domingo, fevereiro 18, 2018


Jacob Klintowitz - UM RECUERDO DE CARPEAUX

-- Não recordo quem, há muitos anos, contou-me este episódio, mas desconfio de que possa ter sido o crítico de arte Jacob Klintowitz, grande conhecedor de casos pitorescos de nossa história literária.
-- Nas dependências daquela que, em meados do século XX, era a maior e mais respeitada editora do Brasil, a Editora Civilização Brasileira (RJ), comandada pelo saudoso Ênio Silveira, comemorava-se dada efeméride, tão significativa que reunia luminares da inteligência pátria: narradores, poetas, historiadores, jornalistas, todos ligados à casa e, por certo, homens de esquerda, como o próprio editor.
-- Em torno da grande mesa, conversavam, e cada um daqueles expoentes fulgurava com a sua, digamos, pièce de résistance. Entre eles, apenas ouvindo, achava-se o ensaísta e crítico literário Otto Maria Carpeaux. Foi então que um dos presentes, eufórico por sentir-se participante de uma espécie de Olimpo tupiniquim, exclamou, abrindo os braços em cruz: "Imaginem vocês se alguém soltasse uma bomba sobre esta casa. Desapareceria o núcleo da inteligência brasileira".
-- Quando ele acabou de pronunciar seu pequeno e enfatuado discurso, Otto, que era austríaco, judeu, cristão convertido, um tanto depressivo, taciturno e gago, perguntou: "E por... por que... não... soltam?"
 

sábado, fevereiro 17, 2018

Friedrich Rückert: – Ich bin der Welt abhanden gekommen - Gustav Mahler - TRAD. IVO BARROSO


Friedrich Rückert: – Ich bin der Welt abhanden gekommen

Eu me tornei estranho para o mundo
com o qual perdi outrora tanto tempo;
faz muito que não ouve a meu respeito
que pode mesmo achar que já morri.

Para mim é de todo indiferente
que ele me trate como fosse morto.
Nada posso dizer contrário a isso
pois de fato morri para este mundo.

Estou bem morto para o seu tumulto
e descanso num lugar de quietude.
Sozinho vivo no meu paraíso,
no meu amor, nas notas do meu canto.

Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!

Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied
Tr. de Ivo Barroso
P. ERIC PONTY

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Arvo Pärt: Credo for chorus, Orchestra e Solo piano - Hélène Grimaud


OS TRÊS REIS MAGOS - Rubén Darío – TRAD. ERIC PONTY

Eu sou Gaspar. Aqui trago o incenso.
Venho lhe dizer: Vida é pura e bela.
Existe Deus. O amor é imenso.
Todo o sei pela divina Estrela!

— Eu sou Melchior. Minha mirra aromatiza tudo.
Existe Deus. Ele é a luz do dia.
Branca flor tem teus pés em lodo.
E no prazer há a melancolia!

— Sou Baltasar. Trago-lhe ouro. Asseguro-lhe
Que existe Deus. O é grande e forte.
Todo o sei pela lâmpada pura
Que brilha no diadema da Morte.

— Gaspar, Melchior e Baltasar, calados.
Triunfa-lhes amor e a sua festa convida-os.
Cristo ressurgiu, faz-se à luz do caos
E tem a coroam da Vida!
Rubén Darío
TRAD. ERIC PONTY

A Tela do Almirante - Armando Tejada Gomez - TRAD. ERIC PONTY

Amanhece cedo a ele que não dormiu
A véspera, a antevéspera, aquele estrellerío
Do hemisfério norte imutável no céu.

Noite é como o dia: Uma interrogação
Ao absoluto. Adiante está mistério.
No estado fetal do universo.
O mundo limpo. O mar.
O demais é silêncio.

Sobre a mesa, mapas, constelações, notas,
Uma descomunal cartografia das costas ignotas
Roídas pela brisa dos marinhos cegos
Que não sabem onde pisarão, se pisaram
As Índias labirínticas, de extremos
Que não sabem nomear, que não superam,
Movidas perversas correntes dos mares,
Por canais de sombra,
Se é que acaso chegaram, si é que acaso moveram.
Agora está anotando cifras de frequência:
Farinhas, d´agua, sal, tasajo, batimentos,
Algum gado, de aves, baús, ferramentas,
Enfebrecido e só como um deus ao começo.

Cristóvão Colombo. Almirante de nada
Que não seja ao oceano.
Agora já à alvorada. Sírio, implacável e só,
O vendo empalidecer como dum olho do céu.

Aí vai rumo a seu Não. Dia é fantasma.
Não há haver apagado sua lâmpada.
Seguramente nunca voltará a escurecer.
Armando Tejada Gomez
TRAD. ERIC PONTY

DOMINGO NA MANHÃ - Raul Zurita - TRAD. ERIC PONTY

I
Me amanheço
Se rompo uma coluna
Sou uma Santa digo

III
Todo maquilado contra os vidros,
Me chame esta acesa fala-me que não
O ótima Estrela de Chile
Me toque na penumbra beijei minhas pernas
Me hei aborrecido tanto estes anos

XIII
Eu sou o confesso admirar-me na Imaculada
Eu lhe tiznado de negro

As freiras e os padres
Porém eles me erguem suas batinas

Debaixo suas roupas seguem brancas
 —Vem, somos as antigas noivas me dizem

Raul Zurita
TRAD. ERIC PONTY

Poemas de Amor - Miguel Hernandez - TRAD. ERIC PONTY

Por de fora tenho a crosta áspera

… Por de fora
Tenho a crosta áspera,
Porém por dentro tenho
Terna de palmito na alma.
Glorifico o que toco,
Da altura ao animo e graça;
E o que me induz, levando
Está na vitória em que andas.

Para chegar ao Senhor,
Fabrico eternas escalas
Que, sem um arco de dúvidas,
Sobem retas em tua estancia,
E ali já, resultam os cálices
E anjos de bronze e âmbar.

Muitos olham a minha altura,
Não pôr os bens nos guardam,
Senão pôr os que gotejam,
O maná de mel e de pasta.

Bem-aventurado daqueles
Que sem fiar-se meus ramos
Nem meus frutos cheguem a mim
Só por amor, por ânsia
De temerem e de olhar-me
Com enamorada da cólera!


Miguel Hernandez
TRAD. ERIC PONTY

CHARLES BAUDELAIRE - SONETOS - TRAD. ERIC PONTY

Correspondência 

Natureza é um templo onde viventes pilares
Deixam às vezes sair de confusas palavras,
Homem passa defeitos das florestas símbolos
Que se observou com teus olhares familiares.

Como longos ecos de longe se confundem
E uma tenebrosa e uma profunda unidade,
Vasta como à noite e como claridade
Os perfumes, as cores e sons correspondem.

Estão em perfumes frescos como claras crianças,
Doce como oboés verdes como pradarias -
E de outros que se corrompem ricos triunfos.

Possuem à expansão das coisas infinitas,
Como âmbar, almíscar, beijoim, incensos,
Que cantam transportes da alma dos sentidos.

Há uma passante

A rua ensurdecedora à volta do meu uivo,
Longa fina em grande mortal dor majestosa
Uma mulher passa de uma mão faustosa
Erguendo, balançando festão e debrum.

Ágil e com nobreza tua perna de estátua,
Meu eu bebo crispado como um extravagante
Em teu olhar, céu lívido onde brota furação
A dor que te fascina e o prazer te mata.

Um clarão.... Pois à noite! -   fugitiva beleza
Onde olhar me faz súbito renascer
Nem te verei eu mais que uma eternidade?

Alhures longe aqui! Bem tarde! Jamais será!
Porque ignoro onde vais, tu não sabes onde vou
Ô tu possuis amada. Ô tu o que sabes!

Albatroz

Às Vezes a distrair os homens equipagem,
Prendem do albatroz vastos pássaros mares,
Que segue indolente companheiro de viagem
Um navio escorregadio sobre abismos amargos.

Á pena ele tem deposita sobre às tábuas,
Que estes reis do azul sem jeito vergonhoso
Deixando lamentável tuas grandes asas brancas
Como remo puxado nas tuas costelas.

Passageiro alado como ele está sem jeito débil
Ele há pouco era belo está cômico e feio
E um irritado bico com uma torrada goela
Outro mimo coxear revogar teu voo.

 Poeta é semelhante príncipe das nuvens,
Que se assombra tempestade e se ri arqueiro,
Acha-se exilado sobre chão meio toque 
Tuas asas de gigantes impedem de andar.

Elevação

Em cima dos charcos, em cima dos vales,
Das montanhas, dos bosques das nuvens, dos mares,
Por além o sol, por além por estas etéreas  
Por além dos confins das esferas das estrelas.

Meu espírito tu moves por agilidade,
Como um bom nadador se pasmar nas ondas
Tu sulcas alegremente imensidão profunda
Com há duma indizível e de má volúpia.

Esvoaçam longa distância de miasmas mórbidos
Vão te purificar neste ar superior bosques
Como dum puro e divino licor de fogo
É claro enchendo deste espaços límpidos. 

Atrás deste tédio e destas vastas mágoas
Que carregam teu peso existência brumosa
Alegre este pode de uma asa vigorosa
Caem ao versar campos luminosos serenos.

Este onde pensa como as cotovias
Versam céus manhãs pegado livre passagem 
Plana sobre a vida e compreende sem esforço
A linguagem das flores e destas coisas surdas.

Beleza

Eu sou bela ô mortais! Como um sonho duma pedra,
Meu seio donde cada está a magoar volta em volta
E fez para inspirar poeta um amor Eternal 
Na mudez que assim que à matéria se fez verbo.

Me sento no azul como esfinge incompreendida,
Eu uno-me coração negro na alvura dos cisnes,
Eu odeio movimento que desloca das linhas
E jamais eu nem choro e jamais eu nem sorrio.

Poetas em frente minhas grandes atitudes,
Que empresto aos mais vaidosos monumentos,
Calcinar teus dias em austeros estudos.

Tenho para fascinar estes dóceis amantes,
Puros espelhos fazer todas coisas mais belas
Meus olhos, largos olhos claros eternos.

Ideal

Nós nem seremos nunca estes belos vigores,
Produtos avariam nado século vadio,
Estes pés borzeguim os dedos castanholas
Que sabem satisfazer um coração como meu.

Eu deixo Gavarni, poeta destas cloroses,
Teus rebanhos chilreiam belos hospitais,
Pois que eu nem encontro dentre pálidas rosas
Uma flor se assemelha ao meu rubro ideal.

Esta que faz do coração dum profundo abismo,
Estais vós Lady Macbeth alma intenso dum crime,
Sonho Esquilo florindo ao clima destes suões.

Ou tu grande ô noite, filha de Miguel Ângelo,
Retorcerem pacíficos em um pôr bizarro
Os teus dons que formaram bocas dos titãs!

A gigante

Do tempo que a natura em tua verve influente,
Compreendendo cada dia crianças monstruosas,
Gostaria eu amado viver à beira jovem gigante,
Como aos pés duma rainha um gato voluptuoso.

Gostaria amado olhar teu corpo florir com tua alma,
E crescer livremente em teus terríveis jogos,
Prever se teu coração trama uma sombra flama,
Aos humildes nevoeiros que nadam em teus olhos.

Percorrer no descanso tuas magnificas formas,
Rastejar sobre vertente teus joelhos enormes,
E às vezes verão quando dos sois são vós doentios.

Cansar fazer estender defeito no campo,
Dormir despreocupado à sombra de teus seios,
Como lugar tranquilo aos pés de uma montanha.

Perfume exótico


Quando dois olhos firmes tarde calor outono,
Eu respiro o odor do teu seio caloroso,
Eu há vós estendeis a tua margem alegre,
Que te ofuscam o fogo dum sol tão monótono.

Uma ilha preguiçosa onde à natura é dada,
De árvores singulares de frutos saborosos,
De homens de onde os corpos elegantes vigores,
Mulheres de onde olho a tua franqueza admirada. 

Guiado por teu odor levo encantador clima,
Eu vós num porto cheios véus de xadrez,
E tudo é fatigado por uma vaga marinha.

E durante perfumes verdes tamarinheiros,
Que se circulam no ar e enchem as narinas,
Se misturam em minha alma aos cantos marinheiros.
CHARLES BAUDELAIRE
TRAD. ERIC PONTY

OUTONO SECRETO - Jorge Teillier – TRAD. ERIC PONTY

Quando as amadas palavras cotidianas
Perdem seu sentido,
E não se pode aludir nem o pão,
Nem d´água, nem da janela,
E tristeza há haver sido um anel perdido debaixo da neve,
E a recordação uma falsa esperança de mendigo,
E o falso todo diálogo que não sejas
Com nossa desolada imagem,
Há um se olham as destroçadas estampas
No livro do irmão menor,
É bom saudar os pratos e o mantel postos sobre a mesa,
E ver que no velho armário conservam sua alegria
O licor de guindas que preparou a velha
E as maçãs postas a se guardarem.
Quando da forma das árvores,
Há não é senão leve recordação de sua forma,
Uma mentira inventada
Pela turba memória do outono,
E os dias tem a confusão do desvão
Onde nada ascende,
E da cruel brancura da eternidade
Faz-se que a luz escapa de si mesma,
Algo nos lembra a verdade que amamos antes de conhecer:
Os ramos se quebram levemente,
A pomba se plena de adejos,
O celeiro sonha outra vez com o sol,
Acedemos para festa os pálidos candelabros
Do salão empoeirado
E o silêncio nos revela o secreto
Que não queríamos escutar.
Jorge Teillier
TRAD. ERIC PONTY

DON JORGE MANRIQUE - POESIA AMOROSA - TRAD. ERIC PONTY


POESÍA AMOROSA
DE DON JORGE MANRIQUE Queixando-se Do Deus DE AMOR, e COMO RAZÃO É UM COM O OUTRO

Ô mui alto deus do amor,
Por quem minha vida se guia!
Como sofres teu, senhor,
Sendo justo julgador
Em tua lei tal heresia?5

Que se perda ele que serviu,
Que s’olvide o servido,
Que viva quem enganou,
Que morra quem bem amou,
Que valga ao amor fingido?10

Pois que tais sem razões
Consentes passar assim,
Suplico-te que perdões
Minha língua, si, com paixões,
Dizer maus de ti.15

Se és deus de verdade,
Por que consentes mentiras?
Se tens em ti bondade,
Por que sofres tal maldade?
DON JORGE MANRIQUE
TRAD.ERIC PONTY

Alejandra Pizarnik - 3 Poemas - Trad. Eric Ponty

Silêncio
Eu me ligo ao silêncio
Eu me hei unido ao silêncio
E me deixo havê-lo
Me deixo beber
Me deixo dizer

Os náufragos detrás da sombra
Abraçaram a que se suicidam
Com o silêncio de seu sangre
A noite bebeu vinho
E dançou nua entre os ossos de neve.

Animal lançado ao seu rastro mais distante
A mulher nua sentada no olvido
Contudo sua cabeça rota vaga chorando
Na busca dum corpo mais puro.
Alejandra Pizarnik
TRAD. ERIC PONTY

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

François de Malherbe - SONETOS - TRAD. ERIC PONTY

LXXXVII - A MONSEIGNEUR LE CARDINAL DE RICHELIEU

Golpear em nossos medos tenha mais razão,
Grande imo em bom labor sem descanso dado,
Pois que dos teus conselhos França está gerida,
Todos que trabalharam aura de tua cura.

Vão rejuvenescer a velha idade de Éson,
tal como essa Princesa em tuas mãos resinadas,
Vencer dos teus destinos rigor obstinado,
Ao retornarem tez de tua verde sessão.

O bom senso do meu Rei sempre faz prever,
Que dos frutos da paz se preencham de teu império,
E como um semideus ferino adoração.

Mas que um dotado de vista de hoje, o segundo,
Não lhe prometer que ele lhe deva esperar,
Se não nos prometer a conquista do mundo.

Epitáfio a mim mesmo

Vós olhais, passando, a sepultura,
Dum Chefe de Obras que se és precioso,
Que dos mil reis, de que são ancestrais,
Que foi-se menos sons aventura.

Ô que afronta com a natureza,
Que desta iniquidade feita ambos,
Que um momento calado aos olhares,
Que se fez de uma bela criatura!

Nossas dúvidas são da razão,
Destinos ausentes da sessão,
Que deste mundo se fez constrito.

Mas que teus pretextos são tão belos,
E que a terra se escora na sova,
Se não lavrarem destruir a flama.

Epitáfio de fogo Monseigneur Le Duc Dorléans

Mais março que o março de Trácia,
De que do meu pai vitorioso,
Aos reis igualmente gloriosos
Reféns dos primeiros lugares.

Minha mãe surgiu de uma raça,
Tão fértil como semideuses,
Que dos teus fulgores radiantes,
Que mitigam todas às luzes.

Eu sou feito do pó, contudo,
Tantos parques fazem tua lei,
De tão iguais e necessários.

Nada não me saibas evitar;
Saiba mais vulgar corações,
Ao morrer sem murmuração.

Ao Monsieur do Maine, sobre tuas obras espirituais

E teu encanto, com Maine, e falha reconheça,
E, coroados discursos encantam-me muito,
Que mundo de hoje não são mais resto de lama,
Me tenho profanado duma só duma fala.

Eu reconheço o amor, e já quitei teu império,
Não zanguei ao ponto escusa de minha crueldade,
Se da beleza de ambos não são só beleza,
Cujo dourar-me nunca espanta de escrever.

Calista olhar se lástima quase durar,
Desta forte paixão que me ordena-me jurar,
De que tenho em meus versos uma glória eterna. 

Mas, se deste meu juízo não está enlouquecido,
Devo eu estimar tédio me separa dele,
Tanto quanto ao prazer de passar-me por Deus?

LXXVII - A RABEL, PEINTRE, SUR UN LIVRE DE FLEURS 

ALGUNS louvores incomparáveis,
De que nos apela ainda hoje,
Esta obra plena de maravilhas,
Que Rabel acima nos coloca.

Arte supera tua natureza,
E se o meu juízo não é vão;
que flora se conduziu tua mão,
De quando ele fez esta pintura.

São certas privações aos meus olhos,
Dos objetos que eles mais adoram,
De não usar ponto da margarida.

Mas poderia de ser ignorante,
Que duma flor é de tanto mérito,
Que se fez distender do restante.

Ao senhor da Ceppède ao teu livro da Paixão de Nosso Senhor

Eu estimo, Céspede, e honrá-lo, e, de admirá-lo,
Como um dos ornamentos primeiro hoje em dia,
mas que, a tua pluma só dever deste discurso,
Certo , sem lisonjas, não me ousaria ti expor.

 Espírito de Deus, que tua graça se inspira,
naquele sem disfarce à espera de socorro,
Por elevar o nosso imo ao celeste amor,
Que sob um belo súdito escrever tão bem.

Rainha, à sorte da França, de todo o universo,
Quem vê cada dia tanta homenagem diversa,
Em apresentou à musa aos pés desta tua imagem.

Que bem que tua bondade propicie-se a todos,
Eu não reconheço nada, diante desta obra,
Que nunca viste qualquer coisa digna de ti.

XXXI - Soneto

Belos bons edifícios de estrutura eterna,
Soberbo da matéria, e das obras tão várias,
Então mais digno rei se fez deste universo,
Milagres da arte, feita ceder natureza.

Belos parques, de belos jardins, tua clausura,
Que sempre destas flores e folhagens verdes,
Não sem qualquer demônio que acuda invernos,
Dum nunca que se apague agradável pintura;

Lugares que dão ao imo, tão amáveis desejos,
Madeira, fontes, via, assim, dentre os prazeres,
O meu humor está aflito, meu rosto tão triste.

Que estes não estão ao ponto de aflorar das graças;
mas, que não nos importa ao ter não ter Calista,
E o meu eu não verei nada quando eu vir passar.
François de Malherbe
TRAD. ERIC PONTY

Rainer Maria Rilke - die sonette an orpheus - TRAD. ERIC PONTY

I.1 - die sonette an orpheus

Ergueu-se uma árvore. Puro exagero!
Orpheu canta! Digna árvore o escuta!
Tudo se calou. Mas está discreto
Ao sair nova entrada. Aceno mutação.

Animais costume impele esclarecido,
Os soltos bosque desde campo ao ninho,
Mais dar se Senhor não fim ardil,
Um não temor atrasar-se tão silente.

Senão por ouvi-lo. Urrar. Bradar
Parece pequeno dar imo. Onde justo
Nem mesmo oca existe demais abrigo.

Um esconderijo escuro de saudades,
Passagens com quem colunas tremor,
Fizeste a eles um templo audição.

I.2 - die sonette an orpheus

Era quase duma menina acercar mais,
União glória do canto da lira,
Mais luzidia clara conforme primavera
Mais fazia de si mesma leito meu ouvido.

Ao dormir em mim. Todo estava vosso sono,
As árvores hão eu nunca admirei daquela,
Sentia distância sentimento do prado,
Mais cada admiração mim mesmo até dizia respeito.

Ela dormido mundo. Canto Deus que tens.
Tu Senhor concluis que ela não te cobiça,
Somente velado ao lado ser. Vê ganhou sono.

Aonde está vossa morte? Torna isso motivo,
Fizeste ainda tua canção consumada? -  
Onde cais ela ida fim mim? Jovem quase.

I.3 - die sonette an orpheus

Deus crível. Como, porém, diz a mim existido,
Um homem lhe seguiu através estreita lira?
És espírito contrário. Cruzar dois peitos,
Não perseguiste nenhum Templo de Apolo.

Canto que nele ensinou não é ansiado,
Não é cortejo afinal nele ainda alcança,
Canto é sido a favor dum Deus é fácil
Quando, entretanto, nós seremos? Quando vira.

Em nosso ser terra, mas dessas estrelas?
Isso não é jovem que amas caso também,
Voz então branda a vossa boca tu aprendes.

Esquece compreendeste o vertido,
Na verdade, cantas é uma dor sussurrada.
Sussurras o nada. Uma dor vinda de Deus. Um vento. 

I.4 - die sonette an orpheus

Vós sois afetuosas pisar às vezes,
A respiração de vossa não minha
Deixar nela vossas faces se abrirem,
Após tremor dela está novo unida.

Vós venturosas ô vós curadas,
Vosso começo peitos irradiados,
Arco das flechas meta vossas setas
Eterno brilho vosso riso vinho.

Receias de vós não vos sofrer grave,
Atrás uma das terras ponderadas
Grave ser salvo gravidade mar.

Até quando crianças vós plantastes árvores
Tornam graves longe não arcar senhora
Mas de revelar... Mas desobstruir...

I.5 - die sonette an orpheus

Eriges nenhuma calpa. Deixar de rosa,
Só cada ano ao ano será graça louvar,
Porque Orfeu está. Existem metamorfoses
Dum mais um. Nós havemos não afadigar. 

Um nome André. Um para todos esboça
Isso Orfeu quando está tocar. Ele vem mais parte,
Isso não já muito quando taça rosas
Par de dias às vezes ele sobrevive? 

Como ele some temos de vós apreendeis,
Mais quando lhe até também recear que sumir,
Quando temos palavra estar aqui ultrapassada.

Este ele já ali aonde vós não estais seguido,
Lira cordas obrigam a ele não as mãos,
Mais elas escutam quando elas excedem.

I.6 - die sonette an orpheus

Estará ele local? Não é final ambos,
Vindos adultos velhas naturezas,
Experientes curvarem ramos dos pastos,
Quem das suas raízes aos pastos sofreram.

Sigais vós juntos leito não deixem sobre as mesas,
Nem pão ao leite nem aos mortos retiram,
Mas ele jurou misturar-vos abaixo suaves,
Pálpebras cujos olhares viram as sombras.

Teus surgimentos já são todos perceptíveis,
Mas encanto do chão, mas vinda da arruda,
Está lhe tão verdadeiro claro fronha.

Nada pode validar imagem dele grave,
É isso uma sepultura é isso um quarto,
Exalte ele, pulseira anel, mais caneca.

Rainer Maria Rilke
TRAD. ERIC PONTY

O CANTO DO CISNE - Jacobo Fijman - TRAD. ERIC PONTY

Demência:
O caminho mais alto e mais deserto.
Ofícios das máscaras absurdas; porém tão humanas.
Roncam os extravios;
Tossem suas mãos
E descarregam seus golpes
Afónicas lamentações.

Semblantes inflamados;
Dilatação quebradiça dos olhos
No caminho mais alto e mais deserto.

Se irizam os cabelos do espanto.

Há muita luz alada sua inocência.
O pátio do hospício é como um banco
Ao largo do muro

Cordas dos silêncios mais eternos.

Faço o sinal da cruz apesar de ser judeu.

Há quem chamar?
Há quem chamar desde caminho
Tão alto e tão deserto?

Se acerca de Deus em pilchas de psiquiatra,
E suicidar-me minha garganta
Com suas enormes mãos de sarmentos;
E meu canto se enrosca no deserto.

Piedade!


 Jacobo Fijman
TRAD. ERIC PONTY

A ORIGEM DA OBRA DA ARTE - Martin Heidegger - TRAD. ERIC PONTY

ORIGEM significa aqui aquilo de onde uma coisa se procede e por cujo meio o é que é como é. O que é algo, como é, o chamaremos de essência. A origem de algo é a fonte desta essência. A pergunta sobre origem da obra de arte nos interroga pôr ser a fonte desta essência. A obra surge segundo a representação habitual da atividade do artista e por meio dela. Porém como e de onde é que artista é que o que o é? Por meio da obra; pois dizer que uma obra se enaltece ao seu mestre significa que a obra, ante o todo, faz-se que dum artista o ressalte como mestre da arte. O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. Sem, contudo, nenhum dos dois é por si só o que sustem do outro, pois o artista e a obra são cada um em si e na sua recíproca relação, por virtude dum terceiro, que é o primordial, ao saber, é a arte, ao qual o artista e a obra devem este seu nome. Tão necessariamente como o artista é a origem da obra de modo qualificado a como desta é do artista, tão certamente é a arte da origem, de modo há um que caracteriza o artista e sobre tudo da sua obra. 
 TRAD. ERIC PONTY


quarta-feira, fevereiro 14, 2018

LEOPODO LUGONES - TRAD. ERIC PONTY

Delação morosa

A tarde com ligeira pincelada
Que se iluminou paz de nosso asilo,
Apontou-se em teu matiz de topázio 
Duma sutil decoração morada.

Surgiu-se enorme à lua na enramada,
As folhas se agravavam teu sigilo,
E uma aranha nesta ponta dum fio,
Tecia-se sobre o astro, hipnotizada.

Assentado de morcegos nas rochas
Céu à maneira de chineses biombos,
Tuas rodas exangues sobre as pinturas.

Manifestam tua delícia inerte
E nossos pés um rio com jacinto
E corria sem o rumor até à morte.

Amapola

Com a tua saia de velhos brocais,
Se ia Clori saborosa até as trilhas,
Vê-las entre meses amarelados
Se inflavam-se em seus rincões dóceis.

Evocavam fandangos e rondeis,
Nas medias furaste panturrilhas,
E ao sangue pintava em seus círios,
Como duma descendia de encravados.

Só dum beijo.... Vasos resíduos canas,
Se fatigavam em ardente brisa,
Enquanto Clori com fingido nojo.

Sorria ajustando-se da tua camisa,
Brotou lhe duns pequenos partem ao roxo
Deste tremulo coral de teu sorriso.

Camélia

Como se chama do coração de augura:
-Clélia, Eulália, Clotilde – primeiro
Nome com muitos eles como um fino
Cristal, todo vibrante de água pura.

Se incende no claro de tua brancura,
Com diminuta chama, dum essênio,
Carmim. Alma lilial conta ao destino
Românticas novelas da amargura.

No vago perfil donde se destila,
Seu olho negro fatal desola aquela
Palidez. Tuas maneiras tão prolixas.

Como as dessas moribundas e rasas,
Que se cobrem dedos destes anéis,
E se desvivem pôr as sedas claras.
LEOPODO LUGONES
TRAD. ERIC PONTY

Teresa Wilms Montt - Inquietudes sentimentais – TRAD. ERIC PONTY

Na da luz da lâmpada, atenuada pela tela violeta, se desmaia sobre a mesa.

Os objetos tomam duma tintura sonambúlica de delírio doentio; dirias sê que uma mão tísica houvera afagado o ambiente, deixando nele sua languidez aristocrática.

Una campainha impiedosa repete a hora e me faz compreender que vivo, e me recorda, também, que sofro.

Sofro dum estranho mal que fere enfadando; mal de amores, de incompreendidas grandezas, de infinitos ideais.

Mal que me incita a viver em outro coração, a descansar da rude tarefa de sentir-me viver dentro de mim mesma.

Como os sedentos querem à água, assim eu anseio que meu ouvido ouça uma voz prometendo-me doçuras arrebatadoras; anseio que duma astucia infantil se apodere sobre minhas pálpebras cansadas de velar e abrande em meu espírito rebelde, aventureiro.
Assim desejaria eu morrer, feito a luz da lâmpada sobre as coisas, espargida em sombras suaves e temerosas.
Teresa Wilms Montt
TRAD. ERIC PONTY

Rimas y leyendas - Gustavo Adolfo Bécquer - TRAD. ERIC PONTY

Eu sei dum hino gigante e estranho
Que se anuncia noite d´ alma uma aurora,
E essas páginas são desse hino
Cadências que ao ar dilata nas sombras.

Eu quisera escrever-lhe, do homem
Domando o rebelde, mesquinho idioma,
Com palavras que fossem há um tempo
Suspiros e risos, cores e notas.

Porém é vão lutar; não havendo conjunto
Capaz de prendê-lo, apenas ô formosura!
Se tende em minhas mãos nas tuas
Poderiam, ao ouvido, causá-los aos pés.

Salta qual uma voadora
Cruzou, arrojada ao azar,
E que não se sabe onde
Temendo se prenderá.

Folha que d´árvore seca
Deslumbra-se do vendaval,
Sem nada lhe acerte sulco
Onde ao pó retornará.

Gigante onda que do vento
Ergueu e empurrou ao mar
E roda passou e se ignora
Que da praia busca está.

A luz nos acerca temerosa
Brilhar próxima ao expirar,
E que não sei saber
Qual será último a ser.

Isso sou eu que do acaso
Cruzou do mundo sem pensar
De onde venho nem onde
Meus passos me levaram.
Gustavo Adolfo Bécquer
TRAD. ERIC PONTY

terça-feira, fevereiro 13, 2018

De Atlas - Jorge Luis Borges - TRAD. ERIC PONTY


Istambul

Cartago é o exemplo mais evidente duma cultura caluniada, nada podemos saber dela, nada pode-se saber de Flaubert, senão o que referem seus inimigos, que foram implacáveis. Não sendo impossível que algo parecido ocorra com a Turquia. Pensamos em um país de crueldade; essa noção data das Cruzadas, que foram as empresas mais cruéis que se registra na história e a menos denunciada de todas. Pensamos no ódio cristão acaso não inferior ao ódio, igualmente fanático, do Islam. No Ocidente lhe há faltado um grande nome turco aos otomanos. O único que nos hei chegado é o de Suleimán o Magnífico (e só em parte vide os Saladino).

Que posso eu saber da Turquia ao fim de três dias? Hei visto uma cidade esplêndida, o Bósforo, O Corno doiro e a entrada ao Mar Negro, em cujas margens se descobriram pedras rúnicas. Hei escutado um idioma agradável, que me sonha a dum alemão mais suave. Por aqui caminharam os fantasmas de muitas e diversas nações; prefiro pensar que os escandinavos formavam a segurança do imperador de Bizâncio, aos que se uniram aos salões que existiram da Inglaterra despois da jornada de Hastings. É inundável que devemos retornar a Turquia para empregar ao que se descobrira.

Jorge Luis Borges

Os Dons

Lhes foi dada a música invisível
Que é dom do tempo e que no tempo cessa;
Lhes foi dada a trágica beleza,
Lhe foi dado o amor, coisa terrível.

Lhe foi dado saber que entre as belas
Mulheres da terra só há uma;
Posso uma tarde descobrir a lua
E com a lua a álgebra de estrelas.

Lhes foi dada a infâmia. Docilmente
Estudou-se os delitos da espada,
A ruina de Cartago,
Semelhante batalha do Oriente e do Poente

Lhe foi dado à linguagem, essa mentira,
Lhe foi dada a carne, que é argila,
Lhe foi dado o obsceno pesadelo
E no cristal do outro, ele que nos observa.

Dos livros que o tempo há acumulado
Lhe foram concedidas dumas folhas;
De Elia, uns contados paradoxos
Que o desgaste do tempo não há comido.

O erguido do sangue do amor humano
(A imagem é dum grego) lhe foi dada
Por aquele cujo nome é duma espada
E que dita as letras das mãos.

Outras das coisas lhes deram aos seus nomes:
O cubo, a pirâmide, a esfera,
Á inumerável areia, a madeira
E um corpo a andar entre os homens.
Fui digno do sabor de cada dia;
Tal é tua história, que é também da minha.
Jorge Luis Borges
TRAD. ERIC PONTY

O Livro de Job - As 3 Primeiras Parabolas - TRAD. Eric Ponty

Quem foi Job?

Havendo uma vez, dum certo país chamado Uz, um homem muito bom e honrado. Sempre sendo obediente a Deus em tudo evitando fazer o mal. Ele se chamava Job,

2-3 E era o homem mais rico na região do lugar. Tinha sete filhos e três filhas, e muitos escravos que estavam ao seu serviço. Uma vez, sendo dono de sete mil ovelhas, três mil camelos, mil bois e quientas jumentas.

Os filhos de Job faziam entre si grandes festas, e sempre convidavam as três irmãs a que comessem e bebessem junto deles. Eram tantas as festas que haviam, que se iam se transformado entre eles.
Despois de cada festa, Job chamava aos seus filhos e celebrava uma cerimônia em pedido a Deus que os lhes perdoasse qualquer pecado que poderiam de haver cometido. Se erguia muito cauteloso sendo que se apresentava a Deus numa oferenda por cada um de seus filhos. Job ao fazer isto pensando que talvez alguns de seus filhos pudessem haver ofendido a Deus no pecado contra ele, Deus. A Job, isto era um costume praticado todos os dias.

O Anjo delator
6 Num dia em que os anjos tinham por costume apresentar-se ante Deus, chegou também o anjo acusador.
7 E Deus lhe disse: —Como está! De onde surgiu? E este lhe contestou: —Venho de recorrer toda a terra. Então Deus lhe perguntou:
8 —Em tu pensas de Job, meu fiel servidor? Não existe em toda a terra nada de tão bom como ele o é. Sempre me obedece em tudo evita de fazer o mal.
9 O anjo acusador respondeu: — Isso tu o pensas! Porém si Job te obedece, é por puro interesse!
10 tu o sempre o proteges a ele e a tua família; cuidas tudo o que tem, e bendizes o que faz. Suas vacas e ovelhas vivem em sua região!
11, porém eu te afirmo que si o maltrates e lhe retiras tudo o que tem, falará mal em tua própria presença!
2 Então Deus lhe disse ao seu acusador: —Muito bem, faças o que tu queiras com todo do que ele possuir, porém nele nem te atrevas a tocá-lo. Dito isto, o anjo se retirou.

As Primeiras Provas de Job
13-14. Um dia, contudo, os filhos e as filhas de Job celebravam uma festa na casa do irmão maior, chegou um mensageiro a dizer-lhe a Job: Um dos bandidos da região de Saab nos atacaram e nos roubaram todos teus animais! Nós estávamos arando com os bois, contudo os burros se alimentavam por ali naquela região.
15. De repente, esses bandidos começaram a matar nossa gente, e só eu pude escapar para comunicar-te essa notícia.
16, contudo estava falando esse homem quando outro mensageiro chegou e comunicou a Job: Um raio termina de matar suas ovelhas e aos pastores! Só eu pude escapar para comunicar-te a notícia!
17. Não terminava de falar esse homem quando outro mensageiro chegou lhe dizendo: Três grupos de bandidos da região da Caldeia nos atacaram, e mataram aos teus escravos, e roubaram todos os teus camelos! Somente eu pude escapar para comunicar-te a notícia!
18. Contudo estava ainda falando esse homem quando um quarto mensageiro chegou e comentou a Job: Todos seus filhos estavam celebrando uma festa na casa de teu filho mais velho
19. De repente, veio um forte vento do deserto e destruiu a Casa. Todos os seus filhos morreram soterrados! Só eu pude escapar para comunicar-lhe essa notícia!
20 Enquanto Job ouvia isto, se pôs de pé e rompeu a sua roupa em sinal de dor; logo se pôs ajoelhar-se com sua cabeça e se inclinou até o chão a adorar Deus.
21 E proferiu: Nada hei atraído a este mundo, e nada me hei de levar. Bendigo a Deus quando este o meu deu! Sagro a Deus quando ele me falta!
22 Ao pesar de tudo o que lhe havia sucedido, Job não injuriou a Deus nem lhe encheu de alguma culpa.
TRAD. ERIC PONTY

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Manuel Silva Acevedo - Lobos e Ovelhas - Trad. ERIC PONTY

Há um lobo em minha entranha
Que pugna por nascer
Meu coração de ovelha, de lerda criatura
Se dessangra por ele.

Por que si sou ovelha
Deploro meu ovino azar
Por que maldigo minha pacífica cabeça
Volta até o sol
Por que desejo me afogar
No sangue de minhas brutas irmãs
Apascentadas

Me pareciam de má maneira
Me pareciam ovelha
Sou tão desgraçada e temerosa
Não sou mais que uma ovelha mendiga
Me depreciando a mim mesma
Quando ouço os lobos
Que ladram do monte adentro

Eu, a ovelha sonhadora,
Pascia entre as nuvens
Porém um dia a loba me pegou
E eu, a estúpida cordeira,
Conheci então a noite
A verdadeira noite
E ali na treva
De sua entranha de loba
Me senti um lobo mal de repente

Si me dessem a optar
Seria o lobo
Porém que posso fazer si esta pobre peleja
Não reluz como a noite negra
E estes magros colmilhos não mordem nem desagarram.

Si me dessem a optar
Saberia acometer como acometo agora
Esta mísera alfafa, famélica, ovelina

Si me dessem há optar
Os bosques silenciosos seriam minha guarida
E meu uivo ominoso faria temblar aos rebanhos
Porém que fazer com minhas albas lãs
Como transfigurar minha condição ovina.
TRAD.ERIC PONTY

ZONA – Guillaume Apollinaire – TRAD. ERIC PONTY

Absolutamente estás cansado deste mundo antigo
Pastora Ô torre Eiffel do rebanho das pontes de bala desta manhã
Está exausto de viver na antiguidade Greco romana
Daqui até os carros parecem velhos
Só a religião segue sendo completamente atual somente a religião
Vai indo sentida com seus hangares de Porta-Avião
Somente tu não foste velho na Europa ô Cristianismo
O europeu mais moderno de todos que você Papa Pio X
E tu há quem as janelas observam a vingança te previne
De entrar em uma igreja e confessar-te esta manhã
Lendo os prospectos dos catálogos os carteis que ti cantaram há pleno pulmão
Neles se encontrava a poesia desta manhã na prosa que ficou nos jornais
Nos jornais a 25 centímetros repletos de aventuras policiadas
São os retratos de grandes homens e de mil títulos distintos
Esta manhã vi numa rua preciosa cujo nome não me lembro
Uma rua nova limpa era como o clarim do sol
Os diretores os trabalhadores e as formosas taquigrafia
Das luzes ao sábado que ti apelam quatro vezes ao dia
Pela manhã se escutam gemer na sirene três vezes
Duma campainha escandalosa alertava-nos ao meio dia
As letras dos anúncios que estão pintados em murais
Nas placas de advertências que cintilam iguais aos louros
Me maravilham que tua graça tem esse caminho industrial
De Paris entre a de Aumont-Thiéville e a avenida des temes
Admira é uma rua jovem e tu não passes dum menino
Sua mãe não te olhou mais que do azul e do branco
Sendo tão devoto como teu velho amigo René Dalize
E nada os satisfaz tanto como as pompas da Igreja
Já são as nove luzes de gás decresce toda azul
Saís do aposento comum das ocultas
Rezais durante toda noite na capela do colégio
Contudo eterna e de adorável profundidade ametista
Roda sem fim na flamante glória de Cristo
Sendo a formosa Açucena que todos nós cultivamos
Tu és tocha perigosa que o vento não lhe mitiga
Sendo o filho pálido e turquesa da Mater dolorosa
Sendo árvore sempre frondosa de todas as reverências da fé
Sendo a nobre forca da honra e da eternidade
Sendo como uma estrela de seis pontas
Sendo o Deus que morre aos vermes e ressuscita no domingo
Sendo o Cristo que subiu ao céu qual do melhor dos aviadores
E detinha o Record mundial de altura
Pupila de Cristo da visão
Vigésima pupila dos séculos se as agarra bem
E se transforma em pássaro este século ascende como Jesus
Os diabos nos abismos alçam a cabeça a contemplar-lhe,
Dizem que tu que imitas a Simão o Mago da Judeia
Gritam que si ao saber voar deveria coze-las no voo
Os anjos volteiam no gracioso voador
Ìcaro Enoque Elias Apolônio de Tiana
Flutuam ao redor do primeiro avião
As vezes se afastam ao deixar-vos em tua marcha
Daqueles hão quem se transporta a Santa Eucaristia.

Esses sacerdotes ascendem eternamente alçando a hóstia.

Por fim o avião aterrissa sem encostar as asas
Do céu se alivia então de milhões de pombas
Ao todo voo chegando com corvos os algozes dos falcões
D` África nos vem os íbis os flamencos das tuas plumas
O pássaro Roch celebrado pelos contistas e os poetas
Planteiam levando em suas garras da primeira cabeça crânio de Adão
Sendo à águia que se cerne desde o horizonte lançando um grande berro
E da América vem o pequeno colibri
Da China hei chegado os pihis largos de ágeis dóceis
Que só tem uma asa e por isso voam em conjunto
Logo aparece a pomba em espirito imaculado
Escoltada pela ave lira e o pavão alado
E fénix essa fogueira que se produz a si mesma
Por um instante cuida todo com sua ardente cinza
As sirenes que hão descuidado os perigosos estreitos
Chegam cantando as três com a voz gentil
E todas águias de fénix e pilhes da China
Se fraternizam com a máquina voadora.

Agora que caminhas por Paris completo só entre os gentios
Rebanhos de caminhões mugem e passam ao teu lado
Na angústia do amor te abusas da garganta
Como si nunca jamais mais deverias ser amado
Si vivesses na época antiga te farias monge
Sempre senti há vingança quando os surpreendeis rezando
Te enganas há ti e ao teu riso crepita como o fogo do Inferno
As chispas de teus risos doiram ao fundo de tua vida
É como um quadro pregado em um museu sombrio
E as vezes vais admirá-la em volta

Hoje caminham por Paris as mulheres que vão sangrentas
Ocorrias e quis não a lembras ocorrias do declive do encanto

Envolta chamas fervorosas Nossa Senhora me há olhado em Chartres
Do sangue de vosso Sagrado Coração me há sendo negado em Montmartre
Me pões enfermo ao escutar as bem-aventuras
No amor que padeço é duma enfermidade vergonhosa.

Agora olhar-te nas orelhas do Mediterrâneo
Debaixo os limoeiros continuamente floridos
Passeiam na barca com teus amigos
Um é de Niza de outro de Mentor e dois da Turba
Todos ti observamos temerosos os polvos abissais
E dentre as algas nadam os pés das imagens do Salvador.







Estás em meio ao jardim dum boteco ao redor de Praga
Tu ti sentes completamente feliz há uma rosa sobre a mesa
E tu observas na vez de escrever teu conto falido

A ctônia que adormece no coração da rosa
Com horror te viste retratado nas Ágata de São Vitor.

Daquele dia estavas tão triste não mais poder
Te pareces à Lázaro enlouquecido pela tua luz.


As pontas do relógio do bairro judeu vão em sentido contrário
Como ti que retornas lentamente em tua vida
Subindo ao Hradschin ouvindo à noite
Ao cantar nas tabernas canções secas.


E também na Marselha cingido de flores amarelas

E também de koblenz  no hotel do Gigante

E também na Roma sentado embaixo dum vespeiro japonês
E também em Amsterdam com uma mulher que te pareceu formosa sendo feia
Tem que casar-se com um estudante de Leiden

Onde enganam habitações não em latim de locanda
A recordação de bem que ali se passou três dias e outros tantos em gudang

Estando em Paris no testamento de tua instrução
Debaixo do depósito penitenciário igual dum criminoso.

 Havendo feito viagens penosas e alegres
Antes de advertir da mentira e da idade

O amor te há feito sofrer aos vinte aos trinta.

Hei existido como um louco hei perdido no meu tempo
Já nem si quer te através ao olhar-te as mãos.

E sendo que a cada momento quis soluçar
Por ti por que ti amo por todo que hei te espantado
Admira com lágrimas nos olhos a esses pobres emigrantes.

Creem em deu rezando as mulheres nutrem os meninos
Seu odor exala o vestíbulo da estação de Saint-Lazare
Confiando em sua estrela como os Reis Magos.

Esperam regressar regressados da Argentina.



Regressar ao teu país é duma grande fortuna

Uma família se aquece num edredom rubro como vosso coração.

Esse edredom foi composto por nossos sonhos sendo também irreais

Alguns dos emigrantes permanecem aqui e o habitam
Tugúrios na rua des Rosiers em que a rua des Ecouffes



Ao menino lhes hei visto noite sair para tornasse fresco
E raramente se movem como as peças dum xadrez

A maioria são judeus suas mulheres vestidas de perucas
Se tornam sentadas enxagues nestes teus aposentos.

Estás de pé ante a barra dum bar do mal da morte
Tomando um café barato entre os desgraçados

Da noite te vais num grande restaurante
Essas mulheres não são malévolas sensivelmente tem seus problemas

Todas até a mais horrorosa hão de haver feito sofrer ao teu amante.


É sendo filha dum guarda municipal de Jersey
Suas mãos que há um não haviam visto são as que mais permanecem estão juntas

 Me dão muitíssima lástima as ligações de seu ventre

Agora humilho dum pobre pontinho de teu riso horrível minha boca

Estás só mui sadio e amanhecerá.

Nas ruas se escutaste o tinir das leiterias.

A noite se alheia como duma formosa mestiça

É Ferdine a falsa ou Léa a benévola

 E ao beber desse álcool abrasador como foi tua vida
Tua vida que bebeste como um copo de aguardente.

Caminhas até Auteuil sendo quer ir andando em tua casa
Adormecer entre teus fetiches da Oceania da Guiné
Sâo estes Cristos de forma marcada e distintos de crença.

São como de Cristos inferiores destas escuras esperanças.

Guillaume Apollinaire
TRAD. ERIC PONTY

O Perfume da Oração - APÓLOGO - VICENTE RIVA PALACIO, O POETA - TRAD. ERIC PONTY

APÓLOGO

Como da oferenda da dor
Que ferro mundo consume,
E subindo até o Criador,
Se encontraram com amor,
Uma oração e dum perfume.

E da extensão tão ampla
Ao cruzar com doce calma,
Dizem com voz melodiosa:
—Sou oração duma rosa.

—Sou o perfume da alma.
Quando de aguda paixão
Alma! A pena te abruma,
Pensa, com santa emoção,
Que é aroma desta oração,
E há sendo pregaria ao perfume.

El Imparcial, 29 de diciembre de 1872, p. 3.
 VICENTE RIVA PALACIO
TRAD. ERIC PONTY