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domingo, abril 12, 2026

Sibilas de Samira III - (Extratos) - Eric Ponty

 P/Samira Agostine

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que fardo? Quem mo diria?
Porventura estaréo em mim atentando?

Se terão na Samira, como ou quando
Deles me vim tão hoje de alegria?
Ou se estardo aquele alegre dia
Que torne a vê-los, fronte figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se achardo em Samira muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência teus doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

II
Samira sou, Senhora, neste engano.
Tratar dele consiga é escusado,
Que mal pode de vês ser enganado
Quem de outras como vês tem desengano.

Já sei que foi à custa de meu dano
Que sé no doce dar tendes zelado;
Mas pera como eu sou de vês julgado,
Mui vãs são as esp’rancgas deste ano.

Tratei gréo tempo o Amor, e daqui veio
Conhecer Samira facilmente,
Que tal é, gentil Dama, o demonstrais.

De treslida caístes neste enleio;
Querei de mim o que eu quiser boamente,
Que no al a costa arriba caminhais.

III

Samira minha, se de pura inveja
Louvor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhares luz que o Sol deseja,

Não me pode colher que vos não veja
Nesta mão, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos verei sempre debuxada,
Por mais cruel da tarde que me seja.

Nela vos vejo, e vejo não renasce
Tão belo e fresco prado deleitoso
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.

Os lírios tendes fia e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem tiver só, se há tanto bem na terra!

 IV

Mil vezes se mexer meu pensamento
A louvar o Alvo rosto cristalino,
Da trança de Samira d'ouro fino, 
O vivo e mais que terno entendimento.

Que com meigo e suave movimento
Pudera irromper coração diamantino,
Tão graça imperante o ar divino,
A digna majestade o doce acento.

Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Com pérolas de seleção orientais,
Que atroe rosas mostrais no doce rizo.

Que essa luz que olhares derramais
É o doce resplendor do paraíso,
Pois me demonstrais, e dais com claro rizo.

ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

sexta-feira, abril 10, 2026

Sibilas de Samira II - (Extratos) - Eric Ponty

 I 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
há uma sulamita, um mistério, 
papiros ainda indecifráveis 
areias selvagens, sussurros débeis 
útero de Saara terra 
estéril sonha fina delicadeza 
fontes expostos seios 
do mel e do mais puro leite 
dessas dunas alvas areias. 
 
No deserto Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
no candeeiro a luz de uma virgem 
no ato da espera das amargas ervas 
possam-se celebrar a cerimônia 
o amado gozando em paradisos 
longas entranhas a que seja única 
somente a una das amadas. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
a explicação intrínseca de Deus a Jó, 
flácido silêncio tecido, fonte deságua, 
a semente fez-se alvorecer o poente 
destituídas folhas de outonos, 
ninho de pássaros de voz de sonhos. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso, 
movidas vestes da dançarina, 
rangendo sombras noturnas, o gozo 
sagrado, lágrimas guardadas, desvão 
pálidas virgens ao gozo dos eleitos. 
 

No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
fios ouro reluzentes dos cabelos, 
são braceletes sem diamantes, 
presos quando mexe com os dedos 
quando inclinada ao vento me sonha. 
 
 II 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
neste meu porto sem mares, 
neste meu porto sem despedidas, 
neste meu porto está tatuado 
vestes de seda, e de alva prata. 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
escute a explicação dos sábios: 
O da esquerda é o de Constantinopla 
empreendeu longa viagem no mar, 
abarcou monstros e Tordesilhas, 
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se 
agora analisa os caules da efígie; 
O da direita é o do Império de Adriano, 
das terras andarilho dos longos desertos, 
monge dos castelos dos templários, 
diziam ser mito, apenas vestido, 
capa iluminada sem sentido alfarrábio, 
presente analisa os caules da efígie.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro, 
escuta a explicação desses eruditos, 
não faça nenhum conceito errado, 
glosam entre eles somente de ti 
meditaram os pentagramas, os raios 
dos dilúvios nos últimos séculos, 
achegaram o vácuo vôo dos pássaros, 
tentam entender de que é constituído, 
de que elemento sagrado não se fala, 
de que elemento não se pode traduzir.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro 
esses fios de ouro bordado de anjo, 
incompreensíveis a esse jardim, 
a luz existe e não se mitiga, 
ilumina-me na minha solidão, 
luzindo alva no candeeiro. 
 
 III 
 
Chegaram emanados de navio 
agora dispersos por essas minas, 
alegam consigo sussurros mouros, 
vendiam ícones dos santos 
porque Alá, o misericordioso, 
transcende-lhes o coração, 
ainda nas minas sem mesquita 
fizeram versos do Alcorão, 
escritos por uma donzela fosse 
do mineiro dessas estreitas vias. 
 
Samira intensa asa de borboleta, 
frágeis dedos, qual o significado 
da dor me doendo, e, não se silencia, 
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem 
às fronhas desse travesseiro? 
 
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas, 
fazei-a indicar de nosso compromisso 
matrimônio por nós acertado, quando 
impossibilitados no século IV 
sermos pai e filha de nos desposarmos.
  
Talvez ouvindo a voz de minha lira 
minhas canções de mero compasso 
a celebrizar enfim me eternize. 

Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

quarta-feira, abril 08, 2026

12 SONETOS RENASCENTISTAS PARA SAMIRA AGOSTINE (ESTUDOS)- ERIC PONTY

 D´alma minha lide, que te quebraste
Tão soturna está grafia tão polida,
Samira em eira tão falsa, poluída,
E anda lá pauta nunca resiste.

Se na letra humana em que a escrita
Desenha desta gente nos consente,
Não te escapes senhora rumor jazente
Que foi nos braços meus cantos perita.

Senhora não sei que possa acudir-me
Dessa dor que dizes que então te cegou
Dá pena, sem degredo, deste ouvir-me,

Rezo a Zeus, meus dias lhe dilatou,
Que tão credo não te prendam meus pulsos,
Que por bem de claros olhos me roubou.

II

Graça minha sutil, que te falaste
Tão vera nesta verve então tingida,
Sepulta em dor eterna, dolorida,
E desce lá na fala nunca triste.

Se no álveo erróneo em seio a treta
Samira que desta nau nos desmente,
Não te salves daquela dor que ausente
Se foi nos olhos meus viva desdita.

Daqui não sei de que posso amparar-me
Dessa luz que falas que te içou
Sem réstia, sem Samira, de escrever-me.

Berro a Deus, que meus zelos aumentou,
Que tão credo não te rezem meus cílios,
Que por bem de teus velos me levou.

 III

D´Alma que está ausente, que lhe partiste
Tão longa desta lide negligente,
Samira lá no Céu liricamente
E fique eu cá na roca, nunca assiste.

Se cá no espanto etéreo, onde gostaste,
Na memória da história se consente,
Não te olvides daquele amor candente
Já nos braços meu fio intenso existe.

E se volta que pode ofender-te
Samira cousa a luz que me rogou
Da graça, sem dilema, de usar-te.

Rogo ao Sol, luz teus olhos limitou
Que tão cedo de cá me traga a crer-te,
Quão ledos de meus braços te furtou.

IV

Dama minha servil, que te cansaste
Tão verde nesta fauna tão florida,
Já sepulta em lar de doce, ofendida,
E troca lá na meta nunca viste.

Se leito eterno em que lhe pinta
Veraz tão desta era nos consente,
Não te olvides daquele amor temente
Que foi nos olhos meus viva visita.

Distante não sei que possa usar-me
Essa luz que lume que te citou
ausência, sem segredo, de reler-me,

Imponho a Deus, que meus velos dilatou,
Que Samira não te soem meus braços,
Que por bem de teus anos me furtou.

V

Dama minha gentil, que me olvidaste
Tão cedo desta lide indolente,
Repousa lá no Céu suavemente
Fique eu cá no catre tão sempre triste.

Se lá no branco eterno, onde sorriste
Desprezo desta era que desmente,
Não te isentes naquele amor cadente
Que já nos lábios meus tão vivo existe.

E se então vires poder acender-te
Alguma cousa a flor que me ficou
Dá Dó, que sem remédio, de querer-te,

Gritei a Deus, que meus dias limitou,
Que tão longe de cá me leve a ter-te,
Quão ledo de meus braços te levou.

VI

Chama minha febril, que te calaste
Tão logo aterra terra tão punida,
Relaxa em zelo seca, dolorida,
Sofrendo lá na escrita jamais riste.

Se no repouso eterno em que a escrita
Memória criva à vida nos desmente,
Não te livres Samira amor ausente
Que foi nos olhos meus dura visita.

Porém não sei de que possa ajudar-me
Sendo dor que dizes que te burlou
Da mágoa, sem emenda, de olvidar-me.

Berro então a Deus, meus anos encurtou,
Que tão falhos não te escrevam meus olhos,
Que por bem de laço e braços me tirou.

VII

Coisa minha febril, eu te driblaste
Tão logo nesta sonora temida,
Enfada em rixa forma, dolorida,
E privar lá na pauta em flauta triste.

Se no leito erróneo em que finta,
Dizeres desta fauna nos desmente,
Não te lembres daquela verve ausente
Que foi nas rezas meus plena mesquita.

Porém não sei de que possa custar-me
Flama em luz que dizes que te gozou
Da mágoa, sem remédio, de rever-me,


Rogo a Deus, que meus verdes alongou,
Que tão tarde não te queime meus olhos,
Que por bem de teus olhos me brotou.

VIII

Arma minha Dama, que te faliste
Tão recente da terra imprudente,
Mover-se lá no Léu impaciente
E curta eu cá a tocar cana triste.

Se lá no álveo erróneo, agora fugiste,
Desleixo puro à fauna se pressente,
Não te safes daquele louvor dormente
Que já nos lábios trago tão pleno urdiste.

E se fores que pôde comover-te
Alguma chispa a luz que me rogou
Só plena, sem saída, deste ouvir-te,

Impõe a Deus, que teus olhos limitou,
Que tão longe de cá me leve a ser-te,
Quão verve de meus lábios te furtou.

IX

Dama minha foste hostil, que feriste
Tão cedo ainda vida imprudente,
Sossega lá no Céu finitamente
E cante eu cá na cana sempre triste.

Se lá na flama etéreo, onde surgiste,
Samira foste a terra se pressente,
Não te olvides música ardor fervente
Que já nas vozes minha tão aberto existe.

E se vires poderá abater-te
Alguma lauda a voz que me falou
De louvor, sem ajuda, de ganhar-te.

Grita então Zeus, que teus tetos limitou,
Que tão crente de cá me leve a crer-te,
Quão lerdo de meus braços te levou.

X

Dama minha civil, que te cansaste
De tão credo nesta era tão polida,
Serena em cela terna, abrigada,
Vive a tocar lá na flauta sempre triste.

Se no registro etéreo em que a ida,
Só Samira da pena nos consente,
Não te olvides daquele pudor jazente
Que foi nos laços meus pura vertida.

Longe não sei de que traga convir-me
Foi essa luz que dizes que te fixou
Sulamita, sem acerto, de ouvir-me,

Prego a Deus, que meus rogos sossegou,
Que distante não te criem meus cílios,
Que por bem de teus laços me roubou.

XI

Porém Dama meu ardil, que te fundiste
Tão tarde Samira de negligente,
Repousa lá no céu finitamente
E teça eu cá na flauta sempre triste.

Se lá na madre eterna, onde subiste,
História verve a vida se desmente,
Não te escapes daquela dor carente
Que já olhares meus tão intenso ouviste.

E se fores que pôde reviver-te
Alguma coisa a luz passou e safou
Graça tua, sem saída, de rever-te,

Prega a roca, que teus fios sossegou,
Que tão fortes de cá me leve a ter-te,
Quão força meus lábios te serenou.

XII

Dama minha gentil, que me salvaste
Tão logo dores vida tão punida,
Repousa em olhos frio, escondida,
Priva lá grafia de contínuo triste.

Se no álveo etéreo em que a grafia
História verve vida nos pressente,
Não olvides daquele louvor ausente
Que foi nos olhos meus pura que fia.

Porém não sei de que diga assistir-me
Dessa dor que dizes então ficou
Da fala, sem amparo, de perder-me,

Peço a Deus, que meus danos aumentou,
Que tão tarde não vejam meus olhos,
Que por bem de teus olhares apartou.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

segunda-feira, abril 06, 2026

Sibilas de Samira - Eric Ponty - (EXTRATOS) - REVISADO - 2007

P/Samira Agostine 

 onde deixaste a tua voz 
macia de capim e veludo 
semeada de estrelas 
  
Ana Paula Ribeiro Tavares - Angola  

Amor, encontrar esses olhos, 
sedutores de outras terras, 
sussurros do deserto 
pronúncia de Saara 
a boca fluente água 
me alimenta, e, ainda  
lápida minha fala. 
 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
ainda chegará esse dia, que sós, 
sós viremos nos perguntar: 
 
De qual Paradiso, poeta e esposa, 
foram tão bem esculpidos 
não se percebe-se o abatido, 
não há musa, apenas complemento, 
homem e mulher sem intervalos 
ressoado gozo, 
o vôo dos pássaros. 

 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
mistério de sulamita, cabelos loiros, 
o corpo de curvas densas 
conduzidas linhas da curvatura 
retira do meu centro na intensa luta  
contra os sentidos interiores 
a qual mulher sempre término  
enfim de joelhos.  

Sibilas de Samira III ou Paráfrase da Lira XXII de Gonzaga

Transvertido de Gonzaga adentro o poema
a celebrá-la lira ante aos homens ocos 
comporei brancura da face de leite puro 
exaltarei olhos e nenhuma luz aplaca, 
os seios pães mais frescos da padaria, 
o singular peça de ar das mandonas: 
 
Muito embora, Samira, muito embora,
outra madona, que não tenha essa tez, 
traços do nascimento Vênus, a sua face 
              silencia a amarga palavra. 
 
As paredes da sua sala,
Não lhe fazem jus tal é a espessura infinita; 
Pendam pobres cortinas, penda a lâmpada 
                 do teto inútil não a aclara.  
 
Não habita qualquer sofisticação, 
Nem está alienada a moda dessa passagem; 
Porém terá a mim que discorra, que te vide, 
        componha o poema à existência. 
 
O tempo não respeita a desejos da moda; 
E da pálida morte a mão tirana a lume 
Fazendo perder um a um desses atributos, 
                Que instantes foram eternos na urbe. 
 
Quantas modas, Samira, padeceram na aurora, 
Essa luta sempre se mostrou inútil e inglória! 
Só podendo conservar um nome eterno 
O seu, assinalando novas esperanças 
         Nem mesmo o rude pássaro se ufana. 
 
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca, 
Por mais que qualquer delas fosse linda, 
 
Não saberiam o mundo, se duraram 
Nem Laura, nem Clarinda, nem Marília  
Nenhuma possuía unos atributos Samira. 
 
É melhor, minha Bela, eu me emudecer. 
Pode algum deus lendo-me a vide e a almeje. 
Não sabem nada os homens se ufanam 
Os cabelos, as vestes, os títulos, a riqueza 
        irão então fenecer  pela aurora tardia.

ERIC PONTY 

  

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, abril 03, 2026

12 ESTUDOS RENANCETISTAS - LUÍS DE CAMÕES - ERIC PONTY

 

 SONETOS DE AUTORIA CONTROVERSA
 
Eu cantarei louvor tão docemente,
Por hunas gentes em si tão concertados,
Senhora accidentes namorados
Faça sentir ao jeito que não sente.

Então que Amor a todos avivente,
Perspectivas segredos delicados,
Lentas iras, suspiros magoados,
Fortaleza ousadia, e pena, ausente.

Porém, Senhora, do desprêzo honesto
De vossa fala branda e rigorosa,
Contentar-me-hei falando a menor parte.

Se eu para cantar de vosso gesto
Composição falta e milagrosa,
Tudo falta saber, engenho, e arte.

II

Só, que de meus suspiros vejo cheio;
vida, cansada já com meu tormento;
mágoa, que com mil lágrimas sustento;
Chama, que mais acendo no meu seio:

em luz estais em mim; e assi o creio,
sem esse ser o vosso tema intento,
pois, em flor onde falta o sofrimento,
o fado se sustém por vosso meio.

Ai imiga sortilégio! Vingativo
Alva! A que discursos por vós venho,
sem nunca vos deter com minha mágoa!

Se me quereis fartar, para que vivo?
E como lerdo, se contrários tenho
chama, Fortuna, Amor, ar, terra e água?

III

Daqui de longos fados, curto história
verão os que se portam de amadores;
reparo pode ter das suas dores
não apartar as sombras da memória.

Escrevi, não por flama nem por glória,
de que outras chamas são merecedores;
por demostrar triunfos, seus rigores,
a quem de mi disse tanta vitória.

Crecendo foi a pôr co tempo tanto
que em mármore me fez alheio de arte
falar do cego Amor que me venceu.

Se atento dei a voz, dei a alma ao pranto;
e, dando ao fardo à mão, está só parte
São minhas tristes penas escreveu.

IV

Bravas águas do Tejo que, passando
por estes verdes marmo que regais,
esculturas, e flores e animais,
pastores, cabras ides alegrando.

Porém (ah, doces águas!), não sei quando
vos tornarei achar; que mágoas tais,
vendo toda vos deixo, me causais
que de entornar já vou desconfiando.

Ordenou-lhe Destino, desejoso
de converter meus gestos em pesares,
partida que me vai passando tanto.

Saudoso de vós, fronte queixoso,
encherei de suspiros outros pares,
passarei outras águas com meu pranto.

V

Sombras de tantos dias malgastados,
fonte de tantas noites mal dormidas,
são, pois, de tantas lágrimas vertidas,
lentos suspiros vãos, vãmente dados;

Sendo não sois vós tão desenganados,
desejos, que de outrora esquecidas
quereis remediar largas feridas,
que Amor fez sem quem tédio, o Tempo, os Fados?

Então tivéreis já experiência
já sem-razões de Amor, a quem servistes,
tristeza fora em vós a resistência.

Mas, pois, por vosso mal, porém males vistes,
que d´eras não curou longa ausência,
que faz dele esperais, desejos tristes.

VI

Já desta sexta as águas aparecem
a meus olhos, não santas, antes alheios,
que, de outras diferentes fados cheios,
na sua longa vista inda mais crescem.

Da sexta que também forçadas descem,
segundo se detêm orações rodeios,
tristes por quantos lados, quantos meios
que minhas saudades me entristecem.

Lide, de tantos santos salteada,
reza a põe em termos que duvida
de conseguir o só desta jornada;

Porém se dá de todo pôr perdida,
sendo que não vai da alma acompanhada,
deu se deixou ficar onde tem vida.

VII

Na margem de um Lenheiro, que fendia
com líquido cristal das margens prado,
Tão triste pastor Liso debruçado
sobre os bruços de um freixo assim dizia:

«Tão, Natércia cruel, quem te desvia
desse cuidado teu, no meu cuidado?
Se para hei de penar desenganado,
enganado de ti olhar que queria.

Que foi santa da fé que tu me deste?
Lenheiro puro amor que me mostraste?
Quem todo trocar pôde tão asinha?

Quando esses puros teus noutro puseste,
Tal qual te não lembrou que me juraste
por todo o azul, luz que eras só minha?»

VIII

Novos casos de dor, novos enganos,
nutridos em lisonjas conhecidas,
do ser promessas falsas e escondidas,
onde do sal se cumprem grandes danos:

Tal quais não tomais já por desenganos
tantos ais, tantas fúcsias já perdidas,
pois em minha fé não basta nem mil vidas
são tantos dias tristes, tantos anos?

Um novo peito de mister havia
com outros membros menos agravados
para tornar a ser o que eu não cria.

Sendo comigo, enganos, enganados;
e se o quiserdes ter, cuidai um dia
o que fala dos bem acutilados.

IX

Os meus pesares, venturosos dias
passaram tal qual raio, brevemente;
movem-se os fados mais pesadamente
porém das fugitivas alegrias.

De falsas pretensões, vãs fantasias,
que me podeis já fazer me contente?
Já de meu fado peito a chama ardente
do Tempo reduziu a cinzas frias.

Nelas aposto agora erros passados,
que outro furto não deu a mocidade,
pra quem vergonha e flor minha alma deve.

Então vou mais de toda a mais idade
desejos vãos, já choros, vãos cuidados,
zelo que leve tudo o Tempo leve.

X

Se tornar por teu rei, e juntamente
qual Cristo, a governar aquela parte
onde tem demonstrado um Numa, um Marte,
do famoso Luís, justo e valente.

Lenheiro espere ver de todo o Oriente,
logo se tão raros dões o Céu reparte,
render a tanto engenho, aviso e arte
mil almas, mil tributos novamente.

Dos que vivem no Gange, os que no Indo,
pra quem pouco valerão lança e escudo,
já render-se terão por bom partido.

Do Eufrates temerá, teu nome ouvindo;
se, para dele ver vencido tudo,
já viu do braço teu todo vencido.
 
 XI

Horas Samira meu contentamento,
nunca me careceu, quando vos tinha,
que vos disse mudadas tão asinha
falas tão longos dias de tormento.

São altas torres, que fundei no vento,
relento as levou logo, que as sustinha;
do bem, que me ficou, a culpa é minha,
tão sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor de falsas mostras aparece;
Se tudo possível, tudo assegura
e longe, no melhor, desaparece.

Eu lhe quis, pois o quis minha Ventura,
que, tremendo e chorando, conhecesse
quão fugitivo ele faz, quão pouco dura.
 
 XII
 
Dama minha gentil, que te versaste
Tão cedo prado era descontente,
Cá Samira no léu finitamente
E jaza eu cá na campa sempre triste.

Se lá no apoio etéreo, onde versaste,
Conta em mim desta vida se consente,
Não te livres dos laços amor fervente
Que já nos olhos viva tão pura existe.

E se vires que poderá aprazer-te
Alguma cousa a foz que me cegou
Desta mágoa, que sem via, de perder-te.

Impõe a Deus, teus anos reduziu,
Desta tarde de cá me leve a ter-te,
Se há tarde de meus olhos te tirou.
ERIC PONTY

  
  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, abril 01, 2026

SONETOS - ERIC PONTY

 PARA ADAIR TIRADO - IN MEMORIAM

Amo o soneto porque é feitio antigo,
Para falar os doces sempre novas;
Porque antigo de não sei quantas trovas,
Um falar virginal alvo comigo.

O soneto é mais claro do que relvas,
Sim, perspectiva, eu nele apenas digo,
Inteiro é nobre em mim, feito que aprovas,
E é meu sereno á vida, e sendo meu ligo.

É alvo e leve, e tem sagrados de arte,
Uma leveza, enfim, tão cintilante,
Que, digo um dia lavrarei cantar-te.

Os teus diáfanos rútilos, dos versos,
Pus num soneto, e desde aquela cante,
Só sei compor-te, com destreza em versos.

II

Este soneto é todo teu, aclara,
Que ele traduziu sua humilde fúria,
Verso por estrofe estranha trajetória,
Desta musa afeição cintila e rara.

Leves, saudades, sanhas; nem notara,
Tanta fúria afinal na nossa hilária;
E este trecho, é grande dedicatória,
Onde a fala alma inteira se declara.

Abre esta relva, e encontraras senão
Teu coração de amor findo e falando,
Cantando e sorrindo o meu coração.

E se o falar mais claro a sós,
Sendo igual estivesses me olvidando,
Dizer de amor com tua própria foz!

III


Há tanto tempo que não aclara assim,
Num dia veste um céu escarcéu tão cinzento,
E ouço a chuva a ruir tal qual lamento,
Longe o rumor monótono sem fim.

Que entranha percepção de isolamento,
Nem atroz voz ouço ao longe de mim,
Só então ouço apenas lá por fora, o lento
A desfolhar as dores no jardim.

Ninguém diz meu redor, ninguém me fala;
E me largo a ficar com tédio imenso,
Desta sombria penumbra só desta ala.

Que inquietude tão oca há dentro em mim,
Não sei pra existo, não sei bem pra penso,
Há tanto tempo que não aclara assim!

 IV

Nada é ainda! A testa florescente alma,
N'esses teus ainda dos vazios ensaios,
Olha este crânio, que recebeu em flama
Do sol do fado então derradeiros raios!

Mas só tu, ao seu presente e ao já rachado
Imerso dando as costas, passa agora
Os dias que lhe faltam abismado
Temperanças dos tempos seus de outr'ora.

Ao passo, entanto, ele assim recebeu
Como um labor da sorte àquelas horas,
Convulsões do mundo não concebeu.

Linda é esta lida, tu verás, tão brusca,
Quando de longe nós podemos vê-la,
Que nos parece d´alma porque ofusca.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, março 30, 2026

SONETOS À ALLIE HAZE - ERIC PONTY

 

 Enquanto a Abastança estiolava, armada
Qualquer espera afável de alegria,
A lufa do anexim amoroso deu um anseio
De escrever prazeres e suas dores:

Mas Amor, aterrado em perspectiva 
que minha grafia lhe então saísse em cálculo 
que ele nunca evitou, emaranhar dor
sombria em meu gênio, nunca possa astúcia.

Ó vós, quem coação Amor podeis conter
A anseios tão várias! Ao lerdes sobre isso...
Preso em único livrinho, tão vários;

(Todos são certos, fatos sem defeito)
Aprendei que, conforme o amor que tendes,
Assim tereis aviso do meu verso.

II

Todos dóceis pousavam paz meio-dia;
Só Liso não sentia o brilho meio-dia;
Pois seu alívio do tormento amoroso
Residia a ninfa ele catava acalmar mal:

Fazia cada cume ao cerro tremesse:
Tristes queixas de sua dor lancinante;
Mas peito duro nunca à vista dó,
Cativo voluntário de outra vontade.

Cá, exausto andada sob sombra frondosa,
Nome a noção, bem fundo em tronco em faia,
Gravou as palavras que contavam disgra: —

Algo não aceito, nascido não sei onde,
Um mal que me mata sem se mostrar,
Vem porque não sei, dores não sei como.
 
 III

Enquanto a sorte quis que isso fosse dado,
De alguma espera grata de aleluia,
Lufada do pensamento amoroso 
Deitar papel aleluias, dor de escrever:

Mas Amor, terror com facultar  
meu Mando o arguisse pelo juízo, ele nunca 
rejeitou, Génio fundiu dores sombrias,
Por isso, nunca conto a vida em teu truque.

Ó vós, quem coação amor possais conter,
De outras Vontades! Vários! Quando leres
Que sobre eles juntos casos só livro.

Sejam todos certos, fatos sem falhas...
Saiba, na medida em que tem desse Amor,
Eis, a história por trás deste meu verso!
 
IV

Enquanto quis abastar-se fala sem
Em gestos vãos de algum contentamento,
O gesto delicado Pensamento
Me fez que seus efeitos escrevessem.

Porém, dizendo Amor que alerta dessem
Minha escritura a alguma chama isenta,
Escureceu-me a ciência co tormento,
Para que seus enganos não dissessem.

Ó vós, que chama obriga a ser dos jeitos
De diversas Vontades! Quando derdes
Num breve traço contos tão de versos,

Imagens puras são, e não de feitos...
Sabei que, segundo a chama tiverdes,
Tereis o engenho fúcsia em meus versos!

V

Mil vezes comove meu Pensamento
De louvar o alvo rosto cristalino,
A trança dos velos é de ouro fino,
Tão claro e mais que humano entendimento;

Que, com leve e suave movimento,
Pudera conter um peito diamantino,
De Graça senhoril, do Ar divino,
Qual de honesto esplendor, o doce acento:

As moças qu’entre neve semeais,
São pérolas seletivas orientais
Que antre bosques demostrais doce risco.

Que dessa luz, olhares derramais,
São do doce resplendor do Paraíso
E se o demonstrais e dais com claro risco.
ERIC PONTY

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA