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quarta-feira, setembro 30, 2026

ÚLTIMO RECADO - ERIC PONTY

 

 
 

Ao pé das colinas onde ela faria sua estreia,
com membros terrenos adornados vestes tão finas,
(daquela médica não cessa de despertar do repouso
Nesse homem choroso que me envia até ti…),

Na paz e livremente corríamos pelas janelas
esta vida mortal, cada animal escolhia pelas,
sem nos cuidarmos com o fato de que a ida nos exporia
a todos a ocasiões em que surgiriam perigos.

Apesar desse estado de desolação,
para onde fui levado, vindo de enigmas sem medo,
em relação à morte tenho um consolo,

que é a vingança contra aquele que me trouxe até ti,
pois ele está sob o domínio de alguém,
acorrentado por uma corrente ainda maior, com fim se beirando.


II

Senhora, nunca a vi elevar tua alva figura,
Deste seu véu, seja pelo sol ou pela sombra,
pois sabia do anseio que eu demonstrava,
que afastou todos os outros desejos do meu coração.

Enquanto eu mantinha em chave todos os meus elogios íntimos,
que deixavam minha mente obcecada de forma mórbida,
vi a piedade que fingia demonstrar nessa janela.
No entanto, desde que o Amor fez com que me notasse.

Velou seus cabelos dourados naqueles dias
e refreou olhares sedutores ao se manter discreta.
Do que eu mais desejava agora se foi, e assim então:

Deste véu controla meus dias; e incendeia canaviais,
ele me mata ao escurecer seu olhar brilhante
sempre que o calor do verão ou as nevascas abrem.

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

terça-feira, setembro 29, 2026

clubedeautores.com.br/livro/sonetos-para-minha-medica-te-consagro-na-elegia - Livro - Eric Ponty

 


 
Sabe, acaso, o que é paixão? – É um pouco de espera, 
É fragmento de um ser que vão diz o que pensa. 
E o poeta? É um fazedor, de coração que sente, 
Cuja alma para a lide é sempre incompreendida. 

Pois bem, vou lhe dar paixão, e do simplesmente 
Neste verso que escrevo e jamais será foi dito… 
Quando, a sós, ficar disgra, e estiver esquecida, 
Lerei-o que eu distante hei de ser devoto. 

Já sinto – e não sei bem lhe recompensar quê, 
- Que se um dia você me acende-se apenas na luz 
Feita de mim qual eu já quero um pouco de você. 

Mas pode ser mentira… É bem gostar portanto 
Que você me ilumine apenas janela 
Se não quer ser comigo uma grande decepção. 
Eric Ponty

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

DANTE'S Vita Nuova - DANTE A.TRAD. ERIC PONTY

 A cada coração que a doce dor comove nos levar,
E ao qual estas palavras agora possam chegar,
Para um comento certo e um pensamento meigo,
Que haja cortesia em nome de nosso Senhor, que é o Amor.

Das longas horas em que as estrelas, lá em cima,
Despertam e vigiam, a terceira já quase havia terminado,
Quando o Amor me foi revelado, repleto de tais terrores,
Que não podem ser citados de forma leviana.

Ele parecia alguém cheio de alegria, e tinha total,
Meu coração em sua mão, e em seu braço
Minha senhora, envolta em um manto, dormia;

A quem (tendo-a despertado) ele logo se fez laço
Comer aquele coração; ela comeu, temendo algum mal.
Então ele saiu; e enquanto se afastava, chorava e cria.

II

Peço-lhes que me escutem por um breve momento 
Com paciência, se o meu caso 
Não for uma maravilha comovente e um sinal. 

O Amor (jamais, certamente, por minha parte insignificante, 
Mas por seu próprio grande coração,) 
Concedeu-me uma vida tão serena e doce 
Que muitas vezes ouvia as pessoas perguntarem, enquanto eu passava, 
O que significava tamanha alegria:— 
Elas falavam disso pelas minhas costas na rua. 

Mas agora essa postura destemida se foi por completo 
Que me foi concedida com a riqueza acumulada do Amor; 
Até que me tornei 
Tão pobre que tenho medo de pensar nisso. 

E assim é que eu, sendo como alguém 
Que tem vergonha e esconde sua pobreza, 
Aparento estar cheia de alegria, 
Enquanto deixo meu coração sofrer e gemer por dentro.


III

Chorem, amantes, pois o próprio Amor chora, 
_ E já que o motivo para o choro é tão grande; 
Quando agora tantas damas, de tal prestígio 
em valor, demonstram com os olhos uma dor tão profunda:
A Morte, essa criatura rude, lançou seu sono pesado 
Sobre uma donzela que outrora era bela, 
Desfigurando tudo o que nossa terra deveria celebrar — 
Sim, tudo, exceto a virtude, que a alma guarda. 

Agora ouçam quanto o Amor a honrou. 
Eu mesmo o vi em sua verdadeira forma 
Inclinado sobre a doce e imóvel falecida, 

E muitas vezes contemplando o Céu; pois lá 
Agora repousa a alma que, quando sua vida ainda era quente, 
Habitava com a alegre beleza que se foi.

IV

Ó vós que percorrei o caminho do Amor,
parai aqui e olhai ao redor,
em busca de algum homem cuja dor supere a minha.
Peço apenas isto: ouçam-me até o fim e, então, julguem,
se eu não sou, de fato,
o anfitrião e o refúgio de todo tormento.
O Amor — certamente não por meu escasso valor, mas movido
por sua própria nobreza —
outrora me concedeu uma vida tão serena e doce
que muitas vezes ouvi dizerem de mim:
“Meu Deus, que grandes qualidades
concedem ao coração deste homem as riquezas de tal alegria?”

Agora tudo se esgotou daquela primeira riqueza de alegria,
que tinha sua fonte no brilhante tesouro do Amor;
conheço a miséria do Amor
e não tenho coragem de colocá-la em meus versos.
E assim tento imitar o homem que esconde sua pobreza por vergonha:
vesto as roupas da alegria,
mas em meu coração choro e definho.

V

Se o próprio Amor chora, não deverão os amantes chorar,
ao saberem por que triste motivo derramar suas lágrimas?
O Amor ouve suas damas chorarem sua angústia,
revelando amarga tristeza através de seus olhos.

Só porque a vil Morte exerceu sua cruel
Dessa arte destrutiva sobre um coração gentil,
Devastou tudo o que a terra pode achar para louvar
em uma graciosa dama, exceto sua castidade.

Ouça, então, como o Amor prestou homenagem a essa dama:
Eu o vi chorando ali, em forma humana,
contemplando a imagem imóvel de sua graça;

E então sendo mais de uma vez ergueu os olhos para o Céu,
onde aquela doce alma já havia encontrado seu lar,
que outrora, na Terra, havia revestido uma carne encantadora.

VI

Morte vil, em guerra com a ternura,
mãe eterna da dor,
julgamento severo e incontestável,
fonte de dor lancinante em meu coração — uma dor
que devo suportar constantemente —
minha língua se desgasta ao amaldiçoá-la!
E se eu quiser fazer com que implores por misericórdia,
basta-me revelar
teus crimes, tua culpa entre todas as culpas;
não que sejas desconhecida pelo que és,
mas sim para enfurecer
quem quer que espere encontrar sustento no amor.

Você privou o mundo da graça mais gentil,
de tudo o que, nas doces damas, merece louvor;
nos anos alegres e ternos da juventude,
você destruiu toda a leveza do amor.
Não há necessidade de nomear essa graciosa dama,
pois suas qualidades revelam quem ela era.
Quem não merece a salvação,
que não espere compartilhar de sua companhia.

Enquanto cavalgava certo dia, não há muito tempo,
por estradas estreitas, e oprimido pelo pensamento
do que me levava a partir, encontrei o Amor
vestido com trapos de peregrino, vindo na direção oposta.
Toda a sua aparência contava a história miserável
de um governante outrora grandioso, agora despojado de poder;
e, sempre suspirando, curvado pelos pensamentos, ele avançava,
com os olhos desviados dos transeuntes.

Mas ele me viu e me chamou pelo nome,
e disse: “Venho daquele lugar distante
para onde enviei seu coração a serviço da minha vontade;
trago-o de volta para cortejar um novo deleite.”
Então ele começou a se fundir comigo de forma tão estranha,
que desapareceu antes que eu percebesse.

Quero que você vá, balada, em busca do Amor
e se apresente com ele diante da minha senhora,
para que minha defesa, que você canta,
possa ser explicada a ela pelo Amor, meu senhor.

VII

Balada, você se move com tanta graça,
que não precisa de companhia
para se aventurar com ousadia aonde quiser,
mas se quiser ir com total segurança,
primeiro faça amizade com o Amor;
talvez ir sozinha não seja sensato,
pois a senhora a quem você deve se dirigir
está zangada comigo agora (ou assim eu acho),
e se você seguir seu caminho sem ele,
ela talvez se recuse a recebê-la.

Mas cantando docemente, na companhia do Amor,
comece com estas palavras (mas somente
depois de ter implorado por compaixão):


“Minha senhora, aquele que me enviou até você
espera que seja de seu agrado
ouvir-me até o fim e julgar se ele é culpado.
Venho com o Amor, que, pelo poder de sua beleza,
pode fazer com que toda a aparência de seu amado mude;
agora você consegue entender por que o Amor fez com que ele desviasse o olhar?
Lembre-se, porém, de que o coração dele nunca se desviou.”

E diga a ela: “Esse coração dele, minha senhora,
tem sido tão firmemente fiel
que cada pensamento o mantém escravo de você;
ele foi seu desde o início e nunca mudou de lealdade.”
Se ela não acreditar em você,
diga-lhe para perguntar ao Amor, que conhece a verdade;
e termine oferecendo está humilde prece:
se conceder-me perdão fosse ofendê-la,
que sua resposta me condene à morte,
e ela verá a obediência de um escravo fiel.

E diga ao Amor, que é a chave de toda a compaixão,
antes de se despedir,
diga ao Amor, que saberá defender minha causa,
graças às notas do meu doce melodia:
“Fique aqui um pouco com ela,
fale-lhe de seu servo como quiser;
e se sua prece lhe garantir um indulto,
que o sorriso radiante dela anuncie que a paz foi feita.”
Minha graciosa balada, quando lhe aprouver, vá,
conquiste honra para si quando chegar a hora certa. 

DANTE A.TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

O TRIUNFO DO AMOR - FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 A estação em que meus suspiros se renovam
Havia chegado, despertando a lembrança daquele dia
Em que meu amor e meu sofrimento começaram.
O sol aquecia um e outro chifre
De Touro, e a jovem noiva de Titão
Corria, aproveitando o frescor, para seu lugar habitual;
A primavera, o amor, o desdém e as lágrimas
Mais uma vez me trouxeram àquele Vale Encerrado;
Onde, do meu coração, caem seus pesados fardos;
E lá, entre as ervas, exausto de tanto chorar,
Vencido pelo sono, vi uma luz ampla,
Na qual havia grande tristeza e pouca alegria.
Vi um líder, conquistador e supremo,
Tal como as carruagens triunfais costumavam levar
À honra gloriosa no Capitólio.
Nunca havia contemplado uma visão como essa —
Graças à triste época em que vivo,
Desprovida de valor e repleta de orgulho —
E eu, sempre ansioso por aprender,
Levantei meus olhos cansados e contemplei
Essa cena, tão maravilhosa e tão bela.
Vi quatro corcéis, mais brancos que a neve mais branca,
E, em uma carruagem flamejante, um jovem cruel,
Com arco na mão e flechas ao seu lado.
Ele não sentia medo, nem usava armadura, nem escudo,
Mas em seus ombros tinha duas grandes asas
De mil matizes; seu corpo estava totalmente nu.
E ao redor havia mortais incontáveis:
Alguns deles eram apenas cativos, outros eram escravos,
E outros estavam feridos por suas flechas pungentes.
Ansioso por notícias, dirigi-me em direção à multidão,
De modo que quase me tornei um
Daqueles que, por sua mão, haviam perdido a vida.
Então me aproximei ainda mais, para ver se algum
Eu reconhecesse entre a multidão agitada
Que seguia o rei, nunca satisfeito com lágrimas.
Ninguém me parecia conhecido; pois se houvesse
Entre eles alguém que eu tivesse conhecido, suas feições
Estavam alteradas pela morte ou pelo cativeiro cruel.
Em minha direção veio um espírito um pouco menos
Angustiado do que os outros, chamando-me pelo nome,
E dizendo: “Estes são os ganhos daqueles que amam”
Intrigado, perguntei-lhe: “Como conheces
Meu rosto? Pois a ti não consigo reconhecer.”
E ele: “As pesadas correntes que me oprimem
Impedem-te de ver, assim como a penumbra do ar.
Mas sou teu amigo e nasci,
Assim como tu, na terra da Toscana.”
Suas palavras e a nobre maneira de falar
Revelaram-me o que sua aparência alterada havia ocultado.
Assim, sentamo-nos em um lugar elevado e aberto;
E ele começou: “Há muito tempo eu esperava ver-te
Aqui entre nós: desde teus primeiros anos,
Tua vida já prenunciava que este seria teu destino.”
“Foi exatamente assim; mas então as provações do amor
Me desanimaram tanto que eu as abandonei,
Minhas vestes e meu coração já dilacerados.”
Quando terminei de falar, e quando ele ouviu
Minha resposta, não sem um sorriso, ele disse:
“Oh, meu filho, que chama se acendeu para ti!”
Naquele momento eu não o compreendi, mas agora
Tão firmemente suas palavras estão gravadas em minha mente
Que nada jamais foi gravado mais profundamente em mármore.
E na ousadia da minha juventude — quando a mente
E a língua são rápidas na expressão — perguntei:
“Por favor, com toda a sua cortesia, que povo é esse?”
“Em breve”, respondeu ele, “tu mesmo saberás,
Já que és um deles: tu não sabes
Quão firme é o laço que está sendo forjado para ti.
Teu rosto murchará, e brancos ficarão teus cabelos,
Antes que o laço de que falo seja desfeito,
Por mais que teu pescoço e teus pés se rebelem.
E, no entanto, para satisfazer teu desejo juvenil,
responderei, falando primeiro de nosso senhor,
que assim nos priva da vida e da liberdade.
Pois este é aquele a quem o mundo chama de Amor:
amargo, como vês, e como verás mais claramente
quando ele for teu senhor, assim como é o nosso —
gentil na juventude e feroz à medida que envelhece,
Como sabe quem o experimenta, e tu saberás
Em menos de mil anos, eu profetizo.
A ociosidade lhe deu origem, e a devassidão,
E ele foi alimentado por pensamentos doces e gentis,
E um povo vaidoso fez dele seu senhor e deus.
Alguns de seus cativos morrem imediatamente; e outros,
Governados com mais crueldade, passam a vida
Sob mil correntes e mil chaves.
Aquele que parece tão altivo e orgulhoso,
O primeiro entre todos nós, é César, a quem no Egito
Cleópatra aprisionou, entre as flores e a grama.
Agora, sobre ele reina o triunfo; e é bom que assim seja,
Já que ele, embora conquistador do mundo, foi vencido,
E que o Amor, que o venceu, tenha a glória.
Em seguida vem seu filho — ele também foi alguém que amou,
Embora de forma mais nobre — César Augusto, ele,
Que tirou sua Lívia de seu generoso esposo.
O terceiro é Nero, impiedoso e injusto:
Veja como ele marcha cheio de ira e desdém.
Uma mulher o conquistou, por mais forte que ele pareça.
Veja o bom Marco, digno de todo louvor,
Sua língua e seu coração cheios de filosofia —
E, ainda assim, Faustina o submete à sua vontade.
Aqueles dois que caminham com medo e suspeita
São Dionísio e aquele Alexandre,
Cujos pensamentos invejosos o levaram à morte.
O próximo é aquele que, por causa de Antandro, chorou
A morte de Creusa e tomou outra noiva
Daquele mesmo príncipe que matou o filho de Evandro.
Você já deve ter ouvido falar de alguém que não cedeu
À perseguição apaixonada de uma madrasta
E, fugindo, conseguiu escapar de suas súplicas:
E, no entanto, sua castidade e firmeza legítima
Lhe trouxeram a morte: pois em tal ódio se transformou
O amor de Fedra, terrível e maligno.
Ela própria se matou, talvez vingando assim
Teseu, Hipólito e Ariadne,
Que, como bem sabes, correram, apaixonados, para a morte.
Ao culpar o outro, a pessoa condena a si mesma:
Pois quem se deleita na fraude
Não pode lamentar-se se também for enganado.
Contemple, então, Teseu, cativo, embora tão famoso,
Conduzido entre duas irmãs que ambas encontraram a morte:
Uma depositou seu amor nele, ele amou a outra.
Com ele está Hércules: pois, apesar de toda a sua força,
O amor o capturou. Aquiles segue em seguida,
Que, em seu amor, encontrou amarga dor.
Aquele é Demofonte, e aquela é Filis;
E aquele é Jasão: com ele está Medeia,
Que o seguiu, e o Amor, por terra e mar,
Impiedosa para com o pai e o irmão,
E para com seu amado, selvagem e feroz, como se
Assim pudesse ser mais digna de seu amor.
Hipsípila vem em seguida e lamenta
O amor bárbaro que a privou do seu próprio.
E então vem aquela que ostenta a glória da beleza,
A pastora com quem, ao ver seu rosto belo, 
o olhar fatídico dela provocou as tempestades turbulentas,
Que, com sua fúria, viraram o mundo de cabeça para baixo.
E então ouvirás Oenone lamentar-se
Por Páris; e Menelau, por Helena.
Hermione clama por seu Orestes,
Laodâmia, por Protesilau.
Argia, fielmente, por Polinices,
Ao contrário da esposa gananciosa de Anfiarao.
Escuta os suspiros e o choro, escuta os gritos
Desses pobres apaixonados, que entregaram suas almas
Ao poder daquele que assim os conduz.
Nem jamais poderia eu nomeá-los todos para ti:
Não só seres humanos, mas deuses estão aqui,
Preenchendo as sombras do bosque de murta.
Vê a adorável Vênus, e com ela vê Marte,
Seus pés, braços e pescoço sobrecarregados de correntes.
Ali estão Plutão e Prosérpina.
Contemple a ciumenta Juno e o loiro
Apolo, que outrora desprezou o arco juvenil
Que lhe infligiu tal ferida na Tessália.
O que direi? Para resumir, então,
Todos os deuses de Varrão estão aqui como prisioneiros,
E, sobrecarregados com inúmeras correntes,
À frente da carruagem segue Júpiter.”

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

segunda-feira, setembro 28, 2026

SONETOS ELISABETANOS PARA MINHA DOUTORA - ERIC PONTY

 

 
 

Contemple-se limpidez e diga ao seu aspecto
que já se reproduza sem demora de ato;
se não renovar sua frescura em outro,
desolará o mundo e uma mãe noutro.

Pois que donzela haverá tão altiva
ponto de fechar seu vergel à sua causa?
E quem tão brioso que prefira
privar-nos do encanto com sua sorte?

Você é conceito vivo de sua mãe assaz;
vê em você o frescor de primaveras;
também, na vetustez, poderá ser vista.

E se verá na idade qual douro que agora vive.
Mas se preferir que não se lembrem mais de ti,
Não os tenha, e conceito morrerá consigo.


II

Encanto transbordante, por que deixas
tua deixa de encanto apenas em ti mesma?
A Natureza quase nada dá de graça:
apenas presta àqueles que dão sem limites.

Por que, então, belo egoísta, abusas
da bondade com que foste dotada?
Usurário transitório, por que afadigas
tal falta e não achas descanso?

Se teu único cliente és tu mesmo,
revogarás sugando teu próprio encanto;
assim, quando enfim chegar tua hora.

Reserva irás contrapesar teu saldo?
Sem uso, teu encanto é algo caçado;
usada, se torna teu algoz traçada.


III


As horas francas que esculpiram
desse rosto que cativa nos olhares
serão as mesmas que, como tiranos,
desgraçarão o que agora irradia graça.

O tempo insensível transfigura
o verão garboso em inverno feroz:
a seiva esfriada, os galhos nus,
o belo sob a neve, desse prado árido;

Dessa essência do verão de não continuar
Tão cativa em seu cárcere cristalino,
a bondade e seu efeito, ambos perecem.

Mesmo tempo, sem deixar memória viva.
As flores, mesmo que hibernem, destiladas,
não faíscam mais, mas guardam a essência.


V

Vê só! Quando a luz suave renasce
e teu feixe que surge nesse Oriente,
todos os olhos prestam homenagem
há sagrada majestade deste astro.

E quando, já em sua meia-idade, alcança,
robusto e ainda jovem, o cume etéreo,
destes olhares não deixam de adorá-lo,
enquanto seguem sua travessia dourada.

Mas quando se retira lentamente
em carruagem cansada, tal qual um ancião,
destes olhos que o honravam já se desviam.

Se deixam de seguir em seu fluxo.
Tu, que estás no zênite da jornada,
sem filhos, perecerás desapercebido.


VI

Será que o medo do choro de uma viúva
te fará desperdiçar tua vida sozinho?
Se pereceres sem deixar descendência,
do mundo chorará qual de uma esposa.

Se grávida de viuvez e não de vida,
pois não deixas rastros ao partir,
enquanto outras viúvas, quando olham
para os olhos de teus filhos, veem o pai.

O que um esbanjador gasta no mundo
passa de uma mão para outra, não se perde.
O belo, quando desperdiçado, dura pouco;

De quando não é usado, se destrói para sempre.
Não ousa há bater no amor ao próximo no peito
de quem já cometeu então um crime tão abjeto.

 
 

Não acolho que se impeça o casamento
sincero entre duas almas. Não é amor
aquele que, diante da mutação, altera sua forma
ou segue com quem se foi.

O amor é feito um farol impenitente
que enfrenta as tempestades sem se desviar;
estrela-guia dos barcos que se submergem,
incógnito pela razão, mas não pelos ritmos.

Por mais que corte lábios e amuras
com sua foice, não é um bobo da estação,
nem muda com o passar dos dias,

Se nem cessa até todos limites do eterno.
Se não for assim e eu estiver errado, então
nem eu escrevi, nem um homem jamais amou.

II

Acuse-me, então, de ser avaro
e de não retribuir suas graças com bondade,
de não retribuir ao seu amor como se deve,
por mais laços dia-a-dias que nos unam;

De frequentar então espíritos tão alheios
e desperdiçar o que é seu sem medida,
de içar a vela ao som de qualquer vento
que me transporte para longe do seu olhar.

Registre meus aferros e minhas falhas,
com base nelas, abra um artifício contra mim,
e aponte para mim com uma careta amarga…

Mas sem se banhar de ódio seus ataques.
Afinal, qual sempre foi a minha intenção?
Pôr à prova a fé e a constância do seu amor.

III

Assim recorremos a substâncias
para estimular nosso apetite
ou, em prevenção a males ocultos,
sabemos dar ao corpo um lavativo.

Eu, saciado de tua doçura mórbida,
dediquei-me a comer molhos amargos
e, farto de bondade, busquei a sorte
na doença, sem carecer dela.

Agindo assim, o amor, para prevenir
do que então ainda não era dor, caiu no mal
e domou a passadio o bem que, no fim das contas…

E só se curará ao adoecer desses feitiços amorosos,
Com isso, aprendi que quem adoece por tua causa,
se tomar remédios, envenena-se dos teus lábios rubros.

IV

Se agora me convém que me magoe,
é porque essa dor que eu guardava dentro de mim
me obriga a repreender-me pelas minhas baixezas:
meus nervos, tal qual você vê, não são de aço.

Pois se minha infidelidade te feriu,
assim tal qual a sua me feriu, deve ter vivido
então dum tormento infernal e eu, tirano,
não parei para pensar no meu próprio martírio.

Ai, nossa noite triste não conseguiu
fazer-me lembrar o quanto se sofre
e compartilhar contigo a simples bebida.

Que se limpem então as feridas que nos unem!
Felizmente, teu pecado é um penhor do amor
e, no fim, um consola o outro nesses laços.

V

É melhor ser mau do que mal visto;
pois não seremos julgados pelo que somos;
nem será valorizado o que sentimos;
mas sim o que os outros veem em nós.

Por que os olhos falsos; deste amor que queima e abrasa,
e contrafeitos dos outros deveriam celebrar minhas folias;
e por que espiões vis se intervêm em minha baixeza;
para confundir meu bem com suas paixões?

Sou quem sou, e daqueles que confiam me ver
em meus abusos, na verdade, veem os próprios.
Talvez eles estejam errados e eu esteja certo:

Não devo confiar em seu julgamento impuro,
Que se então ao menos que provem que é verdade
que o homem é mau e que tal pecado é teu império.

VI

Não, tempo, não te vanglories de que mudas:
sei muito bem que as pirâmides que ergueste
são meras construções do passado
que tu disfarças tais quais de novidades.

Tão breve é nossa passagem que daquilo
que nos parece antigo nos admira;
preferimos satisfazer nosso desejo
do que lembrar que é algo já versado.

Desafio a você e aos seus arquivos:
desconfio do passado e do presente,
pois está e corre a um ritmo tão enlouquecido.

De que sua visão e o que vemos mentem.
Nem sua foice nem você, juro, impedirão
que eu continue sendo fiel à verdade.

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

AS FLORES DO MAL - CHARLES BAUDELAIRE - TRADUZIDO POR ERIC PONTY - A VENDA NA AMAZON.COM.BR

 

 
 
 
 
 
 
 
 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

MEU SEGREDO - FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY


 S. Agostinho — Petrarca. 

S. Agostinho. O que tens a dizer, ó homem de pouca força? Com o que estás a sonhar? O que procuras? Não te lembras de que és mortal? Petrarca. Sim, lembro-me muito bem disso, e um arrepio percorre-me sempre que essa lembrança surge no meu peito. S. Agostinho. Que te lembres, de fato, como dizes, e que tenhas cuidado consigo mesmo. Ao fazê-lo, poupar-me-ás muitos problemas. Pois não há dúvida de que recordar a própria miséria e meditar frequentemente sobre a morte é o auxílio mais seguro para desprezar as seduções deste mundo e para acalmar a alma no meio das suas tempestades e turbulências, desde que tal meditação não seja superficial, mas penetre até aos ossos e à medula do coração. No entanto, temo muito que aconteça no teu caso o que já vi em tantos outros, e que te vejas a enganar-te a ti próprio. Petrarca. Em que sentido te referes? Pois não compreendo claramente o sentido das suas observações. S. Agostinho. Ó raça de homens mortais, é isto que, acima de tudo, me deixa espantado e temeroso por vós, quando vos vejo, por vossa própria vontade, agarrados às vossas misérias; fingindo que não conheceis o perigo que paira sobre as vossas cabeças e, se alguém vê-lo colocar diante dos vossos olhos, tentais afastá-lo da vossa vista e colocá-lo bem longe. Petrarca. Em que sentido somos assim tão loucos? S. Agostinho. Achas que existe algum homem vivo tão irracional que, se se visse acometido por uma doença perigosa, não desejasse ansiosamente recuperar a bênção da saúde? Petrarca. Não creio que se tenha ouvido falar de tal caso. S. Agostinho. E achas que, se alguém desejasse algo com toda a sua alma, seria tão ocioso e descuidado ao ponto de não recorrer a todos os meios possíveis para obter o que desejava? Petrarca. Ninguém, penso eu, seria tão insensato. Santo Agostinho. Se estamos de acordo nestes dois pontos, devemos também concordar num terceiro. Petrarca. Qual é esse terceiro ponto? S. Agostinho. É este: tal como aquele que, através de profunda meditação, descobriu que é infeliz desejará ardentemente deixar de o ser; e tal como aquele que formulou esse desejo procurará concretizá-lo, assim também aquele que procura será capaz de alcançar o que deseja. É evidente que o terceiro passo depende do segundo, tal como o segundo depende do primeiro. E, por isso, o primeiro deve ser, por assim dizer, uma raiz de salvação no coração do homem. Ora, vós, homens mortais, e tu próprio, com todo o teu poder de espírito, continuais a dar o vosso melhor, através de todos os prazeres do mundo, para arrancar do vosso coração está raiz salvadora, o que, como disse, me enche de horror e espanto. Com justiça, portanto, sois castigados pela perda desta raiz da salvação e pela consequente perda de tudo o resto. Petrarca. Prevejo que está queixa que apresentas venha a ser longa e exija muitas palavras para a desenvolver. Importarias, portanto, de adiá-la para outra ocasião? E para que eu possa chegar com mais segurança à tua conclusão, poderíamos dedicar um pouco mais de tempo às premissas? S. Agostinho. Tenho de fazer uma concessão à tua lentidão de espírito; por isso, por favor, interrompe-me em qualquer ponto que desejares. Petrarca. Bem, se tiver de falar por mim próprio, não consigo acompanhar a vossa linha de raciocínio. Santo Agostinho. Que obscuridade pode haver nisso? Sobre o que está agora em dúvida? Petrarca. Creio que há uma infinidade de coisas pelas quais ansiamos ardentemente, que procuramos com toda a nossa energia, mas que, no entanto, por mais diligentes que sejamos, nunca obtivemos nem jamais obteremos. Santo Agostinho. Isso pode ser verdade em relação a outros desejos, mas no que diz respeito ao que estamos agora a discutir, o caso é totalmente diferente. Petrarca. O que o leva a dizer isso? Santo Agostinho. Porque todo o homem que deseja ser libertado da sua miséria, desde que o deseje sinceramente e de todo o coração, não pode deixar de obter aquilo que deseja. Petrarca. Ó padre, o que é isto que estou a ouvir? Na verdade, são poucos os homens que não sentem que lhes faltam muitas coisas e que não confessariam que, até certo ponto, são infelizes. Qualquer um que questione o seu próprio coração reconhecerá que assim é. Por consequência natural, se a plenitude da bênção torna o homem feliz, tudo aquilo de que carece irá, na mesma medida, torná-lo infeliz. Todos os homens gostariam de se livrar deste fardo de infelicidade, como todos sabem; mas todos sabem também que muito poucos têm sido capazes de o fazer. Quantos são aqueles que sentiram o peso esmagador da dor, seja por doença física, seja pela perda de entes queridos, seja pelo cativeiro, pelo exílio, pela pobreza extrema ou por outras desgraças que demoraria demasiado tempo a enumerar; e, no entanto, aqueles que sofrem estas coisas têm, com demasiada frequência, de lamentar que não lhes seja permitido, como sugeris, serem libertados. Para mim, então, parece-me absolutamente indiscutível que uma multidão de homens é infeliz por obrigação e contra a sua vontade. Santo Agostinho. Tenho de te levar bem para trás no tempo e, tal como se faz com os muito jovens, cuja inteligência é fraca e lenta, tenho de te pedir que sigas o fio do meu discurso a partir dos seus elementos mais simples. Pensava que a tua mente fosse mais avançada e não fazia ideia de que ainda precisasses de lições tão infantis. Ah, se ao menos tivesses tido em mente aquelas máximas verdadeiras e salvadoras dos sábios que tantas vezes leste e releste comigo; se, permito-me dizer, tivesses trabalhado para ti próprio em vez de para os outros; se tivesses aplicado o teu estudo de tantos volumes à orientação da tua própria conduta, em vez de à vaidade e à conquista do elogio vazio dos homens, não precisarias de repetir tais loucuras mesquinhas e absurdas. Petrarca. Não sei aonde queres levar-me, mas já sinto o rubor a subir-me à testa e sinto-me como um aluno perante um professor zangado. Antes de saberem do que são acusados, pensam em muitas ofensas de que são culpados e, à primeira palavra que sai dos lábios do professor, ficam cheios de confusão. Nesse mesmo caso, também eu estou consciente da minha ignorância e de muitas outras falhas e, embora não perceba o sentido da vossa admoestação, como sei que quase tudo de mau pode ser-me imputado, coro-me ainda antes de termos terminado de falar. Por isso, peço-vos que expliquem mais claramente qual é esta acusação mordaz que me dirigiste.
S. Agostinho — Petrarca. S. Agostinho. O que tens a dizer, ó homem de pouca força? Com o que estás a sonhar? O que procuras? Não te lembras de que és mortal? Petrarca. Sim, lembro-me muito bem disso, e um arrepio percorre-me sempre que essa lembrança surge no meu peito. S. Agostinho. Que te lembres, de facto, como dizes, e que tenhas cuidado consigo mesmo. Ao fazê-lo, poupar-me-ás muitos problemas. Pois não há dúvida de que recordar a própria miséria e meditar frequentemente sobre a morte é o auxílio mais seguro para desprezar as seduções deste mundo e para acalmar a alma no meio das suas tempestades e turbulências, desde que tal meditação não seja superficial, mas penetre até aos ossos e à medula do coração. No entanto, temo muito que aconteça no teu caso o que já vi em tantos outros, e que te vejas a enganar-te a ti próprio. Petrarca. Em que sentido te referes? Pois não compreendo claramente o sentido das suas observações. S. Agostinho. Ó raça de homens mortais, é isto que, acima de tudo, me deixa espantado e temeroso por vós, quando vos vejo, por vossa própria vontade, agarrados às vossas misérias; fingindo que não conheceis o perigo que paira sobre as vossas cabeças e, se alguém vê-lo colocar diante dos vossos olhos, tentais afastá-lo da vossa vista e colocá-lo bem longe. Petrarca. Em que sentido somos assim tão loucos? S. Agostinho. Achas que existe algum homem vivo tão irracional que, se se visse acometido por uma doença perigosa, não desejasse ansiosamente recuperar a bênção da saúde? Petrarca. Não creio que se tenha ouvido falar de tal caso. S. Agostinho. E achas que, se alguém desejasse algo com toda a sua alma, seria tão ocioso e descuidado ao ponto de não recorrer a todos os meios possíveis para obter o que desejava? Petrarca. Ninguém, penso eu, seria tão insensato. Santo Agostinho. Se estamos de acordo nestes dois pontos, devemos também concordar num terceiro. Petrarca. Qual é esse terceiro ponto? S. Agostinho. É este: tal como aquele que, através de profunda meditação, descobriu que é infeliz desejará ardentemente deixar de o ser; e tal como aquele que formulou esse desejo procurará concretizá-lo, assim também aquele que procura será capaz de alcançar o que deseja. É evidente que o terceiro passo depende do segundo, tal como o segundo depende do primeiro. E, por isso, o primeiro deve ser, por assim dizer, uma raiz de salvação no coração do homem. Ora, vós, homens mortais, e tu próprio, com todo o teu poder de espírito, continuais a dar o vosso melhor, através de todos os prazeres do mundo, para arrancar do vosso coração está raiz salvadora, o que, como disse, me enche de horror e espanto. Com justiça, portanto, sois castigados pela perda desta raiz da salvação e pela consequente perda de tudo o resto. Petrarca. Prevejo que está queixa que apresentas venha a ser longa e exija muitas palavras para a desenvolver. Importarias, portanto, de adiá-la para outra ocasião? E para que eu possa chegar com mais segurança à tua conclusão, poderíamos dedicar um pouco mais de tempo às premissas? S. Agostinho. Tenho de fazer uma concessão à tua lentidão de espírito; por isso, por favor, interrompe-me em qualquer ponto que desejares. Petrarca. Bem, se tiver de falar por mim próprio, não consigo acompanhar a vossa linha de raciocínio. Santo Agostinho. Que obscuridade pode haver nisso? Sobre o que está agora em dúvida? Petrarca. Creio que há uma infinidade de coisas pelas quais ansiamos ardentemente, que procuramos com toda a nossa energia, mas que, no entanto, por mais diligentes que sejamos, nunca obtivemos nem jamais obteremos. Santo Agostinho. Isso pode ser verdade em relação a outros desejos, mas no que diz respeito ao que estamos agora a discutir, o caso é totalmente diferente. Petrarca. O que o leva a dizer isso? Santo Agostinho. Porque todo o homem que deseja ser libertado da sua miséria, desde que o deseje sinceramente e de todo o coração, não pode deixar de obter aquilo que deseja. Petrarca. Ó padre, o que é isto que estou a ouvir? Na verdade, são poucos os homens que não sentem que lhes faltam muitas coisas e que não confessariam que, até certo ponto, são infelizes. Qualquer um que questione o seu próprio coração reconhecerá que assim é. Por consequência natural, se a plenitude da bênção torna o homem feliz, tudo aquilo de que carece irá, na mesma medida, torná-lo infeliz. Todos os homens gostariam de se livrar deste fardo de infelicidade, como todos sabem; mas todos sabem também que muito poucos têm sido capazes de o fazer. Quantos são aqueles que sentiram o peso esmagador da dor, seja por doença física, seja pela perda de entes queridos, seja pelo cativeiro, pelo exílio, pela pobreza extrema ou por outras desgraças que demoraria demasiado tempo a enumerar; e, no entanto, aqueles que sofrem estas coisas têm, com demasiada frequência, de lamentar que não lhes seja permitido, como sugeris, serem libertados. Para mim, então, parece-me absolutamente indiscutível que uma multidão de homens é infeliz por obrigação e contra a sua vontade. Santo Agostinho. Tenho de te levar bem para trás no tempo e, tal como se faz com os muito jovens, cuja inteligência é fraca e lenta, tenho de te pedir que sigas o fio do meu discurso a partir dos seus elementos mais simples. Pensava que a tua mente fosse mais avançada e não fazia ideia de que ainda precisasses de lições tão infantis. Ah, se ao menos tivesses tido em mente aquelas máximas verdadeiras e salvadoras dos sábios que tantas vezes leste e releste comigo; se, permito-me dizer, tivesses trabalhado para ti próprio em vez de para os outros; se tivesses aplicado o teu estudo de tantos volumes à orientação da tua própria conduta, em vez de à vaidade e à conquista do elogio vazio dos homens, não precisarias de repetir tais loucuras mesquinhas e absurdas. Petrarca. Não sei aonde queres levar-me, mas já sinto o rubor a subir-me à testa e sinto-me como um aluno perante um professor zangado. Antes de saberem do que são acusados, pensam em muitas ofensas de que são culpados e, à primeira palavra que sai dos lábios do professor, ficam cheios de confusão. Nesse mesmo caso, também eu estou consciente da minha ignorância e de muitas outras falhas e, embora não perceba o sentido da vossa admoestação, como sei que quase tudo de mau pode ser-me imputado, coro-me ainda antes de termos terminado de falar. Por isso, peço-vos que expliquem mais claramente qual é esta acusação mordaz que me dirigiste.

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, setembro 27, 2026

AMARELLO AMOR - CURTA RARO -

 

 PARA MINHA DOUTORA COM LOUVOR

 
A gata, do sono e das plumas ociosas
baniram do orbe toda a valentia,
por isso está quase confusa em seu lado
nosso temperamento, derrotada pelo jeito;

E tão extinta está toda luz branda
do céu, pela qual a vida nasce se molda,
que é estimado por ser um portento
daquele que quiser fazer nascer sua ama.

“Vai pobre e nua, minha consciência”,
Que dote do louro, que do mirto?
diz a turba, voltada para o ganho da paciência.

Terás poucos cúmplices na outra passagem:
por isso te peço ainda mais, coração gentil,
não me abandones na tua dadivosa obra.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, setembro 26, 2026

NO JARDIM DA INFANTA - ALBERT SAMAIN - TRAD. ERIC PONTY

Minha Alma é uma infanta em vestido de gala,
Cujo exílio se reflete, eterno e real,
Nos grandes espelhos desertos de um antigo Escorial,
Assim como uma galera esquecida na enseada.

Aos pés de sua poltrona, deitados com nobreza,
Dois galgos escoceses de olhos melancólicos
Caçam, quando lhe apraz, os animais simbólicos
Na floresta do Sonho e do Encanto.

Seu page favorito, chamado Naguère,
Lhe lê poemas encantadores em voz baixa,
Enquanto, imóvel, uma tulipa entre os dedos,
Ela deixa que seu mistério se esvaia dentro dela...

O parque ao seu redor estende sua copa frondosa,
Mármores, seus lagos, escadarias com balaustradas;
E, solene, ela se embriaga com esses sonhos ilustres
Que os nobres horizontes guardam para nós.

Ela está ali, resignada, gentil e sem surpresas,
Sabendo bem demais para lutar, pois tudo é inevitável,
E sentindo-se, apesar de certo desdém inato,
Sensível à compaixão como a onda à brisa.

Ela está ali, resignada e serena em seus pensamentos,
Apenas mais sombria quando evoca em sonho
Alguma Armada afundada na mentira eterna,
E tantas belas esperanças adormecidas sob as flores.

Noites pesadas demais de púrpura, onde seu orgulho suspira,
Os retratos de Van Dyck, com seus belos dedos longos e puros,
Pálidos em veludo preto sobre o ouro envelhecido das paredes,
Com seus ares grandiosos e antigos, fazem-na sonhar com reich.

As antigas miragens douradas dissiparam seu luto,
E, nas visões em que seu tédio se dissipa,
De repente — glória ou sol — um raio que a atinge
Acende nela todas as chamas do orgulho.

Mas, com um sorriso triste, ela acalma essas agitações;
E, temendo a multidão em meio aos tumultos violentos,
Ela escuta a vida — ao longe — como o mar...
E o segredo se torna mais profundo em seus lábios.

Nada agita com um arrepio a água pálida de seus olhos,
Onde se assentou o Espírito velado das Urbes fenecidas;
E pelas salas, onde as portas giram sem ruído,
Ela caminha, encantando-se com mistérios suaves.

A água vazia das fontes ali cai em cascata,
E, pálida na encruzilhada, com tulipa nas mãos,
Ela está ali, refletida nos espelhos de outrora,
Como uma galera olvidada na baía.

Minha alma é uma miúda em vestido de gala.

ALBERT SAMAIN - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

POEMA - FRANCIS VIELÉ-GRIFFIN - TRAD. ERIC PONTY

 Contra o céu febril de um outono, ela ergue
O orgulho de seu perfil estranho e de sua garganta;
Em seu vestido, o sangue do cisne que ela degola;
E em seus olhos azul claros, ternura sorri maliciosa.

Ele gira ao redor dela, como neve virgem,
Penas, cujo troféu os ventos levam embora;
A onda de sua pele, de sua camisola desabotoada,
Jorra como espuma, transborda e se espalha.

Gota a gota, espirrando a seiva exuberante
De seus seios fecundados em noites de feridas amargas,
O hálito quente de suas narinas inchadas
Faz cair aos seus pés delicados o leite morno do sonho.

O vestido se ajusta em pregas na cintura;
- Vestido de linho manchado e cinto dourado fosco; -
Em seu ombro robusto, uma marca púrpura;
E sua boca cantarola uma canção contrária à natureza.

Ela sobe sem pressa pela trilha verde e canta,
Canta palavras requintadas ao acaso, ao som de um tema vaga;
E segue, muito pálida, pelo caminho que ziguezagueia    
Em direção ao cume eterno, onde a aurora lenta se torna alva.

E eu lhe digo, maravilhado: “Estranha deusa,
Que sobes ao cume com esse ar majestoso,
Por que teus pés apagam o brilho da grama?
Por que essas flores que tua mão de arcanjo murcha assim?”

O nojo segue teus passos como um cão faminto;
Tua sombra esteriliza e teu hálito queima;
Tu afugentas diante de ti a aurora, que recua:
A alma está sem ideal, a rima sem resposta.

A noite sobe atrás de ti pela encosta do cerro, noite densa,
Noite fria que penetra no coração, noite de pavor
Onde paira a loucura erótica que exalta
Teu reinado impuro e o pecado de sua demência.

Por que, enquanto rezo e imploro em vão
A ti, o Enigmático de olhos azuis como ametistas,
Que quebras o instrumento e fascinas o artista,
Temes esses brilhos de incêndio que se avistam a Leste?

Teus cães uivam; lá longe, sopra um vento estrondoso;
Por que esse brilho pálido em teus olhos? Tu, a amante
Impenetrável, cujo amor único nos assombra,
Ó tu, cujo capricho exalta e desonra?

Hécate tríplice, que cresces e diminuis;
À tua única vontade, mãe da glória ou da infâmia,
Por que te deténs, hesitante e pálida,
Rígida e com os olhos fixos, lá longe, nos cumes nus?

Eis que surge o dia real no céu de outono:
A sombra recua como uma maré impura
E o azul inocente, imaculado,
Cresce como uma praia que emerge e cintila! 
Ártemis está de pé no cume escalado,
Envolvida em sua clâmide arcaica e olha
Para a planície deslumbrante e a floresta tagarela,
Inalando o aroma revigorante que emana da Vida;

A sombra de seus cabelos é como uma auréola,
A doçura de seus olhos, como uma confissão sem vergonha,
A voluptuosidade casta de seu peito domina
Os desejos pervertidos e a paixão louca.

Ressoa a grande lira nas mãos do corifeu,
Virgem, o dia resplandece nos frisos do antigo templo;
Para ti, do universo que tua misericórdia contempla,
O amor de sua alma sedenta se eleva em hino!
    

FRANCIS VIELÉ-GRIFFIN-TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, setembro 25, 2026

MUSA EDITORA - SÃO PAULO - RECADO II - ANA CÂNDIDA

 Eric,

Oscar Araripe respondeu imediatamente.

Mandei e-mail com cópia para vc e coloquei o bol, voltou.

Mas ele foi gentil e aberto, para todas as conversas necessárias, primeiro o contrato, bom para vocês dois, bom para todos, depois o lançamento. 



Temos duas prioridades:

1. Menino Retirante, editais aonde o livro não foi. Isto está sendo visto. 
2. Flores de Tiradentes, lançamento e também inscrever em editais. Seguramente tem apelo.

Dos detalhes de todos os trâmites necessários, vamos tratando por aqui e amarraremos da melhor forma no nosso encontro pessoal.
Quando precisar que eu ligue. É só marcar.

A Editora Laranja Original reconheceu que errou e me pediu desculpas. Não sei se por inexperiência ou ignorância, ela infringiu o Código de Ética da CBL, além de outros ritos jurídicos editoriais entre pares, internacionalmente pacificados. Não se prospecta livro vivo do catálogo de outra editora. Fui amigável, resolvi a minha parte, para você está também tudo resolvido com eles?
 Nas circunstâncias,o  contrato deles é nulo. Enganei-me, pensei que tivesse sido você a oferecer o livro a eles. Você me esclareceu. 

Agora vamos ao trabalho. A cada dia o seu cuidado. E estamos nos cadastrando na Metabooks tb, a grande plataforma internacional alemã, que tem escitório no Brasil, a que todos os livreiros recorrem

Com estima e consideração,

Ana Cândida


quinta-feira, setembro 24, 2026

JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY

 A PULGA


Marca, mas essa pulga, e a marca do esta
um pouco do que tu me recusas;
A chupar-me, em primeiro lugar, e agora sugar-te,
E, essa pulga nossos dois sangues embaralhados.
Tu sabes que isso não pode ser dito
por pecado, nem vergonha, nem perda duma não inserida cabeça;
No entanto, esta goze antes de seduzir,
E mimar presunção com um sangue feito dos dois.
E esta, infelizmente! É mais do que qualquer de nós faria.

A estadia, três vidas em uma pulga poupada,
Onde estamos quase, sim, mais do que os casados estávamos
Esta pulga é você e eu, e esta
Em nosso leito conjugal, e o templo do casamento.
Embora os pais guardem ressentimentos, e você, foram atendidos
E no claustro, estes vivem em paredes do azeviche.
Mas o uso que o hábil para me matar
Não deixe para que o suicídio sucedido,
É sacrilégio, três pecados, matando três.

Cruel e brutal, tens tu uma vez
roxa no teu prego de inocência?
Onde poderia esta pulga ser culpada
Exceto no que queda que ela chupar de ti?
Mas tu triunfante, e dizer-te que tu
Encontrar-me não te escondas nem aos mais fracos agora.
Si fiel, então, saiba como falsos temores;
Apenas assim, muita honra, quando tu me lucras
Será desperdício, como essa pulga morta levou vida de ti.

Uma boa amanhã


Pergunto pela minha sorte das quais que tu e eu
Não, até que nós amamos? Não desabitue até então?
Mas adular no país prazeres, afirmação infantilmente?
Ou ofegando, as sete travessas do esconderijo?
Foi assim; mas este, todos os prazeres das fantasias serão;
Se é que alguma vez qualquer beleza me fez ver,
Que eu desejei, e ter tido, foi, mas um sonho de ti.

E agora um bom amanhã para o nosso despertar das almas,
Que fez ver uns aos outros fora do medo;
Para amar todo o amor dos outros olhos controlam,
E fez um pequeno espaço em qualquer lugar.
Que mar-descobridores de novos mundos têm ido;
Deixar os mapas para outros mundos dos mundos têm mostrado. 
Deixar-nos possuir um mundo; cada um tem um e é um.

O meu rosto em teus olhos, o teu no meu aparece,
e a verdadeira planície corações fazem na face o resto;
Onde podemos encontrar dois melhores hemisférios
Sem forte ao norte, sem declínio do ocidente?
Tudo o que morra, não misture partes iguais;
Se os nossos dois amores, ou tu e eu.
Amor também é igual a nada pode retardar, nada pode morrer.

Vá e pegue uma das estrelas,
obtenha com a criança, raiz da mandrágora
diga-me onde todos os últimos anos serão
ou que fissura do pé do diabo
ensina-me a ouvir sereias cantando
ou para manter a inveja, ferroada,
e descoberta
qual vento
serve para fazer avançar uma mente honesta.

Se tu és nascido em locais estranhos
as coisas invisíveis para ver
viagem dez mil dias e noites
até que idade branca de neve serão teus cabelos em ti,
tu, quando, tu retornares enfraquecerão há afirmação
todas estranhas maravilhas que se abateram sobre ti,
e jurar,
não onde
vive uma mulher verdadeira e justa.

Se tu encontrares uma, deixe-me saber,
por exemplo duma peregrinação que foram suaves.
mas não, não quero ir,
embora a próxima porta, possa atender,
embora ela fosse correta, quando você julgou o
e, por último, até que você escrevesse a sua carta,
já ela
vontade seria
falsa, antes eu venha, a duas, ou três.


Mulher de Constância 


Agora tu me amaste um dia inteiro
amanhã quando te deixar, o que queres tu dizer?
Queres então anteriores alguns novos votos feitos?
Ou dizer que agora
não são apenas as pessoas que se foram?
Ou que juramentos feitos na cobardia reverencial
do amor, e sua fúria, qualquer um pode renunciar?
Ou, como veros mortos veros casamentos desfazem
para os amantes dos contratos, nas imagens das pessoas,
atadas, mas até dormir na imagem mortal, se desatam?
Ou, o seu próprio final para se justificar,
para que queria mudar e para a mentira, você
não possa ter forma, mas a mentira para ser vero?
Vã lunática, contra estes escapos eu poderia
disputar e conquistar, se eu iria;
que eu me abstenha de fazer,
por que amanhã eu possa pensar assim também. 

Á obra


Tenho feito uma coisa das mais corajosas
a todos a se lembrará das suas riquezas;
e já um dos mais bravos se queixara a Primavera
ou seja, para se manter escondido.

Ele foi, mas uma loucura agora para comunicar
à arte da pedra especular,
quando ele, que pode ter de aprender a arte
para cortar, possa encontrar nenhuma.

Assim, se eu agora deveria pronunciar esta,
Outros, porque não mais
tais coisas para o trabalho, não há
será que o amor mas como antes.

Mas ele, que belezas dentro
porventura achadas, todas para fora tem fastio,
para quem ama as cores, e a pele,
ama, mas suas roupas mais antigas.

Se, como eu, você também não
na virtude de mulher veja
E atrever-se ao amor, e dizê-lo,
E olvidar o que ele e ela.

E se esse amor, embora coloque assim,
dos profanos homens que você oculte,
que, sem fé no presente entregado,
ou, se o fazem, não respeitam;

então você ter feito uma coisa mais brava
a todos a se lembrará das suas riquezas;
E mais bravos dali, Primavera,
ou seja, para manter que encobriu

O Nascer do sol


Ocupado velho tolo, indisciplinados ao Sol
Por que me rejeitas assim,
através de janelas, e através das cortinas, chamado por nós?
Preciso de teus gestos amantes das estações ocorridas?
Aquela Dose pedante desgraçado, vá xingar
à tarde na escola-meninos e azedos aprendizes
vá dizer ao tribunal de caçadores que o rei vai de cavalgada
Chamada país formigas para a colheita.
Amores são todos iguais, não há estação conheça o clima
nem horas, dias, meses, que são os trapos do tempo.

Teus feixes reverendos e vigoroso
Sublime por isso te parece?
Eu poderia o eclipse em uma nuvem leva-las com uma piscadela,
mas que eu não iria perder sua visão tão longo.
Se os seus olhos são teus, não são cegos
Olhe, e amanhã mais tarde diga-me,
Se ambos os teus das Índias de especiarias e de minas
estarás onde tu deixar-vos, ou deitar-vos aqui comigo.
Pergunte para os reis que tu viste ontem,
E ouvirás, "todos aqui numa cama de leigos."

Ele tem todos os estados, e todos os príncipes que eu;
Nada mais do que isso;
Os príncipes, mas reproduzir-nos; em comparação a este,
Toda honra é imitar, todas riquezas da alquimia.
Tu, sol, és metade tão feliz como nós,
Na medida em que o contrato do mundo é assim.
Tua idade pede facilidade, e uma vez que teus deveres deves ser
para aquecer o mundo feito para aquecer-nos.
Brilho aqui é para nós, e tu estás em todos os lugares.
Este leito és teu centro, essas paredes tua esfera. 

JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA