Albatroz@companhia
CANONE INTERNACIONAL EM LÍNGUA PORTUGUESA PELO POETA ERIC PONTY
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sexta-feira, outubro 30, 2026
A poesia de um filho da Hélade - JOÂO DA PENHA
Em seu primoroso livro "A literatura inglesa", Anthony Burguess observa que as palavras podem ser usadas de duas maneiras: uma artística, outra não-artística.
Dito mais extensamente: as palavras mesmas podem ser vistas duplamente e distintamente. Pois, primeiramente, podemos buscar seu significado consultando o dicionário, onde encontraremos sua denotação. Podemos, ainda, verificar a associação que a palavra adquiriu por meio do uso constante - teremos, assim, suas conotações.
O escritor literário, prossigamos na trilha do romancista e ensaísta inglês, persegue as conotações, vale dizer, as maneiras pelas quais ele, escritor, pode fazer com que suas palavras nos comovam ou nos excitem. E o poeta, artífice da "mais alta forma de literatura", está sobretudo preocupado com as conotações da palavra. E isso, essa preocupação, distingue o poeta do cientista ou dos autores da literatura jurídica, profissionais compromissados com o significado denotativo da palavra; neste caso, cada palavra deve significar uma coisa determinada e apenas ela. É o caso desse poema, de cuja graça infinita nos traz à efigie dum Van Gogh, que nos adverte de que escutar uma voz interior dizendo ‘você não pode pintar’, então pinte e essa voz será enfim silenciada no sempre:
Com dom Van Gogh eu sonhava menino,
Suntuosidade da Holanda do passado,
Com Saltério dos Santos, das estrelas.
Criava meu desejo, debaixo lúmen douro,
Entre perfumes sons sagrados música,
Hereges infinitos, céus carnais.
Agora, mais calmo, igual já febril,
Sabendo que vida é sucinto pacto.
Tendo que refrear minha rara postura,
Sim resignar-me, empenhei, o bastante.
Sendo assim! Nobre seduz meu predicado,
Porém distante mim, com fiz, o amável,
Hoje aborreço igual à mulher formosa,
Cuja rima assonante a amiga sensata.
Desde tempos imemoriais, assim trabalham os poetas, os verdadeiramente poetas. São artistas por excelência da palavra, da palavra conotativa. No Ocidente assim é desde que a luz da Hélade passou a iluminar esta parte do mundo que à palavra transcendeu o ser.
A literatura grega é da literatura clássica por excelência, sentenciou, com todas as razões, o poeta Manuel Bandeira. A literatura de Homero, educador da Grécia, nos assegura Platão. Homero, como Orfeu, Museu, Lino, é uma figura lendária. O que sabemos do grande aedo chegou até nós via uma ou outra tradição popular, ou por meio de especulações de gramáticos com base em passagens da "Odisseia" (ou "Ulisseia") e da "Ilíada". Muita e muita tinta correu sobre as origens de Homero. Sete cidades reivindicam ser seu berço natal. Camões, o poeta-fundador da língua portuguesa, descreve em "Os Lusíadas" a disputa:
"Esse que bebeo tanto da agoa Aonia/Sobre quem tem contenda peregrina, /Entre si, Rodes, Smirna, e Colofonia,/Atenas, Yos, Argo e Salamina". *
Por muito tempo, houve correntes que nos descreveram essas duas epopeias homéricas como uma coleção de rapsódias de autoria coletiva e totalmente anônima. Wolf esposou tal teoria, acatada por muitos críticos mercê da grande erudição com que foi exposta. Mas houve quem dela discordasse, à frente um poeta do porte de Schiller, que considerava "bárbaros" os argumentos utilizados. Goethe, inicialmente, mostrou-se receptivo à hipótese wolfiana. Mais tarde, ficou convencido da unidade dos poemas, suficiente, a seu ver, para anular a tese de uma autoria múltipla. O avanço da literatura comparada e o aprofundamento do método crítico - e sejam acrescentadas as estas descobertas arqueológicas - esvaziaram os esforços dos seguidores de Wolf em validarem a teoria de seu prógono.
É a essa literatura grandiosa ora que lhe pertence.
Sendo poeta. Quer dizer na prática mais elevada das formas literárias. É qual poeta grego. Herdeiro, portanto, de uma literatura que não teve mestres - formou-os. Literatura que criou gêneros, forjou modelos. Poeta da erudição como nesse poema expressivo da alma de Hélade grega:
Fala: Confinar-me-ei outro chão, ir oceano.
De outra urbe terá de ser melhor paragem.
Sendo à cada ânimo meu é dito proferido;
O meu coração — padecido — pregado.
Até porque minha alma finda o marasmo?
Olhe meus olhos, onde quis olhar certa vez,
Percebi ser negras ruinas da essência,
Passei tantos anos derruídos e gorados»
Não dirás aos chãos, não dirás outros oceanos.
Urbe ti acossará. Andarás nas vias pastoris.
Seguirás os arrabaldes até tua vetustez;
Entre muros iguais irás lamentar-se n´alma -
Sempre regressarás a urbe. Ser outra região —
Não ti espere absolvição da sina — É local.
Como diáspora grega é Konstantinos Kaváfis, nascido no norte da África, na cidade de Alexandria. À Grécia, Kaváfis só foi umas poucas e breves ocasiões. Sua majestosa poesia só veio a público postumamente. Seus poucos mais de 150 poemas foram recolhidos por Aleko e Rika Singopoulos. E. M. Forster e T.S. Eliot fizeram enormes esforços em divulgar a poesia do grande grego quando este ainda vivia, mas o próprio recusou o favor, pois não considerava sua obra suficientemente amadurecida a publicação, além de desejar vê-la divulgada em seu idioma original antes de sair em tradução.
Para gáudio dos admiradores da grande poesia, está poesia está entre nós. E publicando. Publicando poesia de alto nível.
O poeta explorar a sabedoria de Atena, sendo que a explora:
Lira içou. Transcendência candura!
Igual canto Orfeu! A Lira pura orelha!
Tudo silencia. Tudo silente faz se ouvir
Surgindo princípio, do sinal, à mutação!
Bestas silentes se sujeitaram clareza
Selva desatada em ninhos e jazigo;
Sons evidentes da astúcia coeva
O Medo amansava-se igual forma.
Sim ouvis. Ruídos, berros, brados sumidos,
Pequenos corações. Onde não há asilo,
Senão onde acolher estrondo advindo.
Sendo o refúgio volição obscuríssima
É um umbral brunas jaulas sombrias;
Tu lhes criaste à catedral nesse ouvido.
Um aspirante a poeta, Franz Xaver Kappus, trocando cartas com Rilke, submeteu seus poemas à apreciação do grande vate. Resposta de Rilke:
"Perguntais se vossos versos são bons. Perguntais a mim. Haveis anteriormente perguntado a outros. (...). Ninguém vos poderá orientar e ajudar. Ninguém. Só há um meio. Entrai em vós mesmos. Pesquisai o fundamento que vos chama a escrever; verificai se ele tira as suas raízes do mais profundo de vosso coração, respondei a vós próprios se haveríeis de morrer, se vos fosse vedado escrever. E, sobretudo, isto: interrogai-vos no maior silêncio da noite: devo escrever?"
Kappus, ao que se sabe, não insistiu na poesia - tudo leva a crer que buscou rumos mais prosaicos na vida.
Ora, a poesia, em Rilke, tem algo de monástico, ascético, pois, ele nos advertiu, a cultivá-la é preciso “solidão, grande solidão interior. Entrar em si mesmo e, por horas a fio, não encontrar ninguém - eis o que se deve conseguir".
Eric Ponty conseguiu praticar tão difícil exercício da alma artística. Por isso, se torna um poeta de alto coturno onde som, metáfora e música se fundem numa expressão profana artística, mas que tem algo de monástico, ascético.
João da Penha
Jornalista e escritor, foi Colaborador da Revista Cult, e, nos deixou há pouco.
* Mantive, na citação, a grafia original das duas edições de 1572, ano da primeira publicação de "Os Lusíadas".
PARA O LEITOR - CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY
159 artigos mencionam eric ponty
Todo o período148563
P/DR. WALDIMIR SALDANHA & LETÍCIA CARVALHO
A Loucura, do erro, pecado, a avareza
Ocupam nossas mentes e afligem nosso ser,
Nós devoramos nosso aprazível remorso
Como mendigos se nutrem teu verme clareza.
Nossas culpas são aferradas, pesar é covarde;
Mandamos um alto preço às nossas confissões,
E regressamos alegres ao caminho do lodo,
Crer choros lavam todos nossos laivos arde.
Sobre a almofada do mal, Satã, trismegistro,
Incessante acalma nossas mentes seduzidas,
E o metal nobre nutre das nossas vontades
É total vaporado por este sábio alquimista.
O Diabo segurando as cordas que nos movem!
Em coisas abjetas, desvendamos encantos;
Todos dias descemos um passo Inferno prantos,
Sem horror, através da depressão que fedem.
Como rodo sem bronze com beijos e mordidas.
Torturas ao peito de uma velha prostituta,
Nós roubamos como calhamos prazer secreto
Apertamos muito dura como laranja seca.
Junto, abundando, como um milhão destas larvas.
Legião de Demos farrear nosso cérebro travas,
Quando respiramos, Morte, aquele rio invisível,
Desce nossos pulmões prantos envoltos críveis.
Se estupro, o veneno, as adagas, do incêndio
Ainda não bordado cartuns amenos compêndio.
A tela banal de nossas vidas lamentáveis,
É porque almas não têm ousadia aceitáveis,
Mas entre os chacais, panteras, as cadelas,
Macacos, escorpiões, urubus, ofídios, delas.
Gritos, uivam, rosnando, rastejam quais monstros,
Na bagunça imunda de nossos vícios adentro.
Há mais feio, mais perverso, que é mais sujo!
Ainda não faças bons gestos nem grãos gritos.
Ele faria livre desta terra um caos em cujo
Bocejo, engula ser do mundo ritos;
Ele é tédio! – Teu olho lacrimejar quais prantos,
Sonhar com andaimes fumar sua guita d’água.
Tu o conheces leitor, purgado monstro manto.
– Leitor hipócrita, – meu comparte –, meu irmão!
Publicado em La revue deux mondes em junho de 1855
CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY
PIERROT LUNAIRE LIEDS Otto Erich Hartleben (1864 –1905) - SOBRE POEMAS DO BELGA ALBERT GIRALD - TRADUÇÃO ERIC PONTY
159 artigos mencionam eric ponty
P/DR.WLADIMIR SALDANHA
A Lua Cheia
Vinho ébrio com olhares,
Lua, ao entardecer em ondas,
Sendo uma maré dum dilúvio
Num horizonte fez silente.
Desejos alarmantes e delicados,
Sobrenadar ao ensejo sem cifra,
No vinhedo sorvido com olhares,
Lua, ao entardecer em ondas.
Poeta, incitado pela devoção,
Envenenar-se com bebes bentos,
Mudando à cabeceira ao céu
Cabeceira inerte, sorve e solve
Vinho é ébrio com olhares.
2. Columbina
As flores pálidas luares,
Rosas alvas d´admiração
Brotam noites de julho,
O que lhe quebraria uma!
Aliviar tristeza angustiada,
Corrente abrumada acharei
Estas flores lívidas lunares,
Rosas alvas d´admiração.
Todo meu anseio fartado
Se pudesse ser tão fado
Tão felizmente silente
Acima buços sobrancelhas
Luz da Lua brotar lívida!
O dândi
Com um magnífico feixe de luz
Lua fulgura facões cristalinos
Sobre lavatório breu, mui bento
Na dança silente do Bérgamo.
Em cuia de bronze pra tingir
Ri-se intensa fonte, o som metalino.
Num delirante feixe de luz
Lua fulgura os facões cristalinos.
Pierrot com a face de cera
Pondera e pensa: irá se maquiar?
Impele o rubro e o verde oriental
E pinta sua face de jeito brioso
Num delirante feixe de lua.
Uma lavadeira lívida
Uma lavadeira lívida
Lava panos lívidos durante a noite;
Braços nus, prateados e alvos
Se distendem até o dilúvio.
Ventos rastejam por meio campestre,
Silente, se mover o fluxo.
Uma lavadeira lívida
Lava xales lívidos durante essa noite.
E submissa dama do céu,
De ramos suaves acariciados,
Espalham sobre prados abrumados
A textura de linho intensa
Duma lívida lavadeira.
Valsa de Chopin
Qual lívida gota de sangue
Colorir lábios duma pessoa acamada,
Por isso, se apoia em impressões
Numa graça destrutiva.
Acordes luxuriosos selvagens [perturbar]
Dum sonho glacial do desalento...
Como lívida gota de sangue
Realçar beiços duma pessoa acamada.
Quente e exultante, doce e languinhenta,
Melancólica Valsa infeliz,
Não pode ausentar-se da minha cabeceira.
Me agarra aos meus pensamentos
Numa lívida gota de sangue!
TEATRO
Estou sonhando com um teatro de câmara,
Cujas persianas Breughel pintaria,
Shakspeare, os palácios pálidos,
E Watteau, os fundos âmbar.
Nas noites frias de dezembro,
Aquecendo meus dedos roxos,
Estou sonhando com um teatro de câmara,
Cujas persianas Breughel pintaria.
Acendido pelo gengibre,
Você veria os Esquilos Feiosos...
Usar seus bezerros emaciados,
Para Columbine, que se arca.
Estou sonhando com um teatro de câmara.
Otto Erich Hartleben (1864 –1905) - SOBRE POEMAS DO BELGA ALBERT GIRALD - TRADUÇÃO ERIC PONTY
quinta-feira, outubro 29, 2026
FLORES DA NOITE - ERIC PONTY - AQUARELAS - DR.A. GISELE CRISTINA BOUCHERVILLE
canteiro de flores. E se assustou!
As flores estavam jururus, tristonhas
tinham as cores noturnas nas pétalas.
A lua apareceu no inicio da noite.
A lua olhou o canteiro de flores muito,
muito alegres ao verem raios noturnos.
eram sonhos adormecidos das crianças.
transformados em pétalas noturnas.
sentindo a candura das pétalas.
Ao olhar percebeu haver uma flor,
distante das outras flores noturnas.
Essa flor era filha do dia. Filha do Sol.
____Chora por que, pequena flor?- indagou a lua.___Teve algum sonho ruim?- perguntou a lua nos seus raios.
__ Choro pelas flores que nunca veem a luz do dia. - solta uma lágrima.
__ Choro pelas flores que nunca veem o brilho das estrelas. - solta
outra lágrima.___ Choro pelas crianças ausentes.
__ Choro por mim - solta duas lágrimas. -____Nunca vejo o dia.
que sozinho triunfava no céu.
Então, Lua e Sol concordaram fazer
alguma coisa pelas suas filhas tristes.
De repente a lua vestida de prata.
Era noiva do sol. Trazia luzes no vestido.
O Sol vestido de ouro trazia o brilho.
O Sol e a Lua se uniram no eclipse solar.
a Lua e o Sol juntos de mãos dadas.
As crianças cantam passando pelas
flores da noite e do dia no canteiro.
ELEGIAS PARA JOB - ELEGIA I - ERIC PONTY
P/ LETÍCIA CARVALHO
Então, chama; será que alguém vai te objetar?
E a qual dos Santos se voltará? E os anjos concordam,
Não, a impaciência mata o tolo apaixonado,
E a paixão mata o ingênuo que viu o segredo do pássaro.
Eu mesmo vi o tolo ser arrancado do seu voo,
E sua casa foi de súbito rasa por sua sombra
Seus filhos estão longe do bem-estar; são sonhos
são oprimidos na porta da urbe, sem ademão.
Cuja colheita os famintos devoram na Utopia,
E os sedentos colhem seus frutos nas margens áreas.
Pois a aflição não provém do pó e da desilusão
E a angústia não brota da terra: porque nela erra.
[Pois o homem nasce para a aflição da espera,
Assim a ninhada do abutre para voar alto mera.]
Mas eu, eu apelaria aos anjos de agora,
E apresentaria meu caso perante sua sombra,
Que faz coisas grandiosas e insondáveis,
Maravilhas além de toda apreensão: Pondera.
Que faz chover sobre os campos arados,
E derrama água sobre as terras comuns;
Para elevar os humildes que tateiam sua sombra,
E trazer bem-estar aos que choram:
[Quem frustra os planos dos astutos que arquitetam com giz,
Para que suas mãos não consigam nada concreto;]
Que apanha os sábios em suas próprias artimanhas,
E frustra os planos dos astutos diante da tarde imperativa;
De modo que, durante o dia, andam às cegas na penumbra,
E tateiam ao meio-dia como se fosse noite está sua sombra.
Assim, Ele salva os humildes da espada que se aparta,
os necessitados das mãos dos poderosos que detém
Está voz que surge a esperança para os pobres,
e a iniquidade cala a boca dos missionários da meia-noite.
Em seis perigos te resgatará das ondas em treva;
Sim, em sete, nenhum mal te atingirá mesmo que a noite queira;
Na fome, te resgatará da morte que era um engodo se eleva,
E na guerra, das farras da espada que por si só se esmera;
Quando a praga estiver à solta, tu estarás a salvo, —
Não temerás a devastação quando ela vier; —
Do leão e do dragão tu rirás, — feito meras efígies.
E não terás medo das feras que no mundo se agarra;
[Tendo comunhão com os filhos do prado,
E tendo as criaturas selvagens em amigas feras.]
E saberás que tua Musa está segura, —
Visitarás teu rebanho e não perderás nada.
Saberás que tua descendência é numerosa, —
Tua prole é a grama da terra nela se elevam.
Chegarás à campa em pleno vigor,
Assim o trigo é colhido em sua estação...
Eis que investigamos isso, e assim é;
Ouvimos isso; reconhece-o por ti mesmo!
ERIC PONTY
SONETO TARDIO - ERIC PONTY
Os ruídos nuvens exalaram pompas,
passam mensagem, surdinas das trompas,
do rosto longo céu que aposte apenas!
pasce, do sempre mármore de rena!
Após ser do apenar, fulgidas Tebas,
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma
do inaudível do véu mausoléu duma.
Discreta frente céu pastorear!
Mitra apreciar a luz de que repousa,
ópera casta eterna ecoa-se à lousa.
Ó templo anima abunda despejar!
Acedem douros climas morena esposa,
friezas das minas, quisto que nos finde.
ERIC PONTY
HOMO-IMAGENS - DISSECAÇÃO PARA O GRITO - Foed Castro Chamma
A imposição empírica da linguagem ao encontrar resistência no campo do simbólico antecipa-se à tecnologia e o registro virtual, a saber o acontecimento, de maneira a incrementar o imaginário, i.e a diferença, que a linguagem poética desenvolve, colocando-se o leitor frente à divisão progressiva entre o saber e o fazer, o conhecimento e a técnica.
O fascínio que a imagem exerce sobre o espectador diante do espelho, diante da imagem transformada em realidade, é o mesmo que a metáfora exerce ao abarcar o universo da subjetividade transformada agora em "paisagem sem órgão", segundo a expressão de Gilles Deleuze. A relação entre o sujeito e a imagem é uma relação de consciência e sentido, cujo distanciamento tem a aproximá-los unicamente a imagem. Tal desdobramento lingüístico mantém o fascínio que a poesia de Eric Ponty desencadeia ao associar o homem (HOMO) a imagens com o sentido de homenagens dirigidas em última instância a pintores e poetas que recria ou traduz como Rilke ou Yeats.
O ato seco (...) de um grito, sombra de nós, memória do que somos e se desfaz nos gestos que findam (...) como o degredado em solo árido, - é sempre uma tentativa de captura do eco que se impõe diante de uma galeria de imagens-signos, que Eric Ponty homenageia, recorrendo ao espelho, fascinado diante do que vê. Não admite a fuga, como o herói diante das réstias do dia.
As suposições do aqui, o poeta admite como projeções da memória, reatando assim um vínculo platônico, que se evidencia com a memória eletrônica em relação ao sujeito, com a qual dialoga. Nesta medida, dissecação para o grito ultrapassa a contingência temporal de eco, sobrepondo-se ao deus ex machina a serviço da ciência que o poeta domina em seu laboratório da vontade de saber.
A marca da solidão é a Verdade no espelho e o toque inapreensível do real, o qual condena o poeta a estar só na multidão. O que se vê à volta é o "mesmo" tal um duplo a espreitar os transeuntes. Tudo é suposição, um retornar ao passado, onde o começo é sempre um fim.
As Homo-imagens são gritos - de um Vincent Van Gogh, a desfigurar o eu na visão delirante de girassóis em movimento no campo amarelo da esquizofrenia.
O cerimonial das máscaras na "praça de Bruxelas (poema X a James Ensor) conduz-nos a todos ao mesmo fim. Nessa leitura e constatação Eric Ponty fundamenta o trágico roteiro das homenagens desenrolado antes por um Leopardi, um Augusto dos Anjos, um Nilto Maciel mais recentemente, expressões dolorosas da dialética epigonal de Hegel, originária de Heráclito. O poema IIº dedicado a Paul Gaugin reedita a evasão do banqueiro-pintor"amotinado". Na pintura de Gustav Klint o poeta vê labirinto de detalhes que se aprofundam ao olhar. No adorno das telas "há uma rebelião de mandalas (...) contra o mundo". Francis Bacon (XIII) encerra em laboratório um grito que recompõe a "essência dos crimes". Edward Hopper (XIV), pinta a solidão soturna do mundo, a decadência no exílio sem horizonte. Tal realismo denota o instante imóvel do nada, segundo o ilustrar sua visão do mundo coincide com o fenômeno cibernético da imagem cuja captura iluminada inaugura o estágio avançado de uma verticalidade sensorial a emergir enquanto unidade e consciência. Frida Kahlo (XV), "singra atônita por imagens sonoras de uma androgenia natimorta que permanece em invólucro". Em Lucien Freud (XVI) as prisões do eu são perpetradas nos quadros sob "um lençol alvo de um Davi”."Doem as efígies (o poeta constata) saídas (...) de uma lua (...) de sonho e realidade infinita." Uma "angústia oceânica perpassa a rotina de Sísifo". A mesma rotina é estigma na qual Edvard Munch (XVII) concentra o grito cromático que capta em murmúrio irônico de eterno riso.
Dirigindo-se a Mme. de Stael, em suas Homo-imagens o poeta diz: "a dor da realidade não escapa aos tiros de bandidos de um tempo árido. Abismos não pertencem ao cartão postal da realidade." Os poetas Ivan Junqueira, Ivo Barroso e Ferreira Gullar são vozes de um coro que dialoga com o Mito. No mergulho na subjetividade de um Floriano Martins, um Cláudio Willer, o poeta concebe um presságio transformado em "prodígio em todo o mundo", que Calderon de la Barca pressentiu ao dar como título a um de seus dramas o provérbio A vida é um sonho e Eric Ponty transmuda em "sonho de máscaras de almas (...) em decomposição sobre a mesa." Em relação a Donizete Galvão se lê: ... "a consciência não é um grifo. Fruto de luz, (...) é como a pedra: sólida, intransponível."
No estudo das Elegias de Duino, de Rainer Maria Rilke, o poeta alude ao grito como de uma possível estátua muda. "De que adianta celebrar tua beleza (indaga) se aos ouvidos os sons são mudos?" A um epitáfio de Borges, acrescenta um de mármore ao luar "a desbravar a cidade alta." Na Elegia a Abraão, dedicada a Ytzhak Rabin, a contradictio oppositorum, fulcro dialético do ser, é tratada de maneira inexorável. Nada está além do conflito bélico travado milenarmente entre homens de fé na região autóctone de Deus e o Filho unigênito. Grassa a loucura entre o Muro das lamentações e o Sepulcro de Jesus. A voz do poeta há de alcançar o bom senso daquela raça a ponto de aplacar a fúria de palestinos e israelenses. Tudo cessa diante da aberração. O escritor refere-se inclusive às insones ruas de Minas.
Na dedicatória a Cláudio Leitão Las Calles - Jorge Luiz Borges - as ruas são as mesmas de Minas a corroer e sussurrar o passado túrgido ainda tangendo a amplidão azul. O elogio às ruas às gerais de Minas chega ao Sol, arquétipo segundo Eric Ponty do ouro que funda "veias na rocha." Em saudação ao poeta uruguaio Alfredo Fressia." A Montevidéu de Lautréamont "disseca os ais do poeta numa paródia que tem seu limite no aeroporto de Iquitos e repete o Número de Pitágoras, o Numinoso. Eric Ponty percebe a voz de Santa Cecília no Laudate Dominum de Mozart, no oratório epifânico de Bach, no Quarteto de Beethoven, no exílio de Nabuco de Verdi, em Moisés e Araão de Schoenberg, em Chopin, onde anjos barrocos anunciam outra melodia. O esoterismo de Yeats está na tradução de Eric Ponty ao confessar o poeta irlandês "paixão à dama, vergonha e clemência ao Senhor, afirmando que ele próprio é a luz do dia."Eu carrego o sol em minha xícara dourada/ e a luz em uma bolsa prateada", repete Yeats antes de concluir que "um osso embranqueceu e secou ao vento."
Tal é o belo roteiro de HOMO-IMAGENS - Dissecação para o grito, do poeta de São João del Rey, Eric Ponty.
Foed Castro Chamma – Poeta,escritor e tradutor. Transmutação da Pedra (Grande Prêmio de Poesia da 2*Bienal Nestlé de Literatura Brasileira) – Publicou O Poder da Palavra, em 1959; Labirinto em 1967;Ir a ti, em 1969. Em 1971, reuniu os três livros sob o titulo geral de Andarilho e a aurora para uma co-edição com o convenio do MEC.Sons de Ferraria. Como tradutor: Mickiewicz Poemas (tradução) Epigramas Latinos Paráfrases e Navio Fantasma foram publicados em 1998.Bucólicas de Virgilio. Escreveu também Filosofia da Arte em 2000.
HOMO-IMAGENS - ERIC PONTY
DISSECAÇÃO PARA O GRITO
I
E se inesperadamente diante do cotidiano
entre as ruas e avenidas e transeuntes
abríssemos a nossa boca num ato seco
sem quaisquer melodias expansivas?
Como num gesto que se configura o hoje
esta expressão de nós tão latente, iria
fazer sucumbir esta realidade tão crua?
O que somos nós senão sombras de nós
do ainda ontem que nós existimos claros,
e hoje, no existir do ontem, somos fátuos,
memória que criou-se em nós e se desfez.
Se soluçando nesta passagem tão brusca
de que somos nós por nós desfeitos de nós
descemos por fim, exaustos, um grito.
II
O depois de nós desfiguramos em som,
nós somos mais inteiros neste gesto dado,
desfiguramos aquilo que estava figurado
como naquela imagem ruim que se verteu
numa reflexão de uma onda acústica.
O cotidiano por nós vivido é um enfado
numa estranha selva de almas brancas
onde nossos pictóricos gestos se findam.
Para nós talvez reste, uma lembrança,
para este obstáculo de nosso enfado,
como animais últimos deste universo
que se acolhe e si mesmo se destrói.
Como o cosmo; somos apenas um eco,
e de que valerá este nosso reflexo tosco
quando tudo se contrair no som que foi?
III
Abatidos seguimos solitários pelas ruas
levando as réstias de nossas memórias
que se decompõe sobre a tábua tosca
do sol.
Aquele homem embaixo daquela árvore
mera ilusão de um reflexo fundido a luz,
será que pulsa o coração ou lhe cogita?
Solitários não, seres de condição, ecos
deste nosso soluçante espetáculo de
degredados, secos como o solo, áridos.
IV
É noite que se adensa n´alma tarda,
cuja existência mais sólida perece,
pois a alma não é senão conjectura
do qual vemos em nós mesmos eus
para não dissiparmos nas auroras.
Quando a lua assustada nos reluz
raios de doirada grinalda alva,
e nós olhamos enfim no espelho;
é agora senão um fantasma de si.
Este rosto refletido entre raios,
o que pode-nos dizer de novo,
se embaixo desta pele serena
estrutura de um crânio tosco
quando dissecado pelo tempo
não se despe deste eterno riso.
V
Quando adentramos a consciência
nos lançamos nas interrogações
dentro dos espaços vazios dos eus
estas escadas que levam ao nada
de portas abertas às paredes cruas
que exibissem nos tijolos de rebocos.
Talvez aquele eco que nos ouvimos
ao nascer se faça ainda se ouvido
entre os pássaros migrados do olvido
é na realidade aquele grito florido
entre as estrelas do qual foi advindo.
VI
Esta dor ardente onde quer abrigá-la
quantos sonhos já foram passados,
e aquele mensageiro vindo ontem;
era senão uma ilusão desta noite
em que sonhaste consigo em si
num dialogo fraterno e amigo que
tem quando te sussurras à tarde.
Esta dor que sempre dói e renova,
a cada passagem brusca do dia,
são estações´almas do tempo,
tuas angustias fenecem em folhas
ressecadas pelas réstias de outono.
VII
Fugir?! De que adianta tal coisa,
já pensou por um acaso na sina
de um herói e de seu nascimento,
terá sido porque ficou ou fugiu,
embora toda sina seja a mesma.
Onde quer se esconder afinal,
embora à noite te proporcione
estes ávidos abrigos do olvido;
aonde se move com este eu
por entre labirintos das sombras
delineadas pelas réstias do dia.
VIII
Solidão esta é a tua verdade
que tem de carregar n´alma
na memória canta verdades
estes feixes tão carregados
de relativas perspectivas.
Olha a tua volta. O que vê,
senão pássaros dissecados
que migraram dentro da noite
e seus cantos decompostos
no olvido deste transeunte.
Do passado, nada advém,
senão estas suposições
do aqui.
IX
P/ Vicent Van Gogh
Abissal mundo que não transfigura
forma dos humanos sentimentos
a visão
ramifica-se num auto-retrato
da desfiguração do eu.
Numa família que come batatas
ali não há manifestos ou estéticas
de um retrato singular dissipador
de movimentos.
Girassóis dos campos
dos desnudos vales
amarelos
esquizofrênica é a expressão
mimética.
X
P/ James Ensor
Na grande praça há sempre um festival
são as máscaras deste cerimonial
revestidas de caricaturas
as faces enfim se decompõem.
O espírito encarnou-se
e a exterior forma desfez
denunciando o que antes se ocultara
pelo impressionismo.
Festival de escárnios na entrada
onde as palavras não passam mais de
singelos murmúrios e silêncios
há uma intriga e uma farsa na praça de Bruxelas
Cristo terá reencarnado para retornar
ser recrucificado com a tez de teatro Nô.
XI
P/Paul Gaugin
Prisioneiro da angustiante rotina
lúcido teve de trair a alma de europeu
para lhe ser fiel,
amotinou-se contra a família
e do mundo.
Jacó de estranho mundo de formas
debate-se contra o anjo de Deus
até que este lhe abençoasse
Num paradiso taitiano
revelou-se
que o pecado coberto não havia
estava, porém incrustado na sensibilidade
contra os contrates
da alma de europeu
descobriu que num ninho de palhas o habitat
e a pintou a Cistina capela e a incendiou
consagrando-a ao tempo e espaço.
XII
P/ Gustav Klint
Sofisticado é adorno dos contornos
Inexplicável labirinto de detalhes
que se aprofundam
ao olhar.
Não tão furtiva é a mensagem imagem
há toda uma captação
dissimulada
entre matizes e cores.
O tempo não corrói adornos
que a se circundam inteiros
há uma rebelião
infundida
aqui nesta mandala
um ataque vienense
contra este mundo de adornos e de mídias.
XIII
P/Francis Bacon
Dilacerada carne crua encerra
um Inocêncio transfigurado
de papa
inocente
que berra
a catequese de
um einsenteiano
grito
onde boca a redecompõe
maquiavélica a essência dos crimes.
Os golpes contra o corpo nu de Cristo
são as marcas do tempo
de um Estudo da Violência
contra a face
da insurreição da mimesis
contra o próprio
pincel.
XIV
P/Edward Hopper
Nossas almas expressam a solidão
mundo nos margeia com os murmúrios
dizem coisas alheias de falas mui estranhas
soníferas que não se findam tão soturnas.
Teu pincel pinta toda decadência deste mundo,
nós redomados seres de nosso exílio inerente
que não se expressa mais em horizontes.
o teu realismo kitsch, mas real retrato
clássico na era dos pops e abstratos
pode demonstrar aos olhos concentrados
no vazio mais absorto de um báculo imutável,
cujo pincel é o instante imóvel deste instante:
Nadie more... Nadie more... Nadie more...
Aqui mesmo bem perto de nossos vazios
mesmo quando não estamos acostumados
(não é somente quando a solidão rufar o tambor
quando o nosso corpo alçar o necrotério)
cujo relógio sem expulsar os presentes
sobrepor as glórias no ritmo do pêndulo
nas efígies pictóricas deste tempo:
XV
P/ Frida Kahlo
Minhas retinas retumbam ainda
sinto uma angústia e vontade
de exaurir minha voz atônita
que singra pela soberba visão
de imagens que irão jamais.
Esta caricatura do rosto
como se cada instante
as linhas se decompõem
como se a cada momento
este eu magnífico de mulher
este desenho que segue
metamorfoseando num homem.
Este sonho ou pesadelo prematuro
talvez um prenúncio de um Calderon
alguns séculos e arquipélagos latos
cuja primeira dor foi o nascimento
tudo ali mesmo reunido e natimorto.
Este universo findo e amorfo
que está tão só e cru em nós
que por soberba olvidamos
este nosso torpe nascimento
do qual quando perecemos
e retornamos ao invólucro.
XVI
P/ Lucien Freud
Aturdido posso admirar os passos soturnos
esta face de homem perante este cosmos
cujos prédios, casas, fabricas e consultórios
são vistos como prisões de um eu submerso.
Tão lancinante a pictórica retina me enche
de um mórbido sentido cujas cores reais
perpetram e se perpetuam pelos quadros
ao alastrar de um lençol alvo que deixa luzes
como num pictórico de um ilusionista David.
Os homens e as posições dos corpos nus
refletindo inutilmente sem um lago doirado
onde Narciso um dia quedou-se do eu
como se sentimento oceânico ali houvesse
ou se seu avô tivesse advindo ao cenário
posto a valise e o chapéu como diálogo
para que este universo auto-pensasse a si
antes mesmo de tornar a se refletir como luz.
Doem estas efígies tão clássicas do pincel
que o cotidiano se adere e se aglutina
como que saído de túrgidos espaços
de uma lua que relembra um fúnebre sonho
onde o personagem está o tempo todo ali
sem esvair-se em realidades infinitas.
XVI.II
Algumas partículas esvaíram-se,
neste personagem que se põe
que se depõe ante o olho
que a luz obsequiosa
eternizada do verniz; uma efígie
que agora seduz o cotidiano.
Esta alva partícula
que se escreve no cotidiano,
cujo personagem
como que solitário
ao ego que adere
como ave espessa
no crânio nítido
cujo corpo fenece
ao extinto gesto antanho
jazi nu.
O personagem adere ao plano
que perpassa nas alucinações
onde a angústia existe
como um peso sísifico.
Como não há abstrações
surge todo o primeiro plano
e como o plano já se adensou
adensa-se a dor que sai da retina.
Como não há mais retina
o personagem se tranca a si
dentro do olhar do espectador
para que a angústia oceânica
seja perpassada pela rotina
deste Sísifo que agora se refaz.
XVII
P Edvard Munch
Carros trafegam na mesma direção
palavras têm a mesma direção
cores têm a mesma direção
músicas têm a mesma direção
e rotina nivela o sentido e a rotina.
Ninguém grita mais alto que o grito
pouco significam os berros expressos,
rotinas.
Na mesma ponte perto do hospício
tudo se transfigura, mas nada muda
no implacável Cosmos do cotidiano
no cosmo desta implacável rotina.
XVIII
Luzes, sussurros! Perspectiva agora
o que somente os iluminados viram
outrora através das efígies infernais
como transeuntes desta avenida.
Não se fez serena agora a alma
cujos pássaros levaram para voar
a sombra que em ti te assustava?
Homens toscos nos ais d´almas,
pictóricos e mesmo quase imortais
como os santos de outrora agora;
e ainda leva consigo esta máscara
apenas o murmuro de eterno riso.
ERIC PONTY










