Segundo Walter Benjamin que propõe que se dividíssemos todas as descrições de cidades existentes em dois grupos segundo o local de nascimento dos autores, que verificaríamos certamente que os escritos por nativos das cidades em causa estão em grande minoria. O pretexto superficial - o exótico e o pitoresco - só agrada aos para quem vem de fora. A descrição de uma cidade por um nativo exige outros motivos, mais profundos - os motivos da pessoa que viaja para o passado, e não para partes estrangeiras. O relato de uma cidade feito por um nativo terá sempre algo em comum com as memórias; não é por acaso que o escritor de infância. Tal como Franz Hessel passou a sua infância em Berlim. E se ele agora se põe a andar pela cidade, não tem nada do impressionismo entusiasmado com que o escritor de viagens aborda o seu assunto. Hessel não descreve, narra. Mais ainda, repete o que ouviu.
Spazieren in Berlin é um eco das histórias que a cidade lhe conta desde criança. um livro épico, um processo de memorização enquanto passeia, um livro para o qual a memória atuou não como fonte, mas como musa, como dialoga com FRIEDRICH von SCHILLER no poema Ditirambo.
Percorrer as ruas à sua frente, e cada rua é uma experiência vertiginosa. Cada um deles conduz para baixo, se não para as Mães pelo menos a um passado que é tanto mais fascinante quanto não é apenas o passado privado do autor. Enquanto caminha, os seus passos criam uma ressonância espantosa no asfalto. A luz que brilha no pavimento lança uma luz ambígua sobre este duplo andar. A cidade como mnemónica para o caminhante solitário: evoca mais do que a sua infância e juventude, mais do que a sua própria história como nós podemos ver nesta estrofe do Ditirambo:
Derramai sobre mim - derramai a vida plena que viveis!
O que é que vós, ó deuses! podeis dar ao mortal?
O que revela é o espetáculo interminável da Floneur que pensávamos ter sido enfim relegado para o passado. E poderá renascer aqui, em Berlim, onde nunca floresceu. Em resposta, devemos salientar que os berlinenses mudaram. O seu problemático orgulho nacional pela sua capital começou a dar lugar ao seu amor por Berlim como cidade natal. E ao mesmo tempo, Europa assistiu a um apuramento do sentido da realidade, da consciência da crónica, do documento e do pormenor. Nesta situação, assistimos à chegada de alguém que é assaz jovem para ter vivido esta mudança, e assaz velho para ter conhecido pessoalmente os últimos clássicos da Floneur: Apollinaire e Leautaud. O Floneur é a criação de Paris. O que me surpreende é que não era Roma. Mas talvez em Roma até o sonho seja obrigado a deslocar-se por ruas demasiado bem pavimentadas. E não estará a cidade demasiada de templos, praças fechadas e santuários nacionais para poder entrar nos sonhos do transeunte, juntamente com cada pedra da calçada, cada placa de loja, cada degrau e cada portão? As grandes reminiscências, os frissons históricos - tudo isso é tão desconhecido para o Floneur, que se contenta em deixá-los para o turista. E trocaria de bom grado todo o seu conhecimento dos bairros de artistas, dos locais de nascimento e dos palácios principescos do cheiro de uma soleira envelhecida ou o toque de um azulejo que qualquer cão velho leva consigo. E muita coisa pode ter a ver com o romanismo porque não são os estrangeiros, mas eles próprios, os parisienses, que transformaram Paris na Terra Prometida dos Floneurs, numa "paisagem feita de pessoas vivas", como lhe chamou Hofmannsthal. Paisagem - é nisto que a cidade se torna para o Floneur. Ou, mais precisamente, a cidade divide-se nos seus polos dialéticos.
Toda a liderança essencial vive da força de uma grande vocação que é essencial oculta. E esta vocação é, antes de mais, a missão espiritual-popular que o destino de uma nação lhe reservou. É preciso despertar o conhecimento desta missão e enraizá-la no coração e na vontade do povo e de cada um dos seus membros. Mas esse conhecimento não nos é dado simplesmente quando conhecemos alguns fatos e circunstâncias contemporâneos - por exemplo, quando nos apercebemos da situação política atual do povo alemão ao se torna-se uma paisagem que se abre para numa sala de estar que o termina tal qual Ditirambo de FRIEDRICH von SCHILLER:
Acreditem em mim, juntos
Os deuses brilhantes vêm sempre,
Ainda como antigamente;
Raramente vejo Baco, o doador da alegria,
Então surge o belo Eros, o menino que gosta de rir,
E Febos, o imponente, olhai!
Aproximam-se cada vez mais,
Os celestiais todos -
Os deuses com a sua presença
Enchem a terra como seu salão!
Dizei, como hei-te dar as boas-vindas,
Humanos e nascidos na terra,
Filhos do céu?
Derramai sobre mim - derramai a vida plena que viveis!
O que é que vós, ó deuses! Podeis dar ao mortal?
As alegrias só podem habitar
No palácio de Júpiter -
Cheio de brilho com o teu néctar,
Oh, alcança-me o cálice!
"Hebe, o cálice
Enche-o até à borda!
Mergulha os teus olhos - no banho do orvalho,
Deixai-o sonhar, enquanto o Estigme está asilada da sua vista,
Que a vida dos deuses é para ele!"
Ele murmura, ele brilha,
A fonte do prazer;
O peito fica sereno –
O olhar torna-se brilhante!
" Dá à cidade um pouco do teu amor pela paisagem", diz Fritz Hessel sobre Berlin Queriam apenas ver o campo na sua cidade. Afinal de contas, não tinham o Tiergarten, desse bosque sagrado de Floneur com as suas vistas do sagrado nas moradias do Tiergarten; de onde se pode das tendas se pode ver as folhas a cair no chão, ainda mais jazz do que o habitual; e do Neuer See, cujas baías e ilhas arborizadas estão no Neuer See, cujas baías e ilhas arborizadas estão gravadas na mente - o lago "onde, no inverno, traçámos artisticamente grandes no gelo, como holandeses, e no outono nos metíamos numa canoa da ponte de madeira junto à casa dos barcos com a senhora da nossa escolha, que assumia o leme" ? Mas mesmo que nada disto existisse, a cidade estaria cheia de paisagens para Floneur:
O peito fica sereno –
O olhar torna-se brilhante!
Os berlinenses só precisam de ver o céu estendido sobre os arcos do caminho de ferro elevado, tão azul como sobre as cadeias montanhosas de Engadine; ver como o silêncio surgiu do barulho tal da rebentação; ver como as pequenas ruas do centro da cidade refletem os tempos de dia, como um buraco de montanha. É claro que é a verdadeira vida dos habitantes.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA
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