quinta-feira, junho 21, 2018

José Maria Eguren - TRAD. ERIC PONTY


Lied I

Era a aurora
Quando as gotas de sangue no olmeiro
Exalavam tristíssima luz.

Os amores
Da chinesa na tarde feneceram
Nublados na música azul.

Vagas rosas
Ocultam sonhos esbranquiçado
Sinais que morreram de dor.

E teus olhos
O fantasma da noite olvidou
Abertos À jovem canção.

É a aurora
Há um sangue inigualável no olmeiro
E um rancor dolente no jardim.

Geme o bosque
E na bruma há rostos desconhecidos
Que contemplam a árvore morrer.

José María Eguren 
TRAD.ERIC PONTY


Com à Tarde - Jorge Luiz Borges - TRAD. ERIC PONTY


Se cansaram as duas ou três cores do pátio.

Esta noite, lua, do claro círculo,

Não domina seu espaço.

Pátio, céu canalizado.

O pátio sendo declive

Por ele qual se derrama o céu na casa.

Serena,

A eternidade espera na encruzilhada de estrelas.

Grato é viver na amizade escura

De um saguão, de uma parra e dum aljubes.

Jorge Luiz Borges
TRAD. ERIC PONTY

Stéphane Mallarmé


QUATRO SONETOS - ERIC PONTY


I

Poente sem nuvens vãs ramagens sôfregas,
Tangida sépia às margens, pradarias
Que avarento céu ao cândido silêncio
Fez ladrar qual éson tão faminto.

Ao vagar terrestres, olvidam formas,
São voz ao plenilúnio, nas folhagens,
Solapam cepas, cissos vestes chão
Ébrios sentidos, pálidas efígies.

As caravelas, quadros, astrolábios,
Fundaram cinzas, dão humana espécie,
Diluem-se paraísos, de azuis pássaros...

Alvos crânios, fêmures, cotovelos,
Ajuntam-se de oblíquas, alvas relva
Solene a tampa, lavra, estragos, pátinas.

II

Avara fonte carpir vítrea da foz,
Plumacho tomba solar, plenilúnio
Sobre herói, eco luz, solfeja tumbas,
Zelo puro, do rio, pradarias.

Mussita ágrafa, faz-se destituída
Fonte, lagos, languidas curvas águas,
Assopra alcunhas ocos, ave harpia,
Migram sólida, fátuas, invisíveis.

Cópias jamais sentiram-se à vertigem
Não lhes importa qual nau são assoprada,
Avocar névoa, pó, tensa fuligem.

No firmamento afagam solitárias
Ideias faltas, murmúrios, passagens,
Fazem concepções aradas à luz.

III

Ah irmãos nossos de mil e oitocentos
Veem cativos, perpétuos, Bilac,
Que farão dos versos raros dos dele,
Pobre o néscio, içado na harmonia.

E que quer? Céu ladear? Harmonia?
Ondas, silêncio, ouvir sons, sereias,
Dá bronze do sino árido, som pétreo,
Do mármore abrigo, refúgio mar.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Tangem estrelas! Astros dissipam
São gritos alquebrados do universo.


Casa longínqua, irmãos assustados,
Luzes rompidas, paz da aurora, lâmpadas,
Conduza além estrelas, poente, pássaros.

IV

Os Cavalos fulgidos do universo,
Içam a manhã, lábios tão opacos,
Dos murmurantes paralelepípedos
Ecoam calçadas, foz dura das minas.

Não murmura ele, regras desse acaso.
Não mussitam a Deus, dessas exíguas
Histórias, fátua acasos notar ágrafos,
Sôfregas, soçobradas das noctâmbulas.

Imersos nas horas, pensam, ocasos,
Dão prados rubros, flui grito, sufrágio,
Assopradas portas, o instante gázeo.

Sucumbidos perfazem às estrelas,
Batizam uma a uma estas garças límpidas
Margem vítrea da efígie, ressoa à sépia.
ERIC PONTY

quarta-feira, junho 20, 2018

O Cemitério marinho - PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY


(Decassílabo versos com rima)
Μή, φίλα ψυχά, βίον ἀθάνατον
σπεῦδε, τὰν δ' ἔμπρακτον ἄντλει μαχανάν.
     Pindare, Pythiques, III.
Telhado tranquilo, onde marcham pombas,
Pulsa entre pinheiros, entre das tumbas;
Meio dia justo compõe-se destas luzes
O mar, o mar, firme tão renovar
Oh recompensa após pensamento ar
Um longo olhar para a calma dos deuses!

Pura labuta fins raios consuma
Diamante imperceptível mui d´escuma
E daquela paz sempre conceber
Quando sob o abismo sol repousa
Das Obras puras duma eterna causa
Tempo cintila e sonho é saber.

Erário firme, templo de Minerva,
Massa calma, visível e reserva
Soberba d´água, guarda de ti olhada
Como dormir sob um véu desta chama,
O meu silêncio ... edifício na alma,
Mas o ouro enche mil telhas, do telhado!

Templo Tempo, só suspiro resumo,
Neste ponto puro monte e acostumo,
Tudo cercado por meu olhar marinho;
Minha suma oferta aos deuses do aceno,
Semeiam de cintilação sereno
Altura aversão soberana ninho.

Quão fruto derrete apreciação essência,
Quão em delícia transforma na sua ausência
Numa boca onde forma morre alça,
Eu fumo meu futuro aqui fumaça,
Céu canta à alma consumida aduagem
Da mudança no rumor desta margem.

Céu belo, vero céu, olhe a mim mudança!
Após orgulho, tanta estranha andança
Ociosidade, mas cheio de poder,
Me rendo este espaço brilhante hortos
Nas Mansões de minha sombra vão mortos
Quem doma a sua mudança frágil ser.

A alma exposta às tochas deste solstício,
Apoio, justiça admirável início
Das Armas ligeiras sem da piedade!
Vós tendes seu lugar, primeiro, pura,
Olhes a ti! .... Mas faça-se à luz altura
Sombra eu me acho meio triste idade.

A mim, por mim mesmo, a eu mesmo fronte,
Com um coração, do poema a fonte,
Entre vácuo e do evento se fez puro,
Aguardo eco do meu brio interior
Acre, bruno sonora cisterna dor,
Tocando na alma sempre um oco futuro!

Sabes, falso cativo das folhagens,
Golfo comedor magras redes margens,
Meu olhar uno, fechos ofuscantes
Corpo me arrasta até fim preguiçoso
O que fronte chama chão óssea grosso?
Uma faísca não pensou meus ausentes.

Bento, uno cheio fogo sem matéria,
Fragmento terrestre oferta à luz séria,
Lugar gosto, dominado por tochas,
Composto d´ouro, pedra e cedros negros,
Onde tremor o mármor tantas sombras;
Mar fiel dorme em minhas tumbas rochas!

Cã esplêndida, descarta do idólatra!
Quando ao pastor Sorrir só andrólatra,
Eu pasto mui, misteriosas ovelhas,
Gado branco meus túmulos quietos,
Afastadas pombas prudentes retas,
Sonhos vãos, anjos intrusos aselhas!

Vim aqui, do futuro é preguiça.
Arranhão inseto claro seco caliça;
Tudo tostado, desfeito, torna ar
Já não sei da severa de tua essência
Vida é vasta, sendo bebeu ausência,
Expiação é doce mente, e claro ar.

Mortos ocultos estão bem nesta terra
Aquecer seca teu mistério que erra.
Meio-dia lá, meio-dia, do imóvel
Si pensa é certo si mesmo eleito ...
Cabeça finda e Diadema perfeito,
Eu sou secreta mudança novel.

Fez isso por mim teus medo ‘aceites!
A Minha pena, dúvidas, limites
São culpa de teu tão grande diamante ...
Mas, em sua grande noite toda em mármores,
Uma onda pessoas às raízes das árvores
Tomou o teu partido já lentamente.
Derreter ausência espessura rara,
Bebeu do tipo branco rubro barro;
O dom da vida passou para às flores!

Onde estão frases familiares mortos,
A larva fia onde prantos formas hortos.
A Arte pessoal, almas singulares?
Gritos agudos moças incomodar,
Olhos, dentes, das pálpebras molhar,
Encantador brincar com deste fogo,
Lábios sangue brilhando que se rendem,
Últimas doações, dedos defendem,
Tudo vai terra e entra neste jogo!

A Grande alma, tu esperas um sonho
Que me deixará mentir cor risonha
Olhos claros onda ouro faz-se aqui?
Cantarmos vós quando vaporosas
Foi! Tudo feito! Minhas vistas porosas,
Impaciência santa até morre aqui!

Magra imortal tetra ouro, floreado
Consolador horrível laureada
Que a morte fez dum seio materno
Bela mentira e piedosa de astúcia!
Quem sabe, e de quem recusa fúcsia,
Crânio vazio e esse riso eterno!

Pais profundos, cabeças desertas,
Que, sob peso já tantas pás retas,
É terra e confundir os passos nossos
Correto roedor, verme irrefutável
Não sois dormem abaixo dormível,
Ele vive a vida, não me deixa passos!

Amor, talvez, ou tu que me odeias?
Dente fecho é perto de mim enleias,
Todos nomes ele pode anuir!
Seja qual for! Vê, quer, pensa, tocar!
Carne afaga, até minha cama a dar,
Viver eu vivo a pertencer abluir!

Zenão! Zenão cruel! Zenão Eléia!
Mas tu furas seta alada ideia
Que vibrar, voeja e não voeja mais passos!
Som gera-me seta me mata nuga!
Ah! O Sol .... Que sombra de tartaruga
A alma, Aquiles parado grandes passos!

Não, não .... Alçar! Em eras sucessivas!
Quebrar meu corpo, formas pensativas!
Beber, meu útero, o brotar do vento!
A frescura, do mar exalado
Faz-me minha alma ... Poder salgado!
Correr a onda jorrando viva lenta.

Sim! Grande Mar delírios dotados
Pele pantera clamíde vazadas,
Quilíades de mil ídolos do sol,
Hidra absoluta, beba carne azul,
Quem remorso cauda vivo miul
Num tumulto quão silêncio algol,

Vento erguer! .... Deve viver tentar!
Enorme abrir fechar meu livro ar,
A Onda em pó ousa brotar rochas delas!
Esvoaçar páginas que ofuscavam!
Rompam, ondas! Rompa água se alegram
Quieto teto onde picam destas velas!
PAUL VALÈRY


Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (Sète, 30 de outubro de 1871 — Paris, 20 de julho de 1945) foi um filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista cujos escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música.

Valéry nasceu em Sète filho de um pai corso e uma mãe genovesa-Ístria, em uma cidade na costa mediterrânea do Hérault, mas ele foi criado em Montpellier, maior centro urbano da região. Após a educação católica romana tradicional, ele estudou direito na universidade, então residia em Paris a maior parte do resto de sua vida, onde estava, por um tempo, parte do círculo de Stéphane Mallarmé. 
Realizou os estudos secundários em Montpellier e iniciou sua carreira em Direito em 1889. Na mesma época publicou seus primeiros versos, fortemente influenciados pela estética da literatura simbolista dominante na época. Em 1894 se instalou em Paris, onde trabalhou como redator no Ministério de Guerra. Depois da Primeira Guerra Mundial se dedicou inteiramente à literatura e foi aceito pela Academia Francesa em 1925.

Sua obra poética foi influenciada por Stéphane Mallarmé, que consequentemente influenciou outro francês, Jean-Paul Sartre.
TRAD. ERIC PONTY

ROSA É UMA ROSA - GERTRUDE STEIN - TRAD. ERIC PONTY


Uma vez, em um momento, o mundo era rotundo e poderia prosseguir por aí.
Em todo lugar havia em algum lugar e em toda parte havia homens mulheres, crianças, cachorros, vacas, porcos selvagens, coelhinhos, gatos, lagartos e animais. É assim sempre foi. E todos os cães gatos, coelhos, ovelhas, lagartos e crianças, todos queriam contar a todos sobre isso e queriam contar tudo sobre si mesmos.
E então havia Rosa.
Rosa era o nome dela e teria sido Rosa se o nome dela não fosse Rosa. Ela habituava pensar e então ela costumava pensar de novo.
Ela teria sido Rosa se seu nome não fosse Rosa e ela teria sido Rosa se ela fosse uma gêmea.
Rosa era o nome dela e o nome de seu pai era Bob, e o nome de sua mãe era Kate, e o nome de seu tio era William, e o nome de sua tia era Gloria, e o nome de sua avó era Lucy. Todos eles tinham nomes e o nome dela era Rosa, mas ela costumava chorar se teria sido chamada de Rosa se o nome dela não fosse Rosa.
Eu lhe digo que neste momento o mundo estava todo e poderia ir em torno do seu redor.
Rosa tinha dois cachorros, um grande branco chamado amor, e um pequeno preto chamado Pépé, o pequeno preto não era dela, mas ela disse que era, pertencia a um vizinho e nunca gostou de Rosa e havia uma razão para isso, quando Rosa era jovem, ela tinha nove agora e nove não é jovem não Rosa não era jovem, bem de qualquer maneira quando era jovem ela um dia teve pouco Pépé e ela disse a ele para fazer alguma coisa, Rosa gostava de dizer a todo mundo o que fazer, pelo menos ela gostava de fazer quando era jovem, agora ela tinha quase dez anos então agora ela não contou a cada um o que eles deveriam fazer mas depois ela fez e ela disse ao Pépé, e Pépé não quis, ele não sabia o que ela queria ele faz, mas mesmo se ele não quisesse, ninguém quer fazer o que alguém manda, então Pépé não fez, e Rosa  se silenciou em um quarto. Pobre pequeno Pépé, ele aprendeu a nunca fazer em uma sala o que deveria ser feito do lado de fora, mas ele estava tão nervoso em ficar sozinho, o pobrezinho Pépé. E então ele foi solto e havia muitas pessoas, mas o pequeno Pépé não cometeu nenhum erro, ele foi direto entre todas às pernas até encontrar pernas de Rosa e então ele subiu e ele a mordeu na perna e então ele fugiu e ninguém poderia culpá-lo agora, eles bem poderiam. Foi a única vez que ele mordeu alguém. E ele nunca diria como fazê-lo para Rosa outra vez e Rosa sempre disse que Pépé era seu cachorro, embora ele não fosse, ela poderia esquecer que ele nunca quis dizer como você faz com ela. Se ele era seu cachorro que estava bem ele não tinha que dizer como você teria feito, mas Rosa sabia e Pépé sabia, ô sim, ambos compreendiam.
Rosa e seu grande cão branco O amor era agradável juntos, elas cantavam músicas juntas, essas eram as músicas que eles cantavam.
Amor bebeu sua água e enquanto bebia, era como se uma música fosse uma música legal e enquanto ele estava fazendo isso Rosa cantava sua música. Essa foi então sua música.
Eu sou uma menina e meu nome é Rosa, Rosa é o meu nome.
Por que eu sou uma garotinha?
E por que meu nome é Rosa?
E quando eu sou uma garotinha
E quando é meu nome Rosa
E onde eu sou uma garotinha
E onde está meu nome Rosa.

E que garotinha sou eu, a garotinha chamada Rosa, que garotinha batizou-me de Rosa.
E enquanto ela cantava essa música e ela cantava enquanto Amor bebia.
Por que eu sou uma garotinha?
Onde eu sou uma garotinha?
Quando eu sou uma garotinha
Qual menininha eu sou.
E cantando isso a deixou tão triste que ela começou a chorar.
E quando ela chorou Amor gritou ele levantou a cabeça e olhou para o céu e ele começou a chorar e ele e Rosa e Rosa e ele chorou e chorou e chorou até que ela parou e, finalmente, seus olhos estavam secos.
E todo esse tempo o mundo continuou a ser rotundo.
GERTRUDE STEIN
TRAD. ERIC PONTY

SONETOS DE CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

A Beleza

Minha bondade é dum sonho de seixo;
Dos peitos que há debulham socorrem não
São dos meus amantes quais os poetas pisados
Eles são do vice-versa me adoram sós.

Esfinge em forma de ira contra este céu,
Cerne frio quão gelo e desta alvura da neve,
Eu odiar todas às coisas seguem e partiram,
E nunca riram nem nunca estes me lamentam.

Em testemunho da pose uma orgulhosa,
Eu me empresto dos grandes estes monumentos,
Meus poetas já trabalham sempre sem repouso;

E, pois, eu possuo tudo que mais me cativa:
Que eles sejam sensatos nestes meus olhos
E do seu mundo mortal feito deste Paraíso!

O Ideal

Nunca serão estas belezas destas vinhetas,
Obra arruinada nata era deste declínio,
Estes pés são chinelos, dedos castanholas,
Quem pode confia agradar cerne igual meu.

Vou à Gavarni, qual poeta feito das cloroses,
Teus gados são bretões fato leito das chamas,
Pois não consigo achar dentre rosas rosadas
Uma flor que se assemelha ao meu rubro ideal.

Sendo forçoso ao meu cerne fundo quão mina,
Tu és, Lady Macbeth, uma alma intensa teu crime,
Sonho esburgado ideado flocos neve brilham;

Ou então, ótima noite, filho dum Miguel Ângelo,
Quem demuda paz pose estranha brutal,
Dos teus seios cultos boca verve dum Titã!

A vida anterior
Muito tempo me calhei sob átrios supremos
Do sol oceânico em flamas envolvia,
Cuja coluna admirável e encalço
O ocaso semelhava covas abissais. 

Do mar, que do alto céu a efígie devolvia,
Liquefazia em contíguos e hieráticos ritos
Os balanços de seus ajustes orquestrais
À ocidente cor nos olhares meus pendia. 

Ali foi que durei entre sexuais palmas,
Em todo azul, carnal das erras, dos fulgores
E dos escravos nus, saturados de odores,
Que a fronte me vibravam com as suas palmas,
E cujo único desígnio era o de entranhar-se
O abstruso do mal me fazia de findar.


CHARLES BAUDELAIRE
TRAD. ERIC PONTY

GARCILASO DE LA VEGA – TRAD. ERIC PONTY

Soneto X

Ô doces prendas por minha mal faladas,
Doces e alegres quando Deus queria,
Juntas estais em minha vã memória,
Com ela em minha morte conjuradas!

Quem me deixara, quando às passadas
AS Horas tanto bem por vos me via,
Que me habitas de ser em algum dia
Com tão grave dor representadas?

Pois em uma hora junto me levastes,
Todo o bem que por términos me distes,
Leva-me junto ao mal que me deixastes;


Se não, suspeitarei que me pusestes
Em tantos bens, porque desejastes
Verme morrer entre memórias tristes.

GARCILASO DE LA VEGA – 
TRAD. ERIC PONTY

À ESQUINA DO MUNDO




terça-feira, junho 19, 2018

CANCONEIRO - 3 - 4 SONETOS - Francesco Petrarca TRAD, ERIC PONTY

III

Sendo dia que Sol se empalideceram,
Raios, que vosso autor compadecido,
Quando, dizer-me eu já desprevenido,
Vossos olhos, senhora, me renderam.

Ser tal tempo, dos meus não entenderam
Defender-se do Amor: jaz protegido
Me julgava; minha pena e meu chorado
No Princípio tão comum dores tiveram.

Amor me falou do todo desarmado,
E aberto o coração deparou o passo,
São meus olhos, tão pranto porta e barco:


Porém, meu parecer, não ficou honrado
Ferindo-me qual flecha daquele caso,
E a vós, armada, não mostrar vosso arco.



IV

Que vossa arte infinita e Providência
Demostrou-se admirável Magistério,
Que, com este, creio em outro Hemisfério,                                          
E a Jovi, mais que Marte, deu clemência,

Veio ao mundo alumbrando vossa ciência,                                                                                              
À verdade ser livro era mistério,
Mudou se Pedro e João o ministério,
E, por a rede, lhes deu céu de herança.

Ao nascer, neste julgo de Roma dar-lhe,
Se à Judeia: por, mais que todo Estado,
Exaltar-se humildade e complacência;

E hoje, duma aldeia rica, um Sol há dado,
Que a Natura ao sitio faz-se ti alegrar-se
Onde mulher tão soberba hei visto o dia.




Francesco Petrarca
TRAD, ERIC PONTY

AO AUTOR E A SUA PLUMA - Miguel de Cervantes Saavedra – TRAD. ERIC PONTY


Pois viés que não me hão dado algum soneto
Que ilustre de este libro da lombada,
Chegai vós, pluma minha mal cortada,
E fazerdes, ao que careca discreto.
Fareis que excurses o temerário aperto.

De andar de uma noutra encruzilhada,
Mendigando abalanças, escusada,
Fatiga e impertinente, eu os prometo.
Todo soneto e rima ali se avenha,
E adorne os umbrais dos sejam tão bons.

Ao que à adulação é de ruim casta.
E dá-me vos que esta Viagem vós tenha,
De sal um pãozinho pelo ao menos,
Que eu os lhe marco por vendível, e basta.


Miguel de Cervantes Saavedra –
TRAD. ERIC PONTY

segunda-feira, junho 18, 2018

SONETO II - JUAN BOSCÁN TRAD. ERIC PONTY


Graciliano, que ao bem sempre aspiraste,
E sempre com tal força lhe seguiste,
Que dá poucos passos que atrás correste,
Em todo inteiramente lhe alcançaste;

Diga: por que atrás ti não me levaste,
Quando de esta mortal terra partiste?
Por que ao subir ao alto que subiste,
DAQUI nesta tua bateia me degaste?

Bem penso eu que si poder tiveras
De mudar algo o que está ordenado,
Em tal caso de mim não te olvidaras.

Que, o quiseras honrar-me com teu lado,
Ao, menos, que de mim te despediras;
Assim isto não, despois por mim tornaras.

JUAN BOSCÁN
TRAD. ERIC PONTY

brevidade da vida - Francisco de Quevedo - TRAD. ERIC PONTY


Significasse à própria brevidade da vida, sem pensar e compadecer surpreendida da morte.

Fui sonho haver; manhã será terra!
Pouco antes nada, e pouco despois fumo!
E destino ambições, e ti presumo
Apenas ponto ao cerco que me fecha!

Breve combate de importuna guerra,
Em minha defensa sou perigo sumo,
Então com minh´ armas me consumo,
Menos me hospeda corpo que me enterra.

Já não haver; manhã não há chegado;
Hoje passa e é e foi, com movimento
Que à morte me leva despenado.

Azadas são das horas e o momento,
Jornal de minha pena e meu cuidado,
Cavaram em meu viver meu monumento.
Francisco de Quevedo
TRAD. ERIC PONTY

Lamento duma amante - William Shakespeare - TRAD. ERIC PONTY


Num colado de cujo ventre de fora,
Dobrava ao triste canto doutro vale,
Deteve ao passo para lhe ouvir o eco
Com todos meus sentidos expetativas;
E vi a duma moça pálida e variável
Partindo nas duas uniões e quartilhas
E afogando na chuva e vento seus ditas.

Um capuz de palha resguardava
Do sol seu rosto, onde o pensamento
Pode pensar que viera alguma traça
Duma beleza triste. Porém o tempo
Não havia apagado o rastro por inteiro
Daquela juventude nem céu airado,
Espelhado essa beleza com os anos.

Assim como enjugava os salobres
Lágrimas de seu cantar num lenço,
Lavando das curiosas inscrições
Bordadas nesta seda com esmero,
Lançava toda classe de lamentos,
De viva voz o em lânguidos gemidos,
Ao reler com o avidez destes os signos.

Às vezes, com a precisão duma arma,
Aponta olhar ao céu numa guerrilha;
As vezes suas pupilas vão atadas
Ao chão terrenal; as vezes fixa
Na frente a visão e logo admira
Há todas partes e a nenhum lugar,
Tão confusas mente e vista por igual.

Seus pelos, nem ao atlas nem recolhidos,
São mostra dum orgulho descuidado.
Alguns folgam destas sombras, finas,
Sobrancelha abaixo, junto a cútis branca,
E há outros que, sujeitos aos seus laços,
Preferem ser-lhe fieis e se quebram
Trespassados entre si com negligência.
WILLIAM SHAKESPEARE
TRAD. ERIC PONTY

domingo, junho 17, 2018

O PRÍNCIPIO - JORGE LUIZ BORGES - TRAD. ERIC PONTY


Dois gregos estão conversando: Sócrates acaso e Parménides. Convém que não apartamos nunca seus nomes; história, assim, será mais misteriosa e mais tranquila.

O tema do diálogo é abstrato. Aludem às vezes aos mitos, dos quais ambos descreem.


As rações que alegam podem abundar nas falácias e não dão com uma Coda. Não polemizam. E não querem persuadir nem ser persuadidos, não pensam em ganhar ou perder.


Estão de acordo em uma só coisa; sabem que à discussão se tornou uma via impossível a chegar a uma verdade.
Livres do mito e da metáfora, pensam o tratam de pensar. Não conheceremos nunca seus nomes.


Esta conversação de dois desconhecidos em um lugar da Grécia haverá feito capital da História.


Hão olvidado de penetrar a magia.
JORGE LUIZ BORGES
TRAD. ERIC PONTY

As Divindades - JORGE LUIZ BORGES - TRAD. ERIC PONTY


Suspeito que não houve um Deus do Mar, como tampouco um Deus do Sol; ambos conceitos são alheios a mentes primitivas. Houve o mar e houve Poseidon, que era também o mar. Muito despois chegariam as teogonias e Homero, que segundo Samuel Butler urdiu com fábulas ulteriores aos interlúdios cómicos da Ilíada. O tempo e suas guerras se hão encarregado da aparência de Deus, porém jaz o mar, sua outra efigie.
Não havendo uma só coisa no mundo que não seja misteriosa, porém esse mistério passa a ser mais evidente em determinadas coisas que em outras. No mar, na cor amarela, nos olhos dos anciões e na música.
JORGE LUIZ BORGES
TRAD. ERIC PONTY

sábado, junho 16, 2018

salutaris hóstia - Salmos, 67

 O salutaris hóstia

O salutaris hostia
Quae caeli pandis ostium:                                                      
Bella premunt hostilia,                                                           
Da robur, fer auxilium.

Uni trinoque Domino
Sit sempiterna gloria,
Qui vitam sine termino                                                           
Nobis donet in patria.
Amen.  
"Salmos, 67 1. Ao mestre de canto.


Salmo de Davi. Cântico. 2. Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos, e fogem diante dele os que o odeiam.
3. Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus.
4. Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença, e transbordam de alegria.
5. Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto.
Senhor é o seu nome, exultai em sua presença.
6. É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo.
7. Aos abandonados Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem-estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente.
8. Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto,
9. a terra tremia, os próprios céus rorejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel.
10. Sobre vossa herança fizestes cair generosa chuva, e restaurastes suas forças fatigadas."