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domingo, outubro 16, 2022

SACERDOCIO DA POESIA - ERIC PONTY

Meu prezado,
Me perguntou de modo recente por que eu afirmo ser Poeta por receio de você. Como de maneira, não lhe soube responder, em parte precisamente por causa do receio que tenho de você, em parte porque na motivação desse receio intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa postagem. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o receio e suas implicações me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entrosamento com a questão de poesia.

Para você a questão sempre se ofereceu em termos muito simples, pelo menos avaliando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente, na de muitos outros. Para você as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhe duro na vida acadêmica com toda vontade, sacrifique tudo pelos títulos, sobretudo para ser reconhecidamente, e graças a isso eu vivi “alheio carga acadêmica”, desfrutei de inteira liberdade para estudar o que queria, não precisei ter qualquer apreensão com o meu sustento e, portanto, nenhuma apreensão; em troca você não exigiu gratidão pelos títulos conquistados.

E de fato você me recrimina por isso como se fosse desculpar minha, como se por acaso eu tivesse podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outro endereço, ao passo que você não tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido brilhante demais para mim, que não ofereço importância no exercício poético.

A isso retribuía, ademais, sua superioridade espiritual. Você havia subido tão alto nas graduações acadêmicas, contando apenas com a próprias perspectivas, que tinha confiança infinda na sua opinião particular. Enquanto jovem postulante, isso não foi para mim tão ofuscante como mais tarde para um postulante a poeta. Da sua poltrona da sua graduação acadêmica você regia a realidade acadêmica. Seu conceito era certo, todas as outras, incoerentes, insensatas, tão grande era seu crédito que você não carecia de modo algum ser consequente, sem, no entanto, deixar de ter motivo. Podia também ser o caso de você não ter conceito alguma sobre um argumento e, logo, os conceitos possíveis atinentes a ele careciam ser sem advertência erradas. Você podia, por exemplo, censurar os parnasianos, depois os simbolistas, depois os da geração de 45, na verdade não sob esta ou aquela aparência, mas sob todos, e no final não carecia mais ninguém além de você. Você admitia para mim o que há de incompreensível em todos os leitores críticos, cujo direito está fundado na sua graduação, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me semelhava.

Esse seu modo habitual de ver as coisas eu só pondero justo na medida em que também creio que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa por ter nascido assim. Se pudesse levá-lo a distinguir isso, então seria aceitável, não para um novo projeto — para tanto nós dois estamos velhos demais — mas sem equívoco duma espécie de paz; não a renúncia, mas com certeza um amortecimento das suas eternas censuras de minhas assim chamadas traduções.

Poderei sempre contrapor isso quando me censurar por falta de atenção intelectual. Para mim, sempre foi inexplicável sua total carência de impressionabilidade em relação à angústia e à embaraço que podia me cominar com palavras e juízos: era como se você não tivesse a menor conhecimento da sua força. Também eu com certeza muitas vezes o magoei com a maneira do fazer literário, mas a seguir sempre o distingui, isso me fazer sofrer, mas eu não podia me conter, refrear a palavra, já me arrependia enquanto a dizia. Mas você desferia sem mais as suas, não se apiedar-se de ninguém, nem durante nem depois, contra você estava-se totalmente sem defesa crítica.

Nem era disso que se tratava. Pelo contrário, tratava-se do fato de que você precisava causar essas desilusões ao Poeta, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório, em termos literários, e, mais ainda: de que o espírito de impossibilidade se fortalecia incessantemente pelo acúmulo de pesado, de tal forma que no fim se aperfeiçoava se conferindo até como estilo, mesmo que às vezes você tivesse conceito igual ao meu, e por fim, já que essas desilusões não eram as desilusões da vida literária, elas caíam no cerne da questão, pois isso dizia deferência à sua pessoa, de Leitor-crítico de todos os fatos. O alento, a assentamento, a fidúcia, a alacridade em torno disto ou daquilo não se amparavam até o fim quando você era contra ou quando a seu capricho podia ser simplesmente presumido; e ele podia sem dúvida ser afetada em praticamente tudo o que eu fazia em termos de literatura.

A isso retribuía, ademais, sua superioridade espiritual. Você havia subido tão alto nas graduações acadêmicas, contando apenas com a próprias perspectivas, que tinha confiança infinda na sua opinião particular. Enquanto jovem postulante, isso não foi para mim tão ofuscante como mais tarde para um postulante a poeta. Da sua poltrona da sua graduação acadêmica você regia a realidade acadêmica. Seu conceito era certo, todas as outras, incoerentes, insensatas, tão grande era seu crédito que você não carecia de modo algum ser consequente, sem, no entanto, deixar de ter motivo. Podia também ser o caso de você não ter conceito alguma sobre um argumento e, logo, os conceitos possíveis atinentes a ele careciam ser sem advertência erradas. Você podia, por exemplo, censurar os parnasianos, depois os simbolistas, depois os da geração de 45, na verdade não sob esta ou aquela aparência, mas sob todos, e no final não carecia mais ninguém além de você. Você admitia para mim o que há de incompreensível em todos os leitores críticos, cujo direito está fundado na sua graduação, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me semelhava.

Nem era disso que se versava. Pelo contrário, abordar do fato de que você carecia causar essas decepções ao poeta, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório, mais ainda: de que o espírito de contrassenso se fortalecia incessantemente pela acúmulo de material, de tal forma que no fim ele aperfeiçoava se impondo até  mais como costume, mesmo que às vezes você tivesse opinião igual à minha, e enfim, já que essas desenganos não eram as desilusões da vida comum, elas incidiam no cerne, pois isso dizia deferência à sua pessoa de leitor crítico, grau de todas as coisas. O alento, a consignação, a confiança, a alacridade em torno disto ou daquilo não se sustentavam até o fim quando você era contra ou quando a sua aversão podia ser meramente afetada; e ela podia sem equívoco ser afetada em praticamente tudo o que eu poderia vir a escrever.

É bem na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de antecipadamente impraticável falar com calma sobre uma coisa com a qual não carece ou que facilmente não parta de você: seu caráter dominador de Leitor-crítico não o permite.

Em suma, que esse efeito apesar disso lhe seja absorvente, que você se desista inconscientemente a reconhecer como produto de Leitor-crítico, se deve precisamente ao fato de que a sua mão e o meu material eram tão estranhos um ao outro.
ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

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