Pesquisar este blog

terça-feira, setembro 22, 2026

ROMANCE SEM PALAVRAS - I - PAUL VERLAINE - TRAD. ERIC PONTY

 DOUTORA, TRADUTOR PEDE QUE LHE ESCREVA, SENÃO FECHA A JANELA

I

É do êxtase langoroso,
É do cansaço do amor,
São todos arrepios da floresta
No abraço das brisas,
É, em direção às copas cinzentas,
O coro das vozes delicadas.

Oh, esse murmúrio frágil e fresco!
Isso gorjeia e sussurra,
Parece o suave grito
Que a grama agitada exala...
Dir-se-ia, sob a água que se agita,
O rolar surdo das pedrinhas!

Essa alma que se lamenta
Nessa queixa dormida,
É a nossa, não é?
A minha, diz, e a tua,
De quem se exala a humilde antífona
Nesta noite amena, bem baixinho?

II

Adivinho, através de um murmúrio,
O contorno sutil das vozes antigas
E nos brilhos musicais,
Amor pálido, uma aurora futura!

E minha alma e meu coração, em delírios,
Não são mais do que uma espécie de olho duplo,
Onde treme, através de um dia turvo,
A canção, ai de mim! De todas as liras!

Ó morrer dessa morte solitária,
Que se vão, querido amor que te assusta,
Balançando horas jovens e antigas!
Ó morrer dessa gangorra!

III

Chora em meu coração
Como chove sobre a cidade,
Que melancolia é essa
Que penetra em meu coração?

Ó suave som da chuva
No chão e nos telhados!
Para um coração que se aborrece,
Ó, o canto da chuva!

Chora sem motivo
Neste coração que se enjoa.
O quê! Nenhuma traição?
Este luto não tem motivo.

É realmente a pior dor
Não saber por quê,
Sem amor e sem ódio,
Meu coração sofre tanto!

IV

É preciso, veja bem, perdoar-nos pelas coisas. —
Assim seremos muito felizes,
E se nossa vida tiver momentos sombrios,
Pelo menos seremos, não é mesmo? duas choronas.

O que misturávamos, almas gêmeas que somos,
Aos nossos desejos confusos, a doçura infantil
De caminhar longe das mulheres e dos homens,
No fresco esquecimento do que nos exila.

Sejamos duas crianças, sejamos duas moças,
Apaixonadas por nada e por tudo surpresas,
Que partem para empalidecer sob as castas pérgulas,
Sem sequer saber que estão perdoadas.

V

O piano que uma mão delicada acaricia
Brilha vagamente no crepúsculo rosa e cinza,
Enquanto, com um leve sopro de asa,
Uma melodia bem antiga, bem fraca e bem encantadora,
Vaga discretamente, quase assustada,
Pelo boudoir há muito perfumado por Ela.

O que é esse berço repentino
Que lentamente acalenta meu pobre ser?
O que você quer de mim, doce canção brincalhona?
O que você quis, refrão delicado e incerto
Que ora morre em direção à janela
Ligeiramente aberta para o pequeno jardim?


VI

É o cachorro de Jean de Nivelle
Que morde bem debaixo do olhar do vigia
O gato da mãe Michel;
François-les-bas-bleus se diverte com isso.

A lua, para o escrivão público,
Derrama sua luz obscura;
Onde Médor e Angélique
Ficam verdes sobre o pobre muro.

E eis que chega La Ramée
Jurando lealdade como um bom soldado do Rei.
Sob seu uniforme branco de má fama
Seu coração transborda de alegria!

Pois a padeira... — Ela? — Sim, senhora!
Bernant Lustucru, seu velho marido,
Acaba de coroar seu amor...
Crianças, Dominus vobiscum!

Abram espaço! Em seu longo vestido azul,
Todo de cetim que faz frou-frou,
É uma impura, pelo amor de Deus!
Em sua cadeira que temos de elogiar,

Seja-se filósofo ou pão-duro,
Pois tanto ouro se destaca nela,
Que esse luxo insolente escarnece
Todo o papel do senhor Loss!


Para trás, Robin sujo! Abra espaço,
Pequeno atarracado, pequeno abade,
Pequeno poeta que nunca se cansa
Da rima que não conseguiu encontrar!

Eis que chega a verdadeira noite...
No entanto, nunca se cansa
De ser desatento e ingênuo?
François-les-bas-bleus se diverte com isso.

VII

Oh, triste, triste estava minha alma;
Por causa, por causa de uma mulher.

Não consegui me consolar;
Embora meu coração tenha se ido,

Embora meu coração, embora minha alma
Tenham fugido para longe dessa mulher.

Não consegui me consolar;
Embora meu coração tenha se ido.

E meu coração, meu coração tão sensível
Diz à minha alma: É possível,

É possível — mesmo que fosse —,
Esse exílio orgulhoso, esse exílio triste?

Minha alma diz ao meu coração: Será que eu mesmo,
Sei o que essa armadilha nos quer,

De estarmos presentes embora exilados,
Mesmo tendo ido para longe?

VIII

No interminável
Tédio da planície,
A neve incerta
Brilha como areia.

O céu é de cobre
Sem nenhum brilho,
Parece que vemos a lua viver
E morrer.

Como nuvens,
Flutuam cinzentos os carvalhos
Das florestas próximas,
Entre a névoa.

O céu é de cobre,
Sem brilho algum.
Parece que se vê a lua
Viver e morrer.

Corvo ofegante,
E vocês, lobos magros,
Nestas rajadas de vento amargas,
O que, afinal, está acontecendo com vocês?

No interminável
Tédio da planície,
A neve incerta
Brilha como areia.

IX

A sombra das árvores no rio enevoado
Se dissipa como fumaça,
Enquanto no ar, entre os galhos reais,
As rolas se lamentam.

Quantas vezes, ó viajante, essa paisagem pálida
Te fez parecer pálido também,
E com que tristeza choravam nas copas altas das árvores
Tuas esperanças afogadas?

Maio, junho de 1872.

PAUL VERLAINE - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

VERSOS DE AMOR - Georges Rodenbach - Trad. Eric Ponty

 

DOUTORA ESCREVA  PARA MIM DEIXA DISSO. 

 ESPERANÇA DE AMAR

Esperança nostálgica de amar e ser amado 
Minha alma triste se reabriu 
Em meio ao despertar florido do campo verde 
E às alegrias de maio.

A graça da primavera, por mais sutil que seja, 
Sussurra que o amor está por vir, 
E, saindo de seu leito gelado, a Natureza tem 
As belezas de quem está se recuperando.

A neve das macieiras, como um resquício do inverno 
Pó que marca o renascimento dos galhos; 
Apenas guardei algumas tristezas brancas 
Do mal passado que sofri.  
E meu coração tem vinte anos. Não abro mão de nenhuma 
das inocências que eu tinha, 
e quero permanecer, longe deste mundo perverso, 
contemplando a Lua.

Sou ingênuo, e que bom! Pois hoje desfruto 
Das alegrias infinitas 
De poder ler ainda as jovens litanias 
No antigo missal do amor.

Sim! Continuo sendo um abismado por mulheres e rosas 
E não tenho o orgulho amargo 
Daqueles cuja ironia protegeu a carne 
Do calor do arrepio dos lábios rosados.  
A outros, a astúcia e as palavras sutis 
Dos malabaristas de frases barrocas 
Que costuram suas roupas de palhaço e seus trapos 
Com a glória de nossas bandeiras!

II

SEUS OLHOS


Seus olhos onde se aninha como um sonho tímido 
Seus bons olhos atraíram minha alma enlevada! 
Dum azul pastel velho, dum azul de flor molhada, 
Pintam olhar de longe, seus bons olhos azuis.

São bons dum céu tempestuoso salpicado por 
— Pelo pôr do sol de outono e pelas noites trágicas — 
Todo um voo doloroso de longas nuvens negras; 
Bons dum céu, sempre em abalo, sempre o mesmo!

E, no entanto, aceito olhos mais gentis 
Que gostariam de seguir meus passos com suas tochas, 
Mas seu brilho repugna à minha melancolia. 

Alguns têm o calor de um céu oriental 
Outros, o azul suave das terras distantes da Itália, 
Mas os dele são-me prezados céus da minha terra natal!  

Georges Rodenbach - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

Le règne du silence: poème - Georges Rodenbach - Trad. Eric Ponty

A VIDA DOS SOMBROS 

 I

 
Os quartos, que pareceriam cenários inanimados,
— Um aparato de silêncio com tecidos inertes —
Possuem, no entanto, uma alma, uma vida também, sem dúvida,
Uma voz fechada às influências do exterior
Que difunde seus pensamentos em halos de sons abafados…

Alguns, fastos, alegres, com um ar de indiferença!
Outros, o sorriso resignado de uma sala de visitas
Que fez voto de pureza entre as Visitandinas;
Outros ainda, grande luto pelas traições de um coração,
Molhando as bugigangas com lágrimas voláteis;
Quartos que ora são bondosos como uma irmã,
Ora recebem com olhos hostis,
Quando se perturba seu sonho no fio nu do espelho,
Seu sonho de Ofélia no espelho de águas paradas!

Elas têm uma vida estranha que se intensifica
Com as lembranças que os retratos antigos, ao entardecer,
Na testa de Ofélia, em guirlandas murchas,
Vão desfolhando no espelho languidamente,
Lembranças quase mais cor-de-rosa de outros anos!

Quartos repletos de sonhos! Elas vivem de fato
Em sonhos mais belos do que a vida ao redor,
Transformando tudo em símbolo, vendo
Em cada cortina pálida uma comungante
Com babados de musselina se desdobrando
Que comunga à beira das janelas, sob a lua!
E vendo no lustre uma alma de cristal
Que, ao menor impacto, contrai seus ramos um a um,
Sensível de vidro a quem o ruído causa dor.

Quartos cheios de sonhos e que, visionários,
Entre sua organização rígida e meticulosa,
Tomam as grandes poltronas por idosos com frio
Em círculo pelo quarto e debilitados.

II

Que doçura é unir nossa alma a esta vida
Dos quartos, que pelo menos são benéficos para nossos males;
Pois, para nos consolar, não são necessárias palavras
E seu silêncio, entre lençóis frescos, nos acalma
— Como um doente que se deita em uma cama refrescada!
Ah! Que nos acalmem! Ah! Que dor em nossos membros!
E esse imenso tédio que nada conseguirá abalar!
E essa dor em nossa alma no exílio… Mas os quartos
São acolhedores, são mães que conhecem bem
O coração do nosso coração, até mesmo nas nuances…
Elas têm doces mimos e bálsamos! Quão
consoladora é a paz delas, que influencia a alma;

E que esquecimento repentino de tudo! Que consolo
quando o vago suspiro das coisas nos embala ali,
respiração lenta e que, rítmica, adormece
como o som das águas, ou de um jardim sob uma chuva forte!

III

Sim! É suave! É o quarto, um porto tranquilo e afastado
Onde meu sonho, cansado de estender suas velas ao vento,
No espelho tranquilo e pálido se acomodou.
Ai de mim! Sem mais esperar pelos rastros das estrelas,
E pelas partidas para as ilhas, meu sonho dorme
No espelho profundo, como em um canal seco;
E será que devemos desejar uma rajada de vento que expulse
Para o mar aberto, essa alma ancorada no gelo?

IV

Minha alma, durante toda essa longa e triste tarde,
Sofreu com a morte iminente de um buquê!
Ele estava, longe de mim, no quarto ao lado,
Para onde meu medo o afastou, já quase murcho,
Um buquê de flores murchando, que se acreditava estarem a salvo
Ainda por mais um dia, na misericórdia da água,
Gloxínias nevadas com faixas malva,
Um buquê que, no quarto, apagava seu brilho
E perdia o brilho neste domingo à noite!
Minha alma, você sofreu e se esforçou
Para ver sua vida, igualmente murcha e inclinada,
Agonizando junto com essas doces gloxínias.
Ora, buscando a mim mesma nessa analogia
Passei esse final de dia amargurando-me
Com o espetáculo vão e a psicologia
Dolorosa das flores pálidas que estão prestes a morrer.
Vaso triste: hospital, fria alcova de vidro
Que um pouco de vento, pela janela aberta, areja
Mas que as faz morrer mais depressa, em espasmos suaves,
As pobres flores, na água vã, que são tuberculosas,
Espalhando, como em súbitos acessos de tosse,
Suas corolas sobre os tapetes melancólicos.
Doçura! Morrer assim sem sobressaltos, como se adormecesse,
Pois as flores não estão tristes diante da morte,
E desaparecer com esse crepúsculo sereno
Que, com um raio amarelo, mal se torna ácido.

V

 
O espelho é o amor. A alma gêmea do quarto
Onde tudo nele: o lustre em flor, os baús antigos,
A estatueta com as costas de bronze arqueadas,
Reflete-se em um hino nupcial silencioso.
Pois o amor, afinal, não é deixar de estar sozinho e não é
Duplicar-se por meio de outro melhor do que a si mesmo?
Ora, o quarto se duplica no fundo do espelho silencioso
Com um reflexo de sonho e de juventude;
Mas as coisas, no entanto, entre a moldura de ouro
Parecem sofrer com sua vida inativa;
O espelho que as ama limitou seu desfrute
A um recuo de vida exíguo e cativo;
E o amor absorvente e profundo do espelho
Entristece de infinito o quarto, que suspeita
De um desentendimento entre eles ao anoitecer,
Sentindo que o espelho não o contém por completo.

VI

 
No canto escuro do quarto, o piano
Sonha, aguardando as mãos pálidas de uma noiva
Cujos dedos são irrepreensíveis e sem anel,
Mãos suaves que curem sua dor
E que amenizem um pouco seu abandono de viúvo,
Pois ele estremeceria sob mãos grossas
Já que nele ainda dorme a esperança de uma nova felicidade.
Após tanto silêncio, após tantas elegias
Que o luto pelo ébano aprisionou por tanto tempo,
Que êxtase seria, se, em uma suave noite de primavera,
Alguma donzela atraída por sua melancolia
Ressuscitasse nele todos os ritmos latentes,
Um ramo de lírios feridos que seu toque lento desata;
Água pálida do teclado, onde seu gesto divertido
— Refrescado como se tivesse brincado em águas límpidas —
Faria surgir um cortejo branco e dócil,
Cisnes vestidos com o luar como escapulário,
Cisnes de Lohengrin nadando no marfim!


Ai de mim! O piano permanece sozinho e melancólico
E desfalece de tédio nesta noite afligida
Em que, no quarto, morre uma rosa suprema.
A noite cai; o vento sopra forte; ninguém veio
E, resignado em meio à sombra que o submerge,
Ele reprime no teclado, agora vazio,
As possibilidades de música e alegria!

Georges Rodenbach - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

segunda-feira, setembro 21, 2026

Francisca de Querência - Libreto em cordel -(Após leitura Canto I e V de Dante da Divina Comédia) - Eric Ponty - 2010

(Cantador Cego, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Arthur Bispo do Rosário, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá em retorno a vida.)

O Cantador cego:
No meio do caminho em nossa vida,
descobri-me por uma selva escura,
da qual direita via era mim perdida,
bem como cantador perdeu na lide.

 Ah quantas e qual era e coisa dura,
qual da selva selvagem bruta e forte,
do qual pensar renovado do medo,
que da alma de tão parvo ermo degredo.

Tanto amara dum pouco cimo morte;
mas, por me versar de um bem qual cheguei,
diria duma outra coisa a qual percebi,
dos meus prantos tiveram desenganos.

Não sei bem retornar donde entrei,
tanto era cheia sono a qual topei,
da alma de cantador errante cego,
da verdadeira via que abandonei.

 Porém era-me pio soar colina,
ao final deste vale punha mundo
que me fartando pálido de medo,
ver pantera pavor punha-me ao fundo.

Reparando-me do alto eu vi meus ombros,
vestindo-se radiante algum planeta,
qual astro dum alheio ser da vereda,
então alma pouco medo que se aquieta.

Desta cor deste lago refletia,
noturno que passei em tanta piedade,
qual deste fato Lena preocupada
saído do furor pélago da costa.

Virar-me perigosa manta d´água,
quase o animo meu, ainda fugidio,
regresso olhar preencher-se deste passo,
da vida que não vivi da minha pessoa.

Após descansar corpo pouco frouxo,
revivi-me da via da praia deserta,
ao pé monte sempre era maior aquém,
de ecoar perto princípio da colina.

O leão ligeiro de uma cor escura,
da pele maculada era coberta
eu não movia em frente desta sombra,
que ele impedia mover-me do caminho.

Retornei-me voltar deste meu centro,
tempo que era do começo da manhã,
do sol que se ascendia qual duma estrela,
que era como da luz amor divino.

Movendo da primeva coisa bela,
de além esperar era da boa causa,
se daquele selvagem sépia pele,
instante tempo doce da estação.

Não que deste meu medo eu senti,
que de minha visão aterrei leão,
rivalidade fez contra meu rastro
fronte da alta e radiosa altivez.

Tremi estático do ar que encontrava,
ao ser que duma loba tudo ruge,
semblante me cercava da magreza,
muitas gentes pavor viver nos dói.

 Oferecem-se dar tanto labor
deste medo que porta sua vista,
perdi nesta esperança desta alteza
dos quais daqueles gostos se conseguem.

 Depositar-se donde o sol me cala,
instante me prendeu embaixo arredado,
de frente aos olhos foi-me do ofertado
que dum largo silente se fez fraco.

Arthur Bispo do Rosário:
Que quando deste vale amplo deserto,
Misericórdia em mim! Misericórdia!
Do qual teu ser, à sombra do ombro certo!
Em nada! Não sou homem, homem fui.

O Cantador cego:
Dos parentes meus foram de Querências,
dos matutos das terras ambas serras.
nasci à luz Julho fez de tão tardia,
que viver pátria sob o dom Augusto.

Neste tempo de torpes mentirosos.
cantador foi cantar junto de um justo
filho Japaratuba cá Engenho Dentro,
depois deste soberbo leão combusto.

Arthur Bispo do Rosário:
Mas tu por que retorna tanto tédio?
por que não sobe afável deste monte,
do princípio da causa tanto gozo?
E as mãos à barca estende com o fastio.

O Cantador cego:
Ora se é qual Bispo duma fonte
expandindo à voz largo deste rio?
Verto-me vergonhosa desta fronte
parvo percebe ser Arthur surgiu.

Começo toar aqui toada ilusão,
tocando deste verso imensidão.
Canto-lhes de Arthur Bispo do Rosário,
aparecer de mim na escuridão.

Salve Nossa Senhora do Rosário,
Salve-nos Nosso Senhor Jesus Cristo,
Arthur brotou vestido deste manto
de apresentação, santo à anunciação.

Meu coração ressoa-me do refrão,
não sei se mais me avisto do Leão,
de como vim do misto deste inferno,
tendo-me Arthur de guia desta canção.

Nonada moço, não é refrão ao nada,
sou homem justo não de purgatório,
fazendo minha toada do oratório,
Nonada moço, não é oração ao nada.

 
FRANCISCA DE QUERÊNCIA - I ATO - I PARTE 
FRANCISCA DE QUERÊNCIA - I ATO - II PARTE 
ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

PALHAÇINHOS NA GANGORRA - ERIC PONTY - COMPOSIÇÃO PARA CORO -ALEXANDRE SCHUBERT - CORAL DA ALEMANHA

 
 
ALEXANDRE SCHUBERT

 Compositor brasileiro premiado. Autor de mais de 200 composições frequentemente tocadas no Brasil e no mundo afora. Participou de inúmeros álbuns de intérpretes renomados com suas músicas. É professor doutor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com artigos e livros didáticos publicados. 

ERIC PONTY - IVAN JUNQUEIRA 

VARIAÇÕES EM MÚSICA DE CAMERA - DUO AUDOR - ALEXANDRE SCHUBERT - ERIC PONTY

 ALEXANDRE SCHUBERT

Compositor brasileiro premiado. Autor de mais de 200 composições frequentemente tocadas no Brasil e no mundo afora. Participou de inúmeros álbuns de intérpretes renomados com suas músicas. É professor doutor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com artigos e livros didáticos publicados. 


 

domingo, setembro 20, 2026

Para à transmigração de Almas - Eric Ponty

P/IVAN JUNQUEIRA

 I

Que foste era mesmo! Sendo fez ti.
Nos longos instantes te aguardaram,
Outra vez sinto fim confiaria cá,
Suave semblante a outro lugar surgir.

Deveria àquela graça ao aluguel,
Não tenhas por fim onde tu estavas,
Tu mesmo após à morte enfim teu,
Quão causa, forma doce devo sofrer.

Quem pode tanto casa cair residência,
Criação em honra poderia defender,
Contra as lufas temporais dia invernal.

Raiva estéril do frio eterno da morte?
Ninguém, mas sem ater! Meu amor, tu sabes,
Tu tivesses um pai deixa que ele te fale.

II


Eu havia penado como Sísifo,
E trabalhado como Hércules,
Contra à carne que se rebela.

Eu havia lutado, havia assestado
golpes a destroçar montanhas,
E combatido como Aquiles.

Esquivo amigo que me guias,
Tu sabes bem, coragem ímpio,
se empreendermos estas campanhas,

Se temos descuidado com algo
Nesta guerra esgotante,
Se termos trabalhado bem.

Tudo em vão: ao rude gigante
Por todas partes ao meu esforço
opunha sua atmosfera de astúcia,

E sempre um covarde amparado
Em meus propósitos, que lhe espia
Entregava as chaves da cidade.

Fosse minha sorte má ou boa,
sempre uma parte de meu coração
abriria sua porta a da Górgona.

Sempre o suborno inimigo
sabia envolver em seu labor
Inclusive à vitória e a honra!

Eu era o vencido a quem assediam,
presto a vender cara seu sangue,
Quando, branca na vestimenta de neve,

Tão bela, com à frente humilde e altiva,
Uma Senhora Vinho, sobre a nuvem
E com um signo afugentou à carne.

Em uma tempestade incógnita
de raiva e gritos inumanos,
E desgarrando sua garganta nua,

O Monstro retomou seus caminhos
Pôr os bosques cheios de amores atrozes,
E a Senhora, juntando às mãos:

«Minha pobre combatente que afundas,
disse, em vão este dilema,
Trégua a vitórias desgraçadas!

«Te chega um socorro divino
De que sou segura mensageira
para tua salvação, ao fim possível».


—«ô minha Senhora cuja voz querida
Alenta a um ferido ansioso
de ver terminar a guerra cruel,

«Vós que haveis em um tom tão doce
Quando me anunciais a boa nova,
minha Senhora, quem sóis?».

—«Eu havia nascido antes de todas causas
E também verei o final de todos
Os efeitos, estrelas e rosas.

«Ao mesmo tempo, boa, sobre vós
homens débeis e pobres mulheres,
Choro. e os encontros loucos.

«Choro sobre vossas tristes almas,
Tendo amor por elas, tendo medo,
por elas, e por seus desejos infames.

«Isto não é que seja felicidade.
Cautela, Alguém a quem amo o disse,
cautela, temor ao que te suborna,

«vigiai, temor do Dia Supremo!
Quem sou, me perguntavas.
Meu nome submete até aos anjos,

«sou o coração da virtude,
sou a alma da sabedoria,
Meu nome incendia o Inferno pertinaz,

«sou a doçura que reconstrói,
Amo a todos e não acuso a nada,
Meu nome, é chão, se chama promessa,

«Sou o único hospede oportuno,
Eu digo ao rei a linguagem verdadeira
Da manhã rosa e da tarde escura.

«Sou à ORAÇÂO, e meu fruto
Sendo teu vicio na derrota aos mais distantes.
Meu requisito: «Tu, sejas prudente».

Os que no sonoro verso e doce rima
fazeis conceito de ouvir só poeta
versificaste em forma de estafeta.

Que a toda direção número imprima,
Ouvi de um caos à matéria prima
Não oculta como cifras de receita.

Que na míngua pura, fácil, limpa e reta,
Eu invento, Amor escrever, tempo lima.
Estas, enfim, relíquias clamam chama.

Doçura que me prendo, sem de proveito
Não foram a janela, nem a sua fama,
fazeis conceito de ouvir só poeta.

—«Sim, minha Senhora, e sejas me testemunha».

III

A metade da passagem triste vida
Já me encontrava em uma urbe escura,
Com a senda direita já perdida.

Ah, pois dizer qual era coisa dura,
esta urbe selvagem, áspera e forte
Que no pensar renova com o medo!

É tão amarga que algo já mais morte,
Mas por tratar do bem que ali achei
Direi de quanto ali me culpo na sorte.

Repetir não saberia como entrei,
pois me vencia o sonho mesmo dia
Em que ti veraz caminho abandonei.

Mas atrás chegar ao centro que subia
Ali onde aquela torre terminava
Que com pavor a Minh´ alma confundia,

Se mirar cumpre, vi ali que estava
Então vestida dos raios do anátema 
Que o bom caminho a todos assinava.

Quedasse à apreensão um pouco quieta
Que de meu coração dolorido
Em n´ilha durou à noite inquieta.

E como aquele com alento ardido,
Do pélago saído a sua margem,
mira a água que quase lhe há perdido,

Minh´ alma, fugitiva então era,
volveu-se a contemplar de novo passo
Que não atravessa nada sem que padeça. 

ERIC PONTY

ERIC PONTY - IVAN JUNQUEIRA

sábado, setembro 19, 2026

RECADO II - ERIC PONTY

 SE QUE TE DEVES SABER: DAQUELA COISA ANTIGA,
ENTRE O VERDE HABITUAL E FRONDOSA MANEIRA,
NA JANELA A OCULTAR-SE SOB A VISEIRA,
NO LENHEIRO MURULHAR SUA ANTANHA CANTIGA.

AS FLORES…TEUS MEDOS…A PASSAGEM: ALVA FLOREIRA,
ONDE FOMOS SONHAR ANDAMOS SEM FADIGA,
OBSERVANDO AO LÉU – TODA ESSA ENTÃO AMIGA,
MUITO…DA NOSSA LIDA É FEITA PASSAGEIRA.

HÁ PASSAGEM DE OUTRA, ESTRANHOS TRANSFORMARAM,
- AS FLORES…O HABITUAL… A ESTRELA, E ATÉ NEM SEI,
SE AS MÁGOAS DO LENHEIRO OS ANOS NÃO FENECERAM.

ENTÃO HÁ COISA, PORÉM, HÁ HAVER, OUVI DEPOIS:
- É DAQUELAS ORAÇÕES QUE PRONUNCIEI POIS,
JÁ BRANCA VESTE HÁ NOS RELEMBRAR QUE SOIS…

ERIC PONTY

 
SE DISSER - SONETO - IVAN JUNQUEIRA 
ERIC PONTY - IVAN JUNQUEIRA
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

QUATRO SONETOS À MEMÓRIA DO MONSENHOR ALMIR AQUINO - ERIC PONTY

 

 

I

 
Jesus tecido, em um presépio jaze,
Na angústia noite de fazer a paz,
Enquanto a Estrela, deslumbrante informe,
Baixa do imenso espaço que o forme.

Maria, contudo, sempre foi conforme,
Ao que Jesus lho confirme: o bem e o mal,
Mesmo quando algo a santa jaz transforme,
Aceita o fardo, na prova crucial.

Observa o filho – o Deus feito um infante,
E embebido com o primor de Dante,
Posta-se, formoso, em suma adoração.

Quando os anjos, quis também pastores,
Com seus bastiões e roupas multicores,
Já que orando ali imensamente que então.

II

A heroica e altiva esposa de Pedro,
ao ver seu vestido manchado de sangue rubro,
com generosa ira se enfurece duro,
ao suspeitar que ele esteja morto e ela viva.

Ela entrega a vida em que repousa a calma
de marido e pai, e com angústia mortal
rejeita a herança concebida na palma,
privando Roma da paz junto com ela.

Se o infeliz fruto que carregava em suas entranhas 
não tivesse sido abortado, façanhas,
a morte de Pedro seria perdoável:

Ó fortuna tirânica! Quem poderia imaginar
que, com o mesmo amor com que a temia,
com esse mesmo amor ele a causasse!

III

A sombra negra de um destino funesto,
repleta de mil horrores e confusões,
em cujo tronco oco ainda hoje ressoa
o eco que, com dor, invoca o nome de Jesus.

Então se cobriu o tapete verde matizado
no qual Romano, apaixonado, abriu a veia
do coração, e Jesus, em sua dor, se fez jus
deu o sinal que ainda hoje espanta o mundo.

Mas, ao ver tanto desdisse-o do Amor
A Morte, então magoada por eles, dor,
uniu seus dois peitos com um laço apertado.

Mas aí da infeliz e que então dessa desgraçada,
que não pode entregar seu peito do seu Jesus,
nem mesmo pelas lâminas afiadas de uma espada!

IV

Senhora Dona Maria, belo esboço esposo,
de tantas flores que contemplam o sol e a lua:
como é que, se já é uma dama, jaze no berço,
e, se é divina, teme a destruição humana?

Se é possível que, exposta ao rigor vago do vento,
tema, humildemente, o desdém da sorte,
mendigando alimento, importunamente,
do humor turvo de um lago lamacento?

Bem sei que a senhora me dirá que perco o seu respeito
com minha prosa mal polida para Nossa Senhora,
Pois, na verdade, encontrei-me em grande apuro;

Que então saiba Vossa Excelência, senhora Rosa,
que não lhe escrevo mais este soneto,
a não ser porque todo poeta aqui tropeça.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, setembro 18, 2026

EM LOUVOR PARA DONIZETE GALVÃO E DORA FERREIRA - ERIC PONTY

 

DONIZETE GALVÃO - ERIC PONTY 
 
POETA - TRADUTORA - DORA FERREIRA DA SILVA 
 

I

Meia-noite. Ao meu lado me recolho.
Meu Deus! E este soneto! E, agora, vede:
De franca da ardência orgânica da sede,
Morde-me o verso ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar soneto de outra parede...”
— Digo. Ergo-me a versar. Fecho o ferrolho
E olho o fado. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente verso a minha rede!

Pego de pena. Esforços faço. Chego
Ao fazê-lo. Minh ’alma se concentra.
Que nutre produziu tão feio parto?!

A Consciência soneto é este morcego!
Por mais que a gente pena, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em verso quarto!

II

De onde ele vem? De que soneto bruto
Vem essa voz que sobre as nebulosas
Que de incógnitas criptas misteriosas
Feito as estalactites que dum furto?!

Vem da psicogenética e falsa luta
Do verso de moléculas nervosas,
De, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, então pois, quer e executa!

Vem do encéfalo soneto que a constringe,
Chega em seguida às farpas da laringe,
Tísica, tênue, física, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a agarra,
Mas, de repente, e quase farta, esbarra
No embalo dessa língua paralítica!

ERIC PONTY

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

quinta-feira, setembro 17, 2026

IDILIO DE CLAÚDIO MANOEL DA COSTA - LIBRETO - Eric Ponty

 Espaço lúgubre indefinido. Uma escada de um casarão vista por detrás onde dê uma aparência onde uma pessoa possa se enforcar.    

Coro:

Repara, advertes aquele excelso Trono,
Em cuja adoração parece ajoelha
Reverente o respeito em tantos Astros,
Que igualmente o iluminam, como o cercam.

Desafiando a esplêndida morada
Desse brilhante campo das Estrelas,
Imagino que intentam seus fulgores
Ser em quadros de luz do Sol esfera.

Essa pompa que vês, esse aparato
Enobrece a Deidade mais excelsa,
Heroína imortal, eterno lustre
Da sagrada seráfica obediência.

 Cláudio Manuel da Costa: 

Não permitiu o Céu que alguns influxos, que devi às águas do Mondego, se prosperassem por muito tempo: e destinado a buscar a Pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado, aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância! Que menos, do que abandonar as fingidas Ninfas destes rios e no centro deles adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a este clima os corações de toda a Europa! Não são estas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos. Turva, e feia, a corrente destes ribeiros, primeiro que arrebate as ideias de um Poeta, deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a terra, que lhes tem pervertido as cores.


Coro:

De uma e outra virtude foi lavrando
O pedestal, em que de tantas prendas
A imagem singular se colocasse
No altar da fama ídolo da Inveja.

Assim crescendo assombro, assim banhando
De resplendor benéfico inda as mesmas
Liberdades, agora vê rendidas
As que de Amor ao jugo viu já presas.

Com sujeição gostosa vão prostrando
Os alvedrios as porções secretas
Do mais livre exercício, porque nada
A tanto império recatado seja.


Ó raro assombro, ó ínclito transunto
Daquelas, de quem sendo cópia bela,
Para glória do emprego, que autorizas,
Herdas o nome, e as virtudes herdas! 
Cláudio Manuel da Costa: 

Denunciar ou não denunciar, eis meu dilema: será mais justo
que nosso espírito sofrer perdas ou alianças
Com que Desdita, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um tramar da Colônia 
E em vão pôr lhes fim? Suicidar… Sumir: De que adianta.
Dizer que lidamos com um Utopia e a amargura
E as mil contrariedades naturais-herança do Império:
Suicidar… Sumir: … Será uma consumação covarde
Que bem não merece e desejamos com fervura.
Sumir… Talvez suicidar: eis onde surge um estorvo:
Pois quando nos damos abertos da desordem da vida,
No descanso da esgotamento o ilusão que tenhamos
Devem fazer-nos vacilar: eis a conjectura
Que confere tão longa história aos nossas desditas.
Quem toleraria os relhos e a chasco do orbe,
A injúria do opressor, a injúria do brioso,
Toda conjuração do mal estado mor,
O cinismo oficial, essas dilações do Rei,
Os doestos que tão negativos têm de suportar
O mérito resignado, quem o aturaria,
Quando conseguisse a mais feita quitação
Com a Escada de um Umbral? Quem induziria fardos,
Pranteando e suando sob a existência exaustiva,
Se o temor de alguma coisa após a destruição,
–Essa comarca ignota cujos confins
Jamais viajador algum atravancou de periferia –
Não nos pegasse a arremessar para outros, não sagazes?
Tal pensamento assim não nos acovarda, e assim
É que se cobre a minha tez natural da disposição
Com o tom lívido e doentio da nostalgia;
E desde que nos atrelem tais reflexões,
Cometimentos de altivo fito e que bem supino pairam
Desviam-se de direção e detêm até ainda
De se apodar tal posição.

 
DOUTOR ANDERSEN VIANA -  - CLÓVIS SALGADO - UFMG 

Coro:

Para cantar desdita tenros cuidados,
Toma entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi, pois, só esse fúnebre lamento;
Se é, que de indulgência sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu detinha o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os abismos abalados.

Bem sabe, de outros sábios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde trama,
Lhes influiu na lira estro divino:

A canção, pois, que a esta voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz honrado entre vós também de fama.

Pastores, que levais ao monte o gado,
Vide lá como andais por essa serra;
Que para dar infecção a toda a terra,
Basta ver se o seu vulto magoado:

Há andar (vós me vides) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu aspecto encerra
A causa de um tormento tão cansado.

Se a quereis desejar, vinde comigo,
Vereis a formosura, que lhe adora;
Mas não; tanto não sois vosso inimigo:

Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

ROMANCEIRO DAS GERAIS DO SÉCULO XVII - ERIC PONTY

 

 

 MÚSICA DO DOUTOR ANDERSEN VIANNA - CLÓVIS SALGADO - UFMG 
 
ERIC PONTY - LETRA DO ROMANCEIRO DAS GERAIS DO SÉCULO XVII 
 

  MÚSICA DO DOUTOR ANDERSEN VIANNA -  - CLÓVIS SALGADO - UFMG 
 
 
ERIC PONTY - LETRA DO ROMANCEIRO DAS GERAIS DO SÉCULO XVII 

quarta-feira, setembro 16, 2026

CINCO SONETOS DE MEDITAÇÃO A JORGE DE ARAUJO JORGE - ERIC PONTY

 I


Queria te dar minha lira mais ira,
Associar-te melodia faz dia,
Migalha por migalha pouco cura,
Que pudesse pura desse haver.

Essa estranha capela apela a regra,
Se desfigura o verso que se disgra,
Pureza que eu digo com leveza,
E queria te dar essa faz ternura.

Bem quis ofertar que lhe direi a lei,
Que mesmo está efêmera fala desvela,
De esperdiço na fala que componho.

Nada quiseste… e assim faço refletir,
Se ontem, puderam ser que lhe mentir,
… hoje, são duas passagens que oponho.

II

Para que os homens dele em suplemento,
De que culpa farão sem julgamento,
Para que não ides à noite antes da aurora,
Que seja logo manhã, vou logo embora.

Para que entre o seu leito e o seu rito,
Faze a canção que ficou muito sombria,
Para quem irá pensar em tal traição,
E que então ficai o dia, e agi destarte.

Que seja que pendurou no cinturão,
Lhe saudai-o, pois, desse meu aparte, 
Logo quem irá pensar em tal traição.

De que nesse salão foram deitar-te,
Para que depois à noite, a lei jantar,
Seja então para esta carta entregar.

III

Sou Daquele, que os passados anos
Já cantei minha lira maldizente
torpezas dos versos, vícios e enganos.
Do bem que os decantei bastantemente.

Que o canto segunda vez mesma lira
Do mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto, que me está flama, ou que me inspira
Dessa Talia, que Anjo é minha guarda,

Dês que Apolo ao fado, que me assistira.
Arda Fulana, e todo o fundo arda,
De que, a quem de ofício falta à verdade.

Nunca a Dominga das verdades tarda,
Nenhuma era excetua se à Cristandade,
Musas, que estimo ser, quando às invoco?

IV

Ah, soneto cruel! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu plano vos mudastes!
disgra o tempo que me descansastes;
verso meu descansais com meus cuidados.

Deixastes-me falar os bens passados,
para mor dor da flor que me ordenastes;
então nũa hora juntos mos levastes,
deixando em seu verso males dobrados.

Ah! quanto milhor fora não vos ter,
gostos, que assi passais tão de florida
que fico duvidoso se a vos ti.

Sem vós já me não passa que perder,
senão se for está cansada Lida
que, por mor pena minha, não perdi.

V

Alvitres tristes, versos que gastais tempo
Já cansar mais um soneto cansado?
Contentai-vos em me ter em tal estado;
Já queirais de mi mor vencimento.

Temo tão louco já vosso tormento,
Que andar a passar mal acostumado,
Do sinto de me ver atormentado
Já nada poder ter já contentamento.

Trabalho em vão, cuidando empecer
Prá quem a esperança tem perdida
Já tudo quanto teve e desejou.

De ganhar muito não tenho a perder
se não for está cansada Lida
De, por mor perda minha, me ficou.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

"O Menino Retirante" - ANA CÂNDIDA - MUSA EDITORA

 

Eric,

Donizete Galvão, amigo que amava você, sempre se preocupou com o fato de você não querer seguir as regras editoriais e com sua ansiedade em fazer qualquer coisa. Eu, que nunca deixo de ser sua amiga, e também amo você como autor e pessoa amiga, não deixarei de tratá-lo com consideração.

Você errou feio, pela segunda vez. A primeira, foi com o Almir Piedade, que Deus o tenha, que me procurou antes, pois estranhou você me oferecer um livro de catálogo, sem o aviso de praxe e os documentos de desistência da editora que investiu, investe e investirá no livro, que é uma jóia do seu catálogo, expressão dita pelo Ivan Junqueira. Você tem tantos originais para apresentar, apresenta logo um livro editado, que é um livro de arte, colecionável?

Vou visitá-lo em São João del Rei.
Aí falaremos dos projetos.

Mas não ofereça mais "O Menino Retirante" Para editora nenhuma, um livro pronto, sem conversar com sua editora.

ANA CÂNDIDA - MUSA EDITORA