Pesquisar este blog

domingo, setembro 06, 2026

CEM SONETOS DE AMOR - PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

 PARA MÉDICA DESCONHECIDA DA MINHÁLMA

I
MATILDE, nome de planta, pedra ou vinho,
daquilo que nasce da terra e perdura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo verão irrompe a luz dos limões.
Nesse nome navegam navios de madeira,
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que deságua em meu coração calcinado.
Ó nome descoberto sob uma trepadeira,
como a porta de um túnel desconhecido,
que se comunica com a fragrância do mundo!
Ó, invade-me com tua boca abrasadora,
investiga-me, se quiseres, com teus olhos noturnos,
mas, em teu nome, deixa-me navegar e dormir.
II
AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até a tua companhia!
Os trens continuam rodando sozinhos sob a chuva.
Em Taltal, a primavera ainda não amanhece.
Mas você e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos desde as roupas até as raízes,
juntos no outono, na água, nos quadris,
até sermos apenas você, apenas eu, juntos.
Pensar que custou tantas pedras que o rio carrega,
a foz das águas de Boroa,
pensar que, separados por trens e nações,
você e eu tínhamos simplesmente que nos amar,
com todos confusos, com homens e mulheres,
com a terra que planta e cuida dos cravos.
III
AMOR ÁSPERO, violeta coroada de espinhos,
matagal eriçado entre tantas paixões,
lança das dores, corola da ira,
por quais caminhos e de que modo te dirigiste à minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram até mim?
Que flor, que pedra, que fumaça revelaram minha morada?
O certo é que a noite aterrorizante tremeu,
o amanhecer encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celestial,
enquanto o amor cruel me cercava sem trégua
até que, lacerando-me com espadas e espinhos,
abriu em meu coração um caminho ardente.
IV
VOCÊ SE LEMBRARÁ daquela ravina caprichosa
para onde os aromas palpitantes subiam,
de vez em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Você se lembrará dos dons da terra:
fragrância irascível, barro dourado,
ervas do matagal, raízes loucas,
espinhos encantados como espadas.
Você se lembrará do buquê que trouxe,
buquê de sombra e águas em silêncio,
buquê como uma pedra coberta de espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos para onde nada espera por nós
e encontramos tudo o que está esperando.
V
NÃO TE TOQUE a noite, nem o ar, nem a aurora,
apenas a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas do teu país perfumado.
Desde Quinchamalí, onde foram feitos teus olhos,
até teus pés, criados para mim na Fronteira,
tu eras a argila escura que conheço:
em teus quadris toco novamente todo o trigo.
Talvez tu não soubesses, araucana,
que quando, antes de te amar, me esqueci de teus beijos,
meu coração ficou lembrando-se de tua boca,
e eu andei pelas ruas como um ferido,
até que compreendi que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões.
VI
NAS FLORESTAS, perdido, cortei um galho escuro
e, sedento, levei seu sussurro aos lábios:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que, de tão longe, me parecia
gravemente oculto, coberto pela terra,
um grito abafado por imensos outonos,
pela escuridão úmida e entreaberta das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos da floresta,
o galho de aveleira cantou sob minha boca
e seu aroma errante subiu pelo meu julgamento
como se de repente as raízes me procurassem,
aquelas que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei, ferido pelo aroma errante.
VII
“VOCÊ VIRÁ comigo”, eu disse, sem que ninguém soubesse
onde e como batia meu estado doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada além de uma ferida aberta pelo amor.
Repeti: venha comigo, como se eu estivesse morrendo,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Ó amor, agora vamos esquecer a estrela com espinhos!
Por isso, quando ouvi tua voz repetir:
“Você virá comigo”, foi como se você desatasse:
a dor, o amor, a fúria do vinho aprisionado,
que, de sua adega submersa, subisse,
e mais uma vez, na minha boca, senti um sabor de chama,
de sangue e de cravos, de pedra e de queimadura.
VIII
SE NÃO FOSSE porque teus olhos têm a cor da lua,
durante o dia, com argila, com trabalho, com fogo,
e, aprisionada, tens a agilidade do ar,
se não fosse porque és uma semana de âmbar,
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e ainda és o pão que a lua perfumada
elabora, espalhando sua farinha pelo céu,
oh, amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe, posso ver tudo:
vejo em tua vida tudo o que é vivo.
IX
COM O GOLPE da onda contra a pedra indomável
a claridade irrompe e estabelece seu tom rosado
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma única gota de sal azul que cai.
Ó magnólia radiante desatada na espuma,
viajante magnética cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal quebrado, deslumbrante movimento marinho.
Juntos, você e eu, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas constantes
e derruba suas torres de arrebatamento e brancura,
pois na trama desses tecidos invisíveis
da água desenfreada, da areia incessante,
sustentamos a única e perseguida ternura.
X
SUAVE é a bela, como se música e madeira,
ágata, tecidos, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erguido a estátua fugaz.
Para a onda ela direciona sua frescura contrária.
O mar molha pés polidos, moldados
à forma recém-esculpida na areia,
e agora é seu fogo feminino de rosa
uma única bolha contra a qual o sol e o mar lutam.
Ai, que nada te toque, a não ser o sal do frio!
Que nem mesmo o amor destrua a primavera intacta.
Bela, reflexo da espuma indelével,
deixe que seus quadris imponham na água
uma nova medida de cisne ou de nenúfar
e que sua estátua navegue pelo cristal eterno.
XI
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem me alimentar, em silêncio,
o pão não me sustenta, o amanhecer me enlouquece,
procuro o som líquido dos teus pés durante o dia.
Estou faminto do teu riso escorregadio,
das tuas mãos da cor de um celeiro furioso,
tenho fome da pedra pálida das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma amêndoa intacta.
Quero devorar o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do rosto arrogante,
quero devorar a sombra fugaz de teus cílios
e, faminto, vou e venho farejando o crepúsculo,
procurando por ti, procurando teu coração quente
como um puma na solidão de Quitratúe.
XII
MULHER PLENA, maçã carnal, lua quente,
aroma denso de algas, lodo e luz esmagados,
que clareza sombria se abre entre tuas colunas?
Que noite antiga o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e estrelas,
com ar sufocante e tempestades bruscas de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos derrotados por um único mel.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
teus margens, teus rios, teus minúsculos vilarejos,
e o fogo genital transformado em deleite
corre pelos finos caminhos do sangue
até se precipitar como um cravo noturno,
até ser e não ser senão um raio na sombra.

  PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, setembro 05, 2026

BALADAS DE FRANÇOIS VILLON - TRAD. ERIC PONTY

 [A BALADA DOS ENFORCADOS]


IRMÃOS que nos sobreviverão,
Não sejais duros de coração connosco,
Se sentis compaixão pela nossa miséria
Deus recompensar-vos-á com a Sua misericórdia.
Vêem aqui cinco ou seis dos nossos pendurados:
A carne, que alimentamos tão bem,
Já podre, foi devorado,
E os ossos que restarem em breve tornar-se-ão cinzas, pó.
Que ninguém se ria do nosso sofrimento,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Se vos chamarmos, irmãos, não devais
Desprezar-nos, mesmo que tenhamos sido executados
Com toda a justiça… Como bem sabem
Que nem todos os homens são sensatos;
Perdoem-nos, já morremos, estamos
Perante aquele que nasceu de Maria,
E que a sua graça não se esgote
E que nos proteja dos raios infernais.
Estamos mortos, que ninguém nos incomode,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
A chuva esvaziou-nos e lavou-nos
E o sol enegrecido e ressecado;
As urracas e os corvos esvaziaram-nos os olhos,
Arrancaram as barbas e as sobrancelhas.
Quando vivíamos, nunca descansávamos;
Agora, dependendo do vento,
À sua vontade, finalmente, balança-nos,
Mais picotados do que um dedal.
Nunca façam parte da nossa irmandade,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Príncipe Jesus, que reinas acima de tudo,
Não deixes que o Inferno nos devore:
Não temos nada a resolver lá.
E vocês, não se riam de nós,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!

BALADA EM FRANCÊS ANTIGO


Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho , corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.

BALADA EM FRANCÊS ANTIGO


Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho, corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.

Balada
[«DA MARGOT GORDINHA»]

 
Porque é com prazer que amo e sirvo esta bela
Consideram-me vil ou desprezível?
Ela tem as qualidades que eu procuro.
Por amor a ela, ostento um escudo e uma adaga.
Se chegarem clientes, corro a buscar um jarro
E perco-me no vinho sem causar confusão.
Sirvo-lhes água, queijo, pão e fruta,
Se pagarem bem, digo-lhes: «Bene stat»,
Voltem aqui quando estiverem no cio,
Para este bordel que nos acolhe.
Mas, às vezes, há mau humor de sobra
Quando a Margot vem deitar-se e não tem dinheiro;
Então não consigo olhar para ela, detesto-a.
Pego na roupa dela, saias, cinta,
E juro-lhe que as guardarei como garantia do seu pagamento.
Põe-se de braços cruzados, Anticristo!
Ele grita comigo e jura pela paixão de Jesus Cristo
Isso não vai incomodar, porra. Então, vou tomar algo que me acalme
E bem debaixo do seu nariz, carimbei o meu selo.
O deste bordel que nos acolhe.
Depois, fazemos as pazes, e ele solta-me um belo peido,
Mais inchado do que um besouro rola-bolas.
Enquanto se ria, deu-me um soco na cabeça,
«Vai-te embora», diz-me ele, e arranha-me as coxas.
Nós os dois, bêbados, dormimos como pedras,
E ao acordar, quando lhe ronca o estômago,
Ele senta-se em cima de mim, para que eu não estrague o seu fruto;
Debaixo dela, gemo, e ela deixa-me mais liso do que uma tábua,
E divertimo-nos até não podermos mais
Neste bordel que nos acolhe.
Por mais que sopre o vento, por mais que haja geada ou granizo, 
tenho o meu pão garantido.
Sou um malandro, e a minha malandra segue-me.
Quem é melhor? Um para o outro.
Estamos empatados: tal rato, tal gato,
Somos uns malandros, e é assim que vivemos,
Desprezamos a honra, e ela despreza-nos
Neste bordel que nos acolhe.

FRANÇOIS VILLON - TRAD. ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

POEMAS DE PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY


 A AFIADEIRA
Lilia…, neque nent
Sentada à janela azul, a afiadeira,
Onde o jardim melodioso se balança,
O som do torno antigo a embriagou.

Depois de beber o azul, farta de fiar mimosa
Cabelo, tão escorregadio entre os teus dedos, evasivo,
Ela sonha, e a sua cabecinha inclina-se.

O arbusto e o ar puro tornam-se uma fonte viva
Que, à luz suspensa, rega deliciosamente
O jardim do descanso, com as suas flores perdidas.

Um caule, onde o vento errante repousa,
Rende-se à saudação vã da sua graça estrelada,
Dedicando magnificamente a sua rosa ao velho torno.

Mas a sonolenta fia uma lã isolada;
A sombra frágil entrelaça-se misteriosamente,
Tecida com o fio dos seus dedos adormecidos.

O sonho desenrola-se com uma angelical
Preguiça, incessante, no doce fuso crédulo,
Os cabelos ondulam ao sabor do carinho…

Por trás de tantas flores esconde-se o azul,
Tecelã envolta em luz e folhagem:
O céu verde está a morrer. A última árvore arde.

A tua irmã, a grande rosa onde sorri uma santa,
A tua testa etérea exala um perfume com o seu hálito
Inocente, e pensas que estás a definhar… 
Estás a extinguir-te no azul da janela onde fiavas a lã.

HELENA

Azul! Sou eu… Volto de uma visita às grutas
Da morte, o som da onda ao rebentar,
E vejo as galeras novamente nas auroras
Ressurgir da sombra com os remos de ouro.

As minhas mãos solitárias chamam os monarcas,
Cuja barba de sal divertia os meus dedos.
Eu chorava. Eles cantavam as suas vitórias sombrias
E os golfos que saíram do seu barco pela popa.

Ouço as trombetas profundas e as cornetas
Militares a marcar o ritmo do movimento dos remos;
O canto dos remadores dá início à agitação,

E na proa heróica, os deuses, exultantes,
Com o seu sorriso antigo que a espuma profana,
Estendem-me os braços, indulgentes e esculpidos.

ORFEU

… Sob os mortais, eu, Orfeu, o admirável,
Inspiro-me! Dos circos puros desce o fogo,
E da montanha nua faz um troféu majestoso
De onde surge o ato retumbante de um deus.

Se o deus cantar, destrói o local poderoso.
O sol observa com horror as pedras que se movem,
Uma planta inédita desperta admiração
Altas paredes de ouro harmonioso de um templo.

Canta, Orfeu, sentado num céu resplandecente!
A rocha anda, tropeça e cada pedra-fada
Sente-se um peso novo que se perde no azul do céu!

De um templo ao ar livre, a tarde banha o voo,
E ele próprio reúne-se e organiza-se no ouro,
Com o imenso espírito do grande hino na lira!

A ABELHA
A Francisco de Miomandre

Por mais delicada e por mais mortal que seja
Que seja a tua ponta, abelha loira,
Não coloquei, no meu cestinho delicado,
Mais do que um sonho de renda.

Fura o recipiente no centro,
Onde o Amor morre ou adormece;
Que algo vermelho de mim mesmo
Que surja, na curva, a carne rebelde!

Preciso urgentemente de uma chave de fendas:
Um mal vivo com um final feliz,
Mais vale isso do que um tormento adormecido!

Que a minha mente se ilumine
Por este minúsculo indício de ouro,
Sem a qual o Amor morre ou adormece!
 
SONETO A NARCISA

Ó, agarrado pelas tuas mãos, frescas como flores,
A minha testa já não pensa em nenhuma outra coroa;
Essa lucidez que o Amor envolve
Uma sombra suave perturba a fonte das lágrimas.

Respirando do teu seio o calor profundo,
Tanta felicidade transborda no coração que se entrega,
Que ao preço do doce destino que o teu olhar me ordena
A glória não passa de uma estranha desgraça para mim.

Deixo desaparecer os meus desejos eruditos;
O meu verdadeiro tesouro brilha para mim nos relâmpagos sedosos
Dos teus olhares ricos às luzes vivas!

O que tu sentes por mim, eu adoro nos teus olhos.
Oh, fode com as tuas mãos, fechando a minha coroa
Do rubi de um beijo, beija a testa que te ama!

ODE AO JASMIM

Os teus olhos estão no meu coração, incrustados nas pedras,
E os traços luminosos dos seus olhares vagos
Queimam com fogo vivo a noite dos meus pensamentos,
Ó Presença imanente, ó Tu que estás em toda parte,

Tu que rodeias toda uma margem tão doce
Que um dia sem ti é para mim como um dia de ferro,
Que me oprime com um peso que o meu suspiro repele
E que termina num século completo no inferno...

Enquanto tudo o que vive à minha volta me irrita,
E que dentro de mim a própria obra é um sonho importuno,
Para Ti, eu fujo para Ti, como um pássaro se abriga,
E a alma obediente ao teu perfume secreto,

Respiro em espírito o mais terno dos quartos,
Onde, entre roupa limpa, perto das flores, perto do fogo,
A força do amor que sonha em seus membros
O sorriso que eu amo receberá o meu desejo.

Eu dissipar a estrada, e voando para o deleite,
Eu abolei sob os meus pés os graus preciosos
Que levam até ao limiar do teu cálice sedoso
A minha sede de reencontrar os teus verdadeiros olhos.

A minha espera pelo amor está cansada de fingir;
Quero bebê-los e fechá-los e vê-los suavemente
Reabrir-se, quando o excesso de felicidade de se unir
Permite-nos sorrir com o teu estremecimento.

O SALGUEIRO

Trema, caia suavemente. Um sopro te ama, salgueiro.
Que faz tremer em ti o sonho de um ombro.
Brisa? Ou o meu único suspiro, tão simples e tão repentino
Que eu exale amor por este jardim flutuante.
Nas suas flores, o meu olhar engana a dor da espera
O passo, a voz, a mão e, depois, todo o ser terno,
Essa Tu toda minha que sinto a tornar-se,
A quem a hora que morre pode de repente unir-me
E aí vem ele! Eu sinto.

A minha boca finalmente te recebe!
A abordagem causa um tremor na alma.
E os meus olhos, embora cheios de folhagem e luz,
Vejo-te atrás de mim, toda corada de amor.

Trema, caia suavemente! Um sopro te ama, salgueiro...
Mas já não preciso pensar num ombro,
E esse sopro não é mais o sopro de um único coração.
O tempo vencido sucumbe, e o beijo vitorioso
Da ausência sem nome da qual um nome me liberta,
Bebe na sombra, em longos goles, o fogo que nos dá vida!

CANÇÃO MUITO VIVA

Por que eu gostaria de te amar?
Se não fosses tu
Com quem se abrevia
A hora universal?

Que estranho!
Todo o amor escorre,
Pego na armadilha do amor
Que nos encanta...

Ó belo clarão
Entre a carne e a carne
Que os corações se comuniquem!

E que verdadeiros tesouros
Licores extremos
Confundam os corpos!…

Às vezes, penso na tua infância e gosto.
O que me contaste ressoa muito longe, na sombra anterior.
E eu gosto...

Depois, depois... oh não, não gosto de tudo o que veio a seguir.
Essa flor colhida, esse primeiro toque.
A tua juventude, o teu coração.
Oh, eu odeio os deuses, o acaso e tudo mais.
O que fez com que não fosse o que deveria ter sido
Que sejas sempre toda minha.

Eu me divido ao pensar no passado que não foi
Como as pitonisas preveem o futuro.
Eu profetizo de costas
E o meu amor é de tal perspicácia
Que eu nos vejo a viver uma vida
Tão luminosa
Se pureza e voluptuosidade
Tão terno e tão determinado
É inteligente, é doce.
Oh, que dias e que noites
E que sonhos confusos e que despertares cantantes...
Nós teríamos nos conhecido, nos encontrado no tempo
Como eu era vivo, acreditando que era um anjo
De espírito duro, alma bastante estranha
E eu queria mergulhar meu olhar
Em toda a profundidade do mundo
E eu teria-te levado para o fundo
Para te amar com todo o meu orgulho.

PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, setembro 04, 2026

MILAGRES DE NOSSA SENHORA - Gonzalo de Berceo - TRAD. ERIC PONTY

 

PELA GRAÇA POR TI 

Amigos, se quisessem esperar um pouco, 
ainda outro milagre eu gostaria de contar, 
que por Santa Maria Deus quis demonstrar, 
de cuja lei quis com sua boca mamar.

Um monge beneditino foi a um mosteiro,  
o lugar não o leio, dizer não saberia,  
queria de coração bem a Santa Maria,  
fazia à sua estátua a inclinação todos os dias.

Diante de sua estátua inclinava-se todos os dias, 
contornava os aborrecimentos, dizia: «Ave Maria»;
sendo que abade da casa lhe concedeu a sacristia, 
pois considerava-o são e livre de loucura.

O inimigo mau, de Belzebu vicário, 
que sempre foi e é o contrário dos bons, 
tanto pôde agitar o sutil adversário, 
que corrompeu o monge, fez dele um fornicário.

Peguei um uso ruim do louco pecador, 
à noite, quando o prior era expulso, 
assim pela igreja fora do dormitório, 
corria o incapacitado para o mau trabalho.

Quer seja na saída, quer seja na entrada, 
diante do altar lhe caiu a passada; 
para Inclino e a Ave Maria tinha-os bem praticados, 
não se esquecia deles em nenhuma ocasião.

Gostaria de-vos falar do litígio do Teófilo,
Um milagre tão precioso não deve ser esquecido.
É assim que poderemos compreender e aprender
que vale a Gloriosa para quem sabe rezá-la.

Não pretendo, se puder, prolongar a discussão,
Se vocês ficassem entediados, eu poderia pecar;
De uma oração breve, Deus costuma responder,
que o Criador nos permita usar isso.    

Era um bom homem, dono de uma grande quinta.
chamava-se Teófilo, como diz a lenda,
Aquele homem era pacífico, não gostava de conflitos,
Ele soube muito bem, na própria pele, 
o que era tê-las sob o seu controle.

No local onde se realizava uma grande festa,
recebi a vigararia do seu senhor, o bispo;
foi entre os da igreja que se verificou a melhoria,
se não fosse o fato de o bispo ter a nomnadía.

Era, em si mesmo, de boa disposição,
que houvesse paz e grande harmonia entre todos;
Aquele homem era maduro, de bom caráter,
Era muito versado em literatura e ciência.
Vesti os nus, alimentei os famintos,
acolhi os jovens apaixonados que chegavam com frio;
dava aos que erravam bons castigos,
que se arrependessem de todas as falhas.

O bispo não terá qualquer restrição nem penalização,
era cantar a sua missa e rezar o seu saltério;
Isso isentava-o de qualquer cargo,
Enumerar as suas qualidades seria uma grande tarefa.

Amábalo, o bispo, de grande prestígio,
porque o isentava de qualquer trabalho doméstico;
os povos e as pessoas tomem-no como guia,
que ele era, em todos os aspetos, um Cabdiello e um Carrera.

Quando chegou o momento em que eu devia morrer,
o bispo não conseguiu ultrapassar aquele ponto;
adoeceu e morreu; foi para junto de Deus descansar:
Deli, Deus, paraíso, se quiseres rezar.

Os povos da terra, todo o clero,
Todos diziam: «Teófilo, que a bispado,
compreendemos que é nele que reside a melhoria,
«Ele concorda que seja criada a antecipação.»

Enviaram as vossas cartas ao metropolita
Por Deus, que a mão de Teófilo não se abalasse,
Bem, isso é o que todos consideram o conselho mais sensato,
Se fosse inverno, isto seria verão.

Os membros do arcebispado enviaram-no,
disseram-lhe: «Teófilo, assume este bispado,
pois todo o teu cabelo te é concedido,
«e de todos os povos és tu o escolhido.»
Recudiólis Teófilo respondeu com grande simplicidade:
«Senhores, unam-se em nome de Deus e da caridade,
pois não sou apenas digno dessa dignidade,
Fazer tal escolha seria uma grande cegueira.

O arcebispo disse: «Quero que faleis;
«Quero que sejas tu a tomar esta decisão.»
Dísoli, o Teófilo: «Não discutam tanto
«que, na medida do possível, me ajudem nisso.»

Os membros da canonaria, quer eu os tenha convidado ou não,
decidiram realizar mais uma eleição;
o bispo que nomearam na ordenação
colocou outro vigário no ministério.

Todos os processos foram encaminhados ao novo vigário,
serviam Teófilo, mas serviam-no ainda mais;
Teófilo ficou com ciúmes e repreendeu o jovem,
Aquele que antes era Abel transformou-se em Caim.

Na casa do bispo, não era assim tão privado,
como costumava ser no passado;
A minha vontade está profundamente abalada,
Havia-o invejado pela sesta que tirara.

Considere-se danificado e prejudicado,
tanto os adultos como as crianças pareciam desdenhosos;
ficou cego de tanto rancor e ficou completamente perturbado,
uma loucura feroz, um grande erro disfarçado.

Era ali que Teófilo residia, naquela sé episcopal,
havia um judeu naquele bairro judeu;
ele sabia de coisas más, de toda a malícia,
... com a antiga, que tinha a sua irmandade.
É o que diz São Paulo, o bom pregador,
que foi um vassalo leal de Deus, Nosso Senhor,
que todas as lendas que provêm do Criador,
Todas as saudações sejam dirigidas ao homem pecador.

É nisto que podemos compreender e aprender
quanto vale a penitência para quem sabe cumpri-la;
Se não fosse por ela, podem ter a certeza,
que o senhor Teófilo tivesse ido parar a um mau lugar.    

Se a Mãe gloriosa, que me deu valor,
se ela não compreendesse isso, não lhe veria utilidade;
mas quem quiser ouvir-me e acreditar,
Se viver em penitência, poderá ser salvo.

Amigos, se quiserdes salvar as vossas almas,
se quiserem seguir o meu conselho,
Não demorem a fazer a vossa confissão sincera,
Se fizeres uma penitência, pensa em cumpri-la.

Que assim seja, por Jesus Cristo e pela Virgem gloriosa,
sem a qual nada de bom se consegue,
para que possamos assim manter esta vida serena,
para que alcancemos a outra, duradoura e luminosa. (Ámen).

A Mãe gloriosa, Rainha dos céus,
que serviu de remédio tão eficaz a Teófilo,
Que ela nos proteja nesta luz mesquinha
para que não caiamos na ruína. (Ámen).

Mãe, do teu Golzalvo me lembrarei
que, por todos esses milagres, foi ditador;
Vós, Senhora, fazei por ele as vossas preces ao Criador,
pois é teu privilégio merecer um pecador,
Que a graça de Deus, Nosso Senhor, esteja contigo.

Gonzalo de Berceo - TRAD. ERIC PONTY

 

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quinta-feira, setembro 03, 2026

O poeta pede a seu amor que lhe escreva - FEDERICO GARCIA LORCA - TRAD. ERIC PONTY

 Aquela que só comunica com as luzes e janelas mora no 3 andar quando surgirá para mim

 
Amor minhas entranhas, viva morte, 
Em vão espero por tua palavra escrita 
E penso, com a nata que se murcha, 
Que se vivo sem mim quero perder-te. 

O ar é imortal, e a pedra é inerte 
Nem conhece a sombra nem por si evita. 
Coração interior não necessita 
O mel gelado que à lua verte. 

Mas eu te sofro, rasgo minhas veias, 
E Tigre e pomba, sobre tua cintura 
Em duelo de mordiscar e açucenas, 
Cheia, pois, de palavras minha loucura.

Deixa ser em minha serena noite 
Da alma que é para sempre tão escura.
 
FEDERICO GARCIA LORCA - TRAD. ERIC PONTY 

 ericponty@outlook.com
 

terça-feira, setembro 01, 2026

ALMANAQUE DAS LESBOS -Barnes, Djuna. - TRAD. ERIC PONTY

 

 
 
A raposa com o casaco vermelho,
A Descarada de Cabeça de Mel,
O osso frontal foi suave lambido
Com caracóis de cânhamo feito os das Tulipas,
A Doxy com o colete do Kid
A farfalhar feito o «Katie-did»,
Com os olhos da Pantera sombrios e pálidos,
E pés de pomba para andar.
Jóquei com a pélvis volumosa,
Lutadora de bundas largas com a parte traseira saliente
De uma égua de um ano, firme, lustrosa e com rugas,
A Domadora a cheirar à sua Fera,
A Jade estrelada, com o seu passo masculino,
As irmãs gémeas, unidas por uma fita,
A baleia-jubarte Jester, à vontade,
Os seus Jollies enroscavam-se no trapézio.
A Virgem com o Canto da Perdiz,
Avançando com a sua bola azul que rola,
A Rainha, que durante a noite recusou
As pontas da coroa do seu marido
Ali, para se sentar a sua «Serva da Felicidade»
Todo este longo ano vai ser assim!
Para todos os planetas, estrelas e zonas
Corram meninas até aos os vossos ossos da medula!
E todas as marés anunciam
De nenhum outro Estado, propriamente dito!

Barnes, Djuna- TRAD. ERIC PONTY

 
 ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

segunda-feira, agosto 31, 2026

120.146 LEITORES DO MEU BLOGUE - HOMENAGEM PÓSTUMA - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT - IVO BARROSO

 120.146  LEITORES DO MEU BLOGUE

HOMENAGEM PÓSTUMA  - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT


 DAR NOME AOS GATOS

O nome dos gatos é um assunto matreiro,
E não passatempo dos dias indolentes;
Podem me achar doido igual a um chapeleiro
Mas um Gato tem três nomes diferentes.
O primeiro é o nome que a família mais usa,
Como Pedro, Augusto, Estêvão, ou brejeiros
Como Vítor, Jorge, ou Jonas ou Fiúza...
Mas nomes que são no entanto corriqueiros.

IVO BARROSO - SAUDADES ETERNAS
 

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 
 

quinta-feira, agosto 27, 2026

VINTE E DOIS SONETOS E UMA ELEGIA PARA UMA MUSA EM LUZ - ERIC PONTY

 Aquela que só comunica com as luzes e janelas mora no 3 andar quando surgirá para mim


 I – Oferta de paixão

Sabe, acaso, o que é paixão? – É um pouco de espera,
É fragmento de um ser que vão diz o que pensa.
E o poeta? É um fazedor, de coração que sente,
Cuja alma para a lide é sempre incompreendida.

Pois bem, vou lhe dar paixão, e do simplesmente
Neste verso que escrevo e jamais será foi dito…
Quando, a sós, ficar disgra, e estiver esquecida,
Lerei-o que eu distante hei de ser devoto.

Já sinto – e não sei bem lhe recompensar quê,
- Que se um dia você me acende-se apenas na luz
Feita de mim qual eu já quero um pouco de você.

Mas pode ser mentira… É bem gostar portanto
Que você me ilumine apenas janela
Se não quer ser comigo uma grande decepção.
 
 II – Tatuagem a tua sombra

É por muito te querer que não quero mais viver;
Sou mísero, artista… e lhe estimo a nobreza;
Agora, tu és luz, e habitas a riqueza,
- por que ilude em mim?... Busca por outro então parte…

Este louvor eu sonhei, é um símbolo de se parte,
- é o mesmo devoto à sua singeleza…
Falo eu, mas somente, - eu faço essa certeza –
No soneto fizer julgando pintar-te a consagrar.

É um sonho… uma quimera…uma ilusão dar-te,
Que não pode lide…que o tempo irá apagar,
Feito a estrela que risca e não se avisa.

Não iluda mais em mim… Busca então um outro alarde!
Há uma desdita entre nós… Tu não podes me falar
E é por muito te adorar que quero então aceitar-te.
 
 III – Expectativa e espera por ti

Espero-te… E sei bem que eu só que te aguardo…
Cá tu me tens… Constante e eterna é minha espera…
- Por que hei sofrer assim sempre devoto e sincero
Por mais que expectativa eu lide, e a vida eu arda.

Chegarás… E lerás uma resposta esquiva
Ao que indagar-te…E eu que tanto desejo
Renderei outra vez disgra à palma, cativa,
- enquanto iluminarás feliz… desespero…

Há um imenso poder na sua maturidade,
E esse seu ar de mansa tortura e meiguice
Estraçalhar-lha ao seus pés toda minha lealdade.

Que fazer? Hei de sempre perdoar suas luzes…
E se aguarda, nem sei… Olvidando que disse então,
Sou eu enxugar o pranto e ainda proponho minha alma.


IV – Agonia sem ti

A luz do nosso louvor, pressenti, na agonia,
Das suas falas, rápidas, e luz amiúde,
Se eu tantas, com o fardo imenso te escrevia,
Tão roucas me aproximavam reposta apenas.

Soneto que a sofrer, te tatuo agora a margem,
Adiava a fatalidade sempre, dia a dia,
Buscando então iludir em vão meu sofrer
Muito amiúde eu soubesse quanto me iludia.

Hoje… Já não foi mais lindeza para mim,
Dizes, ( feito quem tem piedade), que é fazer
Não continuarmos amiúde… E tens razão; afinal.

Há muito eu a esperava e pressentia o ar…
Fez-se! Que hei de iludir? Agora seria a lide
Se ela não viesse nunca…e eu ficasse te aguardar.

V – Prece feita para seu colo

Em seu calmo semblante e em seu olhar estático,
Há iludido, - bem sei, - um mistério de outrora,
Quem sabe que pecaste…e eu fui seu pecado,
Que te fez olvidar que és soberba e és mulher.

Hoje és sacra… Horas quem passaram, - é o passado,
- dela já não terás uma efígie sequer…
E sua flor que se tornou funesta e amargurada,
Sepultar no silente… e em seu árduo mister…

Mais à frente está a lide… a lide humana e formosa!
Sua ausência é uma prece; seu passado: Conjectura,
Seu futuro: um rosário sacro, altar, uma vela.

Evadida do fundo, - ao ver-te, à luz noturna,
- não sei se te admire à renúncia suprema,
Foste lastimar a sua imensa covardia. 

VI – A GATA – I

Este meu verso inteiro seu, aparta,
Que ele traduz gata em humilde glória,
Letra  por letra, estranha trajetória,
Miado nossa afeição ciumenta e cara.

Beijos, afagos, sonhos… Nem fizera
Tanto miado afinal na coxa história…
E esta letra, é alegre dedicatória
Onde a minha gata inteira se declara.

Aparte este verso… E encontrará então
Sua afeição de gata miando e rosnando,
Feição sorrindo qual minha emoção.

E se dizer mais finda quando a sós,
É feito se estivesse engatinhando
Miar de gata com a sua própria foz.
 
 VII – A GATA – II

Se esse olhar seu no meu verso, imerso,
Procurarem diversas gatinhas,
- não tente detilhar: mil emoções
Nós as temos miados sós, todo rosnado.

Os meus rosnados cá existe apartados,
Feito a língua sapeca e as dimensões
No véu íntimo de suas ilusões,
Grunhidos fel interior partilhado de olhos.

Não procures uma gata surpreender,
- A língua que uma lambida desnuda,
Dizer outras, aceitam, sem carinhos.

Umas, são dizeres…Outras, ao contrário,
- No mistério da lida as contas formam
Cascatas que são mágoas de seu rosário.

VIII – Aos seus pés de rainha

Aguarda-te… E sei bem que eu lhe aguardo,
Cá me tens… Flagrante e eterna expectativa,
- Por que hei de ser sincero na perspectiva,
Por mais iluminado eu seja  por sua imagem.

Chegará enfim… E terás a mim sombra esquiva,
Afinal te indagar… Eu que tanto te sonho na lide,
Hei dizer novamente a minha fala cativa,
- enquanto indagarás pura… e eu desespero…

Há um imenso pudor nessa sua sinceridade,
E esse seu falar de imensa ternura de fêmea,
Estraçalha na sua língua toda minha imensidade.

Que dizer? Hei de sempre ressoar o que dizes,
E ti aguarda, nem sei… Olvidando seus pés,
Sou eu aguardo o fardo e ainda medito te bainha…
 
 IX – Iluminado por ti

Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
Está própria passagem jaz tão benta,
Dir-se-ia ter a flor, tão consumida olhar,
Quando flosrece em pétala junto a mim.

É um clarim a soar feito um paraíso,
Misto angelical e de deslumbramento,
Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
É apartar a ternura que nasce em pétala em mim.

Beijo-te instante às mãos em flores indo beijar-te,
Na dupla comoção (jaz lenta a ternura)
Em que meu olhar inteiro se reparte.

- já perceber em meu estranho acalanto,
Que há uma fruta entre o interno e fraterno,
Entre um demónio e o ardor do pastor em flor.

X – Epifania

Seus seios… Quando os sonhos, quando aparto,
Nessa ânsia dos seus peitos  incontentado,
- são aureolas de anjo envolvendo as santas,
Florações róseas duma carne em louvor.

E das manhãs… quando afinal entre efígies,
Das paisagens do leito então soltam nus,
- pintam, não sei, dois fartos girassois,
Hóstia ostenta a dizer dois sermões.

- Na primavera ardente dum louvor,
Que existe para nossa una comoção,
Procura à sombra e perseguindo à luz.

Túmido entre flores sensuais ao luar,
Feito duas cerejas presas as árvores,
São dois pomos de louvor de carne. 
 
 XI - Quem lhe disse que sua ausência dormita 

Quem lhe disse que sua ausência pausa olvido,
Mal soube louvar, porque se louvar soubera,
(Ausência que faz sua) morte que não aparta,
São conjecturas dum louvor desconhecido.

Poderá se olvidar que estou ferido,
Pela mecha traçoeira, quando se aparta,
Cheirar ao acaso a caixa de boceta,
Essência  da alma furor penetrante.

O veloz animal a sebe então partido,
A fruta nos apara a chaga que se deleita,
Por ti foi deferida a exaustão da ausência.

Não apartas, pois em ver-me assim flexado,
Que a ferida então consumida pelo louvor,
Queima, e em qualquer chaga, será ardida.

XII – Com vosso amar

Tal vosso amar é uma vela arder ignorante,
Qual vosso amar chama apartar mais prudente,
Tal vosso amar se absolve envolvente dissolvente,
Qual vosso amar faria o mais constante.

Tal vosso amar falante sendo galante,
Qual vosso amar é freira culpada insolente,
Tal vosso amar é chaga humilde e arrogante,
Qual vosso amar é louvar displicente.

Tal vosso amar luzido e obscuro,
Qual vosso amar é nata que então pano cobre,
Tal o vosso amar é custo do mais iníquo.

Tal vosso amar é dizer o que é mais puro,
Qual vosso amar nobre o que é mais obre,
Tal vosso amar é sobre o que é mais louro.
 
 
 XIII – Duma Lírica Portuguesa

No regaço de amor quase estava,
Dormitar tão formosa se atrevia,
No coração que mais isento dizia,
Que sua própria fala de amor matava.

Ela em olhar a luz contemplava
De quanto esquiva o mundo reluzia,
Tudo, porém, pensando lhe dizia
Que todo aquele fel ela o causava.

Sonhava que, graduado em seus louvores,
De saber de ambos mais atreve a Ventura,
Assim teve a dúvida aos senhores.

Se bem me ferem sempre então sem ter cura,
De menino os ardentes louvores e pendores,
Mais me fere efígie de sua formosura.

XIV – Ausência sua e dos seus lábios

Não fales que não sofro – meu sofrimento
Profundo com um motivo nos lábios mui vez afago,
Da dor – é feito a pedra que vai – cai pro fundo
Sob a face amena e serena e tranquila efígie.

Um instante de puro douro – um segundo,
Mui vezes me basta, e já me dou pelo seu afago,
Se inveja, invejo aquele que não jaz tão fundo,
Tem mundos para além dolhar ardente de afago.

Que eu não faço a dizer que afago e me atormento,
É sofrimento a gente maldizer-se à toa agora,
Sendo viver essa lida entre lento e um lamento.

Já, não! Ei sei que sofrer, mas apartar – que importa,
Desta hora de dizer aos homens que fundo é belo,
Dessa… suprema agonia… minha lida conforta…

IX – Duma Lírica Portuguesa II

Em laços baixos fui um tempo apartado,
Estrondoso castigos dos meus erros:
Ainda agora arrojando cravo os ferros,
Que a sorte, a meu pesar, tem já pensado.

Sacrifiquei a lida a meu cuidado,
Louvor não quer carneiros e nem bezerros,
Li mágoa assisti misérias, cri em desterros,
Contudo que me estava assim ordenado.

Já falei-me com pouco, dispensando zelo,
Sendo era o contentamento lastimoso,
Só por ser que cousa era olhar ledo.

Mas minha era disgra, que eu já agora entendo,
A sorte pega, e o fato duvidoso
Me esculpiram de gestos de haver medo.

XVI – Duma Lírica Portuguesa III

Quando da fera vista e largo riso,
Formando estão meu olhar mantimento,
Tão carregado sinto esse pensamento,
Que me jaz ser a terra então Narcíso.

Faço do bem feminino estou diviso,
Que qualquer  outro bem julgo alento,
Assim que em forma tal, segundo a lida,
Pouco bem a fazer que se alça ao siso.

Já louvar-vos, formosa, não me findo,
Porque quem possa as graças farto sente,
Falará que não pode conhecê-las.

Pois de larga estranheza sois ao fundo,
Já não é de entranhas, Dama excelente,
Que que vossa tez, tivesse céu e firmamento.

IVII -  Lua de Mel

Ei-la toda de alva. Jaz aos pés intenso céu,
Feito em flores de espuma, espalhando o véu,
Neste  olhar, dentro dos olhos entreabre um fel,
Carrega um bereú mais em forma bocetaria.

Jaz lábios… Ah! Na boca formosa há labor de mel,
Sendo a carícia dada em flor se enlaça em cada chão,
- e que tremor na pele, ao deixar ao papel,
No nome dá ela, o meu… o dos dois se faz então…

Quem lhe disse da lida? Lida é sonhar outra lida,
Desta passagem azul, desse enlaçado embaraço,
Faz sentir-se ao seu lado formosa e preferida.

Aos seus pés reféns feito nuvem alva ao prado intenso,
Quem falará ao seguir apoiada ao seu laço,
Não pensa em que se passa em direção ao véu. 

XVIII – Gata Angorá

Jaz vi perder seu alço às alvas rosas,
Tão quase escurecer-se a clara luz
Diante de umas mostras pegasosas,
Tal Vênus mais que jamais engrandecia.

A formosura, enfim, olhei tão fermosa,
Que louvor a si mesma se diria,
Mais que temia o pensamento altivo,
Já não ser para ter clamor tão farto.

Agora tudo então está diferente,
Que faz mover os peitos ao grande espanto,
Que nasceste tal Júpiter quanto potente.

Se enfada já do fundo jazer pelo mundo,
Já às aves pousam ao céu o suave acalanto,
Mais que a ausência dela se emagrece prato.

XIV – Gata na paisagem à margem do prado

Canta, agora em louvor, que a gata pasce,
Entre às úmidas ervas sossegada nasce,
E já no alto Lenheiro encanta e renasce,
Na sacra serra à sombra recostada.

Olhares ao chão, tendo a mão na sua face,
Está para se escutar apartada do prado,
E com silente entristecido estão as ninfas,
Olhares destilando se em alvas linfas.

O prado as rosas alvas que estão tão rubras,
Sendo está suavemente apresentado,
Nestas solicitas leves e breves abelhas.

A sua cabeça se reclina ao som divino,
Com sussurro agradável então voando,
Das cândidas e pacíficas dessas serras.

XX – Fragmento do seu vestido azul

Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Sobre  nós tenho olvido e hei de apartar,
Não há letra que valha uma gata de pranto,
Nem teorema que traduz essa segunda flor.

Nem escrito que se exprima o encanto em dor,
De um pedaço de véu do seu vestido azul,
Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Nesta lida, tenho inscrito sobre nossa ausência.

Não deveria existir o fragmento escrito infinito,
Destes gestos de alvor da luz entre três janelas,
Do louvor que me enlevo entre vãs horas de espera…

Quanto me sinto no profundo indefinido imenso céu,
Sendo que eu o acho tão grande intensidade escrevo,
Parece-me tão rouco daquilo que agora relevo…

XXI – Doçura efeito do seu desejo

Qual pensamento Ovídio desterrado,
Nesta aspereza do Prado imaginado
Ter-se de seus pesares apartados,
Deste escuro e puro nascimento.

Dos seus prados via estar nascendo,
Dos saudosos rios desse Lenheiro,
Sua alva esposa desamparada aparta,
Feito o seu natural lhes permitia beiro.

Só sua doçura musa o acompanha,
Nos prazerosos versos que escrevia,
Desta causa atirar o sentimento feito dela.

Qual a pena que com causa então se padece,
Tal muito doí a que se não merece,
Já pondo em doçura efeito do seu desejo.

XXII – Soneto do pensamento da amada à sombra

Sei que sempre é enfim, - distante agonizo,
Mil vezes que não fia, mas que ainda hei de fiar,
Perto aparte – meu Jesus!... Faço mais que uma disgra,
Que olvida-se nesta lição do instante divino.

Medito que a foz que escorre desse meu soneto a pino,
Fará soar no prado longínquo sons em tom de violino,
- e hei de deixá-la farta ao doce vinho escorrer
Dos seus lábios e da sua boca em tom fino.

Ao meu fardo, no instante, embalado emudeceu,
Já os seus lábios que afino em som violocelo,
Eu de todo do incenso que esvai dos seus cabelos.

E seremos neste soneto em silêncio jazer mudo,
Mas meus olhares enfim, serão assim sem fim,
E meus olhos em olhares puseram todo e tudo…


 Te consagro na elegia

Estes versos, leitora minha,
Que ao teu deleite eu consagro,
Que só têm de bons,
Conhecer eu que são maus,
Nem deputá-los vou querer,
Nem quero recomendá-los,
Porque isso fora querer,
Fazer deles muito caso,
Não agradecido eu lhe busco,
Pois não deves bem olhado,
Estimar o que eu nunca,
Julguei que fora suas mãos,
Em sua  liberdade eu me ponho,
Se quiseres censurá-los,
Pois que afinal, te estás,
Neles estou muito afinal,
Não havendo coisa mais livre,
Que o entendimento humano,
Pois que Deus nos violenta,
Porquê eu hei de violentá-lo?
De quando quiseres dele,
Que quando mais inumano,
Me medires, então
Que fica ainda mais obrigado,
Pois deves minha musa,
O mais sancionado pranto,
(que é murmurar), segundo
Um adagio cortesão.
E sempre lhe servirei, pois,
O seu agrado, não tê-la agradado,
Se te agrado tu divertes,
Murmuras senão lhe quadro,
Bem eu pudera dizer-te 
Por desculpa, que não há nada dado,
Local para então corrigi-los,
Na brisa dos traslados,
Que chegam de diversos versos,
De que alguns homens,
Matam a sorte do sentido,
Que é o cadáver do vocábulo,
Que quando eu tê-los feito,
Haverá de ter sido em curto espaço,
Que padeceram então o seu ócio,
Pressões feitas deste meu estado,
Que tenho então mais idade,
E contínuos embaraços,
Tais, que dizendo isso em versos,
Levo a pluma trotando,
Porém, isto tudo não serve,
Pois pensará que eu me elogio,
De que quizá foram contudo bons,
Ao fazei-los, porém, de despaço,
Não querendo que tu creias,
Se não é que vou contudo dar-vos,
Nessa intensa luz, tão só,
Obedecer este meu mandato;
Isto é se gosta de crê-los,
Que sobre isto eu não me mato,
Pois por fim farás o que
De que puseres nesses cascos,
Sendo Deus, que isto não é mais
Dar-te à mostra desse pano;
Senão lhe agrada então essa peça,
Não me entregue essa elegia de fardo. 

II
 Aos vossos olhos apresenta-se amor,
este verso, por ficar do seu lado na lida
iluminado por tanto sol vindo dos seus lábios,
digno de tal divindade do seu vestido alvo,
Divirtam-se só por um bocadinho
é o máximo que conseguirá aspirar,
que fosse um grande desafio ousar ocupá-la.
Como ousar para vos servir
é uma imprudência cortês,
defendido na sua intenção deste seu olhar,
consagra-se ao vosso altar.
Com todo o respeito pelas vossas janelas,
pede, no seu disfarce,
para não vos dar motivos para especular,
mas apenas o que explicar.
Que seja lido com tanto prazer na sua mandeixa,
que, orgulhoso, se expandirá pelas horas a margem
os momentos de atenção a séculos de vaidade.
Procura-se tornar-se imortal os seus seios de azul,
que favor tão celestial é medido na estimativa
a preces eternas.
Tudo o que está contido em vós
por ter sido decifrado, dá-o,
porque não se trata de um erro na fé
propor, mas sim duvidar da minha devoção.
A atenção com que é apresentado
não espera que lhe agradeçam;
que, na vossa paixão, acreditar
Começa por não esperar minha súplica,
O respeito é tão resignado ao vosso amar
vai para os vossos altares ser devota do amor,
que a primeira oferenda é não ter vontade,
mas ter lealdade ao vosso ser.
A ousadia de se atrever não pretende desculpar,
que, ao procurar-vos, a sua razão
aumentou a sua indignidade.
Um descuido da vossa parte exige que,
porque, sendo enfim um verso assim,
para que a atenção não se desviasse
com erros decorrentes da ociosidade.
Deseja muito, pois não ignora
que, por piedade natural de ser vosso devoto
deve ter mais cuidado com o voto
mais a negligência do que a ânsia.
Mas nem esquecimentos nem atenções
Será que estes confins versos  conseguirão,
porque é daquelas coisas indignas,
e vocês são incapazes de fazer isso.
Criou-vos como divindades;
mas, ao ver a vossa beleza,
uma vez que não há outra opção senão devotar,
justifica-se por não saber.
Isso leva-o a deduzir que, crer o máximo possível já,
ainda se vangloria de que é a sua face a não ser a sua teimosia.
E se, por natureza, quanto do oculto penetrais,
tudo o que é saber porque então me amais assim
já não será uma questão de adivinhar.

 III
 Amor estou condenado,
Á morte suave dos seus cabelos,
Por decreto do seus olhos alvos,
Na sentença atirada
Ao apelo resistindo suas mãos,
Escuta-me que não tenho por culpado,
A quiçá para confessar que seja negado.
Porque te tão informado
Disse, que meu peito seja ofendido,
Há enfim de ferro condenado,
Mas a notícia incerta, que não é ciência,
Que tenha na realidade experiência.
Sim outros créditos são dados
Porque aos seus olhares é enfim negado
Para o sentido trocado,
De que a lei ao meu colo se faz entregar,
Pois liberal me amplia os rigores,
E avara me restringe os favores?
Se então de outros olhares alvos tenho visto,
Para matar-me aos seus atirados olhares,
Se há outro carinho assisto,
Assistir-me implacável os louvores,
E se de outro amor de seus lábios me diverte,
Você que tem sido enfim minha vida dê a morte,
Se, outro alegre, hei me admirado
Nunca, alegre, me admire ou se faça olhar,
Se então lhe falei do seu agrado,
Eterno desagrado que enfim possua,
E, se outro amor, inquieta  o meu sentido,
Segue-me alma tu, que na minha alma
Haverá de tê-la sido enfim minha vida dê a morte,
Mas suposto que eu morro,
Sem resistir a minha infeliz sorte,
Que me dê só quero,
Licença de que venha então vir escolher,
Eu contudo minha sorte que irá apartar minha morte,
Deixa a morte nesta minha eleição medida,
Pois, em suas mãos ponho enfim minha sorte,
Não padeça de seus rigores na minha vida então lida,
Quando de amores eu possa vir morrer,
Tu cre e eu posso enfim permanecer na margem,
Que morrer de amor, não me dê de desculpas,
Não culpado, não é menos morte, contudo, honrada.
Perdão se enfim lhe venho lhe pedir,
De muitas ofensas que lhe hei feito,
Em dizer-lhe minha amada,
Que se as ofensas são, pois são o seu despeito,
E com mui razão te ofendeu o meu trato,
Pois que eu, com querer-te, te faço ingrata.
ERIC PONTY

 ericponty@outlook.com