Pesquisar este blog

segunda-feira, agosto 03, 2026

Ó velha lâmpada - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 Ó velha lâmpada, ó velha amiga, à tua luz
Quantos livros li, quantos versos escrevi!
Sob teu humilde abajur, quantas vezes me viste
Ficar acordado, quando o sono corava minhas pálpebras!

Lâmpada achatada e barriguda, de cobre amassado,
Como ainda se vê em antigas aparadores,
Muitas vezes ouviste confidências sérias:
Das minhas esperanças mais secretas, falei-te. 
Lâmpada, por muito tempo foste minha única amiga;
E, quando eu morava lá no alto, sob o telhado,
Só as noites passadas ao teu lado me eram doces…
E as carruagens passavam pela rua adormecida.

Quantas vezes, apoiado na minha mesa de madeira branca,
Construí existências com o teu pó dourado,
E quantas vezes compus, para quem você sabe, estrofes,
Inclinando minha testa pálida em teu círculo trêmulo!

E quando o amanhecer rosado começava a surgir,
Quando o céu, já com tons de azul esverdeado,
A aurora cintilava sobre Paris, o transeunte
Te via ainda piscando na minha janela. 
A idade às vezes te fazia divagar.
Teu mecanismo apresentava uma estranha fragilidade.
Era preciso te dar corda, te dar corda sem parar,
E girar tua chave incessantemente entre os dedos.

Mas você descia, sua malvada! E sem que eu entendesse
Por quê. Parecia que você queria se divertir.
O pavio teimava em se carbonizar.
E eu ficava furioso, achando que fosse um capricho.

Muitas vezes amaldiçoei sua excentricidade,
E seu humor, naquela época, me parecia um enigma.
De repente, você emitia um ruído de borborigmo,
E então se calava sem motivo, abruptamente.

Eis que, no dia seguinte, eu precisava retomar
A tarefa… E, alcançando-lhe insultos e desprezo,
Eu ia dormir! — Perdoe-me! Agora eu entendi:
Você se importava com seu pobre dono.

Não querendo vê-lo por tanto tempo debruçado
Para escrever ou ler, com um dedo na têmpora,
Você deixaria de brilhar… E essa era, boa lâmpada,
Sua maneira de me mandar dormir.

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

domingo, agosto 02, 2026

Dedicado - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY


Eu amo quero que todos saibam disso,
Ó escarnecidos, ó desamparados,
São insultados pelo público covarde,
A quem chamam de fracassados!
Portanto, neste momento em que me lanço
No meio da batalha, onde vou
Bater, quebrar mais de uma lança,
Receber mais de um golpe cruel,
Onde o desejo ardente me devora
De atacar de frente meus rivais,
Sem saber ainda
O que sou, o que valho,

Penso em vocês, ó pobres coitados!
Em com quem, talvez, esta noite,
Eu compartilhe as misérias,
Entre as quais irei sentar-me;

E por muito tempo contemplo,
Para ver bem se tenho o coração forte,
Para me certificar da minha coragem,
A tristeza do destino de vocês. 
Se eu fosse, pelo ridículo
Que vos lançam, deixado em polvorosa,
Ainda há tempo de recuar:
Seria melhor para mim voltar para casa.

Mas não! Pois quero a luta.
E a sua sorte não tem nada
Que me repugne ou me afaste.
Na verdade, eu a prefiro bem mais

Do que aquelas, que dizem ser mais felizes,
Dos que chamavam de “filisteus”;
Prefiro as iguarias etéreas
Dos seus sonhos aos banquetes deles!

Se eu cair como vocês,
Se eu tiver que esvaziar os alforjes,
Bem, e daí! Serei um de vocês,
Não é verdade, rapazes? 
A vocês, então, que são alvo de escárnio e vaias,
E sobre os quais se abate o desprezo,
Ó multidão incontável, aglomeração,
Dos marginalizados, dos incompreendidos!

A vocês que foram assombrados pela quimera,
Do definitivo, do perfeito,
E que, por quererem fazer tudo muito bem,
Acabaram não fazendo nada;

A vocês que carregavam em suas mentes
Ideais sonhados belos demais,
A todos vocês, grandes poetas
De poemas inacabados;

A vocês cujas preguiças
Estão repletas de projetos tão orgulhosos,
E que são perseguidos pelos pesadelos
De temas magníficos demais;

A vocês cujo pensamento grandioso,
Grande demais, não cabia
Sem quebrá-la em uma forma,
Em um molde sem estragá-la;

A vocês, pintores, a quem desespera
A cor sempre fugaz,
Que diante de um jogo de luzes
Jogam seus pincéis de dor;

Músicos, pálidos ao ouvir
Dentro de vocês acordes maravilhosos,
E que, por não poderem reproduzi-los,
Têm lágrimas nos olhos;

A vocês que, não podendo traduzir
As sutilezas que sentem,
Preferem nunca criar,
Ó delicados, requintados fracassados!

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os entusiasmados, os loucos, 

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os apaixonados, os loucos,
Que, sem dar ouvidos aos sarcasmos,
Triunfam em noites modestas;
A vocês, cujos entusiasmos
Gesticulam nas calçadas,
Personagens acrobáticos,
Feios, cabeludos e caretas,
Pobres dons, Quixotes grotescos,
E por isso mesmo ainda mais comoventes,
Cuja Musa é a Dulcinéia,
—Ó cavaleiros errantes da arte,
A quem a glória destinada
Talvez tenha faltado por acaso!
Sendo vosso amigo, vosso irmão,

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, julho 17, 2026

DEZESSETE SONNETOS - Eric Ponty

Foste descanso Lucas com cuidado
neste leu oceano mundo tempestuoso
não aguardes de me achar nenhum repouso
porém em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas velhas que velado,
em Teu está o tesouro mais que preciso;
se estás tu fermosura desejoso,
Vês este Senhor ficas namorado.

Se tu furtas haveres ou prazeres,
nele está o dulçor dos dulçores
que a todos te deleitam com vitória.

Porventura vivida ou honra queres,
Que ao ser honra podes ser nem glória
que servir ao Senhor bom destes senhores?


II

Gestos falsos louvor, gostos fingidos,
gestos sãos sempre limitados,
gestos grandes quanto imaginados,
acenos curtos quando possuídos;

Ainda não contraídos já perdidos,
ainda não abancados já acabados,
inconstantes, incertas, apressados,
vão surgidos e desaparecidos.

E já vos dei, e vos dei a esperança
de vos caminhar; agora só queria
convosco se abolisse esta lembrança;

que, se me lança a lide e fantesia
existir vós tão longe, mais me cansa
lembrar-me a era que vos possuía.

III
Não há amor que aporte à menor parte
tão quanto para se vê, bela Senhora.
Vós sois luzir louvor; quem devora
Tão-só tão-somente a este o engenho e arte.

Enquanto por muitas damas se lhe parte
de gentil e de fermoso em vós agora
se ajusta em modo tão que pouco fora
dizer que sois o tudo, nelas parte.

Calpa logo não é, se vou amoldar-vos,
Verem incapazes todos louvores,
pois tanto quis o Céu avantajar-vos.

Seja a luta de vossos resplandores;
e a que eles têm vos dou, só dama dar-vos
o mor favor de todos os maiores.

IV

Aquela tristeza leda madrugada,
Tão cheia toda flauta e de piedade,
enquanto houver no fundo saudade
desejo seja sempre celebrada.

Ela tão, fundo amena e marchetada
saía, flertar ao mundo claridade,
viu apartar sua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só as viu lágrimas em fio,
que de uns e de outros brotos brotados
se sobrepuseram em grande e largo rio.

Então ouviu as tão expressões magoadas
que puderam tornar o vigor frio
e dar descanso às almas bombardeadas.

V
Transforma-se do amador na causa dada,
Por amor que do muito imaginar:
Não posso logo mais te desejar,
Hora em mim tenho a parte imaginada.

Se tudo está minha alma transformada,
Que mais almeja o corpo ide alcançar?
Em si que tão-só pode descansar,
Pois com ele tão se achou desta liada.    

Mas está estrema e ingênua sem ideia.
Que que da nau acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma:

Está no pensamento reluz ideia;
E viva e pura aliança de que sou feito,
Como a tal assunto simples busca a forma.

VI
Paro por minhas aflições tão isentas
Desta compaixão ampla nem pequeno,
Que só por a pretensão com que peno
Me fica carecendo mais tormento.

Via louvor faltar tanto a tento idade,
Apimentando a farpa com veneno,
Que do pesar a licença desordeno,
Porque não me atende a ansiedade.

Porém se esta afinação o Amor pensa,
E pegar-me meu mal que com mal tensa,
Torna-me com fazer tal qual ao sol neve;

Mas vê com indisposições contente,
Faz-se avaro da cruz, é porque entende
Que porque mais me paga, mais me atreve.

VII
A fermosura desta bela dama
na sombra dos azuis castanheiros,
deste manso passear destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som luar, a estranha fera,
o abrigar do Sol pelos outeiros,
o recolher dos fados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda gera;

enfim, todo o que a fazer natureza
com tanto grande número nos of’rece,
me está, se não te vejo, lanhando.

Sem ti, tudo me enoja e acabrunha;
sem ti, perpetuamente jazo passando,
desta mor alegria, mor tristeza.    

VIII

Ah, Fortuna real! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu fardo vos mudastes!
passou o era que me descansastes;
hoje em dia descansais com os meus fados.

Falastes-me sentir dos bens passados,
para mor flor da dor que me ordenastes;
então nũa agora juntos mos levastes,
deixando em teu lugar males herdados.

Ah! Que melhor fora não então vos ver,
gostos, que assi estais tão de partida
tal ficar duvidoso se vos vi.

Sem vós dá me não ficar que perder,
senão se for desta abatida vida
que, por mor lesão minha, não perdi.

IX 

Suaves prados, verdes de arvoredos,
vivas e arejar banhas de postado,
que em vós os debuxais ao adequado,
discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres rumas, grosseiros penedos,
mesclados em contrato desigual,
sabei que, sem alvará de meu mal,
Jjá não podeis fazer meus olhos quedos.

E, pois, me já não proíbas como vistes,
não me alegrem verdores deleitosas,
nem banhas que viajando alegres vêm.

Semearei em vós alvitres tristes,
regando-vos com fúcsias tuas saudosas,
que surgirão pesares de meu bem.

X

Silente silencio, que te partiste
Tão brado fluir vida descontente,
Cá silente lá no Céu eternamente
Eu arda eu cá na terra sempre triste.

Se em dor no registro etéreo, onde existe,
memória desta lide que se atende,
não te olvides daquele passo ardente
que já olhos meus tão puro reviste.

E se atires que ao céu merecer-te
Sabe em cousa a dor que me ficou
do desgosto, sem remédio, de perder-te,

rogai a Deus, que tuas chama encurtou,
que tão ledo de cá me arque ao ver-te,
tão cedo meus olhares te elevaram. 

 II
Louva ardor zelar que sem se crer,
é uma brecha que foi, e não se crente;
é lava uma exultação descontente,
é fator desatina sem ti fazer.

É um não ansiar mais tudo rever;
é um andar despovoado entre crente;
é nunca se agradar de instante;
é um zelar que apanhar em se pender.

É que quer estar laço por vontade;
é sentir a quem ouvir, o pendor;
é com quem de olhar nos laça, cidade.

 XII
Daquela lide e de fria madrugada,
Cor que faz de de mágoa e de piedade,
enquanto possuir no fundo saudade,
aspiro que seja sempre tão afamada.

Prendê só, quando afável e marchetada
saía, oferecer ao fundo claridade,
viu se arredar de dũa outra vontade,
que jamais poderá ver-se afastada.

Prende só viu destas fúcsias em fio,
que de uns de outros olhadas derivadas
que se apuseram em grande e amplo fio.

Prendê ouviu as expressões magoadas
que puderam volver a chama e o frio
e dar repouso às almas condenadas.

XIII

Cá, Mulher Samira donde mana
Ser mulher a quanto bem do mundo cria;
cá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e cega Monarquia
vigia que um nome vá a desengana;

cá, Mulher Samira, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

Lá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, João!

XIV

Cá, Jeane Vertigem donde flana
Tal mulher a quanto bem do mundo cria;
lá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e então cega Monarquia
vigia que um nome aqui a desengana;

cá, Jeane Vertigem, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

cá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, então!

XV

Quantos planos, Ardor, quanto adubados,
Quantas pranteias jururus sem colheita,
De mil ocasiões olhos, rosto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz lavados;

Quantos letais perpétuas derramadas
Do peito faz por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, em fim, tu me tens fato,
Juntos formão em mi bem funcionários.

A tudo que agrada (confissão isto)
Huma só aspecto afável e amorosa
De quem me encantou minha ventura.

¡Oh de continuo mi hora próspera!
Que posso recear ja, pois tenho possa,
Com tanto gôsto meu, tanta ternura?

XVI
 
Flama prateada, que, esclarecida
Com a foz que do intenso Phebo ardente,
Por estar com natural transparente,
Em si, que brilha em espelho, reluzia,

Cem mil milhões de perdões lhe influía,
descer me appareceo o excellente
Rio de vosso aspecto, distante
Em perdão e em amor do que sohia.

Eu vendo-me tão cheio de obséquios,
E tão propinquo a ser todo vosso rio,
Louvei a maré viva, e a noite escura,

Pois nella déstes côr a meus favores:
Donde collijo claro que não posso és
De tempo para vós jaz ter ventura.

XVII
Doce sonho, plano e soberano,
Se sendo que longo tempo me durára!
Ah quem do sonho jaz nunca acordára,
Ali havia de ver tal desengano.


Ah aprazível bem! ah suave engano!
Se por mais extenso espaço me enganára!
Se então a lide tão pobre acabára,
De aleluia e de prazer morrêra ufano.


Próspero, não ficando em mi, pois tive
Repousando o acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu fadário!


Em fim, fóra de mim próspero estive.
Em calúnias ter ditado razão rio,
Pois sempre nas confianças fui mofino.

 Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

terça-feira, junho 09, 2026

A você, minha terra natal - Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

A você, minha terra natal, agradeço esta canção.
Nas montanhas Harz, no vale do selvagem Bode,
No reino arado pela tempestade do grande Wode
Está o rio de minha juventude dourada.
Vim humildemente, sem nada me faltar,
À sua maravilhosa natureza,
Você me deu tudo porque eu não desejava nada,
E sorridentemente me mostrou o caminho de sua vida.
Você abriu os olhos e os ouvidos do jovem
E me guiou com mãos de mãe fiel,
Quando nas montanhas, entre paredes rochosas,
Na solidão da floresta, eu me perdi.
No brilho do sol, na escuridão sombria,
No início da manhã e no vermelho da noite,
Nas ondas nebulosas e no brilho do orvalho
Foi você quem me ofereceu tesouro sobre tesouro.
Mais precioso para mim do que o minério precioso
De suas minas, o que você deu em abundância,
Era como a fragrância em um botão delicado,
Eu a inalei, e meu coração se embriagou.
Logo senti a bênção dentro de mim,
Que a semente profundamente afundada criou raízes,
Ela começou a crescer e a tomar forma,
E feliz com a posse, eu a mantive em segredo.
O que foi que você me deu lá
Com suas flores desabrochando, as ondas ondulando,
O farfalhar das copas das árvores e o sussurro do ar?
Foi algo em que você ainda pensa hoje?
Foi um esforço tímido e furtivo,
Um pressentimento feliz e uma meia compreensão,
Um alegre pegar e depois devolver,
Um acontecimento poético involuntário.
Você me mostrou o domínio da imagem,
A mudança fugaz e a duração fixa
E provocou arrepios piedosos em minha alma
Diante de um poder incompreensivelmente alto.
Você me ensinou seus contos de fadas e lendas,
Deu-me a vara de adivinhação em minha mão,
E onde eu andava e ficava, ela batia.
Eu sou seu devedor, você é minha terra Harz
Uma velha canção sopra em suas montanhas,
O próprio vento da tempestade é seu portador rude,
Ela se precipita e ruge como um caçador selvagem,
Poderoso, terrível como o som de um trovão.
Eu captei um eco dele,
E ele nunca se apagou desde que o deixei;
Pegue de volta o que eu só recebi de você -
A você, minha terra natal, dedico esta canção.

 Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, junho 03, 2026

DOIS POEMAS DE ROBERT FROST- TRAD. ERIC PONTY

 Por conta própria

Para o meu próprio mundo


UM dos meus desejos é que aquelas árvores sombrias,
Tão antigas e firmes que mal se movem com a brisa,
Não fossem, por assim dizer, a mero disfarce da tristeza,
Mas se estendessem até os confins da perdição.

Nada me impediria de, algum dia, 5
Fugir para a sua imensidão,
Sem medo de descobrir terras acendidas,
Ou estradas onde as rodas lentas espalham a areia.

Não vejo por que eu deveria voltar,
Ou por que aqueles não deveriam seguir meus passos 10
Para me arrumar, aqueles que sentiriam minha falta aqui.

E ansiariam saber se ainda os amava.
Não me descobririam diferente daquele que conheciam —
Apenas mais certo de tudo o que confiava ser verdade.

A CASA FANTASMA


Moro numa casa solitária, eu sei;
Que desapareceu há muitos verões atrás,
E não deixou outro vestígio além das paredes da adega,
E uma adega onde a luz do dia penetra,
E crescem framboesas silvestres de caule roxo. 5
Sobre cercas em ruínas, as videiras protegem;
A floresta volta ao campo de ceifa;
A árvore do pomar formou um pequeno bosque
De madeira nova e velha, onde o pica-pau bate;
O caminho que leva ao poço está curado. 10
Eu jazo com o coração inexplicável dolorido
Naquela morada ofuscar-se, lá tão distante
Naquela estrada abandonada e olvidada
Que já não tem poeira para o sapo se banhar.
A noite chega; os morcegos negros voam e se lançam; 15
O mocho-de-bico-curto vem para gritar;
E para se calar, cacarejar e esvoaçar por ali:
Eu o ouço começar bem longe;
Muitas vezes, para dizer o que tem a dizer;
Antes de chegar para dizê-lo em voz alta. 20
É sob a pequena e fraca estrela de verão.
Não sei quem são essas pessoas mudas
Que compartilham o lugar sem luz comigo —
Aquelas pedras sob a árvore de galhos baixos
Sem dúvida têm nomes que o musgo desfigura. 25
São pessoas incansáveis, mas lentas e tristes,
Embora sejam dois, sempre juntos, a moça e o rapaz, — 
Sem que nenhum deles jamais cante,
E, no entanto, considerando tantas coisas,
São os companheiros mais amenos que se poderia ter.

 Robert Frost-TRAD.ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, maio 27, 2026

LOUVOR A AFRODITE - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY


Ó Safo, por que estás sempre
Cantando louvores à abençoada
Rainha do céu?

Por que o coração em teu peito
Sempre volta, em seu anseio,
A palpitar pela Deusa?

Por que teus sentidos, insaciáveis,
Estão sempre em busca do amor
Indescritível e imortal?

Ah, graciosa Filha de Chipre,
Nunca, como mortal,
Me cansarei de te servir.

Vem, por minha causa, de Creta a este templo sagrado,
onde se encontra teu encantador bosque de macieiras,
e os altares exalam fumaça
de incenso;

ali, a água fria canta entre os galhos das macieiras,
e todo o lugar está coberto pela sombra das rosas,
e das folhas trêmulas um sono mágico
desce.

Ali, um prado com pastagem para cavalos floresce com…
Flores, e doces
Brisas sopram


Ali, pegando as guirlandas, Cypris,
em taças douradas, luxuosamente,
deixe o néctar misturado com alegria
ser servido como vinho
(para estes meus amigos e seus.)

SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

quinta-feira, maio 21, 2026

Alexandrinos na Paisagem - Análise Crítica - Avelina Ferraz - Portugal

 Alexandrinos na Paisagem apresenta-se como uma obra de rara ousadia estética, marcada por uma intensa experiência linguística. Desde as primeiras páginas, percebe-se que o autor não pretende oferecer ao leitor uma poesia de fácil apreensão; ao contrário, constrói um universo verbal deliberadamente denso, onde o som, o ritmo e a imagem assumem protagonismo sobre a linearidade discursiva.

A obra dialoga com tradições poéticas que evocam Mallarmé, Paul Valéry, o decadentismo finissecular e determinadas experiências barrocas da língua portuguesa. Não por acaso, o próprio autor explicita essa filiação ao incluir uma “Imitação de Paul Valéry”, peça em que a musicalidade do verso e a abstração metafísica se entrelaçam.

Eric Ponty revela domínio do verso alexandrino enquanto estrutura poética, mas ultrapassa o rigor métrico clássico. O alexandrino, aqui, deixa de ser apenas forma. A cadência dos poemas cria atmosferas que oscilam entre o sagrado e o onírico, entre o pastoral e o metafísico, conduzindo o leitor por imagens de rara estranheza: jardins, mármores, aves, neblinas, águas, sinos, ruínas e figuras litúrgicas compõem uma iconografia recorrente, quase ritualística.

Salientamos a forma como Eric Ponty trabalha a palavra: há um deliberado rompimento com a lógica narrativa tradicional. Em certos momentos, o texto parece querer regressar a um estado primordial da língua, em que o significado nasce da vibração fonética e da associação intuitiva entre as palavras.

Outro aspecto relevante é a presença da paisagem enquanto entidade espiritual. A natureza em Alexandrinos na Paisagem não é decorativa; respira, sofre, canta e participa da condição humana. As estações inspiradas em Vivaldi, por exemplo, transformam os ciclos naturais em estados da alma, convertendo primavera, verão, outono e inverno em expressões emocionais e filosóficas.

Como editora, é possível afirmar que Alexandrinos na Paisagem se destaca como uma obra de personalidade literária incomum, destinada a leitores que apreciam poesia de elaboração formal sofisticada e de intensa carga simbólica. Trata-se de um trabalho que honra a tradição poética, que procura reinventá-la, inscrevendo-se com singularidade no panorama contemporâneo da poesia em língua portuguesa.

 Avelina Ferraz - Portugal