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quinta-feira, outubro 29, 2026

FLORES DA NOITE - ERIC PONTY - AQUARELAS - DR.A. GISELE CRISTINA BOUCHERVILLE

 

 
 Quando o sol acordou viu-se num
canteiro de flores. E se assustou!
As flores estavam jururus, tristonhas
tinham as cores noturnas nas pétalas.


 Triste o sol retirou se no fim da tarde.
A lua apareceu no inicio da noite.
 A lua olhou o canteiro de flores muito,
muito alegres ao verem raios noturnos.
 
As flores tinham nas pétalas sonhos,
eram sonhos adormecidos das crianças.
transformados em pétalas noturnas.

 
 A lua cândida olhou as flores noturnas,
sentindo a candura das pétalas. 
Ao olhar percebeu haver uma flor,
distante das outras flores noturnas.
Essa flor era filha do dia. Filha do Sol.


 A lua se aproximou da tristonha Flor do Dia, e perguntou:
____Chora por que, pequena flor?- indagou a lua.___Teve algum sonho ruim?- perguntou a lua nos seus raios.


        A Flor chorava baixinho, a escuridão estava no centro da fonte das lágrimas:

__ Choro pelas flores que nunca veem a luz do dia. - solta uma lágrima.
__ Choro pelas flores que nunca veem o brilho das estrelas. - solta
outra lágrima.___ Choro pelas crianças ausentes.
__ Choro por mim - solta duas lágrimas. -____Nunca vejo o dia.



 Assustada a lua falou baixo com o sol
que sozinho triunfava no céu.
Então, Lua e Sol concordaram fazer 
alguma coisa pelas suas filhas tristes.

 De repente a lua vestida de prata. 
Era noiva do sol. Trazia luzes no vestido. 
O Sol vestido de ouro trazia o brilho.
O Sol e a Lua se uniram no eclipse solar.

 
Todas as flores sorriram de alegria
a Lua e o Sol juntos de mãos dadas. 
As crianças cantam passando pelas
flores da noite e do dia no canteiro.
 
 ERIC PONTY - AQUARELAS - DR.A. GISELE CRISTINA BOUCHERVILLE 

TERÇAS POETICAS - JARDINS DO PALÁCIO DAS ARTES - BH - MEMÓRIA


ELEGIAS PARA JOB - ELEGIA I - ERIC PONTY

 P/ LETÍCIA CARVALHO

 Então, chama; será que alguém vai te objetar?
E a qual dos Santos se voltará? E os anjos concordam,
Não, a impaciência mata o tolo apaixonado,
E a paixão mata o ingênuo que viu o segredo do pássaro.

Eu mesmo vi o tolo ser arrancado do seu voo,
E sua casa foi de súbito rasa por sua sombra
Seus filhos estão longe do bem-estar; são sonhos
são oprimidos na porta da urbe, sem ademão.

Cuja colheita os famintos devoram na Utopia,
E os sedentos colhem seus frutos nas margens áreas.
Pois a aflição não provém do pó e da desilusão 
E a angústia não brota da terra: porque nela erra.

[Pois o homem nasce para a aflição da espera,
Assim a ninhada do abutre para voar alto mera.]
Mas eu, eu apelaria aos anjos de agora,
E apresentaria meu caso perante sua sombra,
Que faz coisas grandiosas e insondáveis,
Maravilhas além de toda apreensão: Pondera.

Que faz chover sobre os campos arados,
E derrama água sobre as terras comuns;
Para elevar os humildes que tateiam sua sombra,
E trazer bem-estar aos que choram:

[Quem frustra os planos dos astutos que arquitetam com giz,
Para que suas mãos não consigam nada concreto;]
Que apanha os sábios em suas próprias artimanhas,
E frustra os planos dos astutos diante da tarde imperativa;
De modo que, durante o dia, andam às cegas na penumbra,
E tateiam ao meio-dia como se fosse noite está sua sombra.

Assim, Ele salva os humildes da espada que se aparta,
os necessitados das mãos dos poderosos que detém 
Está voz que surge a esperança para os pobres,
e a iniquidade cala a boca dos missionários da meia-noite.

Em seis perigos te resgatará das ondas em treva;
Sim, em sete, nenhum mal te atingirá mesmo que a noite queira;
Na fome, te resgatará da morte que era um engodo se eleva,
E na guerra, das farras da espada que por si só se esmera;

Quando a praga estiver à solta, tu estarás a salvo, —
Não temerás a devastação quando ela vier; —
Do leão e do dragão tu rirás, — feito meras efígies.
E não terás medo das feras que no mundo se agarra;

[Tendo comunhão com os filhos do prado,
E tendo as criaturas selvagens em amigas feras.]
E saberás que tua Musa está segura, —
Visitarás teu rebanho e não perderás nada.
Saberás que tua descendência é numerosa, —
Tua prole é a grama da terra nela se elevam.

Chegarás à campa em pleno vigor,
Assim o trigo é colhido em sua estação...
Eis que investigamos isso, e assim é;
Ouvimos isso; reconhece-o por ti mesmo!

ERIC PONTY

  

 

SONETO TARDIO - ERIC PONTY

 Os ruídos nuvens exalaram pompas,
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte apenas! 
pasce, do sempre mármore de rena! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

Discreta frente céu pastorear! 
Mitra apreciar a luz de que repousa, 
ópera casta eterna ecoa-se à lousa. 

Ó templo anima abunda despejar! 
Acedem douros climas morena esposa, 
friezas das minas, quisto que nos finde.

ERIC PONTY

 

HOMO-IMAGENS - DISSECAÇÃO PARA O GRITO - Foed Castro Chamma

A imposição empírica da linguagem ao encontrar resistência no campo do simbólico antecipa-se à tecnologia e o registro virtual, a saber o acontecimento, de maneira a incrementar o imaginário, i.e a diferença, que a linguagem poética desenvolve, colocando-se o leitor frente à divisão progressiva entre o saber e o fazer, o conhecimento e a técnica.

 O fascínio que a imagem exerce sobre o espectador diante do espelho, diante da imagem transformada em realidade, é o mesmo que a metáfora exerce ao abarcar o universo da subjetividade transformada agora em "paisagem sem órgão", segundo a expressão de Gilles Deleuze. A relação entre o sujeito e a imagem é uma relação de consciência e sentido, cujo distanciamento tem a aproximá-los unicamente a imagem. Tal desdobramento lingüístico mantém o fascínio que a poesia de Eric Ponty desencadeia ao associar o homem (HOMO) a imagens com o sentido de homenagens dirigidas em última instância a pintores e poetas que recria ou traduz como Rilke ou Yeats.

          O ato seco (...) de um grito, sombra de nós, memória do que somos e se desfaz nos gestos que findam (...) como o degredado em solo árido, - é sempre uma tentativa de captura do eco que se impõe diante de uma galeria de imagens-signos, que Eric Ponty homenageia, recorrendo ao espelho, fascinado diante do que vê. Não admite a fuga, como o herói diante das réstias do dia.

          As suposições do aqui, o poeta admite como projeções da memória, reatando assim um vínculo platônico, que se evidencia com a memória eletrônica em relação ao sujeito, com a qual dialoga. Nesta medida, dissecação para o grito ultrapassa a contingência temporal de eco, sobrepondo-se ao deus ex machina a serviço da ciência que o poeta domina em seu laboratório da vontade de saber.

            A marca da solidão é a Verdade no espelho e o toque inapreensível do real, o qual condena o poeta a estar só na multidão. O que se vê à volta é o "mesmo" tal um duplo a espreitar os transeuntes. Tudo é suposição, um retornar ao passado, onde o começo é sempre um fim.

             As Homo-imagens são gritos - de um Vincent Van Gogh, a desfigurar o eu na visão delirante de girassóis em movimento no campo amarelo da esquizofrenia.

            O cerimonial das máscaras na "praça de Bruxelas (poema X a James Ensor) conduz-nos a todos ao mesmo fim. Nessa leitura e constatação Eric Ponty fundamenta o trágico roteiro das homenagens desenrolado antes por um Leopardi, um Augusto dos Anjos, um Nilto Maciel mais recentemente, expressões dolorosas da dialética epigonal de Hegel, originária de Heráclito. O poema IIº dedicado a Paul Gaugin reedita a evasão do banqueiro-pintor"amotinado". Na pintura de Gustav Klint o poeta vê labirinto de detalhes que se aprofundam ao olhar. No adorno das telas "há uma rebelião de mandalas (...) contra o mundo". Francis Bacon (XIII) encerra em laboratório um grito que recompõe a "essência dos crimes". Edward Hopper (XIV), pinta a solidão soturna do mundo, a decadência no exílio sem horizonte. Tal realismo denota o instante imóvel do nada, segundo o ilustrar sua visão do mundo coincide com o fenômeno cibernético da imagem cuja captura iluminada inaugura o estágio avançado de uma verticalidade sensorial a emergir enquanto unidade e consciência. Frida Kahlo (XV), "singra atônita por imagens sonoras de uma androgenia natimorta que permanece em invólucro". Em Lucien Freud (XVI) as prisões do eu são perpetradas nos quadros sob "um lençol alvo de um Davi”."Doem as efígies (o poeta constata) saídas (...) de uma lua (...) de sonho e realidade infinita." Uma "angústia oceânica perpassa a rotina de Sísifo". A mesma rotina é estigma na qual Edvard Munch (XVII) concentra o grito cromático que capta em murmúrio irônico de eterno riso.

 

           Dirigindo-se a Mme. de Stael, em suas Homo-imagens o poeta diz: "a dor da realidade não escapa aos tiros de bandidos de um tempo árido. Abismos não pertencem ao cartão postal da realidade." Os poetas Ivan Junqueira, Ivo Barroso e Ferreira Gullar são vozes de um coro que dialoga com o Mito. No mergulho na subjetividade de um Floriano Martins, um Cláudio Willer, o poeta concebe um presságio transformado em "prodígio em todo o mundo", que Calderon de la Barca pressentiu ao dar como título a um de seus dramas o provérbio A vida é um sonho e Eric Ponty transmuda em "sonho de máscaras de almas (...) em decomposição sobre a mesa." Em relação a Donizete Galvão se lê: ... "a consciência não é um grifo. Fruto de luz, (...) é como a pedra: sólida, intransponível."

         No estudo das Elegias de Duino, de Rainer Maria Rilke, o poeta alude ao grito como de uma possível estátua muda. "De que adianta celebrar tua beleza (indaga) se aos ouvidos os sons são mudos?" A um epitáfio de Borges, acrescenta um de mármore ao luar "a desbravar a cidade alta." Na Elegia a Abraão, dedicada a Ytzhak Rabin, a contradictio oppositorum, fulcro dialético do ser, é tratada de maneira inexorável. Nada está além do conflito bélico travado milenarmente entre homens de fé na região autóctone de Deus e o Filho unigênito. Grassa a loucura entre o Muro das lamentações e o Sepulcro de Jesus. A voz do poeta há de alcançar o bom senso daquela raça a ponto de aplacar a fúria de palestinos e israelenses. Tudo cessa diante da aberração. O escritor refere-se inclusive às insones ruas de Minas.

Na dedicatória a Cláudio Leitão Las Calles - Jorge Luiz Borges - as ruas são as mesmas de Minas a corroer e sussurrar o passado túrgido ainda tangendo a amplidão azul. O elogio às ruas às gerais de Minas chega ao Sol, arquétipo segundo Eric Ponty do ouro que funda "veias na rocha." Em saudação ao poeta uruguaio Alfredo Fressia." A Montevidéu de Lautréamont "disseca os ais do poeta numa paródia que tem seu limite no aeroporto de Iquitos e repete o Número de Pitágoras, o Numinoso. Eric Ponty percebe a voz de Santa Cecília no Laudate Dominum de Mozart, no oratório epifânico de Bach, no Quarteto de Beethoven, no exílio de Nabuco de Verdi, em Moisés e Araão de Schoenberg, em Chopin, onde anjos barrocos anunciam outra melodia. O esoterismo de Yeats está na tradução de Eric Ponty ao confessar o poeta irlandês "paixão à dama, vergonha e clemência ao Senhor, afirmando que ele próprio é a luz do dia."Eu carrego o sol em minha xícara dourada/ e a luz em uma bolsa prateada", repete Yeats antes de concluir que "um osso embranqueceu e secou ao vento."

          Tal é o belo roteiro de HOMO-IMAGENS - Dissecação para o grito, do poeta de São João del Rey, Eric Ponty.

Foed Castro Chamma – Poeta,escritor e tradutor. Transmutação da Pedra (Grande Prêmio de Poesia da 2*Bienal Nestlé de Literatura Brasileira) – Publicou O Poder da Palavra, em 1959; Labirinto em 1967;Ir a ti, em 1969. Em 1971, reuniu os três livros sob o titulo geral de Andarilho e a aurora para uma co-edição com o convenio do MEC.Sons de Ferraria. Como tradutor: Mickiewicz Poemas (tradução) Epigramas Latinos Paráfrases e Navio Fantasma foram publicados em 1998.Bucólicas de Virgilio. Escreveu também Filosofia da Arte em 2000.


HOMO-IMAGENS - ERIC PONTY

 DISSECAÇÃO PARA O GRITO

 I

E se inesperadamente diante do cotidiano
entre as ruas e avenidas e transeuntes
abríssemos a nossa boca num ato seco
sem quaisquer melodias expansivas?

Como num gesto que se configura o hoje
esta expressão de nós tão latente, iria 
fazer sucumbir esta realidade tão crua?

O que somos nós senão sombras de nós
do ainda ontem que nós existimos claros,
e hoje, no existir do ontem, somos fátuos,
memória que criou-se em nós e se desfez.

Se soluçando nesta passagem tão brusca
de que somos nós por nós desfeitos de nós
descemos por fim, exaustos, um grito.

  
II

O depois de nós desfiguramos em som,
nós somos mais inteiros neste gesto dado,
desfiguramos aquilo que estava figurado
como naquela imagem ruim que se verteu 
numa reflexão de uma onda acústica.

O cotidiano por nós vivido é um enfado
numa estranha selva de almas brancas
onde nossos pictóricos gestos se findam.

Para nós talvez reste, uma lembrança,
para este obstáculo de nosso enfado,
como animais últimos deste universo
que se acolhe e si mesmo se destrói.

Como o cosmo; somos apenas um eco,
e de que valerá este nosso reflexo tosco
quando tudo se contrair no som que foi?

III

Abatidos seguimos solitários pelas ruas
levando as réstias de nossas memórias
que se decompõe sobre a tábua tosca
do sol.

Aquele homem embaixo daquela árvore
mera ilusão de um reflexo fundido a luz,
será que pulsa o coração ou lhe cogita?

Solitários não, seres de condição, ecos
deste nosso soluçante espetáculo de
degredados, secos como o solo, áridos.

IV

É noite que se adensa n´alma tarda,
cuja existência mais sólida perece,
pois a alma não é senão conjectura
do qual vemos em nós mesmos eus
para não dissiparmos nas auroras.

Quando a lua assustada nos reluz
raios de doirada grinalda alva,
e nós olhamos enfim no espelho;
é agora senão um fantasma de si.

Este rosto refletido entre raios,
o que pode-nos dizer de novo,
se embaixo desta pele serena
estrutura de um crânio tosco
quando dissecado pelo tempo
não se despe deste eterno riso.

V

Quando adentramos a consciência
nos lançamos nas interrogações
dentro dos espaços vazios dos eus
estas escadas que levam ao nada
de portas abertas às paredes cruas
que exibissem nos tijolos de rebocos.

Talvez aquele eco que nos ouvimos
ao nascer se faça ainda se ouvido
entre os pássaros migrados do olvido
é na realidade aquele grito florido
entre as estrelas do qual foi advindo.

VI

Esta dor ardente onde quer abrigá-la
quantos sonhos já foram passados,
e aquele mensageiro vindo ontem;
era senão uma ilusão desta noite
em que sonhaste consigo em si
num dialogo fraterno e amigo que
tem quando te sussurras à tarde.

Esta dor que sempre dói e renova,
a cada passagem brusca do dia,
são estações´almas do tempo,
tuas angustias fenecem em folhas
ressecadas pelas réstias de outono.

VII

Fugir?! De que adianta tal coisa,
já pensou por um acaso na sina
de um herói e de seu nascimento,
terá sido porque ficou ou fugiu,
embora toda sina seja a mesma.

Onde quer se esconder afinal,
embora à noite te proporcione
estes ávidos abrigos do olvido;
aonde se move com este eu
por entre labirintos das sombras
delineadas pelas réstias do dia.

 VIII

Solidão esta é a tua verdade
que tem de carregar n´alma
na memória canta verdades
estes feixes tão carregados
de relativas perspectivas.

Olha a tua volta. O que vê,
senão pássaros dissecados
que migraram dentro da noite
e seus cantos decompostos
no olvido deste transeunte.

Do passado, nada advém,
senão estas suposições
do aqui.  

IX

P/ Vicent Van Gogh


Abissal mundo que não transfigura
forma dos humanos sentimentos
a visão
ramifica-se num auto-retrato
da desfiguração do eu.

Numa família que come batatas
ali não há manifestos ou estéticas
de um retrato singular dissipador
de movimentos.
 
Girassóis dos campos
dos desnudos vales
amarelos
esquizofrênica é a expressão
mimética.


X

P/ James Ensor


Na grande praça há sempre um festival
são as máscaras deste cerimonial
revestidas de caricaturas
as faces enfim se decompõem.

O espírito encarnou-se
e a exterior forma desfez
denunciando o que antes se ocultara
pelo impressionismo.

Festival de escárnios na entrada
onde as palavras não passam mais de
singelos murmúrios e silêncios
há uma intriga e uma farsa na praça de Bruxelas
Cristo terá reencarnado para retornar
ser recrucificado com a tez de teatro Nô.


XI

P/Paul Gaugin

Prisioneiro da angustiante rotina
lúcido teve de trair a alma de europeu
para lhe ser fiel,
amotinou-se contra a família
e do mundo.

Jacó de estranho mundo de formas
debate-se contra o anjo de Deus
até que este lhe abençoasse
Num paradiso taitiano
revelou-se
que o pecado coberto não havia
estava, porém incrustado na sensibilidade
contra os contrates
da alma de europeu
descobriu que num ninho de palhas o habitat
e a pintou a Cistina capela e a incendiou
consagrando-a ao tempo e espaço.

XII

P/ Gustav Klint

Sofisticado é adorno dos contornos
Inexplicável labirinto de detalhes
que se aprofundam
ao olhar.

Não tão furtiva é a mensagem imagem
há toda uma captação
dissimulada
entre matizes e cores.

O tempo não corrói adornos
que a se circundam inteiros
há uma rebelião
infundida
aqui nesta mandala
um ataque vienense
contra este mundo de adornos e de mídias.

XIII

P/Francis Bacon
Dilacerada carne crua encerra
um Inocêncio transfigurado
de papa
inocente
que berra
a catequese de
um einsenteiano
grito
onde boca a redecompõe
maquiavélica a essência dos crimes.

Os golpes contra o corpo nu de Cristo
são as marcas do tempo
de um Estudo da Violência
contra a face
da insurreição da mimesis
contra o próprio
pincel.


XIV

P/Edward Hopper


Nossas almas expressam a solidão
mundo nos margeia com os murmúrios
dizem coisas alheias de falas mui estranhas
soníferas que não se findam tão soturnas.

Teu pincel pinta toda decadência deste mundo,
nós redomados seres de nosso exílio inerente
que não se expressa mais em horizontes.

o teu realismo kitsch, mas real retrato
clássico na era dos pops e abstratos
pode demonstrar aos olhos concentrados
no vazio mais absorto de um báculo imutável,
cujo pincel é o instante imóvel deste instante:
Nadie more... Nadie more... Nadie more...

Aqui mesmo bem perto de nossos vazios
mesmo quando não estamos acostumados
(não é somente quando a solidão rufar o tambor
quando o nosso corpo alçar o necrotério)
cujo relógio sem expulsar os presentes
sobrepor as glórias no ritmo do pêndulo 
nas efígies pictóricas deste tempo: 


XV

P/ Frida Kahlo


Minhas retinas retumbam ainda
sinto uma angústia e vontade
de exaurir minha voz atônita
que singra pela soberba visão
de imagens que irão jamais.
 
Esta caricatura do rosto
como se cada instante
as linhas se decompõem
como se a cada momento
este eu magnífico de mulher
este desenho que segue
metamorfoseando num homem.

Este sonho ou pesadelo prematuro
talvez um prenúncio de um Calderon
alguns séculos e arquipélagos latos
cuja primeira dor foi o nascimento
tudo ali mesmo reunido e natimorto.

Este universo findo e amorfo
que está tão só e cru em nós
que por soberba olvidamos
este nosso torpe nascimento
do qual quando perecemos
e retornamos ao invólucro.

XVI

P/ Lucien Freud


Aturdido posso admirar os passos soturnos
esta face de homem perante este cosmos
cujos prédios, casas, fabricas e consultórios
são vistos como prisões de um eu submerso.

Tão lancinante a pictórica retina me enche
de um mórbido sentido cujas cores reais
perpetram e se perpetuam pelos quadros
ao alastrar de um lençol alvo que deixa luzes
como num pictórico de um ilusionista David.

Os homens e as posições dos corpos nus 
refletindo inutilmente sem um lago doirado
onde Narciso um dia quedou-se do eu
como se sentimento oceânico ali houvesse
ou se seu avô tivesse advindo ao cenário
posto a valise e o chapéu como diálogo
para que este universo auto-pensasse a si 
antes mesmo de tornar a se refletir como luz.

Doem estas efígies tão clássicas do pincel
que o cotidiano se adere e se aglutina
como que saído de túrgidos espaços
de uma lua que relembra um fúnebre sonho
onde o personagem está o tempo todo ali
sem esvair-se em realidades infinitas.

XVI.II

Algumas partículas esvaíram-se,
neste personagem que se põe
que se depõe ante o olho
que a luz obsequiosa
eternizada do verniz; uma efígie
que agora seduz o cotidiano.

Esta alva partícula
que se escreve no cotidiano,
cujo personagem 
como que solitário
ao ego que adere
como ave espessa
no crânio nítido
cujo corpo fenece
ao extinto gesto antanho
jazi nu.

O personagem adere ao plano
que perpassa nas alucinações
onde a angústia existe
como um peso sísifico.

Como não há abstrações
surge todo o primeiro plano
e como o plano já se adensou
adensa-se a dor que sai da retina.

Como não há mais retina
o personagem se tranca a si
dentro do olhar do espectador
para que a angústia oceânica
seja perpassada pela rotina
deste Sísifo que agora se refaz.

XVII

P Edvard Munch



Carros trafegam na mesma direção
palavras têm a mesma direção
cores têm a mesma direção
músicas têm a mesma direção
e rotina nivela o sentido e a rotina.

Ninguém grita mais alto que o grito
pouco significam os berros expressos,
rotinas.

Na mesma ponte perto do hospício
tudo se transfigura, mas nada muda
no implacável Cosmos do cotidiano
no cosmo desta implacável rotina.

XVIII


Luzes, sussurros! Perspectiva agora
o que somente os iluminados viram
outrora através das efígies infernais
como transeuntes desta avenida.

Não se fez serena agora a alma
cujos pássaros levaram para voar
a sombra que em ti te assustava?

Homens toscos nos ais d´almas,
pictóricos e mesmo quase imortais
como os santos de outrora agora;
e ainda leva consigo esta máscara
apenas o murmuro de eterno riso.  

ERIC PONTY

  


 

quarta-feira, outubro 28, 2026

DIE FACKEL - NR. 2 WIEN, MITTE APRIL 1899 III - KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY

«Na Áustria, continua a ser debatida em todas as instâncias a situação desastrosa criada pelas medidas tomadas até agora e pelos planos adicionais do Governo que vieram a ser conhecidos», e continua a ser reconhecida por cada uma das frações, por unanimidade, a necessidade de o Clube, face à crise que ameaça gravemente os interesses do Estado, tomar posição com a maior veemência e a mais firme determinação, em conformidade com os seus princípios políticos orientadores». Mas qual é o sentido simples deste discurso rebuscado? Que os liberais alemães, movidos por um medo pálido dos radicais, apenas se aperceberam de que os seus mandatos estão em jogo; permanece obscuro — e oculto na construção sintática rebuscada dos seus comunicados — como é que, na verdade, concebem a resolução da questão linguística. O que é, portanto, «considerado urgentemente necessário, face à gravidade da situação política e à especial importância das decisões a tomar»? Nada mais do que isto: que os senhores, para começar, aprendam um alemão melhor ou façam com que os seus jornalistas o aprendam e que, se já não agem de forma lógica, pelo menos escrevam de acordo com as regras gramaticais. Que a representação do partido, no sentido mais amplo, se ocupe da condução desta ação e que o Comité Executivo seja encarregado das medidas preliminares para o efeito. É isso que, acima de tudo, é necessário. Sempre que termina um período do Conselho do Império, chegam os períodos muito piores dos comícios partidários; o § 14 constitui apenas a barreira sobre a qual a torrente de frases vazias passa a todo o vapor com ruído redobrado, e a grande opinião pública já se mostra impaciente, depois de, até agora, se ter afastado com tédio da batalha de frases, na qual a Constituição e a gramática alemã vão por água abaixo.

 

Felizmente, a vida constitucional austríaca continua a ser assegurada por aqueles dois jornalistas, um dos quais não sabe escrever corretamente e o outro também não sabe escrever incorretamente. Os povos da Áustria, que têm de se aborrecer diariamente com a leitura de todas aquelas resoluções e relatórios de situação de extrema importância, respirariam de alívio se lhes dissessem que o senhor que defende jornalisticamente a «garantia comum alemã» e cujo alemão é, de longe, pior do que a «situação dos alemães na Áustria», se chama Mendel Singer, e o outro senhor, que entre Viena e Praga «passeia os postulados dos checos», chama-se Penižek. No fim de contas, não passa, portanto, de um conflito profundo entre Singer e Penižek que abala o Estado austríaco nas suas bases mais sólidas. Como é que, ai de mim, esta Áustria mudou desde que Mendel Singer passou para a oposição, desde que ele, que outrora seguia cada governo de chinelos pelos corredores, passou a abastecer a imprensa austro-alemã com material explosivo! Em Penižek vemos o verdadeiro fator de poder, em prol do qual se planeia uma alteração do sistema centralista; e quando, certa vez, teve de ser expulso da tribuna dos jornalistas pelo presidente devido a comportamento impróprio, o governo, para lhe poupar a humilhação da exclusão, adiou imediatamente a sessão e mandou os representantes do povo para casa em vez dele.

 

Eis que voltam os senhores, donos de grandes propriedades e de mentes estreitas, avançando com as suas armas retóricas e disparando contra os pardais políticos que gritam aos quatro ventos a incompetência do governo. Todos vencedores do campo de batalha do comunicado. E quando o § 14 já há muito tinha sido consagrado nos seus direitos fictícios, os industriais ainda acorreram ofegantes e proclamaram enfaticamente no «N. Fr. Pr.»: «— vivas preocupações — - consideração dos interesses do Estado no seu conjunto - -- medidas ponderadas - -- aprofundadas - - - discussão conjunta -- Então, o Governo reúne forças para elaborar um plano, prepara os seus jornalistas para todas as eventualidades< e, uma vez que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, pretende promulgar uma lei linguística ao abrigo do § 14. Mas também os liberais alemães não ficam de braços cruzados, emitem imediatamente um comunicado e declaram que se trata aqui apenas de uma indiscrição e que, caso o Ministério estivesse realmente disposto a pôr finalmente ordem e, nesse contexto, talvez também a ter em conta os desejos dos alemães, nunca, em hipótese alguma, poderiam dar o seu apoio a tal medida. As reivindicações de política nacional do povo alemão são e continuam a ser, afinal, um segredo editorial do senhor Mendel Singer e, mesmo que por vezes sejam discutidas em Praga, na residência do senhor Schlesinger, ou em Viena, na casa do Dr. Gross, não devem, por isso, chegar ao conhecimento do Governo. Os deputados, conscientes dos seus compromissos de honra, permanecem também em silêncio perante os seus eleitores; nada podem revelar e apenas o olhar inquieto suplica pela preservação do mandato. E quando os deputados alemães que votaram a moção de censura se reúnem, todos ficam com a impressão de que o povo alemão na Áustria trava a sua luta desesperada sob a mais estrita discrição... Mais uma vez, há alguns dias, a amargura geral manifestou-se em comunicados mal redigidos, e um Governo composto por pessoas com tão fraca capacidade de expressão acaba por não estar à altura do verdadeiro espírito revolucionário. Que o Governo tenha em conta, a tempo, o bocejo generalizado da população, que chega aos seus ouvidos de forma ainda mais audível do que o grito de socorro de um povo oprimido!

 KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY