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sexta-feira, julho 17, 2026

NOuvos SONNETOS - Eric Ponty

Foste descanso Lucas com cuidado
neste leu oceano mundo tempestuoso
não aguardes de me achar nenhum repouso
porém em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas velhas que velado,
em Teu está o tesouro mais que preciso;
se estás tu fermosura desejoso,
Vês este Senhor ficas namorado.

Se tu furtas haveres ou prazeres,
nele está o dulçor dos dulçores
que a todos te deleitam com vitória.

Porventura vivida ou honra queres,
Que ao ser honra podes ser nem glória
que servir ao Senhor bom destes senhores?

II

Gestos falsos louvor, gostos fingidos,
gestos sãos sempre limitados,
gestos grandes quanto imaginados,
acenos curtos quando possuídos;

Ainda não contraídos já perdidos,
ainda não abancados já acabados,
inconstantes, incertas, apressados,
vão surgidos e desaparecidos.

E já vos dei, e vos dei a esperança
de vos caminhar; agora só queria
convosco se abolisse esta lembrança;

que, se me lança a lide e fantesia
existir vós tão longe, mais me cansa
lembrar-me a era que vos possuía.

III
Não há amor que aporte à menor parte
tão quanto para se vê, bela Senhora.
Vós sois luzir louvor; quem devora
Tão-só tão-somente a este o engenho e arte.

Enquanto por muitas damas se lhe parte
de gentil e de fermoso em vós agora
se ajusta em modo tão que pouco fora
dizer que sois o tudo, nelas parte.

Calpa logo não é, se vou amoldar-vos,
Verem incapazes todos louvores,
pois tanto quis o Céu avantajar-vos.

Seja a luta de vossos resplandores;
e a que eles têm vos dou, só dama dar-vos
o mor favor de todos os maiores.

IV

Aquela tristeza leda madrugada,
Tão cheia toda flauta e de piedade,
enquanto houver no fundo saudade
desejo seja sempre celebrada.

Ela tão, fundo amena e marchetada
saía, flertar ao mundo claridade,
viu apartar sua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só as viu lágrimas em fio,
que de uns e de outros brotos brotados
se sobrepuseram em grande e largo rio.

Então ouviu as tão expressões magoadas
que puderam tornar o vigor frio
e dar descanso às almas bombardeadas.


 Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

terça-feira, junho 09, 2026

A você, minha terra natal - Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

A você, minha terra natal, agradeço esta canção.
Nas montanhas Harz, no vale do selvagem Bode,
No reino arado pela tempestade do grande Wode
Está o rio de minha juventude dourada.
Vim humildemente, sem nada me faltar,
À sua maravilhosa natureza,
Você me deu tudo porque eu não desejava nada,
E sorridentemente me mostrou o caminho de sua vida.
Você abriu os olhos e os ouvidos do jovem
E me guiou com mãos de mãe fiel,
Quando nas montanhas, entre paredes rochosas,
Na solidão da floresta, eu me perdi.
No brilho do sol, na escuridão sombria,
No início da manhã e no vermelho da noite,
Nas ondas nebulosas e no brilho do orvalho
Foi você quem me ofereceu tesouro sobre tesouro.
Mais precioso para mim do que o minério precioso
De suas minas, o que você deu em abundância,
Era como a fragrância em um botão delicado,
Eu a inalei, e meu coração se embriagou.
Logo senti a bênção dentro de mim,
Que a semente profundamente afundada criou raízes,
Ela começou a crescer e a tomar forma,
E feliz com a posse, eu a mantive em segredo.
O que foi que você me deu lá
Com suas flores desabrochando, as ondas ondulando,
O farfalhar das copas das árvores e o sussurro do ar?
Foi algo em que você ainda pensa hoje?
Foi um esforço tímido e furtivo,
Um pressentimento feliz e uma meia compreensão,
Um alegre pegar e depois devolver,
Um acontecimento poético involuntário.
Você me mostrou o domínio da imagem,
A mudança fugaz e a duração fixa
E provocou arrepios piedosos em minha alma
Diante de um poder incompreensivelmente alto.
Você me ensinou seus contos de fadas e lendas,
Deu-me a vara de adivinhação em minha mão,
E onde eu andava e ficava, ela batia.
Eu sou seu devedor, você é minha terra Harz
Uma velha canção sopra em suas montanhas,
O próprio vento da tempestade é seu portador rude,
Ela se precipita e ruge como um caçador selvagem,
Poderoso, terrível como o som de um trovão.
Eu captei um eco dele,
E ele nunca se apagou desde que o deixei;
Pegue de volta o que eu só recebi de você -
A você, minha terra natal, dedico esta canção.

 Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, junho 03, 2026

DOIS POEMAS DE ROBERT FROST- TRAD. ERIC PONTY

 Por conta própria

Para o meu próprio mundo


UM dos meus desejos é que aquelas árvores sombrias,
Tão antigas e firmes que mal se movem com a brisa,
Não fossem, por assim dizer, a mero disfarce da tristeza,
Mas se estendessem até os confins da perdição.

Nada me impediria de, algum dia, 5
Fugir para a sua imensidão,
Sem medo de descobrir terras acendidas,
Ou estradas onde as rodas lentas espalham a areia.

Não vejo por que eu deveria voltar,
Ou por que aqueles não deveriam seguir meus passos 10
Para me arrumar, aqueles que sentiriam minha falta aqui.

E ansiariam saber se ainda os amava.
Não me descobririam diferente daquele que conheciam —
Apenas mais certo de tudo o que confiava ser verdade.

A CASA FANTASMA


Moro numa casa solitária, eu sei;
Que desapareceu há muitos verões atrás,
E não deixou outro vestígio além das paredes da adega,
E uma adega onde a luz do dia penetra,
E crescem framboesas silvestres de caule roxo. 5
Sobre cercas em ruínas, as videiras protegem;
A floresta volta ao campo de ceifa;
A árvore do pomar formou um pequeno bosque
De madeira nova e velha, onde o pica-pau bate;
O caminho que leva ao poço está curado. 10
Eu jazo com o coração inexplicável dolorido
Naquela morada ofuscar-se, lá tão distante
Naquela estrada abandonada e olvidada
Que já não tem poeira para o sapo se banhar.
A noite chega; os morcegos negros voam e se lançam; 15
O mocho-de-bico-curto vem para gritar;
E para se calar, cacarejar e esvoaçar por ali:
Eu o ouço começar bem longe;
Muitas vezes, para dizer o que tem a dizer;
Antes de chegar para dizê-lo em voz alta. 20
É sob a pequena e fraca estrela de verão.
Não sei quem são essas pessoas mudas
Que compartilham o lugar sem luz comigo —
Aquelas pedras sob a árvore de galhos baixos
Sem dúvida têm nomes que o musgo desfigura. 25
São pessoas incansáveis, mas lentas e tristes,
Embora sejam dois, sempre juntos, a moça e o rapaz, — 
Sem que nenhum deles jamais cante,
E, no entanto, considerando tantas coisas,
São os companheiros mais amenos que se poderia ter.

 Robert Frost-TRAD.ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, maio 27, 2026

LOUVOR A AFRODITE - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY


Ó Safo, por que estás sempre
Cantando louvores à abençoada
Rainha do céu?

Por que o coração em teu peito
Sempre volta, em seu anseio,
A palpitar pela Deusa?

Por que teus sentidos, insaciáveis,
Estão sempre em busca do amor
Indescritível e imortal?

Ah, graciosa Filha de Chipre,
Nunca, como mortal,
Me cansarei de te servir.

Vem, por minha causa, de Creta a este templo sagrado,
onde se encontra teu encantador bosque de macieiras,
e os altares exalam fumaça
de incenso;

ali, a água fria canta entre os galhos das macieiras,
e todo o lugar está coberto pela sombra das rosas,
e das folhas trêmulas um sono mágico
desce.

Ali, um prado com pastagem para cavalos floresce com…
Flores, e doces
Brisas sopram


Ali, pegando as guirlandas, Cypris,
em taças douradas, luxuosamente,
deixe o néctar misturado com alegria
ser servido como vinho
(para estes meus amigos e seus.)

SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

quinta-feira, maio 21, 2026

Alexandrinos na Paisagem - Análise Crítica - Avelina Ferraz - Portugal

 Alexandrinos na Paisagem apresenta-se como uma obra de rara ousadia estética, marcada por uma intensa experiência linguística. Desde as primeiras páginas, percebe-se que o autor não pretende oferecer ao leitor uma poesia de fácil apreensão; ao contrário, constrói um universo verbal deliberadamente denso, onde o som, o ritmo e a imagem assumem protagonismo sobre a linearidade discursiva.

A obra dialoga com tradições poéticas que evocam Mallarmé, Paul Valéry, o decadentismo finissecular e determinadas experiências barrocas da língua portuguesa. Não por acaso, o próprio autor explicita essa filiação ao incluir uma “Imitação de Paul Valéry”, peça em que a musicalidade do verso e a abstração metafísica se entrelaçam.

Eric Ponty revela domínio do verso alexandrino enquanto estrutura poética, mas ultrapassa o rigor métrico clássico. O alexandrino, aqui, deixa de ser apenas forma. A cadência dos poemas cria atmosferas que oscilam entre o sagrado e o onírico, entre o pastoral e o metafísico, conduzindo o leitor por imagens de rara estranheza: jardins, mármores, aves, neblinas, águas, sinos, ruínas e figuras litúrgicas compõem uma iconografia recorrente, quase ritualística.

Salientamos a forma como Eric Ponty trabalha a palavra: há um deliberado rompimento com a lógica narrativa tradicional. Em certos momentos, o texto parece querer regressar a um estado primordial da língua, em que o significado nasce da vibração fonética e da associação intuitiva entre as palavras.

Outro aspecto relevante é a presença da paisagem enquanto entidade espiritual. A natureza em Alexandrinos na Paisagem não é decorativa; respira, sofre, canta e participa da condição humana. As estações inspiradas em Vivaldi, por exemplo, transformam os ciclos naturais em estados da alma, convertendo primavera, verão, outono e inverno em expressões emocionais e filosóficas.

Como editora, é possível afirmar que Alexandrinos na Paisagem se destaca como uma obra de personalidade literária incomum, destinada a leitores que apreciam poesia de elaboração formal sofisticada e de intensa carga simbólica. Trata-se de um trabalho que honra a tradição poética, que procura reinventá-la, inscrevendo-se com singularidade no panorama contemporâneo da poesia em língua portuguesa.

 Avelina Ferraz - Portugal



domingo, maio 03, 2026

4 ESTUDOS RENANCETISTAS - TORQUATO TASSO - ERIC PONTY

Este primeiro soneto é quase uma introdução à obra: nele, o poeta afirma merecer louvor por ter se arrependido imediatamente de seus devaneios e exorta os amantes, com seu exemplo, a devolverem ao Amor o domínio sobre si mesmos.

Se reais foram essas aleluias e de ardores;
por isso então chorei e cantei em versos variados,
que podiam igualar então para som das armas
e das glórias dos heróis e os amores castos;

E se o meu não foi dos coros mais obstinados,
nem dos afetos vãos, não deveria carpir disso,
pois parece-me que pois então mais louvável
do arrependimento, desse onde a honra se honra.

Ora, com do meu exemplo, tão amantes sensatos,
ao lerem meus deleites e o vã desejo,
pois retirem ao Amor se o freio das almas.

Desde que outros enxuguem logo as lágrimas quentes
por razão, às vezes o coração se irrite, se é
doce ao guardar no peito desejo amoroso.

II 

Descreve a beleza de sua amada e o início de seu amor, que surgiu em sua juventude.

 Era da minha idade, naquele alegre abril,
movida pela fantasia, a alma juvenil,
que já sendo em busca em belezas sedutoras.
Tão de prazer em prazer, espírito gentil,

quando me surgiu uma mulher muito idêntica,
em sua voz, a um anjo Cândido: asa até não 
demostrou, mas quase eleita surgia se adequar 
Ao meu estilo gracioso. Milagre tão novo!

Ela aos meus versos e eu; cercava seu nome 
com plumas altivas; e um pelo outro voamos 
à prova. Esta foi aquela cuja luz suave;

Essa foi aquela cuja uma luz tênue e tão suave,
Chorar sozinho e cantar me faz bem,
primeiros ardores espalham um doce olvido.


III

 Segue-se a mesma descrição sobre a ampla 
fronte, o cabelo dourado e brilhante
ondeava minado, e o brilho do belo olho
avocava o chão florido de maio.

E julho aos coros de ardor sem medida.
No seio branco, o Amor, graça, zombava, 
E não ousou ofendê-lo; e a brisa 
Que dessa conversa cortês e sábia.

entre as rosas, ouvia-se crebra o sopro 
Eu, que vi aquela forma celestial,
fechei os olhos e disse: “Ai de mim, quão!

É tolo olhar ousar fixar-se nela!”
Mas do outro perigo não me apercebi:
pois cerne me foi dolo pelos ouvidos.

IV 

 Isso demonstra como o amor que a visão de sua amada despertou nele foi avivado pelo seu canto.

Seus gestos suaves e seu feitio charmoso
já haviam falido o gelo que armava o peito 
de desdém; e os vestígios do antigo ardor
eu reconhecia no meu peito transformado;

Com a doce isca de um suave engano:
assim me incitava o sedutor Amor,
que nos belos olhos havia achado refúgio;
Quando eis que um novo canto tocou o coração,

e alimentava o mal com prazer, com a doce 
isca de um suave engano: assim me premia 
sedutor Amor, que no belo olhar havia. 

Quando, de repente, o coro entoou uma nova canção,
No coro, e soprou em seu fogo, e mais ardentes 
tornou as chamas que antes plácidas e tranquilas;

Nem o crescer, nem o brilhar tal qual vento;
nunca vi rostos tão comovidos, prazer
qual o fogo nos crescia dos seres e as faíscas.

TORQUATO TASSO - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

segunda-feira, abril 27, 2026

Samira, Escrevo-vos de um país distante. (Henri Michaux & Luís de Camões) - Eric Ponty

Samira, Escrevo-vos de um país distante. «Aqui», disse ela, «só temos sol uma vez por mês, e por pouco tempo.»
Já estamos a esfregar os olhos com dias de antecedência.
Mas foi em vão.
O tempo é implacável.
O sol só aparece na hora certa.
Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco como tua tez vista por um poeta que pouco conheço, mas foi vencido pelo cansaço.

Na metade do céu subido ardia
Mão clara, almo Pastor, quando deixavão
Céu verde pasto as cabras, e buscavão
Desta frescura suave água fria.

Com folha das árvores, tão sombria,
Raio candente as aves se amparavão:
Neste módulo esfregar, que cessavão,
Só nas roucas cigarras, paz sentia.

Quando Liso pastor n’hum campo verde
Samira, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tão tristes derramam.

Porque te vás de quem por ti se olhas,
Palhas quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.


V

Escrevo-vos do outro lado do mundo.
É importante que saiba isto.
Muitas vezes, as árvores tremem.
Recolhemos as folhas.
Têm uma quantidade incrível de nervuras.
Mas para quê?
Já não há nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, envergonhadas.

Será que a vida na Terra não poderia continuar sem vento?
Ou será que tudo tem de tremer, sempre, sempre?

Já a roxa e tão alva Aurora destoucava
Os doutros velos de ouro delicados,
E das urzes os campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava;

Quando do gentil gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente pelos prados;
Pastores tão unos, e ambos apartados,
De quem mesmo pavor não se apartava.
Com verdadeira pranteia Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha asseada,
Porque fenece jaz quem vive ausente;

Pois lide sem ti não resta ao nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Afrontar esperanças da tornada.


Há também agitação subterrânea e, dentro de casa, como se fossem acessos de raiva que se lançassem contra vós, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, e o que se vê não tem a menor importância.
Nada, e, no entanto, trememos.
Porquê? Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco.

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA