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segunda-feira, setembro 07, 2026

OS GATOS - DAR NOME AOS GATOS - T.S ELIOT - TRAD. ERIC PONTY

 

Escolher nomes para gatos é uma questão complicada,
Não é apenas mais um daqueles jogos de férias atada;
Você pode até pensar, a princípio, que sou louco como um chapeleiro,
Quando digo que um gato deve ter TRÊS DIFERENTES NOMES.
Em primeiro lugar, há o nome que a família usa no dia a dia,
Como Peter, Augustus, Alonzo ou James,
como Victor ou Jonathan, George ou Bill Bailey —
Todos nomes sensatos para o dia a dia.
Existem nomes mais sofisticados, se achar que soam mais agradáveis,
Alguns para os cavalheiros, outros para as damas afáveis:
Como Platão, Admeto, Electra, Deméter —
Mas todos são nomes sensatos para o dia a dia.
Mas eu lhe digo: um gato precisa que seja especial nome,
Um nome que seja peculiar e mais digno especial,
Caso contrário, como poderia manter o rabo na vertical,
Ou abrir bem os bigodes, ou acalentar seu orgulho?
De nomes tipo, posso lhe dar uma boa variedade engulho,
Como Munkustrap, Quaxo ou Coricopat,
Como Bombalurina ou ainda Jellylorum —
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato no éter.
Mas, além de tudo isso, ainda resta um nome,
E esse é o nome que nunca vai adivinhar de fato;
O nome que nenhuma pesquisa humana pode descobrir —
Mas O PRÓPRIO GATO SABE, e nunca vai confessar rir.
Quando perceber um gato em profunda meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma ação:
Sua mente está absorta em uma contemplação extasiada
Do pensamento, do pensamento, do pensamento de seu nome:
Seu inefável, efável,
Efaninefável,
Nome singular, profundo e insondável.

 T.S ELIOT - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

MENINO RETIRANTE VAI AO CIRCO DE BRODOSKI - ERIC PONTY - 2 EDIÇÃO - LARANJA ORIGINAL - SP - 2026

 

 
AGRADEÇO AOS EDITORES DA LARANJA ORIGINAL
EM ESPECIAL AO FRATERNO AMIGO JOÃO CÂNDIDO PORTINARI
POR PROPOSICIONAR  ESTA SEGUNDA EDIÇÃO
 
 

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

Poemas - F. Hölderlin - Trad. Eric Ponty

 

 CANÇÃO AO DESTINO DE HIPERIÃO

Vocês passeiam lá em cima, na luz,
pelo solo leve, génios celestiais;
ar divinos e luminosos
roçam-vos ligeiramente,
como a inspiradora com os seus dedos
algumas cordas sagradas.
Sem destino, como aquela criança adormecida,
encorajam os seres sagrados;
discretamente escondido
numa corola modesta,
floresce eternamente
para eles, o espírito;
com um olhar devoto
olham para a tranquila
clareza imortal.
Mas isso não nos cabe a nós
trégua em nenhum local;
desaparecem, caem
os homens resignados
às cegas, a cada hora
na hora, como água
de uma rocha desprendida
para outro clube, ao longo dos anos
na incerteza, para baixo.

TERRA NATAL
(Primeira versão)

O marinheiro regressa alegremente ao rio tranquilo
de ilhas longínquas onde obteve lucro.
Eu também quero regressar à minha terra natal,
Mas o que é que eu consegui, senão sofrimento?
Ribeiras apaisadas, vós por quem fui formado,
Será que conseguem aliviar as dores do amor? Ai de mim!
Ou será que vocês, bosques da minha infância, me devolvem,
Quando regressar, voltarei a ter a minha tranquilidade?

APLAUSOS DOS HOMENS

Não é celestial meu coração, cuja vida se tornou mais bela
desde que amo? Por que o estimavam mais, vocês,
quando ele era mais orgulhoso e feroz,
mais rico em palavras e mais vazio?

A multidão gosta do que o mercado valoriza
e apenas o servo honra o violento;
no divino, acreditam
apenas aqueles que o são.

ÀS PARCAS

Apenas um verão vocês me concedem, vós, as poderosas;
e um outono para dar maturidade ao canto,
para que meu coração, mais obediente,
se canse do doce jogo e morra.

A alma que não obteve em vida o direito divino,
também não descansa lá embaixo, no Orco;
mas se um dia alcançou o sagrado, aquilo
que é caro ao meu coração, o poema,

seja bem-vindo, então, ó silêncio do reino das sombras.
Ficarei contente, mesmo que minha lira
não me acompanhe lá; pelo menos uma vez
terei vivido como um deus, e mais nada é necessário.

METADE DA VIDA

Com peras amarelas
e repleta de rosas silvestres,
a terra surge no lago;
vocês, cisnes benignos,
embebidos de beijos,
mergulham a cabeça
na água sagrada e virgem.

Ai de mim! Onde procurar
durante o inverno as flores,
onde o brilho do sol
e as sombras do solo?
As paredes permanecem de pé,
mudas e frias; ao vento,
as catavento rangem.

A PRIMAVERA

Quando uma nova delícia brota pelos campos,
a paisagem volta a embelezar-se,
e nas montanhas, onde as árvores ficam verdes,
arões mais claros se revelam entre as nuvens,

quanta alegria nos homens. Alegres,
caminham sozinhos pelas margens. Calma, desejo
e encantamento de uma saúde renovada.
O riso agradável também não fica longe.

A PRIMAVERA

O homem esquece as mágoas do espírito,
pois a primavera floresce e há brilho em quase tudo;
o campo verde se estende majestosamente,
e o riacho já resplandece ao deslizar morro abaixo.

As montanhas, cobertas por árvores, erguem-se altivas,
e o ar é magnífico nos espaços abertos;
o amplo vale se estende pelo mundo,
e torres e encostas se inclinam nas colinas.

O VERÃO

Quando a flor da primavera se vai, fugindo,
surge o verão, como uma guirlanda do ano;
assim como um riacho que desliza pelo vale,
assim é, ao seu redor, o esplendor que transborda das montanhas.
Quando o campo se nos mostra em todo o seu esplendor,
é como o dia, inclinando-se para o crepúsculo;
as horas do verão são como o ano que foge,
como breves imagens terrenas para o homem.

O OUTONO

Afastam-se da terra essas lendas
do espírito que antes existiu e, mais tarde, em seu retorno,
se inclinou para a humanidade; muito nos diz
o tempo que se esvai tão rapidamente.

Esta natureza não perdeu as imagens
do passado; assim como os dias empalidecem
no meio do verão, assim o outono volta à terra,
e o espírito da chuva volta a percorrer o céu.

Em pouco tempo, muito se consumou;
o lavrador, que se mostrava com o arado,
vê como o ano caminha para um final alegre;
com tais imagens, o dia do homem se purifica.

O seio da terra, adornado com rochas,
não se assemelha à nuvem, que à noite se perde;
em um dia dourado se nos mostra,
e tal perfeição não abriga queixa alguma.
 F. Hölderlin - Trad. Eric Ponty
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, setembro 06, 2026

CEM SONETOS DE AMOR - PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

 PARA MÉDICA DESCONHECIDA DA MINHÁLMA

I
MATILDE, nome de planta, pedra ou vinho,
daquilo que nasce da terra e perdura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo verão irrompe a luz dos limões.
Nesse nome navegam navios de madeira,
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que deságua em meu coração calcinado.
Ó nome descoberto sob uma trepadeira,
como a porta de um túnel desconhecido,
que se comunica com a fragrância do mundo!
Ó, invade-me com tua boca abrasadora,
investiga-me, se quiseres, com teus olhos noturnos,
mas, em teu nome, deixa-me navegar e dormir.
II
AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até a tua companhia!
Os trens continuam rodando sozinhos sob a chuva.
Em Taltal, a primavera ainda não amanhece.
Mas você e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos desde as roupas até as raízes,
juntos no outono, na água, nos quadris,
até sermos apenas você, apenas eu, juntos.
Pensar que custou tantas pedras que o rio carrega,
a foz das águas de Boroa,
pensar que, separados por trens e nações,
você e eu tínhamos simplesmente que nos amar,
com todos confusos, com homens e mulheres,
com a terra que planta e cuida dos cravos.
III
AMOR ÁSPERO, violeta coroada de espinhos,
matagal eriçado entre tantas paixões,
lança das dores, corola da ira,
por quais caminhos e de que modo te dirigiste à minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram até mim?
Que flor, que pedra, que fumaça revelaram minha morada?
O certo é que a noite aterrorizante tremeu,
o amanhecer encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celestial,
enquanto o amor cruel me cercava sem trégua
até que, lacerando-me com espadas e espinhos,
abriu em meu coração um caminho ardente.
IV
VOCÊ SE LEMBRARÁ daquela ravina caprichosa
para onde os aromas palpitantes subiam,
de vez em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Você se lembrará dos dons da terra:
fragrância irascível, barro dourado,
ervas do matagal, raízes loucas,
espinhos encantados como espadas.
Você se lembrará do buquê que trouxe,
buquê de sombra e águas em silêncio,
buquê como uma pedra coberta de espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos para onde nada espera por nós
e encontramos tudo o que está esperando.
V
NÃO TE TOQUE a noite, nem o ar, nem a aurora,
apenas a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas do teu país perfumado.
Desde Quinchamalí, onde foram feitos teus olhos,
até teus pés, criados para mim na Fronteira,
tu eras a argila escura que conheço:
em teus quadris toco novamente todo o trigo.
Talvez tu não soubesses, araucana,
que quando, antes de te amar, me esqueci de teus beijos,
meu coração ficou lembrando-se de tua boca,
e eu andei pelas ruas como um ferido,
até que compreendi que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões.
VI
NAS FLORESTAS, perdido, cortei um galho escuro
e, sedento, levei seu sussurro aos lábios:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que, de tão longe, me parecia
gravemente oculto, coberto pela terra,
um grito abafado por imensos outonos,
pela escuridão úmida e entreaberta das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos da floresta,
o galho de aveleira cantou sob minha boca
e seu aroma errante subiu pelo meu julgamento
como se de repente as raízes me procurassem,
aquelas que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei, ferido pelo aroma errante.
VII
“VOCÊ VIRÁ comigo”, eu disse, sem que ninguém soubesse
onde e como batia meu estado doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada além de uma ferida aberta pelo amor.
Repeti: venha comigo, como se eu estivesse morrendo,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Ó amor, agora vamos esquecer a estrela com espinhos!
Por isso, quando ouvi tua voz repetir:
“Você virá comigo”, foi como se você desatasse:
a dor, o amor, a fúria do vinho aprisionado,
que, de sua adega submersa, subisse,
e mais uma vez, na minha boca, senti um sabor de chama,
de sangue e de cravos, de pedra e de queimadura.
VIII
SE NÃO FOSSE porque teus olhos têm a cor da lua,
durante o dia, com argila, com trabalho, com fogo,
e, aprisionada, tens a agilidade do ar,
se não fosse porque és uma semana de âmbar,
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e ainda és o pão que a lua perfumada
elabora, espalhando sua farinha pelo céu,
oh, amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe, posso ver tudo:
vejo em tua vida tudo o que é vivo.
IX
COM O GOLPE da onda contra a pedra indomável
a claridade irrompe e estabelece seu tom rosado
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma única gota de sal azul que cai.
Ó magnólia radiante desatada na espuma,
viajante magnética cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal quebrado, deslumbrante movimento marinho.
Juntos, você e eu, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas constantes
e derruba suas torres de arrebatamento e brancura,
pois na trama desses tecidos invisíveis
da água desenfreada, da areia incessante,
sustentamos a única e perseguida ternura.
X
SUAVE é a bela, como se música e madeira,
ágata, tecidos, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erguido a estátua fugaz.
Para a onda ela direciona sua frescura contrária.
O mar molha pés polidos, moldados
à forma recém-esculpida na areia,
e agora é seu fogo feminino de rosa
uma única bolha contra a qual o sol e o mar lutam.
Ai, que nada te toque, a não ser o sal do frio!
Que nem mesmo o amor destrua a primavera intacta.
Bela, reflexo da espuma indelével,
deixe que seus quadris imponham na água
uma nova medida de cisne ou de nenúfar
e que sua estátua navegue pelo cristal eterno.
XI
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem me alimentar, em silêncio,
o pão não me sustenta, o amanhecer me enlouquece,
procuro o som líquido dos teus pés durante o dia.
Estou faminto do teu riso escorregadio,
das tuas mãos da cor de um celeiro furioso,
tenho fome da pedra pálida das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma amêndoa intacta.
Quero devorar o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do rosto arrogante,
quero devorar a sombra fugaz de teus cílios
e, faminto, vou e venho farejando o crepúsculo,
procurando por ti, procurando teu coração quente
como um puma na solidão de Quitratúe.
XII
MULHER PLENA, maçã carnal, lua quente,
aroma denso de algas, lodo e luz esmagados,
que clareza sombria se abre entre tuas colunas?
Que noite antiga o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e estrelas,
com ar sufocante e tempestades bruscas de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos derrotados por um único mel.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
teus margens, teus rios, teus minúsculos vilarejos,
e o fogo genital transformado em deleite
corre pelos finos caminhos do sangue
até se precipitar como um cravo noturno,
até ser e não ser senão um raio na sombra.

  PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sábado, setembro 05, 2026

BALADAS DE FRANÇOIS VILLON - TRAD. ERIC PONTY

 [A BALADA DOS ENFORCADOS]


IRMÃOS que nos sobreviverão,
Não sejais duros de coração connosco,
Se sentis compaixão pela nossa miséria
Deus recompensar-vos-á com a Sua misericórdia.
Vêem aqui cinco ou seis dos nossos pendurados:
A carne, que alimentamos tão bem,
Já podre, foi devorado,
E os ossos que restarem em breve tornar-se-ão cinzas, pó.
Que ninguém se ria do nosso sofrimento,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Se vos chamarmos, irmãos, não devais
Desprezar-nos, mesmo que tenhamos sido executados
Com toda a justiça… Como bem sabem
Que nem todos os homens são sensatos;
Perdoem-nos, já morremos, estamos
Perante aquele que nasceu de Maria,
E que a sua graça não se esgote
E que nos proteja dos raios infernais.
Estamos mortos, que ninguém nos incomode,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
A chuva esvaziou-nos e lavou-nos
E o sol enegrecido e ressecado;
As urracas e os corvos esvaziaram-nos os olhos,
Arrancaram as barbas e as sobrancelhas.
Quando vivíamos, nunca descansávamos;
Agora, dependendo do vento,
À sua vontade, finalmente, balança-nos,
Mais picotados do que um dedal.
Nunca façam parte da nossa irmandade,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Príncipe Jesus, que reinas acima de tudo,
Não deixes que o Inferno nos devore:
Não temos nada a resolver lá.
E vocês, não se riam de nós,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!

BALADA EM FRANCÊS ANTIGO


Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho , corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.

BALADA EM FRANCÊS ANTIGO


Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho, corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.

Balada
[«DA MARGOT GORDINHA»]

 
Porque é com prazer que amo e sirvo esta bela
Consideram-me vil ou desprezível?
Ela tem as qualidades que eu procuro.
Por amor a ela, ostento um escudo e uma adaga.
Se chegarem clientes, corro a buscar um jarro
E perco-me no vinho sem causar confusão.
Sirvo-lhes água, queijo, pão e fruta,
Se pagarem bem, digo-lhes: «Bene stat»,
Voltem aqui quando estiverem no cio,
Para este bordel que nos acolhe.
Mas, às vezes, há mau humor de sobra
Quando a Margot vem deitar-se e não tem dinheiro;
Então não consigo olhar para ela, detesto-a.
Pego na roupa dela, saias, cinta,
E juro-lhe que as guardarei como garantia do seu pagamento.
Põe-se de braços cruzados, Anticristo!
Ele grita comigo e jura pela paixão de Jesus Cristo
Isso não vai incomodar, porra. Então, vou tomar algo que me acalme
E bem debaixo do seu nariz, carimbei o meu selo.
O deste bordel que nos acolhe.
Depois, fazemos as pazes, e ele solta-me um belo peido,
Mais inchado do que um besouro rola-bolas.
Enquanto se ria, deu-me um soco na cabeça,
«Vai-te embora», diz-me ele, e arranha-me as coxas.
Nós os dois, bêbados, dormimos como pedras,
E ao acordar, quando lhe ronca o estômago,
Ele senta-se em cima de mim, para que eu não estrague o seu fruto;
Debaixo dela, gemo, e ela deixa-me mais liso do que uma tábua,
E divertimo-nos até não podermos mais
Neste bordel que nos acolhe.
Por mais que sopre o vento, por mais que haja geada ou granizo, 
tenho o meu pão garantido.
Sou um malandro, e a minha malandra segue-me.
Quem é melhor? Um para o outro.
Estamos empatados: tal rato, tal gato,
Somos uns malandros, e é assim que vivemos,
Desprezamos a honra, e ela despreza-nos
Neste bordel que nos acolhe.

FRANÇOIS VILLON - TRAD. ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

POEMAS DE PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY


 A AFIADEIRA
Lilia…, neque nent
Sentada à janela azul, a afiadeira,
Onde o jardim melodioso se balança,
O som do torno antigo a embriagou.

Depois de beber o azul, farta de fiar mimosa
Cabelo, tão escorregadio entre os teus dedos, evasivo,
Ela sonha, e a sua cabecinha inclina-se.

O arbusto e o ar puro tornam-se uma fonte viva
Que, à luz suspensa, rega deliciosamente
O jardim do descanso, com as suas flores perdidas.

Um caule, onde o vento errante repousa,
Rende-se à saudação vã da sua graça estrelada,
Dedicando magnificamente a sua rosa ao velho torno.

Mas a sonolenta fia uma lã isolada;
A sombra frágil entrelaça-se misteriosamente,
Tecida com o fio dos seus dedos adormecidos.

O sonho desenrola-se com uma angelical
Preguiça, incessante, no doce fuso crédulo,
Os cabelos ondulam ao sabor do carinho…

Por trás de tantas flores esconde-se o azul,
Tecelã envolta em luz e folhagem:
O céu verde está a morrer. A última árvore arde.

A tua irmã, a grande rosa onde sorri uma santa,
A tua testa etérea exala um perfume com o seu hálito
Inocente, e pensas que estás a definhar… 
Estás a extinguir-te no azul da janela onde fiavas a lã.

HELENA

Azul! Sou eu… Volto de uma visita às grutas
Da morte, o som da onda ao rebentar,
E vejo as galeras novamente nas auroras
Ressurgir da sombra com os remos de ouro.

As minhas mãos solitárias chamam os monarcas,
Cuja barba de sal divertia os meus dedos.
Eu chorava. Eles cantavam as suas vitórias sombrias
E os golfos que saíram do seu barco pela popa.

Ouço as trombetas profundas e as cornetas
Militares a marcar o ritmo do movimento dos remos;
O canto dos remadores dá início à agitação,

E na proa heróica, os deuses, exultantes,
Com o seu sorriso antigo que a espuma profana,
Estendem-me os braços, indulgentes e esculpidos.

ORFEU

… Sob os mortais, eu, Orfeu, o admirável,
Inspiro-me! Dos circos puros desce o fogo,
E da montanha nua faz um troféu majestoso
De onde surge o ato retumbante de um deus.

Se o deus cantar, destrói o local poderoso.
O sol observa com horror as pedras que se movem,
Uma planta inédita desperta admiração
Altas paredes de ouro harmonioso de um templo.

Canta, Orfeu, sentado num céu resplandecente!
A rocha anda, tropeça e cada pedra-fada
Sente-se um peso novo que se perde no azul do céu!

De um templo ao ar livre, a tarde banha o voo,
E ele próprio reúne-se e organiza-se no ouro,
Com o imenso espírito do grande hino na lira!

A ABELHA
A Francisco de Miomandre

Por mais delicada e por mais mortal que seja
Que seja a tua ponta, abelha loira,
Não coloquei, no meu cestinho delicado,
Mais do que um sonho de renda.

Fura o recipiente no centro,
Onde o Amor morre ou adormece;
Que algo vermelho de mim mesmo
Que surja, na curva, a carne rebelde!

Preciso urgentemente de uma chave de fendas:
Um mal vivo com um final feliz,
Mais vale isso do que um tormento adormecido!

Que a minha mente se ilumine
Por este minúsculo indício de ouro,
Sem a qual o Amor morre ou adormece!
 
SONETO A NARCISA

Ó, agarrado pelas tuas mãos, frescas como flores,
A minha testa já não pensa em nenhuma outra coroa;
Essa lucidez que o Amor envolve
Uma sombra suave perturba a fonte das lágrimas.

Respirando do teu seio o calor profundo,
Tanta felicidade transborda no coração que se entrega,
Que ao preço do doce destino que o teu olhar me ordena
A glória não passa de uma estranha desgraça para mim.

Deixo desaparecer os meus desejos eruditos;
O meu verdadeiro tesouro brilha para mim nos relâmpagos sedosos
Dos teus olhares ricos às luzes vivas!

O que tu sentes por mim, eu adoro nos teus olhos.
Oh, fode com as tuas mãos, fechando a minha coroa
Do rubi de um beijo, beija a testa que te ama!

ODE AO JASMIM

Os teus olhos estão no meu coração, incrustados nas pedras,
E os traços luminosos dos seus olhares vagos
Queimam com fogo vivo a noite dos meus pensamentos,
Ó Presença imanente, ó Tu que estás em toda parte,

Tu que rodeias toda uma margem tão doce
Que um dia sem ti é para mim como um dia de ferro,
Que me oprime com um peso que o meu suspiro repele
E que termina num século completo no inferno...

Enquanto tudo o que vive à minha volta me irrita,
E que dentro de mim a própria obra é um sonho importuno,
Para Ti, eu fujo para Ti, como um pássaro se abriga,
E a alma obediente ao teu perfume secreto,

Respiro em espírito o mais terno dos quartos,
Onde, entre roupa limpa, perto das flores, perto do fogo,
A força do amor que sonha em seus membros
O sorriso que eu amo receberá o meu desejo.

Eu dissipar a estrada, e voando para o deleite,
Eu abolei sob os meus pés os graus preciosos
Que levam até ao limiar do teu cálice sedoso
A minha sede de reencontrar os teus verdadeiros olhos.

A minha espera pelo amor está cansada de fingir;
Quero bebê-los e fechá-los e vê-los suavemente
Reabrir-se, quando o excesso de felicidade de se unir
Permite-nos sorrir com o teu estremecimento.

O SALGUEIRO

Trema, caia suavemente. Um sopro te ama, salgueiro.
Que faz tremer em ti o sonho de um ombro.
Brisa? Ou o meu único suspiro, tão simples e tão repentino
Que eu exale amor por este jardim flutuante.
Nas suas flores, o meu olhar engana a dor da espera
O passo, a voz, a mão e, depois, todo o ser terno,
Essa Tu toda minha que sinto a tornar-se,
A quem a hora que morre pode de repente unir-me
E aí vem ele! Eu sinto.

A minha boca finalmente te recebe!
A abordagem causa um tremor na alma.
E os meus olhos, embora cheios de folhagem e luz,
Vejo-te atrás de mim, toda corada de amor.

Trema, caia suavemente! Um sopro te ama, salgueiro...
Mas já não preciso pensar num ombro,
E esse sopro não é mais o sopro de um único coração.
O tempo vencido sucumbe, e o beijo vitorioso
Da ausência sem nome da qual um nome me liberta,
Bebe na sombra, em longos goles, o fogo que nos dá vida!

CANÇÃO MUITO VIVA

Por que eu gostaria de te amar?
Se não fosses tu
Com quem se abrevia
A hora universal?

Que estranho!
Todo o amor escorre,
Pego na armadilha do amor
Que nos encanta...

Ó belo clarão
Entre a carne e a carne
Que os corações se comuniquem!

E que verdadeiros tesouros
Licores extremos
Confundam os corpos!…

Às vezes, penso na tua infância e gosto.
O que me contaste ressoa muito longe, na sombra anterior.
E eu gosto...

Depois, depois... oh não, não gosto de tudo o que veio a seguir.
Essa flor colhida, esse primeiro toque.
A tua juventude, o teu coração.
Oh, eu odeio os deuses, o acaso e tudo mais.
O que fez com que não fosse o que deveria ter sido
Que sejas sempre toda minha.

Eu me divido ao pensar no passado que não foi
Como as pitonisas preveem o futuro.
Eu profetizo de costas
E o meu amor é de tal perspicácia
Que eu nos vejo a viver uma vida
Tão luminosa
Se pureza e voluptuosidade
Tão terno e tão determinado
É inteligente, é doce.
Oh, que dias e que noites
E que sonhos confusos e que despertares cantantes...
Nós teríamos nos conhecido, nos encontrado no tempo
Como eu era vivo, acreditando que era um anjo
De espírito duro, alma bastante estranha
E eu queria mergulhar meu olhar
Em toda a profundidade do mundo
E eu teria-te levado para o fundo
Para te amar com todo o meu orgulho.

PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, setembro 04, 2026

MILAGRES DE NOSSA SENHORA - Gonzalo de Berceo - TRAD. ERIC PONTY

 

PELA GRAÇA POR TI 

Amigos, se quisessem esperar um pouco, 
ainda outro milagre eu gostaria de contar, 
que por Santa Maria Deus quis demonstrar, 
de cuja lei quis com sua boca mamar.

Um monge beneditino foi a um mosteiro,  
o lugar não o leio, dizer não saberia,  
queria de coração bem a Santa Maria,  
fazia à sua estátua a inclinação todos os dias.

Diante de sua estátua inclinava-se todos os dias, 
contornava os aborrecimentos, dizia: «Ave Maria»;
sendo que abade da casa lhe concedeu a sacristia, 
pois considerava-o são e livre de loucura.

O inimigo mau, de Belzebu vicário, 
que sempre foi e é o contrário dos bons, 
tanto pôde agitar o sutil adversário, 
que corrompeu o monge, fez dele um fornicário.

Peguei um uso ruim do louco pecador, 
à noite, quando o prior era expulso, 
assim pela igreja fora do dormitório, 
corria o incapacitado para o mau trabalho.

Quer seja na saída, quer seja na entrada, 
diante do altar lhe caiu a passada; 
para Inclino e a Ave Maria tinha-os bem praticados, 
não se esquecia deles em nenhuma ocasião.

Gostaria de-vos falar do litígio do Teófilo,
Um milagre tão precioso não deve ser esquecido.
É assim que poderemos compreender e aprender
que vale a Gloriosa para quem sabe rezá-la.

Não pretendo, se puder, prolongar a discussão,
Se vocês ficassem entediados, eu poderia pecar;
De uma oração breve, Deus costuma responder,
que o Criador nos permita usar isso.    

Era um bom homem, dono de uma grande quinta.
chamava-se Teófilo, como diz a lenda,
Aquele homem era pacífico, não gostava de conflitos,
Ele soube muito bem, na própria pele, 
o que era tê-las sob o seu controle.

No local onde se realizava uma grande festa,
recebi a vigararia do seu senhor, o bispo;
foi entre os da igreja que se verificou a melhoria,
se não fosse o fato de o bispo ter a nomnadía.

Era, em si mesmo, de boa disposição,
que houvesse paz e grande harmonia entre todos;
Aquele homem era maduro, de bom caráter,
Era muito versado em literatura e ciência.
Vesti os nus, alimentei os famintos,
acolhi os jovens apaixonados que chegavam com frio;
dava aos que erravam bons castigos,
que se arrependessem de todas as falhas.

O bispo não terá qualquer restrição nem penalização,
era cantar a sua missa e rezar o seu saltério;
Isso isentava-o de qualquer cargo,
Enumerar as suas qualidades seria uma grande tarefa.

Amábalo, o bispo, de grande prestígio,
porque o isentava de qualquer trabalho doméstico;
os povos e as pessoas tomem-no como guia,
que ele era, em todos os aspetos, um Cabdiello e um Carrera.

Quando chegou o momento em que eu devia morrer,
o bispo não conseguiu ultrapassar aquele ponto;
adoeceu e morreu; foi para junto de Deus descansar:
Deli, Deus, paraíso, se quiseres rezar.

Os povos da terra, todo o clero,
Todos diziam: «Teófilo, que a bispado,
compreendemos que é nele que reside a melhoria,
«Ele concorda que seja criada a antecipação.»

Enviaram as vossas cartas ao metropolita
Por Deus, que a mão de Teófilo não se abalasse,
Bem, isso é o que todos consideram o conselho mais sensato,
Se fosse inverno, isto seria verão.

Os membros do arcebispado enviaram-no,
disseram-lhe: «Teófilo, assume este bispado,
pois todo o teu cabelo te é concedido,
«e de todos os povos és tu o escolhido.»
Recudiólis Teófilo respondeu com grande simplicidade:
«Senhores, unam-se em nome de Deus e da caridade,
pois não sou apenas digno dessa dignidade,
Fazer tal escolha seria uma grande cegueira.

O arcebispo disse: «Quero que faleis;
«Quero que sejas tu a tomar esta decisão.»
Dísoli, o Teófilo: «Não discutam tanto
«que, na medida do possível, me ajudem nisso.»

Os membros da canonaria, quer eu os tenha convidado ou não,
decidiram realizar mais uma eleição;
o bispo que nomearam na ordenação
colocou outro vigário no ministério.

Todos os processos foram encaminhados ao novo vigário,
serviam Teófilo, mas serviam-no ainda mais;
Teófilo ficou com ciúmes e repreendeu o jovem,
Aquele que antes era Abel transformou-se em Caim.

Na casa do bispo, não era assim tão privado,
como costumava ser no passado;
A minha vontade está profundamente abalada,
Havia-o invejado pela sesta que tirara.

Considere-se danificado e prejudicado,
tanto os adultos como as crianças pareciam desdenhosos;
ficou cego de tanto rancor e ficou completamente perturbado,
uma loucura feroz, um grande erro disfarçado.

Era ali que Teófilo residia, naquela sé episcopal,
havia um judeu naquele bairro judeu;
ele sabia de coisas más, de toda a malícia,
... com a antiga, que tinha a sua irmandade.
É o que diz São Paulo, o bom pregador,
que foi um vassalo leal de Deus, Nosso Senhor,
que todas as lendas que provêm do Criador,
Todas as saudações sejam dirigidas ao homem pecador.

É nisto que podemos compreender e aprender
quanto vale a penitência para quem sabe cumpri-la;
Se não fosse por ela, podem ter a certeza,
que o senhor Teófilo tivesse ido parar a um mau lugar.    

Se a Mãe gloriosa, que me deu valor,
se ela não compreendesse isso, não lhe veria utilidade;
mas quem quiser ouvir-me e acreditar,
Se viver em penitência, poderá ser salvo.

Amigos, se quiserdes salvar as vossas almas,
se quiserem seguir o meu conselho,
Não demorem a fazer a vossa confissão sincera,
Se fizeres uma penitência, pensa em cumpri-la.

Que assim seja, por Jesus Cristo e pela Virgem gloriosa,
sem a qual nada de bom se consegue,
para que possamos assim manter esta vida serena,
para que alcancemos a outra, duradoura e luminosa. (Ámen).

A Mãe gloriosa, Rainha dos céus,
que serviu de remédio tão eficaz a Teófilo,
Que ela nos proteja nesta luz mesquinha
para que não caiamos na ruína. (Ámen).

Mãe, do teu Golzalvo me lembrarei
que, por todos esses milagres, foi ditador;
Vós, Senhora, fazei por ele as vossas preces ao Criador,
pois é teu privilégio merecer um pecador,
Que a graça de Deus, Nosso Senhor, esteja contigo.

Gonzalo de Berceo - TRAD. ERIC PONTY

 

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quinta-feira, setembro 03, 2026

O poeta pede a seu amor que lhe escreva - FEDERICO GARCIA LORCA - TRAD. ERIC PONTY

 Aquela que só comunica com as luzes e janelas mora no 3 andar quando surgirá para mim

 
Amor minhas entranhas, viva morte, 
Em vão espero por tua palavra escrita 
E penso, com a nata que se murcha, 
Que se vivo sem mim quero perder-te. 

O ar é imortal, e a pedra é inerte 
Nem conhece a sombra nem por si evita. 
Coração interior não necessita 
O mel gelado que à lua verte. 

Mas eu te sofro, rasgo minhas veias, 
E Tigre e pomba, sobre tua cintura 
Em duelo de mordiscar e açucenas, 
Cheia, pois, de palavras minha loucura.

Deixa ser em minha serena noite 
Da alma que é para sempre tão escura.
 
FEDERICO GARCIA LORCA - TRAD. ERIC PONTY 

 ericponty@outlook.com
 

terça-feira, setembro 01, 2026

ALMANAQUE DAS LESBOS -Barnes, Djuna. - TRAD. ERIC PONTY

 

 
 
A raposa com o casaco vermelho,
A Descarada de Cabeça de Mel,
O osso frontal foi suave lambido
Com caracóis de cânhamo feito os das Tulipas,
A Doxy com o colete do Kid
A farfalhar feito o «Katie-did»,
Com os olhos da Pantera sombrios e pálidos,
E pés de pomba para andar.
Jóquei com a pélvis volumosa,
Lutadora de bundas largas com a parte traseira saliente
De uma égua de um ano, firme, lustrosa e com rugas,
A Domadora a cheirar à sua Fera,
A Jade estrelada, com o seu passo masculino,
As irmãs gémeas, unidas por uma fita,
A baleia-jubarte Jester, à vontade,
Os seus Jollies enroscavam-se no trapézio.
A Virgem com o Canto da Perdiz,
Avançando com a sua bola azul que rola,
A Rainha, que durante a noite recusou
As pontas da coroa do seu marido
Ali, para se sentar a sua «Serva da Felicidade»
Todo este longo ano vai ser assim!
Para todos os planetas, estrelas e zonas
Corram meninas até aos os vossos ossos da medula!
E todas as marés anunciam
De nenhum outro Estado, propriamente dito!

Barnes, Djuna- TRAD. ERIC PONTY

 
 ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

segunda-feira, agosto 31, 2026

122.146 LEITORES DO MEU BLOGUE - HOMENAGEM PÓSTUMA - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT - IVO BARROSO

 122.146  LEITORES DO MEU BLOGUE

HOMENAGEM PÓSTUMA  - PALESTRA - OS GATOS - T.S. ELIOT


 DAR NOME AOS GATOS

O nome dos gatos é um assunto matreiro,
E não passatempo dos dias indolentes;
Podem me achar doido igual a um chapeleiro
Mas um Gato tem três nomes diferentes.
O primeiro é o nome que a família mais usa,
Como Pedro, Augusto, Estêvão, ou brejeiros
Como Vítor, Jorge, ou Jonas ou Fiúza...
Mas nomes que são no entanto corriqueiros.

IVO BARROSO - SAUDADES ETERNAS
 

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA