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segunda-feira, outubro 26, 2026

Caos visto do artesanato - Eric Ponty

Se meio da paisagem desta lida,
desencontrei num caos já perdido,
que deu rumo direito nesta vida.

Ah, quanto escrevê-la empresa pura,
Este caos paisagem, arde, e forte,
E que o tremor no pensamento acura.

E tal langor, só a maior na sorte,
Mas quando ao céu que ali me encontrei,
Outras Terras direi deste meu forte.

Não posso argumentar bem o entrei,
Tal pensamento estava àquele ponto,
Em que o caos voraz abandonei.

Depois, Deus, de uma d´águas, fez pronto,
Surgido onde findava abismo lento,
Que ao dia ao coração trouxe em confronto,

Vejo daqui vi seus ombros, perto,
Revestidos clarezas, dia completo,
Separação que forma o rumo certo.


l

Errante palmilhasse vagamente
Qual a paisagem de Minas, espessa, 
e na torre da tarde um sino louco

se misturasse ao som de meus palatos 
sendo pausado e seco; margens pairassem 
no céu de cinzas, e suas nuvens pretas

sutilmente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda sêus montes
e de meu próprio ser desentranhado,

A efigie do Job jaz se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter olhado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um tom que fosse impuro
nem um brilho maior que o ponderável

Pelas pupilas vastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela visão exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria epifania sua debuxada
no verbo do mistério, nos abismos.

Abriu-se em palma pura, e convidando
quantos pedidos e intuições restavam
a quem de os ter olhado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e versos sempre repetimos
os mesmos sem Lenheiros tristes périplos,

convocando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o fato inédito
da natura mítica das coisas mistas,

assim me disse, embora voz alguma
ou tinir ou eco ou simples percussão
atestasse ninguém, sobre a façanha,

A outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser contrito e nunca demostrou,
mesmo afetando dar-se ou refazendo,
e a cada instante mais se retraindo,


veja, repara, ausculta: essa miudeza
sobrante a toda auréola, essa abnuência
sublime e formidável, mas hermética,

essa fatal explicação da vida,
do perplexo primeiro e singular,
nem conheces jamais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre tua crença para agasalhá-la.”

As mais soturnas fontes e edifícios,
que nas oficinas se colabora,
o que ideado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
recursos que se erra dominados,
e as ilusões e os impulsos e os tormentos

Se tudo que definha o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
Já chega às plantas para se embeber

São sons rancorosos dos saltérios,
retorna ao fundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas vaidades altas mais que todos
monumentos erguidos à vontade:

Sê a memória do Deus, fez e o solene
sentimento tez forte, que padece
no talhe da existência mais gloriosa,

Tudo se apresentou nesse relance
e me clamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e o preceito,

Na esperança mais mínima — nesse zelo
que ver desvanecida a treva espessa
que entre raios do Deus inda se filtra;

Tais em defuntas sanhas convocadas
presto e fremente não se produzissem
que de novo tingir a neutra face
que vou pelas paisagens demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante em mim há tantas tardes,

Passasse a comandar minha verdade
que, já de si volúvel, encerrava
semelhante a essas dores reticentes

De si mesmas feridas e fechadas;
De quão se um tom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei olhares, incurioso, lasso,
desdenhando olhar a coisa ofertada
que se abria gratuita a meu empenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a paisagem de Minas, pedregosa,
e a efígie do Job jaz, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que vertera,
seguia vagaroso, nos chãos densos.
II

Qual Pallas palmilhasse densamente
Passagem de Minas, pedregosa, 
qual no olhar tardio da cena rouca

se misturasse ao tom de meus encantos 
que era pausado e surdo; manhãs pairassem 
no céu de zimbro, e suas cores pretas

lentamente se abrem diluindo
na escuridão maior, vinda das mentes
e de meu próprio ter desenganado,

A Miragem da Pallas se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de a ter olhado me carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir luz que fosse tão impura
nem um clarão maior que o aceitável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do aspecto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria efígie sua debuxada
na face do mistério, nos abismos.

Abriu-se em alma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter olhado os já pudera

e nem desejaria recobrá-los,
se desvão e para sempre repetimos
mesmos sem rotineiros ristes périplos


convidando-os a todos, numa sorte,
a se aplicarem sobre o rosto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim disse, senhora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a façanha,

a outro alguém, diuturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca demonstrou,
mesmo afetando dar-se ou se adendo,
e cada momento mais se retraindo,


olha, ressalta, ausculta: essa pureza
sobrante a toda fábula, sapiência
altiva e formidável, mas hermética,

Graça fatal explicação da vida,
esse traço primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu preceito a agasalhá-la.”

As mais soberbas mentes e edifícios,
que nas oficinas se colabora,
o que atestado foi e logo se atinge

instância superior ao pensamento,
os recursos que erra tão dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser campestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às santas bocas se embeber

nesse tom rancoroso dos mistérios,
dá volta a Pallas e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas vaidades altas mais que todos
monumentos erguidos à vaidade:

memória dessas deusas, e o solene
sentimento de sorte, que floresce
na face da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anseio
de ver desvanecida a relva espessa
que entre raios do sol ainda se filtra;

como defuntas graças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelas passagens demonstrando,
e como se outro ter, não mais daquele
habitante de mim há tantos anos,


passasse a comandar minha vontade
que, já de si solúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas repletas e fechadas;
como se um tom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando solver a coisa oferta
que se abria gratuita a meu empenho.

O clarão mais estrito já pousara
sobre a passagem Minas, pedregosa,
e a Miragem da Pallas, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que jazera,
passei vagaroso, de olhares densos.
III

Meu coração ressoava-me refrão,
não sei se mais da lide de Sião,
Em como vim versar nesta ilusão,
tendo-me do crido guia nesta canção.


Meu coração ressoava-me refrão,
não sei se mais do verso de Sião,
Do artesanato Rosário jaz chãos,
cá apresentação, plena à anunciação.


Sê gentes diz de nós, mover sinas,
pobre de mim Severino de Minas,
cujas foram metas no rio das pias,
não tiveram justa uma missa cria.

Fui empós dele e mal estava a ir,
E eis um estrondo mágoa tão vizinha,
Que a nossa voz mal se podia ouvir,
Minas está diante de mim caminha.

Sê é do rio que por si descaminha,
As margens, murmurar a nossa tinha,
Em São Benedito do alpe, refeito,
Grande mal de mil rios fosse efeito;

Não dera tempo de dizer amém
No tempo que gastaram a partir;
Pelo que meu guia quis ir além,
 pobre de mim Severino detém.

Se aos outros, bem pouca luta imposta
Disseram, bons dizeres constituis,
Feliz de ti, que falas como poetas,
Até rojar-se enfim no leito posta. 

A gente nossa e os ganhos desleais,
Orgulho e intemperança originaram
Em ti Francisco- já gente cuida mais,
Mas diz: valor e cortesia moram.

Assim, de uma alta escarpa se desata,
Este que ouvimos soar – bronze cobre,
Tão alto, que à audição logo maltrata,
Ah, sinos os homens devem ter ao dobre.

Sendo é verdade, mas que disponha,
Com cara de mentira, cale o homem,
Ou sem ter culpa, vai passar vergonha,
Não cá, pelos rios vãos consomem.

Desta passagem, escutador eu juro,
- Ou à glória alongada não lhes ouço.
Vindo, por este mesmo ar grosso,
Maravilhosa em coração mais duro.

Como o que torne ao fundo mais ancho imprima,
Para soltar a âncora encravada,
No escolho ou mais que o mar feche e comprima,
Minha lide peregrina da dor que arda.

IV

Os ruídos surgem exalaram pompas, 
Passam na mensagem, surdinas trompas, 
Qual Minerva longo céu aposte logros! 
pascer, do sempre mármore do agro! 

Após ser do apesar, fulgidas Tebas, 
resguarda avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim ateando a bruma 
No inaudível do céu mausoléu duma.

Discreta fronte véu pastorear! 
Mitra apreciar essa luz que repousa, 
ópera gasta eterna ecoa-se à lousa. 

Ó templo anima abunda despejar! 
Aceder ouros climas vão acercava 
friezas das minas, quisto nos transcreva.

 Eric Ponty

 

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

DIE FACKEL - NR. 2 WIEN, MITTE APRIL 1899 II - KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY

 Caro e estimado Sr. Harden, 
Posso ficar tranquilo; se publicar na «Fackel» a carta que teve a amabilidade de me dirigir e — com todo o respeito — ao meu pequeno público, os meus bons inimigos irão, de qualquer forma, absolver-me com malícia da suspeita de violação do sigilo epistolar. Com isso, preparo-me para responder com ainda mais naturalidade. Em primeiro lugar, reitero os agradecimentos que já tantas vezes, com alegria, dirigi ao encorajador, amigo e portador do exemplo inspirador de como, ao longo de uma década, apesar de todas as adversidades, se pode afirmar com firmeza «o que é». Mas não só pelo reconhecimento que generosamente concede ao meu início, como também por aquele resquício de boa vontade que, uma vez que a distância não lhe permite um controlo mais rigoroso, ainda guarda para a sociedade que eu abordo. E como a gentileza com que defende circunstâncias atenuantes para muitos «delinquentes literários» desperta o interesse dos recém-consagrados na luta, vou tentar medir definitivamente a distância entre Berlim e Viena. A bem ver, não é sequer a grande distância que nos leva a ter opiniões diferentes sobre a mesma questão, e o seu ponto de vista explica-se, na verdade, por si só, pela disposição natural de, após a superação implacável do cliquismo local, respeitar a priori como melhores e mais saudáveis os elementos que, no estrangeiro, compõem a vida intelectual. Não lhe posso esconder que, por vezes, sinto o mesmo em relação a Berlim e que, apesar de toda a aversão que tenho pelos dominadores do seu mercado teatral, prefiro aquele espaço de manobra mais amplo, que ali é concedido à decadência, às relações estreitas e mesquinhas do meu ambiente. O senhor esteve uma vez na nossa cidade, conheceu superficialmente a natureza do nosso público — que conquistou por duas vezes com a sua fascinante arte oratória — e, após os três dias de descanso das dificuldades da vida agitada em Berlim, avaliou a situação em Viena com uma dose de lembranças benévolas. Peço-lhe que aceite a garantia de que, se as minhas experiências sobre o espírito vienense e os fatores que o determinam tivessem sido adquiridas no espaço de metade do prazo de validade de um bilhete de ida e volta, eu nunca, jamais, teria fundado a «Fackel». Mas assim, por infeliz coincidência, há já anos que sou testemunha de todas as ações da sociedade secreta jornalística que envolve as nossas palcos como uma teia. Compreendo a linguagem de sinais dos seus membros. Conheço os artifícios através dos quais sabem afastar as pretensões intelectuais da parte da população germano-austríaca que não reside no bairro da Câmara Municipal nem no Schottenring. Não tenho, verdadeiramente, culpa de ter de assistir a como os fios que ligam as nossas redacções influentes às nossas direções subservientes se transformam em escadas de corda, pelas quais alguns impostores — e sempre os mesmos — ascendem, ano após ano, ao poder no mundo do teatro. E sei que o senhor, meu caro senhor, Harden, bastaria passar apenas uma temporada entre nós para partilhar comigo, em espírito de camaradagem, o nojo que agora apenas acredita que eu sinto e para lhe dar uma expressão mais forte, de acordo com a sua força superior. Afinal, em Berlim, por mais desagradáveis que possam ser os indivíduos, não existe tal mesquinhez coletiva. O que ali pesa sobre o julgamento do público e sobre os valores artísticos não se mostra tão solidário, nem tão ganancioso, e não se agrupa num círculo tão facilmente visível, que pretende explorar a boa-fé dos espectadores de teatro até mesmo nos intervalos. A vossa Friedrichstrasse é mais larga do que a nossa Kärntnerstrasse, a vossa «Unter den Linden» é mais larga do que o nosso Ring. A vossa população devora material de leitura mais rico, e o poder das sensações que emanam do edifício do teatro esmorece já na esquina seguinte. Não têm vida de café, e com isso são retiradas muitas oportunidades valiosas às maquinações dos vossos ávidos por direitos de autor. É verdade que o seu jornalismo parece estar longe do âmbito literário. Esse é, ao mesmo tempo, o seu defeito e a sua vantagem. Vocês têm uma literatura autónoma, que se dirige ao público através dos livros e que, por vezes, embora de forma artificial, consegue suscitar emoção. A nossa depende dos jornais; entre nós, o repórter devorou o escritor e, por isso, a nossa imprensa apresenta um desenvolvimento superior. Esse desenvolvimento ocorreu à custa de todas as melhores possibilidades artísticas. O que o senhor elogia, não sem razão, no nosso jornalismo parece-me ser o cerne de toda a nossa miséria literária. A escrita livre cedeu a sua melhor essência à secção cultural e, aqui e ali, até mesmo ao editorial. A nossa imprensa, cujo brilho profano ainda prefiro à estepe de notícias dos jornais berlinenses, tem a bondade, depois de ter subjugado os contistas, de oferecer anualmente ao teatro os seus dramaturgos. Com a distribuição livre, o seu público pode informar-se de forma mais rápida e conveniente sobre as incongruências culturais que lhe são impostas pela tinta de impressão; e, como não possui um selo de jornal, a profissão jornalística não repousa, como acontece conosco, apenas nas mãos de um grupo privilegiado, carecendo assim, desde o início, daquele prestígio tão perigoso e tão frequentemente abusado. Convosco não se conhece aquele estranho respeito pela Sétima Grande Potência; os repórteres intrusivos são, por vezes, mandados embora, e o vosso público burguês não encara a leitura dos seus jornais favoritos como uma oração matinal e vespertina a ser cumprida pontualmente. O nosso público deixa-se aborrecer com entusiasmo pelos editoriais da «Neue Freie Presse» há 30 anos e, ainda assim, fala deles com entusiasmo, mesmo a meio do sono... Os vossos jornalistas liberais — para além das diversas condições de existência política — certamente também se empenharam corajosamente como pioneiros do antissemitismo, mas não procuraram alimentar, fixar e explorar para sensações perigosas, com toda a força dos pulmões e contra toda a razão política, aquilo que cresceu organicamente e que seguirá o seu curso natural. A vossa opinião pública nunca ecoaria, ao longo de dois invernos, o alvoroço que um caçador de notícias ávido provocou por causa de uma «água com gás no Wimberger», e certamente não haveria qualquer interesse pelas conversas confusas de um Gregorig, caso os vossos servos jornalísticos do liberalismo tivessem criado alguém assim... Aos vossos jornais faltam os habilidosos escritores que, entre nós, sabem dar o seu toque de estilo a cada acontecimento relatado por uma correspondência. Este impressionismo incómodo estendeu-se até aos nossos colaboradores de redação, que só são aceites pelos editores quando demonstram o dom da «descrição plástica». É certamente também uma lacuna que os vossos jornais, na «secção local» — que, por aqui, já revelou verdadeiros génios —, se limitem às fraturas mais importantes; no fim de contas, evitam até enviar o seu correspondente especial para o parto de uma senhora da alta sociedade e o seu ilustrador especial para um caso de adultério na alta sociedade. O que, de vez em quando, também se consegue fazer em termos de sensacionalismo na vossa publicação, é, afinal, da escola vienense e uma consequência da hipertrofia do «Schmocktum» — já palpável entre nós —, à qual o envio de alguns representantes para a metrópole amiga não causa qualquer prejuízo. Será que, nas vossas terras, prospera de forma tão exuberante o género de revistas sensacionalistas, ilustradas conforme a necessidade, que só aparecem depois de se terem saciado do sangue de principiantes teatrais? E será que, também aí, os grandes empresários que integram a Associação da Imprensa seriam tão suspeitamente tolerantes para com estes pequenos empresários corruptos? E existem aí os tagarelas de bastidores, que andam sempre a bisbilhotar segredos do mundo do teatro e a difamar diretores de teatro e atrizes, quando estes não se mostram submissos aos seus desejos, ora dramáticos, ora mais líricos? Será que o Schnüfferl também é crítico de arte? E será que se enfurece diante de todos quando não consegue exercer pressão sobre a redação e quando nem mesmo o mais humilde servo do jornalismo se atreve a apresentar ao público as suas obras lamentáveis? Sei que também a Associação da Imprensa de Berlim aceita sem hesitação os lucros líquidos de certas estreias dos teatros que estão sob o seu domínio, como uma espécie de imposto sobre as notícias. Mas não sei se já imitou com sucesso à nossa «Concordia» aquela outra prática: convidar, uma ou duas vezes por mês, as primeiras e mais requisitadas «forças artísticas da Residência» para entreter gratuitamente os membros da associação e as suas famílias — digamos assim. Ainda me lembro de como, certa vez, lhe deu uma lição àquele patife para quem os bilhetes gratuitos — recebia, se bem me lembro, cerca de 400 numa única época — se tornaram a principal fonte de rendimento. Tenha a certeza de que os nossos diretores de palco obedecem ainda mais prontamente aos desejos dos «pretorianos das notas» e, se ao menos soubessem sempre os endereços, estariam dispostos a entregar os bilhetes gratuitos diretamente ao Schneider e às amantes da semana. Acredito sempre que noutros lugares as relações de causa e efeito não são tão evidentes, que a manipulação é, pelo menos, mais dissimulada e que o risco de ser apanhado é maior. Acredito que, nesses lugares, aquelas pessoas que, com uma mão, conduzem a corrente da opinião pública e, com a outra, a dos dividendos, não se exibem de forma tão descarada, pelo menos nos intervalos. Acredito que, no vosso caso, nem mesmo um Philipp Haas se atreveria a destacar-se de forma dramática, mesmo com o buffet mais requintado; que nem mesmo os críticos profissionais se deixariam contratar por ele tão facilmente; e que os jornais teriam o bom senso de não celebrar, em reportagens que ocupam colunas inteiras, a revelação artística que um fabricante de tapetes mandou transmitir, num teatro pago, por atores pagos, a um público convidado para a mesa. Estou firmemente convencido de que, em Berlim, o leitor de jornais perceberia num instante as intenções dos jornalistas convidados, sentiria o cheiro do assado e desprezaria as vozes críticas que saem de lábios brilhantes de gordura. Mas, na nossa imprensa, ouve-se um alegre mastigar sempre que o diletante rico convida para um banquete dramático e, por fim, as nossas canetas, escorrendo de maionese de lagosta, puderam, na mesma edição do jornal em que os colegas famintos se queixavam no editorial sobre o antissemitismo, salientar com satisfação que uma apresentação assim organizada pelo Sr. v. Haas «representasse um facto gratificante, em contraste com tantos fenómenos entristecedores da nossa vida pública.» Eles afirmam, textualmente, que agora se tem, de forma definitiva, a prova de que «a fragmentação social em Viena, afinal, não está assim tão avançada». Mas os cronistas habilidosos e os escritores que se perderam nas colunas dos jornais… sim, esses podem atribuí-los tranquilamente a nós. Que o jornalismo de Viena seja superior ao seu em termos de competência estilística, não o nego nem por um momento e tentei eu próprio fundamentá-lo acima. Embora os seus binóculos me pareçam aqui um pouco exagerados, subscrevo de bom grado o que elogiou a alguns vienenses. Já tinha dado a entender, no primeiro número, que não recuso o meu respeito ao talento puramente formal e que sei distinguir os espíritos superiores — por vezes demasiado indolentes — dos bastidores do jornalismo e das suas atividades infames. O facto de os talentos que escrevem de forma tranquila e discreta, como, por exemplo, J. J. David, que está a serviço dos editoriais, não poderem, de forma alguma, reivindicar o prestígio que os nossos intrusivos brincalhões de salão alcançaram há muito tempo — é precisamente isso que suscita a resistência. Se escolhi um indivíduo dessa série, foi porque ele me pareceu, de facto, a encarnação do espírito mercantilista literário, o representante mais evidente do sistema sob o qual, neste país, todo o bom desenvolvimento sofre. Não me escapou o facto de que este sistema, por muito que já tenha ultrapassado as suas origens entre nós, remonta aos males fundamentais da imprensa capitalista, e longe de mim a ideia de trocar de pessoas por instituições. Com a miopia de quem... Também à sua advertência amigável, no sentido de tratar com delicadeza os pecadores que porventura existam, estou disposto a dar ouvidos e a «cumprir na medida do possível». Mas será que não são precisamente os talentos, que se vêem a agir num vil abuso de si próprios e com influências nefastas sobre os outros, que exigem o ataque mais forte? Meu Deus, eu próprio nunca contestei o talento original do senhor Bahr, e continuo a acreditar que, com alguma concentração, ele se tornaria um redator de página cultural bastante bom da «N. Fr. Presse». Gostaria de dar este cicuta ao sedutor da nossa juventude literária, que se faz passar por socrático. Por vezes, também se faz passar por Goethe, que, do auge da vida, dá ensinamentos sábios aos discípulos que a ele peregrinam, sobre como podem colocar as suas peças neste ou naquele teatro, e o seu Weimar é o fundo de pensões da «Concordia». E o senhor Theodor Herzl, não será ele, apesar de todo o reconhecimento pelo talento adquirido em Paris, uma figura que cativa profundamente o satirista? O homem de estilo gracioso, voltado para a expressão de estados de espírito e todo o tipo de sentimentos encantadores, mas também com tendência para o maneirismo, dedica-se ao seu trabalho diário de colunista com uma expressão messiânica de salvador. Dos planos de fundação do Reino de Sião, é chamado ao Teatro Carl, onde, na qualidade de crítico da «N. Fr. Presse», tem de avaliar estreias de operetas e só, quando a peça termina, é que pode testemunhar a ascensão do povo judeu. Meio profeta, meio filho do mundo, continua a ser redator de um jornal cuja política nacionalista alemã deveria, na verdade, repugnar-lhe, a ele, o judeu nacionalista autoconfiante que repudia a assimilação; as vestes que rasga na dor pelo seu povo são fornecidas pelo alfaiate mais sofisticado e as cinzas que espalha sobre a cabeça parecem provir de uma variedade especial muito requintada. Assim, por vezes, poder-se-ia acreditar nele, tal como em Hamlet, que «nem o habitual traje de preto sombrio, nem os suspiros tempestuosos de um hálito oprimido, nem a postura encurvada do rosto, nem mesmo o fluxo abundante nos olhos... é isso que o revela verdadeiramente», e que se trata apenas de «gestos que se poderiam representar». E Hanslick e Speidel? O estilo e o sentido artístico de ambos merecem todo o respeito. Mas como é que eles, cada um no seu domínio, se destacaram! O conselheiro musical da corte irá, sem dúvida, saltar para a imortalidade com os golpes que desferiu a Wagner e a tudo o que é grandioso. O mestre alemão Speidel, que há 30 anos descreve tão bem o conteúdo de todas as peças do Burgtheater, nunca exerceu uma influência construtiva na produção. É verdade que, em termos de formação, ele supera todo o séquito de pessoas cuja profissão consiste em dar uma imagem distorcida da receção de uma novidade. Mas não lhe será, por isso mesmo, ainda mais grave o abuso de poder crítico que vem praticando há décadas? Para não recuar a um passado demasiado distante, gostaria apenas de recordar o julgamento de Speidel sobre uma peça grega medíocre, que mal foi notada em Berlim, a qual ele elogiou de forma ditirâmbica e cujo autor ele aclamou com a frase que, desde então, se tornou célebre: «A Áustria tem novamente um poeta!» Conhecem o entusiasmo recentemente despertado em Speidel — que, há alguns anos, ainda falava com desdém de «poetas de merda» —, de se antecipar aos mais modernos. Em relação às melhores obras de Hauptmann, ele tinha defendido que chamar-lhe «poeta» seria profanar a língua alemã. Já à «Fraca e abatida campainha» e agora ao «Carregador Henschel», a pluma inspirada de Johannis, de escrita elegante, dedica hinos entusiásticos. Basta pensar também na notável mudança na posição de Speidel em relação ao senhor Burckhard e na facilidade com que a consciência crítica de Viena pode ser afogada na mesa dos habituais da cervejaria de inverno... Pensem, pelo menos, na luta que o Neue Freie Presse sempre travou contra o «Grande» na arte; pensem na «Estética do Liberalismo», que ainda está por escrever,& «Estética do Liberalismo», e concordará comigo quando digo que Viena, mesmo ali onde se encontra o que há de melhor, é um terreno inesgotável para quem vagueia livremente. Devo, para terminar, meu caro senhor, Harden, responder-lhe ainda à pergunta de saber se, para quem tem sensibilidade literária, é mais fácil a compreensão com Bacher e Benedikt ou com Adler do que com os seus poderosos jornalistas berlinenses? Não os conheço de todo, nem os senhores Bacher e Benedikt no âmbito dos seus gabinetes. Conheci ambos como senhores cordiais. O senhor Benedikt pareceu-me ter um temperamento mais enérgico — o senhor Bacher, o político honesto e rigoroso em matéria de regulamentação linguística, tal como é conhecido pelos seus editoriais: com uma visão da vida que vai, digamos, de Saaz a Trautenau, «um boémio alemão de formação», como o conde Taaffe o chamou uma vez; a história mundial é para ele, aparentemente, um tribunal de comarca, e não se diria que ele fosse capaz de lidar com aquele grande jornal, com todas as suas infâmias coloridas... Mas Victor Adler? O que diz sobre ele, o excelente Austerlitz, e sobre o «Arbeiterzeitung», é exatamente o que eu penso. O editor de jornais Adler é, ao mesmo tempo, um homem que deu à nossa época — e não apenas ao nosso jornalismo — um exemplo de heroísmo. A ele, que sacrificou a sua fortuna pelo que lhe era mais sagrado, a causa social-democrata, não o procuro na companhia de outros jornalistas que adquiriram a sua fortuna através do que lhes era mais sagrado, a secção da bolsa... E agora, obrigado por todo o incentivo e advertência, e pelo desejo de que eu possa aguçar o meu olhar inexperiente para as relações econômicas. Mas, na verdade, também me deveria indicar a «tarefa mais importante» que há «por realizar na Áustria, num país que ecoa com as disputas mais mesquinhas, enquanto aqueles que se preocupam com a economia têm de ficar de braços cruzados à margem». Sim, invejo-vos, que bastou-vos afastar a camarilha da imprensa de forma tão casual para vos concentrardes nos vossos alvos de ataques mais importantes. É a maldição que paira sobre o nosso meio: quem derrubou um Julius Bauer, esse — tenho de rir do próprio efeito — realizou um feito. Um ato do qual a sociedade, também afetada, ainda não se recuperou. Talvez consiga que os senhores, que se deixaram cegar demasiado pelos bilhetes grátis, sejam um pouco mais cautelosos no futuro ao lidarem com a influência dos jornais e os valores do teatro; talvez tenha apenas estragado o humor dos magnatas do teatro até à próxima estreia. Que nunca foi meu desejo fazer amizade com esses ágeis negociantes do prazer, acreditem-me. Nos círculos que evitei, tornei-me indesejável e, para pessoas que não conhecia, fui um alívio. Na minha secretária acumulam-se mensagens de agradecimento, nas quais pessoas a quem, até agora, o medo da imprensa diária lhes apertava a garganta, me manifestam o seu apoio; sim, até mesmo membros de redações liberais se atrevem a enviar-me uma saudação secreta a partir da sua «celular». Embora, como é natural numa iniciativa destas, a falta de talento reprimida, a alegria perversa ou a má consciência possam dar sinais de si, e embora muitas das manifestações de simpatia que me chegam à casa deixem persistir o velho medo das forças anónimas, e embora alguns, que me apertam calorosamente a mão, olhem primeiro à sua volta para ver se o senhor Bauer ou algum dos seus denunciantes risonhos não passa por ali — já hoje me sinto seguro do apoio de todas as pessoas decentes. É compreensível que, mesmo à manifestação explosiva de um indivíduo repugnado, sejam atribuídos, por parte de muitos, apenas motivos egoístas; e é simplesmente revelador do veneno presente na nossa atmosfera moral o facto de muitas pessoas não quererem de forma alguma acreditar que alguém que tapa o nariz possa fazê-lo de forma sincera e sem segundas intenções. Surge rapidamente a suspeita de que eu próprio «não teria sido admitido à manjedoura» — et hinc illae lacrimae. Os senhores não se deixam convencer de que se tratou de um autoexílio, de repulsa pela comida adulterada. Talvez venha a explicar detalhadamente, quando esta acusação — até agora avançada por parte antissemita — for adotada pelos outros, quantas vezes me foi colocada a ração debaixo do nariz. Por enquanto, os jornais que assino permanecem em silêncio, como se tivessem recebido ordens, e o N. Fr. Presse chegou mesmo a retirar a «Fackel» da sua secção de anúncios. Cala-se, como se fosse pago para isso... 

Com sincera admiração, seu  Karl Kraus.

 

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

TRÊS SONETOS - PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

 Pierre Louÿs

Á PAUL AMBROISE VALÉRY 

Vou brandir tua mão em silêncio, então, meu diácono,
E pisaremos juntos por passagens difíceis.
Terei o girassol resplandecente entre os dedos;
Tu carregarás lírio como um vaso de nácar.

Partir-se: eu ao Chipre, vós ao São João de Acre,
Para tocar bom Símbolo ou ver a Santa Cruz,
Briosos nada sabe em triunfo em nome dos reis,
Mas súditos do sonho azul e da vã aparência.

Vão me deixar fugir para a ilha das íris;
Adorar fazer amor, apesar bacanal,
Pelas marcas descalças onde Kypris soia vagar;

Mas, na noite mística e do Santo Sepulcro,
Verão os Três Pregos sobre o altar, e nossos olhos
Melhor nossos frágeis dedos se unirão aos deuses.

AS FILHAS DO DEUS

Á André Walckenaer.


Haviam enfeitado em cachos com flores lótus
E ensopado os cabelos com perfumes intensos
Flancos flexíveis ondeavam ondas de veludo
Olhos remotos pulsavam pedras preciosas.

Cobras prateadas cingiam em seus braços nus
Colares desciam sobre teu seio cinzento
Respirações meigas erravam como brisas
Em vozes tristes e suas risadas ingênuas.

E as cores ruivas da flor em teus cachos noturnos
Tremiam com sonolência taciturna
Na ponta de dedos alvos, com unhas carmim.

E os tapetes azuis, silente, arte passagem
Onde as filhas do deus, sobre flores de verbena,
Seduziam umas às outras ao longo da hora ociosas. 

Clitóris 

Achegado sob o calor destas ninfas discretas,
Tal qual pistilo em carne em um lírio dolente,
Tal clitóris, coral vivo, dum coração escuro,
Tremer ao lembrar-se das bocas olvidadas.

Toda a Mulher vibra e se concentra então nele,
Sendo a fonte do cio sob os dedos da virgem,
É o polo eterno para onde o desejo converge,
No paraíso do espasmo e o Coração da Noite.

O que ele sussurra aos flancos, que toda a carne ouve;
Ao menor de teus latejos, seios se erguem;
E tuas batidas surdas inflamam nesse corpo. 
Ó Clitóris, rubi simbólico que se move
Brilhando qual uma joia no peito de um deus
Erga-se, negro de prole, diante das bocas ruivas!

 À CIGARRA


Cigarra sussurrante, ébria de gotas de orvalho 
Tu tocas uma música campestre na solidão.
E, pousada na ponta das folhas, com tuas patas
serrilhadas, sobre tua carapaça bronzeada, 
fazes vibrar a canção da lira.

Ora, amiga, canta algo novo para as Ninfas 
habitam nas árvores; para responder a Pã, canta teu canto;
De modo que, tendo fugido de Eros, no sono do meio-dia
eu durmo, aqui, aleitado sob o plátano frondoso.

 A ÁRVORE


Tirei a roupa para subir em uma árvore; 
Minhas coxas nuas acariciavam a casca lisa e úmida;
minhas sandálias pisavam sobre os galhos.

No topo, mas ainda sob as folhas e à sombra do calor, 
sentei-me a cavalo sobre uma forquilha aberta, 
balançando os pés no vazio.

Tinha chovido. Gotas de água caíam e corriam pela minha pele. 
Minhas mãos estavam manchadas de musgo, 
e meus dedos dos pés estavam vermelhos, 
por causa das flores esmagadas.

Eu sentia a bela árvore viver quando o vento passava
por entre ela; então, apertava ainda mais as pernas
e abordava meus lábios abertos na nuca coberta de folhas de um galho.

PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

ARTESÂO DO CAOS - Ivo Barroso

 Você sabe o que é moinheira ou gaita galega? Não, pois o autor destes versos sabe e muito bem, já que põe o icto obrigatório na quarta sílaba, com a certeza de quem percorreu todas as possibilidades do decassílabo. Bom, isto você sabe o que é, não? pois saiba que o Eric em seus poemas praticou tanto o sáfico (com ictos na 4ª. e 8ª. sílabas), quanto o heroico (apenas na sexta) e o pentâmetro iâmbico (nas sílabas pares). Pois ele é um jogral do verso, conhece e executa todas as piruetas, firulas e dislexias da métrica, e sua poesia (seu oceano poético por assim dizer) é um mar (isto mesmo!) de exercícios, buscas, tentativas, escorregões, equilibrismos na arte de fazer versos. No que respeita à estrofe, esse aglomerado de versos em que se divide o poema, ele vai do dístico ou parelha, ao terceto ou terza rima, do quarteto ou quadra ao quinteto ou quintilha, do sexteto ou sextilha à sétima, oitava, nona ou décima, sem falar na liberdade de criação que lhe propicia o verso moderno. No clássico, navega tanto na terza rima dantesca, quanto na oitava camoniana ou na nona spenseriana, em que os oito primeiros versos são de dez sílabas e o nono vem com doze. Além de sua intimidade com o decassílabo e suas inúmeras possibilidades, ele não se intimida com o dodecassílabo (verso de doze sílabas) e pratica tanto a sua especificidade, que é o alexandrino (verso de doze sílabas com cesura na sexta), quanto se exercita com facilidade pelo hendecassílabo, ou alexandrino espanhol, que é constituído por dois versos de seis sílabas sem cesura.

Se falarmos de rima, o leitor pode estar certo de que encontrará aqui todo o tipo delas: agudas, graves ou esdrúxulas, toantes, consoantes, consoantes-suficientes ou opulentas, perfeitas e imperfeitas, continuadas, emparelhadas, alternadas, cruzadas, intercaladas, opostas, remotas, misturadas, encadeadas, entrelaçadas, internas, leoninas, quadradas, equívocas, em mosaico ou ritornelo, sem falar nas visuais ou auditivas, e passando batido pelas possibilidades da aliteração.  Se quisermos falar de estilos e escolas, Eric é um bom exemplo quanto à sua diversidade. Ele praticou tanto o romantismo quanto o parnasianismo e o indianismo e tanto o simbolismo quanto o naturalismo. Fez de suas influências -- desde os nossos primeiros românticos, tipo Casimiro, aos mais avançados representantes da poesia científico, tipo Augusto dos Anjos -- um cadinho para as suas próprias elucubrações. Entrou feio e forte na poesia moderna e explorou todos os seus redutos, inclusive a práxis, parando (cautelosa e inteligentemente) no concretismo, certo que dali não sairia grande coisa.

Poesia épica, elegíaca, alegórica, epitalâmica, estrambótica – desenterrem palavras e conceitos por mais esdrúxulos que sejam e constatem que o Eric andou sondando, experimentando, tirando uma onda com eles. De modo que temos aqui sua chamada obra completa (um temperamento criador como o dele jamais completa sua obra, está sempre fazendo ou refazendo alguma coisa), em que praticamente tudo o que se poderia imaginar em possibilidades poéticas foi devidamente visitado.

É claro que, dotado de tantas habilidades, tocando tantos instrumentos, dispondo de toda essa parafernália de recursos e experimentos, a poesia de Eric não é para qualquer um, diria mesmo tratar-se de uma poesia invulgar, para confrades herméticos, uma poesia que nunca será recitada, premiada, e até mesmo editada. O público de Eric ainda está por vir e virá talvez um dia quando o livro já tenha desaparecido e a própria noção de poesia se tornado uma vaga lembrança. Mas para nós que ainda estamos aqui ela é um butim, uma arca a ser aberta e na qual se pode encontrar de tudo, desde pepitas a duríssimos fragmentos de quartzo. Tal poesia certamente não poderia expressar-se em linguagem comum, habitual, compreensível. Ela parece escrita em outra língua, uma língua que lembra a nossa como o catalão lembra o português, mas que exige do leitor uma reformulação, um trabalho de síntese, quase uma tradução interlingual. Eric não diz, sugere. Não significa, propõe enigmas. Lê-lo é um trabalho de recomposição poética em que o leitor se vê forçado a admitir que existe uma outra linguagem por trás de nosso idioma convencional.

Ivo Barroso (Tradutor da obra Completa de Arthur Rimbaud. - Organizador da obra Completa de Charles Baudelaire) 

IVO BARROSO - POETA - CRÍTICO - TRADUTOR 

 

Sua tez de poeta perfaz pela tarde - A Voz do Poeta - Eric Ponty

 

 Sua tez de poeta perfaz pela tarde
e se encontra em cada anoitecer
quando o garoto fecha o caderno
e sai da escola e vê uma estrela
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos galhos tocos das árvores mortas
e nos verdes canteiros de margaridas
nos detalhes de pedra dos casarões 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na imensidão do horizonte oculto
na densidade das serras obliquas
nos telhados jamais visto por cima
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na página esquecida de um livro
ou nos versos defeituosos queimados
nas fotografias dos jornais de ontem 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na face do anjo que segura a lanterna
no rosto marcado de um discípulo
mesmo naquela tez saturada de Cristo
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na imaginação de uma madrugada
onde santos e demônios se digladiam
onde pássaros saídos do vôo partem
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no assovio desafinado de um carteiro

no cantarolar de uma menina de azul
na fileira sagrada de uma formiga
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na densidade chapada do cotidiano
no olhar rotineiro e amorfo das pessoas
dos transeuntes em abismo sem remissão 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na densidade do vento sobre as folhas
nas melodias de um piano rotineiro
na contra luz do sol numa janela
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nas ondulações das brancas nuvens
na sua cor claro escuro no horizonte
no azul mais profundo marinho céu
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no olvidar no ouvido antigos versos
e recitar novas e belas efígies alvas
murmurar certas passagens mudas
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no dobre bronze dos sinos antanhos
no repique do repicar na surdina
no encontro fortuito de dois enterros 
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos relógios que pararam de sofrer
nas lapides que cessaram de lembrar
no ruído árduo que sai do presente 
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos lábios rubros e quentes amados
da amada que se deixa de ser amada
e da musa que adentra a rua vazia
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
e dialoga com o voo dos pássaros
que livres se distanciam desta urbe 

e se fundem na superfície do céu
seu semblante está em sua tristeza.  

Toda sua tristeza nasce do semblante
E nele está inscrita a filigrana da tarde
o voo proscrito dos pássaros que rugem
o gozo agônico e enternecido de musa
na tez de poeta que perfaz pela tarde.
Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, outubro 25, 2026

Burlesca - Palhacinhos na Gangorra" - Alexandre Schubert - Compositor - Poeta Eric Ponty

Sábado será a estreia de "Burlesca", para trompa solo no concerto do Prelúdio 21. Escrevi para o trompista e amigo de longa data Sávio Faber a partir de uma imagem e uma poesia de outro amigo, o Eric Ponty. A poesia está publicada no livro "Menino retirante vai ao circo de Brodowski" em que o Eric escreve sobre quadros do grande Portinari. É uma peça de caráter circense, baseado na poesia/quadro "Palhacinhos na Gangorra". O concerto será no CCJF, Centro Cultural Justiça Federal, às 15:00, com entrada franca e terá obras dos amigos do Prelúdio 21: Caio Senna, José Orlando Alves, Marcos Lucas, Neder Nassaro e Pauxy Gentil-Nunes.

  

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

DIE FACKEL - NR. 2 WIEN, MITTE APRIL 1899 - KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY

Caro camarada Kraus, 

ainda se lembra daquela noite em que me desabafou sobre o seu sofrimento e, gemendo, exclamou que lhe era vedado dizer o melhor que acreditava poder dizer, e que estava cansado de, repetidamente, gozar com os erros de estilo do ministro da Agricultura — de dizer as coisas como elas são e de esperar, dessa forma, poder ser útil ao seu país, à sua cidade e à sua classe social. Tal como as coisas estão hoje, isso só se pode fazer sozinho. Nas peças de Ibsen «A Aliança da Juventude» e «O Inimigo do Povo», pode aprender quais as considerações que qualquer proprietário capitalista de uma fábrica de opinião tem, e deve ter, — nomeadamente em relação aos detentores do poder local, que estão mais próximos do que os poderosos políticos e com quem se cruza com muito mais frequência. Só quem não tem segundas intenções políticas, sociais ou de natureza social pode dizer tudo isto. Experimente com confiança! Será que a sua força é suficiente? Isso só se revelará no próprio trabalho. Tem de sair do ambiente dos cafés, onde encontrou a sua sátira preferida, «A Literatura Demolida»; caso contrário, apesar do seu grande talento e da invejável frescura do seu humor, corre o risco de cair na monotonia. Tem de, como se costuma dizer tão bem nos jornais, bater as asas com mais vigor. Encontrará ajudantes, companheiros de viagem ou, pelo menos, aqueles que gostariam de voar consigo; pois é grande o número de homens e mulheres que procuram um lugar onde possam expressar livremente a sua última palavra. E se não der certo — eh bien, então terá, pelo menos, avaliado a sua própria capacidade e estará, tal como outrora o Battenberger, mais rico numa experiência interessante.<<
Bem: parece que está a correr bem. Tenho aqui à minha frente o primeiro número da «Fackel»; parece-me um começo promissor e o sucesso, como me escreveram amigos de Viena logo após o primeiro dia de vendas, está, pelo menos por enquanto, garantido. Espero que isso não o torne vaidoso. A vaidade é a primeira hipoteca sobre a honra, disse Bismarck. Mas, se a minha impressão não me engana, o senhor não tem qualquer talento para tal vício. Isso é bom; pois um conhecido comum acabou de-me informar que o senhor já vendeu quase trinta mil exemplares. Todo o respeito pela demanda literária vienense! Não se preocupe: o senhor não se tornará arrogante. Ainda tem muito a fazer, muito a melhorar, a aprender, a rever. Não sei, nem posso saber, se as situações e as pessoas que o senhor ataca com espírito e humor são realmente tão más como a sua pena afiada as descreve. Nas suas realizações, a imprensa vienense está, de facto, infinitamente acima da berlinense. Vocês têm — para falar apenas da secção cultural e citar os nomes que me vêm à cabeça neste momento — grandes talentos como Speidel, Hanslick, Gelber, Wittmann, Goldbaum, Groß, Herzl, Hevesi, J. J. David, Bahr (sim: não se surpreendam, apesar de todas as excentricidades e máscaras, também o Bahr!), Chiavacci, Poetzl e muitos outros; contam com talentos jornalísticos de primeira linha, como Victor Adler e Austerlitz (considero o «Arbeiter-Zeitung», independentemente do ponto de vista político, o jornal mais bem editado na língua alemã) e, nos vossos jornais, não se permite que a incompetência provinciana se espalhe, como acontece nos nossos. E quanto à «corrupção e ao clientelismo», de que se queixam?... Provavelmente não é diferente do que se vê noutros lugares. Os vienenses que vêm até aqui dizem-me sempre: «Sim, aí há menos talentos, mas mais personalidade!» Meu Deus!... Mas a incompetência, vista de longe, costuma parecer muito cheia de personalidade e convicção. Espero que vocês aprendam cada vez mais a reconhecer que os males provêm da instituição, não das pessoas. Desde que o jornalismo se tornou uma atividade gerida pelo grande capital, um negócio lucrativo dirigido por pessoas alheias à profissão, que lhe indicam o caminho de acordo com os seus interesses particulares, tornou-se exatamente o que tinha de se tornar. Tudo isto já foi dito e previsto por Lassalle muito melhor do que eu seria capaz. No seu país, pelo menos dois grandes jornais — talvez sejam mais —
dirigidos por escritores, a sério, e não apenas aparentemente; não acha que, para alguém com sensibilidade literária, a compreensão com Bacher e Benedikt ou com Adler — menciono aqui estes três senhores, que pessoalmente têm certamente naturezas bastante diferentes, apenas como potências literárias reunidas — é mais fácil do que com Mosse, Lessing, Ullstein e outros proprietários de grandes «plantações de opinião» berlinenses? Por favor, tenha isso em mente e trate com toda a delicadeza os eventuais pecadores! O que devem fazer, afinal, os meios e quartos de talento? Eles rastejam para onde está quente. Temos de tentar fazer com que o trabalhador jornalístico deixe de estar separado dos meios de produção, que dirija efetivamente os jornais que escreve e não seja obrigado a proclamar duas vezes por dia, com grande veemência, aquilo em que não acredita. Caso contrário, chegaremos muito rapidamente a uma situação à americana e o jornalismo — para o qual hoje já as notícias e as reportagens são mais importantes do que o estilo, a competência, o conhecimento especializado e a convicção — deixará completamente de ser um ramo da literatura. Quando os jornalistas, que «por natureza não são piores do que os outros filhos da Terra», perceberem que: que é possível viver fora do sistema de suborno, que se pode dizer o que se pensa, chamar um gato de gato sem receio, então unir-se-ão, sacudirão o jugo, renunciarão aos direitos de tributo a que agora recorrem para melhorar as suas finanças, deixarão de pagar ao seu alfaiate e à sua amante semanal com bilhetes gratuitos, e deixarão de fazer publicidade para colegas impotentes «colegas, e deixar a escrita de peças, a tradução e a edição para aqueles que não exercem o papel de juízes nas disputas literárias e teatrais. Só assim poderemos ter uma imprensa limpa e eficaz, uma que seja mais do que um caixote do lixo de notícias ou um alimento temperado à pressa para nervos cansados e da qual se possa falar bem em congressos, sem que os augures se riam por dentro, com as mãos bem gordas, durante os magníficos discursos.

Por isso, regozijo-me com o vosso exemplo, regozijo-me com a vossa coragem e com a vossa energia jovem e fresca, que, na primeira edição da «Fackel», se descarrega com a intensidade de uma pantera, em fúria e escárnio. Mantenha-se firme; quando as pedras nos forem atiradas de volta com violência, guarde-se da amargura e, no meio do alvoroço literário e das disputas jornalísticas, não se esqueça dos grandes temas do esforço humano, nem das relações económicas que tudo explicam e tornam tudo perdoável... Rothberger é, afinal, um tema melhor do que Julius Bauer (de quem, aliás, só conheço algumas piadas más, mas eficazes, contadas por Bönhase) e, na Áustria — pelo menos assim me parece, à distância —, há tarefas ainda mais importantes do que dar um tapinha nos dedos manchados de tinta de palhaços desprezíveis... Não pense, de forma alguma, que subestimo esta tarefa! Se eu não considerasse o seu esforço meritório, nem a luta higiénica contra a contaminação do terreno que se estende entre a literatura e o teatro necessária e útil, então não lhe teria escrito, com uma neurite no meu braço direito pecador, uma carta tão longa que — conheço bem os editores de novos jornais! — acabará por publicar. Queria apenas alertar para o perigo de um estreitamento do horizonte. Com os melhores votos para si e para os seus planos ousados, aos quais desejo um vasto campo de ação e uma forte repercussão, permaneço-lhe cordialmente dedicado,

 Maximilian Harden.

 

   POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, outubro 24, 2026

RITO DE PASSAGEM OU EXAUSTÃO DO POSSÍVEL - ERIC PONTY

 PARA ANTÔNIO TORRES

I
Pomposo dia desses calham nas sombras, 
desses cintilam, nas tumbas dos jazigos, 
dessa angústia longo céu fundiu os logos! 
O lar, desse sempre mármore do lar! 

Após que do penar, quais dessas tumbas, 
protegeu do espectro vivos desafrontas! 
da coragem duro fim que se acostuma 
do pequenino véu mausoléu apruma.

A silente fronte céu apascentar! 
Sobre admirar-se à luz quando recusa 
da ópera de vasta eterna dessa lousa, 

Ó templo anima dormido suspirar! 
Assente douro, missas que desta erva, 
calmas das Minas, quisto nos reserva.
II
Soberbo desse véu pascido do mundo,
grande do pouso! Do céu ascende chama, 
do meu solene! Casa a pascer calma, 
soberbo doura mil igrejas, Minas! 

Estação da morada, aspira luto, 
se qual duma pena aprumo que costumo, 
tudo resguarda olhar vazio do culto,
qual desse Altíssimo entre ser assuma. 

Da cintilação alastrar-se tão serena,
do pobre desdém de se ouve tão amena, 
desse tão fundido bronze ulterior cena. 

É feito encanto altera estratosfera,
do qual fera a boca sino do fastio. 
E deu som vero brônzeo desse fundo.
III
Da alma conduz-se empíreo desse sopro, 
das rumorosas dores do murmúrio
vazio do véu vagar-se à terra altera, 
após do bardo esguelho do entranhável.

Repudia do que intenso passo ao espaço, 
das solenes já das casas sombras passo,
da réstia total cabal ilusão,
tragando grácil ser consumição,

Dos cedros de expostas folhas do fastio,
reprimir das pujanças dos indícios, 
quais dessas cruzes clamam por piedade! 

Renda se dedica clima da pureza: 
De que se aspira!...Cruz junto à rudeza, 
suposto ombrear da triste da igualdade!
IV
Ô para ser, de ser si mesmo toado,
nasce declive, do imo desse próximo, 
desse que via que invade do mais todo, 
de que oferto eco minha voz fraterna.

Sombra de azeda, tez dessa quimera, 
que atear-me da calma do soturno! 
Sombra da falsa imagem da ramagem, 
Esplendor dessa fronte da linguagem.

São meus ateados visos estimados,
quais das visões que perdem fins ruidosos 
Da Minas de terra pascem destes ósseos? 

Fagulha jaz trespassa ausentados. 
réstia soberba plena do folguedo, 
estilhar do terrestre à voz saciado. 
V
Eva me deu domínios destes cedros, 
mesclada pedras, marmo sombrios mundos, 
fardo de maçãs trêmulas das árvores; 
jazem tangendo escura luz sepulta! 

Impura escura idólatra dos mármores, 
É solitário canto do pastor, 
perpétuos dos carneiros sentenciosos, 
tamanho gritos mortes desses horrores.

Distantes dos ausentes em penumbras, 
hinos altivos, sons tanger ruidosos,
daqui da escura à terra dos auxílios.

Aqui futuro que arde mais da usura, 
quais ranger voz isenta do futuro, 
tudo que parte, e, arde, aceita, e cura.
VI
Não dê severo passo da existência,
maça largada espírito rendido,
morte devassa livre permanência, 
solenes são dos passam foz dos lácios. 

Dos que fornecem secos do degredo,
medial do funéreo, lado desse acerto,
ausentes pensam erro de si ao serro,
credo repleto doa qual do sistema.

Dê sigilosa voz inanição,
não faz contenham ossos dos fulgores, 
remorsos, réstias cores da paixão.

As consequências dão vastos haveres,
quaisquer ocasos vindos dessas árvores,
passarem marmo látego dos cárceres.
VII
Seres das sombras tramam-se das dores,
são breves vozes hinos dos alvores, 
fundiram ser cerrado dessa murta,
vermelha argila traga à tíbia luta.

Vértebras dessas lousas tão idênticas, 
tíbia findada fia fragmento a terra! 
Vozes transeuntes pascem mansões margens, 
ritos das minas, sol pálpebra ilhada.

Tudo houve sobre esvai terra foi fogo,
danças das tíbias, crânios pascem relvas,
olhos tão vivos, faces desafogos.

Veio enlevado teceu luz do jogo, 
do douro que brilhou serros fenderam, 
dos últimos tons, ogros que correram, 
VIII
Olhar resguarda quê, da grande palma,
quer desse ajuste dores ainda silvas,
cores tão vivas, palmas tão vibradas,
tudo nos foca! Poros passam dos silvos.

Impaciência, Eva pasceu nesses hortos,
acenam quando dão carpem recusa,
que reconhecem tez que lhes repulsa,
tíbia vazia deste ágrafo lenheiro.

Mentira de Eva dos que lhes acusam,
de eternal riso, crânio desse meio,
segredo do degredo da maça ao seio.

Corra do prado! Fuga d´alma acusa,
do cedro confunde vivos nos vazios,
que desconhece traz dos campesinos!
IX
Erva imortal traspassa do serrado,
diluidor desse seio do doirado,
do marmo fez o leito fraternal,
tom do murmuro tece do final! 

De quem lhe bebe essência tão marmórea 
Do corpo vazio de olhar de mineral! 
Profundo dia, das noites inabitadas, 
em indulgências dessas tantas portadas.

Noite difunde véus pasceram mais, 
Da sombra do seixo geme iniludível, 
cedro que está sob lua pasce jamais!
X
Degredo de este ser do que alucina, 
pendor, ardor, lhe trama terá acima? 
Importa nome! Quis fazer do nomeado!
Em quais das lousas quis se convencer!  

A relva pétrea assunta até que encima,
pedra que medra, está não tolhe mais,
pascer dos medos, credos incumbirem,
clima retorna à luz do retornado.

A Luz evade prado condenado!
Ah! Lua... Qual réstia sombra do enluarado
calmos lilases grados evadem mais! 

Senão!  Do turvo não! Senão da via! 
Que luto desses marmo se rondeia 
reluz, conduz que luar pastoreia!
XI
Partam do prado, formas evasivas! 
Carpem do meio à relva desse tempo,
Oh Esplendor, deste luar tão elevado,
Retornar a calma! Céu rubor nublado! 

Grada lua alva, lírios dormitados, 
rubras esferas, zênite formados, 
das mil das mil das palmas tão feridas, 
da suave carne azul, pascer dessa lua.

Da cintilante lua passa retorna 
túmulo paz idêntica dos hortos! 
Tempo descrê!…do lazer jazigos ter!
XII
Tristeza de olhar carpe lua do céu,
justo do fogo queima pelas lajes,
dessa passagem que à lua que pranteia,
nessa marmórea paz tece do douro.

São mansos cantos cânticos tão breves,
que se aplaina da fala deste sempre,
suave da foz que carpe desta lide,
findo coevos poentes de tão leves.

Intensa luz que paz marmo nos traz:
Oh vão vagou mortais das lides vagas! 
Oh vácuo do marmóreo do enlevado! 

Que meditado véu passar do céu,
Dissolvam corpos! Quebrem tíbia alçada! 
Repicar torres calmas destes mortos!

  ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA  

AS CINCO MUSA - A VOZ DO POETA - ERIC PONTY

 I

Corpo de mulher, essência de uma deusa grega
você chega a este meu mundo, com a tez clara,
onde é possível se ouvir no sussurro deste tempo
os cantos de deusas de um dia de outrora Grécia.

Suas mãos são duas alças de um paraquedas  
que não deixa findar na minha solidão poética
que esculpe como a polpa do barro vermelho
cerne da essência da crença deste ocidental.

De mim, desta minha meditação solitária, eu,
deste eu tamanho como as serras de minério 
fundo e ermo, ego fundido no veio da rocha
esculpido no talhe desta pedra ou da madeira.

Na minha perspectiva eu avisto paisagens
planejo caravelas e mares e fados longínquos, 
fundo um dique para que as águas da consciência
não a acobertem com suas marés taciturnas.

Minha voz é um eco cheio de minhas memórias
que perpassa pelo clima frio e seco serrano
que dialoga com os movimentos dos pássaros
e bate lentamente como um sino de bronze.
  
II
      
Você se parece com o mundo telúrico e eterno
seu corpo é como uma ágata rara, de clara lua,
sumo do cantarolar dos pássaros pela aurora,
fundo e murmúrio de um riacho recém nascido.
        
Meu eu indivíduo de transeunte e selvagem 
que procura a polpa da terra e cerne da pedra
esculpindo pela rocha esta forma mais finda
estátua do marmóreo bronze destas serras.
    
Solitário eu meu canto eu estava no horizonte
estava só como um abismo ermo e taciturno
de onde não era possível perspectivar a manhã 
com seus ares de leve e alva brisa entranhada.

Em meu peito se acasalaram os pássaros
e a noite adormeceu como uma jovem morena
enquanto lá fora sussurrava o tanger da aurora
e o meu canto era o repicar de uma picareta.

Ah musas claras deste meu panteão sem Apolo,
de onde sobreviver é a grande Odisséia humana
e as rezas são apenas ecos de um dia terminado
eu me ajunto e me uno a este seu chamado.

III

Eu estava meditando só por entre os pássaros
e estes levantaram vôos levando consigo o meu eu
fundiram-se o azul céu como sua tonalidade
este fundo e forma essências do mesmo horizonte.

Em mim se fez uma noite tão escura como o breu
na imensidão deste fundo infinito havia os ecos
o rugir das estrelas e das constelações mortas
enterradas sem epitáfios dentro dos negros buracos.

Na imensidão deste meu eu tão noturno e só
não tangia o seu corpo moreno de tez clara
este branco leite de uma via-Láctea sucumbida
que em mim se fez como uma canção poderosa.

Ah musas eu quero sobreviver às suas setas
forjar minha uma nova essência desta alma  
como um sobrevivente de uma batalha abissal
fazer meu neste cantar tão presente do agora.

IV
 
É rubra e de cabelos de um milharal ao sol
de amarelo rumor que tange pelo cotidiano
de tez dissimulada e de palavras de ternura
numa verde praça de um Barão qualquer.

Tenho receio da ação do tempo e das horas
que possam em seus ponteiros ferir sua tez
ofuscar estes cabelos amarelos que douram
ao sol do tempo ao refletir esta minha solidão.

Quero o verbo hermético, de fundo marinho,
velado livro de um Valéry de um cemitério,
onde uma flecha zênica paira no ar estático,
como um sol sem movimentos ao meio-dia.

V

Perplexo e solitário eu estava só num beco
e este meu eu escapou de mim como ave,
um pássaro negro que adentra no espaço,
este não traz o agora da guerra, a poesia
que perpassa como um sussurro ao ouvido.

Este eu forjado pelas entranhas noturnas
pode dialogar com o eco da noite e tanger
com a aurora, por uma fina e tênue brisa,
que se lança como raio de eco de um galo
pelo delineamento e linhas de uma serra.

Na solidão apareceu-me como uma deusa,
como de um oásis de um deserto olvidado
e narravam antigas histórias sucumbidas,
de onde seu nome era recitado como salmo.

ERIC PONTY

  

   POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quinta-feira, outubro 22, 2026

Dessa legião de anjos azuis? - ERIC PONTY

 Talvez, se dirigir-te a verbo, te sintas esfalfado,
E, no entanto, domar, quem o poderá
Contra essa legião de anjos azuis?

Pois a veracidade é que ponderaste os influentes,
Avigoraste as mãos consumidas;
Contra essa legião de anjos azuis?

Tuas expressões içaram o que já sucumbia,
E ampararam os joelhos dos que iam despenhar-se,
Contra essa legião de anjos azuis?

Agora, que a martírio desceu sobre ti, estás esfalfado.
Na ocasião em que ela se vexa, nada mais podes improvisar,
Contra essa legião de anjos azuis?

Teu dó não é a tua fiúza,
Tua expectativa e a justiça em tua passagem
Contra essa legião de anjos azuis?

E no entanto, pensa, quem é este que feneceu casto?
E onde estão as criaturas justas que foram aniquiladas?
Por mim, vi que os obreiros da perversidade
E os que disseminam a amargura, acolhendo o dano,
Contra essa legião de anjos azuis?

Pelo sopro de Criador são extintos,
E acabados ao sopro do seu mordexim.
E os dentes já não valem coisa alguma,
Contra essa legião de anjos azuis?

Quanto a mim, senti acercar-se uma denúncia furtiva,
E meu escutado apreendeu um som inaudível.
Nos axiomas das visões noturnas,
Quando um intenso letargo achata as criaturas,
Contra essa legião de anjos azuis?

Um pavor, um latejo me fascinaram
E comoveu todos os meus artifícios;
Um sopro resvalou sobre a meu semblante,
A penugem dos meus restos mortais se franziu,
Contra essa legião de anjos azuis?

Então a sombra se içou, e não perfilhei seu semblante,
Que permanecia numa visão diante dos meus olhares;
Ouvi um estrondo estrangulado e uma voz:
Dessa legião de anjos azuis? 

ERIC PONTY

 

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

UMA MULATINHA... - Stéphane Mallarmé – Trad. Eric Ponty

 

Uma negra que sacudida pelo demônio;
Quer provar, como uma criança triste, frutos novos;
E também criminais sob sua veste rasgada;
Glutona se prepara para tarefas astutas:

Ao seu ventre, feliz, compara dois mamilos;
E, tão alto que a mão não consegue alcançar,
Ela lança o golpe obscuro de suas botas;
Assim feito dalguma língua esquerda ao prazer.

Contra a nudez medrosa então dessa gazela
Que treme, deitada costas feito elefante louco;
Deitada de costas, espera e se admira com zelo,

Rindo com seus dentes ingênuos de criança;
E, entre suas pernas, onde a vítima se deita,
Erguendo uma pele negra aberta sob crina,
Avança o palato dessa boca tão estranha,
Pálida e rosada como concha marinha.

Stéphane Mallarmé – Trad. Eric Ponty
  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

terça-feira, outubro 20, 2026

Eu, Doutora, não sou algum banqueiro - Eric Ponty

ERIC3PONTY@YAHOO.COM  

Eu, Doutora, não sou algum banqueiro,
Que viva de guardar alheia grana;
De tosco fato, d ’expressões passageiras,
Dos frios beiços, e dos sóis tão amado.
Tenho próprio missal, e nele avisto;
Dá-me vinho, saliva, fruta, azeite;
Das alvas ovelhinhas tiro há efígie,
E mais as finas lãs, de que me avisto.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu aspecto numa fonte,
Dos anos inda não está fartado:
São pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a foz celeste;
Nem falo letra, que não seja minha,
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos fortes da aventura,
Só apreço lhes dou, gentil Doutora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser penhora.
É bom, minha Doutora, é bom ser dono
De um antanho, que cubra livro, e prado;
Porém, gentil Doutora, o teu agrado
Vale mais q’um Lenheiro, e mais q’um trono.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa afetuosa, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos morena
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Doutora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os prados levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, a nédia grana.
Já destes bens, Doutora, não conciso:
Nem me cega a paixão, que o fundo arrasta;
Para viver feliz, Doutora, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Irás a divertir-te na capoeira,
Sustentada, Doutora, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta joga jogadores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Depois de nos ferir a mão da sorte,
Ou seja, neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas expressões os senhores.

I

É gentil, é Doutora a minha Altéia;
Das tranças, a modéstia de seu rosto
Que inspiram no meu jeito maior gosto
Que ver o próprio verso quando ondeia.

Mas, lendo o lindo peito de Dircéia
A nova sujeição me verso exposto;
Ah! que é mais jocoso, mais decomposto
Que a pura esfera, de anil astros cheia!

Prender as duas com grilhões estritos
Se uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres gestos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de escrito dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

II

Num fértil seio de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Formosura mostrava
Com alegre expressão o seu tesouro.

De uma parte, um montão de prata e ouro
São letras de valor o pão curvava;
Daqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grana e louro.

- Findou – diz-me então – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna as concedo, vai, da cura.

Escolhi, acordei, e não vi a fada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca passa há passar de ser sonhada.

III

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Sendo acreditei às vezes, que cri, Ormia,
Que a tua singeleza então igualaria
A tua mais que angélica pura aparência.

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Se para ao menos conheci que não devia
Pôr nas mãos de uma externa galhardia
Desse prazer, o sossego e a inocência.

Enganei-me, fatal, com teu semblante,
E nada me admiro musa de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdeste mais em me enganares:
Que tu não acharás se um firme amante,
E eu posso então traidoras ter milhares.

IV

De ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama furtar no feito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não olhares meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Desconheço ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que está alma sente.

Talvez que então bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é farta,
Por inocente assim melhor lhe assista;

Pois quando só na ideai ma retrata,
Debuxa dos fortes com que prende a vista,
Camufla as obras com que ofende, ingrata.

Eric Ponty

 

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

TRÊS LIEDS À MEMÓRIA DE NUNO JÚDICE - ERIC PONTY

 P/ MARCOS LUCHESI

Somente terrível príncipe do piano,
Somente piano reconhecia,
Nosso pianista o Salvador das almas,
De irreprimível cultura espumava.

Poderes infernais de que dispunha,
Das paixões, dos desejos, dos errares,
Para cantar sem trégua contra a lua,
De senda de alva da sabedoria.

Podes fundar os que escreve a si mesmos,
Do pecado desse egoísmo que há no fundo,
Ora pelas palavras lisonjeiras.

Relataram desse noturno combate,
Vê sempre refletida a própria foz,
Deves te concentrar em ser o que és…

II

Dos dez anjos do azul se aproximaram,
Vindos da fronte deles Atavada,
Do pecado desse egoísmo que há no mundo,
Deixa que os outros andem nessas turras.

Se fala responder-lhe: Tu somente
Podes fundar os dizem de si mesmos,
Falarei aqui o que os antanho livros,
Ver sempre refletida a própria face.

Pela dúvida ou pela zombaria,
Tramou desviar o espírito da Lua,
Para lutar sem trégua contra a voz.

Se somente há Lua reconhecia,
Por gemidos de amor ou de luxúria,
Ou pelo terror, ou pela da cultura.

III

Se com poesia e com ritos ludibria,
Melhores que encontramos sobre a terra,
Mulheres que encontramos sobre a farra,
Acariciavam o seu corpo imóvel.

Durma gentil coorte de figuras,
Mais inebriantes do que forma a terra,
Refrões de amor ressoavam lhe aos ouvidos,
Prova os meus lábios, provam a minha boca.

Quanto mais valia a cultura do palácio,
Retorna para mim, sir Nuno Júdice,
Que a lida tem, se olvidar de viver.

Eu não posso haver tão longe de ti,
De tão abrasado louvor de saudade,
Das tempestades turras ribombando.

   ERIC PONTY

segunda-feira, outubro 19, 2026

Café da manhã - Jacques Prévert - Trad. Eric Ponty

 Ele colocou o café
Na xícara
Ele colocou o leite
Na xícara de café
Ele colocou o açúcar
No café com leite
Com a colherzinha
Ele mexeu
Ele tomou o café com leite
E colocou a xícara de volta no lugar
Sem falar comigo

Ele acendeu
Um cigarro
Ele soltou fumaça
Com a fumaça;
Ele colocou as cinzas;
No cinzeiro;
Sem falar comigo;
Sem olhar para mim;
Ele se levantou;
Ele colocou;
Seu chapéu na cabeça;
Ele vestiu;
Seu casaco de chuva;
Porque estava chovendo;
E ele saiu
Sob a chuva
Sem dizer uma palavra
Sem olhar para mim

E eu coloquei
A cabeça na mão
E chorei.

Jacques Prévert - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

CÂNTICO DA MORENA ALVA NUM SÓ CÂNTICO - ERIC PONTY

 Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu
amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o unguento
derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
Leva-me tu; correremos após ti…

 

Os arrebatados se deleitam um com o outro.
Os enlevados se elogiam recíproco.
O elogio tem o poder de demudar as pessoas.
Estar junto gera admiração, esperança e alegria.
Afastamento gera frustração e medo.
O amor deve se adolescer fluente e sem coação, e a plena
familiaridade física deve esperar pela ocasião certa, 
pelo lugar certo e pela pessoa certa morena alva.
O amante elogia a beleza formidável de sua amada.
Aos olhos do amor, ele não vê nenhum defeito nela.
O prazer que sente por ela aviva sua paixão e seu desejo por ela.
Ele a respeita e aguarda sua participação voluntária em
seus momentos de amor morena alva.
A demora em atender às indigências ou aos desejos 
do consorte pode levar à separação morena alva.
Valorizar a pessoa amada motiva a reconciliação.
A confiança no ajuste mútuo traz segurança em ocasiões difíceis.
Maravilhados e tomados pelo amor, os arrebatados veem a beleza
e a excelência de seu amado como algo que supera todas as outras.
Os enlevados acham prazer em se confiarem um ao outro.
Viver de acordo com a ordem de Deus reduz a disfunção
que brota de ignorar essa habite se.
O relacionamento entre um homem e uma mulher não pode ser
forçado; ele deve se adolescer a seu jeito e no seu próprio ritmo.
Limites e obstáculos sociais podem frustrar o amor.
O amor deve ser dado livremente; não pode ser comprado.
O amor é tão intenso e tão irresistível quanto a morte.

Que me beije com os beijos de sua boca! 
Em verdade, o teu amor é mais doce que o vinho,
Do que o aroma do teu óleo precioso. 
Óleo de saliva morena é o teu nome.
Por isso as moças te invejam morena alva.
Leva-me contigo, vamos correr!
Leva-me para seus aposentos,  
Vamos exultar e nos alegrar em ti.  
Vamos saborear teu amor mais do que o vinho,  
Com razão elas te invejam morena alva.
Se sou morena alva e bela,  
Ó moças de São João, 
Como as lendas do Lenheiro,  
Como eram os pavilhões do Matozinhos.
Não me olhem por ser morena alva, 
Pois o sol me escureceu ao meio-dia.
Os filhos da minha mãe ficaram indignados comigo, 
Me fizeram guardiã do Lenheiro; 
Mas a minha própria vinha eu não guardei.
Diga-me, meu amado, 
Onde você se olvida? 
Onde você recolhe as luzes ao meio-dia? 
Para que eu não seja como uma mulher velada 
Dentre os Lenheiros dos seus companheiros. 
Se você não sabe, 
Ó mais bela das mulheres,
Siga os rastros das ovelhas, 
E pesteie seus pacientes
Perto das cabanas dos pastores.
Duma égua da cavalaria do Faraó 
Eu te compararia, minha querida.
Suas amuras adornadas com pulseiras, 
Seu pescoço com contas.
Faremos para você pulseiras de ouro, 
Com lantejoulas de prata.
Enquanto estava em seu leito, 
Meu nardo exalava seu perfume.
Um feixe de mirra é o meu amor para mim, 
Entre meus seios ele repousa.
Um ramo de cipreste é o meu amor para mim, 
Dos jardins do Carmo,
De fato, tu és bela, minha amada morena alva, 
De fato, tu és bela morena alva.
Teus olhos são pombas.
De fato, tu és bela, meu amor, 
Sim, agradável.
Nosso leito é luxuoso porquê há te pertence.

Se não sabe, a mais bela das mulheres,
Siga os caminhos das morenas alvas com lábios de vinho,
Deixe seus lábios pastarem junto às lendas dos Lenheiros.
A uma água dentre as carruagens de outros tempos,
É a isso que eu te comparo, minha querida.
Suas amuras são sedutoras com brincos,
Seu pescoço com colares de joias.
Faremos para te brincos de ouro,
Incrustados de prata.
Como uma maçã entre as árvores do bosque,
Assim é minha amada dentre as jovens.
Na tua sombra, delicio-me em sentar-me,
Teu fruto é doce ao meu paladar de morena alva.
Me levaste à casa do vinho,
E tua intenção para comigo é o amor.
Refresquem-me[a] com passas,
Revigorem-me com maçãs,
Pois estou fraca de amor.
Teu braço esquerdo está sob minha cabeça,
Teu braço direito me abraça.
Quero que prometam,
Ó jovens do alvorecer dos lábios da morena alva,
Pelas gazelas e corças do campo,
Não perturbem,
Não despertem o amor,
Até que o deseje.
Minha amada responde, dizendo para mim:
“Levanta-te,
Minha querida, minha bela, morena alva
Vem!
Olha!
O inverno já passou,
As chuvas já finalizaram.
Tuas flores surgiram na terra,
Chegou o tempo do canto da morena alva,
O arrulho da rola se ouve em nossa terra.
A figueira amadurece teus frutos jovens de saliva de vinho.
As videiras florescem com fragrância do teu cheiro moreno alvo.
Levanta-te,
Minha amada, minha beldade, morena alva,
Vem!
Minha pomba nas fendas da rocha com estria,
Nos penhascos do precipício dos teus lábios rosas,
Deixa-me ver tua forma,
Deixa-me ouvir tua voz,
Pois tua voz é doce,
Pois tua forma é desejável morena alva.”
Minha amada é minha,
E eu sou dela morena alva,
se alimenta entre os lótus.
Até que a brisa do dia sopre amenamente,
E as sombras se dissipem dos teus belos cabelos
Volta-te morena alva!
Torna-te numa gazela, minha amada,
Todas as noites, em minha cama,
Tenho buscado aquela a quem meu coração ama,
Tenho buscado por, mas não o achei.
Agora vou levantar-me,
Vou vasculhar a urbe,
Nas ruas e praças,
Vou buscar aquele que meu coração ama,
Eu o busquei, mas não o achei.
Os guardas me depararam,
Aqueles que percorrem a urbe,
“viram aquele que meu coração ama?”
Assim que me afastei deles,
Achei aquela que meu coração ama,
Eu agarrei,
Não soltarei,
Até levá-la à casa de minha mãe,
Ao aposento onde ela me concebeu.
Quero que prometam,
Ó jovens desta urbe que desagua o Lenheiro,
Pelas gazelas e corças do campo,
Não perturbem,
Não despertem o amor,
Até que o deseje.

Que me beije com os beijos de tua boca!
Na verdade, o teu amor é mais deleitoso do que o vinho,
A fragrância dos teus perfumes é afável que uma rubra rosa,
perfume que se espalha, o teu nome pelo meio-dia da tarde; 
por isso as senhoritas te amam.
Leva-me contigo! Vamos correr!
O rei te levará para teus aposentos.
Vamos exultar e nos alegrar em ti!
Vamos exaltar o teu amor, que supera o vinho!
Com razão elas te amam.
Sou negra e bela, ó filhas, 
como as tendas do pavilhão do Matozinhos, 
como os pavilhões dos pavilhões
Não me olhem com desdém por ser morena, 
pois o sol me queimou pelo meio-dia da tarde;
Os filhos da minha mãe ficaram aborrecidos comigo;
me designaram como guardiã das vinhas — 
minha própria vinha eu não cuidei, pois cuidava de ti.

Diga-me, a quem minha alma ama,
onde pasta, onde descansa ao meio-dia, 
para que eu não me torne como aquela que se abriga 
perto dos Lenheiros dos seus companheiros. Se não sabe, ó mais bela das mulheres,
siga os rastros do Lenheiro, 
e pasteje suas rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.
A uma égua das carruagens dos tempos idos
eu te comparo, minha amiga;
Adoráveis são suas amuras com pingentes, 
seu pescoço, com contas;
Faremos pingentes de ouro, 
junto com adornos de prata,
com suas rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.

Enquanto estava em seu recinto 
meu nardo exalava teu perfume de rubras cores.
Um saquinho de mirra é para mim tal qual minha amada;
entre meus seios repousa rosas rubras de pétalas rosas,
Um cacho de henna é para mim tal qual amada, 
nas vinhas de tua saliva rosa.
Como uma macieira entre as árvores do capão,
assim é minha amada dentre as mulheres.
À tua sombra desejo jazer, 
e teu fruto é doce ao meu paladar.
Ele me levou à casa do vinho.
e seu estandarte sobre mim é o amor.
Fortaleçam-me com bolos de passas, 
refresquem-me com maçãs, 
pois estou doente de amor. 
Tua mão esquerda está sob minha cabeça,
e tua mão direita me abraça.
Eu vos conjuro, ó filhas
pelas gazelas e corças dos campos:
Não desperteis, não despertem o amor, 
até que esteja pronto em rubras de pétalas rosas.

Na minha cama, à noite
Busquei aquele a quem minha alma ama,
busquei, mas não o achei.
“Vou levantar-me e correr a urbe; 
nas ruas e nas esquinas 
buscarei aquele a quem minha alma ama.”
Eu o busquei, mas não o achei.
Fui eu quem os guardas depararam 
enquanto faziam sua ronda pela urbe.
“Aquele a quem minha alma ama — viram?”
Mal havia me apartado 
quando achei que minha alma ama.
Segurei não deixei ir, 
até levá-lo à casa de janela aberta de minha mãe, 
ao quarto daquela que me deu à luz!
Eu vos conjuro, ó filhas 
pelas gazelas e corças dos prados:
Não desperteis, não despertem o amor, 
até que esteja pronto em rubras de pétalas rosas.

O que é isso que surge do deserto de minha alma, 
como uma coluna de fumaça?
Perfumada com mirra e incenso 
de todos os tipos de pós exóticos?
Esta é a liteira enviada pelo Rei Salomão; 
sessenta guerreiros a cercam, 
dos guerreiros de Israel.
Todos eles hábeis com a espada, 
treinados para a guerra; 
cada um com tua espada pronta 
contra os terrores da noite. 
O rei Salomão fez para mim
uma carruagem de madeira do Líbano. 
Fez colunas de prata, 
De teu teto de ouro; 
Me deu assento de púrpura, 
interior tecido com amor,
com rosas rubras de pétalas rosas
perto das fendas das serras de rubras cores.

Ah, você é linda, minha amiga,
ah, linda.
teus olhos são como pombas,
por trás do teu véu rubro à janela.
Teu cabelo é um rebanho de cabras,
que desce do Monte do Lenheiro
Seus dentes são rebanho de ovelhas a ser tosquiado,
que sai do banho em rosa rubra de pétalas rosas
Todos em pares, 
e nenhum faltando.
Como um fio escarlate, teus lábios,
e tua forma, adorável;
dum pedaço de romã, sua amura,
por trás do seu véu banho em rosa rubra de pétalas rosas.
Como a torre de Davi, o seu pescoço,
construída em fileiras em rosa rubra de pétalas rosas,
Mil escudos estão pendurados nela, 
todas as armas dos guerreiros. 
Seus seios são como dois filhotes de nardo
os gêmeos de uma gazela,
pastando entre os lírios em rosa rubra de pétalas rosas.
Até que o dia respire no alvorecer de tua tarde à janela,
e as sombras fujam,
irei à montanha da mirra  
e ao outeiro do incenso.
Você é toda bela, minha amiga, rosa rubra de pétalas rosas
e não há mácula em ti.
Comigo, do Líbano, ó noiva, 
comigo, virás!
Desce do cume de Amaná, 
do cume do Lenheiro
das covas dos leões, 
das muralhas dos leopardos.
Tu cativaste meu coração, minha irmã, noiva!
Você cativou meu coração com um (olhar) dos teus olhos.
com uma conta do teu colar rosa rubro de pétalas rosas,
Quão belo é o teu amor, minha irmã, noiva!
Quão mais ameno é o teu amor do que o vinho, 
e a fragrância dos teus perfumes, do que quaisquer especiarias.

Que me beije com os beijos de tua boca morena alva!
No fato, o teu amor é mais aprazível do que o vinho de tua saliva,
Sendo fragrância dos teus perfumes é aprazível,
perfume que se lavra, o teu nome;
por isso as donzelas te amam.
Leva-me contigo! Vamos correr!
O rei levou para seus aposentos.
Vamos exultar e nos alegrar em ti!
Vamos exaltar o teu amor, que é melhor do que o vinho de tua saliva
Com razão elas te amam morena alva…

Sou negra e bela, ó filhas desta urbe, 
como as fendas das serras morenas do Lenheiro,
como os pavilhões do antanho Matozinhos,
Não me olhem com desdém por ser morena, 
pois o sol me queimou no alvorecer do meio-dia,
Os filhos da minha mãe continuar a ser coléricos comigo;
eles me designaram como guardiã das vinhas dos teus olhos azuis
mas a minha própria vinha eu não cuidei pois vi o verde de teus olhos,
Vamos exaltar o teu amor, que é melhor do que o vinho de tua saliva
Com razão elas te amam morena alva…

Se não sabe, ó mais bela das mulheres morena alva…
siga os rastros da grei, 
e pesteie seus cabritos 
perto das tendas dos zagais.
A uma égua das carruagens advindas dos Emboabas 
eu te comparo, minha amiga;
Lindas são as tuas bochechas com pingentes, 
teu pescoço, com contas de douro destas serras;
Faremos pingentes de ouro para ti, 
junto com adornos de prata extraídos do amanhecer da lua.

Macieira entre as árvores da brenha,
assim é a minha amada entre as morenas alvas.
À tua sombra desejo jazer, 
e teu fruto é doce ao meu paladar.
Ele me levou à casa do vinho de tua saliva
e seu estandarte sobre mim é o amor.
Fortaleçam-me com bolos de passas, 
refresquem-me com maçãs, 
pois estou doente de amor morena alva,
Sua mão esquerda está sob minha cabeça tal qual uma fronha alva,
e tua mão direita me abraça no feixe do travesseiro,
Eu vos conjuro, ó filhas de prata extraídos do amanhecer da lua,
pelas gazelas e corças dos prados:
Não desperteis, não acordem o amor, 
até que encontrar-se pronto!

Na minha cama, à noite observo a ciconcrinia da lua morena alva
Busquei aquele a quem minha alma ama,
busquei, mas não o achei.
“Vou levantar-me e ver a urbe; 
nas ruas e nas quinas 
buscarei a quem minha alma ama.”
Eu o busquei, mas não o descobri.
Fui eu que os guardas depararam 
enquanto faziam rondas pela urbe.
“Aquela quem minha alma ama — viram?”
Mal havia me afastado da morena alva
quando deparei daquela que minha alma ama.
Agarrei-me a e não deixei ir, 
até levá-lo à casa de minha mãe,
ao quarto daquela que me deu à luz na ciconcrinia da lua morena alva,
Eu vos conjuro, ó filhas da lua morena alva,
pelas gazelas e corças das pradarias:
Não acordeis, não abrir os olhos o amor, 
até que ele permaneça pronto!

Minha amada é radiante e, da lua morena alva,
destaca-se entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro, ouro puro; 
seus cabelos, folhas de palmeira, 
negros como um corvo.
Seus olhos, como pombas sobre o meio-dia da lua da morena alva
junto aos riachos destas serras Lenheiras,
Seus dentes, banhados em leite, 
bem alinhados.
Suas bochechas, canteiros de especiarias 
que dão flores aromáticas rosa rubra de pétalas rosas,
Seus lábios, lírios do que o vinho de tua saliva
que escorrem mirra fluida de tua saliva de morena alva,
Seus braços, varas de ouro 
adornadas com pedras de Társis.
Seu ventre, uma obra de marfim rosa rubra de pétalas rosas,
coberto de safiras.
Suas pernas, colunas de alabastro 
encaixadas em bases de ouro.
Sua estatura, como a tez do Líbano, 
seleta como os cedros da meia lua a meia noite,
Sua boca é doçura; 
ele é todo deleite do que o vinho de tua saliva,
Assim é minha amada, assim é minha amiga,
Ó filhas de prata extraídos do amanhecer da lua!
Bela és, minha amiga, como Tirza, 
encantadora como de prata extraídos do amanhecer da lua,
impressionante como visões da plumagem duma ave nua
Desvia de mim os teus olhos,  
pois eles me perturbam. 
Teu cabelo é como um rebanho de cabras do alvorecer da lua
que desce das serras Lenheiras.
Teus dentes são rebanho de ovelhas do alvorecer do meio dia,
que sobem da lavagem.
Todos em pares 
e nenhum deles falta.
Como um pedaço de romã, tua bochecha que exala vinho de tua saliva
por trás do seu véu.
São sessenta as rainhas, 
oitenta as concubinas, 
e donzelas sem número —
Única é a minha pomba, a minha perfeita!
A única de sua mãe,
a escolhida daquela que a deu à luz na ciconcrinia da lua morena alva,

Quando as mulheres a veem, elas a louvam; 
rainhas e concubinas, elas a abençoam:
“Quem é esta que surge do amanhecer,
bela como a lua?
Pura como o sol,
inspiradora de admiração como visões da plumagem duma ave nua?”

    

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA