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sábado, outubro 10, 2026

POETA, DE FATO. - João da Penha

Cantar, todo mundo canta, mas cantores só há uns dez ou doze. 

 A boutade, dizem, é de Frank Sinatra, cujas notabilíssimas habilidades no ofício vocal - me parece - não foram contestadas até hoje.
                   Parafraseando a tirada do grande cantor norte-americano, pode-se dizer também que não há  tantos poetas assim no mundo - aqui e alhures, ontem e hoje. Desconfio que nunca haverá muitos poetas, ou pelo menos muitos grandes poetas. Pelo menos, estou convicto, não tantos quanto sugere o crescente número de coletâneas, editadas, por artes de estratégia mercadológica,  justamente sob  títulos hiperbólicos. 
                     O exercício poético muitos o exercem, ou imaginam exercitá-lo. Mas fazer grande poesia é graça concedida a uma minoria; a uma casta de eleitos, portanto.
                     Schiller, a propósito, já advertiu que não basta criar bons versos para que seu autor se considere um poeta. Ora, fazer versos, quase todo mundo, em algum momento da vida, já fez. Fazer POESIA, no entanto, é estrada  percorrida pela minoria a que nos referimos acima. Só ela, essa casta de eleitos, tem o mapa da trilha. Quem o detém, quem sabe lê-lo, interpretar suas coordenadas, conduz os demais, ou seja, a todos nós, que formamos essa maioria alijada, como criadores, do território poético, só o percorrendo, se sensível  às Musas, como visitantes, como viandantes. Aos carentes de sensibilidade, o passeio por esse território não passará de mero turismo - se tanto.
                    Eric Ponty tem o mapa da trilha. É um autêntico poeta. Poeta amadurecido (Ripeness is all. A maturidade é tudo, disse-nos o supremo bardo no "Rei Lear"). Poeta, dono de seu ofício. Poeta que atingiu o pleno domínio do fazer poético.
                   Sua virtuosidade poética, Ponty  já mostrou e demonstrou no magnífico  "Menino Retirante Vai Ao Circo Em Brodowski" (Editora Musa, São Paulo, 2003). Neste "Livro Sagrado dos Elefantes", nosso poeta só faz reafirmá-la. E em grande estilo. Ivo Barroso, poeta e tradutor, no Prefácio, ao narrar uma fábula indiana, defende o direito de os poetas, esses "vedores", estenderem sua visão até o inimaginado. Essa defesa podemos traduzi-la como o reconhecimento de que os poetas habitam uma província onde a lógica não se curva docilmente aos princípios que regem o mundo empírico (nada é mais real do que o nada, pregava o pré-socrático Demócrito). Os poetas sabem disso. Por isso sua lógica particular. Particular, mas não arbitrária. Particular porque só eles têm a "chave do reino".
                       Croce e Vossler, a lembrança me vem agora, polemizaram em torno da frase: "A mesa redonda é quadrada". Para o pensador italiano, a frase se resumiria a uma ausência total de sentido, ilógica, enquanto o crítico alemão a viu como verdadeira, pois estética e gramaticalmente válida, pouco lhe importando que logicamente impossível. Vossler, como tantos outros, antes e depois dele, percebeu que o poeta é aquele que cria realidades. Poetas são criadores de mundos. Por isso, nos poemas e fábulas do "Livro Sagrado dos Elefantes", Eric Ponty, músico, além de poeta, segue o conselho wagneriano de que o poeta outra coisa não faz a não ser estimular o entendimento, levando o leitor a efetuar novas combinações em cima das matérias já conhecidas por meio da percepção sensorial. 
                      Se, como nos diz Ponty num dos poemas, "é preciso escutar o que o mundo tem a dizer", também não é menos verdade que devemos ouvir o que os poetas nos têm a dizer ( poucos   decifram  melhor o mundo do que os poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força criadora, muito nos tem a dizer. É urgente que ouçamos sua voz, uma das mais talentosas de seu tempo.

João da Penha

OS ELEFANTES DE PONTY - IVO BARROSO


Uma conhecida fábula indiana, da qual existem várias versões, conta, numa delas, que  três cegos se aproximaram de um elefante para “vê-lo” pelo tato. O primeiro tocou-lhe uma das orelhas e concluiu que o elefante era um pássaro de enorme envergadura, com asas destituídas de penas. O segundo, agarrando-lhe uma das presas, convenceu-se de que o elefante era um peixe de focinho afilado. O terceiro, abraçando-lhe a  perna, imaginou o elefante como uma torre de carne encimada por descomunal cabeça. Tudo isto vem a propósito das formas de “ver”. No caso, temos “visões” fantasiosas de quem não vê, no sentido  mais vulgar da palavra. Mas as maneiras de ver de quem vê, dependendo de quem seja esse vedor, podem revelar “visões” ainda mais mirabolantes que as dos três cegos indianos.  E quando quem vê é um poeta e um artista plástico, essas visões  podem atingir o nível do inimaginado.

        Eric Ponty viu o elefante, ou melhor, viu vários elefantes e escreveu sobre o que viu. Mas sendo poeta, e um poeta muito especial, as maneiras de ver de Eric  Ponty têm equivalentes literários semelhantes às visões tácteis dos cegos indianos. Sérgio Campos viu as visões de Eric Ponty. Sérgio Campos  é um artista plástico muito especial.  Texto e imagem nos dão visões oníricas, surrealistas, visões diferentes ou para além daquelas que nós, os pobres mortais, podemos apreciar com os simples olhos da face.

Essas visões deram lugar a um livro. Um livro também para as crianças? Porque não. As crianças são capazes de devaneios semelhantes aos sonhos dos poetas, de imaginações que suplantam as suposições sensoriais. Mas é também um livro para adultos, pela sua beleza, sua poesia, sua capacidade de nos ajudar a ver algo mais que a realidade concreta e dimensional dos nossos olhos. 

 IVO  BARROSO

sexta-feira, outubro 09, 2026

MEMÓRIA - IMAGENS - ERIC PONTY

 

Eu me tornei estranho para o mundo - (Ensaio) - Eric Ponty - Trad. Ivo Barroso

       Muitas besteiras foram ditas sobre Gustav Mahler, então me deixe juntar a este seleto grupo com as minhas observações, que farei a partir de um lied considerado fundamental na biografia deste compositor que é Ich bin der Welt abhanden gekommen na recente tradução inédita de Ivo Barroso dedicado a minha pessoa. 
      Gustav Mahler é considerado um compositor de fácil acesso por alguns por ser melódico, mas nem toda melodia é popular e acessível, basta pensarmos de passagem pela melodia de Tristão e Isolda de Richard Wagner que eu adoro.
     Toda obra musical de Gustav Mahler se resume a 10 sinfonias e uma sinfonia inacabada, pois Canção da Terra (Das lied Von der Erde) é na verdade uma sinfonia cantada inspirada pelos poemas dos poetas chineses, além de uma abertura para uma ópera, peças sem importância da juventude, e os famosos lieds como os proféticos e fatídicos Lieds das Crianças Mortas na vida do compositor.
      Se a melodia da obra de Gustav Mahler é acessível aos ouvidos assim para ouvidos não educados em música erudita, eu recomendo que o eventual leitor destas considerações comece pela sinfonia de no 7ou sinfonia no 2 (auferstehung) onde há um pequeno e maravilhoso lied Urlich, reaproveitado nesta sinfonia da obra Menino e o Corneteiro consagrada aos primeiros lieds.
       Na verdade, a única sinfonia acessível de Gustav Mahler é sua primeira sinfonia, por ser a mais curta, e exigir menos dos ouvidos preguiçosos, e, por conter citações folclóricas além de possuir a irônica e deliciosa passagem do Cortejo da Morte do Caçador, onde os animais passam em cortejo em homenagem à pessoa morta do seu principal algoz.
       Gustav Mahler é um judeu que se converteu ao catolicismo, mas a alma não, continuou errante como os Alpes que este admirava em busca de uma terra prometida, de uma transcendência para sua forte personalidade, pois, em vida foi mais famoso como maestro que poderia fazer um ensaio de oito horas seguidas para procurar um tom que estava somente em sua cabeça. 
        Mágica e melódica é sua Sinfonia n0 4, mas exige, um pouco mais do ouvinte que se encerra com a bela e edificante Sehr behaglich onde a voz da soprano nos faz pensar que chegamos ao céu como nos sugere o lied ou como a terceira Sinfonia onde há o famoso poema de Friedrich Nietzsch que encerra a mesma inserindo-se historicamente nas questões da Viena dos primórdios do século XX.
        Gustav Mahler é o músico que sintetiza a dor e da solidão talvez porque tenha tido uma trágica vida com a morte dos filhos, após compor fatídicos Lieds das Crianças Mortas ou porque alguns o consideravam com problemas de sexualidade não administrada,e, que o lied Ich bin der Welt abhanden gekommen seja uma peça para compreensão da obra deste compositor que nos deixou sua décima primeira sinfonia inacabada, como se nos disse-se que foi um poeta que abriu as portas para as outras gerações, com o silêncio das partes não terminadas.
        O lied Ich bin der Welt abhanden gekommen possui a duração de exatamente de sete minutos sendo para ser executado com orquestra, mas nele há elementos para se compreender as sinfonias seja pela exposição e reexposição dos temas melódicos, segundo George Steiner, para Wittgenstein, Mahler era um compositor brilhante, porém absolutamente falso e meramente técnico, elegendo o maçante Bruckner (para meu gosto) como a verdade transcendental.
        No lied Ich bin der Welt abhanden podemos sobrepor os outros lieds, e, estão ali sintetizadas as questões filosóficas e pessoais deste compositor que perpetuam a personalidade desta estranha visão da vida e da morte misturadas em sofisticados termos musicais, quiçá, filosóficos, pois não custa lembrar que esta música segue um “programa” para as argumentações abstratas das sinfonias que lembram a pequenez do homem diante da vida e da natureza diante do iniludível e da crença em outra vida.
        Recebi emocionado a tradução deste lied capital das mãos de Ivo Barroso o nosso tradutor de Lobo da Estepe de Herman Hesse dedicado à minha pessoa, e, que percebeu a minha identificação com este lied escrito pelo poeta alemão De Friedrich Rückert:, colaborador de Gustav Mahler,e, do qual reproduzo com a autorização deste:

Dedicado a Eric Ponty

Eu me tornei estranho para o mundo
com o qual perdi outrora tanto tempo;
faz muito que não ouve a meu respeito
que pode mesmo achar que já morri.

Para mim é de todo indiferente
que ele me trate como fosse morto.
Nada posso dizer contrário a isso
pois de fato morri para este mundo.


Estou bem morto para o seu tumulto
e descanso num lugar de quietude.
Sozinho vivo no meu paraíso,
no meu amor, nas notas do meu canto.

Tr. de Ivo Barroso

Friedrich Rückert: - Ich bin der Welt abhanden gekommen


Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!

 Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied.





MENINO RETIRANTE - STELLA LEORNADOS - 2010

 


 

Hugo von Hofmannsthal - Trad. Eric Ponty

 CENA

Com um aroma cinza-prateado, 
o vale estava imerso no crepúsculo, como se a lua
Se infiltrasse através das nuvens. Mas não era noite.
Com o aroma cinza-prateado do vale escuro,
Meus pensamentos crepusculares se dissiparam,
E, em silêncio, mergulhei naquele mar ondulante,
Transparente, e deixei a vida.
Que flores maravilhosas havia ali,
Com cálices que brilhavam sombriamente! 

Um matagal denso, pelo qual uma luz amarelo-a vermelhada, 
feito de topázios, penetrava e resplandecia em fluxos quentes. 
O todo estava repleto de um profundo murmúrio
De música melancólica. E eu sabia disso,
embora não a compreendesse, mas eu sabia:
isso é a morte. Ela se tornou música,
intensamente ansiosa, doce e com brilho sombrio,
semelhante à mais profunda melancolia.
Mas que estranho!

Uma saudade sem nome chorava em silêncio
na minha alma pela vida, chorava,
como alguém chora quando, em um grande navio marítimo,
com velas gigantes amarelas ao entardecer,
sobre águas azul-escuras, passa pela cidade,
a cidade natal.
 Lá ele vê as ruelas, ouve o murmúrio das fontes, sente
o perfume dos arbustos de lilás, vê a si mesmo.
Uma criança, parada na margem, com olhos de criança,
Que estão assustados e querem chorar, vê
Através da janela aberta a luz em seu quarto –
Mas o grande navio o leva adiante,
Deslizando silenciosamente sobre águas azul-escuras,
Com velas gigantes amarelas de formas estranhas.

ANTES DO DIA   

E, na borda pálida do céu,
a tempestade se encolhe sobre si mesma.
Agora, o doente pensa: “Pronto! Agora vou dormir!”
E fecha as pálpebras quentes. 
Agora, a jovem vaca no estábulo estica as narinas fortes
em busca do aroma fresco da manhã. 
Agora, na floresta silenciosa,
o vagabundo, sujo, levanta-se
da cama macia de folhas do ano anterior
e, com mão atrevida, arremessa a próxima pedra
contra um pombo que voa embriagado pelo sono,
e se assusta consigo mesmo ao ver como a pedra, tão surda
e pesada, cai na terra. Agora a água corre,
Como se quisesse seguir a noite, que se esgueirou,
Para a escuridão, indiferente, selvagem
E com sopro frio, enquanto lá em cima
O Salvador e a Mãe, baixinho, baixinho,
Conversam na pontinha: baixinho.
E, no entanto, sua pequena conversa é eterna
E indestrutível como as estrelas lá em cima.
Ele carrega sua cruz e diz apenas: “Minha mãe!”
E olha para ela, e: “Ah, meu querido filho!”
Diz ela. – Agora, o céu e a terra têm
Um diálogo mudo e opressivo.
 Então, um arrepio percorre o corpo pesado e ancião:
Ela se prepara para viver o novo dia.
Agora surge a luz fantasmagórica do amanhecer. Agora
Alguém sem sapato esgueira-se da cama de uma mulher,
Corre como uma sombra, escala como um ladrão
Pela janela para seu próprio quarto, vê-se
No espelho da parede e, de repente, sente medo
Desse estranho pálido e exausto,
Como se esse mesmo estranho, esta noite,
Tivesse assassinado o bom menino que ele era,
E agora viesse lavar as mãos
No jarro de sua vítima, como se fosse uma zombaria,
E por isso o céu estivesse tão opressivo,
E tudo no ar tão estranho.
Agora a porta do estábulo se abre. E agora já é dia.

Hugo von Hofmannsthal - Trad. Eric Ponty

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quinta-feira, outubro 08, 2026

Friedrich Rückert - Trad. Eric Ponty

 Desperta, ó luz do canto

Desperta, ó luz do canto,
Ó luz da lembrança!
Ao redor do céu há uma nuvem angustiante
De luto, já o suficiente.
Não deve, em meu coração,
Haver também escuridão.
Para isso, à noite, temos velas,
Quando o sol se põe.
Substituir o brilho do sol,
Ó vela, tu não podes;
Mas o olho não pode se deleitar
Em nenhuma outra luz.
Eu hesito em relação ao coração, por quanto tempo ele
Fica sem o ímpeto da alegria;
Desperta, ó luz do canto,
Ó luz da bem-aventurança!
Desperta, doce exuberância,
Ó luz da lembrança,
Até que, com o ímpeto apaziguado,
Eu adormeça no crepúsculo!

Que minhas lamentações fluam docemente

Que minhas lamentações fluam docemente,
Como os cristais no riacho da primavera,
Que saltitam com alegria na margem,
Onde, da beira, duas flores se inclinam
E, em silêncio, se contemplam no espelho azul sereno,
Mas, convidadas
A banhar-se, recuam timidamente,
E se aconchegam, como se tivessem vergonha;
Mas as ondas que precisam passar, em sua passagem, 
turvam com tristeza seu brilhante olhar;
saúdam dolorosamente ao seguirem adiante,
gostariam de permanecer, mas são obrigadas a partir.
Que minhas lamentações oscilem docemente,
como os ramos se estendem pelo solo,
ansiando pela chama da vida,
Em direção ao tronco que se eleva ao céu,
Que se inclina quando tocado pelos suaves
Ventos da primavera, mas os ramos orgulhosos
Ele ergue novamente, sem ter piedade dos pobres,
Que se esforçam em vão
Para desabrochar, aproveitando cada sopro de ar,
Suportes falsos que apenas as erguem,
Para, com tremor, deixá-las cair
No solo úmido, onde se desesperam.
Minhas lamentações devem gemer docemente,
Como os sons dos graciosos rouxinóis,
Que, acima de tudo, Rosa, são levados a amar-te,
E que não percebem as multidões de flores,
Que se aglomeram ao redor dos cantos,
Se aglomeram ao redor, mas apenas para te louvar, a ti,
Ressoa a melodia: “Rosa, no aposento nupcial,
Acorda, desperta! Sai do perfume dos sonhos
Para os aposentos, para que a terra áspera
Se torne suave, para que a pálida
Vermelhidão da morte se retire, quando, com cantos nupciais,
Nosso bater de corações te corar as amuras.”

Friedrich Rückert - Trad. Eric Ponty

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

DUAS MISSIVAS DO DOUTOR E COMPOSITOR ANDERSEN VIANNA - F. CLÓVIS SALGADO @ UFMG

 NA PERSONA DE GREGÓRIO DE MATOS - LIBRETO - ERIC PONTY
Estimado ERIC!

Espero que tudo esteja indo bem com vc. Parabéns pelo belíssimo trabalho. Creio que é uma obra erudita de peso. Eu ainda estou engatinhando no Libretto de ópera que mistura Prosa e Poesia. A Prosa é o enredo propriamente dito, e a Poesia são as Árias (assim denominadas no meio da dramaturgia musicada desde seus primórdios na Itália em fins de 1500), tudo somado, temos o Libretto.

Re: FLORES DO MAL - TRAD. ERIC PONTY
Caro amigo Eric Ponty,

Agradeço o envio da obra, que é magnífica. Parabéns. Foi um esforço hercúleo e MUITO necessário para a cultura brasileira. Poesia é o último estágio na Arte... Sempre a achei subjetiva demais e complexa por isso mesmo (eu preciso de aulas de análise com cada poeta para entender os signos e significados de cada poema).
Abs,
Andersen 

P.S.: Traduzi para o inglês "O macaco que foi rei por um dia" do Oranice...


A Defesa de Guenevere - William Morris (1834–1896) - Trad. Eric Ponty

MAS, sabendo agora que iriam fazê-la falar,
Ela jogou o cabelo molhado para trás, afastando-o da testa,
Com a mão perto da boca, tocando a amura,
Como se tivesse recebido ali um golpe vergonhoso,
E sentindo que era vergonhoso sentir qualquer coisa além de vergonha     
Por todo o seu coração, mas sentindo a amura arder tanto,
Que precisava tocá-la um pouco; como alguém coxo,
Ela se afastou de Gauwaine, com a cabeça
Ainda erguida; e na amura em chamas,
As lágrimas secaram veloz; ela parou por fim e disse: 
“Ó cavaleiros e senhores, parece-me pouca habilidade
Falar de coisas bem versadas, já caídas e mortas.
“Deus sabe que eu deveria dizer: agi mal,
E peço a todos, de todo o coração, perdão!
Pois devem estar certos, senhores tão ilustres; ainda assim
“Ouçam: suponham que tivesse chegado a hora de morrerem,
E que estivessem totalmente sozinhos e muito fracos;
Sim, deitados à beira da morte, enquanto com grande força
“O vento agitava a estreita faixa
Do rio que corre bem por suas vastas terras: 
Suponham que se fizesse silêncio, e então alguém falasse:
“‘Um desses panos é o céu, e o outro é o inferno,
Agora escolha um tecido para sempre; quais sejam,
Não vou lhe dizer, deve, de alguma forma, dizer:
“‘Da sua própria força e poder; aqui, veja!’
Sim, sim, meu senhor, e, ao abrir os olhos,
Ao pé da sua cama familiar, verá:
“Um grande anjo de Deus em pé, com cores
Desconhecidas na Terra, em suas grandes asas e mãos,
Abertas em duas direções, luz vinda dos céus internos 
“Mostrando-o bem e fazendo com que suas ordens
Parecessem ser ordens de Deus, além disso, também,
Segurando em suas mãos os panos em varas;
“E um desses estranhos panos escolhidos era azul,
Ondulado e longo, e outro curto e vermelho; 
Ninguém sabia dizer qual dos dois era melhor.
“Após meia hora de tremores, você disse:
‘Deus me ajude! A cor do céu, o azul’; e ele disse: ‘o inferno’.
Talvez você então se revirasse na cama,
“E clamasse a todos os homens bons que tanto te amavam, 
‘Ah, Cristo! Se ao menos eu soubesse, soubesse, soubesse’;
Lancelot foi embora, então eu pude perceber,
“Como o homem mais sábio, como tudo seria, gemer,
E me revirar e me machucar, e ansiar pela morte,
E, ainda assim, temer muito morrer pelo que foi semeado. 
“No entanto, ó Sir Gauwaine, mente,
Seja o que for que tenha acontecido ao longo desses anos,
Deus sabe que falo a verdade ao dizer que mente.”
Sua voz estava baixa no início, cheia de lágrimas,
Mas, à medida que se clareava, tornou-se alta e estridente, 
Transformando-se em um grito cortante nos ouvidos de todos os homens,
Um zumbido em seus cérebros assustados, até que
Ela disse que Gauwaine mentia; então sua voz se abafou,
E seus grandes olhos abriram antes a se encher de lágrimas,
Embora ela jazesse ereta, sem jamais recuar, 
Mas continuasse a falar com coragem, gloriosa e bela dama!
Quaisquer que fossem as lágrimas que seus lábios carnudos tivessem absorvido,
Ela permaneceu de pé, parecendo refletir, e torcia os cabelos,
E por fim falou sem mais nenhum traço de vergonha,
Com um contorcer abismado de seu corpo ali: 
“Aconteceu que, certo dia, Lancelot veio
Para morar na corte de Artur: na época do Natal
Isso aconteceu; quando os arautos entoaram seu nome,
“Filho do rei Ban de Benwick”, parecia ressoar
Junto com todos os sinos que tocavam naquele dia, 
Sobre os telhados brancos, com pouca variação na rima.
“O Natal e o inverno branco passaram,
E sobre mim chegou o sol de abril,
Tornado terrível pelas nuvens negras de granizo, sim,
“E no verão eu empalideci com as chamas, 
E abaixei a cabeça: outono, e os doentes;
A certeza de que as coisas nunca mais seriam as mesmas;
“Por mais que a primavera se mostrasse exuberante;
De flores e botões, isso me atingiu, e eu me tornei;
Indiferente à maioria das coisas, 
deixando o relógio fazer tique-taque, tique-taque;
“Ao meu pulso infeliz, que batia direto através
Meu corpo ansioso; enquanto eu ria alto,
E deixava meus lábios se curvarem, fosse falso ou verdadeiro,
“Pareciam frios e superficiais, sem qualquer nuvem.
Eis que, meus juízes, então trouxeram os panos; 
Enquanto eu estava assim tonto, velhos pensamentos se aglomeravam,
“Pertencentes ao tempo antes de eu ter sido conquistado,
Pelo grande nome de Arthur e seu pequeno amor;
Devo desistir para sempre, pensei,
“Aquilo que eu considerava que sempre me envolveria, 
Glorificando todas as coisas; por uma pequena palavra,
Que quase nunca teve sentido algum, devo agora provar
“Que estou fria como pedra para sempre? Peço-vos, será que o Senhor
Deseja que todas as pessoas sejam totalmente felizes e boas?
Amo a Deus agora um pouco; se esse laço,
“Se rompesse, de uma vez por todas, que esforço poderia
Fazer-me amar qualquer coisa na terra ou no céu?
Assim, dia após dia, isso crescia, como se alguém devesse
“Deslizar sem pressa por alguma passagem afundada, lisa e monótona,
Descendo até um mar fresco num dia de verão; 
No entanto, ainda naquela descida havia um pequeno fermento
“De mãos desdobradas pegando pedrinhas pela passagem,
Até que uma delas, certamente, alcançasse o mar por fim,
E sentisse uma alegria nova e estranha enquanto a cabeça cansada repousava
“Para trás, com os cabelos como algas marinhas; 
sim, tudo já passou de suor da testa, secura dos lábios,
Lavados por concluído pelas prezadas ondas que se erguiam,
“No mar solitário, longe de qualquer navio!
Não conheço agora um dia de primavera?
Nenhum minuto daquele dia selvagem jamais escapa,
“Da minha memória; ouço os tordos cantarem,
E onde quer que eu esteja, já
Pensamentos de tudo isso surgem com uma pontada fresquíssima:
“Eu estava meio enlouquecida pela beleza naquele dia,
E saí sozinha, sem minhas damas, 
Em um jardim sereno, cercado por muros por todos os lados;
“Eu estava muito feliz com aquele muro de pedra,
Que isolava as flores e as árvores do céu,
E triplicava toda a beleza: até os ossos,
“Sim, bem até o meu coração, que se tornara muito tímido
Com pensamentos cautelosos, ela o perfurou e me deixou feliz;
Assaz feliz, e eu sabia, de verdade,
“Uma coisinha, naquela exata ocasião, tinha me largado louca;
Não ousava pensar, como costumava fazer,
Às vezes, na minha beleza; se eu tivesse
“Estendido minha longa mão contra o azul,
E, olhando para os dedos ternamente escurecidos,
Pensasse que, por direito, deveria ser possível ver bem por meio deles,
“Ali, veja, onde a luz suave e tranquila ainda paira
Ao redor das bordas; o que eu teria feito,
Se isso se unisse a cantores salpicados de amarelejo,
“E a um verde admirável atraído para cima pelo sol?
Mas gritando, soltando, veja agora! todo o meu cabelo,
E, em transe, fiquei observando o vento do oeste soprar
“Com o mais fraco som de respiração, quase inaudível: por que ali.

William Morris (1834–1896) - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quarta-feira, outubro 07, 2026

O LIVRO DAS IMAGENS (EXCERTO) - RAINER MARIA RILKE - TRAD. ERIC PONTY

 Agora a hora se inclina e me toca
com seu som claro e metálico:
meus sentidos tremem. A sensação se forma: eu posso—
e agarro o dia maleável.

Nada estava completo antes de eu vê-lo,
tudo o que estava em devir parou.
Meus olhos estão maduros, e tudo o que eles desejam
se aproxima como uma noiva.

Nada é pequeno demais: contra um fundo dourado
eu o pinto em grande escala e com carinho
e o ergo bem alto, e nunca saberei
de quem será a alma que ele poderá libertar…

Vivo minha vida em círculos cada vez mais amplos
que se estendem por cima das coisas.
Talvez eu não alcance o último deles,
mas esse será meu objetivo.

Giro em torno de Deus, em torno da torre milenar;
venho girando há milênios
e ainda não sei: serei um falcão, uma tempestade,
ou uma canção soberana?

Tenho muitos irmãos que vestem batinas claras
no Sul, onde nos claustros há louro.
Sei como, humanamente, eles criam madonas,
e sonho frequentemente com os jovens Ticianos
através dos quais Deus se move em chama pura.

No entanto, aqui, onde os instintos se voltam para dentro:
Meu Deus é sombrio e como uma teia
de raízes emaranhadas, todas bebendo em silêncio.
Que, desse calor ávido, eu me levante,
é tudo o que sei: pois meus galhos mantêm calma perfeita
e apenas sussurram ao vento.

Você, Deus vizinho, se às vezes, na longa noite,
eu o acordar com minhas batidas fortes, —
é só porque raramente ouço você respirar
e sei: você está sozinho naquele quarto enorme.
E caso precise de algo, não há ninguém lá
para levar água aos seus lábios.
Estou sempre à escuta. Dê um pequeno sinal.
Sinta minha presença aqui.

Apenas uma parede fina nos separa,
e isso por mero acaso: talvez bastasse um único chamado
da sua boca ou da minha —
e ela desmoronaria
completamente, sem fazer barulho.

É uma parede construída com suas imagens.

E suas imagens estão diante de você como nomes.
E quando a luz dentro de mim se acende —
aquela luz pela qual o mais íntimo da minha alma te discerne —
ela reflete em suas molduras como um brilho ofuscante.

E meus sentidos, que rapidamente falham,
estão abandonados, isolados de você.

Vivo bem à beira do século.
É possível sentir o vento vindo de uma grande página —
que Deus, você e eu preenchemos com palavras —
que agora gira bem lá em cima, nas mãos de estranhos.

É possível sentir o brilho da nova folha,
na qual ainda se pode escrever qualquer coisa.

As forças silenciosas testam sua amplitude
e se olham com ar sombrio.

Li isso em tua palavra, aprendi com a história
daqueles gestos com que tuas mãos
se fechavam em torno de cada coisa incipiente —
calorosas, acolhedoras, sábias.
Tu declaraste: “Viva com força e morra suavemente”
e repetias incessantemente: “Seja”.
Mas, antes da primeira morte, veio o assassinato.
Com isso, uma ruptura rasgou teus círculos perfeitos
e um grito irrompeu
e dispersou todas aquelas vozes
que haviam acabado de se unir
para cantar para ti,
para te carregar,
sua ponte sobre todos os abismos—

E o que elas vêm balbuciando desde então
são fragmentos
do teu nome antigo.

RAINER MARIA RILKE - TRAD. ERIC PONTY
  
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

A cigarra e a formiga - Jean de La Fontaine - Trad. Eric Ponty

A Cigarra tendo cantado,
Todo o verão sem um perdão
Quando à brisa vento chegou, 
viu-se em confusa estadia:
Nem pedacinho de brisa,
Nem de mosca ou minhoca.
Á Cigarra gritou por comida 
Pra à Formiga da porta ao lado,
Implorando-lhe a empreste-lhe,
Alguns grãos sobreviver 
Em até à nova estadia
Que de uma nova estadia...

- Pago-lhe", - Cigarra, - em fé,
Antes de Agosto, a fé animal,
É coisa será capital.
Formiga não emprestadora;
Sendo é o menor dos defeitos.
"Que estava a fazer Verão quente? 
disse formiga pra infeliz mutuária.
- Noite e dia pra todos visitantes
Estava a cantar. não se importam.
- Cantar? Mui contente. – Estadia. - 
Formiga:  - Bem, já dançou hoje.

Jean de La Fontaine - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

terça-feira, outubro 06, 2026

SONETO DA PORTUGUESA - Elizabeth Barrett Browning - TRAD. LEORNADO FRÕES @ ERIC PONTY

DOUTORA ESCREVER PARA ERIC3PONTY@YAHOO.COM

Como te amo? Deixa-me contar os modos.
Te amo do fundo e da largura e aturam 
A que a alma chega quando os fins procuram
Do Ser, da Graça ideal, sumindo a todos.

Eu te amo ao nível das necessidades
Serenas, seja ao sol ou luz de vela.
Livre te amo como quem luta pela
Justiça; pura te amo sem vaidades.

Te amo com a paixão que punha em uso
Na dor; com a confiança de menina.
De um amor te amo às vezes já confuso,
    
Pois, quando perde, a mais se determina.
Te amo rindo e chorando. E até me induzo
A na morte te amar, se Deus designa.

TRAD. LEORNADO FRÕES


Como eu te amo? Deixa-me contar os jeitos.
Eu te amo com a finura, ardor e a altitude
Que minha alma pode arrumar, quando busco, sem ver,
Os confins do Ser e da Graça ideal.

Eu te amo no nível da precisão mais silente do dia a dia,
À luz do sol e à luz de velas.
Eu te amo livremente, quais homens lutam pelo Direito;
Amo-te puramente, quais eles se apartam do Louvor.

Amo-te com a paixão empregada
Em minhas antigas mágoas e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que parecia ter perdido.

Com meus santos perdidos — amo-te com o fôlego,
Dos sorrisos, as fúcsias de toda a minha vida! — e, se Deus quiser,
Amo-te ainda mais após a morte.

PARÁFRASE  DE ERIC PONTY

 Como eu te amo? Deixa-me contar os jeitos.
Eu te amo tua amargura, tua tristeza, teus feitos
Que minha alma pode arrumar, busco, sem ver,
Teu sexo, tua estria, confins do Ser e da Graça ideal.

Eu te amo no nível da precisão mais silente do dia a dia,
À luz do sol e à luz de velas abrigando o teu ser,
Eu te amo livre eterna, quais homens lutam pelo Destro;
Amo-te pura infinito, quais se apartam Louvor e Amor.

Amo-te com paixão empregada nos meus versos mais findos
Em minhas antigas mágoas e com fé da minha infância.
Amo-te com um amor que parecia ter perdido.

Com meus santos idos — amo-te com fôlego, e, flama, verdade, 
Dos sorrisos, as fúcsias de toda a minha vida de minha lida!
 — E, se Deus quiser, Amo-te ainda mais após a morte ainda mais forte.


TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

segunda-feira, outubro 05, 2026

Romance sonâmbulo - Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

PARA MINHA AMADA DOUTORA 

 A Gloria Giner y a Fernando de los Ríos

Verde, como eu te amo verde.
Vento verde. Galhos verdes.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha em sua varanda
verde como a carne, cabelos verdes,
com olhos de prata fria.
Verde, como eu te amo verde.
Sob a lua cigana,
as coisas estão olhando para ela
e ela não consegue olhar para elas.

Verde, como eu te amo, verde.
Grandes estrelas de gelo,
chegam com o peixe-sombra
que abre o caminho do amanhecer.
A figueira esfrega seu vento
com a lixa de seus galhos,
e a montanha, gato-garduño,
eriza seus espinhos amargos.

Mas quem virá? E por onde?…
Ela continua em sua varanda,
verde como a carne, cabelos verdes,
sonhando com o mar amargo.


Amigo, quero trocar,
meu cavalo pela sua casa,
minha sela pelo seu espelho,
minha faca pela sua manta.
Amigo, venho sangrando,
desde os portos de Cabra.
Se eu pudesse, rapaz,
esse negócio estaria fechado.
Mas eu já não sou mais eu,
nem minha casa é mais minha casa.
Amigo, quero morrer
decentemente na minha cama.
De aço, se possível,
com lençóis de Holanda.
Você não vê o ferimento que tenho
do peito até a garganta?
Trezentas rosas escuras
adornam seu peitoral branco.
Seu sangue escorre e exala um cheiro
ao redor da sua faixa.
Mas eu já não sou mais eu.
Nem minha casa é mais minha casa.
Deixem-me subir pelo menos
até as altas grades,
deixem-me subir! deixem-me
até as grades verdes.
Grades da lua
por onde a água ressoa.

Os dois amigos já sobem
em direção às altas grades.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam nos telhados
lanterninhas de lata.
Mil tamborins de vidro,
feriam a madrugada.

Verde, como eu te amo verde,
vento verde, galhos verdes.
Os dois compadres subiram.
O vento forte deixava
na boca um gosto estranho
de fel, de hortelã e de manjericão.
Compadre! Onde ela está, me diga?
Onde está sua garota amarga?
Quantas vezes ela esperou por você!
Quantas vezes ela esperou por você,
com o rosto fresco e o cabelo negro,
nesta grade verde!

Sobre a superfície da cisterna,
a cigana balançava.
Pele verde, cabelos verdes,
com olhos de prata fria.
Um gelo de lua,
a mantém sobre a água.
A noite tornou-se íntima,
como uma pequena praça.

Guardas civis bêbados,
batendo na porta.
Verde, como eu te amo, verde.
Vento verde. Galhos verdes.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, outubro 04, 2026

LIED PARA STAEL VIEGAS - ERIC PONTY

P/SÃO JOÃO$ISRAEL 

SÊ és música, te entristece-o ouvi-la?
Sê o doce é doce e a alegria é alegre,
porque é que amas aquilo com amargura
Ao ter prazer faça-nos desprezíveis?

Sê não estiver satisfeito por ouvi-la,
Casal de notas com notas que somam,
é porque o repreendem com voz suave:
Da partitura não é só pra si.

As cordas, como sabe, estão dispostas,
Pares bem distintos e através notas,
Por enquanto nos cantam um acorde.

Parecem-se com pai, filho e mãe amada,
E tua canção, sem letra e com talento,
Cantam pra si: "Vós, solista, não percas".

 

 DR. ANDERSEN VIANNA - FUNDAÇÃO CLÓVIS SALGADO - UFMG

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Poemas - Allison Grayhurst - Trad. Eric Ponty

P/Allison Grayhurst com abraço

Dê as boas-vindas à morte


Dê as boas-vindas à morte
de abraçar a morte
como um sorriso. Pois tudo
o que sonha por dentro,
tudo o que se espalha imaculado
pelas veias, vira as costas
ao esquecimento, conhece a fé, sabe que
seu destino está sob as
estrelas.

Dê as boas-vindas às folhas que mudam, às
flores cobertas de geada, à vaidade do ser,
de sentir um único Ser, inteiro diante do
mundo.

Dê as boas-vindas ao corpo, às moedas contadas,
ao sofrimento da criança e aos rostos perdidos
na luz da meia-noite, eternamente esquecidos.

Dê as boas-vindas àquele que jaze de pé, àquele que
elogia cada sílaba gritada, purifica
a alma de batalhas estagnadas, hora após hora
sente o frescor da renovação nos punhos cerrados
e nos telefones que nunca tocam.

Dê as boas-vindas ao som de um beijo lembrado
e aos fantasmas que choram para sempre
ao lado de cada coração mortal.

Amor e Deus e cresce


não surge
na tolerância, aprendida,
conquistada com esforço. Resistindo
à crueldade, aos lábios ressecados,
à dor selvagem, ela se torna maior
do que o amor e Deus e cresce
até que todos os gestos a revelem.

Secretamente, à sombra da devoção,
ela se enfurece. Agachada atrás de igrejas e
escadarias, ela torna sua droga mais doce
do que o toque. Queima o estômago, priva
o coração das riquezas da fé.

Quando chega, não há erro algum,
nem a presença instável
da dúvida.

Quando chega, chega galopando,
circulando como o anoitecer
em torno da grande gema da alma.

A cama está desarrumada.
Os telhados são lindos
e brancos.

Lar é um bolo de aniversário


O lar é um bolo de aniversário,
uma pintura gravada em luz cremísia.
Os gatos observam atentamente.
Os sons lá fora são poucos. Um dos amantes
está dormindo, o outro respira a vista invernal.

Como uma purificação, como uma página em branco
ou uma fatia de pão italiano,
a neve desce, trazendo calor
às veias, trazendo o conforto
de suéteres e meias de tricô, unindo
os corpos e levando o ano ao fim.

A primeira neve do inverno caindo
como uma nova chance, como uma despedida
das cores que se desvanecem e das flores nos túmulos.

A primeira neve do inverno chegando,
sua maré de magia em ação
acariciando e afastando a fúria da cidade
com seu abraço frio e imaculado.

A moldura de pedra
A moldura de pedra canta
meu limiar, canta a
futilidade do meu coração. É uma gaiola tão dura que faz
meus nós dos dedos estalarem, quebra
meus ossos de tanto pular.
A moldura de pedra deseja ser meu útero, mas
nunca poderia ser um casebre reconfortante,
ou um lugar de descanso longe do
vento do mundo e das chamas.
A estrutura de pedra mutila minha voz
ao protestar, acende um fósforo
na minha resistência e me mantém presa
em seu dormitório úmido e empoeirado.
A estrutura de pedra me deixa sonhar com milhas
de distância de sua porta, mas nunca permite que mais
do que minha imaginação vá vagar.
A estrutura de pedra é minha percepção presa
em uma monotonia sem fé, é meu sorriso covarde
que teme o caos fora de suas paredes cinzentas e imutáveis.

Santuário

 

Ele vira sua cabeça de falcão
para observar as carapaças das tartarugas que cortam em zigue-zague
o manto imóvel da água nos tanques,
tão azuis quanto o céu.

Ele levanta uma perna e, com as garras tensas,
gira para se defender de uma sombra que se aproxima.

Com olhos esbranquiçados e um desejo impossível
de voar, ele salta ao longo de seu poleiro artificial em direção a
as gaiolas onde os esquilos pulam
do metal para a madeira, espalhando-se como folhas
em uma agitação imprevisível.

Ele escuta os sons sem lábios dos patos.

A primavera, ele nunca mais vivenciará, nem conhecerá
o aroma de uma vida reprimida que se liberta como
girassóis desabrochando, ou a sensação da lua,
mais fria, mas mais reconfortante do que ser tocado.

Ele está sem tempo nem tribo,
e, como o fogo, ele assombra
simplesmente por existir.

  Allison Grayhurst - Trad. Eric Ponty

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA