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quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Requiem para mim - Eric Ponty

 

Eric Ponty & Ivan Junqueira 

Requiem – Officium


O nó ardente ao mal, minha longa espera,
sombra e um laço contados, me vi unido,
a Morte soltou, e tal peso eu nunca senti,
Nem se acredito que morra de dor.

Não desejando Officium fosse aceito,
Pequeno laço me deixou estendido
E em nova oferta de outro fogo aceso,
para que assim não pudesse escapar.

Desejo não tivesse me lembrado,
preso no laço teria ardido logo,
tanto mais quanto sou lenha mais seca.

E mais uma vez, Morte me libertou
Sendo desfez o nó, e apagou do fogo:
contra o qual não vale astúcia e esforço.

 
Requiem - Kyrie Eleison

Senhor Deus, Misericórdia meu holocausto,
Para os terrestres Kyrie Eleison no mármore,
Ver nem onde sentisse só tão livre,
Nem tantas queixas dessa paixão ouvisse;

Nem vale que oferecesse mais lugares
onde, para chorar, eu me escondesse;
Nem imagino que em Deus tivesse o Amor 
Ninhos tão suaves, nem em qualquer margem.

As águas, as brisas, galhos, as aves, 
Dos peixes e as flores, e a grama, e, falam
Implorando que ela arda em chamas vãs. 

Mas, que do céu me reclama, memória 
Dessa morte amarga, implora eu evite 
Azuis tramas mundanas, de vãs tranças.
 
 Requiem - Dies Irae

Mil vezes, aí, no meu amado refúgio,
fugindo de mim mesmo Dies Irae pessoas,
com meu choro banhei então dessas ervas
desse meu suspiro ardente quebrou o ar.

Mil vezes, tão desconfiado, me escondi,
entre sombras, procurando com mente
desse prazer que da Morte me tirou,
Aquele costumo chamar com frequência.

Ora na forma de Narciso ou de outra
que no fundo d´almas está morando
Sai para descansar em uma margem,

ora eu a vi, que pela grama que andando,
E, pisando flores como uma alma viva,
E em teu aspecto dó de mim lhe mostrando.
 
 
Requiem – Offertorium

Que Alma feliz que tanto a mim vieste,
Consolar minhas noites dolorosas,
com olhos que a Morte tornou mais vivas
do Offertorium que teu o olhar humano:

Agradeço-te porque ao meu peito ferido
permitiste curar-se com o teu olhar!
Assim, voltam a estar mesa presentes
as tuas belezas onde antes brilharam.

Onde te cantei pelos muitos anos,
agora, quão vês, estou lamentar:
não chorando por ti, por meus danos.

E consolo para minha ansiedade,
Te reconheço, quando voltas, vendo
teu andar, tua voz, teus olhos, e trajes.
 
Requiem – Sanctus

Sanctus, tu descoloraste o rosto sacro,
e desses olhos mais lindos apagou;
à alma que mais se inflamou então em virtude
tu soltaste desse nó mais gracioso.

Tu roubaste, repente meu glorioso
bem, e teu doce sotaque silenciou,
pelo que me lamento atormentado
Em tudo o que ouço e vejo então me é odioso.

Mas regressar consolar tanta dor,
para onde a Piedade conduz tua alma:
E outra ajuda minha alma nunca espera.

E se como ela fala, e ao falar brilha,
pudesse dizer, faria arder desse amor,
não direi de homem, coração de Sanctus.
 
Requiem - Agnus Dei

Tão rápidos são o tempo e o pensamento
que me devolvem minha amada morta,
que nenhum remédio consegue me cura:
mas nenhum mal sinto enquanto a vejo.

Mas o Amor, de que em tua cruz me atormenta,
De então tremer quando a vê junto à porta
da alma que me mata, ainda tão de alerta,
É doce à vista e de acento tão suave.


Como Agnus Dei ao teu abrigo, altiva vem,
do coração sombrio e grave expulsando,
Fronte serena, o pensamento triste.

A alma, que teus olhos não suportam,
«Bendita a hora», diz imo suspirando,
«que abriste este caminho com tua luz!»
  
 
 Requiem - Lux Aeterna

Se aquela suavidade com suspiros,
Daquela ouço, for minha Lux Aeterna
– Que, embora agora esteja no céu, 
que vive, sente e anda, ama e respira –

pudesse retratar, sei minha lira
comovesse tão zelosa e piedosa
regresse para mim, teme que na passagem
eu possa me perder, e cuida da minha alma.

Me ensina a seguir em frente; e eu, que entendo,
ditos com murmúrios baixos e piedosos,
Tuas súplicas e cândidas ternuras,

Devo cumprir tua lei; que é tua piedosa
Benigna palavra, se bem compreendo,
É capaz de enternecer pedras mármores.
 
Requiem – Lacrimosa

Ar de suspiros eu enchi, Lacrimosa,
Montanha para a doce planície,
onde nasceu aquela que tinha em mão,
Se meu coração em flor, e já maduro,

E quando, subindo ao céu, alma me deixou
de tal forma que, em teu abrigo distante,
procurando com meus olhos, sombras
ao meu lado não restou nenhum seco.

Não há pedras nestas montanhas serras,
nem nestes campos ramos ou folhagem,
nem flor nestes vales, nem folha ou erva,

nem brota gota de água destas fontes,
nem há fera nestas florestas tão feras,
que ignorem esta dor dessa tão amarga.
 Requiem – Epitaphium

Como é o mundo! Agora acho ameno,
o que mais me irritava; e vejo que sinto,
que, para minha saúde, tive tormento,
Breve guerra para uma paz duradoura.

Ó esperança, ó desejo, tão variável,
Mais ainda pensamento Epitaphium!
Quão pior seria auferir aleluia
daquela alma que está em glória perene!

Mas crido cego, minha mente surda,
Desviaram tanto que, por força viva,
Me empreendi a corrida morte.

Abençoada aquela que pra ribeira
voltou meu curso, e meu desejo ardente
com elogios freou, pra que eu não feneça!
 
ERIC PONTY
 
 
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sábado, fevereiro 14, 2026

Senhor Deus, Misericórdia - Eric Ponty

Uma chuva amarga fúcsia escorre em meu rosto
soprado vento de suspiros angustiados
se olhos se voltarem pra olhar tão-só pra ti,
por quem estou separado da humanidade.

Não há equívoco teu sorriso doce e aliviado
acalma o ardor de todos os meus desejos
me resgatando deste martírio ardente
enquanto mantenho meu olhar fixo em ti;

Mas então meu ânimo de repente esfria
quando vejo, ao partir, ditas predestinadas
desviando teu movimento gentil da minha vista.

Liberada, enfim, por duas chaves amorosas,
E alma abandona o peito para seguir ti,
Perdida em pensamentos, ela se afastou.

Eric Ponty

 
 
 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Contemplar Estrelas - Eric Ponty

 P/ Olavo Bilac

 Os ruídos nuvens exalaram pompas, 
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte logros! 
pascer do sempre mármore do raro! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Ó templo, anima abunda despejar! 
Acedem douros climas que dá treva, 
Das friezas das minas, quisto os transcreva.

ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

SONETOS - FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO 

3
Foi nesse mesmo dia em que o sol se urgia,
com pena de teu criador, diminuiu teu brilho,
que fui capturado, com minha guarda distraída,
pois teus olhos intensos, minha consorte, me prenderam.

Não parecia ser o momento para eu planejar defesa 
Contra o golpe do Amor; segui minha passagem
seguro, desprevenido; assim, naquele dia
de tristeza geral, todos os meus males pôr-se.

O Amor me encontrou sem armadura para a luta,
Meus olhos uma estrada aberta para o coração,
olhos que agora são uma válvula para as fúcsias fluírem:

No entanto, ele não exerceu um papel honroso
ao me ferir com tua flecha em tal estado;
ele viu armado e não ousou erguer teu arco.

7
O sono, as camas macias e preguiçosas e a gula
baniram a virtude do mundo dos homens,
de modo que nosso natural, rasa por tais hábitos,
está quase exilada de tua passagem correta;

E toda luz bondosa que do céu molda a vida humana 
É tão desperdiçada que qualquer um que se esforce 
Por trazer novos fluxos de Helicon
é apontado como algum prodígio estranho.

Quem se importa com a murta cá, quem com a louro?
“Nua e pobre então percorre, Filosofia”,
grita a caravana, tomada em lucros miseráveis.

Terás poucos compartes na outra passagem;
por isso, ainda mais, ó alma gentil, eu imploro,
não ceda tua nobre obra para esses olhares.

12
Se minha vida puder resistir à dor amarga
e à luta, minha senhora, por tempo regular para ver,
à medida que os anos passam, e, exercem teu império,
a luz em teus olhos intensos começar a diminuir,

E os cabelos dourados abrumarem com fios prateados,
e as vestes verdes e guirlandas serem guardadas,
e aquele tom extinto que, mesmo na miséria,
ainda me faz hesitar e temer reclamar:

Então é certo Amor enfim me dará tuas forças
Sendo da coragem para revelar meu sofrimento
e contar contigo sobre teus anos, dias e horas:

E se da velhice negar meus doces desejos,
isso não impedirá minha tristeza de receber
pelo menos o consolo de suspiros tardios.

16
Ele se move, um velho pálido e de cabelos grisalhos,
de teu doce lar onde os anos se passaram,
e da pequena família em consternação
que vê que teu querido pai irá embora;

Membros velhos a se moverem além disso,
arrastando-os pelo meio de teu dia que expira,
se esforçando da melhor maneira possível,
de quê raso pelos anos e pela passagem;

Sacudido pelo teu desejo, chegar a Roma
para então contemplar a imagem daquela
que espera ver ao mesmo tempo no céu.

Assim, infeliz, minha senhora, às vezes vagueio,
buscando em outros rostos apenas tu,
alguma afinidade com a única forma certa que amo.

33
A estrela do amor já brilhava forte no Leste, 
E no céu do norte, àquela que desperta a inveja de Juno
era encantadora com os raios radiantes que emitia,
dessa estrela do amor já brilhava forte no meu peito.

Da velha, descalça e seminua, havia se alçado para fiar 
E, para que o fogo não se apagasse nessa hora,
revolvia as cinzas, e se aproximava a hora
que o alvorecer chama os amantes a chorar de teu descanso:

quando ela, minha esperança, já quase se esfalfada,
chegou ao meu peito, não pela porta habitual
que o sono mantinha unida e a tristeza havia molhado,

como estava desigual, ai de mim, do que era antes!
E parecia dizer: “Por que tua coragem lhe enfraquece?
Ver esses olhos ainda não lhes é negado”.

FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

SONETOS & POEMA - FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO

 I

Era o dia em que os raios pesados do sol
Empalideciam em dó pelo teu Senhor padecedor,
Quando caí cativo, senhora, deste olhar
Belos olhos, forte preso a corda do amor.

Não tive então tempo para me defender
Ou buscar abrigo dos golpes súbitos do Amor;
Eu andava seguro, sem entender nenhum mal, quando
minhas dores abriram em meio às disgras gerais.

O amor me achou inteiro indefeso dos meus olhares,
onde as fúcsias soem fluir, ele viu essa passagem
aberta para o meu peito. Tua flecha voeja.

E aborda o alvo onde deve jazer para sempre.
É pouca honra para me ferir assim, nem demonstrar
bem armada contra ele, nem mesmo o teu arco! 

 III

Mil vezes busquei fazer pazes com teus belos olhos, 
ó minha doce inimiga tão formosa guerreira,
E lhe ofereci meu peito; mas mal sabia eu
Que teu espírito brioso se rebaixaria tanto.

No entanto, se outra quiser prender esse peito,
Viverá ela em esperanças incertos e sonhos falsos;
Já que eu desprezo todas as coisas que tu desdenhas,
Ele não é mais meu quando desprezado por ti.

Se expulso, não podes achar amparo contigo  
Em tua passagem errante, nem ficar sozinho, 
Nem ir aonde outros chamam em vão por ti.

Longe de tua passagem natural, deves então se desviar.
Sobre nossas duas almas este pesado dolo repousará,
Mas mais sobre a tua, pois é quem meu peito mais ama.
 

IV

Meu rival resplandecente, em cujo rosto inconstante
Tu vês os olhares que o Amor e do céu apreciam,
Encantam com uma beleza que não é tua, uma graça
Alegre e doce além de qualquer aparência mortal.

Foste por teu conselho maligno, minha senhora,
Que me expulsou de teu coração gentil.
Triste exílio! Agora, na solidão, eu definho,
Incapaz de habitar com tamanho valor.

Se eu estivesse seguro ali, não deverias me ferir 
com teu espelho intenso, afagando só a si mesma, 
De tão orgulhosamente se fazendo bela!

Pense em Narciso e teu prazer vaidoso!
Como ele, se tornará uma flor, mas onde
O gramado digno de uma planta tão rara?

V

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo o teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram tão jovens, que dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo coração selvagem se regressaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons vários, teus rostos se ardiam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes tão juntos”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, ele então se afastou.

Assim, ele alastrou flores e palavras; até que em mim
Uma alegria trêmula se espalhou ao redor do meu coração.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, que se fez alegre! 


VIII

Para qualquer criatura que habita a terra,
(Exceto aquelas cujos olhos odeiam o sol)
O tempo de trabalhar é enquanto ainda é dia;
E quando enfim os céus acendem tuas estrelas,
O homem volta para casa, animais se abrigam na brenha
E deparam repouso pelo menos até o alvorecer.
Mas eu, desde a primeira hora em que o alvorecer precoce
Para sacodir a escuridão da terra,
Despertando os animais em todas as brenhas,
Não tenho trégua em suspirar pelo sol,
E quando à noite observo as estrelas flamejantes
Eu me lamento, ansiando então pelo dia.
Quando a noite afasta o dia brilhante,
E nossa noite profunda traz o alvorecer para os outros,
Tristemente, contemplo as estrelas cruéis
Que formaram meu corpo a partir da terra sensível,
E amaldiçoo o dia em que vi o sol,
Até parecer alguém criado na brenha.
Nem sonho que alguma vez tenha pastado na brenha
Uma criatura tão selvagem, seja de noite ou de dia,
Como aquela que lamento na sombra e no sol,
E não me canso de chorar, seja à noite ou ao alvorecer,
Pois, embora meu corpo mortal seja da terra,
Meu amor imutável vem contigo das estrelas.
Antes que eu volte para vos, ó estrelas intensas,
Ou caia em pó nesta brenha apaixonada,
E deixe meu corpo qual um pedaço de terra sem vida;
Que ela tenha piedade, que em um único dia
Possa expiar por longos anos! Que antes do alvorecer
Pudesse me abençoar, desde o pôr do sol!
Ó, se eu estivesse com ela desde o pôr do sol,
E ninguém para nos observar além das estrelas soturnas
Apenas uma noite! E que não houvesse alvorecer!
Nem que ela se transformasse em brenha frondosa,
Escapando de meus braços, como naquele dia
Quando Febo acompanhou Dafne pela terra.
Mas em um caixão sem sentido eu repousarei,
E o dia chegará repleto de pequenas estrelas,
Antes que o sol brilhar sobre um alvorecer tão doce.

FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

SETE ESTUDOS &DOIS ALEXANDRINOS & RONDÓ PARA AUTA DE SOUZA - Eric Ponty


 I

Segue traços do Pastor enquanto do estudo,
Soube do então bruno vale para o horizonte,
Que a coroa de sempre das fúcsias te afronte
Nesta vitória da então crença que lhe é tudo.

Não te detenhas na sombra escabrosa via
E que a taça amarga de fel não te amedronte
Louvar deste madeiro que te dobrou a fronte
Para que essa estrada cruel, de áspera e fria.

Enquanto há sol, que avança então na subida,
De alma desfalecente e consumida agonia,
Então bendizendo o martírio que te eleva!

Seja por essa Luz tua excelsa recompensa,
Porque a noite da morte agonia é triste e densa
Para aqueles que dormem sombras sob da treva.

II

Minh’ alma é triste até para à morte,
Tu que então trevas me sepultaste?
Minh’ alma triste qual a dor aterra
Beija então teus passos. Cordeiro aferra!

Que noite negra, tão cheia destas sombras.
Não foi a noite que aqui então passaste?
Estrelas tão lindas neste céu brilharam.
Voltou-me o teu riso, já quase do horto.

Não tenhas medo então do sofrimento.
E sendo ele é a escada do Paraíso...
Contemplar os astros do firmamento,

Olha para estrelas... No céu então escuro
Parecem ser risos amortalhados...
Assim, nestas trevas do mundo impuro!

III

Partiu-se do fio branco e tão delicado,
São dos sonhos de Minh ‘alma que desditosa...
E das contas do rosário assim tão quebrado,
Que caíram como folhas de que umas rosas.

Tu debalde eu as procuro tão lacrimosas,
Que são estas doces relíquias do Passado,
Para que guardá-las nesta urna perfumosa,
Deste meu seio nesse cofre imaculado.

Aí! se eu ao menos por uma, só lhe pudesse,
Que d’estas contas se achar que me fizesse,
Lhe Lembrar um mundo de alegrias tão doidas...

Feliz tão séria..., Mas Minh ‘alma lhe atenta,
De que em vão procura uma continha benta:
Quando então partiste m’as levaste com todas!

 IV
Oro de joelhos, pelo Senhor, na terra
Que purificada pelo esse teu pranto...
Minh’alma triste à sombra dá dor aferra,
Beija em teus passos. Cordeiro manto!

Eu disse... e das sombras se dissiparam.
Senhor descendo sobre desse meu Horto...
Estrelas de tão lindas no céu brilharam.
Regressou-me o riso, já quase torto!

Levanta-se olhos para o meu rosto,
Que à vista dele foge então o Desgosto,
Não tenhas medo então do sofrimento.

Contempla dos astros do firmamento,
Olha das estrelas... Nesse céu escuro,
Brilham sombras almas dos desolados.

V
É tempo regressar. O inverno ainda 
Qual avezinha se mudando chão...
É conciso deixar a terra finda
Em singelas casinhas sem portão.

É imperioso partir, embora, ainda
Sinta estourar de dor meu coração,
E a alma cheia de lembrança infinda
Tão sozinha chora então em solidão.

Minha alma treme qual mariposa,
Que se despe na chama, alucinada
Em de cada vez que o meu olhar se pousa.

Vamos, coração, não soluces tanto...
Oculta bem este teu sentido pranto,
Não tenhas pena de quem ficou cá.

VI
Se tudo foges e desaparece,
Se tudo vai ao vento dessa Desgraça,
Se a vida é o sopro que os lábios passam
Gelando o ardor verdadeira prece;

Se sonho chora e geme e desfalece
Dentro do coração que o amor enlaça,
Se rosa murcha inda em botão, desgraça
Da moça foge quando a idade cresce.

Se Deus transforma em tua lei tão pura
Da dor das almas que o ideal apura,
Nesta demência feliz, pobres loucos...

D’água do rio em oceano percorre,
Se tudo cai. Penhor! Por que não ocorre,
Dores sem fim que me devora aos poucos.

VII
Tu passaste por mim toda de aleto,
Pela mão conduzindo em uma aliança...
E eu cuidei lhe ver ali uma Esperança,
E duma saudade em pálido afeto.

Pois, quando a falta de um sagrado afeto
De lastimar este canto não cansa,
Numa alegria descuidosa de sã.
Passar o infante, o beija-flor tão quieto.

Na vida nesse gozo e desventura
Pisam sempre unidos, tão mãos dadas,
Cultura, às vezes, leva à sepultura...

Neste coração - um horto de martírios!
Brotam sem fim tão ilusões douradas,
Quais nas campanhas desabrocham lírios!

 I.I
Suave formosa em tua voz que esvai este céu,
Tu roubaste-a, Maria, aos rouxinóis neste arado?
Aqui na igreja santa então vens rezar cruz.
Quanta piedade tal trazes no olhar em luz.

Como és bela Maria altar, para teu olhar de estrela,
Tens a pálida alvura em um lírio usura em flor,
Deixa o lábio de rosa ardor, e, que doce brancura,
Junta esta mão, formosa em tal noite já desceu.

Olhar que eu tenho medo então da escuridão...
Deixas o lábio em rosa enquanto diz por mim,
Vamos: terminar tão cedo tua oração enfim.

Vale tanto uma prece então dita por jus!
Ô Maria. Como és bela então conjunto a Jesus!
Aqui na igreja santa então vens rezar cruz.

I.II
Ter doze anos somente, e, na idade sofrer!
Sonhar porvir ridente então, e, na aurora morrer!
Eis o que te foi da existência, Ó desditosa,
Doce lírio inocência, pobre floco neblina.

Quais dois botões pequenos, flores orvalhadas,
Que teus olhos dormem serenos sob as pálpebras,
Voaste, tão meiga infante de tão feiticeira,
Sendo tal qual um riso esperança uma folha.

Triste morrer no fim urna manhã esplendores,
Fronte a ocultar, assim, numa grinalda flores,
Quando suspiro leve, est’alma que o corpo encerra!

Desprender-se da terra em voo suave e franco,
Fugiu para o céu de anil... Qual noiva gentil,
Aí, no funéreo leito em coberta das rosas.


 RONDÓ
Que noite negra, cheia destas sombras.
Não foi a noite então que aqui te passaste?
Noite imensa... por que vós vindes sobras,
Como se da corda de um ’harpa trouxe:
Tu que nestas trevas me sepultaste?

Na longa estrada cheia de suicídios,
Guia do meu passo, nos bons Idílios,
Tu que nas trevas me trouxeste ouro?

Que noite negra, cheia destas sombras
Noite imensa... por que vós vindes sobras,
Assim, nestas trevas do mundo impuro,
Se parecem sonhos amortalhados,
Que brilham as palmas dos desolados.

Nesta longa estrada cheia de espinhos,
Guia do meu passo, nos bons caminhos,
Tu que nas trevas me trouxeste puro?

ERIC PONTY

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos - FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY

 

Senhora, não a vi afastar-se na relva sombria,
Na sombra escura ou sob céus serenos
O véu que abriga teu rosto gracioso
Desde percebeu pela primeira vez a paixão intensa.

Que afasta tudo o mais do meu coração.
Enquanto eu arrumava manter adágios valiosos ocultos —
Esses sonhos matam todos os meus sentidos ardentes —
Vi compaixão revelada em teu rosto,

Mas depois que o Amor traiu o teu desejo,
Jogando um véu sobre teus cabelos dourados,
E teu olhar gentil se retirou para dentro de si mesmo.

O que mais eu aprecio agora não vejo mais —
Tão perto que aquele véu pesado me restringe,
A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos.
II

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo em teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram jovens, se dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo peito selvagem se voltaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons variados, teus rostos se inflamavam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, se afastou.

Assim, espargiu flores e palavras; até que em mim,
Alegria trêmula se espalhou ao redor do meu peito.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, tão alegre!
FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY
 
  
  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA