quarta-feira, abril 25, 2018

Ao Doutor Francisco Díaz - Miguel de Cervantes


Da Virgem sem par, Santa e Bendita,
(Digo, de seus louvores), justamente,
Fazes ao rico, sem igual presente
Ao sem par batizada Margarita.

Dando-lhe, ficar rico, e fica escrita, 
Tua fama em folhas metais luzente,
Que, ao despeito e pesar diligente,
Tempo, será seu findar infinita:

Sendo feliz ao sujeito que escolheste,
Feliz na ocasião que te deste Céu,
Ao oferecer à Virgem virgíneo canto;

É venturoso também porque fizeste,
Que deem às Musas do hispano chão,
Admiração ao grego, etrusco espanto.

Miguel de Cervantes
TRAD. ERIC PONTY

terça-feira, abril 24, 2018

DOIS CLÁSSICOS

Canção Outonal

Hoje sentar-me no coração
Num vago tremor de estrelas,
Porém minha via se perde
N´alma da neve.
A luz me tronca às asas
Sendo à dor de minha tristeza
Vai regando as memórias
Na fonte da ideia.
Todas às rosas são brancas,
Tão brancas como minha pena,
E não são às rosas brancas,
Que hão nevado sobre elas.

Antes tiveram à Íris.
Também sobre alma nevada.
Sendo neve d´alma teve
copos de beijos e cenas
Que se fundiram na sombra,
Nós dá luz do que pensa.
A neve cair das rosas,
Porém d´ alma ficou,
Sendo à garra dos anos
Fez um sudário com elas.
Se desvairá com à neve
Quando à morte nos levar?

O depois nos fará outra neve
E outras rosas mais perfeitas?
Serão à paz conosco
Como Cristo nos ensinou?
O nunca será possível
A solução do problema?
E se ao amor nos enganar?
Quem à vida nos alentará
Se o crepúsculo nos fundiu
Na verdadeira ciência
Do Bem que quiçá não exista.
E do Mal que late cerca?
Se a esperança se apaga
E a Babel se abanca,
Que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

Se o azul apenas devaneio,
Que será da inocência?
Que será do coração
Se Amor não têm flechas?

Se à morte que é a morte,
Que será então dos poetas
E das coisas adormecidas
Que já nada às recorda?

Ô Sol das esperanças!
D’água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!

Hoje sentei-me no coração,
Num vago tremor de estrelas
E todas às rosas sendo estão
Brancas como  minha pena.
Federico García Lorca 
TRAD. ERIC PONTY

Na oração, que desaterra a terra
Quer Deus que a quem está o cuidado dado
Pregue que a vida é emprestado estado
Mistérios mil que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra erra
Que o alto Rei, por afamado amado
É quem lhe assiste ao desvelado lado
Da morte ao ar não desaferra aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Firmar-lhe a vida em atadura dura.

O voz zelosa, que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura, usura
Será no fim dessa jornada nada.
Gregório de Matos

A VIAGEM - Sophia de Mello Breyner Andresen


segunda-feira, abril 23, 2018

La Vision Après Le Sermon - Paul Gauguin - ERIC PONTY


Sou pluma de as aves terrestres ser pluma, d´amada.
Amantes e curadores, porém dizer: Que disgra!
Quando alcei ao ar, se rebelou do céu azul,
Eu destruí o azul e ao mar seguindo as rubras pedras.

Amantes e curadores, porém dizer: Que disgra!
Quem podem superar ou ser igual? Ato humano,
São parecido que uma sombra esculpida sonho insano;
Sendo ânsia das proezas, qualquer um vaivém pueril.

Sonhava quanto à lei minha voz ecoou todo Minério,
Leiam às nuvens ao seu sinal meu olhar, vós ergui,
Sou canto influente se fez ossos qual mais antigos.

Te hei esgotado até ao fundo, ô prestígio chão!
Aqui estou só mim, esvaecido em minha singeleza!
Sou pluma de as aves terrestres ser pluma, d´amada.

ERIC PONTY



domingo, abril 22, 2018

ELEGIA - ERIC PONTY


Somos dum signo só, e assim fazemos sentido.
Estávamos sem sofrimento e quase ficamos silentes
Havíamos perdido nossos dizeres feitos em terra estranha.
Quando existiam discussões no céu
Sobre o homem, às luas traçam seus destinos,
No curso intenso, ecoar o mar entre às correntes
Então nos sussurra, ficaram recorrendo aos caules.

Havendo só um
Este que tendo firmeza.

Sendo que nos poderá
Transformar em qualquer coisa. Não sendo imperioso
Leis. Apesar disso às folhas rumorejar e tremulam
Junto das palmeiras. Porque mesmo os Celestes
Não obtiveram tudo. Porém os mortais abordaram antes
Do princípio à margem de qualquer abismo.
ERIC PONTY

QUE TONTO! - ROBERTO POMPEU DE TOLETO



sexta-feira, abril 20, 2018

FRIEDRICH NIETZSCHE - TRAD. ERIC PONTY

IN MEMORIAN DE DOM PEDRO II


AO MEU LEITOR

Formoso colmilho e formoso estômago,
Sendo isto que é somente te desejo!
Quando ao meu livro que tenhas provado,
Sem dúvida ti levarei bem junto comigo.

SOLITÁRIO

Já que então grasnaram às suas cornetas
E alentando se conduziram à cidade,
Logo se irá iniciar à nevasca,
Sendo feliz homem daquele quem tem pátria!

Agora tudo que esteja petrificado
E olhando notará atrás quanto tempo haverá de ter passado!
Por que hei sido considerado igual louco, pelo mundo.

Agora que deste inverno tanto nos abordou?
O mundo se pôs: tão mudo e já tão gélido
Sendo que estejam abertos aos mil desertos.
Quem enfim perdeu o que tu perdeste,
Em parte alguma há de se prender outra vez.

Agora que esteja tão pálido,
Execrado à uma viagem de inverno,
Ao humo semelhante,
Que sem cessar tendeu ao mais frios dos céus.
Regressando, ave, grasnar em tua canção
Em torno da ave desértica!

Abrigando, à loucura, no céu e no desprezo
Em teu sanguinário coração!
Já que então grasnaram às suas cornetas
Alentando se conduziram a esta cidade,
Logo se irá iniciar à sua nevasca.
Sendo infeliz daquele que necessita duma pátria!

ESFOLANDO À PLUMA

Ferindo à pluma à tentação!
Estarei eternamente condenado a esfolá-la?
Acontecendo que estou a me lançar ao tinteiro
E escrevo com estes espessos riachos de tinta.
Não há igual fluidez, que haja na plenitude, que mão!
Ainda bem que me sai, e, que bem isto estou a fazer!
Talvez em meu texto lhe falte tal clareza –
E que por fim? Afinal que irá ler o que eu escrevo.

FRIEDRICH NIETZSCHE
TRAD. ERIC PONTY

POETA, DE FATO. - JOÃO DA PENHA


Cantar, todo mundo canta, mas cantores só há uns dez ou doze.
A boutade, dizem, é de Frank Sinatra, cujas notabilíssimas habilidades no ofício vocal - me parece - não foram contestadas até hoje.

Parafraseando a tirada do grande cantor norte-americano, pode-se dizer também que não há tantos poetas assim no mundo - aqui e alhures, ontem e hoje. Desconfio que nunca haverá muitos poetas, ou pelo menos muitos grandes poetas. Pelo menos, estou convicto, não tantos quanto sugere o crescente número de coletâneas, editadas, por artes de estratégia mercadológica, justamente sob títulos hiperbólicos.

 O exercício poético muitos o exercem, ou imaginam exercitá-lo. Mas fazer grande poesia é graça concedida a uma minoria; a uma casta de eleitos, portanto.

Quem o detém, quem sabe lê-lo, interpretar suas coordenadas, conduz os demais, ou seja, a todos nós, que formamos essa maioria alijada, como criadores, do território poético, só o percorrendo, se sensível às Musas, como visitantes, como viandantes. Aos carentes de sensibilidade, o passeio por esse território não passará de mero turismo - se tanto.

Schiller, a propósito, já advertiu que não basta criar bons versos para que seu autor se considere um poeta. Ora, fazer versos, quase todo mundo, em algum momento da vida, já fez. Fazer POESIA, no entanto, é estrada percorrida pela minoria a que nos referimos acima. Só ela, essa casta de eleitos, tem o mapa da trilha. Eric Ponty tem o mapa da trilha. É um autêntico poeta. Poeta amadurecido (Ripeness is all. A maturidade é tudo, disse-nos o supremo bardo no "Rei Lear"). Poeta, dono de seu ofício. Poeta que atingiu o pleno domínio do fazer poético.

Sua virtuosidade poética, Ponty já mostrou e demonstrou no magnífico ”Menino Retirante Vai Ao Circo Em Brodowski" (Editora Musa, São Paulo, 2003). Neste Livro com sua tradução, nosso poeta só faz reafirmá-la. Por exemplo quando traduz o poema em versos alexandrinos “A fiandeira” de Paul Valéry, que nos faz lembrar a prosa socrática de Paul Valéry em Eupalinos Lame et la Danse Dialogue De L arbre:

A fiandeira

Sentada a fiandeira azul ao carpir à lã,
Num jardim melodioso que ela cabeceia,
Há fiandeira antiga toa roncando embriagada.

Cansada do absolvido azul, tecido ao mimar,
Cabeleira, em seu dedo de fraqueza evasiva,
Ela sonha, e, sua cabeça pequena se inclina.

Um arbusto e puro ar fonte uma fonte viva,
Que lustrado dia, delicadeza regar,
Das pobres flores do jardim de ociosidade.

Um caule, ao vento vagabundo este repousa,
Curva-se no aceno em vão da graça estrelada,
É votada magnifica, à velha roca, à rosada. 

Mas, dormioca duma fila da lã isolada;
Misteriosamente sombra frágil se trança
Fios seus dedos longos que cochilam, tecer.

O sonho ao se cambalear com uma preguiça,
Angelical, sem cessar, num doce fuso crédulo,
É desta cabeleira ondular desta tua carícia.

Detrás de tantas flores, o azul dissimula,
Á Fiandeira da folhagem e da luz vestida:
Todo céu verde morreu. Último cedro queimado.

Tua irmã, à da grande rosa graceja santa,
Perfume de tua fronte vaga ao vento de teu hálito,
Inocente, e o brotar enlanguescer... tu és abrida.
Azul cruzando ao teu filamento feito à lã.

Se, como nos diz Ponty num dos poemas traduzidos de William Shakespeare, cujo abrevio de Próspero de à Tempestade:

Agora está magia não sendo às minhas,
Só eu me transporto estás minhas forças,
Que são paupérrimas. Sem às complacências,
Retenha-me aqui, deixar-me em paz,
Partindo Nápoles. Com todas às coisas,
Já com este ducado reconquisto
Apesar não perdoar ao traidor jamais,
Não ficarei enfeitiçado tão só
Nesta ilha, cheia deste encanto,
Libertai-me com este vosso aplauso.
Vosso alento preenchei minhas velas,
Ou então fracassará está minha ideia,
Que foi agradar. Sem nenhum domínio,
Sobre os espíritos com seus feitiços,
Me vencendo este meu desalento,
Se não me alivia alguma reza,
Tal sentido que emocione então
Ao céu me perdoei-me tais erros.
Igual por pecares rogais clemência,
Libertai-me também vossa indulgência.


Sendo também não é menos verdade que devemos ouvir o que os poetas nos têm a dizer (poucos   decifram melhor o mundo do que os poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força criadora, muito nos tem a dizer através destas traduções devendo ser creditado por sua reflexão sustentada, por uma voz lírica, e convite para ver a vida não como sujeito estéril, mas como uma dinâmica complexa que tem seu próprio extraordinário design e imago de verdade.

APOLO


E eu cresci sob o Sol de Élson
Minutos de expressão
Só que de trevas e
                           Antes de me abrir meus olhos
                           Estava escoltado
 Pela lei da bobagem
Nasceu alucinada à margem
Foi acusada de heresia
  Duma conflagração nesta ao desfazer
  Mesmo antes que eu pudesse articular
Qual suspiro ou exclamação ao mendigar
Eu ajuntei toda à minha força
Na opção duma data com à morte
                        Horas antes semelhava

 Nos meus braços da minha mãe
Ser Festa dum recém-nascido
Dum erro admitido
Qual duas pernas só num pé
         Dum coração como se
         Sentíssemos essa emoção
         Doutros traços humanos
        Desta mesma grandeza.

 Essa defesa podemos traduzi-la como o reconhecimento de que os poetas habitam uma província onde a lógica não se curva docilmente aos princípios que regem o mundo empírico (nada é mais real do que o nada, pregava o pré-socrático Demócrito). Os poetas sabem disso. Por isso sua lógica particular. Particular, mas não arbitrária. Particular porque só eles têm a "chave do reino".

Croce e Vossler, a lembrança me vem agora, polemizaram em torno da frase: "A mesa redonda é quadrada". Para o pensador italiano, a frase se resumiria a uma ausência total de sentido, ilógica, enquanto o crítico alemão a viu como verdadeira, pois estética e gramaticalmente válida, pouco lhe importando que logicamente impossível. Vossler, como tantos outros, antes e depois dele, percebeu que o poeta é aquele que cria realidades. Poetas são criadores de mundos. Por isso, nos poemas traduzidos por Eric Ponty, músico, além de poeta, segue o conselho wagneriano de que o poeta outra coisa não faz a não ser estimular o entendimento, levando o leitor a efetuar novas combinações em cima das matérias já conhecidas por meio da percepção sensorial.

Sendo também não é menos verdade que devemos ouvir o que os poetas nos têm a dizer (poucos   decifram melhor o mundo do que os poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força criadora, muito nos tem a dizer através destas traduções devendo ser creditado por sua reflexão sustentada, por uma voz lírica, e convite para ver a vida não como sujeito estéril, mas como uma dinâmica complexa que tem seu próprio extraordinário design e imago de verdade.

É urgente que ouçamos sua voz, através da tradução do poeta-tradutor Ponty, e, qual é uma das mais talentosas de seu tempo.

João da Penha, jornalista e professor aposentado, colaborou em publicações culturais como Encontros com a Civilização Brasileira, Cult e Tempo Brasileiro. Autor, dentre outros livros, de O que é existencialismo (Brasiliense, 2011, 17. ed.) e Períodos Filosóficos (Ática 2000, 4. ed.), traduziu para revistas e jornais poemas dos russos Sierguêi Iessiênin e Alieksandr Blok, e contos de José Maria Argüedas, Júlio Cortázar e Gabriel García Márquez, publicados em Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana (Paz e Terra, 1978). Como ler Wittgenstein. São Paulo: Paulus, 2013.  

quarta-feira, abril 18, 2018

SONHO ANGELICAL - ERIC PONTY


Ante este casario está sentado sossegadamente,
O lavrador, tão sóbrio adubando à sua horta.
Hospitaleira sonhando com perambulante,
O povo pacífico na cabana da tarde.

Também por certo volvem cá os barqueiros porto,
Nas cidades, alegres dissipam-se mercado,
Neste ruído laborioso; está discreta ramagem,
Estão brilhando aos amigos à cena afáveis.

E mas onde estarei? Os mortais vivem lavra rosário,
Mudam de esforço e descanso todos alegres,
Por que pois nunca adormecem comigo espinha.

Chegou agora, suave sonho! Supino deseja,
Coração; mas, afinal, ao frescor te extinguiu,
Porém tu, inquieta, sonhadora tão pacífica,
Tão serena, contudo toda está antiguidade.

ERIC PONTY

La Belle Dame Sans Merci - JOHN KEATS - TRAD. ERIC PONTY



Ô, nos careceria de enfadar-nos
Cavaleiro d´armas, só 
Pálido vadio?

O junco secou teu lago,
Sem qualquer ave seduzir.

Que nos poderia enfadar-nos,
Ô Cavaleiro de armas,
Tão enfraquecido e tão infeliz?

Celeiro do Esquilo coalhado
E à colheita está perpetrada.

Observo dum lírio em sua testa
Com esta angústia úmida febril.

Suas bochechas são quais rosas
desvanecer-se.
Tão veloz também já murcharam.

Conheci à senhora nos meadores,
Tão formosa, qual criança de fada;

Seu cabelo era longo,
Pé ligeiro e olhos
Eram quão selvagens.

Eu fiz à guirlanda à cabeça dela
Pulseiras também em zona fragrante;

Me admirava quão amava
E fez de mim doce soluço.

Eu à pus no meu corcel dei passo,
Nada mais vi durante dia todo.
De soslaio, dobraria e cantaria
Duma canção de fada.

De soslaio se dobraria e cantaria
Duma canção qual sendo uma fada.

E com certeza em linguagem estranha,
Disse - Ti amo qual à verdade.

Ela me levou ao seu campo de elfin
E lá ela chorou suspirando dolorosa.

E lá fechei seus olhos tão selvagens
Com quatros beijos.

E lá me embalando ao adormecer,
E lá eu sonhei - Ah! Ai de mim!

O último sonho eu sonhei
No lado da colina gelada.

Nós então choramos — "La belle dame sans merci
À ti me entrego escravizado!

Eu vi seus lábios famintos brilharem
Com um aviso horrível desempetido.

E eu acordei e me achei aqui
Ao lado desta colina gelada.

E é por isso que eu pernoito aqui,
Tão só e desocupado qual um vadio.

Contudo o junco esteja apartado do lago
E nenhuma ave esteja à cantarolar.

JOHN KEATS
 TRAD. ERIC PONTY

Soneto à Ciência - Edgar Allan Poe - TRAD. ERIC PONTY

Ciência! Exata filha velho tempo tua arte!
Quem demuda todas coisas com teus olhos.
Por que vieste assim sobre o cerne do poeta,
Falcão, cujas asas são fatos maçantes?

Como ele deveria te amar? Como te julgas sábia,
Quem não os deixaria em sua busca o tesouro 
Nos céus de joias, ainda que ele se elevou 
Com uma asa indomável? Não arrancaste Diana.

Do teu carro, conduz hamadríade madeira,
Ao buscar abrigo qualquer fado mais feliz?

Não nos arrancaste náiade ao teu dilúvio,
Duende da grama verde, zelando por mim
O sonho de verão sob cedro tamarinho?

Edgar Allan Poe
TRAD. ERIC PONTY

3 Sonetos - John Clare - TRAD. ERIC PONTY

Lar 

Ô casa, entanto caseira - pensamentos de ti
Nunca pude deixar de aplaudir peito falta;
Quão vezes fero êxtase -ter sido doído em mim,
Retornar atrás, dum fatigado e perigo;

Quão vezes eu parei ao ver à lareira 
Densas nuvens de fumo em lajes leve azuis,
E, já abaixo, flor amarela casa-alho-porro,
Enquanto se beira breve numa visão mais adjunta.

Estas, então são ninharias, já deram prazer;
Nunca agora levam-me fundo desejado,
Pintam o grupo noturno antes à minha vista.

 São amigos e iguais sentados entorno do fogo.
Ô Era! Quão fluxo veloz fazem teus tempos,
Mudanças cena alegria às cenas de aflição.

 O Túmulo 

Certo meditar sobre pedra raspada,
Anseio saber quem pô fez calar,
Penso ansioso sobre o pode demonstrar-se,
Data ilusória busca brotar ervas daninhas;

Alvo prova seco - Tanto ao tempo e o nome
Tinha pico a idades arriscados ao olvido.
Sol continua a ser ornamento esculpido
Deu-nos prova crível de laurel à fama:

Busca fiz à minha visão tanto de tormento,
Naquela época, questionava expor ideia;
Alvo cedo constatou- "É o que é há ti!

Pó se achou cá? - Uma vez queres ser breve
Olvidou quão ele - Então Era deve te ordena ir
Puro êxtase céu, ou aí aflição do inferno ".

As Dores de Amigo

Velho carvalho marrom lavrou o pau em paz,
Quão é doce à sua paz calmante soia ser;
Pode abençoar e ainda, quão faz pensar o humor,
Fim agora confusão se adapte o melhor de mim.

"É por amor," a brisa soprou-nos à dizer,
"Ceder nossa floresta silenciosa aqui?
É por amor, se movimentar tão longe
De ainda sombreia correr onça tão caro? "

"Não, brisas, não!" - Respondo com um suspiro,
"Ao amor nunca pode muito chorar meu peito;
Colina, meu amigo! - Ai de mim! Tão cedo finar-se –

 Essa sendo à queixa me pressionou ao sair:
Apesar ruído não curar, pode aroma alguns rogar;
Desígnio Silente irritou às feridas de aflição ".

 JOHN CLARE
TRAD. ERIC PONTY

Don Francisco de Quevedo y Villegas - TRAD. ERIC PONTY

Sem ser um juiz deste estrago,
Ao julgar às faltas me agrada,
Não podendo haver carregadas,
Que tenha mais, se nota trago,
Pois sem existir de ser sido
Um cronista, me hei de metido
A expurgar alienadas vidas.
Conserta-me destas medidas.

À outra louca de eternal,
Aprecia-se envolta nos trapos,
De se ter boas baixas farrapos,
Que duma igrejinha Real.
De pernas é seu caudal
Toda é pernas, julgam a rês,
branca com o fundo em pés
E das fascinações curtidas,
Conserta-me dessas medidas.

O doutor que em medicina,
mais esperto e mais bizarro,
É duma condição de carruagem,
que não são úteis, se buzina.
Ao pulso da mão se inclina,
e anseia (vê-se que invenção!)
que se tem do belo dobrão,
pelas infernais das bebidas.
Conserta-me dessas medidas.

Que sua limpeza se exagere,
porque anda ao mundo de um revés,
comer de um porco não quer,
que lagarto rubro lhe espere,
que algum de espera ao Senhor,
o que conteve por favor
as aspas tão descoloridas.
Conserta-me dessas medidas.

Culpa àquele valente dá,
na pendência, que se fez roda,
a sua espada que se tão queda,
sendo que dele que carrega.
E como da virgem está
à espada que se vê desnuda,
de honesta se viu, e tão muda
Nesta clausura das feridas.
Conserta-me dessas medidas.

Coragem é que sua mulher,
vê maridinho falso querer,
Ser vestido ele não expõe,
Outro expôs por haver lhe põs.
Que nos queira fazer-nos crer,
Sem justiça, ou sem razão,
Que não sendo dum Santo Antão,
Um corvo se traí suas comidas.
Conserta-me dessas medidas.
Don Francisco de Quevedo
 TRAD. ERIC PONTY

terça-feira, abril 17, 2018

A TRISTIA - OVÌDIO - TRAD. ERIC PONTY


Ô Pequeno livrinho meu
(E não te desprecio de telo escrito),
Sem mim irás à cidade de Roma,
Ai de mim!  Coitado de mim!

Onde ao teu dono não sejas permitido abraçar.
Sigas, porém sem os adornos,
Qual convém há um desterrado:
Percorreste, infeliz, o imaginando
Adequado este infeliz de circunstância.

Que não te envolvam as adelfas com sua cor corada,
Já que essa cor não se convém
Muito bem em ocasiões de tristeza;
Nem ti escrevas teu título com mínio,
Nem te embelezem tuas folhas de papiro
Com o azeite de cedro.

Nem leves brancos discos em uma negra fronte.
Fiquem esses adornos aos livrinhos felizes;
Da sua parte, não deves esquecer minha triste condição.

Que nem se quer espalmem teus cantos
Com frágil pedra polmes,
Ao fim que apareças arrogante,
Com às madeixas desregradas
Não te envergonhes dos borrões:
O que os vejam pensarão que hão sido
Feitos com minhas próprias lamúrias.

Lembra-te, livrinho, e comemore com
Palavras minhas todos lugares prezados:
Os tocarei, ao menos, com o pé
Com que este está admitido
Fazê-lo.

Se alguém, como advém dentre povo,
Não se há olvidado ali de mim,
Si tiver alguém que, por casualidade,
Ti perguntares como estou, lhe dirás
Que estou vivo, porém não demasiado bem,
E há por isso, feito de viver,
O devo ao favor dum Deus.
OVÍDIO
TRAD. ERIC PONTY

Há um capitão do navio - Rafael Alberti - TRAD. ERIC PONTY

Homme libre, toujours tu chériras la mer!
    CH. BAUDELAIRE
Sobre teu navio — um dado verde de algas marinhas,
De moluscos, de conchas, de esmeralda estelar—,
Capitão dos ventos e das borboletas,
Foste jaz condecorado por um golpe do mar.

Por ti os litorais de frentes serpentinas,
Desenrolam ao passo de tu arado um cantar:
Marinheiro, homem livre, que os mares declinas,
Ousado dos radiogramas de tua estrela Polar.

Bom marinheiro, filho dos cantos do Norte,
Limão do meio dia, bandeira da corte
Espumosa d´agua, caçador de sereias;
Todos os litorais amarrados, do mundo,
Pedimos que nos leves no surco profundo
De teu navio, ao mar, caminhos nossas cadeias.
 Rafael Alberti
 TRAD. ERIC PONTY





O CALDO - PAUL VALÈRY - TRAD. ERIC PONTY



Tremura, cova veloz… Foi sopro te amou, Caldo,
Ti trouxeste tremura em ti sonhar duns ombros…
Brisa? … Dum suspiro, tão simples e inesperado,
Que exalo por teu amor neste jardim flutuante.
Minha surpresa em que flores burlam mal de ansiar
Estes passos, voz, mão, todo ser tão terno logo,
Esta tua toda minha que sinto transformar-se,
Há quem à hora padeceu pode findo ti unir-me
E que nos apropinquar-se! … Assim ti percebi…

Minha boca ao teu fenecimento te refugiou!
Assenta o cerceamento tremor ramagem n´alma,
E meus olhos, estão cobertos da ramagem do dia,
Te abordou detrás de mim, toda à rosa de amor...

Tremura, cova veloz… Foi sopro te amou, Caldo,
Mas já não necessito sonhar-te com uns ombros,
Este sopro não é sendo sopro dum só coração…
Padeceu o tempo vencido, e o beijo vencedor,
Ausência sem nome de quem um nome me liberta,
Aos largos sorvos bebi à sombra flama fez viver!

 PAUL VALÈRY
TRAD. ERIC PONTY