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quinta-feira, janeiro 08, 2026

POMPAS PARA MARANHÃO SOBRINHO - ERIC PONTY

 Preso nàlgema dos teus alvos braços
teci-as; cada um lembra um momento
do nosso amor que. por eternos laços,
outroia, nos unia a um Armamento...
MARANHÃO SOBRINHO


Os ruídos nuvens exalaram pompas, 
passam mensagem, surdinas das trompas, 
de fronte longo céu que aposte logros! 
pasce, do sempre mármore do abléfaros.

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

Discreta frente céu pastorear! 
Mitra apreciar a luz de que repousa, 
ópera casta eterna ecoa-se à lousa. 

Ó templo anima abunda despejar! 
Acede douro climas que dá treva, 
friezas das minas, quisto nos transcreva.

ERIC PONTY

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  



quarta-feira, janeiro 07, 2026

PARA ELEITA DO DESCONHECIDO - Shakespeare’s Sonnets – Trad. Eric Ponty

 Das criaturas mais belas desejamos aumento,
Para que assim a rosa da beleza nunca morra, 
Mas quando o mais maduro pelo tempo falecer, 
teu terno herdeiro possa levar tua memória:    

Mas tu, contratado com teus próprios olhos vivas,
Alimentas a chama de tua luz com adustível,
Criando uma fome onde há abundância, 
Tu mesmo teu inimigo, cruel demais com teu doce eu.

Tu, que agora és o novo ornamento do mundo,
E único arauto da primavera vistosa,
Dentro do teu próprio botão enterras o teu conteúdo, 

E, rude insensível, desperdiças com a tua mesquinhez:
Tem piedade do mundo, ou então sê este glutão, 
Para comer o que é devido ao mundo, pela cova e por ti.

Quando quarenta invernos cercarem tua fronte, 
E cavarem profundas trincheiras no campo de tua beleza, 
A orgulhosa libré de tua juventude, agora tão admirada, 
Será uma trapaça esfarrapada de pouco valor: 

Então, quando te perguntarem onde está toda a tua beleza, 
Onde está todo o tesouro de teus dias vigorosos, 
Dizer que está em teus olhos forte encovados,
Seria uma vergonha devoradora e um elogio inútil.

Quanto mais louvor fazer jus a o uso da tua beleza 
se pudesses responder: “Este meu belo filho abreviará meu cômputo 
E servirá de desculpa para minha velhice”, 

Provando que tua beleza é herança tua. 
Isso seria como renascer quando estiveres velho 
E ver teu sangue quente quando sentires que está morto.

Shakespeare’s Sonnets – Trad. Eric Ponty


PARA ELEITA DO DESCONHECIDO - LENORE - SONNET - TO ZANTE - EDGAR ALLAN POE - TRAD. ERIC PONTY

 Lenore


Ah, falida está a taça de ouro! O espírito voou para sempre!
Que o sino toque! — Uma alma santa flutua no rio Estige;
E, Guy De Vere, não tens fúcsias? — Chora agora ou nunca mais!
Vê! Naquele caixão sombrio e rígido jaz tua amada, Lenore!
Vem! Que o rito fúnebre seja lido — Que a canção fúnebre seja cantada! —
Um hino para a mais real das mortas que jamais morreu tão jovem —
Um canto fúnebre para ela, duplamente morta por ter morrido tão jovem.

“Abatidos! Amavam por sua riqueza e a odiavam por seu orgulho,
“E quando ficou com a saúde consumida, a abençoaram — por ela ter morrido!
“Como, então, o ritual deve ser lido? — Réquiem deve ser cantado por vos 
— Com olhares invejosos — por vos, com línguas caluniadoras — 
Que mataram a inocência que pereceu, e feneceu tão jovem?”

Peccavimus; mas não se embraveça assim! E deixe canção de sábado subir a Deus 
tão solenemente que os mortos não sintam iniquidade!
A doce Lenore “partiu antes”, com a Esperança, que voou ao seu lado,
Deixando desconsolado pela prezada criança que careceria ter sido sua noiva —
Por ela, a bela e graciosa, que agora jaz tão humildemente,
A vida em seus cabelos louros, mas não em seus olhos —
A vida ainda está lá, em seus cabelos — a morte em seus olhos.

“Avançai! Esta noite meu peito está leve. Não entoarei nenhum canto fúnebre,
“Mas escoltarei o anjo em seu voo com um hino dos velhos tempos!
“Que nenhum sino toque! — para doce alma, em meio à sua alegria sagrada, 
Não capte a nota, enquanto ela flutua — vinda da Terra maldita.
“Para os amigos lá em cima, demônios lá embaixo, o avantesma embraveado é dividido —
“Do Inferno para um alto estado lá no alto, dentro do Céu —
“Da dor e do gemido, para um trono de ouro, ao lado do Rei do Céu.”

SONNET — TO ZANTE (1845)


Ilha justa, que das mais belas de todas as flores,
Tua mais gentil de os gentis nomes tomas!
Quantas memórias de horas radiantes
Ao ver-te e aos teus de uma vez despertam!
Quantas cenas de felicidade perdida!
Quantos pensamentos de esperanças pregadas!
Quantas visões de uma donzela que não é mais.    
Não mais sobre teus verdes declives!
Nunca mais! Ai, esse som mágico e triste,
Demudando tudo! Teus encantos não agradarão mais —
Tua memória não existirá mais! Terra anátema,
Doravante sopeso tua costa esmaltada de flores,
Ó ilha jacintina! Ó Zante púrpura!
“Isola d’oro! Fior di Levante!”

 EDGAR ALLAN POE - TRAD. ERIC PONTY

Para Eleita Desconhecida - John Keats - Trad. Eric Ponty

 Estrela brilhante! Quem me dera ser tão firme como tu

Estrela brilhante! Quem me dera ser tão firme como tu —
Não em esplendor ermo suspenso no alto da noite,
E observando, com pálpebras para sempre acendidas,
Qual um eremita paciente e insone da Natureza,
As águas em oscilação na tua tarefa sacerdotal
De ablução pura em torno das margens humanas da Terra,
Ou contemplando a nova máscara docemente caída
De neve sobre as montanhas e os pântanos —
Não — mas ainda assim firme, ainda assim imutável,
Apoiado no peito maduro do meu belo amor,
Para sentir para sempre tua suave queda e sinuosidade,
Acordado para sempre em uma doce brasa,
Ainda, ainda para ouvir tua respiração terna,
E assim viver eterno — ou então desmaiar até a morte.

FANCY

Deixe a Fantasia vagar,
O prazer nunca está em casa:
Ao toque, o doce prazer se derrete,
Como bolhas quando a chuva cai;
Então deixe a Fantasia alada vagar
Através do pensamento que ainda se espalha além dela:
Abra bem a porta da gaiola da mente,
Ela vai disparar e voar em direção às nuvens.
Ó doce Fantasia! Solte-a;
As alegrias do verão são estragadas pelo uso,
E o prazer da primavera
Desvanece-se como o seu florescimento;
Os frutos vermelhos do outono também,
Corando por meio da névoa e do orvalho,
Entram no paladar: O que fazer então?
Sente-se junto à lareira, quando
A lenha seca arde intensamente,
Espírito de uma noite de inverno;
Quando a terra silenciosa está abafada,
E a neve endurecida é removida
Das pesadas botas do lavrador;
Quando a noite se encontra com o meio-dia
Numa conspiração sombria
Para banir o crepúsculo do seu céu.
Sente-se ali e envie para longe,
Com uma mente receada,
A fantasia, altamente comissionada: envie-a!
Ela tem vassalos para atendê-la:
Ela trará, apesar da geada,
Belezas que a terra perdeu; 
Ela te trará, todas juntas,
Todas as delícias do clima de verão;
Todos os botões e sinos de maio,
Da relva orvalhada ou dos ramos espinhosos
Toda a riqueza acumulada do outono,
Com uma discrição silenciosa e misteriosa:
Ela misturará esses prazeres
Como três vinhos adequados em uma taça,
E você o beberá: você ouvirá,
Canções distantes da colheita claras;
Farfalhar do milho colhido;
Aves doces cantando o hino da manhã:
E, no mesmo momento — escute!
É a cotovia do início de abril,
Ou os corvos, com seu grasnar ocupado,
Buscando por gravetos e palha.
Você verá, num só olhar,
A margarida e o cravo-de-defesa,
Lírios brancos e a primeira prímula 
Que brotou na cerca viva; 
Jacintos sombreados, sempre
Rainha safira de meados de maio;
E cada folha, e cada flor
Brilhando com a mesma chuva.
Verás o rato do campo espreitar, 
magro, de seu sono celular;
E a cobra, toda magra pelo inverno,
Lançar sua pele na margem ensolarada;
Verás ovos salpicados no ninho,
Você verá ovos salpicados no ninho
Chocando na árvore de espinheiro,
Quando a asa da galinha repousa
Com calma em seu ninho coberto de musgo;
Então a pressa e o alarme
Quando a colmeia lança seu enxame;
Bolotas maduras caindo,
Enquanto as brisas do outono cantam.

Oh, doce Fantasia! Liberte-a;
Tudo se estraga com o uso:
Onde está a bochecha que não desbota,
Por ser olhada demais? Onde está a donzela
Cujos lábios maduros são sempre novos?
Onde está o olho, por mais azul que seja,
Que não se cansa? Onde está o rosto
Que se encontra em todos os lugares?
Onde está a voz, por mais suave que seja,
Que se ouve com tanta frequência?
Ao toque, o doce prazer se derrete
Como bolhas quando a chuva cai.
Deixe, então, que a fantasia alada encontre
Uma amante para sua mente: 
De olhos doces como a filha de Ceres,
Antes que o deus do tormento lhe ensinasse
Como franzir a testa e repreender;
Com uma cintura e um lado brancos 
Quais os de Hebe, quando sua faixa deslizou 
de seu fecho dourado e sua saia caiu aos seus pés, 
enquanto ela segurava a taça doce e Júpiter ficava lânguido. 
Quebre a malha da coleira de seda da fantasia; 
Rapidamente rompa sua corda prisional
E tais alegrias como estas ela trará. --
Deixe a Fantasia alada vagar
O prazer nunca está em casa.

John Keats - Trad. Eric Ponty

PARA ELEITA DESCONHECIDA - SONETOS - FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

Vocês que ouvem em versos dispersos o som
daqueles suspiros com que eu nutria o peito
no meu primeiro erro juvenil,
quando era em parte outro homem do que sou,
do estilo variado em que choro e raciocino
entre as vãs esperanças e a vã dor,
onde há quem, por exame, abranja o amor,
espero deparar compaixão, não perdão.
Mas vejo bem agora como para todo o povo
fui por muito tempo uma fábula, por isso muitas vezes
tenho vergonha de mim mesmo;
e do meu delírio a vergonha é o fruto,
e o pesar, e o saber claramente
que tudo o que afaga ao mundo é um breve sonho.

Para fazer sua graciosa vingança e punir mil ofensas,
Amor secretamente retomou o arco,
como um homem que espera o lugar 
E o momento certos para causar dano.
Minha virtude estava restrita ao peito
para fazer ali e nos olhos dela suas defesas
quando o golpe mortal desceu lá embaixo,
onde soia brotar cada flecha;
porém, perturbada na primeira abordada,
não teve tanto vigor nem espaço
para poder pegar as armas, se necessário,
ou mesmo no cume alto e fatigante,
retirar-me prudentemente do tormento
do qual hoje gostaria, e não posso, livrar-me.

Era o dia em que o sol se desvanecia
pelo dó de teu criador, com os raios
quando fui fisgado, e não me resguardei,
pois belos olhos, Senhora, me prenderam.    
Não me pareceu tempo para me proteger
contra os golpes do Amor; por isso fui
seguro, sem suspeitas, de onde meus problemas
começaram nesta dor comum.
O Amor me achou inteiramente indefeso,
e abriu a passagem dos olhos para o coração,
que são porta e passagem para as fúcsias.
Por isso, no meu conceito, não foi honroso
atingir-me com uma flecha naquele estado,
sem mostrar o arco armado para defender de ti.

FRANCESCO PETRARCA - TRAD. ERIC PONTY

terça-feira, janeiro 06, 2026

AGRADEÇO AS 100002 DE VISITAS

 CONCLUSÃO


Quando, após o fim do glúten, também a cor
da terra se altera, cobrindo-se de poeira.
E cada um leva para uma região separada
sua melancolia e confessa: eu sofro...

E o chamado interior para também se torna mais suave.
Sempre sinto que devo me inclinar para você.
Meu dia é seu em primeiro lugar. Eu sou seu.
E ao nosso redor estão as árvores da primavera.



segunda-feira, janeiro 05, 2026

A POESIA EM ANO DA ALMA & OUTROS POEMAS - STEFAN GEORGE - TRAD. ERIC PONTY

 

 CANÇÃO

Hoje estou trêmulo, como se lesse em você
Em nossa felicidade ainda muito de espírito estranho...
Como se valesse para ti espuma e sopro fugaz
O que me incha a respiração. Circula nas veias.

O que se exala para ti, não pode absorver?
Liberte-me do meu medo ruidoso!
Foi talvez o meu olhar - o dos seus olhos mortos?
Foi o meu sopro quando cantaste quebrado?

CONTRA-CANÇÃO


Aqui dá um som moribundo e suave
De uma história submersa aqui:
Um murmúrio surdo sufocado pelo mato
Gemando tarde de uma fenda escura.

Talvez aqui o zumbido do vaga-lume
E uma flor viva e delicada
Te atraiam, tu que se perdeste na passagem
Gostaria de ficar um pouco, cansado e noturno.

Talvez uma melodia sombria
E essa oscilação convulsiva
Te comove e não te deixa passar
Restos desta alma afundada.

STEFAN GEORGE - TRAD. ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, janeiro 04, 2026

A GUERRA - STEFAN GEORGE - TRAD. ERIC PONTY

Como os animais da floresta até agora,
Se chocavam ou se rasgavam visitando os dentes
Em caso de ardor repentino e quando a terra treme
Se buscam e se aglomeram uns aos outros:
Assim, em sua pátria desconexa, os rivais se uniram
Ao grito DA GUERRA... um sopro
De empatia ignota soprou
De casta em casta e um agouro confuso
Do que agora começa... Por um instante
Tomado pelo arrepio cósmico.

Eles chegaram ao colono na montanha:
Ainda estás deitado imóvel diante da admirável desgraça?
Ele disse: este frio foi o mais nobre!
O que os abala é-me familiar há muito tempo.
Há muito tempo que suei sangue de medo
Quando brincavam com o fogo... As minhas fúcsias
Já chorei antemão... Hoje já não encontro mais.
A maior parte já aconteceu e ninguém viu...
O pior ainda está por vir e ninguém vê.
Vocês se deixam oprimir pela força externa...
Esses são os sinais de fogo, não a notícia.
Não participo da disputa tais quais a sentem.

Nunca o vidente é grato... ele encontra chasco
E pedras, ele clama por desgraça - raiva e pedras
Quando tudo ruiu. Pecados amontoados
De todos, chamados de coerção e beleza, ocultos
Renúncia do ser humano à larva, clamando por penitência...
O que é para ELE o assassínio de centenas de milhares
antes do assassinato da própria vida? Ele não pode delirar
sobre a virtude doméstica e a malícia estrangeira.
Aqui está a mulher que lamenta o cidadão saciado
A barba cinzenta é mais responsável do que a facada e o tiro
Do contendor em nossos filhos e netos
Olhos vidrados e corpos destroçados.

Sua função é louvar, orar e expiar.
Ele ama e serve em sua passagem. Os mais jovens
Ele envia com bênçãos.
Eles sabem o que os move e o que os mantém.
Eles não buscam nenhum nome - não, eles buscam a si mesmos.
Ele é tomado por um profundo horror. As forças
Ele não chama de fábula. Quem compreende seu apelo:
Brandeis o bastão sobre nuvens de mortos
Querem nos preservar de conclusões precipitadas
E da pior das vergonhas sangrentas! Tribos
Que confiam são exterminadas indiscriminadamente
Se não for para o bem maior.

Não é certo comemorar: não haverá triunfo.
Apenas muitas quedas sem dignidade.
A mão do criador escapa, agindo por conta própria.
Forma informe de chumbo e lata, hastes e tubos.
Ele mesmo ri com sarcasmo quando falsos discursos heroicos
Soam como antes, como mingau e grumos.
O irmão afundou, aquele que viu na terra vergonhosa,
Revolvida, habitada como insetos...
O velho deus das batalhas não existe mais.
Mundos doentes febrilmente terminam
Na turbulência. Sagrados são apenas os sucos
Ainda sem manchas, espalhados - um rio inteiro.

Onde se mostra o homem que representa? A palavra
A única válida para o julgamento posterior?
Reis zombeteiros com coroas de palco.
Chefes, mercadores, cronistas - assobio e cota.
Também em ordem autenticada, limites: vertigem
Então, ameaça de desordem... ali surgiu, bem
Em sua bengala, incolor, da casa suburbana
Da mais pálida de nossas cidades, um olvidado
Velho sem adornos... que deparou o ditame da ocasião
E salvou o que os barulhentos dóceis
Afinal induziram à beira do abismo: o império...
Mas ele não pode salvar do inimigo pior.

Não tem visão para tal medida de sacrifícios
E força da universalidade? Eles também estão do outro lado.
Aflição imperioso do dever jaze sem brilho e sem graça
E o sacrifício não acresce em tempos abstrusos...
A caravana vale a pena, mas sem objetivo não cria nenhum símbolo
Não tem memória - O que o sábio se pergunta?
Mergulhados na conversa fiada da humanidade
E agora começa o massacre mais horrível.
Após a lisonja mais baixa: saliva
Os insultos mais ásperos! ... E o que agora se agita
Se aconchega quando se monta
Terrível diante dele, o rosto do futuro.

E o que cresce qual espírito! Tal afetuosa planta
Tem sua origem distante... Como fruto podre
Sabe o discurso da ressurreição da boda
Em tom murcho. Quem ontem era velho não volta
Agora para casa como novo e quem diz a veracidade
E se engana no final está na mais forte ilusão.
Fala loucura: agora estudamos para o achegado.
Ah, isso vai ser díspar antes! Para isso, prepare-se.
Apenas a mais apronta conversão: olhe e sinta intimamente.
Ninguém que hoje clama e pensa que lidera.
Percebe como tateia na desgraça, ninguém.
Vê um brilho pálido do alvorecer.


É muito menos admirável que tantos morram
Do que tantos ousem viver. Quem seguiu
O século, hoje só pode ver fantasmas.
Isso ajuda crianças e tolos: você quis assim
Todos e ninguém - esse é o veredicto conciso.
Isso engana malandros e tolos: desta vez, certamente
O reino da paz. Passado o prazo: terão de voltar a

Em ambos os campos, nenhum pensamento - intuição
O que está em jogo... Aqui: apreensão apenas em criticar
Onde outro já critica... tornar-se completo
O que se crítica no outro e negar a si mesmo
Um povo está morto quando seus deuses estão mortos
Lá: contumácia na antiga primazia
De esplendor e mitos enquanto a proveito se esgota
Quer respirar aconchegado ... no colo dos mais intensos
Percepção, nenhum lampejo fraco de que os rejeitados
Destruam o que estava maduro para cair, que talvez
Um ódio e repulsa pela raça humana traga a salvação mais uma vez.

Mas não apronta com a opróbrio da canção. Muitos ouvidos
Já abrangeram meu prêmio sobre a matéria e a raiz
Sobre o núcleo e a semente... já vejo muitas mãos
Desdobradas em minha direção, digo: ó terra
Bonita demais para que um adventício a devaste:
Onde a flauta ressoa do salgueiro, dos bosques
Onde o sonho ainda tece inolvidável pelos herdeiros ébrios... 
Onde a mãe florida revelou pela primeira vez
À espécie branca selvagem e decadente
Sua apropriada face... Terra que ainda possui muitas juras
E que, por isso, não fenecerá!

Frescor invoca os deuses... Ressuscitados
Como eternos após o fim do dia... Condutor
Na nuvem tempestuosa, ele dá ao céu sereno
O cetro e adia o longo inverno.
Aquele que estava suspenso na árvore da salvação jogou fora
A palidez das almas pálidas ao estilhaçado
Em um frenesi ardente... Apolo se inclina no peito
Para Baldur: A noite ainda dura um pouco
Mas desta vez a luz não vem do Leste.
A batalha já foi eficaz nas estrelas: Vence
Quem guarda efígie protetora em suas marcas
E senhor do futuro quem pode se demudar.

STEFAN GEORGE - TRAD. ERIC PONTY

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

AS IRMÃS SÓFIA DE ALENÇON - ELISABETE DA ÁUSTRIA - STEFAN GEORGE -TRAD. ERIC PONTY

 Quem as viu: da certa realeza
Que ainda permitem identidade inferior, evitam
O brilho herdado e a honra e a graça, guardando:
Receberam o arrepio da majestade e o sopro
De dor e força incompreensíveis, que os inferiores
Rejeitaram longe de si... Assim, elas adentraram na nobreza
E orgulhosas e mais gloriosas do que outras
Coronas brilhantes adornavam seus cabelos ilustres.

A mais jovem após a boda atravancada, dor.
Onde ela tocou o infeliz radiante,
Ganhou a graça dos três lírios sagrados
E jazeu em silêncio. Toda amorosa e toda afável.
Seu fadário se cumpriu na festa do dó.
Já se ouvia um grito, já a fumaça ardia os olhos.
Ofereceram-lhe auxílio, mas ela disse: deixem primeiro
os convidados irem embora! E caiu, embrulhada em chamas.

A outra era tal que chorava fúcsias regre
Outrora com graça e viço. Depois com perdão
E melancolia. Ela, em meio ao júbilo do povo, muda
O enigma, impérvio ao sentido do dia, trazia
Afinidade abriga e brilho esmaecido
De mundos recém-amanhecidos:
Até que a angústia intolerável a levou para a terra,
Para o mar, para a adaga que a apunhalou.

Mas não era a fúria avarenta e assustadora
A cautela das estrelas benevolentes? Ambas sofriam
O medo cruel do lento declínio da velhice
E foram de súbito libertadas nos últimos anos
Ainda envoltas pela vida plena.
Seu encanto as seduzia... Ou era a beleza
Dentro deles que os impedia no peito
De romper com o destino amarelado?

 STEFAN GEORGE -TRAD. ERIC PONTY

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, janeiro 02, 2026

FRANKEN - Stefan George - Trad. Eric Ponty

 Foi o pior cruzamento da minha viagem:
Lá, do abismo, chamas venenosas lambiam.
Aqui, os distritos evitados do nojo, onde
Eu me enchia de tudo o que se elogiava e praticava.
Eles riam dos seus deuses e eu dos meus.
Onde está o seu poeta, povo pobre e ostentoso?
Nenhum está aqui: este vive exilado
E aquele já sente o frio soprando em sua cabeça confusa.

Então, do Oeste, ouviu-se um chamado... assim soou
O elogio do ancestral à sua para sempre jovem
Terra dadivosa, cuja fama o fazia brilhar
E a indigência também o fazia chorar longe da mãe
Estranha, ignorada e perseguida...
Um murmúrio saudou o herdeiro qual um convite
À amabilidade e à fartura das planícies
Do Maas e do Marne, que se estendiam sob a luz da primavera.

E na alegre e graciosa cidade dos jardins
Charme melancólico. Nas torres iluminadas pela noite
Abóbadas encantadas me envolviam na juventude
No turbilhão de todas as coisas que me eram caras -
Lá, heróis e cantores protegiam o segredo:
VILLIERS Alto o suficiente para um trono.
VERLAINE Na queda e no pesar, devoto e infantil
E sangrando por sua imagem mental: MALLARMÉ.

Que os sonhos e a distância nos fortaleçam como alento -
O ar que respiramos só o vivo traz.
Por isso agradeço aos amigos que ainda cantam lá
E aos pais que conduzi ao jazigo...
Quantas vezes ainda, tarde, já ganhei terreno,
Lutando em minha terra sombria e com a vitória
Ainda incerta, sussurrando novas forças:
RETURNENT FRANC EN FRANCE DULCE TERRE.

 Stefan George - Trad. Eric Ponty

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

Canção Ghotica - Gérard de Nerval - Trad. Eric Ponty

 Bela esposa,
Aprecio suas lágrimas!
É o orvalho
Que embeleza as flores.
As coisas belas
Têm apenas uma primavera,
Semeemos rosas
Nos passos do Tempo!
Seja morena ou loira,
É necessário escolher?
O Deus do mundo
É o Prazer.
Os montenegrinos.


Música de Limnander.

Gérard de Nerval - Trad. Eric Ponty 

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Caminhada na neve - Stefan George - Trad. Eric Ponty

 As pedras que estavam na minha rua
Desapareceram todas no leito macio
Que se estende ao longe até o céu ·
Os flocos ainda tecem no lençol pálido
E empurram meus cílios com um sopro
Então tremem quando as lamúrias brotam.
Olho para as estrelas sem rumo ·
Elas me deixam sozinho com a noite terrível.
Gostaria de caminhar lenta pelo plano alvo
Estar inconscientemente aninhado.
Mas quando os redemoinhos me levam ao abismo
Seus ventos mortais me sopram suavemente:
Procuro mais uma vez por um portão e um teto.
Como é fácil que, por trás daquelas cadeias montanhosas
Uma jovem esperança dorme asilada!
Ao primeiro sopro suave, ela acorda.
Parece-me que um olhar brilhante na escuridão.
Tão trêmula, me escolheu para escoltar
Que eu abençoei a difícil andada ·
Tão tocante foram seus passos e sua voz.
Me elogiou a magnificência da terra silenciosa
Em suas folhas prateadas e raios frescos
Livres da alegria barulhenta e das queixas,
Nós a chamávamos de solitária, casta e pálida
E confessávamos seus poderes ásperos
Que nos ares puros os sons ecoavam
Que os céus se enchiam de figuras
Tão magníficas qual nenhuma noite de maio.
Com alegre ansiedade, no final
Da noite de lua, muitas vezes abríamos a mesma passagem
Como se, ébrios de sangue úmido,
Entrássemos na antiga floresta da lenda.
Me levou aos vales encantados
De luz nua e aromas pálidos
E me mostrou de longe onde brota
O amor sombrio que cresce no gelo do tormento.
Não posso me ajoelhar diante de você em reconhecimento
Você é do espírito do corredor de onde descemos:
Se meu consolo quiser se aninhar em sua melancolia,
Ela se contorcerá para afastá-lo.
Se persistir na decisão torturante
De nunca confessar sua dor
E apenas se entregar a ele e a mim
No rio gelado e fortemente dormido?
Eu me abordei de você com uma bênção
Na noite em que as velas ardiam por você
E lhe entreguei em um pano de veludo
O maior dos meus presentes: o diamante.
Mas não sabe nada sobre o ritual do sacrifício ·
Sobre castiçais intensos com braços erguidos ·
Sobre taças que com fumarada pura qual as nuvens
Aquecem a penumbra severa do templo
De anjos que se reúnem nos nichos
E se refletem no lustre de cristal ·
De súplicas fervorosas e ansiosas balbuciadas
De meio suspiros sussurrados na escuridão
E nada dos desejos que brotam abaixo
Do altar festivo choram audivelmente...
Você segura, questionador, frio e indeciso,
A joia de lágrimas de glúten brilhando.
Eu te ensino o suave encanto do quarto,
A sensação e os sussurros do canto familiar,
Do fogo e do silêncio da lâmpada cintilando.
Você tem o mesmo espanto cansado.
Da sua palidez não vejo nenhuma centelha ·
Eu me retiro para o quarto ao lado
E penso em silêncio, ajoelhado:
Será que algum dia vai acordar? Acorde!
Tantas vezes eu me viro hesitante para a cortina:
Ainda está sentado como no início, pensativo ·
Seus olhos ainda estão fixos no vazio ·
Sua sombra cruza os mesmos ramos do tapete.
O que ainda impede que a inexperiente
Desta desconfiança venha e, me escape:
Ó, conceda isso — grande mãe e entristecida!
Que o consolo renasça nesta alma.
Ainda me obriga a vigiar-te fielmente
E a beleza desta tolerância que me faz continuar
A minha busca sagrada entristece-me
Para que eu partilhe mais realmente a sua tristeza.
Nunca uma chamada calorosa me receberá ·
Até às últimas horas da nossa união
Tenho de reconhecer com resignada ansiedade
O destino amargo da descoberta invernal.
A flor que cultivo na janela,
protegida da geada em um caco cinza,
apenas me entristece, apesar dos meus cuidados,
e inclina a cabeça qual se estivesse fenecendo sem pressa.
Para apagar da minha mente a lembrança
Escolho armas afiadas e eu quebro
A flor pálida com o coração doente.
Para que ela me serve, senão para amargura?
Eu gostaria que ela se ofuscar da janela
Agora eu levanto antes meus olhos vazios
E na noite vazia, as mãos vazias.
Seu feitiço quebrou ali, voos azuis sopraram
De verde sepulcral e de salvação segura ·
Agora deixe-me ficar um pouco, pois logo partirei
Rezar diante de ti qual diante da grande dor.
Deves se conformar com uma célere despedida
Pois na lagoa a casca rígida se rompeu ·
Parece-me que amanhã encontrarei botões ·
Não posso levá-lo comigo para a primavera.
Onde os raios se desgastam veloz
Sudário das margens nuas ·
A água se acumula em sulcos
Nos pântanos, derretendo e brilhando
E se unindo ao rio:
Empilho para as lembranças
Alegrias frágeis que se quebraram
E para você a fogueira.
Afastando-me do incêndio
Pego os remos do barco -
Do outro lado da praia, um irmão
Acena agitando a bandeira alegre.
O vento úmido sopra em rajadas impetuosas
Sobre os pedaços de terra arada ·
Com as almas murchas
Caminhos devem florescer igualmente.

Stefan George - Trad. Eric Ponty

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, dezembro 28, 2025

BUCÓLICAS DE VIRGÍLIO - Texto latino estabelecido, traduzido literal com ensaios - Eric Ponty

 

Não obstante terem sido traduzidas para muitas línguas (entre as quais o português), as Bucólicas de Virgílio são, na realidade, os mais intraduzíveis de todos os textos poéticos. A beleza sortílega do verso vergiliano (que, em latim, é música ao nível de Bach) evapora-se por completo noutra língua. O melhor a que uma tradução pode aspirar é a ser uma pálida imagem, mais deslavada do que uma fotografia a preto-e-branco da Primavera de Botticelli. Perguntar-se-á: então, para quê mais uma tentativa de traduzir para português estes sublimes poemas? O estudo de Virgílio - e o aprofundamento das questões interpretativas suscitadas pela genialidade inesgotável do seu texto - é um caminho apaixonante que, felizmente, nunca terá fim.

 https://www.webtran.pt/latin/

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Após a colheita - ·Stefan George - TRAD. ERIC PONTY

 Venha ao parque declarado morto e veja:
O brilho distante das margens sorridentes ·
O azul inesperado das nuvens puras
Ilumina os lagos e os caminhos coloridos.
Lá, aprecie o amarelo profundo · o cinza suave
Das bétulas e dos buxos · o vento é ameno ·
As rosas tardias ainda não murcharam total ·
Selecione-as, beije-as e trança a coroa ·
Não se olvide também destas últimas ásteres ·
A púrpura em torno dos ramos das videiras selvagens ·
E o que restou da vida verde
Ofuscar-se docemente na face outonal.
Os seus chamados de anos jovens que ordenavam
Que a buscassem entre esses galhos:
Tenho que dobrar a face em sinal de negação diante de vós,
Pois minha amada dorme na terra dos raios.
Mas se me enviá-los antes, aqueles que, no calor
As uvas maduras fermentam nas cubas ·
Mas quero tudo o que de nobre brotou
E de belas sementes do verão me restou
Derramar com as mãos cheias diante dela.
Sim, saúde e graças a ti, que trouxeste a bênção!
Tu adormeceste o bater sempre alto
Com a expectativa da tua - querida - suavidade
Nestas semanas de morte cheias de brilho.
Tu vieste e nós nos abraçamos ·
Vou aprender palavras suaves para ti
E como se fosse a única distante, 
eu te elogio nas caminhadas ao sol.
Nós pisamos para alto e para baixo no rico brilho
Da alameda de faias quase até o portão
E vemos do lado de fora, no campo da grade,
A amendoeira pela segunda vez em flor.
Procuramos os bancos sem sombra
Onde vozes estranhas nunca nos assustam.
Em sonhos, nossos braços se entrelaçam ·
Nos deleitamos com o longo brilho suave
Sentimos gratidão como um suave estrondo
De traços de raios nas copas das árvores caindo sobre nós
E apenas olhamos e ouvimos quando, nas pausas,
Os frutos maduros batem no chão.
Circulamos o lago tranquilo
Para onde os cursos de água desaguam!
Você busca me abranger com serenidade –
Um vento suave nos envolve como a primavera.
As folhas que amarelam o chão
Espalham um novo perfume agradável.
Repete minhas palavras em sílabas inteligentes
O que me alegra no livro colorido.
Mas também conhece a alegria profunda
E aprecia as lágrimas silenciosas?
Com o olhar fixo na ponte,
Seguindo com olhar movimento dos cisnes.
Estamos na cerca viva,
Em filas, as crianças vêm com a freira.
Elas cantam canções sobre a alegria celestial
Nesta terra segura e clara.
Nós, que nos aquecíamos ao sol do entardecer,
Ficamos assustados com suas palavras e você acha
Que éramos felizes apenas enquanto não podíamos
Ver além dessas sebes.
Você quer tirar água da fonte da parede
E brincar nos jatos frescos ·
Mas me parece que afasta com timidez
As mãos das duas cabeças de leão.
O anel com a joia cega
Eu tentei tirá-lo do seu dedo ·
Seu olho úmido beijou minha alma
Em resposta ao meu apelo sincero.
Não demore em aproveitar os presentes
Da pompa que se despede antes da mudança ·
As nuvens cinzentas se acumulam velozmente ·
A neblina pode nos surpreender em breve.
Um fraco assobio de galhos arrancados
Anuncia a que o último bom conselho
A terra (antes congele na tempestade que se aborda)
Ainda está coberta com damasco brilhante.
As vespas com escamas verde-douradas
Voaram para longe dos cálices unidos
Navegamos com o barco em um amplo arco
Ao redor de grupos de ilhas com folhagem bronzeada.
Hoje não iremos ao jardim ·
Pois, como às vezes ligeiramente e estranhamente
Este leve perfume ou sopro suave
Com alegria há muito olvidada:
Assim nos traz aquele fantasma admoestador
E sofrimento que nos deixa ansiosos e cansados.
Veja sob a árvore lá fora, diante da janela
Os muitos cadáveres após a batalha do vento!
Do portão cujos lírios de ferro enferrujam
As aves voam para o gramado coberto
E outros bebem, tremendo de frio, nos postes
Da chuva dos vasos de flores ocos.
Eu escrevi: não mais será ocultado
O que eu não consigo mais banir dos meus pensamentos ·
O que eu não digo · não sente: nos falta
Ainda um longo caminho até a felicidade.
Em uma flor alta, com o caule murcho
Você a desdobra · eu fico longe e pressinto.
Foi a folha alva que caiu de você
A cor mais viva no plano pálido.
No quadrado aberto com as pedras amarelas
Em cujo centro se agitam as fontes
Ainda quer manter uma conversa fugaz e tardia
Já que hoje as estrelas brilham como nunca.
Mas afaste-se do recipiente de basalto!
Ele acena para enterrar os galhos mortos ·
À luz da lua cheia, o vento sopra mais frio
Do que lá embaixo, sob a sombra daqueles pinheiros...
Deixo minha grande tristeza
Te enganar para poupar você ·
Sinto que o tempo mal nos separou
Então não habitará mais meu sonho.
Mas quando o parque dormiu sob a neve,
Creio que ainda brota um consolo silente
De alguns belos restos - buquê e carta -
No profundo e frio calmos invernal.

Stefan George - TRAD. ERIC PONTY

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

quinta-feira, dezembro 25, 2025

SEVERIANO (XXX) DE REZENDE - ENSAIO & TRADUÇÃO - ERIC PONTY

Há muitas razões pelos quais estes ensaios apresentam problemas especiais. Dois aspectos do texto são sobretudo dignos de nota. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que, em SEVERIANO (XXX) DE REZENDE, Ponty introduziu muitos neologismos. 

Normalmente, os neologismos têm fortes ligações com frases ou palavras comuns e, portanto, exibem uma curiosa mistura de estranheza e intimidade. Em segundo lugar, Ponty emprega amiúde vocabulário bastante comum de maneiras incomuns.

Uma das intenções de Ponty em SEVERIANO (XXX) DE REZENDE é reapropriar essa palavra e dar-lhe um novo significado sem repudiar inteiramente o seu sentido cotidiano. Mais uma vez, um leitor pode deparar uma espécie de alquimia de intimidade e estranheza no uso de tais palavras. 

A presente publicação procura levar em consideração essas percepções. Esta opção foi iniciada há algum tempo e sofreu alterações. Mas espera-se que esta opção corrija algumas das desditas e erros da opção anterior sobre algumas das expressões e ainda enigmáticas deste contexto. No entanto, no final, a opção terá de se justificar na leitura.

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Sonetos - Tristan Corbière - Trad. Eric Ponty

 A ETERNA SENHORA

Annequin ideal, bode expiatório da ilusão, 
Eterna Feminina!... passa os teus lenços;
E vem para o meu colo, quando eu marcar a hora,
Mostra-me como se faz na tua casa, anjos caídos.

Sê pior, e faz para nós a alegria da infelicidade,
Bate com o pé leve nos caminhos difíceis.
Condene-se, puro ídolo! E ria! E cante! E chore,
Amante! E morra de amor!... nas nossas ocasiões perdidas.

Filha de mármore! No cio! Seja folgazã!... e distraída.
Amante, carne da minha carne! torna-te virgem e lasciva...
Feroz, santa e bestial, procurando-me um coração...

Sê fêmea do homem e serve de musa e mulher,
Quando o poeta bramar em Alma, em Lâmina, em Chama!
Então, quando ele roncar, vem beijar o teu Vencedor!


SONETO SIR BOB

Cão de mulher fácil, Braco inglês puro-sangue.
    
Belo cachorro, quando te vejo acariciando tua dona,
Eu rosno sem querer - por quê? - Tu não sabes...
- Ah! É que eu, veja bem, nunca acaricio ninguém,
Não tenho dona e... não sou bonito.

-Bob! Bob! -Oh! Que nome brioso para gritar de alegria!...
Se eu me chamasse Bob... Ela diz Bob tão bem!...
Mas eu não sou puro-sangue-sangue. Por falta de jeito,
Fizeram de mim também um Braque... mexido com cristão.

-Ó Bob! Nós vamos mudar, na metempsicose:
Pegue meu soneto, eu sua campainha rosa;
Tu és minha pele, eu seu pelo - com pulgas ou não...

E eu serei Sir Bob - Seu único amor fiel!
Eu morderia os cachorrinhos, ela me morderia, ela!...
E eu teria um colar com o nome dela.

PUDENTIANE

TOQUE, sem tocar. Somos devotos, 
A Nine retém em seu saber.
Mas desmaiamos de horror por sermos: 
Luxuriosos de corpo e consentimento!...

E de carne... dessa obra Somos muito curiosos.
Exceto na sexta-feira - apenas:
O confessor é magro... E êxtase piedoso
Na verdade: Em toda quaresma inteira....

 Outra se entrega. - Aqui nós condenamos
Pia de água benta onde a serpente está abrigada!
Que o Amor, em outro lugar, como um galo canta...

AQUI JAZ! A pudorosa tentativa o assombra...
É a Maçã (cozida) em flor de pêssego.

Tristan Corbière - Trad. Eric Ponty

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, dezembro 21, 2025

Mysterios-xxx-dum-Clerigo - (Ensaios) Eric Ponty

 

 

Como é que esta compreensão reveladora do Simbolismo é possível para o Mysterios? Esta questão pode ser respondida voltando à constituição primordial do Simbolismo desse Mysterios pelo qual o Simbolismo é compreendido? A constituição existencial-ontológica da totalidade do Mysterios está fundamentada na temporalidade. 

Por isso, a projeção extática do Simbolismo deve Simbolismo possibilitada por alguma forma primordial em que a temporalidade extática temporaliza. Como é que este modo de temporalizar a temporalidade deve Simbolismo interpretado?

Existe uma forma que conduz do tempo primordial ao significado do Simbolismo? O próprio tempo manifesta-se como o horizonte do Simbolismo?

ERIC PONTY

  

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

terça-feira, dezembro 16, 2025

TRÊS VOZES SIMBOLISTAS PARAENSES UM MINEIRO - ERIC PONTY

 

A inseparabilidade do não-momento, sempre palpável e que se tornou particularmente evidente na última secção, tanto no conceito de possibilitação de Heidegger como na palavra fundamental de José Severiano de Rezende, a transformação, direciona o olhar para uma possível questão dialética.

O ponto de partida para a formulação do conceito de transformação foi a «conversão» de «experiências» com o meio artístico que se «descobriu»; ele só pouco a pouco desenvolveu o seu alcance. A consciência da seriedade fundamental do não para todas as relações da existência humana levou à dedução da mutação a partir das profundezas da existência:

Ignota landa astral da Bem-aventurança,
Há na terra vã ódio e desesperança.

Não vejo a lua luz, não ouço os teus cantares,
Mas há vinho e canções dentro dos lupanares.

demônio da Carne escrutou-me os relolhos
E envenenou-me o sangue a chispa dos seus olhos.

Landa astral, landa astral dos divinais Profetas
Rezam dentro de mim ladainhas abjectas.

O, minha alma! que horrenda esta história sem fim
Ai! de tais vozes dentro de mim.
Mas eu nunca hei de crer que as bocas dos Profetas
Rezam para eu chorar, estas rezas abjectas. 


Assim como o ser da existência está relacionado com o ser em geral, a existência se estende além do nada da opinião até o ser. Ao ser dominado pelas possibilidades destrutivas do sofrimento não transformado, José Severiano de Rezende chegou a uma conclusão fundamental. 

A transformação das experiências pessoais negativas para alcançar «um estado mais saudável no centro do próprio ser» «precisa» exatamente da mesma função do não, como deve fazer a transformação do que se recusa e se nega na arte. Tornar isso uma «ação do coração» era a expressão de José Severiano de Rezende para isso; da forma como José Severiano de Rezende lida com essa «ação», há nela uma forma específica de dialética. 

Vamos chamá-la de dialética existencial e usar essa palavra aqui. O termo se oferece e foi cunhado para uma penetração intelectual do que José Severiano de Rezende realmente realiza em sua própria existência, na compreensão e na ação, mas naturalmente não designa assim.

Ele deve servir-nos para esclarecer o alcance da rejeição fundamental de Heidegger a qualquer dialética. A diferença entre os dois caminhos do poeta e do pensador deve ser indicada neste ponto, ao qual dirigiu o incremento do conceito de transformação de José Severiano de Rezende.

 A compreensão de José Severiano de Rezende da função dialética do não tem, em estreita espiritual e, num sentido mais amplo, artístico, a sua fiúza nas grandes probabilidades da transformação. Já com isso surge um momento que vai além da possibilidade meramente funcional de Heidegger. É verdade que vimos que, também para o pensador, um ponto de partida para a possibilidade está na experiência da nulidade (preocupação, retorno; ser a razão de uma nulidade = ser lançado; ser culpado). Ela desemboca na virada decidida para o ser propriamente dito e para as tarefas determinadas a partir daí. Para José Severiano de Rezende, porém, estas últimas só se preenchem com conteúdo concretos no que diz respeito à dimensão da cura. 

Desde o início, José Severiano de Rezende pressupõe, portanto, uma certa finalidade que se desenvolve dialeticamente. Heidegger, porém, silencia completamente sobre os conteúdos existenciais críveis na probabilidade possibilitada. Isso é corretamente lógico do seu ponto de vista existencial-ontológico.

O uso do não é «necessário» dialeticamente para uma transição para a área existencial mais restrita, e contra a aparência de uma dialética no próprio pensamento de Heidegger, que se sugere repetidamente, está a rejeição expressa de Heidegger. O grau máximo de positividade que ele reivindica para o seu Não é a possibilidade de algo. É claro que ela é grande o suficiente para construir um mundo inteiro; no entanto, permanece na indeterminação completa e sem transição da possibilidade. 

Do caráter puramente estrutural da existencialidade decorre inevitavelmente que qualquer aspecto de valorização deveria ser evitado. Embora a sua linguagem (cotidianidade, homem, inautenticidade, autenticidade, decadência) tenha ocasionalmente dado origem a mal-entendidos nesse sentido, eles foram rejeitados por ele. E, no entanto, não só foi admitido, como também expressamente afirmado o pressuposto de um ideal de existência. (É claro que a palavra «ideal» aqui utilizada deve ser entendida sem qualquer conotação de exemplaridade.) Uma dialética barata do «homem-mesmo» que conduz ao eu real através da popular «transformação» não tem, evidentemente, lugar em Heidegger. Parece, porém, que Heidegger também possibilidades tensas para a existência que se concretiza dialeticamente. E, no entanto, ele próprio fornece abordagens formais e estruturais para isso. 

A rejeição de Heidegger deve ser respeitada enquanto o esforço para compreender Heidegger se compreender a si mesmo. No entanto, indo além dessa constatação, é preciso considerar se não seria possível alcançar possibilidades de aproximação entre a questão existencial e a ontológica, entre a verdade óntica e a ontológica. Isso não deve acontecer por meio de um esbatimento da distinção seriamente elaborada por Heidegger entre óntico e ontológico, entre existencial e existencial. No entanto, deveria ser possível encontrar uma articulação na qual, de certa forma, ambas as abordagens se encaixassem. Essa articulação seria a consciência, que sempre é culpada. Mas será que ela é utilizável por Heidegger no sentido aqui referido?

No âmbito mais restrito de uma filosofia da existência, isso poderia trazer alguns benefícios. Além disso, o não-ser da existência conduz ao nada no fundo do ser, criando uma ponte que leva à relação «presumida» entre o ser da existência e o ser em geral:

Rezam dentro de mim ladainhas abjetas.

 A tentativa de conduzir, por meio do não da negação, ao nada antes do ser não deveria constituir um dos casos-teste para a conjuntura hermenêutica fundamental da existência, «que, como análise da existência, fixou o fim do fio condutor de todas as questões filosóficas naquilo de onde elas brotam e para onde elas se reviram» É a abertura, impulsionada pelo excelente estado básico da angústia, que, na relação mais estreita com o nada do nada, possibilita a determinação para o ser-para-o-fim. O projeto existencial de uma verdadeira capacidade de ser para a morte surge do nada do fundamento lançado. Nesta expressão paradigmática da mais completa falta de liberdade, a existência entende-se como sempre culpada. Como é que isso pode tornar-se liberdade? Como pode a «liberdade para a morte» ser compreendida, se não a partir de um ser espontâneo da existência para a transformação, que se repele do nada da razão lançada?

Mas eu nunca hei de crer que as bocas dos Profetas

A existência liberta-se ao atravessar um negativo oposto para possibilitar as probabilidades positivas que só descobre ao assumir a situação em que se encontra. Se a «lógica da consequência» é rejeitada — e como poderia ela ajudar aqui? — e se também o pensamento circular (frequentemente sugerido por Heidegger noutras partes da sua obra) é ineficaz para resolver a dificuldade, resta apenas uma execução especificamente dialética. 

A dificuldade fundamental para isso e a razão para o limite agora alcançado de uma paralelização entre «tornar possível» e «transformar» reside, no entanto, no fato de que, para Heidegger, «o fenômeno primário da temporalidade original e propriamente dita é o futuro».

Do ponto de vista de Heidegger, isso se justifica na medida em que no «antecipar-se», no «anteceder», no «projeto» e, finalmente, na «preocupação = sentido do ser do ser = temporalidade»; existe um certo elemento «antecipado» que a abrangência comum do ser pode explanar de forma fácil como direção para o futuro:

demônio da Carne escrutou-me os relolhos
E envenenou-me o sangue a chispa dos seus olhos.

Neste ponto da reflexão, porém, surge a questão decisiva: este «antes» na preocupação = temporalidade refere-se realmente apenas ao futuro? Este elemento «antes» não reside, de modo geral e basal, no caráter de projeto de qualquer horizonte temporal? 

Não vejo a lua luz, não ouço os teus cantares,
Mas há vinho e canções dentro dos lupanares.

Pelo simples fato de a existência nunca existir de outra forma senão extática — isto é, sempre «preocupada» —, ou seja, «temporal», «temporalizante», ela deve ser distinta como «ante». 

Ignota landa astral da Bem-aventurança,
Há na terra vã ódio e desesperança.

É conciso dizer claramente: em cada êxtase como horizonte do tempo está presente esse elemento «pré». A «co-origem» do tempo, repetidamente enfatizada por Heidegger, exige que se compreenda essa conclusão para cada um dos três êxtases. É esse elemento fundamentalmente preexistente da temporalidade que, por si só, permite que falar de uma origem comum dos três êxtases, ou mesmo do «êxtase» em geral. Apesar das diferentes aparições nos três êxtases distintas, isso conservar-se válido.

ERIC PONTY
 
 

sábado, dezembro 13, 2025

ZEUS - Albert GIRAUD - TRAD. ERIC PONTY

Sob a coroa de um bando de águias imóveis,
Com grandes olhos fechados para um sonho eterno,
Zeus contém em seu seio todos os deuses inúteis 
E sozinho preenche o abismo deslumbrante do céu.

Desde sempre ele dorme seu sono solitário, 
do qual nada no futuro o despertará: 
Ele rola em sua noite os sóis e a terra,
sonhando com tudo o que foi e tudo o que será.

Nosso orgulho enlouquecido durante uma breve hora
Crê agir e se esgota em gestos decepcionantes: 
A ação tão alardeada, ó vertigem! É um sonho
Inspirado por seu sonho em sonhos vivos.

O desejo de criar que corrói nossa alma
É apenas um jogo de seu sonho sem fim,
criou a obra de beleza que sonhamos,
O sonho impassível desse sonhador divino.

Albert GIRAUD - TRAD. ERIC PONTY

   

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA