Lenore
Ah, falida está a taça de ouro! O espírito voou para sempre!
Que o sino toque! — Uma alma santa flutua no rio Estige;
E, Guy De Vere, não tens fúcsias? — Chora agora ou nunca mais!
Vê! Naquele caixão sombrio e rígido jaz tua amada, Lenore!
Vem! Que o rito fúnebre seja lido — Que a canção fúnebre seja cantada! —
Um hino para a mais real das mortas que jamais morreu tão jovem —
Um canto fúnebre para ela, duplamente morta por ter morrido tão jovem.
“Abatidos! Amavam por sua riqueza e a odiavam por seu orgulho,
“E quando ficou com a saúde consumida, a abençoaram — por ela ter morrido!
“Como, então, o ritual deve ser lido? — Réquiem deve ser cantado por vos
— Com olhares invejosos — por vos, com línguas caluniadoras —
Que mataram a inocência que pereceu, e feneceu tão jovem?”
Peccavimus; mas não se embraveça assim! E deixe canção de sábado subir a Deus
tão solenemente que os mortos não sintam iniquidade!
A doce Lenore “partiu antes”, com a Esperança, que voou ao seu lado,
Deixando desconsolado pela prezada criança que careceria ter sido sua noiva —
Por ela, a bela e graciosa, que agora jaz tão humildemente,
A vida em seus cabelos louros, mas não em seus olhos —
A vida ainda está lá, em seus cabelos — a morte em seus olhos.
“Avançai! Esta noite meu peito está leve. Não entoarei nenhum canto fúnebre,
“Mas escoltarei o anjo em seu voo com um hino dos velhos tempos!
“Que nenhum sino toque! — para doce alma, em meio à sua alegria sagrada,
Não capte a nota, enquanto ela flutua — vinda da Terra maldita.
“Para os amigos lá em cima, demônios lá embaixo, o avantesma embraveado é dividido —
“Do Inferno para um alto estado lá no alto, dentro do Céu —
“Da dor e do gemido, para um trono de ouro, ao lado do Rei do Céu.”
SONNET — TO ZANTE (1845)
Ilha justa, que das mais belas de todas as flores,
Tua mais gentil de os gentis nomes tomas!
Quantas memórias de horas radiantes
Ao ver-te e aos teus de uma vez despertam!
Quantas cenas de felicidade perdida!
Quantos pensamentos de esperanças pregadas!
Quantas visões de uma donzela que não é mais.
Não mais sobre teus verdes declives!
Nunca mais! Ai, esse som mágico e triste,
Demudando tudo! Teus encantos não agradarão mais —
Tua memória não existirá mais! Terra anátema,
Doravante sopeso tua costa esmaltada de flores,
Ó ilha jacintina! Ó Zante púrpura!
“Isola d’oro! Fior di Levante!”
EDGAR ALLAN POE - TRAD. ERIC PONTY
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