DOUTORA, TRADUTOR PEDE QUE LHE ESCREVA, SENÃO FECHA A JANELA
I
É do êxtase langoroso,
É do cansaço do amor,
São todos arrepios da floresta
No abraço das brisas,
É, em direção às copas cinzentas,
O coro das vozes delicadas.
Oh, esse murmúrio frágil e fresco!
Isso gorjeia e sussurra,
Parece o suave grito
Que a grama agitada exala...
Dir-se-ia, sob a água que se agita,
O rolar surdo das pedrinhas!
Essa alma que se lamenta
Nessa queixa dormida,
É a nossa, não é?
A minha, diz, e a tua,
De quem se exala a humilde antífona
Nesta noite amena, bem baixinho?
II
Adivinho, através de um murmúrio,
O contorno sutil das vozes antigas
E nos brilhos musicais,
Amor pálido, uma aurora futura!
E minha alma e meu coração, em delírios,
Não são mais do que uma espécie de olho duplo,
Onde treme, através de um dia turvo,
A canção, ai de mim! De todas as liras!
Ó morrer dessa morte solitária,
Que se vão, querido amor que te assusta,
Balançando horas jovens e antigas!
Ó morrer dessa gangorra!
III
Chora em meu coração
Como chove sobre a cidade,
Que melancolia é essa
Que penetra em meu coração?
Ó suave som da chuva
No chão e nos telhados!
Para um coração que se aborrece,
Ó, o canto da chuva!
Chora sem motivo
Neste coração que se enjoa.
O quê! Nenhuma traição?
Este luto não tem motivo.
É realmente a pior dor
Não saber por quê,
Sem amor e sem ódio,
Meu coração sofre tanto!
IV
É preciso, veja bem, perdoar-nos pelas coisas. —
Assim seremos muito felizes,
E se nossa vida tiver momentos sombrios,
Pelo menos seremos, não é mesmo? duas choronas.
O que misturávamos, almas gêmeas que somos,
Aos nossos desejos confusos, a doçura infantil
De caminhar longe das mulheres e dos homens,
No fresco esquecimento do que nos exila.
Sejamos duas crianças, sejamos duas moças,
Apaixonadas por nada e por tudo surpresas,
Que partem para empalidecer sob as castas pérgulas,
Sem sequer saber que estão perdoadas.
V
O piano que uma mão delicada acaricia
Brilha vagamente no crepúsculo rosa e cinza,
Enquanto, com um leve sopro de asa,
Uma melodia bem antiga, bem fraca e bem encantadora,
Vaga discretamente, quase assustada,
Pelo boudoir há muito perfumado por Ela.
O que é esse berço repentino
Que lentamente acalenta meu pobre ser?
O que você quer de mim, doce canção brincalhona?
O que você quis, refrão delicado e incerto
Que ora morre em direção à janela
Ligeiramente aberta para o pequeno jardim?
VI
É o cachorro de Jean de Nivelle
Que morde bem debaixo do olhar do vigia
O gato da mãe Michel;
François-les-bas-bleus se diverte com isso.
A lua, para o escrivão público,
Derrama sua luz obscura;
Onde Médor e Angélique
Ficam verdes sobre o pobre muro.
E eis que chega La Ramée
Jurando lealdade como um bom soldado do Rei.
Sob seu uniforme branco de má fama
Seu coração transborda de alegria!
Pois a padeira... — Ela? — Sim, senhora!
Bernant Lustucru, seu velho marido,
Acaba de coroar seu amor...
Crianças, Dominus vobiscum!
Abram espaço! Em seu longo vestido azul,
Todo de cetim que faz frou-frou,
É uma impura, pelo amor de Deus!
Em sua cadeira que temos de elogiar,
Seja-se filósofo ou pão-duro,
Pois tanto ouro se destaca nela,
Que esse luxo insolente escarnece
Todo o papel do senhor Loss!
Para trás, Robin sujo! Abra espaço,
Pequeno atarracado, pequeno abade,
Pequeno poeta que nunca se cansa
Da rima que não conseguiu encontrar!
Eis que chega a verdadeira noite...
No entanto, nunca se cansa
De ser desatento e ingênuo?
François-les-bas-bleus se diverte com isso.
VII
Oh, triste, triste estava minha alma;
Por causa, por causa de uma mulher.
Não consegui me consolar;
Embora meu coração tenha se ido,
Embora meu coração, embora minha alma
Tenham fugido para longe dessa mulher.
Não consegui me consolar;
Embora meu coração tenha se ido.
E meu coração, meu coração tão sensível
Diz à minha alma: É possível,
É possível — mesmo que fosse —,
Esse exílio orgulhoso, esse exílio triste?
Minha alma diz ao meu coração: Será que eu mesmo,
Sei o que essa armadilha nos quer,
De estarmos presentes embora exilados,
Mesmo tendo ido para longe?
VIII
No interminável
Tédio da planície,
A neve incerta
Brilha como areia.
O céu é de cobre
Sem nenhum brilho,
Parece que vemos a lua viver
E morrer.
Como nuvens,
Flutuam cinzentos os carvalhos
Das florestas próximas,
Entre a névoa.
O céu é de cobre,
Sem brilho algum.
Parece que se vê a lua
Viver e morrer.
Corvo ofegante,
E vocês, lobos magros,
Nestas rajadas de vento amargas,
O que, afinal, está acontecendo com vocês?
No interminável
Tédio da planície,
A neve incerta
Brilha como areia.
IX
A sombra das árvores no rio enevoado
Se dissipa como fumaça,
Enquanto no ar, entre os galhos reais,
As rolas se lamentam.
Quantas vezes, ó viajante, essa paisagem pálida
Te fez parecer pálido também,
E com que tristeza choravam nas copas altas das árvores
Tuas esperanças afogadas?
Maio, junho de 1872.
PAUL VERLAINE - TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA





