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terça-feira, outubro 13, 2026

ELEGIA DA ESPERA - ERIC PONTY

 Então, chama; será que alguém vai te objetar?
E a qual dos Santos se voltará? E os anjos concordam,
Não, a impaciência mata o tolo apaixonado,
E a paixão mata o ingênuo que viu o segredo do pássaro.

Eu mesmo vi o tolo ser arrancado do seu voo,
E sua casa foi de súbito rasa por sua sombra
Seus filhos estão longe do bem-estar; são sonhos
são oprimidos na porta da urbe, sem ademão.

Cuja colheita os famintos devoram na Utopia,
E os sedentos colhem seus frutos nas margens áreas.
Pois a aflição não provém do pó e da desilusão 
E a angústia não brota da terra: porque nela erra.

[Pois o homem nasce para a aflição da espera,
Assim a ninhada do abutre para voar alto mera.]
Mas eu, eu apelaria aos anjos de agora,
E apresentaria meu caso perante sua sombra,
Que faz coisas grandiosas e insondáveis,
Maravilhas além de toda apreensão: Pondera.

Que faz chover sobre os campos arados,
E derrama água sobre as terras comuns;
Para elevar os humildes que tateiam sua sombra,
E trazer bem-estar aos que choram:

[Quem frustra os planos dos astutos que arquitetam com giz,
Para que suas mãos não consigam nada concreto;]
Que apanha os sábios em suas próprias artimanhas,
E frustra os planos dos astutos diante da tarde imperativa;
De modo que, durante o dia, andam às cegas na penumbra,
E tateiam ao meio-dia como se fosse noite está sua sombra.

Assim, Ele salva os humildes da espada que se aparta,
os necessitados das mãos dos poderosos que detém 
Está voz que surge a esperança para os pobres,
e a iniquidade cala a boca dos missionários da meia-noite.

Em seis perigos te resgatará das ondas em treva;
Sim, em sete, nenhum mal te atingirá mesmo que a noite queira;
Na fome, te resgatará da morte que era um engodo se eleva,
E na guerra, das farras da espada que por si só se esmera;

Quando a praga estiver à solta, tu estarás a salvo, —
Não temerás a devastação quando ela vier; —
Do leão e do dragão tu rirás, — feito meras efígies.
E não terás medo das feras que no mundo se agarra;

[Tendo comunhão com os filhos do prado,
E tendo as criaturas selvagens em amigas feras.]
E saberás que tua Musa está segura, —
Visitarás teu rebanho e não perderás nada.
Saberás que tua descendência é numerosa, —
Tua prole é a grama da terra nela se elevam.

Chegarás à campa em pleno vigor,
Assim o trigo é colhido em sua estação...
Eis que investigamos isso, e assim é;
Ouvimos isso; reconhece-o por ti mesmo!

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

O LIVRO DE JOB - III - TRAD. ERIC PONTY

Que pereça o dia em que nasci,
E a noite que disse: “Eis um homem!”
Que esse dia se torne trevas!
Que a luz do alto não o ilumine,
Nem o raio do sol incida sobre ele!
Que as trevas e a sombra da morte se ofuscar!
Que a nuvem se pose sobre ele!
Que as trevas do dia o aterrorizem
Que a escuridão total desse dia o domine!
Que ele não seja um dos dias do ano,
Nem seja contado entre os dias do mês!
Que os encantadores do dia o banam,
Os adeptos em despertar o Dragão!
Que aquela noite se torne árida como pedra!
Que nenhum grito alegre de ato de nascer a invada!
Que as estrelas de seu crepúsculo se abrumem!
Que ela espere em vão pela luz,
nem contemple as pálpebras da aurora!
Pois ela não trancou minha(s) porta(s),
nem escondeu a angústia dos meus olhos.

Por que não nasci morrendo, —
Saindo do ventre apenas para expirar? —
Ó, por que os joelhos me acolheram, —
E os seios para que eu pudesse mamar? —
Pois então eu teria me deitado e ficado em silêncio; —
Eu teria dormido; então a paz seria minha! —
Feito reis e conselheiros do povo, —
Que reconstruíram ruínas para seu prazer; —
E como príncipes que possuíam muito ouro, —
Que enchiam suas casas de prata:
Ou teria sido um aborto pregado, --
Quais bebês que nunca viram a luz.
Lá os ímpios deixam de ser enfurecer;
E lá os cansados descansam.
Juntos, os prisioneiros repousam;
Não ouvem a voz do capataz:
Pequenos e grandes estão lá;
E o escravo está livre de seu senhor.

Por que se dá luz ao que sofre,
E vida aos que estão tristes? —
Que esperam pela morte em vão,
E a buscam em vez de tesouros, —
Que se alegram além da alegria,
E se regozijam quando acham a sepultura, —
Ao homem cuja passagem está oculta,

Ele me alimenta com o pão dos suspiros,
E eu derramo meus gemidos como água.
Se temo uma coisa, ela se abate sobre mim,
E o que temo me acontece.
Não tenho nem alívio nem bonança, —
Nem descanso, e a angústia se acostar-se.

Deve-se dirigir a palavra aos enfermos?
Mas quem pode se conter de falar?
Eis que tu já restabeleceste muitos,
E fortaleceste as mãos amainadas:

Tuas palavras levantavam quem tropeçava,
E tu fortalecias os joelhos dobrados.
Mas agora isso recai sobre ti, e tu estás vencido;
Isso te atinge, e tu ficas perplexo.

Não é a tua piedade a tua garantia,
E a perfeição dos teus caminhos, a tua esperança?
(Pensa agora: quem, sendo inocente, já pereceu?
E onde os justos foram exterminados?
Pelo que sei, são os que lavram a angústia
E os que semeiam a miséria que a colhem:
Pela rajada de Sua ira são aniquilados.

As presas do leão estão quebradas,
E os dentes dos leõezinhos, arrancados:
O leão velho perece por falta de presa,
E os filhotes da leoa são dispersados.

Mas, para mim, uma palavra se insinuou,
E meu ouvido captou um sussurro de voz;
Em pensamentos acordados por visões noturnas,
Quando o sono profundo se abate sobre os homens.

Um medo tomou conta de mim, e, tremendo,
Cada osso do meu corpo estremeceu de medo;
E um sopro desliza sobre meu rosto, —
E faz os cabelos da minha cabeça se arrepiarem. 
E eis que Shaddai está passando!
Ele se detém, mas não consigo discernir Sua forma;
Uma silhueta está diante dos meus olhos;
Ouço um murmúrio:

Pode um mortal ser justo diante de Eloah,
Ou um homem ser puro diante de seu Criador?
Eis que Ele não confia em Seus servos,
E não dá glória aos Seus anjos:

Muito menos nos seres de barro,
Cujo alicerce está no pó;
Que são esmagados ao raiar do dia, —
E entre a manhã e à tarde são despedaçados!
[Por falta de discernimento, perecem para sempre;
Morrem por falta de sabedoria.] 

JOB - III - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

segunda-feira, outubro 12, 2026

KAFRAKIANA ESPOSA VOYEUR - ERIC PONTY


I

Quando nasci você ainda não existia,
eu era um desses que se despiram
ao ficar com a alma nas sombras
enquanto o corpo secava no varal.

A tarde observa a musa
correndo atrás das dores cotidianas.
A tarde talvez não fosse tão bela,
não houvesse nela tanto crepúsculos.

Homens caminham tão entregues
há o não ser urbano. Onde vão?
O impulsionar deste movimento
move, porém estáticos perpetuam?

Quem é aquele homem atrás dos óculos,
ouvindo gruído e escuta os murmúrios
que pensa a solidão como não pensasse
a dimensão da solidão da tarde.

Amada, por que não nasceu no instante
que eu nasci? Não sabia que estaria só,
não sabia dos lobos no portão?

Oriundos são os murmúrios do mar,
distantes muitos vastos do arquipélago
entoam sempre marulhos vagos no ar.

II

Perdi a visão do crepúsculo à tarde,
o que nela estava escrito se evade,
chego pálido com o poema nas mãos.
A densidade das coisas inexpressivas,
é o som do inseto batendo à janela.

Lento adentro na ladeira dos sonhos,
em que as imagens sós se bifurcam.
Todas efígies levam à imensa solidão,
final de todas narrativas ensaiadas.

Não sei o que estou percebendo
ou se tem alguém olhando por trás
das minhas mãos. Escassa a visão.

Entre mim e você nos gritamos sós,
investigamos insondáveis vazios,
burlamos a fronteira da eternidade.

III

Nesta cidade há um homem
que se inventa pássaro
corre sozinho em volta
da solidão seca do quarto.

Me encontrarei sozinho?
Agora há pouco um som
se desprendeu da luz
tocando melodias do mar.
O que a gente não inventa?

Nesta cidade há um homem
que se inventa herói
se salva sozinho
não ganha medalhas,
não desperdiça esmolas,
mas possui um riso como poucos,
sabe que medindo o tempo gasto
com coisas pouco essenciais,
viajará por infinitos ocultos a Buda.

Me encontrarei sozinho?
Agora há pouco me olhei no espelho,
tinha um outro perto de mim
parecido comigo; não era triste, não era,
era apenas um outro que por ali passava.

Nesta cidade há um homem
que se senta e escreve o poema
cercado de mãos, as palavras fluem,
parece que fluem na foz do poeta,
não era. Era você ali que as sussurrava,
o riso iluminava com a vastidão da metáfora
enquanto se desprendia da luz.

IV

E você?
Até quando se abastecerá,
colherá palavras como perolas
olhará-se no espelho imaginando rainhas,
tecerá tapetes para Ulisses inexplicáveis,
parirá castas mais nobres da existência,
colecionará bonecas como filhos,
fará planos para invadir as Normandas,
construirá o ego em volta de ilusões.

Neste instante
que você sonhou a delicadeza da tarde,
viu se evadir o frágil levitar dos pássaros,
a pronúncia fatigada e o exaurir dos verbos,
a sombra do amado ao se fazer crepúsculo.

Este cabelo
possuí ramificações que lembram fios,
principalmente o fio de maior comprimento,
percebe o quanto de fio nele já vem descrito?
Olhe com atenção para que não se perca
aquele fio que a conduzia através do destino,
e não foi por descuido que o deste ao Minotauro?

Esta mulher
aflita olha a janela por olhar; percebe o que não
fala aos seus dias morredouros? E se cantasse
para aliviar este peito que retumba como mar?
Se lhe compusessem mais perfeito dos sonetos
não poderiam os sons das palavras soar mais
falso que as perolas de águas do armarinho?

E você?
Até quando se abastecerá,
colherá palavras como perolas
olhará-se no espelho imaginando rainhas,
tecerá tapetes como Penélopes inexeqüíveis,
parirá castas mais nobres da existência,
colecionará bonecas como filhos,
fará planos para invadir as Normandas,
construirá o ego em volta de Ulisses.

V

Preso a minha condição e a palavra,
vou em busca daquela que se principia
que constrói ponto a ponto a metáfora,
com melancolias ao raiar do meio dia.
Posso, sem asas, transformar-me em vôo?

Olhos exaustos no crepúsculo da tarde:
O sol não iluminou ao meio dia a completa
ansiedade. Tempo é silêncio. Alucinações esperam,
há detalhes das sombras, o sucumbir das dores.

Em vão me tento conceber através do cotidiano,
sob a pele das coisas urbanas se escondem detalhes,
a imensidão da nuvem cobrindo o pequeno chafariz,
no muro de adobe há cifras subterrâneas da sina
daqueles que caíram por serem vitimas do tédio.

O sol exaure os aflitos que não nem mesmo falas,
renovando a possibilidades daqueles que eternos
desfazem-se e passam inexeqüíveis pela vida.

No meio dos restos do cotidiano há uma palavra,
palavra há no meio dos restos, mas ela, foi
sequer colocada. Ninguém se deu por ela, olvidada,
no meio dos restos, uma palavra há; é código
que não se transubstancia ou se evade à tarde.

Seu significado não se percebe.
Suas silabas não se pronunciam.
Seu sentido não se encontra nos dicionários.
É estranha. Realmente é a mais bela das palavras.

Amada, meu amor! Sol exaure os aflitos ao meio dia,
no meio dos restos do cotidiano há palavra,
palavra há no meio dos restos, mas você, foi sequer
colocada. 

VI

Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.

Elegias percorrem a
primaveril nudez.
flores se desbotam
exauridas de cotidiano.

Seu sono possui densidades,
nublado quando quase chega à manhã
talvez por coisas deixadas nelas ali
escritas com o suor dos cavalos
correndo por esta outra língua,
de modo perfeito, que não se encontra
na forma original.

Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.

Há música que escapa do murmúrio,
melodias escritas em língua moderna
e vertidas para ária mais antiga.
(Sei que me indaga se isto é paráfrase,
conseguir traduzi-la como um todo.)
E nada o capta, traduzir não é um exercício de
essência tão casta... Deveria saber que o 
murmúrio não se traduz apesar de não pequenas
violências. Como sua boca, mais ágil para receber
o delicado golpe de minha homenagem.
Envaidecida me fala que ficou contente
de tê-la recebido. Então emocionada me indaga 
se sou um poeta.

Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.

Elegias percorrem a
primaveril nudez.
flores se desbotam
exauridas e cotidianas.

Não deveria nunca ter feito tal pergunta minha amada,
agora se desfaça...

VII

Quando a manhã chegou arrastando o sol
eu abri o meu peito do que restou da noite
olhei através da minha memória o seu rosto
era o rosto pálido colhido entre as nuanças.

A angústia que habitava a noite não tinha
semeado a ilusão que passava pelos mares,
tinha florescido nos olhares vagos do dia,
quando de regresso trazia os seus olhos.

Estava tremula sua mão e tão silenciosa,
que os primeiros raios solares era música,
que pareciam consolar esta solidão noturna,
este destino que parecia se esvair em olhares.

Quis me afastar do fardo que é sua carne,
este imenso arquipélago recheado de memórias,
mas quando sua boca pronunciou os murmúrios,
percebi haver uma ancora ancorada no seu rosto.

VIII

Tenho saudade de te inventar na eternidade,
invenção sob o contexto de fazer conceber,
por exemplo, a cor do seu olhar, de captar,
cada filigrana nele contido: Verdes estepes.

De tanta e tanta vontade que tenho de fazer,
de tanto que deixei de pesquisar, por exemplo,
a aparência que tem ausência na manhã,
no contexto, de sua profunda dimensão.

Tenho terror das mulheres artificiais, que fazem
tudo; o esforço para parecer natural. Vôo de um
cardume de peixes em um mar poluído. Você é
vário, por ser diversa, traduz as águas do Ser.

Todo inventário é um simulacro de enganos.
Um se esquivar de objetos perdidos e outros
a se inventar; por exemplo, o que se reconstituiu
do que aqui foi lhe exposto ficou após seu olhar.

IX

A primeira Estrofe é dedicada à inauguração
do seu ser, aquele orgasmo, pacto do cosmo
e do infinito. È sempre a presença daquele eu
margeando os outros sentimentos em pânico.

A segunda Estrofe é dedicada à sua face,
este geográfico desenho pelas manhãs,
sendo a face vária e só. È sempre aceno,
que dá sentido na perda que nós sentimos.

A terceira Estrofe é dedicada à abstração
dos seus cabelos diante do sol, que exaustos
se esquivam dos inventários na correria de se
fazer manhã solar, refúgio de plantas e aves.

X

Algum tempo vivi a margem seu ser.
Basicamente nasci entre mim e você.
Por isto a metido. Sou foz de palavra.
Oitenta por cento feitos das margens da página.
Vinte por cento esculpidos na espera da alma
Do que na vida somente dá sentido: coisas e palavras.

Este sentido cósmico que me faz perdido no tempo
é anterior a mim enquanto ainda eu era molécula
ainda sem consciência do pecado iria fundir o ser,
legatário das coisas indefinidas.

Do tempo misturado nas neblinas do meu ego lhe dou:
Minhas mãos que para com ela componha uma elegia.
Meus olhos para com eles vejam novas paisagens.
Minha boca para com ela pronuncie os segredos.
Meu sexo para com ele funde novas dinastias.

Hoje espero a manhã
para que juntos renasçamos
entre mim e você fundemos
aquela margem anterior à palavra.

XI

Mais que todas maneiras
perdemos ao nosso modo
esta delicadeza de musa.

Um menino ainda não nascido
sonha manhãs ensolaradas de azul
com você de fita de cabelo na praça
maior da cidade que dizia saber de cor.

E em nossa rica memória plantávamos
pássaros que dialogavam com a noite
que lentos e leves dormitavam a tarde,
que juntos a sua porta confessam melodias,
trazidas com desvelo das viagens migratórias
por Áfricas, Alasca ou por Kuala Lunpur.

Frágil e ágil à tarde balança as tranças turvas
feitas das nuvens que intangíveis passeiam
nas almas dos homens taciturnos.

XII

Esta imagem que guardamos de você
é como secreto pensamento da tarde
é o alvoroçar de pássaros dormidos
súbitos entoaram-se a cantilena solar.

Esta imagem que guardamos de você
é dedilhar de surdos ao piano tentando
reconstituir os primevos sons do sonho
que súbitos entoaram a cantilena solar.

Esta imagem que guardamos de você
é como delírio onde o que queremos
é o ordinário do extrafardo. Elogio dos
que súbitos entoaram a cantilena solar.

Esta imagem que guardamos de você
é como uma ânfora que jorra o mel,
composto do equilíbrio do vinho e leite
que súbitos entoaram a cantilena solar.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

O FAZER POÉTICO DE ORPHEU E DE SUAS VOZES SUSSURRANTES: Amélia Pinto Pais

 Para o Eric Ponty
 

Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã
Algumas, tão fortes
Como um javali.
Não me julgo louco.
..................
Carlos Drummond de Andrade, O Lutador, in José

É esta a dura tarefa do poeta e do fazer poético: Lutar insistentemente com a palavra indescoberta, incriada, porque de seu labor árduo recolhe novos sentidos e a transfigura ganhando, "fingindo-a". É esta a luta de Orpheu: encontrar a palavra primordial e única que lhe faça reencontrar Eurídice e trazê-la de volta depois de sua longa caminhada iniciática:


Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, sussurra as vozes dos adormecidos,
daqueles que se perderam no granito,
nas inscrições onde datas nada dizem.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e,tem a face branca de um modelo,
talvez, de Laura, que se perdeu solitária
ou de Najda de André Breton que fascina.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, os olhos são como fagulhas da tarde
de quando este a viu, absoluta e uma,
alheio aos dados do destino lhe traçado.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, as mãos delicadas como duas fontes,
que lhe cantam sortilégios. Nuvens pairam
no céu azul, enquanto fluem como um rio.

Aí começa o labor do leitor. Ele completa o poema, captando-lhe o sentido, recuperando com o poeta um saber das origens, simultaneamente longínquo e reencontrado. Ler um poema será então este reencontro com a palavra do poeta  (que vai do coração para a cabeça, como dizia Almada Negreiros num texto muito bonito, intitulado "A flor"), o contacto com modos de dizer,  produzindo sentidos 'outros' ,(estamos no domínio da 'transcendência', dado que na base da criação poética está a metáfora, criadora de realidades 'outras'; sendo assim o texto uma ficção, um fingimento em que nos reconhecemos - ou não...).


Ora, sabemos, o acesso ao transcendente faz-se pela via da iniciação e por degraus - iniciando-se, no caso vertente, pela emoção ( o coração que, como no poema de Pessoa, é um combóio de corda que «gira a entreter a razão»).Mistério órfico por excelência, é a essa via iniciática que nos convidam os poetas, os fazedores de sentidos. É também essa a função do Eric na sua poesia e, desde já, neste seu novo livro-recolha de vozes sussurrantes que soube tão bem captar. Excelente leitor, é - o também Eric. Nestes seus poemas cruzam-se leituras de imagens vindas da pintura–Poema para Uma Iluminura Colhida ao Acaso, Fronte de Frida Kahlo:


Lendo o caderno de Frida,
percebo que me lembram desenhos egípcios
são as memórias dos maias impressos,
,e, que haverá alem de um triangulo isômeres
de cuja tumba ainda enterra a memória,
a ergueu-se formoso palácio?

Estava dito, que um dia, viriam por mar,
e morreram no conflito entre duas civilizações
um só homem e um exercito do imperador espanhol
para aniquilar uma civilização de homens,
que cometiam também mesma barbárie ao seu modo
em homenagem aos Deuses,enquanto estes
há um Deus que não lhes pediu Shoahs.


Da música - veja-se, por exemplo, Quatro Romanças Populares – do diálogo com outros poetas –Joyce, Jorge de Lima, Jaime Vaz Brasil – Fernando Pessoa – Borges...- De múltiplas leituras se entretece então o poeta, que assim vai, por óbvios caminhos, re - cruzando mares e palavras.


Também de amor –desde já na evocação de Orpheu e Eurídice, mas também em O Amor e o tempo («O amor, não detém o tempo,/ Somente quem ama conhece a eternidade /este se saber inteiro num segundo / e se olvidar para sempre:». Ou em Do amor a das tessituras,.De outras tessituras (que é o texto senão tecido?) poderíamos falar, como o velho motivo romântico da lua em Admirando a Lua, ou o motivo dos descobrimentos em Amor desconhece as fronteiras do prado:

I

Acaso não estava no final da tarde de Lisboa
ouvindo Hector Berlioz quando de súbito pensaste
na vã eternidade dos seres vivos?

O que te moveu a ler Borges, não foi esta ilusão,
que nós chamamos, por esperança, de eternidade,
mas não bastava, se lembrar, daquelas caravelas,
que rumo, e, na certeza, de cumprir-se descobridores
inauguraram esta que era para cumprir-se um destino.

Não estavam estes homens, aos seus serviços,
por isto mesmo agora em Lisboa, quiçá em Coimbra
poderá avistá-los de janela, mesmo que o mar distante
por isto tenha cuidado, são as magoas deste litoral,
cujo sentido desconheceu os limites.

À descoberta do universo original nos convida este poeta. Sigamo-lo em sua caminhada de lutador de ‘escutador’  também dos murmúrios e vozes do mundo. Só assim, numa linguagem densa e só aparentemente cerebral que é a sua, poderemos ter direito a alcançar o «vôo sem pássaro dentro» que é a descoberta do real mais profundo, «o autêntico real absoluto» de que falavam  respectivamente dois outros poetas, Adolfo Casais Monteiro e Novalis na sua definição de poesia.


Leiria, Portugal, 16.06.01

Amélia Pinto Pais – Doutora e Professora de Literatura francesa e portuguesa em Portugal. Autora dos livros Para Compreender Fernando Pessoa, Para se Compreender os Lusíadas , Les Lusiades en Prose(em Francês),Lusíadas em Prosa, Ser em Português, 11B Areal Editores – Portugal dentre outros.

POEMAS PARA RAINHA - ERIC PONTY

P/ RODRIGO DE OLIVEIRA LIMA 

III


Quando canto faz surgir o mês de outubro
Eu te descubro uma graça bem maior rubra
Que me regressou na época e ser menino
E ao tom do sino ver a vida feminino.

Ver gente em procissão tomando as ruas
Espalhando que és Lírio outra vez cruas,
Que és Rainha do Lenheiro vem chegando
Vem trafegar pelas ruas São João andando. 

Cordas dum violão avançam o corpo cansa
Só pra colo descansar, Só colo descansar
É meu olhar soluçando ao ver o teu olhar
Pequenina e menina segues colher
Rosas e Flores que tua gente quer te dar!

Ó Virgem Maria, tua gente a cantar
Dona de Nazaré! Dona do Pilar!
Ó Virgem Maria, tua gente a cantar
Dona de Nazaré! Dona do Pilar!

Tu és Rainha o manto as flores das Dores,
Reinante no pão humano tão mulher
Tão majestade de Deus nos guardar
Nossa gente, nosso sangue nesse altar;

Tu és Rainha o manto as flores das Dores,
Posteridade que acolheu ser mulher
O segredo encarnado jazes revelando
Por isso hoje é Lírio outra vez andando.

Quando canto faz surgir o mês de outubro
Eu te descubro uma graça bem maior rubra
Que me regressou na época e ser menino
E ao tom do sino ser a vida feminino.

IV

Regado em luz, Regado em luz, ver cruz,
Ao tempo já surgiu, O tempo já ardeu,
Já retornou nos braços da manhã
eterno amor arruma o tempo se deu.

Derramar véu as cores da aliança,
No pão que és da minha dor feita flor.
E ao seu redor Deus acerca de Verbo,
Cede o colo pra me abrigar mulher,
E me guia quando eu não sei seguir.

Abro as portas do meu coração ter,
Descer o manto da vida sobre o ser,
Ouvir tua voz sem rodeios me indaga
Na chama íntima só eu posso ouvir:

Será estou valer pena ser quem eu fui?
Viver a trama que escolhi pra ser o meu?
Louvar quem amo, buscar o que busco?
Andar no rumo que escolheu meu coração.

Regado em luz, Regado em luz, ver cruz,
O tempo já surgiu, O tempo já ardeu,
Já retornou nos braços da manhã
eterno amor arruma o tempo se deu.

V

Ver fonte na procissão tomando as ruas
Espalhando que és Círio outra vez cruas,
Que és Rainha Aparecida vem chegando
Vem viajar pelas ruas chega já passando. 

Cordas d´alma avançam teu corpo cansa
Só pra solo se banhar, Só solo se banhar,
É meu olhar soluçando ao ver o teu olhar
Pequenina és a Rainha segues poder
Orações e Flores tua gente quer doar!

Tu és Rainha das santas as flores das Dores,
Reinante no chão humano tão mulher
Tão majestade de Jesus nos guardar
Nossa gente, nosso prado nesse altar;

Ver fonte na procissão tomando as ruas
Espalhando que és Círio outra vez cruas,
Que és Rainha Aparecida vem chegando
Vem viajar pelas ruas chega já passando. 

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, outubro 11, 2026

O JARDIM DOS POETAS - Leónidas Lamborghini - Trad. Eric Ponty

 Parterre 1 
Poetas que esperam a inspiração da musa 
 
Poetas que esperam com muita esperança a inspiração da Musa 

Poetas que não esperam com tanta esperança a inspiração da Musa 
 
Parterre 2 
Poetas que esperam com alguma esperança a inspiração da Musa 

Poetas que esperam tudo da inspiração da Musa 
Poetas que quase esperam tudo da inspiração da Musa 
 
Parterre 3 
Poetas que não esperam nada da inspiração da Musa 
Poetas que não esperam quase nada da inspiração da Musa 

Poetas que esperam num ponto tudo da inspiração da Musa 
 
Parterre 4  
Poetas que esperam sem mais esperança a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam sem qualquer esperança a inspiração da Musa 
Poetas que põem todas suas esperanças na inspiração da Musa 
 
Parterre 5  
Poetas que não esperam com muita esperança a inspiração da Musa 
Poetas que esperam pacientes a inspiração da Musa 

Poetas que esperam algo impacientes a inspiração da Musa 

Parterre 6 
Poetas que esperam num ponto tanto quanto você fica impaciente com a inspiração da Musa 

Poetas que esperam muito impacientes a inspiração da Musa 
 
Poetas tristes enquanto estão esperando pela inspiração da Musa 
 
Parterre 7 
Poetas que fazem qualquer coisa esperando tristes a inspiração da Musa 
 
Poetas que esperam um pouco triste a inspiração da Musa 
Poetas que esperam inseguros a inspiração da Musa 

Parterre 8  
Poetas que esperam seguramente a inspiração da Musa 

Poetas que estão esperando e se cansaram da inspiração da Musa  
Poetas que esperam almejar a inspiração da Musa 
 
Parterre 9 
Poetas que não esperam com muita segurança a inspiração da Musa  
Poetas não tão cansados enquanto estão esperando pela inspiração da Musa 
 
Poetas que esperam sem  nenhum desejo a mais inspiração da Musa 
 
Parterre 10 
Poetas que quase fazem qualquer coisa cansaram enquanto esperavam pela inspiração da Musa 
 
Poetas que esperam com calma a inspiração da Musa. 
Poetas que esperam bastante tranqüilos a inspiração da Musa. 

Parterre 11  
Poetas que esperam absolutamente tranqüilos a inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam hesitantes a inspiração da Musa. 

Poetas que não esperam muito tranqüilos a inspiração da Musa. 
 
Parterre 12 
Poetas na espera ardente da inspiração da Musa. 

Poetas que esperam num ponto e desejam muito a inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam sem qualquer vacilação a inspiração da Musa. 

Parterre 13  
Poetas que esperam absolutamente hesitantes a inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam vigilantes a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam com alguma vigilância a inspiração da Musa. 
 
 
Parterre 14 
Poetas que num ponto e tanto quanto noutro esperam distraídos a inspiração da Musa. 

Poetas muito distraídos que esperam a inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam muito tempo a inspiração da Musa. 

 
Parterre 15 
Poetas que esperam muito tensos a inspiração da Musa. 
Poetas que esperam um pouco tensos a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam tensos qualquer coisa da inspiração da Musa. 
 
Bosquinho 

                                           Poetas sem musa, propenso.
Poetas sem musa, extraviado.
                                           Poetas sem musa, jacintos.
   
 
Parterre 16 
Poetas que quase nervosos fazem qualquer negócio pela inspiração da Musa. 

Poetas que esperam com a ponta dos nervos o principiar da inspiração da Musa. 
Poetas que esperam na ponta dos nervos a inspiração da Musa. 
 
Parterre 17  
Poetas absolutamente calmos que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas não esperam muita calma a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam absorver a inspiração da Musa. 
 
Parterre 18  
Poetas esperam  nada ser absorvido pela inspiração da Musa. 

Poetas que construíram esperanças na espera da inspiração da Musa. 
Poetas que Construíram as esperanças muito pequenas nos poetas e que esperam a inspiração da Musa. 
 
Parterre 19  
Poetas que construíram bastante esperança e que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas vivazes que esperam a inspiração da Musa. 

Poetas que fazem qualquer coisa  para que esperem vivamente a inspiração da Musa. 
 
Parterre 20  
Poetas que esperam bastante vivamente a não inspiração da Musa. 

Poetas muito vivazes que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas sem qualquer ilusão que esperam a inspiração da Musa.  

Parterre 21 
Poetas que esperam absorver o eu da inspiração da Musa. 
Poetas que esperam suficientemente absorver o eu da inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam absorver o eu insuficientemente a inspiração da Musa. 
 
Parterre 22 
Poetas que esperam um pouco absorver o eu a inspiração da Musa 

Poetas qualquer coisa esperando absorver o eu na inspiração da Musa 
Poetas esperando que se chateiem pela inspiração da Musa. 
 
Parterre 23  
Poetas que esperam quase qualquer coisa chateando a inspiração da Musa 
Os poetas esperam e se chateiam absolutamente na inspiração da Musa  

Poetas num ponto tanto quanto noutro e esperam chateados a inspiração da Musa 
 
Parterre 24  
Poetas que esperam alegres a inspiração da Musa 

Poetas que esperam algo alegres a inspiração da Musa 
Poetas que põem toda sua felicidade que esperam a inspiração da Musa 

Parterre 25 
Poetas que esperam sem qualquer felicidade pela inspiração da Musa. 
Poetas que esperam uma noite em claro pela inspiração da Musa 
 
Poetas que esperam a noite em claro na espera pela inspiração da Musa
  
Parterre 26 
Poetas quase passam a noite em claro na espera da inspiração da Musa  

Poetas entristecidos que esperam pela inspiração da Musa  
Poetas não muito entristecidos que estão esperando a inspiração da Musa

Parterre 27  
Poetas que esperam apáticos a inspiração da Musa  
Poetas que esperam muito apáticos a inspiração da Musa  

Poetas que não esperam muito apáticos a inspiração da Musa 
  
Parterre 28 
Poetas que esperam desconcertados pela inspiração da Musa  

Poetas quase esperam desconcertados a inspiração da Musa  
 
Poetas não esperam tão perplexos a inspiração da Musa 

Parterre 29  
Poetas que esperam impacientes pela inspiração da Musa 
 
Poetas esperando  se surpreenderem pela inspiração da Musa 

Poetas esperando aturdirem-se pela inspiração da Musa 
 
Bosquinho 
 
Poetas sem Musa, chorosos.
Poetas sem Musa, descontentes.
Poetas sem Musa, melancólicos.
 
Parterre 30 
Poetas que esperam sem a mínima impaciência a inspiração da Musa 

Poetas que esperam sem mínimas surpresas pela inspiração da Musa 
Poetas que esperam sem o mínimo estado atordoado a inspiração da Musa 
 
Parterre 31 
Poetas que esperam algo aturdidos pela inspiração da Musa 
Poetas muito excitados que esperam pela inspiração da Musa 
 
Poetas insuficientemente excitados que esperam a inspiração da Musa 
 
Parterre 32  
Poetas que põem sua emoção inteira e que esperam pela inspiração da Musa 
 
Poetas não muito excitados que esperam a inspiração da Musa 
Poetas que duvidam enquanto esperam pela inspiração da Musa 

Parterre 33 
Poetas que duvidam esperar bastante pela inspiração da Musa. 
Poetas que põem toda a dúvida na espera a inspiração da Musa 

Poetas que duvidam muito enquanto esperando pela inspiração da Musa 
 
Parterre 34  
Poetas que esperam com muita espiritualidade pela inspiração da Musa 

Poetas que esperam sem qualquer espiritualidade pela inspiração da Musa 
Poetas que esperam com não com muita espiritualidade pela inspiração da Musa 

Parterre 35 
Poetas que estão esperando humilharam-se pela inspiração da Musa 
Poeta que você não espera ser muito humilhados na inspiração da Musa 
 
Poetas a ponto de se humilharem inteiros pela inspiração da Musa. 
 
Parterre 36 
Poetas que esperam absolutamente humilhados pela inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam com inspiração mística pela inspiração da Musa. 
Poetas que quase esperam sem misticismo a inspiração da Musa. 
 
Parterre 37 
Poetas que esperam com misticismo completo pela inspiração da Musa. 
Poetas que esperam sem qualquer misticismo pela inspiração da Musa. 

Poetas que estão esperando reflexivos pela inspiração da Musa. 
 
Parterre 38  
Poetas que esperam interessados pela inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam com muito pouco interesse pela inspiração da Musa. 
Poetas extremamente interessados enquanto esperam pela inspiração da Musa 
 
Parterre 39 
Poetas que esperam interessados pela inspiração da Musa 
Poetas que esperam com muito pouco interesse pela inspiração da Musa 

Poetas extremamente interessados enquanto esperam pela inspiração da Musa 
 
Parterre 40  
Poetas que esperam com bastante interesse pela inspiração da Musa 

Poetas desapontados que esperam a inspiração da Musa 
Poetas totalmente desapontados que estão esperando a inspiração da Musa 
 
Parterre 41  
Poetas um tanto desapontados enquanto esperam pela inspiração da Musa 
Poetas que estão muito desapontados esperando pela inspiração da Musa 

Poetas que esperam com rubor pela inspiração da Musa 

Bosquinho 
Poetas sem Musa, sorvetes.
Poetas sem Musa, rígido.
Poetas sem Musa, buracos.
 
              Bosquinho                                                           Bosquinho 
 
 
Poetas sem Musa, silencioso.                                Poetas sem Musa, doente. 
Poetas sem Musa, cortina.                                     Poetas sem Musa, deserto. 

Poetas sem Musa, surdo.                                       Poetas sem Musa, estéril. 
 
bosquinho 
Poetas sem Musa, histérico.
Poetas sem Musa, neurastênicos.

Poetas sem Musa, mortos.
 
Parterre 42 
Poetas sem o mínimo rubor mais que esperam pela inspiração da Musa 
Os poetas completamente ruborizados enquanto estão esperando pela inspiração da Musa 

Poetas debilitados pela espera da inspiração da Musa 
 
Parterre 43  
Poetas não um tanto assim debilitados pela espera da inspiração da Musa 

Poetas bastante debilitados pela espera da inspiração da Musa 
Poetas de Eufóricos que esperam pela inspiração da Musa 
 
Parterre 44  
Poetas  todos eufóricos que esperam pela inspiração da Musa 
Muitos poetas de euforismo que esperam pela inspiração da Musa 

Poetas que esperam quase eufóricos pela inspiração da Musa 
 
Poetas que esperam muito eufóricos pela inspiração da Musa 

Parterre 45  
Poetas confundidos pela espera da inspiração da Musa 
 
Poetas não muito poéticos e muito confusos que esperam a inspiração da Musa 

Poetas num ponto que estão esperando confusos pela inspiração da Musa 

Parterre 46  
Poetas lúcidos enquanto esperam pela inspiração da Musa. 

Poetas que esperam muito lúcidos da inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam absolutamente lúcidos a inspiração da Musa. 
 
Parterre 47 
Poetas que não esperam muito lúcido a inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam temerosos a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam um pouco temerosos a inspiração da Musa. 
Poetas que esperam quase lúcidos a inspiração da Musa. 

Parterre 48  
Muito não os poetas muito temerosos enquanto esperando pela inspiração da Musa  
Poetas que espera fez tato inferior a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam um tanto inferiormente afeitos a inspiração da Musa. 
  
Parterre 49  
Poetas quase ficaram inferiores pela espera da inspiração da Musa. 

Poetas irritados que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas quase totalmente irritados pela inspiração da Musa. 

Parterre 50  
Poetas não tão irritados que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas domesticados pela espera da inspiração da Musa. 
 
Poetas muito domesticados pela esperam a inspiração da Musa. 
 
Parterre 51  
Poetas horrorizados pela espera da inspiração da Musa. 

Poetas suficientemente horrorizados que esperam a inspiração da Musa. 
Poetas não tão assim horrorizados esperando a inspiração da Musa. 
 
Parterre 52 
Poetas que esperam sombrios pela inspiração da Musa. 
Poetas que não esperam muito sombrios pela inspiração da Musa. 

Poetas que esperam bastante sombrios a inspiração da Musa. 
 
Poetas que também esperam sombrios a inspiração da Musa. 

Parterre 53  
Poetas esperando humilhados pela inspiração da Musa. 
Poetas que não esperam muito humilhados a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam absolutamente humilhados a inspiração da Musa. 
Poetas que esperam muito humilhados a inspiração da Musa. 

Poetas que esperam num ponto toda humilhação pela inspiração da Musa. 
 
Poetas que esperam por qualquer humilhação pela inspiração da Musa. 

Parterre 54 
Poetas que calmamente esperam pela inspiração da Musa. 

 Leónidas Lamborghini - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LEBRETISTA 

LIVRO DOS ELEFANTES - Livro da águia e a Dançarina – Livro III - ERIC PONTY

 Livro III – I – Capítulo -




A Grande Dançarina


As facas da dançarina
- principio e fim –
gumes fluidos no ar,
perpetuam instantes.

Cortando fatias do ar,
apara lamentos e gritos,
sonhos das realidades,
o mover incessante.

As facas da dançarina
- Forma e conteúdo –
construídos linguagens,
funda outros Merus.

A dançarina nos sonhos,
a águia a segue fluindo:
É água ou sonho
da dançarina. tramando 
o encantado passo.

As facas da dançarina
roer os ecos da memória.
Bela é a imagem oferecida.

Livro III – II – Capítulo -

Dançarina do sonho



    A dançarina corta a textura do infinito. Move os braços no ritmo do vôo da águia a sobrevoar o cerimonial. Que tanto lhe agradou nessa lembrança?
   O pássaro não seria tolo em cobiçá-la, apenas aproximar-se-ia.
   Feche os olhos. Quando sonolento adentrar-vos as ruínas onde a dançarina fez o espetáculo...!  Aviso que, antes entrar – vós; é preciso que tenhais cuidado com as lâminas da dançarina.
   As lâminas não são mortais por apenas ferirem a humana espécie. Suas lâminas ainda são piores que a morte. Os seres incautos, que não pode defrontar-se com a escarninha lâmina da ilusão, voltarão ao mundo como sombra.
  Para isso não lhe ocorreis é preciso que sejas mais fluido que as lâminas. Ao entrares nas ruínas abrivos os olhos do espírito.


Livro III – III – Capítulo -
Epigrama a Íbis


Leve e veloz sustentando a leveza de ser.
Sem território ou arquipélago, migra no espaço.
Tudo pode ser quando não vê e não se altera.
Ensinou aos homens que haveria terras,
ao medi-las que se inventassem os limites.

Em sua forma estranha e gloriosa,
da manhã, anunciado fim da noite:
Talvez os dias se passem em vôos;
O Tempo de apagar as lâmpadas.

Livro III – IV – Capítulo -

Temível Premonição 


Ao cair da tarde as Íbis estavam postadas à margem da grande escadaria. Estas, em homenagem à dançarina, curvando-lhe as asas, menos a pequena Íbis assustada que voou. 
Dançarina de facas de cortar a textura do infinito desce correndo a escadaria ao contemplar sua face melancólica e se entrega ao sono.
Suspira, ao arfar-lhe a face de medo. A dançarina se aproxima, deixando rastros nas derradeiras brisas do sono.
Olha as hostes da pequena Íbis, observa ela pairar sobre o mar tempestuoso, e as asas exaustas, ficam postadas. A pequena Íbis fecha-se aos sentidos à cruel heresia da ilusão.
Seu Semblante se parece a com a face da dançarina. A dançarina cheira à macieira, tem a mesma placidez da face da lua. 
- Ó morte tende piedade de minha amada. Sou aquele que foi escolhido a contemplá-la dormindo. Perceber-lhe as imperfeições do tempo, as incongruências das horas. Sou o sofredor que, ao esperá-la, e viu-a gerar outros frutos.  Com minha sapiência aguardo-a para dormir em meu leito. Sou aquele que lhe atendeu a prece intima.

Livro III – V – Capítulo -


A confirmação de Ka
Essa águia não a encontra na praia
num templo olvidado da savana. 
Achei-a encima do monte de terra
talvez voando pelo mar.
O mar se evadiu há muito
os seus contornos
suas espécies marinhas. 

É nela percebo os nascimentos, 
os cânticos dos primeiros seres,
os lamentos dos elefantes,
o grito perpétuo de Ser Ka
solar e alada.

Livro III – VI – Capítulo -


A Invenção do Vôo


Súbito vôo de nuvem
no centro o cotidiano
esvaído em tédio.

Oração pronunciada!
Cálido vôo de menino
plantado e inerte.

Pálido vôo sem movimento
voraz silencio
estirado meio-dia.

Navegante interior,
metamorfoseado eu
em afogar silêncios.

Olhos fechados fluidos, 
silêncio ecoados
das encarnações.

A serena boca não murmura,
o silêncio e a grandeza.
Súbito vôo de nuvem 
concentrado eu.

Ressequida pronúncia  
de forjar imagens
trincada asa de mito.

Asas de homem no corpo
sempre liberto. Acesa lâmpada 
na sombra inútil da sombra.

Livro III - ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, outubro 10, 2026

POETA, DE FATO. - João da Penha

Cantar, todo mundo canta, mas cantores só há uns dez ou doze. 

 A boutade, dizem, é de Frank Sinatra, cujas notabilíssimas habilidades no ofício vocal - me parece - não foram contestadas até hoje.
                   Parafraseando a tirada do grande cantor norte-americano, pode-se dizer também que não há  tantos poetas assim no mundo - aqui e alhures, ontem e hoje. Desconfio que nunca haverá muitos poetas, ou pelo menos muitos grandes poetas. Pelo menos, estou convicto, não tantos quanto sugere o crescente número de coletâneas, editadas, por artes de estratégia mercadológica,  justamente sob  títulos hiperbólicos. 
                     O exercício poético muitos o exercem, ou imaginam exercitá-lo. Mas fazer grande poesia é graça concedida a uma minoria; a uma casta de eleitos, portanto.
                     Schiller, a propósito, já advertiu que não basta criar bons versos para que seu autor se considere um poeta. Ora, fazer versos, quase todo mundo, em algum momento da vida, já fez. Fazer POESIA, no entanto, é estrada  percorrida pela minoria a que nos referimos acima. Só ela, essa casta de eleitos, tem o mapa da trilha. Quem o detém, quem sabe lê-lo, interpretar suas coordenadas, conduz os demais, ou seja, a todos nós, que formamos essa maioria alijada, como criadores, do território poético, só o percorrendo, se sensível  às Musas, como visitantes, como viandantes. Aos carentes de sensibilidade, o passeio por esse território não passará de mero turismo - se tanto.
                    Eric Ponty tem o mapa da trilha. É um autêntico poeta. Poeta amadurecido (Ripeness is all. A maturidade é tudo, disse-nos o supremo bardo no "Rei Lear"). Poeta, dono de seu ofício. Poeta que atingiu o pleno domínio do fazer poético.
                   Sua virtuosidade poética, Ponty  já mostrou e demonstrou no magnífico  "Menino Retirante Vai Ao Circo Em Brodowski" (Editora Musa, São Paulo, 2003). Neste "Livro Sagrado dos Elefantes", nosso poeta só faz reafirmá-la. E em grande estilo. Ivo Barroso, poeta e tradutor, no Prefácio, ao narrar uma fábula indiana, defende o direito de os poetas, esses "vedores", estenderem sua visão até o inimaginado. Essa defesa podemos traduzi-la como o reconhecimento de que os poetas habitam uma província onde a lógica não se curva docilmente aos princípios que regem o mundo empírico (nada é mais real do que o nada, pregava o pré-socrático Demócrito). Os poetas sabem disso. Por isso sua lógica particular. Particular, mas não arbitrária. Particular porque só eles têm a "chave do reino".
                       Croce e Vossler, a lembrança me vem agora, polemizaram em torno da frase: "A mesa redonda é quadrada". Para o pensador italiano, a frase se resumiria a uma ausência total de sentido, ilógica, enquanto o crítico alemão a viu como verdadeira, pois estética e gramaticalmente válida, pouco lhe importando que logicamente impossível. Vossler, como tantos outros, antes e depois dele, percebeu que o poeta é aquele que cria realidades. Poetas são criadores de mundos. Por isso, nos poemas e fábulas do "Livro Sagrado dos Elefantes", Eric Ponty, músico, além de poeta, segue o conselho wagneriano de que o poeta outra coisa não faz a não ser estimular o entendimento, levando o leitor a efetuar novas combinações em cima das matérias já conhecidas por meio da percepção sensorial. 
                      Se, como nos diz Ponty num dos poemas, "é preciso escutar o que o mundo tem a dizer", também não é menos verdade que devemos ouvir o que os poetas nos têm a dizer ( poucos   decifram  melhor o mundo do que os poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força criadora, muito nos tem a dizer. É urgente que ouçamos sua voz, uma das mais talentosas de seu tempo.

João da Penha

OS ELEFANTES DE PONTY - IVO BARROSO


Uma conhecida fábula indiana, da qual existem várias versões, conta, numa delas, que  três cegos se aproximaram de um elefante para “vê-lo” pelo tato. O primeiro tocou-lhe uma das orelhas e concluiu que o elefante era um pássaro de enorme envergadura, com asas destituídas de penas. O segundo, agarrando-lhe uma das presas, convenceu-se de que o elefante era um peixe de focinho afilado. O terceiro, abraçando-lhe a  perna, imaginou o elefante como uma torre de carne encimada por descomunal cabeça. Tudo isto vem a propósito das formas de “ver”. No caso, temos “visões” fantasiosas de quem não vê, no sentido  mais vulgar da palavra. Mas as maneiras de ver de quem vê, dependendo de quem seja esse vedor, podem revelar “visões” ainda mais mirabolantes que as dos três cegos indianos.  E quando quem vê é um poeta e um artista plástico, essas visões  podem atingir o nível do inimaginado.

        Eric Ponty viu o elefante, ou melhor, viu vários elefantes e escreveu sobre o que viu. Mas sendo poeta, e um poeta muito especial, as maneiras de ver de Eric  Ponty têm equivalentes literários semelhantes às visões tácteis dos cegos indianos. Sérgio Campos viu as visões de Eric Ponty. Sérgio Campos  é um artista plástico muito especial.  Texto e imagem nos dão visões oníricas, surrealistas, visões diferentes ou para além daquelas que nós, os pobres mortais, podemos apreciar com os simples olhos da face.

Essas visões deram lugar a um livro. Um livro também para as crianças? Porque não. As crianças são capazes de devaneios semelhantes aos sonhos dos poetas, de imaginações que suplantam as suposições sensoriais. Mas é também um livro para adultos, pela sua beleza, sua poesia, sua capacidade de nos ajudar a ver algo mais que a realidade concreta e dimensional dos nossos olhos. 

 IVO  BARROSO

sexta-feira, outubro 09, 2026

MEMÓRIA - IMAGENS - ERIC PONTY


Eu me tornei estranho para o mundo - (Ensaio) - Eric Ponty - Trad. Ivo Barroso

       Muitas besteiras foram ditas sobre Gustav Mahler, então me deixe juntar a este seleto grupo com as minhas observações, que farei a partir de um lied considerado fundamental na biografia deste compositor que é Ich bin der Welt abhanden gekommen na recente tradução inédita de Ivo Barroso dedicado a minha pessoa. 
      Gustav Mahler é considerado um compositor de fácil acesso por alguns por ser melódico, mas nem toda melodia é popular e acessível, basta pensarmos de passagem pela melodia de Tristão e Isolda de Richard Wagner que eu adoro.
     Toda obra musical de Gustav Mahler se resume a 10 sinfonias e uma sinfonia inacabada, pois Canção da Terra (Das lied Von der Erde) é na verdade uma sinfonia cantada inspirada pelos poemas dos poetas chineses, além de uma abertura para uma ópera, peças sem importância da juventude, e os famosos lieds como os proféticos e fatídicos Lieds das Crianças Mortas na vida do compositor.
      Se a melodia da obra de Gustav Mahler é acessível aos ouvidos assim para ouvidos não educados em música erudita, eu recomendo que o eventual leitor destas considerações comece pela sinfonia de no 7ou sinfonia no 2 (auferstehung) onde há um pequeno e maravilhoso lied Urlich, reaproveitado nesta sinfonia da obra Menino e o Corneteiro consagrada aos primeiros lieds.
       Na verdade, a única sinfonia acessível de Gustav Mahler é sua primeira sinfonia, por ser a mais curta, e exigir menos dos ouvidos preguiçosos, e, por conter citações folclóricas além de possuir a irônica e deliciosa passagem do Cortejo da Morte do Caçador, onde os animais passam em cortejo em homenagem à pessoa morta do seu principal algoz.
       Gustav Mahler é um judeu que se converteu ao catolicismo, mas a alma não, continuou errante como os Alpes que este admirava em busca de uma terra prometida, de uma transcendência para sua forte personalidade, pois, em vida foi mais famoso como maestro que poderia fazer um ensaio de oito horas seguidas para procurar um tom que estava somente em sua cabeça. 
        Mágica e melódica é sua Sinfonia n0 4, mas exige, um pouco mais do ouvinte que se encerra com a bela e edificante Sehr behaglich onde a voz da soprano nos faz pensar que chegamos ao céu como nos sugere o lied ou como a terceira Sinfonia onde há o famoso poema de Friedrich Nietzsch que encerra a mesma inserindo-se historicamente nas questões da Viena dos primórdios do século XX.
        Gustav Mahler é o músico que sintetiza a dor e da solidão talvez porque tenha tido uma trágica vida com a morte dos filhos, após compor fatídicos Lieds das Crianças Mortas ou porque alguns o consideravam com problemas de sexualidade não administrada,e, que o lied Ich bin der Welt abhanden gekommen seja uma peça para compreensão da obra deste compositor que nos deixou sua décima primeira sinfonia inacabada, como se nos disse-se que foi um poeta que abriu as portas para as outras gerações, com o silêncio das partes não terminadas.
        O lied Ich bin der Welt abhanden gekommen possui a duração de exatamente de sete minutos sendo para ser executado com orquestra, mas nele há elementos para se compreender as sinfonias seja pela exposição e reexposição dos temas melódicos, segundo George Steiner, para Wittgenstein, Mahler era um compositor brilhante, porém absolutamente falso e meramente técnico, elegendo o maçante Bruckner (para meu gosto) como a verdade transcendental.
        No lied Ich bin der Welt abhanden podemos sobrepor os outros lieds, e, estão ali sintetizadas as questões filosóficas e pessoais deste compositor que perpetuam a personalidade desta estranha visão da vida e da morte misturadas em sofisticados termos musicais, quiçá, filosóficos, pois não custa lembrar que esta música segue um “programa” para as argumentações abstratas das sinfonias que lembram a pequenez do homem diante da vida e da natureza diante do iniludível e da crença em outra vida.
        Recebi emocionado a tradução deste lied capital das mãos de Ivo Barroso o nosso tradutor de Lobo da Estepe de Herman Hesse dedicado à minha pessoa, e, que percebeu a minha identificação com este lied escrito pelo poeta alemão De Friedrich Rückert:, colaborador de Gustav Mahler,e, do qual reproduzo com a autorização deste:

Dedicado a Eric Ponty

Eu me tornei estranho para o mundo
com o qual perdi outrora tanto tempo;
faz muito que não ouve a meu respeito
que pode mesmo achar que já morri.

Para mim é de todo indiferente
que ele me trate como fosse morto.
Nada posso dizer contrário a isso
pois de fato morri para este mundo.


Estou bem morto para o seu tumulto
e descanso num lugar de quietude.
Sozinho vivo no meu paraíso,
no meu amor, nas notas do meu canto.

Tr. de Ivo Barroso

Friedrich Rückert: - Ich bin der Welt abhanden gekommen


Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!

 Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied.