi uma era já contente,
Por apego eu quis atormentado,
Então que veja meu erro tão pagado.

VI

 
Samira adornada de verdura,
Que esmaltavam por alto várias flores,
Então um dia a Deusa dos amores,
Com essa Deusa da caça e espessura.

Diana tomou a si uma rosa pura,
Vênus tal roxo lírio, quais melhores;
Mas então excediam muito outras flores
Quais violas na graça e formosura.

Duas perguntam Cupido, que ali achava:
Qual dentre as três flores tomaria
Por mais graça e pura, e mais formosa?

Sorrindo-lhe, o menino lhes tornava:
Todas formosas quais; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.

VII 

Samira, com Esperança já tão ida,
Tua soberana Sombra visitei:
Por fiança do naufrágio que alcancei,
Em recinto dos vestidos, pus Vida.

Que mais queres de mim, pois extinta
Me tens a Brasão toda que lhe arrumei?
Não vigies de render-me; que não sei
Volver a entrar-me onde não há foz ida.

Vês cá a Vida, e da Alma, e a Esperança,
Doces espólios de meu bem passado,
Em quanto o quis aquela que eu choro.

Nelas podes vestir de mim vingança:
E se te anseias inda mais vingado,
Agradar-te co’as fúcsia que lhe choro.

VIII

Descalça vai para a fonte 
Samira vai para a fronte
rosas pela verdura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Leva na cabeça o mote, 
O texto nas mãos de prata, 
Carta de fina escarlata. 
Sainho de chamalote; 
Traz a vasquinha na sorte. 
Mais alva que a neve pura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Encontra a touca a garganta, 
Cabelos douro o trançado, 
Fita de cõr de encarnado, 
Tão linda que eu mudo espanta; 
Chove bela graça tanta 
Que dá graça a formesura; 
Vai teimosa e não atura.

IX

Estava Amor seu arco guarnecendo,
Samira em fogo as setas temperando,
Cercadas de Amores, uns tecendo
A corda, outros a aljaba cruel dourando.

Nos floridos prados vão recolhendo,
Outros mil flores, que todo ano florescem,
Das quais ó filhas, e às capelas tecem.
Nunca vistas no Mundo, nem cheiradas

As flores são, que Amor para si faz.
Dumas o liquor frio, em que banhadas
As outras são, quando as do fogo esfria,

Uns formosos Amores, que debatem.
Em todas cruel, em todas espantoso.
Samira, nas segundas temerosa.

X

 Outras horas, Samira, te aguardava:
Outras se desviam.: ó triste, ó triste!
Enganado, nascido em cruel signo.
Quem me enganou? Ah cego que não cria.

Enganas, Samira! Mas só quem creras.
Tais olhares cerrados para sempre,
De velos já não de ouro, mas d’almas,
Àquelas mãos tão frias, e tão cruas.

Quem antes via tão alvas, e, fermosas,
Aqueles alvos peitos tão trespassados,
Desses golpes cruéis fúlgidas horas.

Aquele corpo em sombras tive em braços,
De tão vivo e formoso em flores pálidas,
Penhores divos, ó meu pai cruel! 

XI

Senhores teus então seus sós,
Tu, porém, não vias neles tão só,
À margem tão são ó minha luz Diva,
Já não me escutas? Já não ti hei de ver?

Já te não posso deparar toda à terra,
Chorem esse meu mal comigo m´ouvem,
Pranteiem terra dura tua espessura,
Nos homens s´achou de tanta da crueza.

Cubro-te então da crueza perfaz terza,
Nunca ria de si mesma, cá me m´ouvem,
Ajudem-me pedir Justiça do céu.

Com novas crueldades tua morte,
Lhe fiz margem Samira, hei fiz à margem,
Par´isto me dá, Deus somente à vida.

XII

Quantas penas, Amor, quantos zelos,
Quantas gemem tristes sem direito,
De que mil vezes viste, vulto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz dos velos;

Justos mortais perpétuas derramados
Do espírito por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, enfim, tu me tens feito,
Todos porão em mim bem pranteados.

Ao todo satisfaz (confesso-nisto)
Nesta só vista em branda e amorosa
Samira cativou minha ventura.

Flor sempre para mi hora ditosa!
Lhe posso temer já, cá tenho visto,
De tanto gosto meu, tanta brancura?

ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

sexta-feira, abril 10, 2026

Sibilas de Samira II - (Extratos) - Eric Ponty

 I 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
há uma sulamita, um mistério, 
papiros ainda indecifráveis 
areias selvagens, sussurros débeis 
útero de Saara terra 
estéril sonha fina delicadeza 
fontes expostos seios 
do mel e do mais puro leite 
dessas dunas alvas areias. 
 
No deserto Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
no candeeiro a luz de uma virgem 
no ato da espera das amargas ervas 
possam-se celebrar a cerimônia 
o amado gozando em paradisos 
longas entranhas a que seja única 
somente a una das amadas. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
a explicação intrínseca de Deus a Jó, 
flácido silêncio tecido, fonte deságua, 
a semente fez-se alvorecer o poente 
destituídas folhas de outonos, 
ninho de pássaros de voz de sonhos. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso, 
movidas vestes da dançarina, 
rangendo sombras noturnas, o gozo 
sagrado, lágrimas guardadas, desvão 
pálidas virgens ao gozo dos eleitos. 
 

No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
fios ouro reluzentes dos cabelos, 
são braceletes sem diamantes, 
presos quando mexe com os dedos 
quando inclinada ao vento me sonha. 
 
 II 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
neste meu porto sem mares, 
neste meu porto sem despedidas, 
neste meu porto está tatuado 
vestes de seda, e de alva prata. 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
escute a explicação dos sábios: 
O da esquerda é o de Constantinopla 
empreendeu longa viagem no mar, 
abarcou monstros e Tordesilhas, 
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se 
agora analisa os caules da efígie; 
O da direita é o do Império de Adriano, 
das terras andarilho dos longos desertos, 
monge dos castelos dos templários, 
diziam ser mito, apenas vestido, 
capa iluminada sem sentido alfarrábio, 
presente analisa os caules da efígie.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro, 
escuta a explicação desses eruditos, 
não faça nenhum conceito errado, 
glosam entre eles somente de ti 
meditaram os pentagramas, os raios 
dos dilúvios nos últimos séculos, 
achegaram o vácuo vôo dos pássaros, 
tentam entender de que é constituído, 
de que elemento sagrado não se fala, 
de que elemento não se pode traduzir.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro 
esses fios de ouro bordado de anjo, 
incompreensíveis a esse jardim, 
a luz existe e não se mitiga, 
ilumina-me na minha solidão, 
luzindo alva no candeeiro. 
 
 III 
 
Chegaram emanados de navio 
agora dispersos por essas minas, 
alegam consigo sussurros mouros, 
vendiam ícones dos santos 
porque Alá, o misericordioso, 
transcende-lhes o coração, 
ainda nas minas sem mesquita 
fizeram versos do Alcorão, 
escritos por uma donzela fosse 
do mineiro dessas estreitas vias. 
 
Samira intensa asa de borboleta, 
frágeis dedos, qual o significado 
da dor me doendo, e, não se silencia, 
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem 
às fronhas desse travesseiro? 
 
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas, 
fazei-a indicar de nosso compromisso 
matrimônio por nós acertado, quando 
impossibilitados no século IV 
sermos pai e filha de nos desposarmos.
  
Talvez ouvindo a voz de minha lira 
minhas canções de mero compasso 
a celebrizar enfim me eternize. 

Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA