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sexta-feira, setembro 01, 2023

EXERCÍCIOS DE ESTILO - II EXERCÍCIOS - Raymond Queneau - ERIC PONTY

 METAFORICO

No centro do dia, entre o cardume de sardinhas ambulantes num coleóptero com uma grande carapaça branca, uma galinha com um pescoço longo e sem penas de repente, um deles, um pacífico, e a sua linguagem, húmida com protestos, foi desdobrado sobre os ares. Depois, atraído por um vazio, o filhote precipitou-se para lá.

Num deserto urbano e desolado, voltei a vê-lo nesse mesmo dia, bebendo a taça de humilhação oferecida por um botão humilde.

SONETO


Teu relógio era alvo e o teu chapéu entrançado,
E ele, um pobre potro - (Era triste o teu pescoço),
E longo) - estava cá absorta labuta habitual.
Ônibus chegar cheio, uma certa forma adentrá-lo.

Veio um, um número dez - ou talvez um S,
Teu cais, pequena achega caleche plebeia,
Cheio de gente não permitia a livre passagem;
Naturais ricos acendiam charutos sobre ela.

Jovem girafa dita tão bem na minha inicial estrofe,
Tendo entrado no ônibus, abriu já a execrar um,
O cidadão inocente (queria um troféu fácil).

Mas apanhou o pior). Depois, espia um lugar vago,
Fugiu pra lá. Tempo passou. Porta em recuo, pessoa,
Estava a dizer-lhe botão era supino baixo no espaço.
 ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, agosto 31, 2023

O CEMITÉRIO MARINHO - QUATRO COTEJOS - PAUL VALÉRY-TRAD. ERIC PONTY

A origem significa aqui que, a partir de um A, algo é o que é como é. tal como é, chamamos a sua essência ou natureza.

A origem de algo é a fonte da sua natureza. A questão sobre a origem da obra de arte pergunta sobre a fonte da sua natureza. Na visão habitual, a obra surge da atividade do artista e por meio dela.

Mas de onde e por que é que o artista o que ele é? Pela obra; pois dizer que a obra dá crédito ao mestre que é a obra que faz emergir o artista como mestre da sua arte.

O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. No entanto,

nenhum é o único suporte do outro. Em si mesmas e nas suas inter-relações artista e obra são, cada um deles, em virtude de uma terceira coisa que é anterior a ambas, isto é, aquilo que também dá ao artista e à obra de arte os seus nomes - a arte.

Assim como o artista é necessariamente a origem da obra de um modo diferente que a obra é a origem do artista, é igualmente que, de um modo ainda diferente, a arte é a origem do artista e da obra.
Mas poderá a arte ser, de fato, uma origem? Onde e como é que a arte e como é que a arte acontece? A arte - isto não é mais do que uma palavra à qual nada real já não corresponde. Pode passar por uma ideia coletiva sob a qual encontramos um lugar para aquilo que é o único real na arte: as obras e os artistas. Mesmo que a palavra "arte" significasse algo mais do que uma noção coletiva, o que se entende por esta palavra só poderia existir em a base da atualidade das obras e dos artistas. Ou será o contrário? O caso? As obras e os artistas existem apenas porque a arte existe como sua origem?
Seja qual for a decisão, a questão da origem da obra da obra de arte torna-se uma questão sobre a natureza da arte. Uma vez que a questão de saber se é como existe a arte em geral deve ainda
em geral deve permanecer em aberto, tentaremos descobrir a natureza da arte no lugar onde a arte prevalece indubitavelmente de uma forma real. A arte está presente na obra de arte. Mas o que é e como é uma obra de arte? O que é a arte deve ser deduzido da obra.

Tentarei responder está questão de Martin Heidegger com o cotejo de três traduções de Cemitério Marinho, após tê-lo traduzido inúmeras vezes que o Poeta e Crítico Ivo Barroso disse que original em francês exalava-me em mim considerando que era inútil está tentativa.

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:
  
O Cemitério marinho
Μή, φίλα ψυχά, βίον ἀθάνατον 
σπεῦδε, τὰν δ' ἔμπρακτον ἄντλει μαχανάν. 
Pindare, Pythiques, III.

Telhado tranquilo, onde marcham pombas, 
Pulsa entre dos pinheiros, entre as tumbas; 
Meio dia justo compôs quase luzes 
O mar, o mar, tão firme renovar 
Oh laurel após de pensamento dar
Um longo olhar para a calma destes deuses!
 
Qual puro trabalho fins raios consuma 
Diamante imperceptível mui d´escuma 
E daquela paz sempre conceber 
Quando sob o abismo sol repousa 
Das Obras puras duma eterna causa 
Tempo cintila e sonho é saber. 

Firme ouro, templo simples à Minerva, 
Massa da calma, e visível reserva, 
Água altivo olho guarda-se em teu alto, 
Tanto de repouso volta da flama, 
Meu silente! . . . Edifício dessa d´alma, 
Acima d'ouro ou das mil telhas, Teto! 

Tempo do templo, só geme resumo, 
Desse ponto puro alça me acostumo, 
Tudo rodeado de meu olhar oceano 
Como aos deuses minha oferta suprimia 
A cintilação serena semeia 
Sobre altitude um desdém soberano.

Como fruta se funde ao gozo ser
Como delícia muda ausência ter
Numa boca onde sua forma se mata
Eu aspiro fumaça futuro fumo   
E este céu canta à alma consuma 
A mudança da margem rumor ata. 

Belo céu, vero céu olhar descartável - 
Após tanto orgulho, tanto estranhável, 
Ócio, mas do pleno deste poder. 
Eu me abandono este brilhante espaço 
Mansões dos mortos, minha sombra ao passo, 
Que se domar ao frágil seu mover. 

Almas expostas tochas do solstício, 
Admirável justiça, te apoio início,
Dessas luzes as armas sem piedade!
Te rendo pura ao lugar prima graça: 
Que me resguarda!.... Mas junto à luz passa
Suposta sombra sombria uma metade. 

Ó para meu só, ao meu só, mim mesmo
Próximo imo, fonte do poema mesmo
Entre à vida envolvimento puro; 
Eu espero eco minha grandeza interna, 
Amarga, sombra sonora cisterna, 
Soante na alma um vazio sempre futuro!

Sabes tu, falso preso da folhagem, 
Golfo comedor magro grades margem,
Sob meu olhar cerrado oculto ofuscados
Qual corpo arrasta ao seu fim preguiçosa
Qual fronte atrai à terra óssea terrosa? 
Uma centelha pensa se ausentados. 

Lacro, sacro, pleno ardor sem matéria
Fração terrestre oferta à luz etérea, 
Ao lugar agrado, domínio archote; 
Misto douro, pedras, cedros sombrios, 
Onde tanto marmo treme sombras fios; 
Mar fiel dorme sobre tumba morte! 

Cão esplêndido arreda idolatra dor! 
Qual solitário sorriso pastor, 
Pastoreio há anos carneiros misteriosos 
Branco rebanho minhas quietas tumbas, 
Afastado prudentes brancas pombas, 
Os sonhos vãos, os anjos tão curiosos. 

Aqui vindo futuro lenta moleza, 
Nítida inseto raspa à aridez frieza, 
Todo queimado desfaz aceita ar, 
Que não sei da severa dessa essência... 
A vida vasta livre sida ausência, 
É amargo doce espírito clarear! 

Mortos ocultos são bem territórios, 
São lhes aquecem secam seus mistérios, 
Meio alto, meio movimentações, 
Em si pensa e convém a si mesmo...  
Fronte completa perfeito diadema,
Eu sou das ocultas alterações. 

Tudo é meu conter de suas coações! 
Lamentos, dúvida, entre minhas pressões, 
São das falhas grandes desse diamante…
Mas sua noite toda pesados mármores,  
Um povo vaga raízes destas árvores,
Pegos vez do matiz vão lentamente.
 
Eles têm ao fundo espessa da falta 
Argila rubra bebeu a branca casta; 
O dom da vida se passou às rosas! 
São dos mortos dicções familiares, 
Arte pessoal, das almas singulares? 
A larva fia onde forma chorosas! 

Gritos agudos moças irritadas, 
Olhos dos dentes, pálpebra molhadas 
Seio encantado face com o fogo, 
Sangue que brilha lábios se renderam, 
Últimos dons, os dedos que acorreram, 
Tudo que vai na terra rende ao jogo! 

E vós grande alma espera de sonhar,
Da aura mais que cores há errar,
olhos, clara onda, se fez aqui; sim?
Cantaram vós quando foi vaporosa?
Vá! Tudo segue! Meu aspecto poroso,
à santa impaciência morre assim!

Magra imortal negra deste doirado 
Consoladora horrível do laureado, 
A morte fez um seio tão maternal, 
Bela mentira pena astúcia acusa! 
Que nem conhece, quem que lhe recusa, 
O crânio vazio e este riso eternal! 

Pais profundos, testas inabitadas, 
Que seus pesos tantas já pazadas, 
Ser terra confunde passam jamais. 
Vero roedor verme irrefutável, 
Ao ponto desta tábua do dormível, 
Viver da vida não se quita jamais! 

Amor, por ser, eu mesmo, será raiva? 
Dente secreto está se aproxima ativa, 
Todos nomes ele pode convir! 
Importa! Vê! Quer, sonha pegada! 
Minha carne agrada sobre camada 
Vivente eu volto a pertencer ir! 

Zenão! Cruel Zenão! Zenão d’Eleia! 
Mas furo desta fecha se volteia 
Que vibra, voa, e nem voeja do passo! 
Som tolo gera flecha mata fuga! 
Ah! Sol... Qual sombra desta tartaruga 
A alma Aquiles imóvel grande passo! 

Não! Não! …. Em pé! Tempo sucessivo! 
Rompa meu corpo, forma, pensativo! 
Beba meu seio vento da nascente! 
Um frescor, deste mar tão de exaltado, 
Volve minha alma! Forte do salgado! 
Corram onda jorrar que do vivente! 

Sim! Grande mar delírios de doirados, 
Pele pantera, Clâmide em tornados, 
Dos mil e mil dos ídolos sol qual, 
Da livre carne azul, de Hidra absoluta, 
Remorso cintilante cauda solta 
Em dum tumulto ao silêncio igual! 

Vento alavanca! …. Faz viver tentar! 
Abre e fecha meu livro, imenso ar, 
Pó salpicou ousar jorrar rocha arribas! 
Larguem-vos páginas todas seduzidas!
Rompam vagas! Rompa águas alegradas!  
Tranquilo teto onde picam as gibas!


Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Este Teto calmo, onde marcham pombas,
Pulsando entre pinheiros, entre os tumbas;
Meio dia reto arrumando luzes fogo
O mar, o mar, estável renovar
Oh galardão após pensamento dar
Extenso olhar a calma deuses longo!

Puros trabalhos fins chispa consuma
Diamante imperceptível mui escuma
E daquela paz sempre conceber
Quando sob báratro sol repousa
Das Obras castas duma eterna causa
Era cintila e sonho é saber.

Erário firme, templo de Minerva,
Massa calma, visível da reserva,
Soberba água guarda olhar ti alto
Como dormir sob véu que desta chama,
Meu silêncio... Edifício desta alma,
Mas ouro entope mil telhas, do teto!

Tempo Templo, só suspiro resumo,
Neste ponto casto monte e acostumo,
Tudo aprisco por meu olhar do oceano;
Quão minha suma oferta deuses plano,
Espargem cintilação do sereno
Na altitude repulso soberano.

Quão fruto derrete gozo da essência,
Quão delícia transforma nessa ausência
Numa boca donde forma morrem,
Eu fumo meu futuro aqui fumaça,
Céu cantar alma consumida alça
Da variação no rumor desta margem.

Céu belo, vero céu, olhe a mim mudança!
Após tal orgulho, após estranha trança
Ociosidade, mas cheio de poder,
Eu me rendo espaço tão vivo horto
Nas Mansões minha sombra segue mortos
Quem domar a variação frágil ser.

Alma exposta das tochas do solstício,
Admirável justiça, que eu te apoio
Armas ligeiras sem desta piedade!
Vós tendes seu lugar, primo, pureza,
Aprecie a ti! .... Mas à luz me faça
Sombra eu me acho meio triste idade.

O a mim, por mim mesmo, a mim mesmo,
Com dum coração, fonte deste poema,
Entre vácuo e do fato se fez puro,
Aguardo eco meu brio interior terno
Amargo, escuro sonora cisterna,
Tocando na alma sempre oco futuro!

Sabes, falso cativo da folhagem,
Golfo comedor magras redes margem,
Meu olhar uno, fechos ofuscantes
Corpo me arrasta até o fim tão ocioso
O que fronte chama este chão tão ósseo?
A faísca não pensa meus ausentes.

Bento, uno cheio fogo sem matéria,
Fração terrestre oferta à luz etérea,
Lugar gosto, domina pelo archote,
Composto d´ouro, pedra e cedros negros,
Onde tremor o mármor tantas sombras;
Mar fiel dorme minha cova morte!

Cã esplêndida, descarta deste idólatra!
Quando o pastor Sorri só andrólatra,
Eu pasto mui, ovelhas misteriosas,
Gado branco de minhas quietas tumbas,
Afastadas de tão prudentes pombas,
Os sonhos vãos, os anjos tão curiosos!

Vindo aqui, futuro é preguiça ecos.
Os arranhões insetos claros secos;
Tudo tostado, desfeito, torna ar
Já não sei da severa de tua essência 
Vida vasta, sendo que bebeu ausência,
Amargura é doce mente, é claro ar.

Mortos ocultos estão nesta terra
Que aquece seco mistério de era.
Meio-dia lá, meio-dia, do inerte
Si pensa é certo si mesmo eleito...
Cabeça finda e Diadema perfeito,
Eu sou seu secreto câmbio reflete.

Fez isso a mim teus medos açoites!
A Minha pena, dúvidas, limites
São culpa de teu tão grão diamante...
Mas, em sua grande noite toda em mármores,
Uma onda pessoas raízes segue árvores
Tomaram teu partido lentamente. 

Derreter ausência fundura raro,
Bebeu do tipo branco rubro barro;
O dom Vida passou às flores ornadas!
Onde estão caseiras dos mortos frases,
Arte de pessoal, almas singulares?
A larva fia donde prantos formados.

Os gritos agudos moças irritáveis,
Olhos, dentes, as pálpebras laváveis,
Encantador brincar com deste fogo,
Lábios sangue brilhando que se rendem,
Últimas doações, dedos defendem,
Tudo vai terra e entra neste jogo!

A Grande d´alma, tu esperas sonho
Me deixará mentir das cores ponho
Olhos claros onda ouro faz-se aqui?
Cantarmos a vós quando vaporosas
Foi! Tudo feito! Minhas vistas porosas,
Irritação santa antes morre aqui!

Magra imortal negra deste doirado 
Consoladora horrível do laureado,
Que a morte fez um seio materno
Belo aleive e piedosa astúcia acusa!
Quem sabe, e de quem se recusa,
Crânio vazio e essa risada eterna!

Cabeças desertas, pais tão profundos
Que, sob peso já tantas pás fundas,
É a terra confundir os nossos passos
Correto roedor, verme irrefutável
Não sois debaixo mesa do dormível,
viver vida, ele não me deixa laços!

Amor, talvez, ou tu me odeias mim?
Seu dente fecho é tão perto mim
Todos nomes ele pode anuir ser!
Seja qual for! Vê, quer, pensa, tocada!
Minha carne afaga, até minha camada,
Viver eu vivo volto pertencer!

Zenão! Zenão cruel! Zenão Eléia!
Mas furaste seta alada volteia
Vibrar, voeja e não voeja mais aos passos!
Som gera-me seta me mata fuga!
Ah! O sol... Sombra qual tartaruga
A alma, de Aquiles hirto grande passos!

Não, não .... Alçar! Em eras sucessivas!
Quebrar meu corpo, formas pensativas!
Beber, meu útero, brotar do vento!
A frescura, do mar exalado
Faz minha alma... Poder tão salgado!
A correr d´onda jorra viva alento.

Sim! Grande Mar delírios dotados
Pele pantera clamíde cavadas,
Quilíades de mil ídolos do sol,
Hidra absoluta, beba carne azul,
Quem remorso cauda brilhante azul
Num tumulto quão silente anzol.

Vento erguer! .... Devendo viver tentar!
Enorme abrir fechar meu livro ar,
Onda em pó ousou brotar rocha arriba!
Esvoaçam páginas que ofuscadas!
Rompa água júbilo! Rompam, ondas! 
Quieto teto donde picam a giba!

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Teto calmo onde marcham pombas idas,
Entre palpitar pinho, entre jazidos,
Meio-dia justo compôs fogo estar.
Ô mar, ô mar do sempre reiniciar!
Ô laurel após pensamento olhar
Calmo na demora deuses resguardar! 

Qual lide pura fim chispa consuma,
Diamante impercetível mui escuma
Que desta paz sempre se mantiver
Quando no abismo sol que se repousa
Faz Obra pura duma eterna causa
Tempo cintila, sonho é saber.

Templo tempo, só anseio resume,
Ascender ponto puro me acostume,
Me abarcar desse meu olhar oceano,
Deuses minha oferta suprema aleia,
Cintilação serena que semeia,
Sobre altura desdém soberano.

Eterno ouro templo simples Minerva,
Massa da calma e visível reserva
Água impassível olho vigiar certo
Tanto sono sob véu flâmula calmo
Ô silêncio meu!... Edifício dessa alma
Saturam teto mil telhas! Teto!

Que da fruta fundida do prazer,
Como delícia troco ausência ter,
A Boca onde forma assassina dar
Fumo cá minha futura fumaça
Céu canta alma consumir minha farsa
Mutação rumor margem ao trocar.

Belo céu, vero céu meu olhar tocar,
Após tanto orgulho, tanto estranhar 
Ócio mais plena possibilidade
Me desamparo este brilhante espaço,
Casas dos mortos minha sombra passo
Domar frágil móvel igualdade!

Exposta alma solstício desse archote,
Justiça admirável, sustenta corte
Luz das armas de sem piedade arde!
Me rendo puro espaço primeira tarde,
Olhar-me! Entrego-te luz que me farde
Suposta sombra morta meio alarde!

Me abdico minha solidão mim mesmo
Perto imo, fonte poema afim mesma
Entre evento oco me traço tão puro 
Acatando ao meu tão grande eco interno
Amargor sombra sonora cisterna
E daqui sempre eu recrio um futuro!

Fôreis vós cativas infiéis folhagens,
Golfo comilão tísicas ramagens,
Sobre meu olhar cerros tão secretos,
Meu corpo puxe lerdo fim metade
Rosto atire a carcaça terra igualdade
Chispar penso meus ausentes retos!

Cerro, sacro, cheio ardor sem matéria,
Fragmento terrestre oferta à luz féria
Este lugar pleno dominado facho
Compôs ouro, pedra árvores sombrias
Onde tal mármo vibrou sombra´ egrégias,
Mar fiel dormir sobre tumba ancho.

Cã esplêndida me afaste os idolatras,
Quanto só pastor Sorriso andrólatra 
Apascento misteriosos carneiros 
Alvo rebanho das calmas das tumbas
Afastem-se ajuizadas dessas pombas
Sonhos vãos, anjos curiosos herdeiros.

Aqui vindo a preguiça é futura,
Do claro inseto raspou a secura,
Tudo inflamar desmuda asila ar
E não sei qual a sua ríspida essência
Vida é larga, está livre de ausência,
D´amargura doce, d´alma aclarar.

Estes Mortos jazidos cá da terra,
Que aquecer seca mistério enterra
Alto do Meio-Dia dia sem movimentos
Se pensa persuadir para si feito
Rosto findo com diadema perfeito
Eu sou o mais abstruso movimento.

Não tem só a mim refrear os medos
Lamentos, dúvidas, constrições credos
Seu absurdo que de seu grão do diamante...
Mas seu ocaso é duns ásperos mármores,
Povo vagar entre estirpes das árvores
Já tomaram partido já lentamente.

Fundiram cerrada ausência do ter
Barro rubro bebeu alva casta do ser
Dom Vida passou às flores alento!
Onde estão mortos, frases familiares
Pessoal arte, almas singulares 
A Laroz fia onde formada em lamentos.

Gritos argutos moças aborrecidas,
Dente, olho as pálpebras umedecidas,
Aprazíveis seios bulir com fogo
Sangue fulgir dos lábios se renderam
Extrema oblação, dedos defenderam
Tudo vai sob a terra fundiu ao jogo.

Vós grande alma esperas sonho dar,
Não tenham cores calúnia soar, 
Olhos carne faz cá fonte ouro sim,
Cantarás ainda fores vaporosa,
Vá! Fugir de tudo! Aspecto é poroso,
Santa sofreguidão morreu assim.

Magra eternidade breu doirada,
Consoladora horrível laureada,
Da morte fez um seio maternal,
Belo embuste que devota artimanha 
Quem não conhece não recusa sanha
O Crânio vazio este riso eternal.

Pais profundos, cabeça inabitada,
Que já são peso de tantas pazadas
Terra confundir seus passos largos
Vero roedor um verme esmagador
Não mais hão dormir taboa calor,
Vital a vida não quita mais amargos!

Amor talvez mesmo mim raiva certo
Seu Secreto dente está tão por perto
Que algum nome venha lhe convir!
Que implica! Vê! Almeja! Sonha! Toca! 
Minha carne manta espera leito oco
Ao vivente escravizado caibo vir!

Zenão cruel eleito Zenão d´Eléia!
Mas tu sentes via desta seta ideia,
Vibrar voeja e não voa mais seus laços  
O som renasceu seta mata rusga
Ah! O sol... Qual a sombra de tartaruga
Alma Aquiles inerte grandes passos!

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Tranquilo teto donde marcham pombas,
Pinhos palpitam, dentre destas tumbas,
O justo meio dia compôs das luzes!
O mar, mar sempre do recomeçado,
Oh, recompensa, após de um pensado,
Que um longo olhar faz sobre calma deuses!

Quais Puros trabalhos fins se consuma
Imperceptível diamante mui escuma,
Qual paz parece para conservar!
E sobre abismo quando sol repousa
Obras puras eterna desta causa,
Cintila tempo é saber sonhar.

Firme ouro, templo simples à Minerva,
Massa da calma, e visível reserva,
Água exigente olho guarda-se ao alto,
Tanto de repouso volta da flama,
Meu silente! . . . Edifício dessa d´alma,
Acima d'ouro ou das mil telhas, Teto!

Tempo do templo, só suspira sumo,
É deste ponto alcanço me acostumo,
Tudo resguarda olhar meu do oceano
Do Criador de doação tão soberana,
Cintilação semear-nos já serena,
É no desdém que me alço soberano.

Quanto fundida fruta prazer essência
Que dum deleite altera sua existência,
Boca onde forma se faz morredor.
Aqui sou fumo vero eu meu assuma,
É canta do céu da alma que consuma,
A mudança das margens em fragor.

Belo céu, vero guarda céu alterável,
Após de tanto orgulho do estranhável,
Ócio total do pleno do poder.
Eu me abandono brio deste espaço,
Mansões dos mortos, sombra minha ao passo,
Que domestica frágil no mover.

Almas expostas tochas do solstício,
Admirável justiça, lhe apoio início,
Das quais das luzes armam da piedade!
Eu me só rendo prima da pureza:
Que me resguarda!...Junto à luz beleza
Suposto espectro triste da metade.

Ó meu eu, mim, a mim mesmo ao máximo,
Da fonte poema, coração tão próximo,
Dentre da vida mais me envolve puro;
Eu espero do eco do amplo minha interna,
Amarga, sombra do som da cisterna,
Tocar-me d´alma d´oco do futuro!

Sabes tu, falso preso da folhagem,
Comedor golfos magros da linhagem,
São meus fechados olhos fascinados,
Corpo me arrasta até fim folgaria,
Que fronte o atrai está terra de ossaria?
Uma centelha pensa se ausentados.

Ferido sacro, pleno fel conduz,
O fragmento terrestre ofertou a luz,
Que o léu me fez, domínio destas tochas;
Composto douro, pedras, cedros umbrias,
Que mármor tremam sobre estas úmbrias;
Mar fiel dorme sobre covas rochas!

Cão arreda deste crente do esplendor!
Qual solitário riso do pastor,
Perpétuos dos carneiros misteriosos
Branco rebanho calmas destas tumbas,
Distantes as prudentes alvas pombas,
Sonhos altivos, anjos tão curiosos.

Aqui vindo futuro lenta moleza,
É claro inseto arranha-se na frieza,
Todo queimado vence aceita ar,
Que não sei da severa da existência...
A vida vasta livre desta ausência,
E amargura é doce alma clarear!

Mortos ocultos são bem territórios,
É lhes aquecem secam seus mistérios,
Do meio do alto, meio alterações,
Ajuízam si, acenam si mesmo feito...
Fronte finda do diadema perfeito,
Eu sou sua das ocultas mutações.

Tudo é meu conter de suas coações!
Lamentos, dúvida, entre minhas pressões,
São das falhas extensas do diamante…
Noite doridas são pesados mármores,
Erram o povo tronco destas árvores,
Extraídos outra vez partir errante.

Eles têm fundo espesso desta falta
Argila rubra bebeu a branca casta;
Dom da vida passou á floração!
São dos mortos dicções familiares,
Arte pessoal das almas singulares?
Larva mudada fia lamentação!

Gritos tão de agudos, moças iradas,
Olhos dos dentes, pálpebras miradas
Seio encantado face deste fogo,
Do sangue fulgiu lábios se renderam,
Últimos dons, os dedos que acorreram,
De tudo que há na terra esvai vai jogo!

Você boa alma espera sonhos danos,
Das cores aura são dos sempre enganos,
Olhares carne onda, se fez aquém?
Atraíram quando for tão vaporosa?
Vá! Tudo evade! Minha está porosa,
Santa impaciência morreu também!

Magra imortal sombria deste doirado
Consolador do medo do laureado,
Da morte seio fez tão maternal,
Bela mentira dó que desta acusa!
Que nem conhece, quem que lhe recusa,
Crânio vazio de riso de eternal!

Profundos pais, de testa inabitada,
Embaixo pesos tantas já pazadas,
Terra confunde passam do jamais.
Roedor do vero verme irrefutável,
É ponto desta tábua do dormível,
Viver da vida não se ata jamais!

Amor, por mim, eu mesmo será cisma?
Dente secreto está que me aproxima,
Dos quais os nomes ele convencer!
Importa! Vê! Sonhando quer pegada!
Manta de carne agrada até camada
Vivente eu deste volto a pertencer!

Zenão! Cruel Zenão! Zenão d’Eleia!
Mas furo do dardo que se volteia
Vibrar nem voa, mais voeja do jamais!
Som me infantil me mata dardo fuga!
Ah! Sol... Qual sombra desta tartaruga
Aquiles d´alma grande passo mais!

Não! Não! … Levante! Tempo do exaustivo!
Confine corpo, forma, pensativo!
Beba do meu seio vento nascente!
Oh frescor, deste mar tão de exaltado,
Tornar minha alma! Fonte do salgado!
Corram voltando d´onda do vivente!

Oh! Grande mar delírios de doirados,
Pele pantera, Clâmide em tornados,
Dos mil e mil ídolos sol iqual,
Da livre carne azul, de Hidra absoluta,
Remorso da brilhante cauda solta
Tumulto paz idêntica tão igual!

Levantar vento! …. Qual viver tentar!
Abre e fecha meu livro, imenso ar,
Pó saltou pedra jorrar rocha dela!
O nada desta folha de extasiada!
Rescindam brancos! Quebrem d’água alegrada!
Tranquilo teto de onde picam a vela!
PAUL VALÉRY-TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

OS AMANTES SEM CONSETIMENTOS - ERIC PONTY

I

Se a minha lida ao áspero instante,
Poupada pode ler, e afãs humanos
Que eu esteja por razão de último anos,
Em vosso corpo olhar lume já lento.

E trilhos de prata fino já argento
Que abandonaste grinalda ao verde anos,
E a face pender cor, o que em meus planos,
Me faz andar do medo no lamento.

Audácia a fúcsia há- de olhar amor,
Que vós se demostrais de meu penar,
Por enquanto anos, dia desta hora por.

E se é contrário sua fronte desejar,
Meu tempo ao menos junte ao teu pesar,
Pode então socorro em largo suspirar.

II

Vou-me retornar atrás a cada passo,
No olhar exausto que a lançar transposto,
E então do vosso par ganho conforto
Ergue-me mui além dizendo desgraço.

Ficar doçura bem que deixo ao espaço,
Da longa vigília e curta lida absorto,
Ao parar em desalento qual morto,
E se olhares me ponho à terra baço.

Se há dúvida me assalta por momentos,
Em riste pranto longe com um membro
Do espírito seu pois morrer há-de?

Não responde em louvor: - Não te relembro
Que esse é o privilégio de tuas dores,
Entregues toda humana qualidades.

III

Os nossos amantes correspondiam-se entre si e viam-se diariamente a sós no pequeno pinhal ou perto da velha capela. Aí trocavam juras de amor eterno, lamentavam o seu destino cruel e faziam vários planos.
Correspondendo-se e conversando desta maneira, chegaram naturalmente à seguinte conclusão:
Se não podemos existir um sem o outro, e se a vontade de pais de coração duro, porque é que não podemos passar sem o seu consentimento.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, agosto 30, 2023

PROFISSÃO DE FÉ - ERIC PONTY

Eu nutro pensamento deste nobre,
Que néctar e ambrosia largos a Jovi,
Admirar olvido na alma clama,
De outra doçura, Lenheiro arribo.

Quando escuto coisas, falo em recibo,
Na fronte, a que ela sempre gemer prove,
Raptado não sei onde, louvor me prove,
Da doçura a lançar numa ama libo.

Que aquela foz ao fim ao léu subida,
Que em todas, caras falas só lhe há paz,
Não se pode pensar, se não olvida.

E hora em menos da fala se nos traz,
Existencialmente, quando nesta lida,
De arte empenho, natureza se faz. 
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

DUMA LEMBRANÇA - ERIC PONTY

ME FALHA tempo exaltar-me teus velos.
E um por um devo contar adorá-los:
Amada quero olhar certo olhar pluma, 
Eu só quero ser teu admirador. 

Os gregos te nomearão Medusa 
Cacheada e alto fulgor madeixa. 
Eu te chamo Ulisses minha enredada: 
Meu coração conhece as portas da margem. 

Quando tu te extravias dos próprios velos, 
Não me esqueça, avisar-te que te elejo, 
Não me deixes confuso ir sem teus belos. 

Pelo mundo sombrio todas as passagens 
Que só tem sombria, transitórias dores, 
Até que sol suba a tez alva teu velo. 
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

Música ante tudo, tua natureza - Eric Ponty

Música ante tudo, tua natureza
Ser preferir o verso,
Saído da tua sibila
Ecoadas tardes de primavera,
Quanto tu proferes
Sons e gemidos femíneos
Com tua boca doce de limão
Os senões desta depois do tempo próprio
Em que ti percorro entalhada em ar
Sublime qual ave
Partir do embate ao crepúsculo
Quando às mulheres contemplam o meio da varanda
Nos assentares do Sol
Que estão sob teu cílio,
Mais incerto e mais solúvel ar,
Agradaram às tardes gozosas
Das aves perdidas entre os desvãos
Em meio às árvores
Verdes
Reinventadas à circunvizinhança do teu corpo.

Teus pés raiarei à sombra, tuas mãos à luz,
No voo me guiam teus olhares charmosos,
Com beijos quero aprender tua boca
aprenderam meus lábios conhecer teu fogo.
Ô pernas herdeiras da irrestrita areia
Sulco de cereal, estendido duelo,
Ô coração de pedreira, reinvenção
quando assentarei em teus seios minhas orelhas,
Do meu sangue invadiu tua sílaba.

Nunca só, contigo
Por esta terra,
Abarcando o vigor.
Nunca está abandonado.

Contigo pelos bosques
Refugiar
Tua flecha
Entumecida
D´a alvorada,
De terno musgo
Da sempre-viçosa.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

terça-feira, agosto 29, 2023

A ESTÁTUA DE PORCELANATO - ISABEL ALLENDE-TRAD, ERIC PONTY

 


Primeira vez que o vi, Don Cornélio tinha um lugar no meu coração. Era um cavalheiro de olhos redondos e míopes, que usava um fato cinzento um pouco antiquado com catorze bolsos. À distância, me parecia doce e gentil. De perto, ele era tímido. Vivia numa pensão nos fundos e nós, suas vizinhas, ajustamos os nossos relógios quando passava pela manhã, porquê a sua pontualidade está desafiar o cronómetro do rádio.

Sendo que nunca chegou um segundo atrasado ou um segundo adiantado. Sairia às oito e três minutos depois das oito e caminhava com passos medidos até à esquina, onde apanhava o ônibus verde ao seu trabalho. Muitas vezes encontrei-a e assim, ao longo do tempo, tornamo-las amigos.

Não era graças a isso, posso contar a sua história sem medo de estar errado, porque a ouvi dos seus próprios lábios. Don Cornélio trabalhava num lugar sombrio, uma sala poeirenta, com apenas uma janela que não era aberta há muitos anos, abarrotada duma única janela repleta de papéis importantes que ninguém dos documentos mais importantes que ninguém lê. Um cartório. Aí passava o dia inteiro escrevendo na sua bela caligrafia, em folhas de papel que depois foram arquivados para a eternidade. Este cartório servia para registrar passagens dos tempos.

Os arquivados para toda a eternidade. O mais notável sobre esse local se não foram os ratos. Entre o mobiliário de metal pesado e os armários antigos viviam numerosas linhagens, tribos, povos inteiros, e numerosas famílias, aldeias inteiras destas pequenas bestas peludas.

Se não fora pequenas bestas peludas. Uma das tarefas de Don Cornélio era combatê-los, pois tinha de os impedir devorarem os documentos valiosos. Não tinha ódio pessoal contra os roedores; pelo contrário, até gostava deles, porque também eram tímidos e cinzentos, com olhares redondos, e cinzentos, com olhos redondos e míopes, mas cumpria o seu dever de os extinguir. Todos os dias administrava aos seus inimigos uma dose de veneno, que conduzia numa das suas gaiolas que carregava num dos seus catorzes bolsos, e o seu primeiro dever ao chegar ao cartório foi constatar o cartório devia precaver-se o campo de batalha. Ele rastejaria pelos cantos, numa esperança de que as armadilhas estivessem vazias, e quando encontrasse um morto, agarrá-lo-ia dum cadáver, agarrava-o com as pontas dos dedos e atirava-o para o lixo com dum suspiro de piedade!

Tudo começou num dia frio e dourado de Outono. Eu vi Don Cornélio a sair da sua pensão, como eu fazia todas as manhãs, e apressei-me a averiguar os ponteiros do meu relógio que usava um longo lenço cinzento à volta do pescoço com detalhes de desenhos gravados e contava os oitenta e sete degraus que o separavam do ônibus que sem olhar de lado porque ele conhecia a rua de cor. Da minha janela, vi-o navegar como um veleiro com o seu lenço à volta do pescoço.

Pensei que este seria mais um dia sem surpresas, mas não foi. De repente, a meio do quarteirão, parou alarmado: tinha visto algo novo.

Era uma loja recém-inaugurada, com uma amostra como azul e verde como um aquário, no meio dos edifícios severos do nosso bairro. O escrivão do escrivão aproximou-se, fascinada, perdendo a conta dos passos que o levaram nos passos que o levaram à esquina. Ela virá muitos objetos estranhos no leme de um antigo naufrágio, uma boneca com uma tristeza de cabelo humano, fãs de pelos humanos, ventiladores de penas roubados às aves do Paraíso, e outros objetos vindos de lugares muitos distantes tais como bolas e consolos. No centro de todos, em lugar de honra, ficava uma de Porcelanato.

Como posso descrevê-la para que o possa imaginar? Imaginem-na? Ela era uma senhora gorda, caótica e enorme, mal coberta dos véus de faiança, segurando numa mão um cacho de uvas e na outra numa mão e um pombo de olhos cruzados na outra. Fitas dos seus caracóis e usava incríveis chinelos quais gladiadores romanos.

Os chinelos de gladiadores romanos deixam a amostra os seus pés de bailarina. Evidentemente que não foi concebida como uma luz, nem foi utilizada para pendurar casacos num corredor, e ninguém o teria posto em qualquer lugar como um ornamento, pois ocupava mais espaço do que uma bicicleta e era tão frágil como uma uva duma boa verve.

O nosso amigo vigiava-a viu-a petrificada e só reagiu alguns minutos mais tarde, quando percebeu que ia perder o seu transporte habitual.

Disparou, enredando-se nas extremidades do seu lenço, e apanhou o automóvel não que não último instante.

Tinha estado distraído o dia todo, a trabalhar sem fazer nada, o seu pensamento ocupado com a figura de porcelana e sobre a figura de porcelana e as mãos masturbando-se nas nuvens dos incensos. Não conseguia parar de pensar nela. Na manhã seguinte vi-o a sair da pensão cinco minutos mais cedo, o que os cinco minutos mais cedo, o que descontrolou todos os relógios das vizinhas para fora de si.

Ele instalou-se em frente da janela do antiquário e ficou ali parado durante muito tempo a olhar de boca aberta foi nesse momento, como me disse muito mais tarde, quando tal gordura de porcelanato lhe piscaria o olhar.

Don Cornélio, logicamente, pensou ter visto mal. Ele era muito míope, como já dissemos anterior. Ele tirou os seus óculos, limpou-os com atenção, e pô-los, e depois pareceu-lhe que a Senhora Gorda lhe piscava o olhar com um piscar de olhares sendo que a gorda lhe piscava com o olho com o outro olhar!
Percebeu que pela primeira vez chegaria atrasado ao trabalho, porque não podia desviar o olhar desta janela. Sendo não conseguia arrancar-se desta janela. Ficou ali amuado, a acenar, a fazer vénias, de pequenos arcos corteses, até que as pessoas começaram a reunir-se em seu retorno para observar o seu comportamento curioso.

De repente percebeu que ele era o centro duma multidão, e, assustado, apressou-se a entrar na loja de antiquário para fugir dos espectadores. Ao se mover a porta, os sinos chineses tocaram, e ficou muito de novo assustado, porque pensava que tinha partido alguma coisa. Mas a antiquária, com o sorriso bondoso tranquilizou-o.

O nosso amigo foi deixado de pé entre aqueles objetos peculiares, tais bolas e consolos olhando em retorno, temeroso dos olhares de todos os lados, receosos, talvez, de que um povo ou uma professora de matemática pudesse emergir de algum lugar.

-Vi-a a olhar para a ninfa, gosta dela? -fez a antiquária, enquanto salpicava bolas de naftalina sobre uma coruja embalsamada. - Penso que piscou o olhar para mim", disse Don Cornélio, sentindo-se tal qual um idiota.
- Podia jurar que era muito antiga e muito estranha", disse a outra, sem qualquer surpresa.
-Eu poderia ter jurado que o outro me piscou o olhar também", acrescentou Don Cornélio com um sussurro pálido de uma voz.
-É possível...
-Quanto vale a pena? - O escriturário queria saber.
-Quanto é que ganha? -assumiu a antiquária por sua vez, contorcendo os bigodes do seu mosqueteiro.
Don Cornélio, surpreendido, disse-lhe.
-Então é o seu preço", disse a proprietária desta loja, abanando a Senhora Gorda com um espanador de penas. Era uma enorme quantia de dinheiro para um modesto escrivão dum cartório. Ela aproximou-se da estátua, esperando que ela fizesse algum gesto amigável, mas nada acontecia.

Nem um gesto amigo, mas nada aconteceu: permaneceu imóvel e silenciosa, seria de esperar de algo feito de terracota.

- Tudo bem, eu vou comprá-la", decidiu Don Cornélio, sendo levado por um impulso irresistível.
A antiquária recebeu o dinheiro sem o contar, colocou-o no bolso do seu colete, que dava para ver por entre as pernas, e deu umas mexidas no bolso do seu colete e fez umas cambalhotas excitadas.
-Ela vai mudar a sua vida", assegurou ao seu cliente.
Don Cornélio não sabia quão verdadeiro era o que ouvia.

O escrivão levantou a Gorda cuidadosamente, descobrindo que ela era mais leve do que ela parecia à primeira vista. Saiu da loja carregando-a, descartados pelos sinos chineses à porta. Mas, lá fora, ainda havia apinhava todas curiosas, e, sentindo que estava a ser observado com zombaria, retornou assustado.

- Tem alguma coisa para o cobrir? - perguntou ele.
A proprietária da loja abriu um baú de madeira e passou alguns minutos a vasculhá-lo, enquanto a sala estava permeada por um ligeiro odor a sândalo. Por fim retirou um grande pano Pink que, quando desdobrado, provou ter no centro uma face e dois tubarões, sendo terminada por ter no centro uma face e duas canelas cruzadas. Uma bandeira de pirata de um escrivão.
-Como é que se chama? -assim como Don Cornélio, enrolando a bandeira à volta da figura.
-O meu nome é Balthazar", respondeu a vendedora com um arco.
-Não, a estátua...
-O seu nome é Fantasia", respondeu com outro arco.
Don Cornélio concluiu que o nome lhe agradava, e saiu para a rua com a sua nova aquisição nos braços nos seus braços, ignorando os olhares intrusos e do escândalo e da algazarra dos pratos chineses.
Retornou para a sua pensão, não se lembrando de modo algum do escrivão.
Abriu a porta e tentou entrar com cautela, de modo a não atrair mais atenções.
Atravessou o corredor na ponta dos pés e dirigiu-se para a escadaria, mas tal como pensava que estava a salvo, uma voz estridente da senhoria paralisou-o no seu lugar.
-O que é que ele está lá a fazer? -Pediu ela, espetando o seu nariz por meio das folhas do feto que decorava a entrada.
-Um simples ornamento", respondeu Don Cornélio suavemente.

Ela queria vê-lo. Aquele caroço do tamanho de um defunto parecia muito suspeito para ela, sendo muito rígida. Orgulha-se do fato que a sua era uma respeitável pensão, onde nenhuma criança ou animal era admitido, e, a fortiori, ela, ela tinha de ser inflexível quanto certas decorações. 

O nosso amigo não tinha outra alternativa senão obedecer. Quando a estátua foi posta a estátua no chão, acabou por ser tão altiva como a padroeira, embora não de formato de tão larga. Removeu-a bandeira que a cobria aparecia em todo o seu esplendor cor-de-rosa. 
A senhoria arfou de tensão.
-Porquê, ela está quase nua! -exclamou horrorizada de tensão ao ver a bela da estátua.
As portas do vestíbulo abriram-se, e as cabeças das outras reformadas espreitaram para fora. Sendo que as outras reformadas, que assistiram à cena com espanto pela estátua de tal beleza. Elas nunca tinham visto algo parecido. Uma a uma, elas apresentaram-se para dar a sua opinião, e nenhuma delas não foi mesmo favorável, pois todas concordaram que se tratava de uma monstruosidade de beleza. A senhora abreviou as observações dizendo que não estava interessada em que se tratava de uma obra de arte, pois estava muito pouco revestida e dava muita tensão, e por isso teve de abandonar a sua pensão.

Don Cornélio, vencido pela sua timidez incurável, não tentou dissuadi-la. Vivia lá durante vários anos e já estava habituada a isso. Não queria mudar-se para outra pensão, mas compreendeu que não era possível separar-se de Fantasia, pelo que teria de caçar outro lugar onde pudesse viver com ela.

Decidiu levá-la provisoriamente ao cartório, onde poderia abrigar entre as prateleiras durante alguns dias. Saiu de novo para a rua e igualmente, apontada pelo dedo da sua senhoria que estava a apontar a porta. Lá Fora, sentiu-se melhor, contudo, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de assobiar, mas não para assobiar, não funcionou, porque estava fora de prática.

A Gorda de Porcelana aceitou com gratidão e os dois começaram a conversar sobre rendas de bilros e receitas de bolos, enquanto D. Cornélio aproveitava a luz do candeeiro mais próximo para folhear um jornal que encontrava no banco, à procura de receitas de bolos.

Na luz do candeeiro mais próximo para folhear um jornal que deparou no banco, à procura de um anúncio que lhe oferecesse uma pensão ou um emprego. Passado algum tempo, a velhota embrulhou-se no seu xaile e anunciou que era demasiado tarde e que tinha de se ir embora.

Era muito tarde e tinha de se retirar. A sua casa não era muito longe, mas ela não gostava de andar à noite com os seus sapatos pesados.
-E não vais para casa? perguntou ao despedir-se.

E então Dom Cornélio, que estava à espera que ela lhe perguntasse, abre a porta do coração, vencendo afinal tantos anos de silêncio e de pudor, e conta-lhe a sua modéstia, e contou-lhe a sua história, desde o momento em que viu Fantasia no mostruário da loja de antiguidades, até ao último momento em que estavam na praça, sem casa, sem trabalho e sem futuro, mas inundados de uma alegria inexplicável.

A velha ouviu atentamente até ao fim, sem interromper, e quando ele já tinha esvaziado toda a sua ansiedade, ela disse-lhe que tinha um quarto desocupado em sua casa uma estava justamente à procura de um cavalheiro que quisesse aluga-lo.

-Terei muito gosto em receber a sua Fantasia em minha casa", acrescentou.

Dom Cornélio, por delicadeza, recusou com grandes protestos: não queria incomodá-la de modo algum; que pensaria ela dele? Não queria intrometer-se; que pensaria ela dele; que abusava da sua bondade, etc. Mas Fantasia deu-lhe um pequeno pontapé para que ele não exagerasse nas suas recusas, pois corria o risco de a senhora o levar a sério e retirar a proposta. Por fim, chegaram a um acordo justo e os três, de braço dado, partiram, para a sua nova casa, perdendo-se no meio de as ruas estreitas do bairro antigo da cidade.

Já me encontrei muitas vezes com Don Cornelio. Encontrámo-nos na rua e conversámos durante muito tempo. Ele contou-me esta história e autorizou-me a contá-la de minha vez. Mas ele mudou muito. Eu diria que ele é um homem diferente. Já não usa o fato cinzento com catorze bolsos, mas sim um avental de várias cores e um chapéu de palha com duas penas de faisão.

No inverno, envolve-se no seu velho cachecol, agora com afeto bordado com flores. Ela disse-me que, quando deixou o cartório, encontrou a sua verdadeira vocação, que não era copiar documentos no fundo de uma sala empoeirada, mas andar por aí na rua a assobiar, a falar com as pessoas, cultivar a amizade de El Loco na praça e dar biscoitos de aveia aos pombos, ratos e outros bichos menores. Como sempre teve de o fazer de ganhar a vida, combinou a sua necessidade com uma ocupação adequada: tornou-se um vendedor de picolé no verão e vendedor de castanhas quentes no inverno.

Don Cornelio passa pela minha rua, empurrando o seu carrinho e assobiando como um melro desafinado. As crianças conhecem-no e, quando o ouvem, deixam os seus livros e brinquedos para correr ao seu encontro. Por vezes, os pombos seguem-no.

Durante todo o dia, entrega as suas mercadorias e, à noite, quando está cansado, regressa a casa, onde a velha mulher com o laço florido e a gravata borboleta e os sapatos ortopédicos está à sua espera-o com Fantasia.

Com a Gorda de Porcelana voltam as viagens incríveis, vão ao subsolo, voam tal qual aviões, nadam em todos os mares e entram nos livros para aventuras inesquecíveis. Ela não o pode acompanhar nas ruas a vender gelados ou castanhas, porque chamaria a atenção dos transeuntes, mas o seu espírito está sempre com ele.

Graças a ela, o passado cinzento de escrivão é apenas uma recordação longínqua, e hoje, Dom Cornélio é um homem vestido de muitas cores. Tal como disse o antiquário, Fantasia mudou-lhe a vida.

Ah! Estava a esquecer-me de uma coisa importante: Dom Cornélio não perdeu a sua pontualidade e cada vez que ele passa na minha rua e eu ouço o seu assovio, sei que são exatamente quinze minutos depois das quatro...

ISABEL ALLENDE-TRAD, ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

Rimas – Francesco Petrarca – Trad Eric Ponty

 II

Se o fogo com o fogo não aparece,
Nem há rio o qual a chuva haja secado
Pois igual por igual é ajudado
E pequeno contrário ao outro cresceu.

Amor – que alma em dois corpos, faz,
Se há sempre em nossas mentes governado,
Que fazes tu que de modo desusado,
Com mais querer assim ela descresse?

Talvez igual que Nilo que caindo
Desde mui alto seu contorno atreva,
Do qual o sol ao mirá-lo está ofuscando;

O desejo que consigo não consuma,
Em seu objeto extremado vai cedendo
E empolear demais, se vai retendo.

V

Em ouro e perolas no floral tocado,
Que achar que o inverno é rigoroso,
São fontes que inverno passa a ser rigor
Que clama em meu peito atado.

De mim dias será o curso truncado,
Que a dor emana desta sua luz primeva,
Ao homicida o espelho culpar no osso,
Que ao mirar-vos lhe haveis cansado.

Este impulso silêncio ao luzeiro,
De mim Senhor quando por mim pedia,
Vendo que vou findar em vosso desejo.

Fui fabricado sobre água de Umbria,
Do abismo, e banhado pelo Leteo
Onde se empregou a morte minha.
Rimas – Francesco Petrarca – Trad Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

segunda-feira, agosto 28, 2023

INFINITO - GIACOMO LEOPARDI – Trad. Eric Ponty

Sempre cara foi-me erma colina,
Declino que a terra parte
Do último horizonte a vista impede
Porém sentado, contemplando os intermináveis
Espaços detrás e sobre humanos
Silentes e profundíssima calma
Fingindo ser o meu pensamento, pouco falta,
Para que coração se amedronte; enquanto o vento
Ouço murmurar entre ramagem, eu aquele
Infinito silêncio desta voz
Vou cotejando, gemando em mim uma espécie passada 
Do eterno
E das estações já fenecidas. E do presente
Vida rumorosa. Assim nesta
Imensidão se anega o pensamento meu
Naufragar no azul doce do mar.

 GIACOMO LEOPARDI – Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

LXXVII - Messer Aldobrandino Mezzabati da Padova a proposito del precedente sonetto - Dante Alighieri - TRAD. Eric Ponty

Lisetta vos da vergonha com tua flor.
E orienta-o na passagem desta dor,
Sendo para vos tirar do bruto suor,
Na força daquele que em breve correrá.

Beleza da mulher sim, se ela quiser se opor,
há sujidade que ele sente da cobardia:
Tal como a voz era familiar com a cor,
Eu dirollo, então esse Amor faz-me gastar.

O senhor que guarda o pódio desta sede,
Perante o vosso nosso senhor perga,
Ao corredor que veio pouco crê, pede;

E quando chegou ao porto de Mercede,
à voz dizia: "Para a fortaleza não subas,
Até ao da era que o Senhor o conceder.

VI
Senhor, vero é algum provérbio antigo,
Isto é bem que pode, mas não queres,
Tu dás crédito ao valor tua palavra
E premiado de ver o teu inimigo. 

Eu sou e fui teu bom e servo antigo,
Que a ti são dados tais com raios sol,
E do meu tempo não aumentou esmola
E homens gostam mais que fatigados. 

Já esperava ascender para tua altura,
E gosto peso desta potente espada,
Pulsa necessidade e não voz do eco.

Mas céu que certa virtude despreza,
Localiza mundo, se dá que outro vá,
Ao prender fruto da árvore tão seca.

Dante Alighieri - TRAD. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, agosto 27, 2023

POEMAS DE AMOR - 1567 a 1085 a.C. - EGITO - TRANSLATADO ERIC PONTY

Sobre traduções literais dos textos hieroglíficos para italiano por Boris de Rachewiltz. A maior parte dos textos egípcios originais sobreviveram apenas em forma incompleta, datando de 1567 a 1085 a.C.

 Translated by Ezra Pound

I

Contigo aqui em Mertu
É como se já estivéssemos em Heliópolis.
Voltamos ao jardim cheio de árvores,
com meus braços cheios de flores.
Olhando para o meu reflexo na piscina parada –

Os meus braços cheios de flores -
Vejo-te a rastejar na ponta dos pés
Para me beijar por trás,
Com meu cabelo carregado de perfume.

Com os teus braços à minha volta
Sinto-me tal se pertencesse ao Faraó.

II

Tão pequenas são as flores de Seamu
Quem olha para elas sente-se um gigante.
Sou o primeiro dos vossos amores,
Tal com jardim abatido de empoar com relva e
Perfumes de flores

Afável é o caminho que cavaste
Na frescura do vento norte.
Tranquilos as nossas passagens
Quando a tua mão pousa na minha em alegria.
A tua voz dá vida, como o néctar.
Ver-te, é mais do que comida ou bebida.

III

Há flores de Zait no jardim.
Eu corto e amarro as flores para ti,
A fazer uma grinalda,
E quando te embebedas
E se deitas para dormir,
Eu sou aquela que banha o pó dos teus pés.

IV

Eu encontro o meu amor a pescar
Os seus pés nos baixios.

Tomamos o pequeno-almoço juntos,
E bebemos cerveja.

Ofereço-lhe a magia das minhas coxas
Foi apanhado pelo feitiço.
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

UM ENSAIO PARA WALTER BENJAMIN - ERIC PONTY

 Segundo Walter Benjamin que propõe que se dividíssemos todas as descrições de cidades existentes em dois grupos segundo o local de nascimento dos autores, que verificaríamos certamente que os escritos por nativos das cidades em causa estão em grande minoria. O pretexto superficial - o exótico e o pitoresco - só agrada aos para quem vem de fora. A descrição de uma cidade por um nativo exige outros motivos, mais profundos - os motivos da pessoa que viaja para o passado, e não para partes estrangeiras. O relato de uma cidade feito por um nativo terá sempre algo em comum com as memórias; não é por acaso que o escritor de infância. Tal como Franz Hessel passou a sua infância em Berlim. E se ele agora se põe a andar pela cidade, não tem nada do impressionismo entusiasmado com que o escritor de viagens aborda o seu assunto. Hessel não descreve, narra. Mais ainda, repete o que ouviu.

Spazieren in Berlin é um eco das histórias que a cidade lhe conta desde criança. um livro épico, um processo de memorização enquanto passeia, um livro para o qual a memória atuou não como fonte, mas como musa, como dialoga com FRIEDRICH von SCHILLER no poema Ditirambo.

Percorrer as ruas à sua frente, e cada rua é uma experiência vertiginosa. Cada um deles conduz para baixo, se não para as Mães pelo menos a um passado que é tanto mais fascinante quanto não é apenas o passado privado do autor. Enquanto caminha, os seus passos criam uma ressonância espantosa no asfalto. A luz que brilha no pavimento lança uma luz ambígua sobre este duplo andar. A cidade como mnemónica para o caminhante solitário: evoca mais do que a sua infância e juventude, mais do que a sua própria história como nós podemos ver nesta estrofe do Ditirambo:

Derramai sobre mim - derramai a vida plena que viveis!
O que é que vós, ó deuses! podeis dar ao mortal?

O que revela é o espetáculo interminável da Floneur que pensávamos ter sido enfim relegado para o passado. E poderá renascer aqui, em Berlim, onde nunca floresceu. Em resposta, devemos salientar que os berlinenses mudaram. O seu problemático orgulho nacional pela sua capital começou a dar lugar ao seu amor por Berlim como cidade natal. E ao mesmo tempo, Europa assistiu a um apuramento do sentido da realidade, da consciência da crónica, do documento e do pormenor. Nesta situação, assistimos à chegada de alguém que é assaz jovem para ter vivido esta mudança, e assaz velho para ter conhecido pessoalmente os últimos clássicos da Floneur: Apollinaire e Leautaud. O Floneur é a criação de Paris. O que me surpreende é que não era Roma. Mas talvez em Roma até o sonho seja obrigado a deslocar-se por ruas demasiado bem pavimentadas. E não estará a cidade demasiada de templos, praças fechadas e santuários nacionais para poder entrar nos sonhos do transeunte, juntamente com cada pedra da calçada, cada placa de loja, cada degrau e cada portão? As grandes reminiscências, os frissons históricos - tudo isso é tão desconhecido para o Floneur, que se contenta em deixá-los para o turista. E trocaria de bom grado todo o seu conhecimento dos bairros de artistas, dos locais de nascimento e dos palácios principescos do cheiro de uma soleira envelhecida ou o toque de um azulejo que qualquer cão velho leva consigo. E muita coisa pode ter a ver com o romanismo porque não são os estrangeiros, mas eles próprios, os parisienses, que transformaram Paris na Terra Prometida dos Floneurs, numa "paisagem feita de pessoas vivas", como lhe chamou Hofmannsthal. Paisagem - é nisto que a cidade se torna para o Floneur. Ou, mais precisamente, a cidade divide-se nos seus polos dialéticos.

Toda a liderança essencial vive da força de uma grande vocação que é essencial oculta. E esta vocação é, antes de mais, a missão espiritual-popular que o destino de uma nação lhe reservou. É preciso despertar o conhecimento desta missão e enraizá-la no coração e na vontade do povo e de cada um dos seus membros. Mas esse conhecimento não nos é dado simplesmente quando conhecemos alguns fatos e circunstâncias contemporâneos - por exemplo, quando nos apercebemos da situação política atual do povo alemão ao se torna-se uma paisagem que se abre para numa sala de estar que o termina tal qual Ditirambo de FRIEDRICH von SCHILLER:

Acreditem em mim, juntos
Os deuses brilhantes vêm sempre,
Ainda como antigamente;
Raramente vejo Baco, o doador da alegria,
Então surge o belo Eros, o menino que gosta de rir,
E Febos, o imponente, olhai!
Aproximam-se cada vez mais,
Os celestiais todos -
Os deuses com a sua presença
Enchem a terra como seu salão!
Dizei, como hei-te dar as boas-vindas,
Humanos e nascidos na terra,
Filhos do céu?
Derramai sobre mim - derramai a vida plena que viveis!
O que é que vós, ó deuses! Podeis dar ao mortal?
As alegrias só podem habitar
No palácio de Júpiter -
Cheio de brilho com o teu néctar,
Oh, alcança-me o cálice!
"Hebe, o cálice
Enche-o até à borda!
Mergulha os teus olhos - no banho do orvalho,
Deixai-o sonhar, enquanto o Estigme está asilada da sua vista,
Que a vida dos deuses é para ele!"
Ele murmura, ele brilha,
A fonte do prazer;
O peito fica sereno –
O olhar torna-se brilhante!

" Dá à cidade um pouco do teu amor pela paisagem", diz Fritz Hessel sobre Berlin Queriam apenas ver o campo na sua cidade. Afinal de contas, não tinham o Tiergarten, desse bosque sagrado de Floneur com as suas vistas do sagrado nas moradias do Tiergarten; de onde se pode das tendas se pode ver as folhas a cair no chão, ainda mais jazz do que o habitual; e do Neuer See, cujas baías e ilhas arborizadas estão no Neuer See, cujas baías e ilhas arborizadas estão gravadas na mente - o lago "onde, no inverno, traçámos artisticamente grandes no gelo, como holandeses, e no outono nos metíamos numa canoa da ponte de madeira junto à casa dos barcos com a senhora da nossa escolha, que assumia o leme" ? Mas mesmo que nada disto existisse, a cidade estaria cheia de paisagens para Floneur:

O peito fica sereno –
O olhar torna-se brilhante!

Os berlinenses só precisam de ver o céu estendido sobre os arcos do caminho de ferro elevado, tão azul como sobre as cadeias montanhosas de Engadine; ver como o silêncio surgiu do barulho tal da rebentação; ver como as pequenas ruas do centro da cidade refletem os tempos de dia, como um buraco de montanha. É claro que é a verdadeira vida dos habitantes.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

O POETA - UM POEMA DE WALTER BENJAMIN - TRAD. ERIC PONTY

À volta do trono de Zeus estavam reunidos
Nos Olímpicos. E Apolo falou,
O seu olhar virou-se para Zeus, questionando:
"Na tua vasta criação, grande Zeus,
Eu consigo distinguir cada ser individual
E distingui-los uns dos outros com um simples olhar.
Só o poeta busco em vão".
Ao que o governante lhe respondeu:
"Olha para baixo, para os penhascos da vida, para a íngreme
A encosta rochosa, onde as gerações
Vagueiam em eterna mudança.
Um escolto heterogéneo: vês alguns
Com as mãos erguidas, suplicando na miséria,
Enquanto outros veem a brincar, a rir,
Colhendo flores no precipício;
E alguns veem-se a arrastar-se em silêncio,
O seu olhar vazio fixo no chão.
Inúmeros são os seres que achas na multidão,
Cada um diferente em espírito e comportamento;
Mas entre eles buscais em vão o poeta.
Olhai para a margem da grande estrada de pedra,
Onde a queda súbita e íngreme da rocha
Eternamente troveja nas profundezas sombrias.
Contempla a beira do monstruoso abismo:
Aí vês um que se mantém incólume
Entre a noite negra e a vida de muitas cores.
Ele fica ali numa calma imutável,
Solitário, num distancia da estrada da vida.
Sua voz penetrante é dirigida agora para dentro,
Agora corajosamente para cima, para nós na luz,
E agora, com grande amplitude, sobre a multidão.
A sua mão escreve linhas eternas.
Vê e conhece este: é o poeta".
 WALTER BENJAMIN - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

DOIS MESTRES POETAS - FRIEDRICH von SCHILLER E W. Goethe - TRAD. ERIC PONTY

AMALIA.

Anjo formoso, os encantos de Walhalla expondo,
Mais belo que todos os jovens mortais era ele;
Teu olhar era suave, tais raios de sol do dia de maio
Suavemente sobre o mar azul e vítreo.
E os teus beijos! - que sensação extasiante!
Duas chamas que se entrelaçam amorosas,
Tais tons suaves da harpa que, juntos, se aproximam
Numa doce harmonia divina, -
Alma e alma abraçaram-se, embaralhar, fundiram-se,
Lábios e bochechas com paixão trémula ardiam,
O céu e a terra, num caos imaculado, terminaram,
Em torno dos amantes felizes, loucamente virados.
Ele se foi - e, ah! Com uma amarga angústia,
Em vão agora dou os meus suspiros de luto;
Ele se foi - em desesperada dor eu definho
Alegrias terrenas que nunca mais poderei apreciar!


GRUPO DO TÁRTARO.

Como o mar, em fúria, que assalta os céus,
Ou um riacho que se lamenta numa bacia rochosa,
Vem de baixo, em gemidos de agonia,
Um suspiro pesado e vazio de tormento!
Os teus rostos exibem marcas de amarga tortura,
Enquanto teus lábios irrompem maldições de desespero;
Os teus olhos estão vazios e cheios de tristeza,
E teus olhares com angústia sincera
Buscam o ribeiro de Cocito, que corre lá em baixo a chorar,
Para a ponte sobre as tuas águas eles definham.
E dizem uns aos outros com acentos de medo,
"Oh, quando aparecerá o tempo da cortesia?"
Sobre eles treme a eternidade sem limites,
E a foice de Saturno, sem piedade, treme!
 FRIEDRICH von SCHILLER

Poemas de Goethe

I

SOM, doce canção, de alguma terra distante,
Suspirando amenamente ao alcance da mão,
ora de alegria, ora de tristeza!
As estrelas costumam brilhar assim.
Assim, mais cedo o bem se revelará;
Crianças pequenas e crianças velhas
Ouvirão com prazer os teus números.

II
Ninguém fala mais do que um poeta;
E ele gostaria que o povo o soubesse,
Elogio ou culpa ele sempre ama;
Nenhum em prosa confessa um erro
Mas fazemo-lo, sem terror,
Nos bosques silenciosos das Musas.

O que errei, o que corrigi,
O que sofri, o que realizei,
Nesta coroa de flores pertencem;
Para os idosos e os jovens,
E o vicioso, e o verdadeiro,
todos são belos quando vistos na canção.

III
UMA MANHÃ de primavera, brilhante e bela,
Uma pastora vagueava e cantava;
Jovem e bela, livre de cuidados,
Pelos campos suas notas claras tocavam:
So, la, la! le ralla, etc.

Dos seus cordeiros uns dois ou três
A Thyrsis ofereceu-se para um beijo;
Primeiro ela olhou para ele com malícia,
E como resposta cantou apenas isto:
So, la, la! le ralla, etc.

Fitas ofereceu a seguinte,
E o terceiro, o seu coração tão vero;
Mas, como os cordeiros, o escarnecedor
Riu-se do coração e das fitas, -
Ainda assim, era "la! le ralla, etc.
TRAD.ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

+ Dois Poemas de Charles Baudelaire - TRAD. Eric Ponty

A Beleza

Eu sou adorável, ó mortais, um sonho de pedra, 
E o meu peito, onde vos magoais todos por vossa vez,
É feito para que o amor nasça no poeta-
Eterno, e silencioso tal é matéria é intemporal.

Eu reino no ar como uma esfinge intrigante;
O meu coração é de neve é puro como os cisnes.
Odeio apenas o impulso, da quebra da ala,
Nunca chorarei, nem nunca mostrarei um sorriso.

Os poetas, em vista do meu elevado desígnio
De estilo, ao que parece, dá mais fina das estátuas,
Passarão todos dias nos seus estudos esmiuçadores.

Já que eu tenho um encanto pra estes aspirantes suplicantes:
Espelhos puros, que transformam em beleza todas as coisas.
Os meus olhos grandes, claros tal ar, claros do tempo.

Lamentos de Icaro

Homens que acariciam as putas por amor
Ficam saciados em encantos das suas prezadas,
Mas eu só tenho braços cansados
De ter abraçado as nuvens lá em cima.

Graças às estrelas, estas inigualáveis
Que ardem nas profundezas dos céus,
Tudo o que posso ver com os olhos torrados
São destas lembranças tão escuras de sóis.

Em vão tentei encontrar o coração
Do espaço, pra me afoitar mais fundo, mais alto;
Sob quem sabe que olhos de ardor
As minhas asas cansadas desfazem-se;

E queimado pelo amor à beleza em mim,
Não alcançarei o meu pungente desejo,
Lhes darei o meu nome ao abismo,
A campa abaixo, para o qual eu voo.
Charles Baudelaire - TRAD. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sábado, agosto 26, 2023

O Tintinnabulation de Pärt (Ensaio) - Eric Ponty

Este ensaio examina as formas como a música de Arvo Pärt pode ser vivida como espiritual ou mesmo religiosa. A música de Arvo Pärt abrange tanto uma espiritualidade secular (entendida como uma experiência pessoal, comunicação com, ou crença no divino), bem como tais experiências no contexto da religião institucional. A ação multivalente da sua música, situada entre o que o filósofo Charles Taylor identificou como conformidade, e descrença, é essencial para o seu poder comunicativo e atrativo.  Este ensaio, portanto, oferece uma perspectiva sobre a complexidade deste musical e a experiência espiritual da música de Pärt podem ser construídas, articuladas e avaliadas.

A espiritualidade é um constructo que se centra em torno de especificidades técnicas e estéticas, conceitos que podem ser relacionados com a secularidade e a complexidade da modernidade.

Esta relação pode ser entendida da seguinte forma esta conceção dualista está em consonância com a forma como a espiritualidade, especialmente a partir dos anos 60, tem sido percepcionada como uma panaceia contracultural para a modernidade que também absorveu uma psicose social de crença auto subsistente sem recurso à autoridade religiosa ou política.

Tanto a modernidade como a espiritualidade, concebidas desta forma, no entanto, representaram tanto uma procura de uma compreensão de Deus como uma resistência às restrições (doutrina e dogma) da religião formal.

Alguns livros recentes e bem divulgados de Richard Dawkins, Christopher Hitchens (e outros) são sintomáticos da resistência da modernidade (até resistência da modernidade (e até mesmo a negação) de Deus. Estes comentadores põem Deus sob o microscópio, examinam Deus segundo os padrões humanos da racionalidade pós-iluminista, e acham que Deus está em falta.

A espiritualidade, no entanto, em vez de resistir a ou renegando Deus, encena uma busca para compreender Deus apesar dessa "racionalidade". Não se trata de uma forma de fuga à modernidade. Pelo contrário, a espiritualidade é uma consciência que absorveu e até reconfigurou os problemas da modernidade pelo meio de discursos alternativos e por vezes igualmente discursos alternativos e, por vezes, igualmente racionais.

A espiritualidade pode, portanto, ser imaginada como uma relação em que a humanidade procura Deus (por meio de todos os meios à sua disposição), embora (numa perspectiva cristã) Deus já nos ama e já nos achou. A música atua como um contexto para esta relação e, mais especificamente, como um agente nesta complexa negociação de procura e de realização. A música de Arvo Pärt, por mais que abrace uma unidade com Deus, é sintomática da sintomática da procura de Deus por parte da humanidade e, como tal, é uma forma autoconsciente e modernista de vanguardismo político que se baseia num compromisso produtivo (em vez de qualquer antipatia) com a modernidade.  A sua música, mais pertinente, aponta para um fosso excruciante entre a humanidade e Deus que, de inesperadas, é uma exortação a participar e até a ultrapassar este limiar espacial.

Este ensaio examina a natureza desta participação através dos estratos complementares da música de Pärt. Examina a sua linguagem musical, e as suas ressonâncias em conceitos e significados estéticos associados que se aplicam à modernidade, à espiritualidade e à religião. Uma compreensão do conteúdo e da estrutura da música de tintinnabulation de Pärt (depois de 1976) constitui um prefácio para uma discussão das narrativas culturais e musicais de morte e luto, e encantamento e incorporação que informam a investigação musical de Deus por parte de Pärt, e identificá-la como um soundtrack da nossa época.

Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

DOIS SONETOS DE CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

Albatroz – Charles Baudelaire

Mui vezes, porque estão amolados, marujos da equipagem
Apanham albatrozes, essas grandes aves dos mares,
Que os viajantes suaves que acompanham no azul,
Que Navios a deslizarem nos mistérios do oceano.

E quando os marujos os apanham nas pranchas,
Magoados e perplexos, estes reis de todos os ares,
Deixam, com pesar, o teu rasto ao longo dos flancos
Grandes asas alvas, arrastando-se tal remos vãs.

Este viajante, como é cómico e fraco!
Outrora belo, qual é indecoroso e inepto!
Um marinheiro enfia-lhe um cachimbo no bico.
Outro zombar dos passos manco do aviador.

O poeta é como o príncipe das nuvens
Que assombrar a tempestade e ri do arqueiro,
Está exilado no chão por entre as vaias,
Cuja asas gigantes impedem-no de andar.

CORRESPONDENCIA -  Charles Baudelaire

A natureza é um templo, onde os vivos pilhares,
Colunas vivas respiram, por vezes, falas confusas;
Homem marcha por entre esses bosques de símbolos,
Cada um que o considera tal uma coisa semelhante.
Como os longos ecos, de sombrios, profundos.

Ouvidos de longe, misturam-se numa unidade,
Vasta como a noite, como a claridade do sol,
Para perfumes, cores, sons se correspondam,
Aos odores frescos tais como pele de um bebé.

Suaves tais os oboés, verde como a erva dos prados,
-Outros corrompidos, ricos, triunfantes, plenos,
Com dimensões infinitamente vastas,
Incenso, almíscar, âmbar gris, benjamim,
Cantando o entusiasmo dos sentidos da alma.
 CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, agosto 25, 2023

DUAS CANÇÕES DE BEN JONSON - TRAD. ERIC PONTY

I
Oh, que a alegria tão solitária se perca!
Ou tão doce felicidade
como um beijo,
Não durasse para sempre!
Tão açucarado, tão fundido, tão suave, tão afável
O orvalho que se deita sobre as rosas, Quando a manhã se revela,
não é tão precioso.
Oh, antes eu do que ele sufocar,
se eu provasse tal outro;
Devia ser o meu desejo
Que eu morresse a beijar!

II

Tu, mais que a mais doce luva, para o meu mais doce amor, 
Permite-me guardar com beijos
Este vazio hospedaria, que agora falta
A mão pura e rosada, que te agasalhava,
Mais branco que o cabrito que te deu à luz.
Sois suave, mas aquele era mais suave;
O próprio Cupido já o matou mais vezes,
do que as pombas de tua mãe,
supondo-a a rainha dos amores,
Era a vossa senhora,
A melhor das luvas.
 BEN JONSON - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA