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segunda-feira, junho 03, 2024

Primeiro Sonho, que é como a Madre Juana Inés de la Cruz chamou e compôs [esse poema], imitando Góngora. - TRAD. ERIC PONTY

Piramidal, ameaçador, da sombra nascida na terra
sombra nascida da terra, ao céu conduzia
de obeliscos vãos, ponta altiva,
para escalar, fingindo escalar as estrelas;
5 Embora suas belas luzes,
sempre isentas, sempre brilhando,
a guerra negra
que com vapores negros o intimidava
a terrível sombra fugitiva
10 Tão distante eles zombavam,
que sua carranca escurecida
não alcançava ainda o convexo superior
do orbe da deusa
que era três vezes bela
15 com três belos rostos sendo ostensivos,
permanecendo apenas o dono
do ar que ele embaçou
com a densa respiração que exalava;
e na quietude satisfeita
20 do império silencioso,
submisso apenas às vozes dos pássaros noturnos
22 dos pássaros noturnos,
tão escuras, tão baixas,
que nem mesmo o silêncio era interrompido.
25 Com voo e canto tardios, do ouvido
e ainda pior do humor admitido,
o envergonhado incrimine se aproxima
Das portas sagradas as frestas,
Ou das eminentes claraboias
30 os buracos mais propícios
que são capazes de abrir uma brecha para ele,
e sacrílego ele chega aos brilhantes
lanternas sagradas de chama perene
que se extingue, se não infamar,
35 o licor claro, a matéria bruta
consumindo, que a árvore de Minerva
de seu fruto, de prensas agravadas,
em dor, suou e cedeu à força.
39 E aqueles que sua casa
40 campos que viam voltar, seus panos de grama,
à divindade de Baco, desobedientes
-Não mais histórias contando diferentes,
em forma sim afrontada transformada-,
segunda forma névoa,
45 para ser vista mesmo temendo na escuridão,
pássaros sem penas e com asas:
essas três clericais, eu digo,
irmãs ousadas,
que o tremendo castigo
50 De nuas lhes deu membranas marrons,
Asas tão mal dispostas
Que são uma zombaria até do mais sombrio.
53 Estas, com o tagarelar
O ministro de Plutão em uma época, agora
55 Sugestão supersticiosa para o pessimista,
Sozinho, o que não canta
compunham uma capela terrível,
58 Máximas, negras, longas entoações,
e pausas mais do que vozes, esperando
60 para a medição desajeitada e preguiçosa
de maior proporção, talvez, que o vento
com movimento fleumático,
de batida tão lenta, tão parada,
Que no meio pode ter adormecido.
65 Este, pois, triste som intercorrente
Da multidão atônita e temerosa,
67 menos para a atenção que solicitava
do que para o sono que persuadiu;
antes sim, lentamente,
70 sua consonância obtusa espaïosa
à calma induzia
72 E a repousar seus membros convidava,
o silêncio insinuando a vida
(um e outro selando o lábio escuro
75 com um dedo apontando),
Harpócrates, à noite, silenciosa;
77 Para quem, embora não seja duro,
se imperioso
preceito, todos eram obedientes.
80 O vento calmo, o cão adormecido,
este jaz, aquele permanece
os átomos não se movem,
com o sussurro tornam o medo brando,
embora pequeno, sacrílego barulhento,
85 violadores do silêncio tranquilo.
O mar, não mais alterado
nem mesmo o instável balançar
berço cerúleo onde o sol dormia;
e os peixes adormecidos, sempre mudos,
90 Nos leitos leitosos
De seus escuros seios cavernosos,
mudos eram duas vezes;
E entre eles, a enganosa feiticeira
Almone, que antes
95 Em peixes ela transformou, meros amantes,
Transformados também, ela se vingou agora.
Nos seios ocultos da montanha,
Côncavos de penhascos mal formados,
99 De sua aspereza menos defendidos
100 Do que de sua escuridão protegidos,
cuja sombria mansão
Pode ser noite no meio do dia,
desconhecido até mesmo para os certos
o pé selvagem do caçador experiente,
105 a ferocidade de alguns
de alguns, e de outros o medo deposto,
o bruto vulgar,
à natureza
aquele que de seu poder paga imposto,
110 Tributo universal;
E o rei, cuja vigilância ele afetava,
Mas com os olhos abertos não vigiava.
Ele, com seus próprios cães, o assediava,
O monarca outrora iluminado,
115 Tímido agora um cervo,
Com ouvidos atentos,
da atmosfera calma
Ao menor movimento perceptível
que os átomos emudecem,
120 o ouvido alternado se aguça
e o leve rumor sente
que ainda o perturba em seu sono.
E na quietude do ninho
que de mato e lama é uma rede instável
125 formadas na parte mais opaca
a parte mais monótona da árvore, dorme
A turfa leve, descansando ao vento
Do vento que a corta, movimento alado.
De Júpiter, o pássaro generoso,
130 Como finalmente ele reina, por não se entregar totalmente
ao descanso, que o vício considera
Se for necessário passar, cuidado
que ela tenha cuidado para não incorrer no excesso da omissão,
A um só pé, livre, ela confia o peso,
135 E em outro ela mantém pequenos cálculos
-Vigília- vigília ao acordar de um sono leve-,
para que, se necessário, fosse admitido,
não possa ser dilatada e continuada,
antes de ser interrompido
140 Do cuidado real seja pastoral
Oh, a pesada pensão de Sua Majestade!
que nem mesmo o mais leve descuido perdoa!
Causa, talvez, que tenha tornado misteriosa,
circular, denotando, a coroa,
145 em um círculo dourado,
Essa ânsia não é menos contínua.
O sonho todo, por fim, o possuiu;
tudo, finalmente, o silêncio o ocupou:
até o ladrão dormia;
150 Mesmo o amante não estava acordado.
A escuridão estava quase passando, e a sombra
estava se afastando, e a sombra escurecia, quando
cansados dos trabalhos do dia
-E não apenas oprimido
155 da avidez pesada
do trabalho corporal, mas cansado
também do deleite (que também cansa
que é um objeto contínuo para os sentidos,
embora seja deleitoso:
160 Que a natureza sempre alterna
uma ou outra escala,
distribuindo vários exercícios
ou para o lazer, ou para o trabalho destinado,
na fiel infidelidade com que ela governa
165 o aparato do mundo);
Assim, de profundo
sono profundo e doce, os membros ocupados,
os sentidos foram deixados
dos quais eles têm exercício ordinário
170 (trabalho finalmente, mas trabalho amado,
se houver trabalho amável),
se não privados, pelo menos suspensos,
e cedendo ao retrato do oposto
Da vida, que, lentamente armada,
175 Covardemente ataca e preguiçosamente vence
Com armas sonolentas,
177 desde o humilde cajado até o orgulhoso cetro,
sem nenhuma marca distintiva
a não ser o pano de saco de púrpura para discernir,
180 por seu nível, em todo o poder,
classifica-se como isento
nenhuma pessoa,
183 daquele a quem três coroas formam
tiara soberano,
185 para aquele que vive em uma cabana de palha;
Daquele que o verde Danúbio dourar,
àquele que habita a humilde, humilde cana;
e com uma vara sempre igual
(como, de fato, poderosa imagem
190 Da morte) Morfeu
o pano de saco mede igual ao brocado.
192 A alma, então, suspensa
do governo exterior - no qual, ocupada
no emprego material,
195 Bem ou mal, ela dá o dia como passado,
apenas dispensa
remota, se não totalmente separada
não, para aqueles oprimidos pela morte temporária
membros lânguidos, ossos calmos,
Madre Juana Inés de la Cruz - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

domingo, junho 02, 2024

A Visit to Belzec - William Heyen - Trad. Eric Ponty

l

Este é Belzec,
no leste da Polônia,
na região de Lublin
onde a fumaça de Sobibor,
Maidenek e Treblinka ainda
mancham o ar:
sentirem o cheiro dos corpos
na fumaça das fábricas,
sinta o cheiro do gás doce
no trevo e na grama.
Aqui é Belzec
onde o portão do complexo da morte
proclama em hebraico,
"Bem-vindo ao Estado Judeu".
Este é Belzec.
Esse é o humor da SS.
Amaldiçoem-nos para sempre
em seu Valhalla negro.

II

Leitor, você entrou
para dentro do espelho envolto em fumaça
do meu sonho, mas eu não posso,
ou não quero me lembrar.
Minhas botas brilhavam?
Eu preenchia cotas?
Foi antes ou depois?
Eu fechei aquelas portas,
ou morri?
Ainda posso sentir o ferro
o ferro frio como água em meus dedos.
Lembro-me de correr
ao longo da margem de um rio,
debaixo de árvores com o verão cheio
em seus galhos,
o céu se iluminava com fogos de artifício,
o ar noturno úmido
com os odores das folhas.
Os cães latiam.
Eles eram meus?
Eram seus?
Estávamos fugindo deles,
ou atrás?

V

Leitor, todas as palavras são um sonho,
mas em uma manhã de Belzec
um garoto prestes a morrer
compôs um
poema,
e o disse,
e salvou sua vida
quando a boca de um guarda se abriu
para se maravilhar. As palavras
pareciam verdadeiras. As palavras
funcionaram na época.
Leitor, nós caminhamos juntos
para dentro do terror
fumaça de Belzec.
Agora o vento,
e o sol do amanhecer,
elevam nosso encontro
para onde eles elevam
a névoa humana
sobre os pinheiros da região.
William Heyen - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Dorminhoca - Paul Valéry - TRAD. ERIC PONTY

Os lírios... também não giram.
Sentada a fiandeira no azul da vidraça
Onde o melodioso jardim se demora
Está atordoada pelo zumbido da antiga roda de fiar.

Satisfeita com o azul, cansada de enfiar os
Cabelos que escapam aos dedos tão fracos,
Ela está sonhando, e sua pequena cabeça se inclina.

Entre elas o ar puro e um arbusto
Uma primavera viva, de luz suspensa, afável aspergindo
no jardim da menina ociosa com um esbanja de pétalas.

Um caule, onde o vento errante vem serenar,
Curva-se com a vão respeito de sua graça estrelada,
Jurando sua soberba rosa à antiga roda de fiar.

Mas a menina dormida está girando um fio ermo:
Misteriosa a frágil sombra se trança
Ao longo de seus dedos esguios e dormidos, desmembrados.

O sonho continua a se desenrolar com uma lentidão angelical
Lenta e incessante, confiante no fuso macio,
O cabelo ondula obediente à carícia

Atrás de uma grande batelada de flores, o azul se camufla,
Um girassol envolto em folhagem e luz:
Todo o céu verde está morrendo. A última árvore brilha.

Sua irmã, a grande rosa onde um santo sorri,
Perfuma sua testa vaga com o vento de sua respiração
Inocente, e pensa que está definhando... Está extinto
No azul da janela onde fiava sua lã.
Paul Valéry - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

sábado, junho 01, 2024

Em uma noite escura - São João da Cruz - Trad. Eric Ponty

Em uma noite escura
com o desejo de amar inflamado
Ó sorte!
Saí sem ser notado
Quando minha casa já estava silenciosa.

No escuro e em um lugar seguro
Pela escada secreta, disfarçado,
Ó sorte!
No escuro e no sombrio,
quando minha casa já está tranquila.

Na noite feliz,
em segredo, que ninguém me viu,
nem eu vi nada,
sem nenhuma outra luz e guia
a não ser aquela que ardia em meu coração.

Ela me guiou
mais seguro do que a luz do meio-dia
para onde eu estava esperando
que me conhecia bem,
em um lugar onde parecia não haver ninguém.

Ó noite, que tu guiaste!
Ó noite suave, mais do que a aurora!
Ó noite que tu uniste
Amado com amado
Amado a amado transformado!

Em meu peito florido
aquele todo foi guardado somente para ele,
Lá ele adormeceu,
e eu lhe dei um presente,
e a madeira de cedro lhe deu ar.

O ar da muralha,
quando eu espalhei teu cabelo,
com tua mão serena
em meu pescoço, me feriu,
E suspendeu todos os meus sentidos.

Fiquei e me olvidei de mim mesmo,
Encostei meu rosto em minha amada;
cessou tudo e me deixou,
deixando meus cuidados
entre os lírios olvidados.
São João da Cruz - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Georg Trakl - Trad. Eric Ponty

Grodek

À noite, os bosques de outono ressoam
De armas mortais, as planícies douradas
E lagos azuis, sobre os quais o sol
Emagrece; abraça a noite
Guerreiros moribundos, o lamento selvagem
De suas bocas quebradas.
Mas, silenciosa, se reúnem no chão de salgueiros
Nuvens encarnadas, nas quais habita um deus irado
O sangue derramado, o frescor da lua;
Todas as estradas fluem para a negra decadência.
Sob os ramos dourados da noite e das estrelas
A sombra da irmã se agita no bosque silencioso
Para saudar os fantasmas dos heróis, as cabeças sangrentas;
E soam suave nos juncos as flautas escuras do outono.
Ó dor mais orgulhosa, altares de bronze
A chama quente do espírito alimenta hoje uma poderosa
dor,
Os netos não nascidos.

Lamentação

O sono e a morte, as águias sombrias
Cercam está cabeça durante a noite:
A imagem dourada do homem
A onda gelada
Da eternidade. Em recifes medonhos
O corpo púrpuro se despedaça
E a voz sombria lamenta
Sobre o mar.
Irmã da escuridão tempestuosa
Veja uma barcaça medonha afundando
Sob as estrelas,
A face silenciosa da noite.

No Leste

Os órgãos selvagens da tempestade de inverno
Assemelham-se à ira sombria do povo,
A onda púrpura da batalha,
De estrelas desfolhadas.
Com sobrancelhas quebradas, braços prateados
A noite acena para os soldados moribundos.
Na sombra das cinzas outonais
Suspiram os espíritos dos mortos.
O deserto espinhoso circunda a cidade.
Dos degraus sangrentos a lua persegue
As mulheres aterrorizadas.
Lobos selvagens irrompem pelo portão.

Rendição à noite

Monge, envolva-me em sua escuridão,
Suas montanhas frescas e azuis!
O orvalho escuro sangra para baixo;
A cruz se eleva íngreme no brilho estrelado.
A boca roxa quebrou e jaz
Em câmara decadente e fria;
Ainda brilha o riso, a brincadeira dourada,
Os últimos sopros de um sino.
Nuvem lunar! Caem enegrecidas
Frutos silvestres da árvore à noite
E o quarto se torna um túmulo
E em um sonho esta terra está jorrando.
Georg Trakl - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

sexta-feira, maio 31, 2024

Dante Alighieri - Vita Nuova - Trad. Eric Ponty

A toda alma tomada, e coração gentil,
Em cuja presença vem o presente dizer
Naquilo que me reescreve sua aparência
Saúde em seu signor, que é o Amor.

 Já eram quase tão aterrorizadas as horas
Do tempo, em que cada estrela é brilhante,
Quando de repente me apareceu o Amor
Cuja essência de membrana me causa horror.

Allegro me pareceu Amor, segurando
Meu coração em sua mão, e em seus braços tinha
Madonna, envolta em uma cortina, dormindo.
Então a despertou, e desse coração ardente
Ela, temerosa, se aconchegou humildemente:
Depois, virando-me, vi-o chorando.

Após a partida dessa gentil mulher, agradou ao Senhor dos Anjos chamar para sua glória uma senhora jovem e de aparência gentil, muito, que era muito graciosa nessa cidade mencionada; cujo corpo vi jazendo sem a alma entre muitas mulheres, que choravam muito. Então, lembrando-me de que já a havia visto fazer companhia àquela muito graciosa, não pude conter algumas lamúrias; não, chorando resolvi dizer algumas palavras sobre sua morte, em lembrança.

De que algumas vezes eu a tinha visto com minha senhora. E sobre isso falei um pouco na última parte das palavras que proferi, como se vê claramente para aquele que a entende. E então eu disse estes dois sonetos, que iniciam o do primeiro começa: "Chorai, amantes", e o segundo: "Morte vil".

Chorem, amantes, quando o Amor chorar,
Ouvindo o que o faz chorar
O amor ouve as mulheres chamando a Piedade,
Mostrando amarga dor por meio dos olhos,

 Porque a Morte vil no coração gentil
Fez uso de sua crueldade,
Estragando o que no mundo deve ser louvado
Na mulher gentil, acima da honra.

Ouçam o quanto o Amor lhe causou horror,
Que eu o vi lamentando em certa forma
Acima da imagem morta que estava chegando;

E muitas vezes olhava para o céu,
Onde a alma gentil já estava sita,
Que a mulher era de tão alegre aparência.

No segundo, narro a causa; no terceiro, falo de alguma honra que o Amor prestou a essa mulher. A segunda parte começa aqui: O amor ouve; a terceira, aqui:

Morte vil, de clemência inimiga,
da tristeza da antiga mãe,
julgamento inconquistável e azarado,
Já que você deu matéria ao coração triste,
De onde saio pensativo,
De ti minha língua se cansa.
E se eu, pela graça, quiser fazer de ti uma mendiga,
Convence-te de que eu digo
Sua queda de todos os erros injustos,
Não para que se oculte do povo,
Mas para torná-lo cruel
Que, por amor de outrora, não se alegra.
Desde o século, você se afastou da cortesia
E o que em uma mulher deve ser considerado virtude:
Na jovialidade alegre
Destruiu a graça amorosa.
Não mais discernirás o que é a mulher
A não ser por suas versadas propinquidades.
Aquele que não merece saúde
Nunca espera ter a companhia dela.
Dante Alighieri - Vita Nuova - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

quinta-feira, maio 30, 2024

Cino da Pistoia - TRAD. Eric Ponty

Meus olhos viram uma coisa tão linda,
Que em meu coração a pintaram
E se para contemplá-la todos não se detêm
Até que a encontrem, não terão descanso,

 E tornaram minha alma tão amorosa,
o que eu faço é correr em martírio amorosos,
E quando com o olhar dela se chocam
Tocam o coração que se volta para o céu.

Fazem de olhos uma escolta para meu coração,
 Parando-o na fé mais forte do amor,
Quando contemplam seu novo rosto;

E tanto se passa em seu fixo desejo
Que a doce imaginação lhes dá a morte,
Se não fosse o Amor que o conforta.

Tudo me poupa do doce salutar
Que vem daquele que é a suprema saúde,
Em quem todas as graças se cumprem:
Com ela vai o Amor, que com ela nasce.

E faz reviver a terra e a terra,
E regozija ao céu sua virtude;
Nunca se viram tais novidades lá fora
Que por ela Deus nos faz mostrar.

Quando ela sai adornada, parece que o mundo
Está todo cheio de espíritos de amor,
De modo que todo coração gentil se alegra.

E o vilão pergunta: "Onde posso me esconder?
Por medo da morte, ele quer fugir;
Que o homem então baixe os olhos, eu respondo.

Uma jovem adorável com olhos anjos,
Adornada com virtudes angelicais,
Em companhia de tão doce saúde
Quem então a ouve falar de amor.

Ela pareceu aos meus olhos tão belos
Que em um só pensamento chegou ao meu coração
São pequenas palavras, que do coração vistas são
Tem a veracidade dessa nova alegria;

Que tanto tomou conta de nossa mente, 
 E a cobriu com tão doce amor
Que não se pode pensar senão nela:

"Vejam como é doce a sua valentia!
Que aos nossos olhos mostra abertamente
Como deves obter dela uma grande joia.

Vejam, mulheres, a bela criatura
Que está entre vós de forma maravilhosa!
Vós já mudam uma figura tão nova
Ou uma juventude tão sábia e agradável?

Ela, com certeza, tem natureza humana
E todas vós adornam de modo semelhante;
Cuidai de teus atos agradáveis
Que deixam todo o povo maravilhado.

Tanto quanto puderem, honrem-na,
Mulheres gentis, pois a todas delas honrar,
Das quais em todo lugar se tem notícia.

Agora se verá quem tem nobreza em si,
Pois eu vejo o Amor visível, que a adora
E a reverencia, por isso a abona!
Cino da Pistoia - TRAD. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Dante da Maiano a Dante Alighieri - Trad. Eric Ponty acesso ao 65400

Dante da Maiano a Dante Alighieri

Para provar que sabe quanto vale o ouro
O dono do ouro o leva ao fogo;
E, assim fazendo, limpará e saberá se é pouco,
Amigo, de valor pecuniário, ou muito.

E eu, a fim de provar minha canção,
Eu a apresento a vós, cuja comparação faço
De cada um que tem um lugar no conhecimento
Ou que, por seu mérito, se louva ou se vangloria.

E eu lhe peço com minha canção mais sábia
Que me conceda o doce maio do amor
Que é, por seu conhecimento, nomear:

E não me movo por questionar vosso 
(pois já entre vós sei que não tem valor)
Mas para saber o que eu observo e entro.

Dante Alighieri a Dante da Maiano

Seja lá o que for, amigo, teu manto
De ciência me parece tal que não é enigma;
De modo que, para não saber, ardo de ira,
Não que eu o louve tanto esses versos soam.

Saiba bem (pois eu me conheço um pouco)
Que para saber o fato sobre ti, tenho menos de uma ocasião,
Nem por caminhos sábios como eu não conheço,
Tão sábia parede em cada canção.

Então você gostou de conhecer minha coragem,
E eu a mostro a você, principalmente da falsidade,
Como aquele que é sábio em seu discurso:

Certamente, à minha consciência isso parece,
Aquele que não é amado, se é amante
Que em seu coração carrega tristeza sem paralelo.

Dante da Maiano a Dante Alighieri

Seu discurso firme, fino e orrato
Aprova bem o bem que o homem fala,
E ainda mais, que todo homem está sobrecarregado
De vosso louvor todo o nomear;

Porque em tal lugar repousa o vosso louvor,
Que o homem não poderia contá-lo corretamente:
Portanto, que verdadeiro louvor a seu estado
Que o homem não possa contá-lo adequadamente.

Dizei que amar e não ser amado
É o amor que mais entristece o Amor,
E muitos dizem que quanto mais dor que tem em maio:

Por isso, modestamente lhe peço que não se enoje
Seu salvador, que ainda está claro, se ele quiser,
Se a verdade, ou não, disso me mostrar sábio.

Dante Alighieri a Dante da Maiano

Sem saber, amigo, teu nome,
de onde se move aquele que comigo fala,
bem sei que noção o tem de grande nome,
de sorte que nenhum dos que conheço o tem:

Pois bem se pode saber de um homem,
Por raciocínio, se ele tem senso, que bem parece;
Então o senhor deve ser louvado sem fazer nome,
Minha língua é forte no que fala.

Amigo (certamente ele sonda, para que o amado
{Por amor eu amo), bem sabe quem ama,
Se não for amado, maior será a dor que carrega;

Pois tal tristeza, sob seu aposento, guarda
Todas as outras, e a principal de cada uma é chamada:
Daí vem a dor que o amor suporta.

Dante da Maiano a Dante Alighieri - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

quarta-feira, maio 29, 2024

CENT MILLE MILLIARDS DE POÈMES - Raymond Queneau - Trad. Eric Ponty

O rei dos pampas vira sua camiseta do avesso
Que fermenta da mesma forma que os couros e peles
estávamos tão frios quanto nus em um bloco de gelo
desde que Lord Elgin negligenciou suas narinas.

Sua escultura é ilustre e no fundo dos cascos,
para excitar os arcos da parte de trás de seu nariz
Que desta secagem de dourado ou tamboril,
Que o motorista nativo esperava na brisa.

Quando espírito soprar e sopra acima da bota,
Este que ele se abaixa para pegar sua mala,
Quê Beaune e o Chianti são o mesmo vinho?

Achando, então cá está uma que traumatiza,
ele dá à tribo esses gritos com novos significados,
Que para o mármore ácido é qual uma iguaria.

Raymond Queneau - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

POEMAS SATURNIANOS - PAUL VERLAINE - TRAD. ERIC PONTY


Resignação

Em criança, sonhava com Ko-Hinnor,
sumptuosidade persa e papal,
Heliogabalus e Sardanapalus!
O meu desejo criou-se sob tetos dourados,
Entre perfumes, ao som da música,
haréns sem fim, paraísos físicos!

Hoje mais calmo e não menos ardente,
Mas sabendo que a vida e que é preciso dobrar-se,
Tive de refrear a minha bela loucura,
Sem, no entanto, me resignar demasiado.

Assim seja! O grandioso escapa-me,
Mas evita o amável e evita a escória!
E continuo a odiar a mulher bonita!
A rima assonante e o amigo prudente.

NEVERMORE

Memória, memória, o queres de mim? outono
Fez o tordo voar pelo ar monótono ido,
Que deste sol brilhava monotonamente
Sobre o bosque amarelado onde sopra a brisa.

Estávamos sós e andávamos a sonhar,
Ela e eu, os nossos velos e axiomas ao vento.
De repente, recuando pra mim o olhar tocante, ela disse:
"Qual foi o dia mais feliz!", veio da voz dourada,

Voz suave e sonora, de timbre fresco e angélica.
Que de um sorriso discreto respondeu-me,
E eu beijei-lhe a mão branca com devoção.

- Ah! Primeiras flores, como são perfumadas!
E como soa com um murmúrio encantador
Que do primeiro sim dos lábios amados!

AO FIM DE TRÊS ANOS

Depois de lhes abrir a porta estreita e instável,
Passei pelo pequeno jardim, som dourado,
suave iluminado pelo sol da manhã,
fazendo cintilar cada flor com brilho húmido.

Nada alterou. Voltei a ver tudo: o humilde caramanchão
Com as suas vinhas loucas e cadeiras de vime...
A fonte ainda faz o teu murmúrio prateado
E o velho treme com a tua queixa eterna.

As rosas, como antes, esvoaçam; como antes,
Os lírios altos e orgulhosos balançam ao vento.
Cada cotovia que vem e vai é-me conhecida.

Até encontrei de pé, Velléda,
cujo reboco está a descascar no fim da avenida.
- Frágil, no meio do cheiro suave da reseda.

VOEU

Ah! as oarystis! as primeiras amantes!
O ouro dos velos, o azul dos olhos, a flor da tua carne,
E depois, no meio em perfumes de corpos jovens e queridos,
A temível espontaneidade das carícias!
Estarão todas estas alegrias longe o suficiente!

E toda essa franqueza! Ai de mim! todos eles
A primavera dos pesares fugiu dos negros invernos
Dos meus problemas, dos desgostos, minhas angústias!
De modo que agora estou só, triste e só,

Desolado e desesperado, mais frio que um avô,
E como um pobre órfão sem uma irmã mais velha.
Ó mulher de amor quente e mimoso,
Gentil, atenciosa e morena, e nunca surpreendida,
E que às vezes te beija na testa, como uma criança!
PAUL VERLAINE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Estes versos, meu leitor - Sor Juana de La Cruz - Trad. Eric Ponty

Estes versos, meu leitor
que eu dedico ao teu deleite,
e são apenas bons
Eu sei que são maus,
Não os quero desculpar
nem quero recomendá-los,
porque isso seria querer
querer dar-lhes demasiada importância.
Não vos sou grato:
Pois não deves, bem considerado,
estimar o que eu nunca
julguei estar em vossas mãos.
Na vossa liberdade vos ponho,
se os censurardes;
Porque, afinal de contas, tu estás
que, afinal, tu estás nela, eu estou muito nela.
Não há nada mais livre do que
o entendimento humano;
Pois o que Deus não viola
por que o violaria eu?
Dizei o que quiserdes sobre eles,
que, quando sois mais desumanos
os mordeis, então
mais obrigados estais a mim,
Porque tu ofereces à minha Musa
o prato mais temperado,
que é a murmuração, de acordo com
um adágio cortês.
E eu sempre vos sirvo, porque
ou gostais de mim, ou não gostais de mim:
se gostas de mim, divertes-te;
murmurais, se eu não vos pintar.
Eu bem podia dizer-vos
que não lhes deste espaço para os corrigir.
espaço para os corrigir
a pressa das transferências;
que são de várias letras,
e que algumas delas, de rapazes,
matam o sentido de tal maneira,
que a palavra é um cadáver;
e que, quando as tenho feito,
foi no curto espaço
que eles eram ferianos no lazer das
as precisões do meu estado;
que tenho pouca saúde
e com gravidezes contínuas,
que, mesmo dizendo isto, levo a minha pena a trote.
Mas tudo isso é inútil,
Porque pensareis que me vanglorio
Que talvez fossem bons
Para os ter feito lentamente;
e eu não quero que penseis assim
mas apenas que é para os dar
à luz, só para obedecer a uma ordem.
Isto é, se quiseres acreditar,
não me vou matar por causa disso,
porque, no final, farás o que
te puserem nos cascos.
E adeus, porque isto não é mais do que
dar-vos a amostra do pano:
se não gostardes da peça,
não desembrulhes o embrulho.

Este livro é oferecido aos vossos olhos
este livro, por ser
ilustrado por tanto sol,
digno de tanta divindade.
Para vos divertirem um pouco
é o máximo que podeis esperar,
que seria demasiado empreender
Ousar empreender.
Como ousar servir-vos
é uma temeridade cortês,
Defendido na sua intenção
Ele consagra-se ao vosso altar.
Reverente a vossos pés
pede, em seu disfarce,
Não para vos dar o que falar,
mas apenas o que explicar.
Tão feliz será lido
que, orgulhoso, dilatará
os momentos de atenção
a séculos de vaidade;
Tornar-se imortal proporciona,
que favor celestial
é medido em estima
ao preço da eternidade.
Tudo o que ela encerra em si
Ele dá-o por decifrado,
Porque não é erro de fé
Não é erro de fé propor, mas duvidar.
O cuidado com que é apresentado
não espera que lhe agradeçais;
que, no vosso culto, o crer
começa por não esperar.
Assim, o respeito resignado
aos vossos altares,
Que a primeira oblação
é não querer.
A audácia da ousadia
não pretende desculpar,
Que ao procurar-vos, sua razão
levantou a sua indignidade.
Um descuido vossa pergunta,
que, sendo o livro tal,
a atenção não fosse deixada
Com erros de ociosidade.
Muito quereis, pois não ignorais
Que, por piedade natural
Mais cuidado é devido ao céu
O descuido do que o cuidado.
Mas nem o esquecimento nem as atenções
Este livro pode alcançar,
porque não é digno das primeiras
e vós sois incapazes destes.
Como divindades ele acredita em vós;
mas, vendo a vossa beleza,
como ele encontra mais para acreditar,
ele se desculpa da ignorância.
Tanto ele infere que, acreditando
mais do que já é possível
ele até presume que é a sua fé
menos que sua loucura.
E se, por natureza
quanto oculto penetras,
tudo o que há para saber
deixará de ser adivinhação.

Este, que vês, que de colorido engano,
Que desta arte ostentando os primores,
com falsos silogismos destas cores
É um cauteloso engano do sentido;

Que deste em quem a lisonja fingiu
para desculpar os horrores dos anos
e, vencendo os rigores do tempo,
triunfar sobre a velhice e o olvido,

é um artifício vão de cuidado,
Sendo-lhe uma flor delicada ao vento,
é um abrigo inútil para o destino:
É uma tola desta diligência errante,

É uma vã diligência, é um vão cuidado, 
Sendo-lhe de uma vã flor ao vento,
é um cadáver, é pó, é sombra, é nada.

Sor Juana de La Cruz - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

segunda-feira, maio 27, 2024

RETRATO DE UMA DAMA DE MINHA IMAGINAÇÃO - [Trecho] - ERIC PONTY

Quem ouvirá em nacos espalhados de rima,
o som das perpétuas com quais comi meu cerne,
em minha primeira buscando juvenil, quando, 
em parte, tudo repartir era outro homem que não mais sou;

Dos tons mutáveis com dos quais falo e pranto,
entre minhas expectativas deixadas e minha dor inútil,
entre aqueles que sabem por meio da provação 
pode ganhar perdão, até mesmo dó, eu espero.

Mas agora vejo que quando eu era jovem
eu era um palavrão em todas as línguas,
pelo que amiúde me encho de embaraço;

Esse é o fruto de minha perambulação insana,
com penitência e uma clara apreensão de uma coisa:
o deleite deste mundo é um devaneio abreviado.

Para se vingar elegantemente de mim
e punir em um dia mil ofensas foram tangidas,
Quem amor pegou seu arco e me manteve em sua mira,
esperando e observando secretamente.

Meus alentos se amontoaram no bastião do cerne,
ali e atrás dos olhos para montar minhas capitais
defesas principais, quando a batida fatal jazigo
onde a ponta de cada flecha soia ser embotada.

Distintos por esse primeiro ataque,
Não tiveram a azo ou o poder para pegar 
em armas naquela hora desesperada

ou me guiar sabiamente pela trilha fadigosa
na encosta do alto calvário, acima da ruína
da qual queriam, mas não conseguiram me guiar.

Quando os raios brilhantes do sol de tristeza 
por seu criador, diminuem sua luz,
quando fui levado cativo sem lutar,
pois fui capturado por seu olhar brilhante.

Parecia que não precisava usar armadura 
contra os golpes do amor: Das reimagens era fluvial,
Seguia minha abertura seguro e despreocupado;  
Naquele dia de dor geral, minha amargura abriu.
O Amor me achou desarmado, pois não havia vigia
para guardar a passagem que levava olhos ao coração,
Olhos que hoje são comportas acesas para as lamúrias.
Acho que seu fruto em honra não foi amplo,
Que ferindo-me com um dardo nesse estado
enquanto armado, nunca demostrou seu arco.

Aquele cujo desígnio e providência ilimitada
aparecem em toda a sua maravilhosa obra,
que circundou este e o outro hemisfério
Temperou reimagem com a suave influência do tempo,

Que vindo à Terra para fulgurar a veracidade
asilada nas escrituras por tantos anos,
chamou de seus equipamentos de sedutora 
e concedeu porções celestiais de ambas imagens.

É do agrado elevar o humilde acima dos demais.
Por isso, escolheu agraciar a não a orgulhosa Dama 
com seu surgimento nos das reimagens do pensar.

E sendo-lhe de uma ideia nos dá um novo luzir,
pelo qual devemos agradecer à caráter e ao recinto
onde essa beleza abrolhou enquanto meditar face.

Meu desejo louco se perdeu tanto em sua perseguição 
àquela que se transformou em fuga da linhagem,
Sendo-lhe livre dos ardis do amor é leve quaisquer imagens
e voa diante de minha demora no templo ideias.

Quando eu o instigo com mais insistência
para a passagem segura, minha direção 
sendo que é a que ele mais desdenha,
nem adianta usar as esporas ou as rédeas,
Que amor tornou sua natureza tão refratária.

E quando ela deita as limagens entre os dentes
ele me tem sob seu controle e pretende
contra minha cobiça, para me levar à morte;

apenas para parar embaixo do loureiro capital,
onde colho uma fruta amarga, cujo sabor inflama
minhas feridas, em vez de aliviá-las para mim.

A gula, o sono e a indolência, e, cobiçam 
banirem a virtude do mundo atual,
de modo que nosso caráter quase se desviou
de seu próprio curso devido ao império do hábito;

E assim se extinguiu a luz favorável
do céu, a partir da qual a vida humana toma forma,
que alguém que faria para o produzir um arroio
é apontado como uma visão admirável.

Quem busca o louro ou a murta agora?
"Filosofia, viajasse pobre e sem nada"
lembra a multidão, tomada em ganhos sórdidos.

Portanto, serão raros os companheiros em sua estrada;
Ainda mais, nobre alma, eu lhe peço, mantenha-se firme 
Nesta tarefa de grande alma que tem em mente.

Abaixo dos contrafortes onde a adorável e flexível
capelo de seus membros terrestres vestiu pela primeva vez
a senhora que acordou chorando de seu repouso
aquele que nos envia tal qual um presente da reimagem.

Livres e em paz, passamos pela passagem ida
desta vida mortal, quais de todos os seres sombrio 
desejam, sem suspeitar que encontraríamos
uma emboscada na passagem para nos fazer ficar.

Mas para nossa atual conjuntura miserável,
arrancados da vida que levávamos sem apreensões,
e para nossa morte, temos um consolo:

Da vingança contra o culpado por nossa dor,
que, perto de seu fim e sob o poder de outro,
jaz enredado em um fluxo mais pesado.


Quando tua face brilhante que divide as horas
se aloja dentro de minha alma durante a virada do ido,
nesta influência que cai de seus chifres flamejantes
vestindo-lhe a face com uma nova mudança de cores;

Não apenas as primeiras cores decoram tua face
as margens e colinas espalhadas por onde podemos ver,
mas também no subsolo, onde nunca é dia,
a umidade do teu olhar se torna prenhe de um novo calor;

Então frutos quais teus olhares são colhidos. Assim, naquelas
que entre outras mulheres é um sol formoso de tua face
voltando teus olhos para mim, com teus raios brilhantes

Criará em mim os pensamentos, as palavras e os atos do amor;
e, no entanto, não importa para onde ela direcione
esse olhar, para mim a buganvília nunca chega.
Quanto mais meu último dia se aproxima,
que servirá para encurtar a constância da miséria humana,
mas eu vejo como o tempo corre célere e leve,
minha esperança nele é ilusória e vã.

Digo aos meus pensamentos: "Não temos muito que ir
falando de uma Dama, pois agora o mais pesado,
mais sólido fardo terrestre, como a alvorada fresca
está derretendo, o que por fim nos trará descanso:

Pois com esse peso cairá a esperança vazia
que nos mantivermos em êxtase por tantos anos
e todos os nossos risos, choros, raiva e medos;

"Então distinguiremos confessadamente como todos os
os mortais estão lutando por um prêmio equívoco
e ah, quantas vezes soltamos suspiros improfícuos."

Levado pelo Lied contra medito as reimagens do tempo
Fluvial cruzará a linha que sei muito bem que não deveria,
o que faz dele o único monarca de meu coração,
me ache mais difícil do que o normal.

No passado, eu controlava meu desejo ardente
por medo de perturbar sua nota calmaria e adorável;
Não posso mais: arrebatou as rédeas, agora as soltas,
e minha alma se tornou descuidada em desespero.

Sendo assim a causa se, de repente, Lied se soltar:
atiçando suas notas que o picam com esporas,
até que, para se salvar, tentando aberturas difíceis;

Aqueles mais esquisitos em idade ou posição,
com um breve gesto, pediu que se afastassem
e recebeu graciosamente apenas daquelas notas.
 ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

domingo, maio 26, 2024

Op.21 (1912) - Arnold Schoenberg (1874-1951) - Otto Erich Hartleben (1864-1905) - Trad. Eric Ponty


Segunda-feira

O vinho que se bebeu com os olhos,
A lua derrama-se em ondas à noite,
E uma maré de primavera inunda
O horizonte silencioso.

Desejos horríveis e doces,
Nadam pelas enchentes sem número!
O vinho que bebeu com teus olhos
A lua se derramou em ondas à noite.

O poeta que é movido pela devoção,
Intoxica-se com a poção sagrada,
Em direção ao céu virando a sua cabeça
tua cabeça e tropeçando ele chupou e sorveu,
O vinho que bebeu com teus olhos!


Columbina

As flores pálidas do luar,
As rosas brancas maravilhosas,
Florescem nas noites de julho -
Oh, quebrei apenas uma!

Para aliviar meu sofrimento ansioso,
Busco no riacho escuro
As pálidas flores do luar,
As rosas brancas e maravilhosas.

Todos os meus desejos seriam agradados,
Se eu pudesse ser num conto de fadas,
Tão felizmente calmo
Em seus cabelos castanhos
As flores pálidas do luar!


O dândi

Com um magnífico feixe de luz
Lua fulgura facões cristalinos
Sobre lavatório breu, mui bento
Na dança silente do Bérgamo.

Em cuia de bronze pra tingir
Ri-se intensa fonte, o som metalino.
Num delirante feixe de luz
Lua fulgura os facões cristalinos.

Pierrot com a face de cera
Pondera e pensa: irá se maquiar?
Impele o rubro e o verde oriental
E pinta sua face de jeito brioso
Num delirante feixe de lua.

Arlequim

Mais formoso do que o espectro solar,
Aqui está o Arlequim muito magro,
Que amassa o casaquinho
Da atrabiliária donzela.

Para apaziguar sua raiva,
Ele mostra uma lantejoula
Mais bela que o espectro solar,
Aqui está o esbelto Arlequim.

A velha senhora, embolsando seu salário,
entrega colombina ao malandro,
Que em um grande céu azul turquesa
Se desenha e canta Lunaire,
Mais bela que o espectro solar.


Uma lavadeira lívida

Uma lavadeira lívida
Lava panos lívidos durante a noite;
Braços nus, prateados e alvos
Se distendem até o dilúvio.

Ventos rastejam por meio campestre,
Silente, se mover o fluxo.
Uma lavadeira lívida
Lava xales lívidos durante essa noite.

E submissa dama do céu,
De ramos suaves acariciados,
Espalham sobre prados abrumados
A textura de linho intensa
Duma lívida lavadeira.

Valsa de Chopin

Qual lívida gota de sangue
Colorir lábios duma pessoa acamada,
Por isso, se apoia em impressões
Numa graça destrutiva.

Acordes luxuriosos selvagens [perturbar]
Dum sonho glacial do desalento...
Como lívida gota de sangue
Realçar beiços duma pessoa acamada.

Quente e exultante, doce e languinhenta,
Melancólica Valsa infeliz,
Não pode ausentar-se da minha cabeceira.
Me agarra aos meus pensamentos
Numa lívida gota de sangue!

Madonna

Sobe, Ó Mãe, Todas aflições,
Sobre Altar de meus versos!
Sangue de seu peito esguio
Derramou me ira da espada.

Feridas sempre em novas
Olhares rubros e acesos.
Vem, ó mãe dessas dores,
Nesse altar de meus versos!

Em tuas mãos pálidas
Seguram o cadáver desse filho.
Demonstrá-lo toda a gente -
Mas olhar do homem atalha
Tu, Ó Mãe, Todas aflições.

Lua adoentada

A lua sonolenta, doente de morte
Lá no arado negro do céu,
Seu olhar, tão febril superdimensionada,
Me cativa como uma estranha melodia.

Do sofrimento do amor insaciável
Morressem de saudade, profundos sufocados,
Da lua noturna doente de morte
Lá no negro arado do céu.

A pessoa amada, que em um frenesi sensual
Sem pensar, se esgueira até a amada,
Entretido com o jogo de seus raios -
Teu sangue pálido e agoniado,
Tua lua noturna, doente de morte.

Noite (Passaglia)

Borboletas gigantes abrumadas e pretas
Mataram o esplendor do sol.
Um livro mágico fechado,
Repousa no horizonte - silencioso.

Da fumaça das profundezas perdidas
Um aroma se ergue, matando a memória!
Borboletas gigantes negras e escuras
Mataram o esplendor do sol.

E do céu para a terra
Baixam com asas pesadas
Invisíveis os sonhos não sonhados
Sobre os corações dos homens...
Borboletas gigantes escuras e negras.

Oração do Pierrot

Pierrot! O meu riso
Eu esqueci-me!
A imagem de esplendor
Dissolvida - Dissolvida!

Negra é a bandeira
Do meu mastro agora.
Pierrot! O meu riso
Eu esqueci-me!

Oh, devolve-me,
Cavalo médico da alma,
Boneco de neve da poesia,
Serena alteza da lua,
Pierrot - o meu riso!

Ao meu primo de Bergamo

Somos parentes pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu,
Pois sinto uma pálida agitação,
Quando ela cuida da noite marrom.

Ao pé da tribuna vermelha,
Ele cobrou os gestos do rei:
Estamos ligados pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu.

Minha fortuna são os vaga-lumes;
Eu vivo de tiros, iguais a ti,
Minha língua sangrenta para a Lei,
E a palavra me incomoda:
Somos parentes pela Lua!


Assalto

Rubro, rubis principescos,
Gotas ferais auréolas ancestrais,
...Letargia Santuários fenecidos,
Nas arcas desse jazigo.

Noite, com compartes camoecas,
Pierrot rebaixar a furtar
Rubro, rubis principescos,
Pingos prestígio ancestrais, sangue.

Mas - Seus velos estão iço,
Medo lívido impede seu recinto:
Por meio Penumbra – Quais olhares! -
Santuários Fenecidos
Rubro, rubis principescos.

Missa sangrenta

No cruel jantar
Pelo calor doiro,
Luzes faiscantes Velas,
Pierrot beira Altar. 

A mão, aprovada a Deus,
Largueia vestes sacerdotais...
Para Banquete atroz
Pelo fulgor douro.

Com aceno bendição
Demostram almas ansiosas
Hospedeiro rubro gotejante...
Coração de dedos sangrentos,
Ao banquete cruel.

Canção do enforcado

Galocha esguia
Num pescoço comprido
será derradeiro
na última amante.

Em sua cabeceira
Presa num prego
Galocha esguia
Num pescoço longo.

Elegante qual pinheiro
Tranças entorno gargalo
Vai lhe ser folgazã
Será consorte dum malfeitor
Galocha esguia!

Decapitação

Lua, Espada alvo do Turco
Em coxim de seda negra,
Fantasmal - abreviado
Por meio noturna dolente abrumada.

Pierrot vagueia sem repouso
Apreciar altivez do pavor mortal
Pra Lua, Espada turco nu
Em coxim seda preta.

Joelhos tremidos,
Desmaiando e esvai.
Se acha que já é
No pescoço do pecador, terrestre
Lua, Espada alvo do Turco.

Cruzes

Cruzes bentas são avessas,
Sobre quais Poetas sangram inúteis,
Cegos atingirem o abutre
Enxame fantasmal cintilante!

Corpos espadins aromas maldizentes...,
no escarlate de sangue!
Cruzes bentas são avessas,
Sobre quais Poetas sangram inúteis

Jazida cabeceira - congeladas caracóis -
Longe, vozerio da caravana esvaecer.
Devagar Sol se inicia,
Duma coroa real rubra. –
Cruzes bentas são avessas.

Cristal da Boêmia

Um raio de lua, bem fechado
Em um copo de cristal da Boêmia,
Uma joia, maravilhosa e rara,
É este livro de versos.

Eu me disfarcei de Pierrot.
Para aquela que amo, ofereço
O raio da lua, bem fechado
Em um copo de cristal da Boêmia.

Nesses símbolos cintilantes
Está tudo o que eu tenho e sou.
Como Pierrot em um crânio pálido,
Trago em meu coração e mente apenas
O raio da lua - bem fechado.

Saudades caseiras

Ó Doce lamento - Suspiro cristalino
 Remota pantomima italiana,
 Soa qual Pierrot de lenho,
 Tão coevo afetuoso agora.

 E soar por meio ermo desse coração,
 Sons afogadiços por todos sentidos idos,
 Lindo suspiro diáfano, simples e formoso...
 Dessa ancestral pantomima Itália.

 Lá Pierrot olvida Minas de amargura!
 Pela lívida luz ardores lunares,
 Por meio mares luzidios, aspiração iça,
 Ousada altivez, pra altivez, pro céu caseiro
 Linda perpétua cristalina, carpideira amável!

A Crueldade!

Dentro da cabeceira alva de Cassandra
...cujo templo o ar estremeceu 
Pierrot perfura cacimbões fingidos,
Ternos - Quais da caveira!

Logo, um polegar, cravou...
Seu puro tabaco turco
Dentro da cabeceira nua de Cassandra,
...cujo templo o ar estremeceu o ar!

Então torce à fonte azedume
...à parte traseira da cabeceira nua...
...São presunção e vaidade...
...Exato tabaco turco...
Da cabeceira nua de Cassandra!

A Paródia 

Agulhas de tricô, vivas e chamativas,
Em seus cabelos brancos,
A Duana está sentada murmurando,
Em sua pequena saia vermelha.

Ela espera no caramanchão,
Ela ama Pierrot com dor,
Agulhas de tricô, brilhantes e reluzentes,
Em seus cabelos brancos.

Então, de repente, - Diana! - um sussurro!
Uma brisa ri suavemente:
A lua, a malvada zombeteira,
Imita com seus raios -
Agulhas de tricô, piscantes e brilhantes.


A Desonra da lua 

Uma mancha branca da lua brilhante
Na parte de trás da sua saia preta,
Assim Pierrot caminha na noite amena,
Em busca de felicidade e aventura.
 
De repente, algo o incomoda no seu fato,
Ele olha em volta e encontra -
Uma mancha branca da lua brilhante
Na parte de trás da sua saia preta.

Espera! pensa ele: é uma nódoa de gesso!
Limpa e limpa, mas - não a consegue tirar!
E assim continua, inchado de veneno,
Esfregando e raspando até de manhã cedo -
Uma mancha branca da lua brilhante.


Serenata

Com Burlesco estojo colossal
Pierrot fere sua viola,
Qual a cegonha em uma perna,
Faz uma pizzicato contornos fracos.

De repente, Cassandra beirar - enfadada
Ao virtuoso anoitecer...
Com arco grotesco
Pierrot arranha sua viola.

De si mesmo detinha-lhe à viola:
Com meiga esquerda
Agarrando a cabeceira nua do colarinho...
Sonha em cabeceira nua
Com Burlesco estojo colossal.

Desando à casa 

(Barcarola)

 O raio de luar é o leme,
o nenúfar serve de barco;
Pierrot navega para sul nele
Com um bom vento de viagem.

O riacho zumbe em escalas profundas
E balança o barco leve.
O raio de luar é o leme,
O nenúfar serve de barco.

Para Bergamo, para casa,
Pierrot regressa agora;
Já desponta no Leste
O horizonte verde.
- O raio de luar é o leme.


O Antigo Aroma

Ó velho perfume dos contos de fadas,
Intoxica os meus sentidos outra vez;
Um exército tolo de brincalhões
Desliza pelo ar leve.

Um desejo feliz faz-me feliz
Por alegrias que há muito desprezei:
Ó velho perfume dos contos de fadas,
Intoxica-me de outra vez!

Revelo todo o meu desagrado;
Da minha janela de sol
Olho livremente para o mundo valioso
E sonho com os espaços abertos...
Ó velho perfume dos contos de fadas.

Otto Erich Hartleben (1864-1905) - Trad. Eric Ponty

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

sexta-feira, maio 24, 2024

Pierrot Lunaire - Albert Giraud - Trad. Eric Ponty






Dedico-lhe os meus diamantes - poeta que é! Ajudaste a sua e mais de um deveria ser assinado com o teu nome, pois tu os "falaste" deles nas nossas horas de diletantismo, quando os cabelos não se dividiam em quatro - o que é elementar - mas em milhares, e nos pareciam tão grossos como fios. Aqui tendes, tal como são, estes poemas de Lua. Não encontrei razão, como dizem os autores modestos, para "analisar o meu século", nem moralizar à maneira protestante, contentando-me em afirmar, no meio da praga moderna dos fotógrafos literários, um direito que ambos reclamamos com insolência - o direito do poeta à fantasia lírica.
Fantasia.
ALBERT GIRAUD.

Sonho com uma peça de câmara,
Onde Breughel pintaria os pássaros,
Shakespeare, os palácios pálidos,
E Watteau, os cenários de âmbar.

Nas sombrias noites de dezembro,
Aquecendo meus dedos violáceos,
Sonho com uma peça de câmara,
Onde Breughel pintaria os pássaros.

Animado com o sabor do gengibre,
Nós veríamos os feios irmãos,
Acolchoando suas panturrilhas emaciadas,
Para uma Colombina arqueada.
Sonho com uma peça de câmara.

Os grandes pássaros de carmesim e ouro,
Essas pedras preciosas esvoaçantes,
Breughel os coloca, em sua obra,
Nas árvores azuis da decoração.

Eles vibram, e sua enorme ascensão,
Lançam uma sombra sobre os prados,
Os grandes pássaros de carmesim e ouro,
Essas pedras preciosas esvoaçantes.

O sol perfura com o esforço
De seus dourados amarelos,
O verde-azul dos ramos floridos,
E sua luz aguça ainda mais peça de câmara.
Os grandes pássaros de carmesim e ouro.

Um caprichoso raio de luar
Faz brilhar os flancos de cristal
Na bacia de perfumes sândalo
Do pálido dândi Bergamasco.

A fonte ri em seu caldeirão
Com um claro som metálico.
Um caprichoso raio de luar
Faz brilhar os flancos de cristal.

Mas o seigneur com o basque branco,
Deixando de lado o vermelho vegetal
E o verde oriental fardado,
Estranhamente compõe seu rosto com
Um caprichoso raio de luar.

Os convidados, com o garfo na mão,
Viram o vinho sendo roubado,
Os assados, as tortas, as ostras,
E as geleias de marmelo.

Os senhores estão, ocultos em um canto,
Fazem caretas de bufão.
Os convidados, de garfo na mão,
Viram o vinho sendo roubado.

Para enfatizar a decepção,
Destes insetos com élitros azuis
batem contra as janelas cor-de-rosa,
E seu zumbido monótono zomba de longe
Os convidados, com o garfo na mão.

Como uma lavadeira pálida,
Ela lava suas failles brancas,
Seus braços argentinos ausentes de mangas,
Na alegre margem do rio.

Os ventos que atravessam a clareira
Sopram em suas flautas sem palhetas.
Como uma lavadeira pálida,
Ela lava suas roupas brancas.

O trabalhador celestial e gentil,
Amarrando a saia nos quadris,
Sob o beijo dos ramos,
Pendura sua roupa de luz,
Como uma pálida lavadeira.

Com um grotesco e dissonante golpe de arco
Irritando seu violino plano,
Como uma garça, em uma perna só,
Ele toca um ar indecente.

De repente, Cassandro, intervindo,
Repreende esse acrobata noturno,
Com um grotesco e dissonante golpe de arco
Irritando seu violino.

Pierrot contesta, e agarra
-Com uma mão muito delicada
O velho por sua gravata rígida,
risca a barriga do agitador
Com um grotesco e dissonante golpe de arco.

A Lua, a omelete amarela,
Batida de grandes ovos de ouro,
Nas profundezas do azul-escuro, ela dorme,
E se reflete nas janelas.

Pierrot, em suas roupas brancas,
No telhado, perto da borda, olha para
A lua, a omelete amarela,
Batida com grandes ovos de ouro.

Enrugado como uma maçã madura demais,
Pierrot sacode com grande força
Uma frigideira e, com um súbito esforço,
Acredita ter se lançado no céu cintilante,
A Lua, a omelete amarela.

Arlequim usa um arco-íris
De seda vermelha e verde,
Assemelhando-se, no ouro das fadas,
Uma serpente artificial.

Tendo como objetivo essencial
A improbidade e o engano,
Arlequim usa um arco-íris
De seda vermelha e verde.

Para Cassandro, amarelo de fel,
Ele enumera seus seigneuries
Na Espanha e seus brasões de armas:
Porque, em um cenário de azul e mel,
Arlequim usa um arco-íris.

Um bloco de gelo polar cintilante,
cinzelado pela luz fria,
Detém Pierrot exausto,
Que sente sua galé afundando.

Ele olha com um olhar brilhante
Para seu inesperado salvador:
Um bloco de gelo polar cintilante,
esculpido pela luz fria.

E o sinistro mímico
Acredita ver um Pierrot disfarçado,
E com um gesto branco e eternizado
Interpela na noite clara
Um bloco de gelo polar cintilante.

Como esplêndidas nadadeiras
De peixes celestiais em transformação,
As nuvens têm prata,
Ouro, nácar, marfim.

Elas redescem diante da morte
Glórias dos sóis que mergulham,
Como esplêndidas barbatanas
De peixes celestes em transformação.

Mas a Noite, em seus barcos negros,
Envia pescadores tristes
Que, em suas redes emergentes,
Capturam os ondulantes moires
Como esplêndidas barbatanas.

Somos parentes pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu,
Pois sinto uma emoção pálida,
Quando ela cuida da noite escura.

Ao pé da tribuna vermelha,
Ele recitou os gestos do rei:
Somos parentes pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu.

Eu tenho vermes vivas como fortuna;
Eu vivo, como você, enfiando
Minha língua sangrenta contra a Lei,
E as palavras me importunam:
Somos parentes pela Lua!

Os rubis vermelhos soberanos,
Injetados com assassinato e glória,
Dormindo na cavidade de um armário
No horror do longo subterrâneo.

Pierrot, com alguns canalhas,
Um dia, depois de beber, quer roubar
Os rubis vermelhos soberanos,
Injetados com assassínio e glória.

Mas o medo lhes causa arrepios:
Em meio ao veludo e ao moiré,
Como olhos nas sombras negras,
Do fundo de seu estojo se inflamam,
Os rubis vermelhos soberanos!

Somos parentes pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu,
Pois sinto uma emoção pálida,
Quando ela cuida da noite escura.

Ao pé da tribuna vermelha,
Ele recitou os gestos do rei:
Somos parentes pela Lua,
O Pierrot Bergamasco e eu.

Tenho vermes intensos como fortuna;
Eu vivo, como você, enfiando
Minha língua sangrenta contra a Lei,
E as palavras me importunam:
Somos parentes pela Lua!

Os rubis rubros soberanos,
Injetados com assassínio e glória,
Dormindo na cavidade de um armário
No horror do longo subterrâneo.

Pierrot, com alguns malandros,
Um dia, depois de beber, quer roubar
Os rubis rubros soberanos,
Injetados com assassínio e glória.

Mas o medo lhes causa arrepios:
Em meio ao veludo e ao moiré,
Como olhos nas sombras negras,
Do fundo de seu estojo se inflamam,
Os rubis rubros soberanos!


Pierrot, de Bergamo, está entediado:
Ele renuncia aos encantos do roubo;
Sua estranha e demente alegria
Voou para longe como ave branca.

O baço, no horizonte fuliginoso,
Fermenta como um álcool negro.
Pierrot de Bergamo está entediado:
Ele renuncia aos encantos do roubo.

A lua solidária enxuga suas choradeiras 
de luz sobre as nuvens, e no chão
A canção da chuva ecoa pela terra:
Pierrot de Bergamo está entediado.

O vinho que se bebe com os olhos
Flui da Lua em ondas verdes,
E submerge como uma onda
Os horizontes silenciosos.

Doces conselhos perniciosos
Nadam em cardumes no filtro:
O vinho que se bebe com os olhos
Flui da Lua em ondas verdes.

O poeta que é movido por devoção
Inebriado com o estranho absinto,
Inala - até rolar para baixo,
Gesto demente, cabeça no céu.
O vinho que se bebe pelos olhos!

A amante esbelta e de pescoço longo
Será a última amante,
Daquele aleijado em perigo,
Daquela sonhadora de ouro sem dinheiro.

Esse pensamento é como um prego,
enfiado em sua cabeça pela embriaguez:
A amante esbelta e de pescoço longo
Será sua última amante.

Ela é esbelta como o bambu;
Uma trança dança em seu pescoço,
E, com uma carícia estranguladora,
O deixará em êxtase qual um louco,
A esbelta amante de pescoço longo!

Em seu vestido branco da Lua,
Pierrot ri com seu riso sangrento.
Sua expressão de ébrio se torna perturbadora:
Ele está ficando sóbrio depois do domingo.

Sua manga se arrasta no chão;
Ele bate um prego na parede branca:
Em seu vestido branco de lua,
Pierrot ri com seu riso sangrento.

Ele se contorce como uma tenca,
Bota um laço em seu pescoço,
Empurra para longe a escada vacilante,
Bota sua língua para fora e se contorce,
Em seu vestido branco de lua.

Sinistras borboletas sombrias
Extinguiram a glória do sol,
E o horizonte parece um grimório
Banhado de tinta todas as noites.

Ela sai de críticos camuflados,
Um perfume que perturba a memória:
Sinistras borboletas sombrias
Extinguiram a glória do sol.

Assombros com probóscida viscosa
Estão buscando sangue para beber,
E do céu, como poeira negra,
Descem sobre nosso desespero
Sinistras borboletas sombrias.

O sol cortou suas veias
Em um leito de nuvens rubras:
Seu sangue, por meio da boca das fendas,
Ejacula em fontes rubras.

Os ramos convulsivos dos carvalhos
Flagelam os horizontes enlouquecidos:
O sol cortou suas veias
Em um leito de nuvens rubras.

Como depois das orgias romanas,
Um devasso cheio de nojo,
Deixando suas artérias doentes
Sangrar em esgotos sujos,
O sol cortou suas veias!

Ó Lua, ftiríaca noturna,
Sobre o coxim negro dos céus,
Seu imenso olhar febril
Me atrai como música!

Morresse de um amor quimérico,
E de um desejo silencioso,
Ó Lua, noturna ftirísica,
Sobre o coxim negro dos céus!

Mas em seu prazer físico
O amante que passa sem problemas
Toma como raios graciosos
Seu sangue branco e melancólico,
Ó Lua, noturna tísica!
No mármore da escada,
Um suave farfalhar de luz
Gira em uma poeira azulada,
Na curva de cada patamar.

A Lua, com um ritmo familiar,
Cria, em sua ronda habitual,
No mármore da escadaria,
Um suave farfalhar de luz.

E Pierrot, como uma reverência
Diante de sua pálida Imperatriz,
Prostra a oração branca
De seu grande corpo de espaldeira
Sobre o mármore da escadaria.

Um raio cativo do luar
Em um belo flaconete boêmio,
Tal é o poema mágico
Que nestes rondeis eu versei.

Estou disfarçado de Pierrot
Para oferecer a quem eu amo
Um raio cativo de luar
Em um belo flaconete boêmio.

Com esse símbolo eu me expresso,
Ó minha querida, todo o meu ser:
Como Pierrot, em sua cabeça pálida,
Sinto, sob minha máscara pintada,
Um raio cativo do luar.
Albert Giraud - Trad. Eric Ponty

ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Bênção - Charles Baudelaire - Trad. Eric Ponty

Quando, por decreto dos grandes poderes do alto,
O poeta chega a este mundo sem graça, sua mãe
Consternada, atônita, explode em blasfêmia
E sacode a mão para Deus, que tem pena dela:
- "Ah, por que não gerei um ninho de víboras
Em vez de cuidar dessa zombaria de coisa!
Maldita seja a noite de meus prazeres efêmeros
Quando concebi essa penitência por meu pecado!
Já que você me escolheu entre todas as mulheres
Para fazer meu marido me detestar como sua vergonha,
E já que não posso lançar esse monstro atrofiado,
Como uma antiga carta de amor, 
Passarei o fardo de seu ódio para o maldito 
instrumento de todo o seu rancor
E torcerei essa árvore miserável, para que nunca mais
Produzir novos brotos e dar frutos infectados."
E assim, sem entender o plano eterno,
Ela se engasga e engole a espuma de seu ódio;
Ela mesma alimenta o fogo penal criado
Nas profundezas da Geena para o crime materno.
No entanto, com um anjo como seu guia invisível,
A criança deserdada saboreia com prazer
A luz do sol, e em tudo o que come e bebe
Encontra néctar e ambrosia para seu banquete.
Ele brinca com o vento, conversa com as nuvens
E canta o caminho da cruz em tal estado de espírito
De felicidade que seu Espírito Assistente chora
Ao vê-lo feliz como uma ave da floresta.
Todos aqueles que ele busca amar olham para ele com medo,
Ou então, porque sua calma os tornou corajosos,
Para ver qual deles pode forçá-lo a gritar,
Testando o que sua ferocidade pode alcançar.
Cinzas e cuspes se misturam ao redor passar.
O pão e o vinho são destinados à sua boca;
Como hipócritas, jogam fora tudo o que ele toca
E se culpam por trilhar seu caminho.
Sua esposa anuncia no mercado:
"Já que ele adora minha beleza, vou me atrever
Escolher o ofício que os antigos ídolos praticavam,
E, como eles, me cobrirei de ouro.
E me drogarei com nardo e incenso,
Com mirra e gênios, carnes e vinho,
E rirei se em seu coração amoroso eu puder
Usurpar a homenagem devida ao que é Divino.
E quando eu me cansar dessa farsa ímpia,
Trarei minha mão fina e forte
Sobre sua sela; minhas unhas, como garras de harpias,
Cortarão o caminho sangrento que leva até onde,
Como se fosse um jovem pássaro trêmulo,
Eu arrancarei de seu peito o coração vermelho e brilhante;
E então, como carne para saciar meu cão favorito,
Eu o jogarei com desprezo na poeira!"
Para o céu, onde ele vê um trono brilhante,
O poeta ergue seus braços piedosos; a luz
E as vastas faixas de sua mente lúcida
Cancelam de sua visão as nações furiosas:
"Seja abençoado, ó Deus, que oferece o sofrimento
Como cura celestial para nossas impurezas,
E como a essência mais pura e mais rica
Para treinar os fortes para as ectasias sagradas.
Eu sei que para o poeta você guardou
Um lugar entre as legiões dos abençoados,
Entre os Tronos, as Virtudes e as Dominações,
Convidados a participar do banquete eterno.
Só a tristeza é a nobreza
Que a Terra e o Inferno, eu sei, não derrubarão,
E eras sem fim, todo este universo,
Devem ser tributadas para tecer minha coroa mística.
Mas as pérolas e os metais do mar ainda são incógnitos,
A glória desaparecida das joias de Palmira,
Embora montadas por sua mão, não seriam suficientes
Para fazer este diadema claro e deslumbrante,
Feito, como será, apenas de pura luz,
extraída dos primeiros raios da sagrada Raça,
Dos quais nossos olhos mortais, por mais brilhantes que sejam,
São apenas espelhos melancólicos e escurecidos".
 Charles Baudelaire - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

Fortuna - Carmina Burana - Trad. Eric Ponty


Oh, como a Fortuna,
inoportuna,
imita a inconstância da lua:
acrescendo, abrandando,
perdendo, ganhando,
a vida nos trata de forma detestável:
primeiro oprimindo
depois acariciando
nos desloca como peões em seu jogo:
destituição,
restituição,
se misturam e se fundem.
O destino, tão cruel
tão cruel quanto caprichoso,
girando teu carrossel:
atos malignos,
amores inúteis,
desmoronam no chão:
roubando obscuramente,
não revelando,
trabalhando contra mim vai:
para sua medida
de prazer imundo
Eu me escondo em teu golpe.
Ações nobres,
transações verdadeiras,
já não me cabem mais:
poderes para me fazer
e depois me quebrar
todos desempenham teu papel em tua trama:
agora aproveite seu tempo -
não perca mais tempo,
puxe essas pobres cordas e solte-as:
já que os mais fortes
caem por mais tempo
deixe que o mundo compartilhe de meu sofrimento.
TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA