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terça-feira, outubro 06, 2026

SONETO DA PORTUGUESA - Elizabeth Barrett Browning - TRAD. LEORNADO FRÕES @ ERIC PONTY

 

Como te amo? Deixa-me contar os modos.
Te amo do fundo e da largura e aturam 
A que a alma chega quando os fins procuram
Do Ser, da Graça ideal, sumindo a todos.

Eu te amo ao nível das necessidades
Serenas, seja ao sol ou luz de vela.
Livre te amo como quem luta pela
Justiça; pura te amo sem vaidades.

Te amo com a paixão que punha em uso
Na dor; com a confiança de menina.
De um amor te amo às vezes já confuso,
    
Pois, quando perde, a mais se determina.
Te amo rindo e chorando. E até me induzo
A na morte te amar, se Deus designa.

TRAD. LEORNADO FRÕES


Como eu te amo? Deixa-me contar os jeitos.
Eu te amo com a finura, ardor e a altitude
Que minha alma pode arrumar, quando busco, sem ver,
Os confins do Ser e da Graça ideal.

Eu te amo no nível da precisão mais silente do dia a dia,
À luz do sol e à luz de velas.
Eu te amo livremente, quais homens lutam pelo Direito;
Amo-te puramente, quais eles se apartam do Louvor.

Amo-te com a paixão empregada
Em minhas antigas mágoas e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que parecia ter perdido.

Com meus santos perdidos — amo-te com o fôlego,
Dos sorrisos, as fúcsias de toda a minha vida! — e, se Deus quiser,
Amo-te ainda mais após a morte.

PARÁFRASE  DE ERIC PONTY

 Como eu te amo? Deixa-me contar os jeitos.
Eu te amo tua amargura, tua tristeza, teus feitos
Que minha alma pode arrumar, busco, sem ver,
Teu sexo, tua estria, confins do Ser e da Graça ideal.

Eu te amo no nível da precisão mais silente do dia a dia,
À luz do sol e à luz de velas abrigando o teu ser,
Eu te amo livre eterna, quais homens lutam pelo Destro;
Amo-te pura infinito, quais se apartam Louvor e Amor.

Amo-te com paixão empregada nos meus versos mais findos
Em minhas antigas mágoas e com fé da minha infância.
Amo-te com um amor que parecia ter perdido.

Com meus santos idos — amo-te com fôlego, e, flama, verdade, 
Dos sorrisos, as fúcsias de toda a minha vida de minha lida!
 — E, se Deus quiser, Amo-te ainda mais após a morte ainda mais forte.


TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

segunda-feira, outubro 05, 2026

Romance sonâmbulo - Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

PARA MINHA AMADA DOUTORA 

 A Gloria Giner y a Fernando de los Ríos

Verde, como eu te amo verde.
Vento verde. Galhos verdes.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha em sua varanda
verde como a carne, cabelos verdes,
com olhos de prata fria.
Verde, como eu te amo verde.
Sob a lua cigana,
as coisas estão olhando para ela
e ela não consegue olhar para elas.

Verde, como eu te amo, verde.
Grandes estrelas de gelo,
chegam com o peixe-sombra
que abre o caminho do amanhecer.
A figueira esfrega seu vento
com a lixa de seus galhos,
e a montanha, gato-garduño,
eriza seus espinhos amargos.

Mas quem virá? E por onde?…
Ela continua em sua varanda,
verde como a carne, cabelos verdes,
sonhando com o mar amargo.


Amigo, quero trocar,
meu cavalo pela sua casa,
minha sela pelo seu espelho,
minha faca pela sua manta.
Amigo, venho sangrando,
desde os portos de Cabra.
Se eu pudesse, rapaz,
esse negócio estaria fechado.
Mas eu já não sou mais eu,
nem minha casa é mais minha casa.
Amigo, quero morrer
decentemente na minha cama.
De aço, se possível,
com lençóis de Holanda.
Você não vê o ferimento que tenho
do peito até a garganta?
Trezentas rosas escuras
adornam seu peitoral branco.
Seu sangue escorre e exala um cheiro
ao redor da sua faixa.
Mas eu já não sou mais eu.
Nem minha casa é mais minha casa.
Deixem-me subir pelo menos
até as altas grades,
deixem-me subir! deixem-me
até as grades verdes.
Grades da lua
por onde a água ressoa.

Os dois amigos já sobem
em direção às altas grades.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam nos telhados
lanterninhas de lata.
Mil tamborins de vidro,
feriam a madrugada.

Verde, como eu te amo verde,
vento verde, galhos verdes.
Os dois compadres subiram.
O vento forte deixava
na boca um gosto estranho
de fel, de hortelã e de manjericão.
Compadre! Onde ela está, me diga?
Onde está sua garota amarga?
Quantas vezes ela esperou por você!
Quantas vezes ela esperou por você,
com o rosto fresco e o cabelo negro,
nesta grade verde!

Sobre a superfície da cisterna,
a cigana balançava.
Pele verde, cabelos verdes,
com olhos de prata fria.
Um gelo de lua,
a mantém sobre a água.
A noite tornou-se íntima,
como uma pequena praça.

Guardas civis bêbados,
batendo na porta.
Verde, como eu te amo, verde.
Vento verde. Galhos verdes.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

domingo, outubro 04, 2026

LIED PARA STAEL VIEGAS - ERIC PONTY

P/SÃO JOÃO$ISRAEL 

SÊ és música, te entristece-o ouvi-la?
Sê o doce é doce e a alegria é alegre,
porque é que amas aquilo com amargura
Ao ter prazer faça-nos desprezíveis?

Sê não estiver satisfeito por ouvi-la,
Casal de notas com notas que somam,
é porque o repreendem com voz suave:
Da partitura não é só pra si.

As cordas, como sabe, estão dispostas,
Pares bem distintos e através notas,
Por enquanto nos cantam um acorde.

Parecem-se com pai, filho e mãe amada,
E tua canção, sem letra e com talento,
Cantam pra si: "Vós, solista, não percas".

 

 DR. ANDERSEN VIANNA - FUNDAÇÃO CLÓVIS SALGADO - UFMG

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Poemas - Allison Grayhurst - Trad. Eric Ponty

P/Allison Grayhurst com abraço

Dê as boas-vindas à morte


Dê as boas-vindas à morte
de abraçar a morte
como um sorriso. Pois tudo
o que sonha por dentro,
tudo o que se espalha imaculado
pelas veias, vira as costas
ao esquecimento, conhece a fé, sabe que
seu destino está sob as
estrelas.

Dê as boas-vindas às folhas que mudam, às
flores cobertas de geada, à vaidade do ser,
de sentir um único Ser, inteiro diante do
mundo.

Dê as boas-vindas ao corpo, às moedas contadas,
ao sofrimento da criança e aos rostos perdidos
na luz da meia-noite, eternamente esquecidos.

Dê as boas-vindas àquele que jaze de pé, àquele que
elogia cada sílaba gritada, purifica
a alma de batalhas estagnadas, hora após hora
sente o frescor da renovação nos punhos cerrados
e nos telefones que nunca tocam.

Dê as boas-vindas ao som de um beijo lembrado
e aos fantasmas que choram para sempre
ao lado de cada coração mortal.

Amor e Deus e cresce


não surge
na tolerância, aprendida,
conquistada com esforço. Resistindo
à crueldade, aos lábios ressecados,
à dor selvagem, ela se torna maior
do que o amor e Deus e cresce
até que todos os gestos a revelem.

Secretamente, à sombra da devoção,
ela se enfurece. Agachada atrás de igrejas e
escadarias, ela torna sua droga mais doce
do que o toque. Queima o estômago, priva
o coração das riquezas da fé.

Quando chega, não há erro algum,
nem a presença instável
da dúvida.

Quando chega, chega galopando,
circulando como o anoitecer
em torno da grande gema da alma.

A cama está desarrumada.
Os telhados são lindos
e brancos.

Lar é um bolo de aniversário


O lar é um bolo de aniversário,
uma pintura gravada em luz cremísia.
Os gatos observam atentamente.
Os sons lá fora são poucos. Um dos amantes
está dormindo, o outro respira a vista invernal.

Como uma purificação, como uma página em branco
ou uma fatia de pão italiano,
a neve desce, trazendo calor
às veias, trazendo o conforto
de suéteres e meias de tricô, unindo
os corpos e levando o ano ao fim.

A primeira neve do inverno caindo
como uma nova chance, como uma despedida
das cores que se desvanecem e das flores nos túmulos.

A primeira neve do inverno chegando,
sua maré de magia em ação
acariciando e afastando a fúria da cidade
com seu abraço frio e imaculado.

A moldura de pedra
A moldura de pedra canta
meu limiar, canta a
futilidade do meu coração. É uma gaiola tão dura que faz
meus nós dos dedos estalarem, quebra
meus ossos de tanto pular.
A moldura de pedra deseja ser meu útero, mas
nunca poderia ser um casebre reconfortante,
ou um lugar de descanso longe do
vento do mundo e das chamas.
A estrutura de pedra mutila minha voz
ao protestar, acende um fósforo
na minha resistência e me mantém presa
em seu dormitório úmido e empoeirado.
A estrutura de pedra me deixa sonhar com milhas
de distância de sua porta, mas nunca permite que mais
do que minha imaginação vá vagar.
A estrutura de pedra é minha percepção presa
em uma monotonia sem fé, é meu sorriso covarde
que teme o caos fora de suas paredes cinzentas e imutáveis.

Santuário

 

Ele vira sua cabeça de falcão
para observar as carapaças das tartarugas que cortam em zigue-zague
o manto imóvel da água nos tanques,
tão azuis quanto o céu.

Ele levanta uma perna e, com as garras tensas,
gira para se defender de uma sombra que se aproxima.

Com olhos esbranquiçados e um desejo impossível
de voar, ele salta ao longo de seu poleiro artificial em direção a
as gaiolas onde os esquilos pulam
do metal para a madeira, espalhando-se como folhas
em uma agitação imprevisível.

Ele escuta os sons sem lábios dos patos.

A primavera, ele nunca mais vivenciará, nem conhecerá
o aroma de uma vida reprimida que se liberta como
girassóis desabrochando, ou a sensação da lua,
mais fria, mas mais reconfortante do que ser tocado.

Ele está sem tempo nem tribo,
e, como o fogo, ele assombra
simplesmente por existir.

  Allison Grayhurst - Trad. Eric Ponty

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

POEMAS - JOHN KEATS - TRAD. ERIC PONTY

 Sobre a Paz


Ó Paz! E será que, com tua presença, abençoas
As moradas desta ilha cercada pela guerra;
Acalmando com tua expressão serena nossa recente angústia,
Fazendo o triplo reino sorrir radiantemente?

Com alegria saúdo tua presença; e saúdo
Os doces companheiros que esperam por ti;
Completa minha alegria — não deixes que meu primeiro desejo falhe,
Que a doce ninfa da montanha seja tua favorita.

E, com a felicidade da Inglaterra, proclame a liberdade da Europa.
Ó Europa! Não permitas que tiranos com cetro vejam
Que deves refugiar-te em teu estado anterior;

Mantém tuas correntes quebradas e declara com ousadia que és livre;
Impõe a lei aos teus reis — não deixes os poderosos sem restrições;
Assim, com os horrores do passado, conquistarás teu destino mais feliz!

Sobre a Morte


Será que a morte é um sono, se a vida não passa de um sonho,
E as cenas de felicidade passam como um fantasma?
Os prazeres passageiros parecem uma visão,
E, no entanto, pensamos que a maior dor é morrer.
Quão estranho é que o homem vagueie pela Terra,
E leve uma vida de sofrimento, mas não abandone
Seu caminho árduo; nem ouse contemplar sozinho
Seu destino futuro, que nada mais é do que despertar.

Encha para mim uma tigela cheia até a borda

“What wondrous beauty! From this moment I efface from my mind all women.” —Terence, The Eunuch, Act II, Sc. V

 
Encha para mim uma taça transbordante;
E deixe-me nela afogar minha alma:;
Mas coloque nela algum remédio destinado;
A banir a Mulher da minha mente.;
Pois não desejo a corrente inspiradora,;
Que aquece os sentidos com desejo lascivo,;
Mas desejo um gole tão profundo;
Quanto jamais foi bebido das ondas do Lete;;
Para afastar do meu peito desesperado
A imagem da forma mais bela
Que meus olhos embriagados já contemplaram,
Que minha imaginação errante já evocou.
É em vão! — não consigo afastar
A suavidade derretida daquele rosto,
O brilho daqueles olhos luminosos,
Aquele peito — o único paraíso da Terra.
Minha visão nunca mais será abençoada;
Pois tudo o que vejo perdeu seu encanto:
Nem com deleite posso explorar
A página clássica, o saber da musa.
Se ela soubesse como meu coração batia,
E com um único sorriso aliviasse sua dor,
Eu teria sentido um doce alívio,
Eu teria sentido “a alegria da tristeza”.
No entanto, assim como um toscano, em meio à neve
Da Lapônia, pensa no doce Arno,
Assim também, para sempre, ela será
A auréola da minha memória.

Como se da escuridão crescente surgisse uma pomba prateada


Assim como da escuridão crescente uma pomba prateada
Alça voo e mergulha na luz do Oriente,
Com asas que nada mais movem senão puro deleite;
Assim fugiu tua alma para os reinos celestiais,
Regiões de paz e amor eterno;
Onde espíritos felizes, coroados com diademas brilhantes
De raios estelares e gloriosamente adornados,
Saboreiam a alegria sublime que só os abençoados podem experimentar.
Lá, ou te unes ao coro imortal
Em melodias que até mesmo o belo céu
Enchem de felicidade superior, ou, a pedido
Do Pai onipotente, fendas o ar,
Enviado em missão sagrada. — Que prazeres há mais elevados?
Por que, então, alguma tristeza empanturra nossa alegria?  

JOHN KEATS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 


sábado, outubro 03, 2026

Se pra uma Rosa e uma Margarida - Eric Ponty

 Doutora Te Amo em Branco na Janela

 Esses versos, Doutora, que tinha,
que ao teu deleite consagro, 
e só os têm dos bons agrados
te conheceres que são maus,
Nem os desculpar quero
nem quero recomendá-los,
Porque isso fora está querer 
fazer deles muito pouco caso.
Não ao agradecido te busco:
pois não deves, bem olhados,
estimar o que eu nunca serão,
julguei que foram as tuas mãos.

Em tua liberdade te ponho,
Se quereis censurá-los assim;
Pois de que, ao fim, te estás
Neles, estou muito ao fim,
Não há coisa mais livre que 
A compreensão humana; 
Pois o que Deus não violenta,
Por que ei lhes de violentá-los?

De quanto os quiseres deles,
que, quando mais inumano 
me os mordêreis, contudo 
se quer às mais obrigado,
Pois lhes deves a mim Musa
ao mais sazonado pranto, 
que és o murmurar, segundo
Um pensamento cortesão.

E sempre que te sirvo, pois
Ao te agrado, ou não te agrado:
Se te agrado, te divertis; vários
murmuras, se não te cenários.
Bem pudera eu ia dizer-te
por desculpa, que não eis dado
Lugar para corrigir-vos
Com pressa destes escritos;
Que vão de diversas letras,
matam de sorte o sentido,
que és cadáver do vocábulo;
E que, quando os hei feito,
Há sido em certo espaço
que feriram ao ócio às 
precauções de meu estado.

Se tenho pouca saúde
E se contínuos embaraços , 
tais, que há dizendo isto, 
Que levo a pluma trotando.
Porém tudo isso não serve,
Pois pensarás que me louvo
de que serão que forem bons
ao fazer-vos feito despacho;
E não quero que tal creias,
Se não só que és ao dar-nos
Ao teu rubor, tão só por
Obedecer-lhe a um mandato.
Isto és, si gostas acredita-lo,
Se sobre isso não me mato, 
Pois ao fim farás o quê
se te puseres no lixo.
E adeus, isto não és mais dês 
Dar-te a mostra do pano: 
Se não te agrada a peça, 
não desenvolvas esses versos.

II
Aos vossos olhos se ofereceis 
Esses versos, por ficares 
ilustrada de tanto sol, 
digno de tanta deidade.

Diverti-los só um instante
És quando aspirar poderás, 
que fora mui empreender 
atravessá-lo a ocupar-vos.
Se eu ousar para servir-vos
És de certas temeridades,
defendido em seu escopo 
se consagrar ao vosso olhar.

Reverente as vossas santas,
solicitam, em seus disfarces,
Não dareis que os discorrer,
Sim só o que lhes explicar.
Tão feliz será lido por seus,
Olhos, que, ufano, dilatará 
De instantes de atenção
aos séculos de vanidade.
Fazer-se imortal busca,
Qual favor tão celestial 
se mede na estimação 
aos preços da eternidade.

Todo quanto até em si
por lidos por si os dá, 
porque não és ferro na fé 
oferecer, senão duvidar-me.
Dê atenção com que se expõe
Não espera que agradeçais;
que, em Vosso culto, ao crer 
impeça-vos por não esperar.

Tão resignado vosso respeito
aos vossos olhares irão,
que a primeira oblação
És não ter mais desejo.
Da ousadia de atrever-se
Não lhes pretende desculpar, 
Que aos buscá-los, tua razão
Se elevou sua indignidade.

Um descuido vosso pede,
por que, sendo os versos tais, 
não prendeste à atenção 
Com ferros da ociosidade.
Muito quer, pois não ignora
que, pela natureza da piedade, 
mais apurado deve ao céu 
Ao desleixo que se fez afã.
Mas nem esquecer nem atenções
Poderão estes versos lograr,
porque és daqueles indignos 
E sóis deles feitos incapazes.
Com tuas deidades os crer;
Porém, ao ver vossa beldade,
Como falar mais que crer,
Se te escusa do ignorar.
Tanto infere que, crendo
mais do que é possível já, 
Qual te cantar Doutora, os tinha.

III


Quando canto faz surgir o mês de outubro
Eu te descubro uma graça bem maior rubra
Que me regressou na época e ser menino
E ao tom do sino ver a vida feminino.

Ver gente em procissão tomando as ruas
Espalhando que és Lírio outra vez cruas,
Que és Rainha do Lenheiro vem chegando
Vem trafegar pelas ruas São João andando. 

Cordas dum violão avançam o corpo cansa
Só pra colo descansar, Só colo descansar
É meu olhar soluçando ao ver o teu olhar
Pequenina e menina segues colher
Rosas e Flores que tua gente quer te dar!

Ó Virgem Maria, tua gente a cantar
Dona de Nazaré! Dona do Pilar!
Ó Virgem Maria, tua gente a cantar
Dona de Nazaré! Dona do Pilar!

Tu és Rainha o manto as flores das Dores,
Reinante no pão humano tão mulher
Tão majestade de Deus nos guardar
Nossa gente, nosso sangue nesse altar;

Tu és Rainha o manto as flores das Dores,
Posteridade que acolheu ser mulher
O segredo encarnado jazes revelando
Por isso hoje é Lírio outra vez andando.

Quando canto faz surgir o mês de outubro
Eu te descubro uma graça bem maior rubra
Que me regressou na época e ser menino
E ao tom do sino ver a vida feminino.

IV

Regado em luz, Regado em luz, ver cruz,
Ao tempo já surgiu, O tempo já ardeu,
Já retornou nos braços da manhã
eterno amor arruma o tempo se deu.

Derramar véu as cores da aliança,
No pão que és da minha dor feita flor.
E ao seu redor Deus acerca de Verbo,
Cede o colo pra me abrigar mulher,
E me guia quando eu não sei seguir.

Abro as portas do meu coração ter,
Descer o manto da vida sobre o ser,
Ouvir tua voz sem rodeios me indaga
Na chama íntima só eu posso ouvir:

Será estou valer pena ser quem eu fui?
Viver a trama que escolhi pra ser o meu?
Louvar quem amo, buscar o que busco?
Andar no rumo que escolheu meu coração.

Regado em luz, Regado em luz, ver cruz,
O tempo já surgiu, O tempo já ardeu,
Já retornou nos braços da manhã
eterno amor arruma o tempo se deu.

V

Ver fonte na procissão tomando as ruas
Espalhando que és Círio outra vez cruas,
Que és Rainha Aparecida vem chegando
Vem viajar pelas ruas chega já passando. 

Cordas d´alma avançam teu corpo cansa
Só pra solo se banhar, Só solo se banhar,
É meu olhar soluçando ao ver o teu olhar
Pequenina és a Rainha segues poder
Orações e Flores tua gente quer doar!

Tu és Rainha das santas as flores das Dores,
Reinante no chão humano tão mulher
Tão majestade de Jesus nos guardar
Nossa gente, nosso prado nesse altar;

Ver fonte na procissão tomando as ruas
Espalhando que és Círio outra vez cruas,
Que és Rainha Aparecida vem chegando
Vem viajar pelas ruas chega já passando. 

VI

 
Minhas mãos se chegam, minha voz te gaba,
Meu ser regozija quando estou em tua presença
Ó Senhor.


É teu este instante de aclamação,
Não trago nem palavras me expressar.
No fulgor dessa luz que vem do teu olhar,
Acho-me no teu abrigo, de teu regar.


Quando estarmos juntos entre nós estás,
Calhando em nosso meio a nos abençoar.
E voltar com ternura com a tua mão
A cada um que acende o coração.


Minhas mãos se chegam, minha voz te gaba,
Meu ser regozija quando estou em tua presença
Ó Senhor.

VII


Senhora Jovem Rosa, és minha chama,
Morena, clama, esgalga, penumbra,
Se és rosa colhida feita orvalho,
Justo é momento tornar-se sombra.

Ah, porque não deixas graça flora,
Se tu fazes versos, na misteriosa,
Fragrância do ventre, feito de nada,
Coisa tão sutil, que perfaz tua rosa.

Mas (Senhora Luz) por que deixá-la em haste,
Agora ela é rosa comprometida,
Deves na tua lida o que buscaste.

E tão dolorosamente varrida,
Ela é Rosa, cume... assim na clama...
Se vês bem ramagem... Ela é vida...


VIII

Aquilo não posso,
Não é bem quero,
Querer repousou 
Do já não espero.

Se quero pousou,
Pelo que já voou,
Vim saber onde,
Sei pra onde estou.

Senhor, sou terra,
Então sou um louco,
Amante, pai, dera.

Lida, que me fere...
Suor, fura tudo,
Vida que vai...

IX

Olhem as margaridas,
Jardins telepáticas,
Olhem as margaridas,
Tão Belas inexatas
Olhem as margaridas,
Sem face alterada,
Olhem as margaridas,
Não sejam feridas
Olhem as margaridas,
Pela rosa parida,
Olhem as margaridas,
Não é exata,
Olhem as margaridas,
Pela rosa surgida,
Olhem as margaridas,
Olhem as margaridas,
Pela rosa da vida,
Olhem as margaridas,
Pela rosa da lida,
Olhem as margaridas,
Pela rosa da ida
Olhem as margaridas,
Pela rosa ramagem,
Olhem as margaridas,
Sem que saia
Olhem as margaridas,
Pela Rosa Margarida.

X


Tantas vezes calaste,
Que quero desesperar,
Pranto tanto, estou em riste,
Que já desaprendi clamar.

Ó louvada, não partas,
Não me apartas de mim,
Que só ida não tem fim,
Não há nada consorte,
Essência Deus olhos teus,
Diz que é minha maldade,
Tudo agora podes matar-me,
Longe da Rosa, tua,
Adeus.

 Eric Ponty

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

erotic poems E.E. CUMMINGS - TRAD. ERIC PONTY

 viii.
senhoras irrepreensíveis,
 firmemente lascivas
sobre lajes perigosas de um estrondo instável,
cujas
bocas caminham distintamente
seus sorrisos acusam

o crepúsculo com uma elegância destemida, 
esbelta e contida
magia
enquanto em teus olhos habita
um ruído verde egípcio. 

Mulheres com quem o tempo
sustenta sobretudo seus imensos lábios

Em cuja profunda nudez a morte mais crê,
meninas perpétuas pisando em direção ao amor

cujos corpos me beijam com o crime quadrado
da vida…. Cecile, o empurrão oval
de ocultar o prazer. 

Alice, piadas mordazes
sobre a carne. 
Loretta, chega de palhaçada,
garota…
Fran, Mag, Glad, Dorothy

ix.
mais perto: sopro do meu sopro: 
não afastes de mim teus membros formigantes:
faz da minha dor o banquete enlouquecido deles:
deixa que teus tigres de doçura suave se infiltrem
lentamente em flores mudas de uma nova mistura:
mais fundo: sangue do meu sangue: 
com rapidez que se encolhe para cima,
mergulha esses leopardos de sonho branco
na carne alegre do meu medo: 
perfura com mais precisão
essa medula de escuridão: 
esculpe uma flor de loucura com bordas malignas
em lábios cerrados
e nos olhos abertos, contorcendo-se com luz insana,
cinzela a chama mortal que se agarra vertiginosamente.

Cinzas interrogativas entre casas com bocas se enrolam
com sede. Estrelas mortas deformam. Aurora. Insignificante,
a carcaça poética de uma menina.

xi.
Deus, tem piedade de mim, a quem (Deus claramente)
a pena sexual leve, esbelta e flutuante
do seu — devo dizer — corpo? acompanha
verdadeiramente através de um gemido gotejante de jazz

cuja juventude arqueada, ocasional e íngreme, engolfa
curvando-se, a intensidade dos meus quadris;
ou, seu primeiro espasmo de carne juvenil e firme mergulha
minha altura em um clima firme, frágil e pungente,

(sem fôlego com lábios afiados e necessários) garoto,

ladra feminina do corpo bacana, rufião e malandro,
rindo com seios sábios ainda em desenvolvimento,
carne ceceante, veloz para tramar o zumbido um tanto gordo
de “I Want a Doll”,
pés ágeis e esvoaçantes com passos deslizantes

que separam a confusão do sotaque saxofônico

E.E. CUMMINGS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

UMA MISSIVA OLVIDADA DE IVAN JUNQUEIRA PARA ERIC PONTY

 

  
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

CANTORES NA TORRE DA IGREJA. - Verner von Heidenstam - Trad. Eric Ponty

 Na janela da torre do sino, estava o sineiro,   
Uma figura vigorosa, de estatura gigantesca.   
Sua cabeleira ruiva, despenteada e desgrenhada,   
Estava caindo sobre seus olhos.   
—Ding! Dong!—

Ele pisava com força no pedal e cantava sua canção:

"Ó poderoso e estrondoso sino da igreja, ó tu,   
Com lábios e língua de metal que ressoam,   
Tu convocas o povo para a adoração agora,   
Mas prefiro cantar este meu próprio salmo.   
Os dias cansativos da semana, desde segunda-feira   
São escravos do homem rico, do senhor do dinheiro.   
O único dia que rouba de seu tesouro   
Uma moeda de cobre insignificante é o domingo.   
A vida dele é um paraíso. A nossa, ao contrário,   
É um inferno. Estamos esfarrapados e comemos pão duro.   
Em casa, nossos entes queridos suspiram,   
Enquanto, famintos, remamos para uma raça saciada   
A barcaça do comércio deles, com suor no rosto   
E choramos nos remos que manuseamos.”   
—Ding! Dong!—   
“Que uma vingança terrível os consuma!   
Quando tocarei o sino para reparar a injustiça,   
E o próprio julgamento de Deus os condenará?   
De nossa carne faminta eles cortam meio quilo   
Para engordar e engordar o senhor do dinheiro.   
Mas cuidado, senhor do dinheiro, seu sino fúnebre será tocado!   
A opressão é antiga, mas a liberdade é jovem.  
Ela chega como um ladrão na calada da noite.   
Ela não espera para bater à porta, mas invade   
Ela pisoteia seus tapetes e os transforma nos dela   
Tudo o que você arranhou com toda a sua força.   
Há uma mina de pólvora nada pequena   
Nos porões sob a muralha do seu castelo.   
Uma faísca, e a multidão se reunirá.”   
—Ding! Dong!—   
“Trouxemos os braços cheios de pedras,   
Com tochas saímos   
De casebres e becos.   
Envergonhamos sua esposa, esfaqueamos seus porcos,   
Derramamos na rua seu vinho mais caro.   
Seu cavalo ruão terá de puxar onde nós nos esforçamos.   
E quando seu castelo for reduzido a cinzas,   
Nosso inferno se transformará   
Imediatamente em seu orgulhoso paraíso.   
De nossas cabanas até a praça, todos arrastamos   
Nossa palha e nossos trapos, remendo por remendo.   
Sobre eles estará seu trono, ó rei do dinheiro,   
E traremos sua bolsa saqueada em troca de sua maçã.   
E os bateristas virão e se posicionarão ao redor   
Para trovejar e bater   
Furiosamente nas panelas da sua cozinha,
E os flautistas tocarão em sincronia com eles   
Em garrafas de cristal, seu réquiem.   
Lá em cima, sua casa vacila, enquanto faíscas adornam   
Seu dossel tecido de fumaça.   
Seu canto fúnebre agora gemerá aos céus,   
E mendigos trarão carvões em brasa para acender   
A pilha de palha que agora é seu trono.   
Eles dançam em círculo ao redor de sua pira,   
Enquanto eu canto o baixo na canção grave dos homens.   
E eu anuncio tão alto sua hora final   
Que a terra ecoa meus golpes de poder.”   
—Ding! Dong!—  

No alto da torre, sentada nas vigas ao lado dele, estava   
sua esposa, em silêncio. Então ela o seguiu   
pela escada íngreme, e continuou a segui-lo   
em pensamentos silenciosos pelos caminhos bem cuidados do cemitério.   
Ao lado de sua cabana havia um pequeno canteiro   
de jardim junto a uma colina, todo ressecado e árido.   
Para lá ela foi sozinha, mas em seus ouvidos   
ainda ressoavam o som profundo do sino e o grito do marido.   

Ele, rude e indomável, esgueirou-se como de costume,
Para beber e jogar na casa de um vizinho.   
Ela se sentou entre as pedras, sob   
Os galhos entrelaçados de bordo e cerejeira silvestre.   
Para não sujar seus sapatos de domingo, ela os afrouxou   
E, lentamente, os tirou. Com ar brincalhão   
Ela trançou, por diversão, uma corrente de folhas de bordo   
E prendeu algumas cerejas aqui e ali.   
Então ela se levantou de um salto, ao ouvir a voz de um homem próxima   
E o som de mais homens se aproximando, saltou por cima   
Do portão de treliça do jardim com um salto ágil,   
E correu até chegar à porta da torre da igreja.   

Lá ela entrou, com medo de ser pega   
Correndo descalça num dia de sábado.   
Na torre escura, sob o sino redondo,   
Ela, jovem e bronzeada, segurava seu arranjo de folhas.   
Ela ficou ouvindo por um bom tempo; por fim, quando ninguém apareceu,   
Rapidamente colocou a coroa em volta do pescoço   
E subiu os degraus íngremes cada vez mais alto,   
Até que o chão desaparecesse de sua vista.  

A corrente de ar que girava gemia surdamente na madeira.   
Com o pé flexionado e a mão experiente, ela permanecia   
Nos degraus como se fossem cordas bem esticadas   
E se segurava com firmeza, com um ânimo resoluto.   
Pelas frestas, ela podia ver a praça do mercado,   
Mas tudo estava escuro abaixo dela, na torre.   
A cada passo, o som do sino tornava-se mais forte,   
E as pessoas ficavam cada vez menores na rua abaixo dela.  

Sem fôlego, corada e aquecida, ela chegou até o sino;   
Encontrou-o como se fosse um amigo querido e de confiança,   
E quando bateu com os nós dos dedos na borda,   
Vibrações sussurrantes se espalharam ao redor.   
Mas os degraus estreitos levavam ainda mais para cima.   
Com ousadia, finalmente, com as mãos erguidas, ela se balançou   
até a viga estreita. O sino lá embaixo,   
pendia em silêncio sobre seu eixo desgastado pelo brilho.   
Com um braço apoiado na viga, ela entrelaçou sua corrente   
de folhas de bordo ao redor da crista de bronze,   
de modo que o gigante verde-acinzentado, de repente,   
parecia uma donzela vestida para o casamento.  

Terminada a missa, o sineiro chegou, mas parou   
Em surpresa muda, com o braço apoiado em uma viga,   
Para observar o adorno verdejante do sino   
Com cerejas roxo-avermelhadas brilhando intensamente.   
Sua esposa já havia tocado o sino muitas vezes antes;   
Ela não esperou por seus resmungos nem por seu cenho franzido   
Mas no pedal bem gasto do sino   
Ela colocou o pé, de tendões fortes, descalço e moreno.   
O sino balançava pesadamente de um lado para o outro,   
E então os primeiros toques ensurdecedores começaram a ressoar.   
Com isso, os corvos assustados levantaram um grito,   
E a torre, o telhado e as vigas começaram a balançar.   
—Ding! Dong!—  
 

Verner von Heidenstam - Trad. Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

sexta-feira, outubro 02, 2026

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 Olá, Eric,


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 Olá, Eric,

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Dear Eric,
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quinta-feira, outubro 01, 2026

APRÉS LE BALLET PARA UMA DEFUNDA - ERIC PONTY


Vi.- Num deslumbramento irradia,
Natália é luz, fulgura, arde, flameja,
Na hora o cavalo de oiro fugidio,
Hora a irante fagulha duma igreja.

Hora um caixão luxuoso, em que dardeja,
Da orquestra doida a fulgurante orgia,
Quais sons, enquanto voa, ala-se, adeja,
Na turba astral, que trança enrola e ébria.

E alma quisera um soneto teu,
Dum verso, aceno, ou mãe silente apenas,
Verte a correr pela estrada, a espádua nua.

Aos beijos só das luxúrias falenas,
E eu olhar filha haver o sol e a lua,
Para acolchoar delas tuas mãos pequenas.
 
II

Tal qual estátua de mármore na campa,
Feita de fino, olvidar nevoeiro,
De rendas em que deita o travesseiro,
Que luar doce o corpo se ampara.

Azula-o brandamente etérea flama,
Reza a cruz do teu falar faqueiro;
No sol, nos teus dois sóis prisioneiro,
Embale ir para o véu forceja e chama.

Deixa-a ir. Fica tu serenas e vasta,
Neste calor da alcova pequenina,
Que a imensa curva Vênus mais fasta.

Deixa-me após na cruz que me fascina,
Desta campa em que estás, e, que me farta,
Cair morto aos teus pés, mãe tão divina.   

III

Tens da virgem cristã a face e o pejo,
Que de um certo disfarce não te exprime,
Já uma tristeza de fatal sublime,
Junto à lascívia dum mortal desejo.

És morta… e pura, e creio-te, lhe vejo,
Tal face aonde a palidez se exime,
E o teu corpo, que firme, campa um vime,
Desdobra mesmo ao hálito do desejo.

És pura, se desejo de repente,
Se não me vem já súbito a descrença,
Da cruz dos teus finados beijos crentes.

Já seja há serpe, sair do ninho que se lança,
Feito roscas douro luminoso – já a gente,
Chorando no teu zelo de criança. 
 
 IV

Tu, Lesbos, queres que Natália diga,
Com quantos beijos a farás contente,
Põe uma sobre outra os chãos do areal fatal,
Da Líbia, onde Cirene o odor fatiga.

Que do templo Lebos onipotente,
Segue sagrada igreja à campa antiga,
Já amontoa depois, ó morta amiga,
Na estrela noturna erma em silêncio.

Olhares furtivos, terrais favores…
Diga: o insensato poeta que precisa,
Quer, para mitigar os seus louvores.

Cifra então ideal, farta, infinita,
Já não dê dizer os faladores,
Nem permita a inveja há tanto dita… 

V

E ainda olhar mármo encima-se de glória,
Tal qual o Sigeu, a cana o soou Homero,
De qual tal verso menos augusto e austero,
Já também deste cantar musa da memória.

Quem é? Quem foi? Conheceram o retrato?
De tal Rima do douro já tine os passos dela,
Não fale foi estranhamente então tão bela?
Queríamos ver-lhe um belo busto de tão alvo.

Uma fagulha numa estrada em ruina achada,
Do que nos resta talvez de uma grande deusa,
Nela mármore dela a fronte esculturada,
Sendo tal qual quando a fatal brilhou em nova?

Sendo já ou cipó quase em pó ou bronze do sol,
Quase salvo do tempo, já que o tempo arruína,
Do qual ou na estrutura de estragado busto,
Para que um campônio já achou, cortando a moita…
 
 Já que só nos clarões desta fascinante rima,
Sendo doirada às flamas quentes do Oriente,
Mesmo só dela à cruz das auroras da Vindima,
Desde já há vê-la e ouvi-la, e tê-la enfim? – Na campa.

Será o teu nome andará de beiço em boca ida,
Tal como meu verso, tu em que fulges envolvida,
Sendo tal qual o de Hesíodo, e Safo e Orfeu, menina,
Então dirá meu canto a mocidade morena.

Então dirá meu canto a mocidade morena,
Da qual inda não poluiu ao fundo o busto,
Para quem têm uma asa para fado, e outra asa,
Sendo a beleza, que a ébria, e a enleva, - já aplaude.

Sendo que a falar esse tropel de morenas,
Já que laureadas professoras do futuro,
Digas – quem assim na ebriez busto tão puro,
Já cinzelado em brinco, ou cinzelados colossos.

Sendo um busto ao capitel se então traça,
Já que de uma coluna, que restou de uma igreja,
E quando há de querer, achando o busto o exemplo,
Desde que o meu nome enrolado à tua desgraça.

Já são duas estrelas que num mesmo verso,
Pra que padecendo uma só estrela acesa,
Irão de hão de tua grandeza dizer minha,
Nesta minha chama à tua flama acesa.

Irão de hão de idear hipérboles de assombros,
Irão então compor e recompor a nossa vitória,
Sendo já eu gozarei das flamas da história,
Já que debruçado por cima dos teus ombros.

Surge sobre o meu coração, a colina em dores,
Está sentada, ouço-a inda fluir distante torrente,
Sendo minha vida a cantar os seus amores,
Tal qual feito Pã feito um deus onipotente. 
 
 VI

Sendo do que importa? Que Deus está dentro de mim,
Contudo eu tenho em mim o inferno e o paradiso:
Do qual um é tua morte, o outro teu sorriso;
Crendo e é minha a infinidade e eu sou dela,
Já não sei porque andas em mim ao mesmo tempo,
Que nessa família, na raça, e ideia e esforço;
Do qual que anda o universo sobre o nosso dorso,
E para que nele tu o medes eu mesmo vou.

Sendo a beleza o instinto, a norma da justiça,
Já que jaz em nós mesmos, tal qual planta em germe,
Por quem busco amor, feito amor consigo quer-me;
Já que nessa tendência do bem é lei mortal,
Talvez tu no além há de sentir o mesmo impulso,
Sendo que há em nós o equilíbrio das estrelas,
Já que delas nos veem e nós pairar a vê-las,
Sendo nos levar a todos nós o mesmo olhar fatal.

Será que está começo e fim de todo em tudo:
Será do abismo o mundo, o fundo sublime,
Sendo que já um enchendo a virtude, um outro o crime,
Neste no fim do tempo a misturar-se vem.
Sendo não haverá eleitos, que precitos;
Do qual a dor do tempo todo purifica:
Será do que há de ser, enfim o todo que fica,
Já que não é um grande esplendor do sol – do Bem…

Sendo que nós somos feitos serpe mutilada,
De que cujos astros se procuram, saltando;
Para que hão de unir-se em num dia … não sei quando…
Já dessa eternidade longa margem jaz,
Do qual mundos cridos virão depois de mortos,
Do quais feitos fenecidos, que irão para há campa,
Sendo de que buscar novo alento e além novo,
Pra novo e velho!... do que haverá inda existe…
 
VII
 
 SIM! É lindo este retrato, é obra primorosa,
Retratou-a um artista ousado e fulminante:
Só lhe falta voltar, mas parece que viva,
Tanta expressão lhe aviva a fronte esplendorosa.

É Vênus, é Diana, é vestal. Natália tem tudo,
Duma constelação num pedaço de Phalhos,
Carece que hoje em dia os Fídias não são raros,
Apesar que o suicídio a respeito andar fundo.

Se mãos notem bem o calor da pele delicada,
Traçam fios douro em local de áureos finos cabelos,
São de dois olhos que têm o véu enrolados em novelo,
Sendo abandono do andar do cavalo enfadado.

Disseram um dia olhando mármore já defunto,
São dessas estátuas, escultor eminente,
Autopsiou-o e creio, entre farto e absorto,
São dessas vísceras falar o coração somente.

Havia no local em que o músculo não ampara,
Duma poça de pranto e sangue derretido,
Que sendo entre o crepitar de liquefeita amarra,
Que doiro esvai e flui em sangue abismo suicidado.  
 
ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

quarta-feira, setembro 30, 2026

ÚLTIMO RECADO - ERIC PONTY

 

 
 

Ao pé das colinas onde ela faria sua estreia,
com membros terrenos adornados vestes tão finas,
(daquela médica não cessa de despertar do repouso
Nesse homem choroso que me envia até ti…),

Na paz e livremente corríamos pelas janelas
esta vida mortal, cada animal escolhia pelas,
sem nos cuidarmos com o fato de que a ida nos exporia
a todos a ocasiões em que surgiriam perigos.

Apesar desse estado de desolação,
para onde fui levado, vindo de enigmas sem medo,
em relação à morte tenho um consolo,

que é a vingança contra aquele que me trouxe até ti,
pois ele está sob o domínio de alguém,
acorrentado por uma corrente ainda maior, com fim se beirando.


II

Senhora, nunca a vi elevar tua alva figura,
Deste seu véu, seja pelo sol ou pela sombra,
pois sabia do anseio que eu demonstrava,
que afastou todos os outros desejos do meu coração.

Enquanto eu mantinha em chave todos os meus elogios íntimos,
que deixavam minha mente obcecada de forma mórbida,
vi a piedade que fingia demonstrar nessa janela.
No entanto, desde que o Amor fez com que me notasse.

Velou seus cabelos dourados naqueles dias
e refreou olhares sedutores ao se manter discreta.
Do que eu mais desejava agora se foi, e assim então:

Deste véu controla meus dias; e incendeia canaviais,
ele me mata ao escurecer seu olhar brilhante
sempre que o calor do verão ou as nevascas abrem.

ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA