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segunda-feira, novembro 02, 2026

A CAPELA DA MONTANHA - EDWARD THOMAS – TRAD. ERIC PONTY

 

Capela e lápides, antigas e poucas,
Estão envoltas por uma encosta da montanha
Longe do som e da vista
Da vida. O silêncio do ribeiro
Cai como uma sombra. Tudo o que ouvem é 
O ruído eterno
Do vento assobiando na grama, mais estridente
Do que qualquer coisa tão humana quanto uma espada,
E dizendo ainda:
“Foi há apenas um momento que o homem nasceu 
E em mais um momento ainda
O homem jaz na terra
Para sempre; mas eu sou o mesmo
Agora, e serei, assim como era
Antes de ele chegar; 
Até que não haja mais nada, eu serei.”
No entanto, ali o sol brilha após o meio-dia
Tão alegremente
Que o lugar quase parece povoado, nem
Falta a chaminé da cabana, nem a lareira da cabana: 
Não é maior
Do que uma cabana, nem menos aconchegante 
Do que qualquer outra casa vazia 
Em termos de aconchego. 
Tem um jardim de flores silvestres 
E a grama mais bela e lápides aquecidas 
Pelas horas de sol
Ao longo do ano. Homens atrás do vidro
Ficam ali uma vez por semana, cantando e abafam
O assobio da grama 
Que seus pôneis mastigam. E, no entanto, em algum lugar,
Perto ou longe, há um homem que poderia
Ser feliz aqui,
Ou talvez um dos deuses, se eles
Não fossem de estatura desumana e terrível, 
Como dizem os poetas
Que não os viram claramente; se,
Ao som de qualquer vento do mundo,
Entre as folhas rígidas da grama,
Eles não se assustassem e estremecessem de frio 
Sob o sol. Quando os deuses eram jovens,
Este vento já era velho.
EDWARD THOMAS – TRAD. ERIC PONTY

A Canção das Feras - RUPERT BROOKE – TRAD. ERIC PONTY

 

 (Cantada, numa noite, nas cidades, na escuridão.)

VEM! Vem!
Vocês estão sóbrios e apáticos durante o dia comum,
Mas agora é noite!
É uma noite vergonhosa, e Deus está adormecido!
(Vocês não sentiram os fogos intensos que se arrastam 
Pela carne faminta, e a luxúria do prazer,
E os segredos ardentes dos sonhos que o dia não pode revelar?).
A casa está em silêncio;
A noite clama por vocês. — Venham, ah, venham!
Descendo as escadas escuras, passando pela porta que range, 
Nus, rastejando de quatro
— É o momento certo! É o momento certo!
Vocês não são mais homens, mas menos e mais,
Besta e Deus… Pela rua sem luz,
Por pequenos caminhos escuros e lugares secretos, 
Na escuridão e no lodo,
Risos fracos ao redor e rostos malignos
Vistos pelo brilho das estrelas — ah! sigam-nos!
Pois a escuridão sussurra um desejo cego,
E os dedos da noite são amorosos… 
Fiquem próximos enquanto aceleramos,
Embora sussurros enlouquecedores os cortejem, e mãos quentes se agarrem,
E o toque e o cheiro da carne nua ardam,
Suave flanco junto ao seu flanco, e lado roçando lado —
Esta noite, não liguem! 
Inabalável e silencioso, siga-me,
Até que a cidade termine abruptamente,
E as ruas sinuosas se abram amplamente,
Para longe das vozes da noite,
Além da luxúria e do medo, 
Para as águas calmas do luar,
Para as águas calmas, tranquilas e límpidas,
Para as planícies negras e inquietas do mar que nos chama.
 RUPERT BROOKE – TRAD. ERIC PONTY

DICA DE LEITURA: ALBUM CHARLES BAUDELAIRE - STÉPHANE GUÉGAN - LA PLÉIADE

 


POEMAS DA GUERRA - Siegfried Sassoon – TRAD. ERIC PONTY

O escuro e gradual clarear da penumbra informe
Estremece diante do amanhecer chuviscoso que revela
Homens desconsolados que batem as botas encharcadas
E voltam rostos apagados e encovados para o céu
Abatidos e sem esperança. Eles, que derrotaram
O desespero rançoso da noite, devem agora renovar
Sua desolação na trégua do amanhecer,
Assassinando as horas lívidas que tateiam em busca de paz.

No entanto, esses que se agarram à vida com mãos teimosas,
Conseguem sorrir em meio às tempestades da morte e encontrar uma brecha
Nos emaranhados cruéis e cheios de garras de sua defesa.
Eles marcham da segurança e da alegria cantada pelos pássaros
Dos matagais verdes como a grama, para a terra onde tudo
É ruína, e nada floresce, a não ser o céu
Que se apressa sobre eles, onde suportam
Horizontes tristes, fumegantes e monótonos, bosques fétidos,
E linhas de trincheiras destruídas, disparando desgraça após desgraça.

Ó meus bravos companheiros morenos, quando vossas almas
Partirem silenciosamente, e os mortos sem olhos,
Envergonharem a fera selvagem da batalha no cume,
A morte permanecerá de luto naquele campo de batalha,
Pois vossa coragem invicta se esgotou.
E por algum Valhalla iluminado pela lua passarão
Batalhões e batalhões, marcados pelo inferno;
O exército que não retornará, que outrora foi a juventude;
As legiões que sofreram e agora são pó.

Siegfried Sassoon – TRAD. ERIC PONTY

domingo, novembro 01, 2026

SONETOS DO LOUVOR TOTAL - ERIC PONTY

P/LETÍCIA CARVALHO 

Tão gentil e de tão pureza se parece
Minha dona, a todos quem cumprimenta,
De que toda língua tremeria, em silêncio,
E nenhum olhar ousaria se voltar.

Ela se move, que seguida de elogios,
Vestida com amabilidade e medida,
E se parece com algo que desceu à Terra,
Um milagre então vindo do alto dos céus.

Ela parece tão afável aos olhares,
Que os olhos trazem alegria ao espírito,
Anseio que não arranjamos explicar.

Também parece que lábios dão origem
São espíritos doces repletos desse amor,
Sussurram “Suspiro” no íntimo da alma. 

II

 Como eu te amo? Deixa-me contar os jeitos.
Eu te amo tua amargura, tua tristeza, teus feitos
Que minha alma pode arrumar, busco, sem ver,
Teu sexo, tua estria, confins do Ser e da Graça ideal.

Eu te amo no nível da precisão mais silente do dia a dia,
À luz do sol e à luz de velas abrigando o teu ser,
Eu te amo livre eterna, quais homens lutam pelo Destro;
Amo-te pura infinito, quais se apartam Louvor e Amor.

Amo-te com paixão empregada nos meus versos mais findos
Em minhas antigas mágoas e com fé da minha infância.
Amo-te com um amor que parecia ter perdido.

Com meus santos idos — amo-te com fôlego, e, flama, verdade, 
Dos sorrisos, as fúcsias de toda a minha vida de minha lida!
 — E, se Deus quiser, Amo-te ainda mais após a morte ainda mais forte.

ERIC PONTY

DOIS SONETOS - Charles Sorley - TRAD. ERIC PONTY

 

 Os santos têm adorado a sua alma sublime.
Os poetas empalideceram diante de sua grande fama.
Estamos entre os muitos milhões que
A cada hora aguardam para seguir seu caminho.
Você, tão familiar, antes era desconhecido: tentamos
Viver como se não percebêssemos sua presença.
Mas agora, em todas as estradas, por todos os lados,
Vemos ali sua placa indicadora, reta e firme.

Penso nisso como aquela placa na minha terra,
Envelhecida e alta, que me indicava seguir
Para cima, em direção às colinas, à direita,
Onde as névoas flutuam e os ventos uivam e sopram,
Uma terra sem lar e sem amigos, mas uma terra
Que eu não conhecia e que desejava conhecer.

II
Assim, assim é a Morte: sem triunfo, sem derrota:
Apenas um balde vazio, uma lousa limpa,
Um afastamento misericordioso do que já foi.

E isto sabemos: a Morte não é a Vida exaurida,
A Vida esmagada, o balde quebrado. Nós, que vimos
Coisas tão maravilhosas, sabemos bem que o fim ainda não chegou.

Vencedor e vencido são um só na morte:
O covarde e o corajoso; o amigo e o inimigo. Os fantasmas não dizem:
“Venha, qual foi o seu histórico enquanto respirava?”
Mas uma grande mancha ocultou cada ontem
Tão pobre, tão manifestamente incompleto.
E sua brilhante Promessa, há muito murcha e perdida,
É tocada, se agita, se ergue, se abre e se torna doce
E desabrocha e é você, quando você estiver morto.

Charles Sorley - TRAD. ERIC PONTY

NOITE E DIA - Isaac Rosenberg - TRAD. ERIC PONTY

NOITE. O Poeta vagueia pela noite e questiona-se sobre
as estrelas, mas não recebe resposta. Ele caminha entre a multidão
das ruas e se pergunta se é o bode expiatório
destinado a carregar sobre si os pecados da humanidade 
E a desperdiçar sua vida para descobrir o segredo de Deus,
 em nome de todos.
DIA. Ele acorda e vê o dia pela janela. Sente-se
dotado de uma capacidade maior de sentir e desfrutar das coisas, e
sabe que, ao ter-se comunicado com as estrelas, sua alma se
exaltou e se tornou mais sábia na experiência intelectual,
10 Ele caminha pela cidade, segue para a floresta e deita-se sob
as árvores, sonhando com os espaços do céu.
Ele ouve o Desejo cantar uma canção de Imortalidade,
a Esperança, uma canção de amor,
e a Beleza, uma canção do ritmo Eterno.
15 O crepúsculo desce e o poeta escuta a canção da
estrela da tarde; pois a Beleza lhe ensinou a ouvir, a Esperança a sentir,
e o Desejo, uma concepção de realização.
Ao pensarmos em coisas mais elevadas, 
nos exaltamos ao nível daquilo em que pensamos.
Buscando o perfeito — Deus, nos aproximamos mais da perfeição do que antes.

 Isaac Rosenberg - TRAD. ERIC PONTY

DOIS SONETOS DE WILFRED OWEN - TRAD. ERIC PONTY

Três cores vi o Abismo vestir veste uniforme;
É bom que hoje os belos púrpuros se acender-se,
velando o brilho esmeralda e o resplendor azul.
É bom, também, nuvens humildes e sombrias cá se ergam.

No fausto escuro ao redor, bordadas beleza,
com o alvo de arminho ondas: para mim, trazem
memórias aquosas de Teu destino místico,
cujo Nome foi escrito na Água (diz teu túmulo).

Que as ondas tristes chorem para sempre a morte,
Domem em tua dor entre as rochas onde ele pousou,
Ou agitem em silêncio, aspirando com sopro afogado.

Enquanto as névoas e a chuva se perdem tristonha,
E suave as breves gotas fluem das árvores chorosas,
Tremendo angústia ao sopro da brisa soluçante.

Diariamente penso nela; penso e me inquieto;
E seguro seu rostinho entre as mãos de oliva;
Mas ainda a poupo — mesmo que vãos — dos beijos.
Isso porque, quando pela inicial vez olhei aquele rosto.


II
Ele acordou dúvidas que talvez nunca mais eu consiga olvidar,
E temores místicos que não consigo abarcar.
Vão além medos que os amantes enlevados nanam,
De que a fé possa mudar antes da morte; pois sabem:

‘E ela depois da morte? Que persistiremos?
A morte será boa e já manterá então inteira?’
Perplexo com isso, não a beijei; olhei para serra,

E mesmo agora me pareceu ouvir um sussurro:
‘Aprendeu assim a Lei do Amor e, ainda assim, não sabia
Que a beleza dela não perdura? Então, pode a alma dela?’

WILFRED OWEN - TRAD. ERIC PONTY


 

sexta-feira, outubro 30, 2026

A TRAUNSEANTE - CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

 P/ LETÍCIA CARVALHO.

A poesia de um filho da Hélade - JOÂO DA PENHA

 Em seu primoroso livro "A literatura inglesa", Anthony Burguess observa que as palavras podem ser usadas de duas maneiras: uma artística, outra não-artística. 
 
             Dito mais extensamente: as palavras mesmas podem ser vistas duplamente e distintamente. Pois, primeiramente, podemos buscar seu significado consultando o dicionário, onde encontraremos sua denotação. Podemos, ainda, verificar a associação que a palavra adquiriu por meio do uso constante - teremos, assim, suas conotações.

            O escritor literário, prossigamos na trilha do romancista e ensaísta inglês, persegue as conotações, vale dizer, as maneiras pelas quais ele, escritor, pode fazer com que suas palavras nos comovam ou nos excitem. E o poeta, artífice da "mais alta forma de literatura", está sobretudo preocupado com as conotações da palavra. E isso, essa preocupação, distingue o poeta do cientista ou dos autores da literatura jurídica, profissionais compromissados com o significado denotativo da palavra; neste caso, cada palavra deve significar uma coisa determinada e apenas ela. É o caso desse poema, de cuja graça infinita nos traz à efigie dum Van Gogh, que nos adverte de que escutar uma voz interior dizendo ‘você não pode pintar’, então pinte e essa voz será enfim silenciada no sempre:

Com dom Van Gogh eu sonhava menino,
Suntuosidade da Holanda do passado,
Com Saltério dos Santos, das estrelas.
Criava meu desejo, debaixo lúmen douro,

Entre perfumes sons sagrados música,
Hereges infinitos, céus carnais.
Agora, mais calmo, igual já febril,
Sabendo que vida é sucinto pacto.

Tendo que refrear minha rara postura,
Sim resignar-me, empenhei, o bastante.
Sendo assim! Nobre seduz meu predicado,

Porém distante mim, com fiz, o amável,
Hoje aborreço igual à mulher formosa,
Cuja rima assonante a amiga sensata.

           Desde tempos imemoriais, assim trabalham os poetas, os verdadeiramente poetas. São artistas por excelência da palavra, da palavra conotativa. No Ocidente assim é desde que a luz da Hélade passou a iluminar esta parte do mundo que à palavra transcendeu o ser. 

           A literatura grega é da literatura clássica por excelência, sentenciou, com todas as razões, o poeta Manuel Bandeira. A literatura de Homero, educador da Grécia, nos assegura Platão. Homero, como Orfeu, Museu, Lino, é uma figura lendária. O que sabemos do grande aedo chegou até nós via uma ou outra tradição popular, ou por meio de especulações de gramáticos com base em passagens da "Odisseia" (ou "Ulisseia") e da "Ilíada". Muita e muita tinta correu sobre as origens de Homero. Sete cidades reivindicam ser seu berço natal. Camões, o poeta-fundador da língua portuguesa, descreve em "Os Lusíadas" a disputa:
 
         "Esse que bebeo tanto da agoa Aonia/Sobre quem tem contenda peregrina, /Entre si, Rodes, Smirna, e Colofonia,/Atenas, Yos, Argo e Salamina". *

          Por muito tempo, houve correntes que nos descreveram essas duas epopeias homéricas como uma coleção de rapsódias de autoria coletiva e totalmente anônima.  Wolf esposou tal teoria, acatada por muitos críticos mercê da grande erudição com que foi exposta. Mas houve quem dela discordasse, à frente um poeta do porte de Schiller, que considerava "bárbaros" os argumentos utilizados. Goethe, inicialmente, mostrou-se receptivo à hipótese wolfiana. Mais tarde, ficou convencido da unidade dos poemas, suficiente, a seu ver, para anular a tese de uma autoria múltipla.  O avanço da literatura comparada e o aprofundamento do método crítico - e sejam acrescentadas as estas descobertas arqueológicas - esvaziaram os esforços dos seguidores de Wolf em validarem a teoria de seu prógono. 

          É a essa literatura grandiosa ora que lhe pertence.

          Sendo poeta. Quer dizer na prática mais elevada das formas literárias. É qual poeta grego. Herdeiro, portanto, de uma literatura que não teve mestres - formou-os. Literatura que criou gêneros, forjou modelos. Poeta da erudição como nesse poema expressivo da alma de Hélade grega:

Fala: Confinar-me-ei outro chão, ir oceano.
De outra urbe terá de ser melhor paragem.
Sendo à cada ânimo meu é dito proferido;
O meu coração — padecido — pregado.
Até porque minha alma finda o marasmo?

Olhe meus olhos, onde quis olhar certa vez,
Percebi ser negras ruinas da essência,
Passei tantos anos derruídos e gorados»

Não dirás aos chãos, não dirás outros oceanos.
Urbe ti acossará. Andarás nas vias pastoris. 
Seguirás os arrabaldes até tua vetustez;
Entre muros iguais irás lamentar-se n´alma -
Sempre regressarás a urbe. Ser outra região —
Não ti espere absolvição da sina — É local.

           Como diáspora grega é Konstantinos Kaváfis, nascido no norte da África, na cidade de Alexandria. À Grécia, Kaváfis só foi umas poucas e breves ocasiões. Sua majestosa poesia só veio a público postumamente. Seus poucos mais de 150 poemas foram recolhidos por Aleko e Rika Singopoulos. E. M. Forster e T.S. Eliot fizeram enormes esforços em divulgar a poesia do grande grego quando este ainda vivia, mas o próprio recusou o favor, pois não considerava sua obra suficientemente amadurecida a publicação, além de desejar vê-la divulgada em seu idioma original antes de sair em tradução. 

        Para gáudio dos admiradores da grande poesia, está poesia está entre nós. E publicando. Publicando poesia de alto nível.
 
    O poeta explorar a sabedoria de Atena, sendo que a explora:

Lira içou. Transcendência candura!
Igual canto Orfeu! A Lira pura orelha!
Tudo silencia. Tudo silente faz se ouvir
Surgindo princípio, do sinal, à mutação!

Bestas silentes se sujeitaram clareza
Selva desatada em ninhos e jazigo;
Sons evidentes da astúcia coeva
O Medo amansava-se igual forma.

Sim ouvis. Ruídos, berros, brados sumidos,
Pequenos corações. Onde não há asilo,
Senão onde acolher estrondo advindo.

Sendo o refúgio volição obscuríssima
É um umbral brunas jaulas sombrias;
Tu lhes criaste à catedral nesse ouvido.

          Um aspirante a poeta, Franz Xaver Kappus, trocando cartas com Rilke, submeteu seus poemas à apreciação do grande vate. Resposta de Rilke:

 "Perguntais se vossos versos são bons. Perguntais a mim. Haveis anteriormente perguntado a outros. (...). Ninguém vos poderá orientar e ajudar. Ninguém. Só há um meio. Entrai em vós mesmos. Pesquisai o fundamento que vos chama a escrever; verificai se ele tira as suas raízes do mais profundo de vosso coração, respondei a vós próprios se haveríeis de morrer, se vos fosse vedado escrever. E, sobretudo, isto:  interrogai-vos no maior silêncio da noite: devo escrever?" 

    Kappus, ao que se sabe, não insistiu na poesia - tudo leva a crer que buscou rumos mais prosaicos na vida.

    Ora, a poesia, em Rilke, tem algo de monástico, ascético, pois, ele nos advertiu, a cultivá-la é preciso “solidão, grande solidão interior. Entrar em si mesmo e, por horas a fio, não encontrar ninguém - eis o que se deve conseguir".

   Eric Ponty conseguiu praticar tão difícil exercício da alma artística. Por isso, se torna um poeta de alto coturno onde som, metáfora e música se fundem numa expressão profana artística, mas que tem algo de monástico, ascético. 
 

                                             João da Penha

                                             Jornalista e escritor, foi Colaborador da Revista Cult, e, nos deixou há pouco. 
 

  * Mantive, na citação, a grafia original das duas edições de 1572, ano da primeira publicação de "Os Lusíadas".

PARA O LEITOR - CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

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P/DR. WALDIMIR SALDANHA & LETÍCIA CARVALHO.

 A Loucura, do erro, pecado, a avareza
Ocupam nossas mentes e afligem nosso ser,
Nós devoramos nosso aprazível remorso
Como mendigos se nutrem teu verme clareza.

Nossas culpas são aferradas, pesar é covarde;
Mandamos um alto preço às nossas confissões,
E regressamos alegres ao caminho do lodo,
Crer choros lavam todos nossos laivos arde.

Sobre a almofada do mal, Satã, trismegistro,
Incessante acalma nossas mentes seduzidas,
E o metal nobre nutre das nossas vontades
É total vaporado por este sábio alquimista.
O Diabo segurando as cordas que nos movem!

Em coisas abjetas, desvendamos encantos;
Todos dias descemos um passo Inferno prantos,
Sem horror, através da depressão que fedem.
Como rodo sem bronze com beijos e mordidas.

Torturas ao peito de uma velha prostituta,
Nós roubamos como calhamos prazer secreto
Apertamos muito dura como laranja seca.
Junto, abundando, como um milhão destas larvas.

Legião de Demos farrear nosso cérebro travas,
Quando respiramos, Morte, aquele rio invisível,
Desce nossos pulmões prantos envoltos críveis.
Se estupro, o veneno, as adagas, do incêndio
Ainda não bordado cartuns amenos compêndio.

A tela banal de nossas vidas lamentáveis,
É porque almas não têm ousadia aceitáveis,
Mas entre os chacais, panteras, as cadelas,
Macacos, escorpiões, urubus, ofídios, delas.

Gritos, uivam, rosnando, rastejam quais monstros,
Na bagunça imunda de nossos vícios adentro.
Há mais feio, mais perverso, que é mais sujo!
Ainda não faças bons gestos nem grãos gritos.

Ele faria livre desta terra um caos em cujo
Bocejo, engula ser do mundo ritos;
Ele é tédio! – Teu olho lacrimejar quais prantos,

Sonhar com andaimes fumar sua guita d’água.
Tu o conheces leitor, purgado monstro manto.
– Leitor hipócrita, – meu comparte –, meu irmão!

Publicado em La revue deux mondes em junho de 1855

CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

 

PIERROT LUNAIRE LIEDS Otto Erich Hartleben (1864 –1905) - SOBRE POEMAS DO BELGA ALBERT GIRALD - TRADUÇÃO ERIC PONTY

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 P/DR.WLADIMIR SALDANHA

 A Lua Cheia


Vinho ébrio com olhares,
Lua, ao entardecer em ondas,
Sendo uma maré dum dilúvio
Num horizonte fez silente.


Desejos alarmantes e delicados,
Sobrenadar ao ensejo sem cifra,
No vinhedo sorvido com olhares,
Lua, ao entardecer em ondas.


Poeta, incitado pela devoção,
Envenenar-se com bebes bentos,
Mudando à cabeceira ao céu
Cabeceira inerte, sorve e solve
Vinho é ébrio com olhares.

 2. Columbina

 
As flores pálidas luares,
Rosas alvas d´admiração
Brotam noites de julho,
O que lhe quebraria uma!


Aliviar tristeza angustiada,
Corrente abrumada acharei
Estas flores lívidas lunares,
Rosas alvas d´admiração.


Todo meu anseio fartado
Se pudesse ser tão fado
Tão felizmente silente
Acima buços sobrancelhas
Luz da Lua brotar lívida!

 O dândi


Com um magnífico feixe de luz
Lua fulgura facões cristalinos
Sobre lavatório breu, mui bento
Na dança silente do Bérgamo.


Em cuia de bronze pra tingir
Ri-se intensa fonte, o som metalino.
Num delirante feixe de luz
Lua fulgura os facões cristalinos.


Pierrot com a face de cera
Pondera e pensa: irá se maquiar?
Impele o rubro e o verde oriental
E pinta sua face de jeito brioso
Num delirante feixe de lua.

 Uma lavadeira lívida


Uma lavadeira lívida
Lava panos lívidos durante a noite;
Braços nus, prateados e alvos
Se distendem até o dilúvio.


Ventos rastejam por meio campestre,
Silente, se mover o fluxo.
Uma lavadeira lívida
Lava xales lívidos durante essa noite.


E submissa dama do céu,
De ramos suaves acariciados,
Espalham sobre prados abrumados
A textura de linho intensa
Duma lívida lavadeira.

 Valsa de Chopin


Qual lívida gota de sangue
Colorir lábios duma pessoa acamada,
Por isso, se apoia em impressões
Numa graça destrutiva.


Acordes luxuriosos selvagens [perturbar]
Dum sonho glacial do desalento...
Como lívida gota de sangue
Realçar beiços duma pessoa acamada.


Quente e exultante, doce e languinhenta,
Melancólica Valsa infeliz,
Não pode ausentar-se da minha cabeceira.
Me agarra aos meus pensamentos
Numa lívida gota de sangue!

 TEATRO


Estou sonhando com um teatro de câmara,
Cujas persianas Breughel pintaria,
Shakspeare, os palácios pálidos,
E Watteau, os fundos âmbar.

Nas noites frias de dezembro,
Aquecendo meus dedos roxos,
Estou sonhando com um teatro de câmara,
Cujas persianas Breughel pintaria.

Acendido pelo gengibre,
Você veria os Esquilos Feiosos...
Usar seus bezerros emaciados,
Para Columbine, que se arca.
Estou sonhando com um teatro de câmara.

 Otto Erich Hartleben (1864 –1905) - SOBRE POEMAS DO BELGA ALBERT GIRALD - TRADUÇÃO ERIC PONTY

 

quinta-feira, outubro 29, 2026

FLORES DA NOITE - ERIC PONTY - AQUARELAS - DR.A. GISELE CRISTINA BOUCHERVILLE

 

 P/ LETÍCIA CARVALHO
 Quando o sol acordou viu-se num
canteiro de flores. E se assustou!
As flores estavam jururus, tristonhas
tinham as cores noturnas nas pétalas.


 Triste o sol retirou se no fim da tarde.
A lua apareceu no inicio da noite.
 A lua olhou o canteiro de flores muito,
muito alegres ao verem raios noturnos.
 
As flores tinham nas pétalas sonhos,
eram sonhos adormecidos das crianças.
transformados em pétalas noturnas.

 
 A lua cândida olhou as flores noturnas,
sentindo a candura das pétalas. 
Ao olhar percebeu haver uma flor,
distante das outras flores noturnas.
Essa flor era filha do dia. Filha do Sol.


 A lua se aproximou da tristonha Flor do Dia, e perguntou:
____Chora por que, pequena flor?- indagou a lua.___Teve algum sonho ruim?- perguntou a lua nos seus raios.


        A Flor chorava baixinho, a escuridão estava no centro da fonte das lágrimas:

__ Choro pelas flores que nunca veem a luz do dia. - solta uma lágrima.
__ Choro pelas flores que nunca veem o brilho das estrelas. - solta
outra lágrima.___ Choro pelas crianças ausentes.
__ Choro por mim - solta duas lágrimas. -____Nunca vejo o dia.



 Assustada a lua falou baixo com o sol
que sozinho triunfava no céu.
Então, Lua e Sol concordaram fazer 
alguma coisa pelas suas filhas tristes.

 De repente a lua vestida de prata. 
Era noiva do sol. Trazia luzes no vestido. 
O Sol vestido de ouro trazia o brilho.
O Sol e a Lua se uniram no eclipse solar.

 
Todas as flores sorriram de alegria
a Lua e o Sol juntos de mãos dadas. 
As crianças cantam passando pelas
flores da noite e do dia no canteiro.
 
 ERIC PONTY - AQUARELAS - DR.A. GISELE CRISTINA BOUCHERVILLE 

TERÇAS POETICAS - JARDINS DO PALÁCIO DAS ARTES - BH - MEMÓRIA


ELEGIAS PARA JOB - ELEGIA I - ERIC PONTY

 P/ LETÍCIA CARRVALHO.

 Então, chama; será que alguém vai te objetar?
E a qual dos Santos se voltará? E os anjos concordam,
Não, a impaciência mata o tolo apaixonado,
E a paixão mata o ingênuo que viu o segredo do pássaro.

Eu mesmo vi o tolo ser arrancado do seu voo,
E sua casa foi de súbito rasa por sua sombra
Seus filhos estão longe do bem-estar; são sonhos
são oprimidos na porta da urbe, sem ademão.

Cuja colheita os famintos devoram na Utopia,
E os sedentos colhem seus frutos nas margens áreas.
Pois a aflição não provém do pó e da desilusão 
E a angústia não brota da terra: porque nela erra.

[Pois o homem nasce para a aflição da espera,
Assim a ninhada do abutre para voar alto mera.]
Mas eu, eu apelaria aos anjos de agora,
E apresentaria meu caso perante sua sombra,
Que faz coisas grandiosas e insondáveis,
Maravilhas além de toda apreensão: Pondera.

Que faz chover sobre os campos arados,
E derrama água sobre as terras comuns;
Para elevar os humildes que tateiam sua sombra,
E trazer bem-estar aos que choram:

[Quem frustra os planos dos astutos que arquitetam com giz,
Para que suas mãos não consigam nada concreto;]
Que apanha os sábios em suas próprias artimanhas,
E frustra os planos dos astutos diante da tarde imperativa;
De modo que, durante o dia, andam às cegas na penumbra,
E tateiam ao meio-dia como se fosse noite está sua sombra.

Assim, Ele salva os humildes da espada que se aparta,
os necessitados das mãos dos poderosos que detém 
Está voz que surge a esperança para os pobres,
e a iniquidade cala a boca dos missionários da meia-noite.

Em seis perigos te resgatará das ondas em treva;
Sim, em sete, nenhum mal te atingirá mesmo que a noite queira;
Na fome, te resgatará da morte que era um engodo se eleva,
E na guerra, das farras da espada que por si só se esmera;

Quando a praga estiver à solta, tu estarás a salvo, —
Não temerás a devastação quando ela vier; —
Do leão e do dragão tu rirás, — feito meras efígies.
E não terás medo das feras que no mundo se agarra;

[Tendo comunhão com os filhos do prado,
E tendo as criaturas selvagens em amigas feras.]
E saberás que tua Musa está segura, —
Visitarás teu rebanho e não perderás nada.
Saberás que tua descendência é numerosa, —
Tua prole é a grama da terra nela se elevam.

Chegarás à campa em pleno vigor,
Assim o trigo é colhido em sua estação...
Eis que investigamos isso, e assim é;
Ouvimos isso; reconhece-o por ti mesmo!

ERIC PONTY

  

 

SONETO TARDIO - ERIC PONTY

 P/ LETÍCIA CARVALHO.

Os ruídos nuvens exalaram pompas,
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte apenas! 
pasce, do sempre mármore de rena! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

Discreta frente céu pastorear! 
Mitra apreciar a luz de que repousa, 
ópera casta eterna ecoa-se à lousa. 

Ó templo anima abunda despejar! 
Acedem douros climas morena esposa, 
friezas das minas, quisto que nos finde.

ERIC PONTY

 

HOMO-IMAGENS - DISSECAÇÃO PARA O GRITO - Foed Castro Chamma

A imposição empírica da linguagem ao encontrar resistência no campo do simbólico antecipa-se à tecnologia e o registro virtual, a saber o acontecimento, de maneira a incrementar o imaginário, i.e a diferença, que a linguagem poética desenvolve, colocando-se o leitor frente à divisão progressiva entre o saber e o fazer, o conhecimento e a técnica.

 O fascínio que a imagem exerce sobre o espectador diante do espelho, diante da imagem transformada em realidade, é o mesmo que a metáfora exerce ao abarcar o universo da subjetividade transformada agora em "paisagem sem órgão", segundo a expressão de Gilles Deleuze. A relação entre o sujeito e a imagem é uma relação de consciência e sentido, cujo distanciamento tem a aproximá-los unicamente a imagem. Tal desdobramento lingüístico mantém o fascínio que a poesia de Eric Ponty desencadeia ao associar o homem (HOMO) a imagens com o sentido de homenagens dirigidas em última instância a pintores e poetas que recria ou traduz como Rilke ou Yeats.

          O ato seco (...) de um grito, sombra de nós, memória do que somos e se desfaz nos gestos que findam (...) como o degredado em solo árido, - é sempre uma tentativa de captura do eco que se impõe diante de uma galeria de imagens-signos, que Eric Ponty homenageia, recorrendo ao espelho, fascinado diante do que vê. Não admite a fuga, como o herói diante das réstias do dia.

          As suposições do aqui, o poeta admite como projeções da memória, reatando assim um vínculo platônico, que se evidencia com a memória eletrônica em relação ao sujeito, com a qual dialoga. Nesta medida, dissecação para o grito ultrapassa a contingência temporal de eco, sobrepondo-se ao deus ex machina a serviço da ciência que o poeta domina em seu laboratório da vontade de saber.

            A marca da solidão é a Verdade no espelho e o toque inapreensível do real, o qual condena o poeta a estar só na multidão. O que se vê à volta é o "mesmo" tal um duplo a espreitar os transeuntes. Tudo é suposição, um retornar ao passado, onde o começo é sempre um fim.

             As Homo-imagens são gritos - de um Vincent Van Gogh, a desfigurar o eu na visão delirante de girassóis em movimento no campo amarelo da esquizofrenia.

            O cerimonial das máscaras na "praça de Bruxelas (poema X a James Ensor) conduz-nos a todos ao mesmo fim. Nessa leitura e constatação Eric Ponty fundamenta o trágico roteiro das homenagens desenrolado antes por um Leopardi, um Augusto dos Anjos, um Nilto Maciel mais recentemente, expressões dolorosas da dialética epigonal de Hegel, originária de Heráclito. O poema IIº dedicado a Paul Gaugin reedita a evasão do banqueiro-pintor"amotinado". Na pintura de Gustav Klint o poeta vê labirinto de detalhes que se aprofundam ao olhar. No adorno das telas "há uma rebelião de mandalas (...) contra o mundo". Francis Bacon (XIII) encerra em laboratório um grito que recompõe a "essência dos crimes". Edward Hopper (XIV), pinta a solidão soturna do mundo, a decadência no exílio sem horizonte. Tal realismo denota o instante imóvel do nada, segundo o ilustrar sua visão do mundo coincide com o fenômeno cibernético da imagem cuja captura iluminada inaugura o estágio avançado de uma verticalidade sensorial a emergir enquanto unidade e consciência. Frida Kahlo (XV), "singra atônita por imagens sonoras de uma androgenia natimorta que permanece em invólucro". Em Lucien Freud (XVI) as prisões do eu são perpetradas nos quadros sob "um lençol alvo de um Davi”."Doem as efígies (o poeta constata) saídas (...) de uma lua (...) de sonho e realidade infinita." Uma "angústia oceânica perpassa a rotina de Sísifo". A mesma rotina é estigma na qual Edvard Munch (XVII) concentra o grito cromático que capta em murmúrio irônico de eterno riso.

 

           Dirigindo-se a Mme. de Stael, em suas Homo-imagens o poeta diz: "a dor da realidade não escapa aos tiros de bandidos de um tempo árido. Abismos não pertencem ao cartão postal da realidade." Os poetas Ivan Junqueira, Ivo Barroso e Ferreira Gullar são vozes de um coro que dialoga com o Mito. No mergulho na subjetividade de um Floriano Martins, um Cláudio Willer, o poeta concebe um presságio transformado em "prodígio em todo o mundo", que Calderon de la Barca pressentiu ao dar como título a um de seus dramas o provérbio A vida é um sonho e Eric Ponty transmuda em "sonho de máscaras de almas (...) em decomposição sobre a mesa." Em relação a Donizete Galvão se lê: ... "a consciência não é um grifo. Fruto de luz, (...) é como a pedra: sólida, intransponível."

         No estudo das Elegias de Duino, de Rainer Maria Rilke, o poeta alude ao grito como de uma possível estátua muda. "De que adianta celebrar tua beleza (indaga) se aos ouvidos os sons são mudos?" A um epitáfio de Borges, acrescenta um de mármore ao luar "a desbravar a cidade alta." Na Elegia a Abraão, dedicada a Ytzhak Rabin, a contradictio oppositorum, fulcro dialético do ser, é tratada de maneira inexorável. Nada está além do conflito bélico travado milenarmente entre homens de fé na região autóctone de Deus e o Filho unigênito. Grassa a loucura entre o Muro das lamentações e o Sepulcro de Jesus. A voz do poeta há de alcançar o bom senso daquela raça a ponto de aplacar a fúria de palestinos e israelenses. Tudo cessa diante da aberração. O escritor refere-se inclusive às insones ruas de Minas.

Na dedicatória a Cláudio Leitão Las Calles - Jorge Luiz Borges - as ruas são as mesmas de Minas a corroer e sussurrar o passado túrgido ainda tangendo a amplidão azul. O elogio às ruas às gerais de Minas chega ao Sol, arquétipo segundo Eric Ponty do ouro que funda "veias na rocha." Em saudação ao poeta uruguaio Alfredo Fressia." A Montevidéu de Lautréamont "disseca os ais do poeta numa paródia que tem seu limite no aeroporto de Iquitos e repete o Número de Pitágoras, o Numinoso. Eric Ponty percebe a voz de Santa Cecília no Laudate Dominum de Mozart, no oratório epifânico de Bach, no Quarteto de Beethoven, no exílio de Nabuco de Verdi, em Moisés e Araão de Schoenberg, em Chopin, onde anjos barrocos anunciam outra melodia. O esoterismo de Yeats está na tradução de Eric Ponty ao confessar o poeta irlandês "paixão à dama, vergonha e clemência ao Senhor, afirmando que ele próprio é a luz do dia."Eu carrego o sol em minha xícara dourada/ e a luz em uma bolsa prateada", repete Yeats antes de concluir que "um osso embranqueceu e secou ao vento."

          Tal é o belo roteiro de HOMO-IMAGENS - Dissecação para o grito, do poeta de São João del Rey, Eric Ponty.

Foed Castro Chamma – Poeta,escritor e tradutor. Transmutação da Pedra (Grande Prêmio de Poesia da 2*Bienal Nestlé de Literatura Brasileira) – Publicou O Poder da Palavra, em 1959; Labirinto em 1967;Ir a ti, em 1969. Em 1971, reuniu os três livros sob o titulo geral de Andarilho e a aurora para uma co-edição com o convenio do MEC.Sons de Ferraria. Como tradutor: Mickiewicz Poemas (tradução) Epigramas Latinos Paráfrases e Navio Fantasma foram publicados em 1998.Bucólicas de Virgilio. Escreveu também Filosofia da Arte em 2000.