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quinta-feira, agosto 31, 2023

O CEMITÉRIO MARINHO - QUATRO COTEJOS - PAUL VALÉRY-TRAD. ERIC PONTY

A origem significa aqui que, a partir de um A, algo é o que é como é. tal como é, chamamos a sua essência ou natureza.

A origem de algo é a fonte da sua natureza. A questão sobre a origem da obra de arte pergunta sobre a fonte da sua natureza. Na visão habitual, a obra surge da atividade do artista e por meio dela.

Mas de onde e por que é que o artista o que ele é? Pela obra; pois dizer que a obra dá crédito ao mestre que é a obra que faz emergir o artista como mestre da sua arte.

O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. No entanto,

nenhum é o único suporte do outro. Em si mesmas e nas suas inter-relações artista e obra são, cada um deles, em virtude de uma terceira coisa que é anterior a ambas, isto é, aquilo que também dá ao artista e à obra de arte os seus nomes - a arte.

Assim como o artista é necessariamente a origem da obra de um modo diferente que a obra é a origem do artista, é igualmente que, de um modo ainda diferente, a arte é a origem do artista e da obra.
Mas poderá a arte ser, de fato, uma origem? Onde e como é que a arte e como é que a arte acontece? A arte - isto não é mais do que uma palavra à qual nada real já não corresponde. Pode passar por uma ideia coletiva sob a qual encontramos um lugar para aquilo que é o único real na arte: as obras e os artistas. Mesmo que a palavra "arte" significasse algo mais do que uma noção coletiva, o que se entende por esta palavra só poderia existir em a base da atualidade das obras e dos artistas. Ou será o contrário? O caso? As obras e os artistas existem apenas porque a arte existe como sua origem?
Seja qual for a decisão, a questão da origem da obra da obra de arte torna-se uma questão sobre a natureza da arte. Uma vez que a questão de saber se é como existe a arte em geral deve ainda
em geral deve permanecer em aberto, tentaremos descobrir a natureza da arte no lugar onde a arte prevalece indubitavelmente de uma forma real. A arte está presente na obra de arte. Mas o que é e como é uma obra de arte? O que é a arte deve ser deduzido da obra.

Tentarei responder está questão de Martin Heidegger com o cotejo de três traduções de Cemitério Marinho, após tê-lo traduzido inúmeras vezes que o Poeta e Crítico Ivo Barroso disse que original em francês exalava-me em mim considerando que era inútil está tentativa.

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:
  
O Cemitério marinho
Μή, φίλα ψυχά, βίον ἀθάνατον 
σπεῦδε, τὰν δ' ἔμπρακτον ἄντλει μαχανάν. 
Pindare, Pythiques, III.

Telhado tranquilo, onde marcham pombas, 
Pulsa entre dos pinheiros, entre as tumbas; 
Meio dia justo compôs quase luzes 
O mar, o mar, tão firme renovar 
Oh laurel após de pensamento dar
Um longo olhar para a calma destes deuses!
 
Qual puro trabalho fins raios consuma 
Diamante imperceptível mui d´escuma 
E daquela paz sempre conceber 
Quando sob o abismo sol repousa 
Das Obras puras duma eterna causa 
Tempo cintila e sonho é saber. 

Firme ouro, templo simples à Minerva, 
Massa da calma, e visível reserva, 
Água altivo olho guarda-se em teu alto, 
Tanto de repouso volta da flama, 
Meu silente! . . . Edifício dessa d´alma, 
Acima d'ouro ou das mil telhas, Teto! 

Tempo do templo, só geme resumo, 
Desse ponto puro alça me acostumo, 
Tudo rodeado de meu olhar oceano 
Como aos deuses minha oferta suprimia 
A cintilação serena semeia 
Sobre altitude um desdém soberano.

Como fruta se funde ao gozo ser
Como delícia muda ausência ter
Numa boca onde sua forma se mata
Eu aspiro fumaça futuro fumo   
E este céu canta à alma consuma 
A mudança da margem rumor ata. 

Belo céu, vero céu olhar descartável - 
Após tanto orgulho, tanto estranhável, 
Ócio, mas do pleno deste poder. 
Eu me abandono este brilhante espaço 
Mansões dos mortos, minha sombra ao passo, 
Que se domar ao frágil seu mover. 

Almas expostas tochas do solstício, 
Admirável justiça, te apoio início,
Dessas luzes as armas sem piedade!
Te rendo pura ao lugar prima graça: 
Que me resguarda!.... Mas junto à luz passa
Suposta sombra sombria uma metade. 

Ó para meu só, ao meu só, mim mesmo
Próximo imo, fonte do poema mesmo
Entre à vida envolvimento puro; 
Eu espero eco minha grandeza interna, 
Amarga, sombra sonora cisterna, 
Soante na alma um vazio sempre futuro!

Sabes tu, falso preso da folhagem, 
Golfo comedor magro grades margem,
Sob meu olhar cerrado oculto ofuscados
Qual corpo arrasta ao seu fim preguiçosa
Qual fronte atrai à terra óssea terrosa? 
Uma centelha pensa se ausentados. 

Lacro, sacro, pleno ardor sem matéria
Fração terrestre oferta à luz etérea, 
Ao lugar agrado, domínio archote; 
Misto douro, pedras, cedros sombrios, 
Onde tanto marmo treme sombras fios; 
Mar fiel dorme sobre tumba morte! 

Cão esplêndido arreda idolatra dor! 
Qual solitário sorriso pastor, 
Pastoreio há anos carneiros misteriosos 
Branco rebanho minhas quietas tumbas, 
Afastado prudentes brancas pombas, 
Os sonhos vãos, os anjos tão curiosos. 

Aqui vindo futuro lenta moleza, 
Nítida inseto raspa à aridez frieza, 
Todo queimado desfaz aceita ar, 
Que não sei da severa dessa essência... 
A vida vasta livre sida ausência, 
É amargo doce espírito clarear! 

Mortos ocultos são bem territórios, 
São lhes aquecem secam seus mistérios, 
Meio alto, meio movimentações, 
Em si pensa e convém a si mesmo...  
Fronte completa perfeito diadema,
Eu sou das ocultas alterações. 

Tudo é meu conter de suas coações! 
Lamentos, dúvida, entre minhas pressões, 
São das falhas grandes desse diamante…
Mas sua noite toda pesados mármores,  
Um povo vaga raízes destas árvores,
Pegos vez do matiz vão lentamente.
 
Eles têm ao fundo espessa da falta 
Argila rubra bebeu a branca casta; 
O dom da vida se passou às rosas! 
São dos mortos dicções familiares, 
Arte pessoal, das almas singulares? 
A larva fia onde forma chorosas! 

Gritos agudos moças irritadas, 
Olhos dos dentes, pálpebra molhadas 
Seio encantado face com o fogo, 
Sangue que brilha lábios se renderam, 
Últimos dons, os dedos que acorreram, 
Tudo que vai na terra rende ao jogo! 

E vós grande alma espera de sonhar,
Da aura mais que cores há errar,
olhos, clara onda, se fez aqui; sim?
Cantaram vós quando foi vaporosa?
Vá! Tudo segue! Meu aspecto poroso,
à santa impaciência morre assim!

Magra imortal negra deste doirado 
Consoladora horrível do laureado, 
A morte fez um seio tão maternal, 
Bela mentira pena astúcia acusa! 
Que nem conhece, quem que lhe recusa, 
O crânio vazio e este riso eternal! 

Pais profundos, testas inabitadas, 
Que seus pesos tantas já pazadas, 
Ser terra confunde passam jamais. 
Vero roedor verme irrefutável, 
Ao ponto desta tábua do dormível, 
Viver da vida não se quita jamais! 

Amor, por ser, eu mesmo, será raiva? 
Dente secreto está se aproxima ativa, 
Todos nomes ele pode convir! 
Importa! Vê! Quer, sonha pegada! 
Minha carne agrada sobre camada 
Vivente eu volto a pertencer ir! 

Zenão! Cruel Zenão! Zenão d’Eleia! 
Mas furo desta fecha se volteia 
Que vibra, voa, e nem voeja do passo! 
Som tolo gera flecha mata fuga! 
Ah! Sol... Qual sombra desta tartaruga 
A alma Aquiles imóvel grande passo! 

Não! Não! …. Em pé! Tempo sucessivo! 
Rompa meu corpo, forma, pensativo! 
Beba meu seio vento da nascente! 
Um frescor, deste mar tão de exaltado, 
Volve minha alma! Forte do salgado! 
Corram onda jorrar que do vivente! 

Sim! Grande mar delírios de doirados, 
Pele pantera, Clâmide em tornados, 
Dos mil e mil dos ídolos sol qual, 
Da livre carne azul, de Hidra absoluta, 
Remorso cintilante cauda solta 
Em dum tumulto ao silêncio igual! 

Vento alavanca! …. Faz viver tentar! 
Abre e fecha meu livro, imenso ar, 
Pó salpicou ousar jorrar rocha arribas! 
Larguem-vos páginas todas seduzidas!
Rompam vagas! Rompa águas alegradas!  
Tranquilo teto onde picam as gibas!


Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Este Teto calmo, onde marcham pombas,
Pulsando entre pinheiros, entre os tumbas;
Meio dia reto arrumando luzes fogo
O mar, o mar, estável renovar
Oh galardão após pensamento dar
Extenso olhar a calma deuses longo!

Puros trabalhos fins chispa consuma
Diamante imperceptível mui escuma
E daquela paz sempre conceber
Quando sob báratro sol repousa
Das Obras castas duma eterna causa
Era cintila e sonho é saber.

Erário firme, templo de Minerva,
Massa calma, visível da reserva,
Soberba água guarda olhar ti alto
Como dormir sob véu que desta chama,
Meu silêncio... Edifício desta alma,
Mas ouro entope mil telhas, do teto!

Tempo Templo, só suspiro resumo,
Neste ponto casto monte e acostumo,
Tudo aprisco por meu olhar do oceano;
Quão minha suma oferta deuses plano,
Espargem cintilação do sereno
Na altitude repulso soberano.

Quão fruto derrete gozo da essência,
Quão delícia transforma nessa ausência
Numa boca donde forma morrem,
Eu fumo meu futuro aqui fumaça,
Céu cantar alma consumida alça
Da variação no rumor desta margem.

Céu belo, vero céu, olhe a mim mudança!
Após tal orgulho, após estranha trança
Ociosidade, mas cheio de poder,
Eu me rendo espaço tão vivo horto
Nas Mansões minha sombra segue mortos
Quem domar a variação frágil ser.

Alma exposta das tochas do solstício,
Admirável justiça, que eu te apoio
Armas ligeiras sem desta piedade!
Vós tendes seu lugar, primo, pureza,
Aprecie a ti! .... Mas à luz me faça
Sombra eu me acho meio triste idade.

O a mim, por mim mesmo, a mim mesmo,
Com dum coração, fonte deste poema,
Entre vácuo e do fato se fez puro,
Aguardo eco meu brio interior terno
Amargo, escuro sonora cisterna,
Tocando na alma sempre oco futuro!

Sabes, falso cativo da folhagem,
Golfo comedor magras redes margem,
Meu olhar uno, fechos ofuscantes
Corpo me arrasta até o fim tão ocioso
O que fronte chama este chão tão ósseo?
A faísca não pensa meus ausentes.

Bento, uno cheio fogo sem matéria,
Fração terrestre oferta à luz etérea,
Lugar gosto, domina pelo archote,
Composto d´ouro, pedra e cedros negros,
Onde tremor o mármor tantas sombras;
Mar fiel dorme minha cova morte!

Cã esplêndida, descarta deste idólatra!
Quando o pastor Sorri só andrólatra,
Eu pasto mui, ovelhas misteriosas,
Gado branco de minhas quietas tumbas,
Afastadas de tão prudentes pombas,
Os sonhos vãos, os anjos tão curiosos!

Vindo aqui, futuro é preguiça ecos.
Os arranhões insetos claros secos;
Tudo tostado, desfeito, torna ar
Já não sei da severa de tua essência 
Vida vasta, sendo que bebeu ausência,
Amargura é doce mente, é claro ar.

Mortos ocultos estão nesta terra
Que aquece seco mistério de era.
Meio-dia lá, meio-dia, do inerte
Si pensa é certo si mesmo eleito...
Cabeça finda e Diadema perfeito,
Eu sou seu secreto câmbio reflete.

Fez isso a mim teus medos açoites!
A Minha pena, dúvidas, limites
São culpa de teu tão grão diamante...
Mas, em sua grande noite toda em mármores,
Uma onda pessoas raízes segue árvores
Tomaram teu partido lentamente. 

Derreter ausência fundura raro,
Bebeu do tipo branco rubro barro;
O dom Vida passou às flores ornadas!
Onde estão caseiras dos mortos frases,
Arte de pessoal, almas singulares?
A larva fia donde prantos formados.

Os gritos agudos moças irritáveis,
Olhos, dentes, as pálpebras laváveis,
Encantador brincar com deste fogo,
Lábios sangue brilhando que se rendem,
Últimas doações, dedos defendem,
Tudo vai terra e entra neste jogo!

A Grande d´alma, tu esperas sonho
Me deixará mentir das cores ponho
Olhos claros onda ouro faz-se aqui?
Cantarmos a vós quando vaporosas
Foi! Tudo feito! Minhas vistas porosas,
Irritação santa antes morre aqui!

Magra imortal negra deste doirado 
Consoladora horrível do laureado,
Que a morte fez um seio materno
Belo aleive e piedosa astúcia acusa!
Quem sabe, e de quem se recusa,
Crânio vazio e essa risada eterna!

Cabeças desertas, pais tão profundos
Que, sob peso já tantas pás fundas,
É a terra confundir os nossos passos
Correto roedor, verme irrefutável
Não sois debaixo mesa do dormível,
viver vida, ele não me deixa laços!

Amor, talvez, ou tu me odeias mim?
Seu dente fecho é tão perto mim
Todos nomes ele pode anuir ser!
Seja qual for! Vê, quer, pensa, tocada!
Minha carne afaga, até minha camada,
Viver eu vivo volto pertencer!

Zenão! Zenão cruel! Zenão Eléia!
Mas furaste seta alada volteia
Vibrar, voeja e não voeja mais aos passos!
Som gera-me seta me mata fuga!
Ah! O sol... Sombra qual tartaruga
A alma, de Aquiles hirto grande passos!

Não, não .... Alçar! Em eras sucessivas!
Quebrar meu corpo, formas pensativas!
Beber, meu útero, brotar do vento!
A frescura, do mar exalado
Faz minha alma... Poder tão salgado!
A correr d´onda jorra viva alento.

Sim! Grande Mar delírios dotados
Pele pantera clamíde cavadas,
Quilíades de mil ídolos do sol,
Hidra absoluta, beba carne azul,
Quem remorso cauda brilhante azul
Num tumulto quão silente anzol.

Vento erguer! .... Devendo viver tentar!
Enorme abrir fechar meu livro ar,
Onda em pó ousou brotar rocha arriba!
Esvoaçam páginas que ofuscadas!
Rompa água júbilo! Rompam, ondas! 
Quieto teto donde picam a giba!

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Teto calmo onde marcham pombas idas,
Entre palpitar pinho, entre jazidos,
Meio-dia justo compôs fogo estar.
Ô mar, ô mar do sempre reiniciar!
Ô laurel após pensamento olhar
Calmo na demora deuses resguardar! 

Qual lide pura fim chispa consuma,
Diamante impercetível mui escuma
Que desta paz sempre se mantiver
Quando no abismo sol que se repousa
Faz Obra pura duma eterna causa
Tempo cintila, sonho é saber.

Templo tempo, só anseio resume,
Ascender ponto puro me acostume,
Me abarcar desse meu olhar oceano,
Deuses minha oferta suprema aleia,
Cintilação serena que semeia,
Sobre altura desdém soberano.

Eterno ouro templo simples Minerva,
Massa da calma e visível reserva
Água impassível olho vigiar certo
Tanto sono sob véu flâmula calmo
Ô silêncio meu!... Edifício dessa alma
Saturam teto mil telhas! Teto!

Que da fruta fundida do prazer,
Como delícia troco ausência ter,
A Boca onde forma assassina dar
Fumo cá minha futura fumaça
Céu canta alma consumir minha farsa
Mutação rumor margem ao trocar.

Belo céu, vero céu meu olhar tocar,
Após tanto orgulho, tanto estranhar 
Ócio mais plena possibilidade
Me desamparo este brilhante espaço,
Casas dos mortos minha sombra passo
Domar frágil móvel igualdade!

Exposta alma solstício desse archote,
Justiça admirável, sustenta corte
Luz das armas de sem piedade arde!
Me rendo puro espaço primeira tarde,
Olhar-me! Entrego-te luz que me farde
Suposta sombra morta meio alarde!

Me abdico minha solidão mim mesmo
Perto imo, fonte poema afim mesma
Entre evento oco me traço tão puro 
Acatando ao meu tão grande eco interno
Amargor sombra sonora cisterna
E daqui sempre eu recrio um futuro!

Fôreis vós cativas infiéis folhagens,
Golfo comilão tísicas ramagens,
Sobre meu olhar cerros tão secretos,
Meu corpo puxe lerdo fim metade
Rosto atire a carcaça terra igualdade
Chispar penso meus ausentes retos!

Cerro, sacro, cheio ardor sem matéria,
Fragmento terrestre oferta à luz féria
Este lugar pleno dominado facho
Compôs ouro, pedra árvores sombrias
Onde tal mármo vibrou sombra´ egrégias,
Mar fiel dormir sobre tumba ancho.

Cã esplêndida me afaste os idolatras,
Quanto só pastor Sorriso andrólatra 
Apascento misteriosos carneiros 
Alvo rebanho das calmas das tumbas
Afastem-se ajuizadas dessas pombas
Sonhos vãos, anjos curiosos herdeiros.

Aqui vindo a preguiça é futura,
Do claro inseto raspou a secura,
Tudo inflamar desmuda asila ar
E não sei qual a sua ríspida essência
Vida é larga, está livre de ausência,
D´amargura doce, d´alma aclarar.

Estes Mortos jazidos cá da terra,
Que aquecer seca mistério enterra
Alto do Meio-Dia dia sem movimentos
Se pensa persuadir para si feito
Rosto findo com diadema perfeito
Eu sou o mais abstruso movimento.

Não tem só a mim refrear os medos
Lamentos, dúvidas, constrições credos
Seu absurdo que de seu grão do diamante...
Mas seu ocaso é duns ásperos mármores,
Povo vagar entre estirpes das árvores
Já tomaram partido já lentamente.

Fundiram cerrada ausência do ter
Barro rubro bebeu alva casta do ser
Dom Vida passou às flores alento!
Onde estão mortos, frases familiares
Pessoal arte, almas singulares 
A Laroz fia onde formada em lamentos.

Gritos argutos moças aborrecidas,
Dente, olho as pálpebras umedecidas,
Aprazíveis seios bulir com fogo
Sangue fulgir dos lábios se renderam
Extrema oblação, dedos defenderam
Tudo vai sob a terra fundiu ao jogo.

Vós grande alma esperas sonho dar,
Não tenham cores calúnia soar, 
Olhos carne faz cá fonte ouro sim,
Cantarás ainda fores vaporosa,
Vá! Fugir de tudo! Aspecto é poroso,
Santa sofreguidão morreu assim.

Magra eternidade breu doirada,
Consoladora horrível laureada,
Da morte fez um seio maternal,
Belo embuste que devota artimanha 
Quem não conhece não recusa sanha
O Crânio vazio este riso eternal.

Pais profundos, cabeça inabitada,
Que já são peso de tantas pazadas
Terra confundir seus passos largos
Vero roedor um verme esmagador
Não mais hão dormir taboa calor,
Vital a vida não quita mais amargos!

Amor talvez mesmo mim raiva certo
Seu Secreto dente está tão por perto
Que algum nome venha lhe convir!
Que implica! Vê! Almeja! Sonha! Toca! 
Minha carne manta espera leito oco
Ao vivente escravizado caibo vir!

Zenão cruel eleito Zenão d´Eléia!
Mas tu sentes via desta seta ideia,
Vibrar voeja e não voa mais seus laços  
O som renasceu seta mata rusga
Ah! O sol... Qual a sombra de tartaruga
Alma Aquiles inerte grandes passos!

Então vamos ao cotejo feito por mim, inúmeras vezes:

Tranquilo teto donde marcham pombas,
Pinhos palpitam, dentre destas tumbas,
O justo meio dia compôs das luzes!
O mar, mar sempre do recomeçado,
Oh, recompensa, após de um pensado,
Que um longo olhar faz sobre calma deuses!

Quais Puros trabalhos fins se consuma
Imperceptível diamante mui escuma,
Qual paz parece para conservar!
E sobre abismo quando sol repousa
Obras puras eterna desta causa,
Cintila tempo é saber sonhar.

Firme ouro, templo simples à Minerva,
Massa da calma, e visível reserva,
Água exigente olho guarda-se ao alto,
Tanto de repouso volta da flama,
Meu silente! . . . Edifício dessa d´alma,
Acima d'ouro ou das mil telhas, Teto!

Tempo do templo, só suspira sumo,
É deste ponto alcanço me acostumo,
Tudo resguarda olhar meu do oceano
Do Criador de doação tão soberana,
Cintilação semear-nos já serena,
É no desdém que me alço soberano.

Quanto fundida fruta prazer essência
Que dum deleite altera sua existência,
Boca onde forma se faz morredor.
Aqui sou fumo vero eu meu assuma,
É canta do céu da alma que consuma,
A mudança das margens em fragor.

Belo céu, vero guarda céu alterável,
Após de tanto orgulho do estranhável,
Ócio total do pleno do poder.
Eu me abandono brio deste espaço,
Mansões dos mortos, sombra minha ao passo,
Que domestica frágil no mover.

Almas expostas tochas do solstício,
Admirável justiça, lhe apoio início,
Das quais das luzes armam da piedade!
Eu me só rendo prima da pureza:
Que me resguarda!...Junto à luz beleza
Suposto espectro triste da metade.

Ó meu eu, mim, a mim mesmo ao máximo,
Da fonte poema, coração tão próximo,
Dentre da vida mais me envolve puro;
Eu espero do eco do amplo minha interna,
Amarga, sombra do som da cisterna,
Tocar-me d´alma d´oco do futuro!

Sabes tu, falso preso da folhagem,
Comedor golfos magros da linhagem,
São meus fechados olhos fascinados,
Corpo me arrasta até fim folgaria,
Que fronte o atrai está terra de ossaria?
Uma centelha pensa se ausentados.

Ferido sacro, pleno fel conduz,
O fragmento terrestre ofertou a luz,
Que o léu me fez, domínio destas tochas;
Composto douro, pedras, cedros umbrias,
Que mármor tremam sobre estas úmbrias;
Mar fiel dorme sobre covas rochas!

Cão arreda deste crente do esplendor!
Qual solitário riso do pastor,
Perpétuos dos carneiros misteriosos
Branco rebanho calmas destas tumbas,
Distantes as prudentes alvas pombas,
Sonhos altivos, anjos tão curiosos.

Aqui vindo futuro lenta moleza,
É claro inseto arranha-se na frieza,
Todo queimado vence aceita ar,
Que não sei da severa da existência...
A vida vasta livre desta ausência,
E amargura é doce alma clarear!

Mortos ocultos são bem territórios,
É lhes aquecem secam seus mistérios,
Do meio do alto, meio alterações,
Ajuízam si, acenam si mesmo feito...
Fronte finda do diadema perfeito,
Eu sou sua das ocultas mutações.

Tudo é meu conter de suas coações!
Lamentos, dúvida, entre minhas pressões,
São das falhas extensas do diamante…
Noite doridas são pesados mármores,
Erram o povo tronco destas árvores,
Extraídos outra vez partir errante.

Eles têm fundo espesso desta falta
Argila rubra bebeu a branca casta;
Dom da vida passou á floração!
São dos mortos dicções familiares,
Arte pessoal das almas singulares?
Larva mudada fia lamentação!

Gritos tão de agudos, moças iradas,
Olhos dos dentes, pálpebras miradas
Seio encantado face deste fogo,
Do sangue fulgiu lábios se renderam,
Últimos dons, os dedos que acorreram,
De tudo que há na terra esvai vai jogo!

Você boa alma espera sonhos danos,
Das cores aura são dos sempre enganos,
Olhares carne onda, se fez aquém?
Atraíram quando for tão vaporosa?
Vá! Tudo evade! Minha está porosa,
Santa impaciência morreu também!

Magra imortal sombria deste doirado
Consolador do medo do laureado,
Da morte seio fez tão maternal,
Bela mentira dó que desta acusa!
Que nem conhece, quem que lhe recusa,
Crânio vazio de riso de eternal!

Profundos pais, de testa inabitada,
Embaixo pesos tantas já pazadas,
Terra confunde passam do jamais.
Roedor do vero verme irrefutável,
É ponto desta tábua do dormível,
Viver da vida não se ata jamais!

Amor, por mim, eu mesmo será cisma?
Dente secreto está que me aproxima,
Dos quais os nomes ele convencer!
Importa! Vê! Sonhando quer pegada!
Manta de carne agrada até camada
Vivente eu deste volto a pertencer!

Zenão! Cruel Zenão! Zenão d’Eleia!
Mas furo do dardo que se volteia
Vibrar nem voa, mais voeja do jamais!
Som me infantil me mata dardo fuga!
Ah! Sol... Qual sombra desta tartaruga
Aquiles d´alma grande passo mais!

Não! Não! … Levante! Tempo do exaustivo!
Confine corpo, forma, pensativo!
Beba do meu seio vento nascente!
Oh frescor, deste mar tão de exaltado,
Tornar minha alma! Fonte do salgado!
Corram voltando d´onda do vivente!

Oh! Grande mar delírios de doirados,
Pele pantera, Clâmide em tornados,
Dos mil e mil ídolos sol iqual,
Da livre carne azul, de Hidra absoluta,
Remorso da brilhante cauda solta
Tumulto paz idêntica tão igual!

Levantar vento! …. Qual viver tentar!
Abre e fecha meu livro, imenso ar,
Pó saltou pedra jorrar rocha dela!
O nada desta folha de extasiada!
Rescindam brancos! Quebrem d’água alegrada!
Tranquilo teto de onde picam a vela!
PAUL VALÉRY-TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

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