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domingo, agosto 09, 2026

POMPAS DE ABRIL - Sete anos a pobreza de Minas - Eric Ponty

 
INTROITO 

Sete anos a pobreza de Minas,
Serviu a uma Pastora Princesa e bela,
Porém serviu então a cria, e não a ela,
Que então a cria só por prêmio pretendia.

Mil dias de esperança de um só fia,
Passava então contentando-se com vê-la,
Mas fr. João usando de cautela,
Deu-lhe a sombra, quitando-lhe a fidalguia.

Vendo as Gerais, que por tão lide modos,
Se lhe usurpará, a sua linda Pastora,
Quase a golpes de um traço e de diva.

Logo se arrependeram louvar todos,
E qualquer coisa amara então não fora,
tão limpo louvor tão sombria Princesa.

I

Pai do Céu, após então dias perdidos,
após as noites passadas em delírio,
desejo feroz ardendo em meu peito,
mirando gestos tão charmosos me lesam,

permita-me cá voltar-me para a sua luz,
para outra vida, para ações mais belas,
para que, cá que lançou suas redes em vão,
meu hostil contumaz seja desarmado.

Décimo primário ano está abeirar-se ao fim,
do meu servilismo ao jugo déspota,
mais severo aos beltranos porosos a dar:

tenha clemência da minha dor, que é indigna,
cause a um lugar melhor aos axiomas vagam,
lembre-os de que hoje o Senhor foi crucifixo. 

 II


Mais afoito do que qualquer outro lugar,
onde já vi o Amor deter seus passos,
voltando pra mim àqueles olhares sagrados,
que tornam sereno o ar ao seu redor:

Antes ofuscar-se com o tempo
uma ideia firme como diamante,
deixar de ter diante de mim aquele gesto doce,
tenho a memória e o coração tão cheios;

Nem jamais te verei tantas vezes
que não me curve para buscar as pegadas
que o belo pé deixou naquele giro cortês.

Mas se no peito valente o Amor não dorme,
pede ao meu amor então, quando o vires,
por alguma lágrima ou um suspiro.

III


Ah, quantas vezes o Amor me assalta
que, entre a noite e o dia, são mais de mil;
retorno ao lugar onde vi arder as faíscas;
que tornam imortal o fogo do meu coração.

Ali me acalmo, e sou conduzido a tal estado
que à nona, às vésperas, alva e ao som das úvulas,
as encontro em meus pensamentos tão tranquilas,
que de mais nada me lembro nem me importo.

Samira, doce, cujo rosto luminoso,
com o som de suas palavras sensatas,
faz com candura e a fleuma soprem por toda parte,

quase como um espírito gentil do paraíso,
parece sempre me confortar naquele ar,
peito cansado não respira em nem um outro ambiente.


lV

O Amor, perseguindo-me até o lugar de sempre,
absorto qual homem que aguarda a guerra,
que se prepara e vigia os passos ao redor,    
estava armado com meus antigos pensamentos;

voltei-me e vi uma sombra que, de lado,
projetava o sol, e reconheci no chão
aquela que, se minha ponderação não se dribla,
era mais digna do estado imortal.

Eu dizia em meu coração: “Por que temes?”
mas antes mesmo que o pensamento se efetivar-se,
os raios que me corroíam já estavam presentes;

assim como com o clarão troveja num instante,
assim fui enredado pelos belos olhos intensos    
e por uma doce cortesia ao mesmo tempo.

 
V


Se eu pensasse com a morte, seria repousado
dessa angústia amorosa que me oprime,
Nesta altura, com próprias mãos, já teria encravado
meus membros abjetos e também esse fardo;

mas, como temo que isso fosse uma abertura
de uma dor para outra, de uma guerra para outra,
deste lado da passagem ainda fechada para mim
jazo meio aqui (oh, dor) e meio do outro lado.

E já é hora de que a corda déspota
lança cá, de seu arco, a flecha derradeira,
já molhada e conspurcada com sangue alheio;

e imploro Samira por isso e por aquela surda,
que me deixou pintado com tons de cor própria,
e que se olvida de me apodar para si.

VI

Se ainda vive aquela volição sedutora,
que te fez arder nas ondas de Samira,
e se aqueles cachos loiros e valiosos dela
não tenha olvidado com o passar dos anos,

da geada indolente e do tempo ríspido e cruel
que perdura enquanto me ocultar seu rosto,
venha agora defender a folha honrada e sagrada
pela qual você e depois eu também fui arrebatado;

e então, em virtude da esperança amorosa
que te manteve firme em sua vida amarga,
esclareça essa atmosfera dessa impressão;

então veremos juntos, magníficos,
nossa senhora sentada ali na erva,
com braços difundindo sombra ao seu redor. 

VII


Só e absorto em pensamentos, percorro
campos mais desertos, passos lentos e diuturnos,
com os olhos atentos para evitar qualquer sinal
de pegada humana deixada na areia um dia.

Não acho outro escudo para minha proteção
contra os olhares perspicazes da humanidade,
pois em meu porte, completamente falho de alegria,
percebe-se, do lado de fora, tal qual ardo por dentro.

Assim, penso, apenas o Lenheiro e as montanhas,
de vida que levo, aquela que se abriga de todos,
E, ainda assim, parece que nunca encontro um caminho.

Supino árduo, elevado selvagem para que o Amor,
Para que o ar se livrar dessas impressões;
sempre se junte a mim e fale comigo, e eu com ele!

 VIII

Quanto mais me aproximo do dia extremo,
que a miséria humana costuma tornar breve,
tanto mais vejo o tempo passar rápido e leve,
e minha esperança nele, enganosa e tola.

Digo aos meus adágios: “Não iremos muito longe
falando de amor agora, pois o duro e pesado
fardo terreno, tal qual a neblina fresca,
vai-se derretendo, e assim teremos paz;

“pois com ele ruirá aquela esperança
que nos fez delirar por tanto tempo,
e o riso e o choro, e o medo e a ira:

“assim veremos visivelmente então mui vezes
outros se aventuram em coisas dúbias,
e como amiúde se suspira em vão.” 

 IX


Já resplandecia a amorosa Estrela da manhã
no Oriente, e a outra que se fez de ti
costuma deixar com ciúmes no Norte
contornava seus raios, intenso e belo;

Samira já se levantara para fiar,
desnuda e descalça, e acendera o carvão,
daquela estação minava os amantes,
que, por costume, os leva às fúcsias;

quando minha expectativa, já direta a relva,
chegou ao peito não pela passagem de sempre,
que o sono sustentava unido e a dor inerte —

quão demudada, ai de mim, em afinidade à de antes! —
e parecia dizer: “Por que perdes tua coragem?
A visão destes olhos ainda não te foi sacada.”

 X


Na serra, nunca houve rios nem lagoas,
nem mar onde cada riacho se desague,
nem sombra de muro, colina ou galho,
nem névoa que cubra o céu e banhe o mundo,

nem outro estorvo do qual eu me queixe,
que mais obscureça a visão humana,
tanto quanto um véu que sombreia dois belos olhos
e parece dizer: “Agora, consume-te e chora.”

E aquele seu abaixar que toda a minha alacridade,
apaga, seja por humildade, seja por orgulho,
será a causa de que eu morra antes do tempo.

E também me lamento por uma mão alvejada,
que sempre se empenhou em me causar dor,
e se tornou um estorvo aos meus olhos.

XI

Temo, sim, o assalto daqueles belos olhos,
nos quais habitam o Amor e a minha morte,
fujo deles como uma criança foge da vara,
e já faz muito tempo que dei o primeiro salto.

De agora em diante, não haverá lugar árduo ou elevado
onde a vontade não se eleve, para não me deparar 
com quem dispersa meus sentidos, deixando-me, 
tal qual de costume, com um frio desânimo.

Portanto, se demorei a voltar-me para vê-la,
para não me acostar-se daquela que me consome,
talvez essa falha não tenha sido indigna de escusa.

Mais digo ainda: que o desando àquilo de que o homem foge
e o peito que de tanto medo se soltou foram, para minha fidúcia, 
de um penhor não aborrecível de perdão.

 XII


Se o Amor ou a Morte não causarem alguma falha
na nova tela que agora estou tecendo,
e se eu me libertar do tenaz armadilha
enquanto uno o um com o outro de verdade,

talvez eu crie obra dupla, minha, assim, dupla,
entre o estilo dos modernos e o sermão antigo,
que (ouso dizer, com temor) vindo serra Lenheiro
até se ouvirá o estrondo da sua cordilheira.

Mas, como me faltam, para concluir a obra,
alguns dos fios abençoados esbravejam névoa
que sobraram daquele meu querido pai,

por que manténs as mãos tão fechadas para mim,
contra o teu costume? Peço que me dês a obra,
verás surgir coisas airosas. Morte não causa.

 XIII


Quando, de seu próprio lugar, é movida
a árvore que outrora amou em forma humana,
suspirar e suar na obra concebida 
para reabastecer os fechos agudos de Samira,

Hora que ora troveja, ora neva e ora chove,
sem mais honrar minutos nem ponteiros;
a terra chora e o sol se mantém distante de nós,
pois vê sua querida amiga em outro lugar.

Então Minutos e Ponteiros retomam a ousadia,
estrelas cruéis, e Orion, armado, destrói aos infelizes 
timoneiros nesse comando e as cordas.

Éolo, perturbado, aos Minutos e Ponteiros,
faz sentir a eles e a nós como se afasta
o belo rosto aguardado pelos anjos.

 XIV


Meu adversário, em quem só vejo
olhos, que o Amor e o Céu honram,
com belezas que não lhe pertencem, 
faz então com que se me apaixone.

Mais da qualquer forma mortal, suave e alegre,
Por conselho dele, Samira, vós me expulsastes
de fora do meu doce refúgio escrito nas margens:
Miserável exílio! Embora eu não fosse;

Digno de habitar onde vós estais sozinhas.
Mas se eu ficasse ali fixo com fatos firmes,
não deveria servir de espelho para meu dano,
fazendo com afagasse a si mesma, áspera e briosa.

Com certeza, se lembrar de Narciso, este e 
Daquela passagem levam a um mesmo fim —
embora a erva seja indigna de uma flor tão bela.

 XV


Eu já sentia no meu coração esmorecer
os espíritos que de vós recebem vida;
fluente, todo animal se defende contra a morte,
deixei fluir o desejo que agora tanto reprimo;

E me lancei pela estrada quase confusa,
pois a noite me convida a seguir adiante;
e eu, contra a vontade, vou para outro lado,
e ela me conduziu, envergonhado e relutante,

Ao rever os olhos graciosos dos quais eu,
para não ser lhes um fardo, muito me cuido:
Daquela passagem levam a um mesmo fim —

Viverei por algum tempo ainda, pois à minha vida
tanta virtude confere um único olhar vosso;
e depois morrerei, se eu não crer nesse desejo.

 XVI


Se jamais uma chama se apagou por causa de outra,
nem rio jamais secou por causa da chuva,
mas sempre uma se sustenta na outra, igual a ela,
e muitas vezes uma, ao contrário, acende a outra,

Amor, tu que distribuis nossos pensamentos,
em quem uma alma se apoia em dois corpos,
por que fazes nela, de maneira incomum,
muito que queira, seu desejo intenso amaine?

Talvez assim Sombra do Amor, ao cair das alturas,
com seu amplo estrondo ensurdece os contíguos ao redor,
e o sol ofusca quem o olha constantemente,

assim o desejo que não se calha consigo mesmo
se perde no objeto desenfreado, e, por ser demais 
estimulado, a fuga se torna lenta na ramagem.

 XVII

Pois, embora eu tenha te considerado falsa,
em meu poder e muito honrada,
língua ingrata, já não me trouxeste,
nem honra, mas sim ira e vergonha;

pois quanto mais preciso da tua ajuda
para implorar dó, tanto mais tu te manténs
cada vez mais fria, e se proferes palavras,
elas são imperfeitas e quase de alguém que sonha!

Lágrimas tristes, e vós, todas as noites,
me seguem onde eu gostaria de ficar sozinho,
e depois fogem diante da minha paz!

E vós, tão prontos a me causar angústia e dor,
suspiros, então se tornam lentos e entrecortados!
Somente a minha visão não silencia o peito.

 XVIII

Mal começava a chegar aos meus olhos
a luz que, de longe, os ofusca, que, assim 
ela viu a Tessália se transformar,
ainda toda a minha forma se teria demudado.

E se eu não puder me transformar nela,
mais do que sou (não que isso me valha de nada),
de que pedra mais rígida seria esculpido,
pensativo em meu olhar estaria hoje,

seja de brilhante, seja de um soberbo mármore alvo,
talvez pelo medo, ou de um jaspe,
aquilatado pelo povo avarento e tolo;

e estaria livre do jugo pesado e áspero,
pelo qual invejo aquele velho cansado,
que com ombros fez sombra em Lenheiro.

 XIX


Porque trazia o rosto do Amor como emblema,
uma peregrina comoveu meu coração vaidoso,
todas as outras me semelhavam menos dignas de honra;
e, seguindo-a por entre as ervas verdes,

ouvi dizer em voz alta, vinda de longe:
“Ai, quantos passos desperdiça na montanha!”
Então me refugiei à sombra de uma bela faia,
totalmente pensativo, e, olhando ao redor,

vi que minha jornada era bastante perigosa;
e voltei para trás quase no meio do dia,
No alto do Monte canção, verás então o refrão.

mais aflito com outros do que consigo mesmo.
Diga-lhe: “Alguém que ainda não te viu de perto,
a não ser como se apaixona pela fama de alguém.

 XX


Aquele fogo que eu pensava estar extinto
pelo tempo frio e pela idade menos fresca,
chama e tormento na alma reaviva. Nunca 
se abrandaram inteiramente, pelo que vejo,

mas as faíscas ficaram um pouco encobres,
e temo que o segundo erro seja pior.
Pelas lágrimas que derramo às mil e mil
é natural que a dor se destile pelos olhos.

Peito, que guarda em si as faíscas e o pavio,
não apenas qual era, mas parece-me que cresce.
Que fogo não teriam já embaciado e extinto.

Fúcsias que os olhos tristes sempre derramam?
Amor, embora eu tenha percebido tarde,
quer que eu me desespere entre dois opostos.

 XXI


Se, com o desejo cego que destrói o coração,
ao contar histórias, eu não me engano a mim,
agora, enquanto falo, o tempo foge,
me foi prometido a mesma era e à minha mercê.

Sombra é tão cruel ponto ofuscar-se a semente
que estava tão próxima do fruto tão desejado?
E dentro do meu rebanho, que fera ruge?
Entre a espiga e a mão, que muro se ergue?

Ai de mim, não sei, mas bem sei, sim,
que, para tornar minha vida mais dolorosa,
o Amor me levou a esperanças tão alegres;

e agora me lembro do que li então num sítio,
que, antes do dia da última partida,
não convém chamar de feliz um homem.

XXII


Minhas ousas, ao chegarem, são tardias e inertes,
a esperança é incerta, e o anseio cresce e se aviva,
por isso, espera quanto o cansaço me enfadar-se;
e, ao partir, sou mais ágil que um tigre serrano.

Ai de mim, as neves ficarão mornas e negras,
e o mar sem ondas, e nos Alpes todos os peixes,
e que o sol se esconda lá além, de onde brotam
da mesma fonte do Lenheiro e d’água Limpa.

antes que eu encontre nisso paz ou trégua,
ou que o Amor ou a Samira aprendam outro uso,
que se conjuraram contra mim injusto;

e se tenho algum doce, é depois de tantos amargos,
que, por desdém, o sabor se dissipa no luar Lenheiro,
Nunca mais encontro nada além das graças deles.

XXIII


A amura que já se cansou de chorar;
descanse sobre uma delas, meu estimado senhor,
e seja cá mais mesquinho consigo mesmo
em relação àquele cruel que branqueia seguidores;

Com outra, feche com a mão esquerda
a passagem aos portadores por ali passara,
mostrando-se um de agosto e um de janeiro,
pois nos falta tempo para a longa ida;

e com a terceira, beba um suco de erva
que ablua todo pensamento que aflige o peito,
doce no final e amargo no início.

Coloque-me onde o prazer se guarda,
que eu não tema o timoneiro do Estinge—
se minha prece não for de forma briosa.

XXIV

A árvore gentil que tanto amei por muitos anos
(enquanto seus belos galhos não me cederam)
fazia prosperar meu fraco talento
à sua sombra e crescer em meio às angústias.

Então, quando, já a salvo de tais enganos,
demudou de doce em madeira déspota,
recuei todos os meus pensamentos para um só sinal,
que sempre fala desses seus tristes danos.

O que poderá dizer quem suspira por amor,
se outra esperança, meus novos versos,
lhe tivesse dado e, por causa dela, a tivesse perdido?

“Que nenhum poeta a colha jamais, nem Zeus
a privilegie, e que o sol se embraveça contra ela,
de modo que todas as suas folhas verdes se sequem!”

 XXV

Bendito seja o dia, o mês e o ano;
a estação, o tempo, a hora e o momento;
o belo país e o lugar onde cheguei;
por causa de dois belos olhos me cativaram;

Bento sejas o primeiro doce martírio
que senti ao me atrelar ao Amor,
e o arco e as setas com que fui tocado,
e as contusas que abeirar-se até o meu peito.

Benzidas sejam os tantos brados com que eu,
ao invocar o nome da minha amada, me apareci,
e os suspiros, as fúcsias e o desejo;

Benzidos sejam todos os papéis Samira,
em que ganhou fama, e meu pensamento,
que é só dela, que não há lugar para outra.

XXVI


Ao voltarem olhos para minha nova cor,
que faz pessoas lembrarem-se da morte,
a compaixão os moveu; por isso, bondade,
ao saudarem-me, nutriram vivo o meu peito.

A frágil vida que ainda habita em mim
foi um presente dadivoso de teus belos olhos,
dá voz angelical e suave; por meio conheço 
Na existência em que me encontro,

pois, assim animal preguiçoso reage à vara,
assim despertastes em mim a alma dormida.
Do meu peito, Samira, as duas chaves, a uma e a outra,

estão em vossas mãos, e disso estou contente,
pronto para navegar a qualquer vento:
pois tudo que vem de vós é para mim doce honra.

 XXVII


Se pudessem, por sinais de brasa —
por baixar os olhos ou inclinar a cabeça,
ou por serem mais céleres do que as outras na fuga,
desviando o rosto das preces honestas e dignas —

Sair alguma vez, ou por outros meios do peito onde, 
desde o primeiro louro, se enraíza o Amor mais ramos, 
eu diria de fato que isso justa causa para vossos desdesses;
pois uma planta gentil em solo árido parece destoar, 

E por isso, alegre, naturalmente se afasta dali.
Mas, já que vosso destino vos proíbe 
mesmo de estar em outro lugar, que não seja ali.

Busquem pelo menos não jazer sempre em parte odiosa,
Se já que você está em outro lugar, pelo menos 
Certifique-se de que onde fica não seja sempre tão abjeto.

 XXVIII


Na margem esquerda do Lenheiro na ramagem,
onde as ondas, agitadas pelo vento, choram,
vi de confinante aquela copa altiva,
sobre a qual devo anotar em tantos papéis.

O amor, que fervilhava dentro da alma,
pela lembrança das tranças loiras,
me impeliu, de modo riacho que a grama esconde,
caí, não como uma pessoa viva.

Sozinho onde me deparava, entre bosques e colinas,
senti vergonha de mim mesmo, pois ao coração gentil
isso já bastava, e não quis outro estímulo.

Agradecia-me, pelo menos, ter mudado o foco
dos olhos para os pés, se a sua moleza
pudesse ser enxugada por um abril mais cortês.

 XXIX

O aspecto sagrado de vossa terra
me faz extrair aflições do passado doloroso,
gritando: “Levanta-te, infeliz, o que estás fazendo?”
e me mostra a passagem para subir ao céu.

Mas, com esse pensamento, surge outro,
e me diz: “Por que fugas?
Se te lembras, já passou o tempo
de voltar a ver nossa Samira.”

Eu, que abranjo suas palavras, então
fico adormecido por dentro, qual alguém que ouve
notícias que de repente o consternam;

Depois o primeiro volta e este dá a volta.
Não sei qual dos dois vencerá, mas até agora
eles têm lutado, e não apenas uma vez.

 XXX

Eu bem sabia que nenhum conselho natural,
Amor, jamais prevaleceu contra ti,
tantas armadilhas, tantas falsas promessas,
tanto já sofri às tuas garras ferozes.

Mas, mais uma vez, o que me admira,
(contarei para alguém a quem isso importou,
e que o observei ali, sobre as águas manadas,
entre a costa do Lenheiro, serra João José),

eu fugia de tuas mãos e, pela passagem,
com os ventos, o céu e as ondas agitados,
caminhava desconhecido e peregrino;

quando eis que teus servos, não sei de onde,
vieram me mostrar que, contra o destino,
mal faz quem resiste e mal faz quem se oculta.

 XXXI

Já estou cansado de pensar assim, pois
meus pensamentos em vós não se cansam;
e como ainda não repudio a vida;
para fugir desses suspiros, fardos tão pesados;

Ao falar do rosto e dos cabelos;
e dos belos olhos dos quais sempre falo;
não faltaram, até agora, a língua e o som;
chamando, de dia e de noite, o teu nome;

Meus pés não estão abrandados nem cansados
de seguir suas pegadas por toda parte,
perdendo em vão tantos passos até vós;

De onde vem a tinta, de onde vêm os papéis
que vou atestando contigo (se nisso falhar,
culpa do Amor, não falta dessa arte).

 XXXII

Os belos olhos pelos quais fui ferido de tal modo
que os próprios olhos poderiam curar a ferida,
e não o poder das ervas ou da arte mágica,
nem de pedra extraída que do nosso mar,

Me abriram uma passagem tão conciso para outro amor,
que um único pensamento doce satisfaz a alma;
e se a língua deseja segui-lo, a escolta pode, 
mas não ela, ser ridicularizada por uma passagem.

Esses são aqueles belos olhos que tornam vitoriosas
as façanhas do meu senhor em todos os recintos  
Sobretudo, ao meu lado; senhor em todos os lugares.

Esses são aqueles belos olhos que jazem
sempre no meu peito com as chamas acesas,
por isso, ao falar deles, não me canso.

 XXXIII


O amor, com suas promessas sedutoras,
me levou de volta à antiga prisão,
e ofereceu as chaves àquela minha inimiga,
que ainda me mantém exilado de mim mesmo.

Não me apercebi disso, ai de mim, a não ser quando
estava sob o bem deles; e cá, com grande esforço,
(quem acreditará, por mais que eu jure?)
retorno à liberdade suspirando;

e como um apropriado prisioneiro aflito,
carrego grande parte das minhas correntes,
e tenho o peito escrito nos olhos e na testa.

Quando perceberes minha aparência,
dirás: “Se eu ressaltar e julgar com clareza,
este estava prestes a morrer com certeza.”

 XXXIV


Para cotejar Policleto, com olhar mais atento,
com os outros que arranjaram fama nessa arte,
nem mesmo em mil anos veriam a menor parte
da beleza que conquistou meu peito.

Mas bem meu Simão esteve no Paraíso,
de onde está gentil dama partiste;
ali a viu e a retratou no papel,
para dar depor, aqui embaixo, de teu belo rosto.

A obra foi bem daquelas que no céu
se podem conceber, não aqui entre nós,
onde os membros servem de véu para a alma;

Ato de cortesia, e ele não poderia fazê-lo depois
de ter descido para libar o calor e o frio
e de seus olhos terem sentido a naipe mortal.

 XXXV


Quando chegou a Simão em alto apreço
que, em meu nome, assentou a pena em tuas mãos,
se ele tivesse se dedicado à obra gentil
com a figura, na voz e o intelecto,

De muitas perpétuas teria folgado meu peito,
pois aquilo que outros sopesam mais precioso, 
Mim é vil. Pois ela se mostra crédula à elementar visto,
prometendo-me paz com teu olhar,
    
mas, quando venho conversar com ela,
parece que me escuta com muito agrado:
se soubesse objetar às minhas palavras!

Pigmalião, quanto deves louvar
tua imagem, se mil vezes
tivesses aquilo que eu, só uma vez, ansiaria!

 XXXVI

Se o início obedece ao fim e ao meio
do décimo quarto ano pelo qual suspiro,
nem a brisa nem a sombra mais me salvam,
pois sinto crescer meu ardente desejo.

O amor, com pensamento nunca me separo,
sob cujo jugo jamais respiro, governa-me 
de tal forma que já não sou eu mesmo,
por causa olhos tantas vezes se voltam para o meu mal.

Assim vou definhando dia após dia,    
de forma tão ajuizada que só eu percebo,
e aquela que, ao olhar, me consome o peito;

mal consigo vislumbrar minha alma até aqui,
nem sei quanto tempo ela jazerá comigo,
pois a morte se abeirar-se e a vida foge.

 XXXVII

O Amor, a Fortuna e minha mente, avessa
ao que vê e voltada para o passado,
me afligem tanto que, às vezes, sinto
inveja daqueles que estão na outra margem.

O Amor me dilacera o peito, a Fortuna o priva
de todo conforto, por isso minha mente tola
se embraveia e chora; e assim, em bom sofrimento,
sempre devo viver lutando contra a serra.

Nem espero que os dias doces voltem,
mas o que vem pela frente vai de mal a pior,
e já passei da metade da minha vida.

Ai de mim, não de diamante, mas de vidro,
vejo todas as minhas esperanças caírem das minhas mãos
e todos os meus pensamentos se quebrarem ao meio.


XXXVIII

Aquele vago empalidecer, que o doce sorriso
de uma névoa amorosa cobriu,
com tanta majestade se ofereceu ao coração,
que se apresentou diante, bem no meio do rosto.

Reconheci então, assim tal qual no paraíso
os uns veem os outros; dessa maneira se abriu
pensamento devoto que a ninguém mais se revelou,
mas eu o vi, pois em mais nada fixava meu olhar.

Toda visão angelical, todo ato humilde
que jamais se despontou em mulher onde tivesse amor,
seria uma afronta ao lado do que eu digo.

Inclinava para a terra o belo e gentil olhar
e, em silêncio, dizia, como me pareceu:
“Quem afasta de mim meu fiel amigo?”

 XXXIX

Se jamais uma chama se apagou por causa de outra,
nem rio jamais secou por causa da chuva,
mas sempre uma se sustenta na outra, igual a ela,
e muitas vezes uma, contrária à outra, a acende.

Amor, tu que distribuis nossos pensamentos,
em quem uma alma se apoia em dois corpos,
por que fazes nela, de jeito incomum,
que, por muito querer, desejos se tornem vivos?

Talvez assim como Lenheiro, ao cair das alturas,
com seu grande estrondo ensurdece os vizinhos ao redor,
e o sol ofusca quem o olha fixamente,

assim o desejo que não se harmoniza consigo mesmo
se perde no objeto desenfreado,
e, por ser demais acirrado, a fuga se torna lenta.

 XXXX

Pois, embora eu tenha te considerado falsa,
em meu poder e muito honrada,
língua ingrata, já não me trouxeste,
honra, mas sim ira e vergonha;

Pois quanto mais preciso da tua ajuda
para implorar dó, tanto mais tu te manténs
cada vez mais fria, e se proferes palavras,
elas são imperfeitas e quase de quem sonha!

Fúcsias tristes, e vôs, todas as noites,
me acompanham onde eu gostaria de ficar sozinho,
e depois fogem diante da minha paz!

E vôs, tão prontas a me causar angústia e dor,
suspiros, então se tornam lentos e entrecortados!
Somente a minha visão não silencia o peito.

XL

O ouro, as pérolas, as flores rubras e as alvas,
que o inverno deveria tornar murchas e secas,
são para mim espinhos amargos e venenosos,
que sinto no peito e nos flancos do meu eu.

Por isso, meus dias serão lacrimosos e imperfeitos,
pois grande dor raramente ocorre à medida que envelheço;
mas mais ainda me atingem os espelhos mortíferos
que, ao contemplarem a si mesma, tu já cansaste.

Foram estes que impuseram silêncio ao meu imponente,
que por mim vos implorava, e por isso ele se calou,
vendo em vós o fim do vosso desejo;

Se foram estes forjados sobre as águas
do abismo e tingidos no olvido eterno,
de onde nasceu o início da minha morte.

 Eric Ponty

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

segunda-feira, agosto 03, 2026

Ó velha lâmpada - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 Ó velha lâmpada, ó velha amiga, à tua luz
Quantos livros li, quantos versos escrevi!
Sob teu humilde abajur, quantas vezes me viste
Ficar acordado, quando o sono corava minhas pálpebras!

Lâmpada achatada e barriguda, de cobre amassado,
Como ainda se vê em antigas aparadores,
Muitas vezes ouviste confidências sérias:
Das minhas esperanças mais secretas, falei-te. 
Lâmpada, por muito tempo foste minha única amiga;
E, quando eu morava lá no alto, sob o telhado,
Só as noites passadas ao teu lado me eram doces…
E as carruagens passavam pela rua adormecida.

Quantas vezes, apoiado na minha mesa de madeira branca,
Construí existências com o teu pó dourado,
E quantas vezes compus, para quem você sabe, estrofes,
Inclinando minha testa pálida em teu círculo trêmulo!

E quando o amanhecer rosado começava a surgir,
Quando o céu, já com tons de azul esverdeado,
A aurora cintilava sobre Paris, o transeunte
Te via ainda piscando na minha janela. 
A idade às vezes te fazia divagar.
Teu mecanismo apresentava uma estranha fragilidade.
Era preciso te dar corda, te dar corda sem parar,
E girar tua chave incessantemente entre os dedos.

Mas você descia, sua malvada! E sem que eu entendesse
Por quê. Parecia que você queria se divertir.
O pavio teimava em se carbonizar.
E eu ficava furioso, achando que fosse um capricho.

Muitas vezes amaldiçoei sua excentricidade,
E seu humor, naquela época, me parecia um enigma.
De repente, você emitia um ruído de borborigmo,
E então se calava sem motivo, abruptamente.

Eis que, no dia seguinte, eu precisava retomar
A tarefa… E, alcançando-lhe insultos e desprezo,
Eu ia dormir! — Perdoe-me! Agora eu entendi:
Você se importava com seu pobre dono.

Não querendo vê-lo por tanto tempo debruçado
Para escrever ou ler, com um dedo na têmpora,
Você deixaria de brilhar… E essa era, boa lâmpada,
Sua maneira de me mandar dormir.

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

domingo, agosto 02, 2026

Dedicado - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY


Eu amo quero que todos saibam disso,
Ó escarnecidos, ó desamparados,
São insultados pelo público covarde,
A quem chamam de fracassados!
Portanto, neste momento em que me lanço
No meio da batalha, onde vou
Bater, quebrar mais de uma lança,
Receber mais de um golpe cruel,
Onde o desejo ardente me devora
De atacar de frente meus rivais,
Sem saber ainda
O que sou, o que valho,

Penso em vocês, ó pobres coitados!
Em com quem, talvez, esta noite,
Eu compartilhe as misérias,
Entre as quais irei sentar-me;

E por muito tempo contemplo,
Para ver bem se tenho o coração forte,
Para me certificar da minha coragem,
A tristeza do destino de vocês. 
Se eu fosse, pelo ridículo
Que vos lançam, deixado em polvorosa,
Ainda há tempo de recuar:
Seria melhor para mim voltar para casa.

Mas não! Pois quero a luta.
E a sua sorte não tem nada
Que me repugne ou me afaste.
Na verdade, eu a prefiro bem mais

Do que aquelas, que dizem ser mais felizes,
Dos que chamavam de “filisteus”;
Prefiro as iguarias etéreas
Dos seus sonhos aos banquetes deles!

Se eu cair como vocês,
Se eu tiver que esvaziar os alforjes,
Bem, e daí! Serei um de vocês,
Não é verdade, rapazes? 
A vocês, então, que são alvo de escárnio e vaias,
E sobre os quais se abate o desprezo,
Ó multidão incontável, aglomeração,
Dos marginalizados, dos incompreendidos!

A vocês que foram assombrados pela quimera,
Do definitivo, do perfeito,
E que, por quererem fazer tudo muito bem,
Acabaram não fazendo nada;

A vocês que carregavam em suas mentes
Ideais sonhados belos demais,
A todos vocês, grandes poetas
De poemas inacabados;

A vocês cujas preguiças
Estão repletas de projetos tão orgulhosos,
E que são perseguidos pelos pesadelos
De temas magníficos demais;

A vocês cujo pensamento grandioso,
Grande demais, não cabia
Sem quebrá-la em uma forma,
Em um molde sem estragá-la;

A vocês, pintores, a quem desespera
A cor sempre fugaz,
Que diante de um jogo de luzes
Jogam seus pincéis de dor;

Músicos, pálidos ao ouvir
Dentro de vocês acordes maravilhosos,
E que, por não poderem reproduzi-los,
Têm lágrimas nos olhos;

A vocês que, não podendo traduzir
As sutilezas que sentem,
Preferem nunca criar,
Ó delicados, requintados fracassados!

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os entusiasmados, os loucos, 

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os apaixonados, os loucos,
Que, sem dar ouvidos aos sarcasmos,
Triunfam em noites modestas;
A vocês, cujos entusiasmos
Gesticulam nas calçadas,
Personagens acrobáticos,
Feios, cabeludos e caretas,
Pobres dons, Quixotes grotescos,
E por isso mesmo ainda mais comoventes,
Cuja Musa é a Dulcinéia,
—Ó cavaleiros errantes da arte,
A quem a glória destinada
Talvez tenha faltado por acaso!
Sendo vosso amigo, vosso irmão,

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, julho 17, 2026

DEZESSETE SONNETOS - Eric Ponty

Foste descanso Lucas com cuidado
neste leu oceano mundo tempestuoso
não aguardes de me achar nenhum repouso
porém em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas velhas que velado,
em Teu está o tesouro mais que preciso;
se estás tu fermosura desejoso,
Vês este Senhor ficas namorado.

Se tu furtas haveres ou prazeres,
nele está o dulçor dos dulçores
que a todos te deleitam com vitória.

Porventura vivida ou honra queres,
Que ao ser honra podes ser nem glória
que servir ao Senhor bom destes senhores?


II

Gestos falsos louvor, gostos fingidos,
gestos sãos sempre limitados,
gestos grandes quanto imaginados,
acenos curtos quando possuídos;

Ainda não contraídos já perdidos,
ainda não abancados já acabados,
inconstantes, incertas, apressados,
vão surgidos e desaparecidos.

E já vos dei, e vos dei a esperança
de vos caminhar; agora só queria
convosco se abolisse esta lembrança;

que, se me lança a lide e fantesia
existir vós tão longe, mais me cansa
lembrar-me a era que vos possuía.

III
Não há amor que aporte à menor parte
tão quanto para se vê, bela Senhora.
Vós sois luzir louvor; quem devora
Tão-só tão-somente a este o engenho e arte.

Enquanto por muitas damas se lhe parte
de gentil e de fermoso em vós agora
se ajusta em modo tão que pouco fora
dizer que sois o tudo, nelas parte.

Calpa logo não é, se vou amoldar-vos,
Verem incapazes todos louvores,
pois tanto quis o Céu avantajar-vos.

Seja a luta de vossos resplandores;
e a que eles têm vos dou, só dama dar-vos
o mor favor de todos os maiores.

IV

Aquela tristeza leda madrugada,
Tão cheia toda flauta e de piedade,
enquanto houver no fundo saudade
desejo seja sempre celebrada.

Ela tão, fundo amena e marchetada
saía, flertar ao mundo claridade,
viu apartar sua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só as viu lágrimas em fio,
que de uns e de outros brotos brotados
se sobrepuseram em grande e largo rio.

Então ouviu as tão expressões magoadas
que puderam tornar o vigor frio
e dar descanso às almas bombardeadas.

V
Transforma-se do amador na causa dada,
Por amor que do muito imaginar:
Não posso logo mais te desejar,
Hora em mim tenho a parte imaginada.

Se tudo está minha alma transformada,
Que mais almeja o corpo ide alcançar?
Em si que tão-só pode descansar,
Pois com ele tão se achou desta liada.    

Mas está estrema e ingênua sem ideia.
Que que da nau acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma:

Está no pensamento reluz ideia;
E viva e pura aliança de que sou feito,
Como a tal assunto simples busca a forma.

VI
Paro por minhas aflições tão isentas
Desta compaixão ampla nem pequeno,
Que só por a pretensão com que peno
Me fica carecendo mais tormento.

Via louvor faltar tanto a tento idade,
Apimentando a farpa com veneno,
Que do pesar a licença desordeno,
Porque não me atende a ansiedade.

Porém se esta afinação o Amor pensa,
E pegar-me meu mal que com mal tensa,
Torna-me com fazer tal qual ao sol neve;

Mas vê com indisposições contente,
Faz-se avaro da cruz, é porque entende
Que porque mais me paga, mais me atreve.

VII
A fermosura desta bela dama
na sombra dos azuis castanheiros,
deste manso passear destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som luar, a estranha fera,
o abrigar do Sol pelos outeiros,
o recolher dos fados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda gera;

enfim, todo o que a fazer natureza
com tanto grande número nos of’rece,
me está, se não te vejo, lanhando.

Sem ti, tudo me enoja e acabrunha;
sem ti, perpetuamente jazo passando,
desta mor alegria, mor tristeza.    

VIII

Ah, Fortuna real! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu fardo vos mudastes!
passou o era que me descansastes;
hoje em dia descansais com os meus fados.

Falastes-me sentir dos bens passados,
para mor flor da dor que me ordenastes;
então nũa agora juntos mos levastes,
deixando em teu lugar males herdados.

Ah! Que melhor fora não então vos ver,
gostos, que assi estais tão de partida
tal ficar duvidoso se vos vi.

Sem vós dá me não ficar que perder,
senão se for desta abatida vida
que, por mor lesão minha, não perdi.

IX 

Suaves prados, verdes de arvoredos,
vivas e arejar banhas de postado,
que em vós os debuxais ao adequado,
discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres rumas, grosseiros penedos,
mesclados em contrato desigual,
sabei que, sem alvará de meu mal,
Jjá não podeis fazer meus olhos quedos.

E, pois, me já não proíbas como vistes,
não me alegrem verdores deleitosas,
nem banhas que viajando alegres vêm.

Semearei em vós alvitres tristes,
regando-vos com fúcsias tuas saudosas,
que surgirão pesares de meu bem.

X

Silente silencio, que te partiste
Tão brado fluir vida descontente,
Cá silente lá no Céu eternamente
Eu arda eu cá na terra sempre triste.

Se em dor no registro etéreo, onde existe,
memória desta lide que se atende,
não te olvides daquele passo ardente
que já olhos meus tão puro reviste.

E se atires que ao céu merecer-te
Sabe em cousa a dor que me ficou
do desgosto, sem remédio, de perder-te,

rogai a Deus, que tuas chama encurtou,
que tão ledo de cá me arque ao ver-te,
tão cedo meus olhares te elevaram. 

 II
Louva ardor zelar que sem se crer,
é uma brecha que foi, e não se crente;
é lava uma exultação descontente,
é fator desatina sem ti fazer.

É um não ansiar mais tudo rever;
é um andar despovoado entre crente;
é nunca se agradar de instante;
é um zelar que apanhar em se pender.

É que quer estar laço por vontade;
é sentir a quem ouvir, o pendor;
é com quem de olhar nos laça, cidade.

 XII
Daquela lide e de fria madrugada,
Cor que faz de de mágoa e de piedade,
enquanto possuir no fundo saudade,
aspiro que seja sempre tão afamada.

Prendê só, quando afável e marchetada
saía, oferecer ao fundo claridade,
viu se arredar de dũa outra vontade,
que jamais poderá ver-se afastada.

Prende só viu destas fúcsias em fio,
que de uns de outros olhadas derivadas
que se apuseram em grande e amplo fio.

Prendê ouviu as expressões magoadas
que puderam volver a chama e o frio
e dar repouso às almas condenadas.

XIII

Cá, Mulher Samira donde mana
Ser mulher a quanto bem do mundo cria;
cá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e cega Monarquia
vigia que um nome vá a desengana;

cá, Mulher Samira, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

Lá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, João!

XIV

Cá, Jeane Vertigem donde flana
Tal mulher a quanto bem do mundo cria;
lá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e então cega Monarquia
vigia que um nome aqui a desengana;

cá, Jeane Vertigem, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

cá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, então!

XV

Quantos planos, Ardor, quanto adubados,
Quantas pranteias jururus sem colheita,
De mil ocasiões olhos, rosto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz lavados;

Quantos letais perpétuas derramadas
Do peito faz por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, em fim, tu me tens fato,
Juntos formão em mi bem funcionários.

A tudo que agrada (confissão isto)
Huma só aspecto afável e amorosa
De quem me encantou minha ventura.

¡Oh de continuo mi hora próspera!
Que posso recear ja, pois tenho possa,
Com tanto gôsto meu, tanta ternura?

XVI
 
Flama prateada, que, esclarecida
Com a foz que do intenso Phebo ardente,
Por estar com natural transparente,
Em si, que brilha em espelho, reluzia,

Cem mil milhões de perdões lhe influía,
descer me appareceo o excellente
Rio de vosso aspecto, distante
Em perdão e em amor do que sohia.

Eu vendo-me tão cheio de obséquios,
E tão propinquo a ser todo vosso rio,
Louvei a maré viva, e a noite escura,

Pois nella déstes côr a meus favores:
Donde collijo claro que não posso és
De tempo para vós jaz ter ventura.

XVII
Doce sonho, plano e soberano,
Se sendo que longo tempo me durára!
Ah quem do sonho jaz nunca acordára,
Ali havia de ver tal desengano.


Ah aprazível bem! ah suave engano!
Se por mais extenso espaço me enganára!
Se então a lide tão pobre acabára,
De aleluia e de prazer morrêra ufano.


Próspero, não ficando em mi, pois tive
Repousando o acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu fadário!


Em fim, fóra de mim próspero estive.
Em calúnias ter ditado razão rio,
Pois sempre nas confianças fui mofino.

 Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

terça-feira, junho 09, 2026

A você, minha terra natal - Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

A você, minha terra natal, agradeço esta canção.
Nas montanhas Harz, no vale do selvagem Bode,
No reino arado pela tempestade do grande Wode
Está o rio de minha juventude dourada.
Vim humildemente, sem nada me faltar,
À sua maravilhosa natureza,
Você me deu tudo porque eu não desejava nada,
E sorridentemente me mostrou o caminho de sua vida.
Você abriu os olhos e os ouvidos do jovem
E me guiou com mãos de mãe fiel,
Quando nas montanhas, entre paredes rochosas,
Na solidão da floresta, eu me perdi.
No brilho do sol, na escuridão sombria,
No início da manhã e no vermelho da noite,
Nas ondas nebulosas e no brilho do orvalho
Foi você quem me ofereceu tesouro sobre tesouro.
Mais precioso para mim do que o minério precioso
De suas minas, o que você deu em abundância,
Era como a fragrância em um botão delicado,
Eu a inalei, e meu coração se embriagou.
Logo senti a bênção dentro de mim,
Que a semente profundamente afundada criou raízes,
Ela começou a crescer e a tomar forma,
E feliz com a posse, eu a mantive em segredo.
O que foi que você me deu lá
Com suas flores desabrochando, as ondas ondulando,
O farfalhar das copas das árvores e o sussurro do ar?
Foi algo em que você ainda pensa hoje?
Foi um esforço tímido e furtivo,
Um pressentimento feliz e uma meia compreensão,
Um alegre pegar e depois devolver,
Um acontecimento poético involuntário.
Você me mostrou o domínio da imagem,
A mudança fugaz e a duração fixa
E provocou arrepios piedosos em minha alma
Diante de um poder incompreensivelmente alto.
Você me ensinou seus contos de fadas e lendas,
Deu-me a vara de adivinhação em minha mão,
E onde eu andava e ficava, ela batia.
Eu sou seu devedor, você é minha terra Harz
Uma velha canção sopra em suas montanhas,
O próprio vento da tempestade é seu portador rude,
Ela se precipita e ruge como um caçador selvagem,
Poderoso, terrível como o som de um trovão.
Eu captei um eco dele,
E ele nunca se apagou desde que o deixei;
Pegue de volta o que eu só recebi de você -
A você, minha terra natal, dedico esta canção.

 Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, junho 03, 2026

DOIS POEMAS DE ROBERT FROST- TRAD. ERIC PONTY

 Por conta própria

Para o meu próprio mundo


UM dos meus desejos é que aquelas árvores sombrias,
Tão antigas e firmes que mal se movem com a brisa,
Não fossem, por assim dizer, a mero disfarce da tristeza,
Mas se estendessem até os confins da perdição.

Nada me impediria de, algum dia, 5
Fugir para a sua imensidão,
Sem medo de descobrir terras acendidas,
Ou estradas onde as rodas lentas espalham a areia.

Não vejo por que eu deveria voltar,
Ou por que aqueles não deveriam seguir meus passos 10
Para me arrumar, aqueles que sentiriam minha falta aqui.

E ansiariam saber se ainda os amava.
Não me descobririam diferente daquele que conheciam —
Apenas mais certo de tudo o que confiava ser verdade.

A CASA FANTASMA


Moro numa casa solitária, eu sei;
Que desapareceu há muitos verões atrás,
E não deixou outro vestígio além das paredes da adega,
E uma adega onde a luz do dia penetra,
E crescem framboesas silvestres de caule roxo. 5
Sobre cercas em ruínas, as videiras protegem;
A floresta volta ao campo de ceifa;
A árvore do pomar formou um pequeno bosque
De madeira nova e velha, onde o pica-pau bate;
O caminho que leva ao poço está curado. 10
Eu jazo com o coração inexplicável dolorido
Naquela morada ofuscar-se, lá tão distante
Naquela estrada abandonada e olvidada
Que já não tem poeira para o sapo se banhar.
A noite chega; os morcegos negros voam e se lançam; 15
O mocho-de-bico-curto vem para gritar;
E para se calar, cacarejar e esvoaçar por ali:
Eu o ouço começar bem longe;
Muitas vezes, para dizer o que tem a dizer;
Antes de chegar para dizê-lo em voz alta. 20
É sob a pequena e fraca estrela de verão.
Não sei quem são essas pessoas mudas
Que compartilham o lugar sem luz comigo —
Aquelas pedras sob a árvore de galhos baixos
Sem dúvida têm nomes que o musgo desfigura. 25
São pessoas incansáveis, mas lentas e tristes,
Embora sejam dois, sempre juntos, a moça e o rapaz, — 
Sem que nenhum deles jamais cante,
E, no entanto, considerando tantas coisas,
São os companheiros mais amenos que se poderia ter.

 Robert Frost-TRAD.ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, maio 27, 2026

LOUVOR A AFRODITE - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY


Ó Safo, por que estás sempre
Cantando louvores à abençoada
Rainha do céu?

Por que o coração em teu peito
Sempre volta, em seu anseio,
A palpitar pela Deusa?

Por que teus sentidos, insaciáveis,
Estão sempre em busca do amor
Indescritível e imortal?

Ah, graciosa Filha de Chipre,
Nunca, como mortal,
Me cansarei de te servir.

Vem, por minha causa, de Creta a este templo sagrado,
onde se encontra teu encantador bosque de macieiras,
e os altares exalam fumaça
de incenso;

ali, a água fria canta entre os galhos das macieiras,
e todo o lugar está coberto pela sombra das rosas,
e das folhas trêmulas um sono mágico
desce.

Ali, um prado com pastagem para cavalos floresce com…
Flores, e doces
Brisas sopram


Ali, pegando as guirlandas, Cypris,
em taças douradas, luxuosamente,
deixe o néctar misturado com alegria
ser servido como vinho
(para estes meus amigos e seus.)

SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA