PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO
I
Era o dia em que os raios pesados do sol
Empalideciam em dó pelo teu Senhor padecedor,
Quando caí cativo, senhora, deste olhar
Belos olhos, forte preso a corda do amor.
Não tive então tempo para me defender
Ou buscar abrigo dos golpes súbitos do Amor;
Eu andava seguro, sem entender nenhum mal, quando
minhas dores abriram em meio às disgras gerais.
O amor me achou inteiro indefeso dos meus olhares,
onde as fúcsias soem fluir, ele viu essa passagem
aberta para o meu peito. Tua flecha voeja.
E aborda o alvo onde deve jazer para sempre.
É pouca honra para me ferir assim, nem demonstrar
bem armada contra ele, nem mesmo o teu arco!
III
Mil vezes busquei fazer pazes com teus belos olhos,
ó minha doce inimiga tão formosa guerreira,
E lhe ofereci meu peito; mas mal sabia eu
Que teu espírito brioso se rebaixaria tanto.
No entanto, se outra quiser prender esse peito,
Viverá ela em esperanças incertos e sonhos falsos;
Já que eu desprezo todas as coisas que tu desdenhas,
Ele não é mais meu quando desprezado por ti.
Se expulso, não podes achar amparo contigo
Em tua passagem errante, nem ficar sozinho,
Nem ir aonde outros chamam em vão por ti.
Longe de tua passagem natural, deves então se desviar.
Sobre nossas duas almas este pesado dolo repousará,
Mas mais sobre a tua, pois é quem meu peito mais ama.
IV
Meu rival resplandecente, em cujo rosto inconstante
Tu vês os olhares que o Amor e do céu apreciam,
Encantam com uma beleza que não é tua, uma graça
Alegre e doce além de qualquer aparência mortal.
Foste por teu conselho maligno, minha senhora,
Que me expulsou de teu coração gentil.
Triste exílio! Agora, na solidão, eu definho,
Incapaz de habitar com tamanho valor.
Se eu estivesse seguro ali, não deverias me ferir
com teu espelho intenso, afagando só a si mesma,
De tão orgulhosamente se fazendo bela!
Pense em Narciso e teu prazer vaidoso!
Como ele, se tornará uma flor, mas onde
O gramado digno de uma planta tão rara?
V
Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo o teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram tão jovens, que dividiu;
E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo coração selvagem se regressaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons vários, teus rostos se ardiam.
“Nunca o sol viu tal par de amantes tão juntos”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, ele então se afastou.
Assim, ele alastrou flores e palavras; até que em mim
Uma alegria trêmula se espalhou ao redor do meu coração.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, que se fez alegre!
VIII
Para qualquer criatura que habita a terra,
(Exceto aquelas cujos olhos odeiam o sol)
O tempo de trabalhar é enquanto ainda é dia;
E quando enfim os céus acendem tuas estrelas,
O homem volta para casa, animais se abrigam na brenha
E deparam repouso pelo menos até o alvorecer.
Mas eu, desde a primeira hora em que o alvorecer precoce
Para sacodir a escuridão da terra,
Despertando os animais em todas as brenhas,
Não tenho trégua em suspirar pelo sol,
E quando à noite observo as estrelas flamejantes
Eu me lamento, ansiando então pelo dia.
Quando a noite afasta o dia brilhante,
E nossa noite profunda traz o alvorecer para os outros,
Tristemente, contemplo as estrelas cruéis
Que formaram meu corpo a partir da terra sensível,
E amaldiçoo o dia em que vi o sol,
Até parecer alguém criado na brenha.
Nem sonho que alguma vez tenha pastado na brenha
Uma criatura tão selvagem, seja de noite ou de dia,
Como aquela que lamento na sombra e no sol,
E não me canso de chorar, seja à noite ou ao alvorecer,
Pois, embora meu corpo mortal seja da terra,
Meu amor imutável vem contigo das estrelas.
Antes que eu volte para vos, ó estrelas intensas,
Ou caia em pó nesta brenha apaixonada,
E deixe meu corpo qual um pedaço de terra sem vida;
Que ela tenha piedade, que em um único dia
Possa expiar por longos anos! Que antes do alvorecer
Pudesse me abençoar, desde o pôr do sol!
Ó, se eu estivesse com ela desde o pôr do sol,
E ninguém para nos observar além das estrelas soturnas
Apenas uma noite! E que não houvesse alvorecer!
Nem que ela se transformasse em brenha frondosa,
Escapando de meus braços, como naquele dia
Quando Febo acompanhou Dafne pela terra.
Mas em um caixão sem sentido eu repousarei,
E o dia chegará repleto de pequenas estrelas,
Antes que o sol brilhar sobre um alvorecer tão doce.
FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA




