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sábado, junho 24, 2023

PARA UMA BALCONISTA - PAUL VERLAINE TRAD.ERIC PONTY

As duas viram as andorinhas a levantar voo;
Uma de cabelo corvo e pele como leite,
Uma toda loura e rosada, a sua com seda,
As camisas de noite ondulam livremente.

Enquanto os asfódelos definhavam,
E a lua macia e redonda subia a colina,
Ambas sorveram triste alegria de não ter culpa,
De corações e da quietude desta noite.

Braços húmidos a cingir as cinturas,
Casal estranho tem pena dos mais castos,
E assim, na varanda, que as jovens sonhavam.

Atrás delas, na sala escura e opulenta,
Condizer trono de imperatriz em termos de pompa,
A cama perfumada aguardava na penumbra.
PAUL VERLAINE TRAD.ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

segunda-feira, junho 19, 2023

MÚSICA CÂMARA - JAMES JOYCE -TRAD. ERIC PONTY

I

Cordas na terra e no ar
Arranjar música meiga;
Cordas junto ao rio onde
Os salgueiros se deparam.

Há música ao longo do rio
Para o amor vagueia lá,
Flores pálidas em seu manto,
Folhas abrumadas em seu velo.

Tudo tocando calmamente,
Com a cabeça a música debruçada,
E os dedos se arredando
Sobre um instrumento.

I

Strings in the earth and air 
Make music sweet; 
Strings by the river where 
The willows meet. 

There's music along the river 
For Love wanders there, 
Pale flowers on his mantle, 
Dark leaves on his hair. 

All softly playing, 
With head to the music bent, 
And fingers straying 
Upon an instrument. 

II

O crepúsculo reja de ametista
Para o azul intenso e mais profundo,
A lâmpada se enche de um fulgor verde pálido
As árvores da alameda.

O velho piano toca um ar,
Tranquilo e lento e alegre;
Ela se curva sobre as chaves amarelas,
Sua cabeça inclina-se deste costume.

Pensamento tímido e olhos e mãos ajuizados
Que vagueiam como eles a sua vista - -
O crepúsculo se demuda em azul mais escuro
Com luzes de ametista.

II

The twilight turns from amethyst 
To deep and deeper blue, 
The lamp fills with a pale green glow 
The trees of the avenue. 


The old piano plays an air, 
Sedate and slow and gay; 
She bends upon the yellow keys, 
Her head inclines this way. 

Shy thought and grave wide eyes and hands 
That wander as they list -- - 
The twilight turns to darker blue 
With lights of amethyst. 

III

Naquela hora em que os eventos estão em descanso,
O observante solitário dos céus,
Tu ouves o vento da noite e os suspiros
De harpas tocando até Amor possa revelar-se
Nos portões pálidos do nascer do sol?

Quando todas as coisas sossegam, estás só
Acorde para ouvir a doce harpa tocar
Para amar antes dele em seu caminho,
E o vento noturno contrapondo em antífona
Até a noite é de avergo?

Toquem, harpas invisíveis, até o Amor,
De quem forma no céu está perspicaz
Naquela hora em que luzes apaixonadas vêm e vão,
Calmamente a música doce no ar acima
E na terra embaixo.



III

At that hour when all things have repose, 
O lonely watcher of the skies, 
Do you hear the night wind and the sighs 
Of harps playing unto Love to unclose 
The pale gates of sunrise? 

When all things repose, do you alone 
Awake to hear the sweet harps play 
To Love before him on his way, 
And the night wind answering in antiphon 
Till night is overgone? 

Play on, invisible harps, unto Love, 
Whose way in heaven is aglow 
At that hour when soft lights come and go, 
Soft sweet music in the air above 
And in the earth below. 
JAMES JOYCE -TRAD.ERIC PONTY
ERIC PONTY-ESCRITOR POETATRADUTOR LIBRETISTA 

sábado, junho 17, 2023

A DOENÇA DA MORTE - MAGARITTE DURAS

 Em um hotel, em uma rua, em um trem, em um bar, em um livro, em um filme, em si mesmo, seu eu mais insosso, quando seu sexo ficou ereto à noite, procurando um lugar para se colocar, em algum lugar para derramar sua carga de lágrimas.

Pode tê-la pago.
Posso ter dito: Quero que venha aos entardeceres por alguns dias.
Ela a teria dado uma longa olhadela e dito que nesse evento seria oneroso.
E então ela diz: O que você anseia?

Diz que quer tentar, tentar saber, se acostumar com àquele corpo, àqueles bustos, esse odor. Ao encanto, à ousadia de ter filhos tácitos naquele corpo, naquele corpo sem penugens, aquela face, aquela cútis nua, a carteira entre essa cútis e a existência que domada.

Diz que quer tentar, por várias oportunidades, quem sabe.
Talvez por vários semanários.
Talvez até por toda sua existência.
Tentar o quê? Ela questão.
Amor, responde.
Pergunta: Sim, mas por quê?

MAGARITTE DURAS-TRAD ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, junho 15, 2023

Para o leitor - charles baudelaire -trad. eric ponty

A Loucura, do erro, pecado, a avareza

Ocupam nossas mentes e afligem nosso ser,

Nós devoramos nosso aprazível remorso

Quão mendigos se nutrem teu verme clareza.


Nossas culpas são aferradas, pesar é covarde;

Mandamos um alto preço às nossas confissões,

E regressamos alegres ao caminho do lodo,

Crer choros lavam todos nossos laivos arde.


Sobre a almofada do mal, Satã, trismegistro,

Incessante acalma nossas mentes seduzidas,

E o metal nobre nutre das nossas vontades 

É total vaporado por este sábio alquimista.


O Diabo segurando as cordas que nos movem!

Em coisas abjetas, desvendamos encantos;

Todos dias descemos um passo Inferno prantos,

Sem horror, através da depressão que fedem.


Quão rodo sem bronze com beijos e mordidas

Torturas ao peito de uma velha prostituta,

Nós roubamos quão calhamos prazer secreto

Apertamos muito dura quão laranja seca.


Junto, abundando, quão um milhão destas larvas,

Legião de Demos farrear nosso cérebro travas,

Quando respiramos, Morte, aquele rio invisível,

Desce nossos pulmões prantos envoltos crível.


Se estupro, o veneno, as adagas, do incêndio

Ainda não bordado cartuns amenos compêndio.

A tela banal de nossas vidas lamentáveis,

É porque almas não têm ousadia aceitáveis.


Mas entre os chacais, panteras, as cadelas,

Macacos, escorpiões, urubus, ofídios, delas

Gritos, uivam, rosnando, rastejam quais monstros,

Na bagunça imunda de nossos vícios adentro,


Há mais feio, mais perverso, que é mais sujo!

Ainda não faças bons gestos nem grão gritos,

Ele faria livre desta terra um caos cujo

Em um bocejo, engula ser do mundo ritos;


Ele é tédio! - Seu olho lacrimejar quais prantos,

Sonhar com andaimes fumar sua guita d’água.

Tu o conheces leitor, purgado monstro mantos.


- Leitor hipócrita, - meu comparte, - meu irmão!

Baudeire trad. eric ponty
ERIC PONTY-POETA_TRADUTOR_LIBRETISTA

segunda-feira, junho 12, 2023

O BUQUÊ DOS TEUS PÉS - (2000) - ERIC PONTY




I

Teu nome floresce como uma flor,
tão vermelha e de densas pétalas
cujo formato mexe com a cabeça,
Debaixo que se esconde na relva.

Tua língua floresce nos desejos,
brilhando nela os sucos da noite
dos beijos ardidos de língua, esta
serpente que me explora e devora.

Teus seios são dois mamilos alvos
dois campanários de uma igreja
onde rezamos rezas de outro tipo.

Tuas coxas torneadas, sempre ocultas,
continuidade de tuas ancas, onde tece
lascivos segredos entre os pentelhos.


II

Não se toque dentro da noite em gritos,
nestes sussurros vindos de tua relva
neste espetáculo de solidão e desvario
onde os olhos ausentes não pedem bis.

Não se faz exibição tão pungente e crua
entre as sombras ofegantes do abajur,
onde as imagens sobem e descem nuas
como ondas de um mar embravecido.

Não se toque dentro da noite em gritos,
neste pequeno órgão alongado, etéril,
este curto diabinho carnal e ondulado.

E sigo solitário pelas ruas apinhadas,
admirando outros corpos sensuais,
deveriam aprender a urrar com você.

III

- Senhora é verdade que dizem,
que teus gemidos fluem em ecos
quando esta tua branca mão
toca a campainha da casa?

Sim, a campainha, este sinal,
de que todas coisas serenas,
podem torna-se molhadas.

- Como ousas interrogar-me,
eu de olhos tão castanhos,
que se esconde os desejos,
cuja relva nem Eva terá tido.

- Senhora, pois é desdém,
se eu me toco é um sinal
de que ainda há ardor....

  IV

Esta branca carne dói
quando toca fundo a libido
despida, acorda até morto
da cabeceira mais crespa.

Esta branca carne de tetas
de rodelas rubras e bicos,
cuja maça fica sem gosto
devido há tantas virtudes.

Estas brancas nádegas
curvas como as dunas
onde as bundas volteiam.

Este branco dorso nu
que dá sentido a forma 
onde sucumbe o grito.
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, junho 11, 2023

TRÊS POEMAS DE AMIGO SEM RÉGUA OU COMPASSO - (2000)- ERIC PONTY

 


Falta-me tempo de perspectivar teus cabelos.
um por um devo olhar as filigranas e recitá-los:
Em cada fio há uma história narrada por amores,
e os amantes se calam tristes ante este silêncio.

O teu cabelo flui negro sobre a tarde entediada
eu peço ao tempo que ruja e que se vá até tua fronte
E compreenda a importância da posteridade, pois
minha razão perspectiva este rufar que os tange.

E quando diante do espelho solitária, adentrá-los,
não se esqueça que o mundo grita, e o pássaro sussurra,
e que a mansidão se faz ternamente em teus pelos.

E este tempo solitário por ruas e avenidas taciturnas
que os homens não se compreendem apenas gritam,
há a vertente conduz por entre às luzes dos cabelos. 

II

Teu rosto túrgido aflorado no outono finito,
são como flores noturnas iluminadas pela lua
quando se esvai, por entre a fronteira da dor,
recitando este tempo presente, sem adjetivações.

Tua presença tateia a delicadeza do presente
adormecida se embruteceu pela dor noturna
é como um amanhecer prematuro das manhãs 
que se silencia ante a visão de tua presença.

Teu rosto é a recordação deste espaço traça!!!

III

O sensual cabelo que delineias o teu branco corpo,
é uma infindável fonte nascente de branca estátua 
onde jorra o sonho, e a perspectiva do existido
onde foi fundida a margem deste princípio
de claras águas densas que englobam a atmosfera
de tua mais completa representação cotidiana. 

Não é de densa matéria este infinito espaço finito,
que margeia a superfície crisálida do teu lago,
refletido nos versos cotidianos sem o teu nome,
que lhe agita ainda tanto na presença e achado.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

Canção Sobre O Ranger Da Tarde (2000) - ERIC PONTY

Não sei mais onde estamos, em que fim de amor, em que recomeço de outro amor, em que história nos extraviamos.

Margarite Duras


Teus olhos são como chamas
têm duas estrelas fulgurantes: 
Neles passam um arco 
que dissecado pelo tanger 
das sete cores da paisagem 
principia o arco-íris e a noite 
enciumada fere o crepúsculo 
com a timidez do escuro. 
Uma olha a dimensão dos dias
a outra olha o infinito... 
Piscam as duas estrelas 
incendiarias de teus olhos,
onde está tucanos e risos violeta,
(Dentro de tua consciência
um universo de probabilidade tangível) 
Olhos com duas estrelas 
que brincam de fitar o infinito. 
(Por que ninguém percebe 
este rumor latente e gemido? 
Por que ninguém percebe 
este luzir sobre o cotidiano?) 
Teus olhos têm duas chamas 
São fulgurantes de estrelas e olhos.

II 
 
Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
que se vai pela tarde azul
que exausta se esvai; e olha
perspectiva deste abismo
que se funde nos nossos dias.

Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
por este céu de nuvens alvas
que brincam de te admirar
e fazem repentinamente água
só para coroá-la com um arco
na Íris das sete cores cálidas. 
 
Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
sobre você canta este lenheiro
e o tempo faz uma pausa
para que este não te atinja.

III  

No silêncio quando me liga 
(espaço preenchido pela voz) 
há tantos enigmas ali 
que tangem por este espaço 
que descem e sobem no ido. 
  
(Por que ninguém percebe 
este rumor latente e gemido? 
Por que ninguém percebe 
este luzir sobre o cotidiano?) 
  
No silêncio quando me liga 
(espaço preenchido pela voz) 
há um silêncio  
há um cotidiano  
há angustia profunda   
que tange uma procura 
na voz que indaga: Alô!!!  

IV 

Teu movimento 
é circular como a lua 
simples como o rio 
efígie de um cisne 
suplica que perpetra 
por entre estas margens 
nítidas do cotidiano. 
Teu movimento 
é uma teoria do acaso 
do tanger da lua e do sol 
pelos raios na face escura 
da terra que sôfrega 
adormece. 
Teu movimento 
tange a clareza 
da lua 
por entre as rosas 
que se dissecam 
nas varandas 
deste rio.

 
Na solidão e no desespero 
vivo a chama da morte 
pois em vão admiro a paisagem 
que se desfaz num quadro 
mofino e amorfo. 
 
Na ilusão é variada como a tarde 
que delineia o perfil sobre o acaso 

e penso, que as flores murcham 
porque se esconde de mim nula. 
 
Se na ilusão é imortal como Inês 
mesmo morta sagrou-se rainha 
os ponteiros se movem túrgidos 
e estes fúnebres nem me conhecem 
e não param ante minha passagem. 
 
Na solidão e no desespero 
vivo a chama da morte 
que funda como a pedra parada 
que desconhece a nuvem e nem 
a ignora quando se esvai 
por entre estes detalhes da tarde.

VI
 
Doce senhora de tez tímida 
que não leu versos de Dante 
ou não desceu a profundidade 
da dor sobre o negro soturno. 
 
Terá você ouvido falar talvez 
De Gaspara Stampa ou de Paulo 
E Francesca de Remini; seres 
condenados ao subsolo do caos? 
 
Doce senhora de tez tímida 
cuja perplexidade se traduz 
por não conhecer o meu eu 
e eu muito menos o seu. 
 
Doce senhora de tez tímida 
que tem uma fala terrena 
traduz-se nas rubras faces 
de dissimular aquilo que voa.

VII

No jardim da praça há um verde 
que encobre a paisagem da pedra 
que pouco a pouco leva a natureza 
por entre os subterfúgios da tarde. 
 
Como uma estátua de mármore 
nua por entre os olhares findos 
sai de um cheiro que embriaga 
o aroma que se vai cotidiano. 
 
Mulher o teu torso é uma ágata 
especiaria preciosa que se guarda 
por entre as filigranas dos olhos. 

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

Pequenos Esboços Para Árcade de Alcipe - ERIC PONTY


Amor, que teço com teu fio? que traço
Com teu raio, um risco, uma rosácea?
Poemas de Amor – Visitações de Alcipe –Ivo Barroso
I

Perdoe senhora por este indelicado
tempo que ruge em meio a barbárie
por estas palavras ríspidas soadas
por detrás dos raios solares da tarde.

Nobre árcade de Alcipe, flor exilada,
que exala ainda mais seu perfume,
nos onze anos no londrino convívio 
por ser rude os homens da terra.

Que bela e refinada tez imortal,
faces alvas que lembram a lua
quando atingidas pelos raios do sol,
e de cujas palavras ainda ressoam,
por este tempo sem gloria e aura.

Perdoe senhora, pelos rudes versos,
de metáforas de tonalidades toscas.

II
 
Passaram-se os anos e a arrogância, não;
Passaram-se os déspotas, e a intolerância, não;
Passaram-se os Deuses, e o fanatismo, não;
E o teu grito ainda soa vivo por estas Campinas,
por estas verdes paradas daí ou daqui, por
estes outros portugais que se entregam a mingua,
por não terem sido agraciados com Teu olhar.   

O tempo é a nossa matéria e imortalidade,
bárbaros predadores naturais, que se disfarçam,
com tantos personagens, quando numa peça,
cujo fim é sempre burlesco e sem vida.

III

Deponho-me aqui ante tua memória
Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre,
cujos versos ainda repercutem como um eco
de Tuas delicadas mãos tingidas pela aurora.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

ll POEMA - ERIC PONTY



E se bastassem os apelos, desses poetas tristes.
Será que da noite para o dia estaríamos livres?
                                                  Emille Rocha
Abri meu poema como quem abre a página
carcomida de um jornal por demais folheado
e agora por acaso me lembrei do velho Franz,
homem digno e sapateiro judeu em Viena
que não conheci, talvez pudesse eu tê-lo,
abraçado como um jovem admirador;
mas lhe levaram de trem a sua revelia.

Eu argumentei mais cedo com o velho Jacó
que o deixasse ir de trem para aquela parada,
este me disse que Franz nunca tinha viajado,
era por demais apegado as coisas da província
e que eu parasse com minhas argumentações.

Abri meu poema como quem abre a página
carcomida de um jornal por demais folheado
e agora por acaso me lembrei do velho Franz,
eu lhe disse para que este largasse o anjo,
este respondeu que não faria até abençoasse.

Para o final deste século deveríamos estar
Sentados olhando o crepúsculo ao longe,
soturnos, sem palavras evasivas, sem lágrimas
como na morte de um ente que se vai...
ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, junho 08, 2023

A ELEITA MUSA DESCONHECIDA DE MINAS - ERIC PONTY

 

I

E VENDO AMADA DESPOJADA
DE SEUS ANTIGOS PESSOAIS A PÁTINA,
SEM UM LAR OU LATIFÚNDIO – ATENÇÃO FARTA
MAS CÁ JÁ MÍNGUA, LOUVORES ESCÁPULA:

 VENDO-A MONARCA AO CORAÇÃO E ARCAICA,
SEM AMOR NESSA ALCOVA VÊNUS ALABASTRO,
QUE ESTEJA JÁ DOS SAIS DE SUAS SAIAS,
QUE ENTRE MÁGOAS UNICÓRNIOS FALAVAM.

E A SOBERANA AMOR POSTA EM DESGRAÇA,
DE ANÚNCIOS E PRESSÁGIOS EM FAMAS,
LÍVIDA AO LUME ESGUIO DAS FALÁCIAS.

DE JOELHOS SE PÔS ORLA CAIS D´ÁGUAS,
E AS VIRGENS LHE RASGARAM A EFÍGIE: TÁLAMO
ONDE PÁRIAS FAZEM LEIS. E LEIS, VASSALOS.

II

A AMADA QUE VÊS ORA TÃO ABSTRATA,
JÁ FOI INFANTA E TEVE GRAÇA IGUAL TANTAS,
ZELOSA DE SUAS FALAS EM TRANÇAS,
SEUS PÉS E VELOS VITRAIS DAS ANCAS.

E TUDO DEVO, FEITO TANTAS: GIZ ÂMBAR,
E DO ALMÍSCAR, ALECRIM, SE FEZ TÚMIDO,
DAS LEIS QUE A URGIRAM DE SALIVA E PAGENS,
NOS CAMPOS, RECINTOS, ADROS E PATÍBULOS.

TEVE BONECAS E MAPAS GRIFOS, LARES,
PROFESSORES, GÓRGONAS E HARPIAS, MUITAS,
BEM SE QUIS OU LHE APETECESSEM À INSÔNIA.

A GLÓRIA ORA VÊS, POSTA EM DECÚBITO,
ESTEJA PORTE E POSTURA, MAS LÁSTIMA,
A INFANTA DE SI MESMA SE FEZ CANTO.

III

URGIA QUE A ELEITA QUE FOSSE ALADA,
E EM SEU REGAÇO A FAMA CONSAGRASSE,
DE UM REINO TÃO SOBERBO QUÃO ALADO,
- O DESSA ELEITA ESPÚRIA, SEM LINGUAGEM.

MAS URGIA MAIS FALASSE URGIAM ASAS,
QUE NO PASSAR DAS HORAS ALÉM DO TEMPO,
JÁ SALVA DA PERFÍDIA E DO MARASMO,
DAQUELE AMOR AMBÍGUO A QUEM AMARÁ.
SE VIDA EM MORTE SE FEZ ATÉ NAS ÁGUAS,
DA LÍNGUA QUE LHE FOI CLAUSTRO E SUDÁRIO,
EM CUJA IMAGEM PERDI EM VOO E ESCULPI!

QUE SE ALADA ELEITA!  QUE SE ALADA,
A CENA DESTE DRAMA É DESTA IGREJA,
O EPÍLOGO ERA LÁSTIMA. ERA PÓSTUMO.
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

The Lady of Shalott (1842) - Tennyson – TRAD. ERIC PONTY

De um lado e do outro do rio,
Longos campos de cevada e centeio,
Que revestem o mundo e se acham no céu;
E o caminho passa pelo campo,
Para a Camelot de muitas torres;
E as pessoas sobem e descem,
A olhar para onde sopram os lírios,
Em redor de uma ilha lá em baixo,
A ilha de Shalott.

Os salgueiros embranquecem, os álamos tremem,
Pequenas brisas que anoitecem e estremecem,
Na onda que corre eternamente
Na ilha do rio,
Que desce para Camelot
Quatro paredes cinzentas e quatro torres,
Olhar para um espaço de flores,
E os imbecis da ilha silenciosa,
A Ilha Lady of Shalott.

Tennyson – TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

segunda-feira, junho 05, 2023

1787 - in Christ’s Hospital book - Coleridge - TRAD: ERIC PONTY


Que prazeres então encontrarás?
Que alegrias lhe alegrarão o coração?
Ou quem curará o seu espírito ferido,
Se torturado pela esperteza do azar?
Que a beleza himenial jamais provará,
Que mais do que apego, mexida com amor.

Depois, sem filho nem mulher terna,
Para afastar cada cuidado, cada suspiro,
Solitário, percorre os caminhos da vida,
Um estranho para o afeto:
E quando da Morte ele encontrou-se o seu fim,
Nenhuma mulher de luto com lamúrias de amor 
molhará o seu jazigo inerte.

Ainda a Fortuna, a Riqueza, as Honras, o Poder,
Tinha dado todos os outros brinquedos,
Essas ninharias douradas da hora,
Esses fatos pintados não são nada de especial:
Morreu olvidado, o nome nenhum filho levará,
Para mostrar que o homem tão abençoado, 
uma vez respirou o ar vital.

 Coleridge - TRAD: ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, junho 04, 2023

Mapa do Professor Mommsen - (Inspirado No Poema de Fernando Fiorese) - ERIC PONTY

VIAGEM À RODA DO PROFESSOR MOMMSEN

 Fernando Fábio Fiorese Furtado

Entre a personagem do poeta e a personagem do ficcionista, qual a diferença? Talvez a mesma que entre via e viagem, viajante e paisagem. Assim, em Fernando Pessoa, Ricardo Reis é via nos desdobramentos da identidade e da diferença, viajante no jogo de espelhos que é toda a cena da modernidade; enquanto na ficção de Saramago, singular e sem interlúdio, o heterônimo muda na viagem da história, na paisagem em que o labirinto encontra a sua matemática.

Por mim desentranhada do incipit de um ensaio do historiador das religiões, filósofo, romancista e poeta romeno Mircea Eliade, a personagem Professor Mommsen foi antes Theodore Mommsen, famoso historiador alemão que, no ínício da última década do século XIX, proferiu uma série de conferências acerca da Atenas do quinto século. A “surpreendente mostra de erudição, memória e sensibilidade literária de Mommsen” chegou até Eliade através do relato de um dos professores deste na Universidade de Bucareste. Portanto, já mudado em personagem.

E foi na mise-en-texte que surpreendi o Professor Mommsen como via e viagem, como um dos papéis avulsos de meu Pequeno livro de linhagens (19971998), para nele, senão resolver, ao menos revolver o embate entre as minhas digressões calculadas de professor e o devenir fou da escrita poética. Se “a maior autoridade viva sobre Atenas do quinto século”, capaz de  traçar o plano da cidade como era no tempo de Sócrates, “achava-se completamente perdida em sua própria cidade, a Berlim do Rei Guilherme III”, também eu reencenava igual perdição no trânsito entre as aulas teóricas sobre linguagem e as operações incalculadas da oficina poética.

E agora surpreendo outros muitos e singulares desdobramentos desta personagem na série de poemas Mapa do Professor Mommsen que Eric Ponty soube desentranhar não do ensaio de Eliade ou do breve poema “Axis mundi” em que ela figura, mas da sua destreza lírica, pois “Há mapas nascidos do acaso /feito à foz da fonte”. E o acaso, ou melhor, a escrita de Ponty multiplica as linhas do fortuito Theodore, estende as fronteiras deste mapa aleatório que é toda personagem lírica, acrescenta ao professor uma altura que apenas a existência poética nos pode conferir.

Juiz de Fora, primavera de 2002.

(EXTRATO POÉTICO)

MAPA DO PROFESSOR MOMMSEN

Hoje pensei em ilustrar-me na ciência,
do professor Mommsen;
se me poderia informar em seu mapa
do século V a. C. dar abrigo contra o inimigo.

Talvez o mapa do século V a. C.
poder-me-ia descortinarem vertentes,
por exemplo, local de Ulisses,
a face desconhecida daquele Homero,
tanto revelado na solitária Ilíada,
das sibilas das serpentes de Serafim. 

Contra o mundo não poderia haver muito,
tendo-se somente a voz talvez tecida
das circunstanciadas coisas do mundo. 

Mapa do Século V a. C

I

Há mapas nascidos do acaso,
a foz da fonte.
Mapas podem significar coisas
no tanger da lua na noite.

Mapas consomem o acaso,
quando a morte se apresenta;
sem antes nos avisar ao lado.

Mapas apontam direções
em Dakar o andarilho solitário.

II

Ó meu país, estou a ver os muros,
E os arcos, as colunas e as estátuas,
E torres tênias dos nossos antepassados,
Mas não vejo essa tua glória;
Não vejo o loureiro e a tua espada,
Que os nossos antepassados usavam.
A tua testa e o teu peito estão nus,
Sem defesa. Ah, de tantas feridas,
Contusões, sangue: senhora formosa,
É assim que tu és! Eu peço ao céu e à terra,
para me dizer: Quem lhe fez isto?
E, pior ainda, os teus braços,
estão presos por correntes;
E o cabelo solto, sem teu o véu,
senta-se no chão, só e sem esperança,
Do rosto entre os joelhos
e chora.
Chora, porque tens razões para chorar,
Nascida para superar os outros
Tanto na felicidade como na miséria.

IV

Embora a Paz esteja a reunir,
Nosso povo sob as suas alvas asas
As mentes não serão libertadas,
Da sua sonolência mui antiga,
Se está grande terra não regressa,
Ao exemplo dos nossos antepassados.

Por favor, volte para trás, minha terra,
Olhem pra trás, essa grandeza de imortais,
E choram a tua de vergonha;
Porque o luto sem vergonha não faz sentido:
E que a memória desses teus antepassados,
Que o nosso país livre desta desgraça!

Mapas, que estejas no teu coração,
Para honrar antigos; pois esta terra,
não tem homens assim hoje em dia,
E ninguém virá para honrar a razão.


POETAS-TRADUTORES MARCOS LUCHESI-ERIC PONTY

sábado, junho 03, 2023

O INFINITO - GIÁCOMO LEOPARDI - TRAD: ERIC PONTY

Sempre me foi caro este ermo colina,
E está sebe, que em tantos lados,
Do último horizonte o olhar exclui-se.
Mas sentar-se e apontar, o eterno,
Espaços pra além disso, e sublimes
De silêncio e a quietude profunda,
Pensamento eu finjo; onde por um pouco,
O coração não tem medo. E como o vento,
Odo a invadir estas plantas, eu que
Do silêncio infinito a desta voz
Cotejo: e vem-me à ideia do eterno,
E as estações mortas, e o presente,
E viverão, e o som dela. Então entre isto
Na imensidão afoga-me os pensamentos:
E a me naufragar neste mar é tão doce.
 GIÁCOMO LEOPARDI - TRAD: ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

terça-feira, maio 30, 2023

55739 ACESSOS

 

Quantas palavras há no livro! São para lembrar!
Como se as palavras pudessem ser lembretes!
Porque as palavras são pobres alpinistas e mineiros. Não recolhem tesouros nem das alturas das montanhas nem das profundezas das montanhas.
Mas há uma recordação viva que passa calmamente por tudo o que é memorável como que com uma mão persuasiva. E quando o fogo surge destas cinzas, incandescente e quente, maciço e forte, e tu olhas para ele como se sob um feitiço, então-
Mas nesta lembrança casta, não se pode inscrever com uma mão desajeitada, com um instrumento rombudo; só se pode fazê-lo nestas páginas despretensiosas.
Fi-lo em 4 de setembro de 1900.
Franz Kafka

O SOL, A LUA E O CORVO - CONTO DO FOLCLORE RUSS0 - ( VIA INGLESA) - TRAD. ERIC PONTY

Era uma vez um velho e uma velha que tinham três filhas. O marido foi ao celeiro buscar cereais; pegou nelas e levou-as para dentro de casa, mas havia um buraco no saco e os cereais escorriam por ele. A mulher perguntou-lhe: "Onde estão os cereais?" Para dizer a verdade, os cereais tinham caído todos. O velho foi buscá-los e disse: "Se o Sol me aquecesse, se a Lua me iluminasse se e se o Corvo me ajudasse a apanhar os cereais, eu casava a minha filha mais velha com o Sol, a minha segunda filha com a Lua e a minha filha mais nova com o Corvo. O velho começou a apanhar os cereais e o Sol aquecia-o, a Lua iluminava-o e o Corvo ajudou-o a apanhar os cereais. O velho voltou para casa e disse à sua filha mais velha: " Veste-te com o teu ninho e vai para o alpendre.". Ela vestiu-se, foi para o alpendre e o Sol levou-a; Ele também ordenou à sua segunda filha que se vestisse no seu ninho e fosse para o alpendre. Ela vestiu-se e saiu, e a Lua agarrou-a. Ele também disse à sua filha mais nova: "Veste o teu ninho e vai para o alpendre." Ela vestiu-se e foi para o alpendre; o Corvo agarrou-a e levou-a para fora.

O velhote disse: "Acho que agora vou fazer uma visita ao meu genro." Foi ter com o Sol. Quando ele chegou, o Sol disse: "O que é que eu te oferecer?" "Não quero nada", disse o velho. O Sol disse à sua mulher para fritar umas panquecas. A mulher fritou-as. O Sol sentou-se no meio da sala, a mulher pose-lhe a frigideira em cima. As panquecas estavam prontas. O velhote comeu-as. Quando chegou a casa pediu à mulher para fritar panquecas; sentou-se no chão e disse-lhe, enquanto pôs a frigideira com a massa das panquecas em cima dele. " Não vão fritar em ti", disse a mulher. "Não discutas", respondeu ele, "elas fritam". Ela pôs a frigideira em cima dele; mas, enquanto mantiveram a massa lá, não fritou, apenas azedou.

A mulher pôs a frigideira no fogão, as panquecas fritaram e o velho comeu tudo. No dia seguinte, foi visitar o seu segundo genro, o Lua. A Lua disse: "O que é que te posso oferecer?" "Não quero nada". respondeu o velho. A Lua o aqueceu um banho. O velho homem disse: "Vai estar escuro no balneário". A Lua respondeu: "Agora vai ficar claro. Vai lá. O velho foi para a casa de banhos e a Lua enfiou o seu dedo por um buraco na porta. Assim, o balneário ficou bem iluminado.

O velho cozinhou-se a vapor, voltou para casa e ordenou à mulher que aquecesse um banho à noite. A velha assim o fez; depois ele mandou-a cozinhar-se ali. Ela disse: "Está demasiado escuro para me cozer a vapor. "Vai, vai amanhecer", disse o velho. A velhota foi e o velhote, tendo visto como A Lua iluminou o seu banho, fez um buraco na porta do balneário, e enfiou o seu dedo por meio dele. Mas mesmo assim não havia luz no balneário. A velha mulher gritou-lhe: "Está escuro". Por fim, ela foi buscar uma lanterna e depois cozinhou-se a vapor.

Ao terceiro dia, o velho foi ter com o Corvo. "O que é o que queres?" perguntou o Corvo. "Não quero nada", disse o velho. "Nesse caso, vamos pelo menos dormir no sótão". O Corvo encosta uma escada à abertura do sótão e eles sobem. O Corvo pôs o seu hóspede debaixo da asa e quando os velhos foram dormir, ambos caíram e morreram.

TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, maio 28, 2023

SONETO - X - Gaspara Stampa – TRAD. Eric Ponty

 IN MEMORIAM D. RISOLETA NEVES

X

Monte alto, afável e gracioso,
Novo Parnassus meu, novo Elicona,
De onde repouso minha coroa,
Do meu trabalho um doce repouso:

Quão claro e famoso é entre nós,
E quanto está em Rodano e Garona,
Dizer rima o desejo sublime excitar,
Mas trabalho é tal, não ouso pôr-se.

De fato, quanto é que vez cantará sobre isso?
Será uma sombra pura da verdade,
Ajuste com meu estilo e com dos outros.

A tua folhagem, teu jugo verde e intato,
Preserva o céu, hotel dos amantes,
Tão gentil, já digno do imperador.
Gaspara Stampa – TRAD. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, maio 26, 2023

AUSÊNCIA DE MOEMA - ERIC PONTY


Se vejo no relógio que o tempo Moema,
Ele se soma ao dia em noite turba;
Se olhar que se acostam as violetas,
E há cães na cabeça que eram loiras;
Se das árvores copas que ofereciam
Tua sombra aos rebanhos não há folhagem,
E o trigo, em fardos, já ceifado, arrepiam
Dos carros com suas barbas outonais;
Então ponho em dúvida tua formosura,
Pois tu também serás pasto do tempo.
Quais belos e os gráceis renunciam
E morrem então crescem outros novos.
O tempo seca tudo: quando engendres,
Lhe farás plantado face ao que te leve.

ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, maio 25, 2023

PESTE NEGRA E A POESIA NO TEMPO DE SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY

A melhor maneira de impedir a propagação da infecção era evitar reuniões públicas reuniões públicas, como peças de teatro, encontros de ursos e jogos de bowling. Assim, quando Shakespeare estava a estabelecer-se como escritor de teatro, o seu meio de subsistência foi cortado. Em casa, o seu pai tinha sido recente colocado numa lista negra por não frequentar a igreja - não na categoria dos jesuítas, fugitivos, ou pessoas "veementemente suspeitas de o serem", mas entre aqueles que se mantinham afastados por receio de serem processados por dívidas (Henry Field, pai do aprendiz de impressor Richard, estava na mesma lista). Um processo contra John Shakespeare também estava a ser ouvido no Tribunal de Fundamentos Comuns.

Com a necessidade de ganhar dinheiro para a família mais premente do que nunca com os seus dotes de escritor já postos, Shakespeare reagiu ao isolamento dos teatros escrevendo versos não dramáticos na esperança de obter patrocínio.

Essa era uma estratégia comum na época, já que a publicação de um poema com uma dedicatória lisonjeira a um aristocrata rico poderia potencial render em três formas de rendimento - um pequeno pagamento em dinheiro do editor, um presente do patrono como agradecimento pela dedicatória e, se a pessoa tivesse muita sorte, alguma forma de secretariado ou outro emprego na casa de sua senhoria.

Shakespeare (e vários outros escritores, incluindo o mesmo Tom Nashe que parece ter tido uma mão em 1 Henrique VI) visavam Henry Wriothesley, o terceiro Conde de terceiro conde de Southampton, pupilo de Lord Burghley, o homem mais poderoso na Inglaterra. Southampton estava prestes a atingir a maioridade e - esperava-se - uma fortuna considerável. Nas semanas que se seguiram ao isolamento dos teatros, Shakespeare terminou a sua espirituosa e erótica Vénus e Adónis, uma imitação brilhante inventiva de Ovídio, e persuadiu o seu amigo de Stratford e convenceu o seu amigo de Stratford, Richard Field, a imprimi-lo, com uma dedicatória completa a Southampton em que Shakespeare prometeu que dedicaria as suas "horas ociosas" (das quais ele tinha muitas por causa da praga contínua) para à composição de "algum trabalho mais sério".

Este último veio a concretizar-se como o mais longo, mais elaborado retorica e mais sombrio, publicado um ano mais tarde, em Maio de 1594, com uma mais curta, mas com uma dedicatória mais íntima, sugerindo que Southampton tinha oferecido a Shakespeare algum tipo de recompensa. Pode ter sido na casa de Southampton, em Londres ou em Titchfield, em Hampshire, que Shakespeare conheceu o anglo-italiano John Florio, cujas obras que ele leria com proveito e que talvez tenha provocado nele um interesse pela cultura italiana. Como muitos dos seus contemporâneos, Shakespeare fascinada pela forma como a Itália era o lar da sofisticação cortesã e artística, mas também a fonte de intrigas políticas e sexuais. A primeira de Petrarca e no manual de Baldassare Castiglione sobre a arte de ser cortesão, o segundo pela máxima de Maquiavel de que "o poder está certo" e as inebriantes misturas literárias de Pietro Aretino da sátira e o erotismo.

Inteligente, sexy, intuitivamente sensível aos clássicos sem ser Vénus e Adónis, que se tornou um sucesso imediato entre os jovens leitores com os jovens leitores educados e conscientes da moda em Londres e nas duas universidades. Eles constituíam o principal mercado para a poesia artística, pelo que Field, e por isso Field foi devidamente recompensado: Vénus e Adónis tornou-se o poema longo mais vendido da época. Estabeleceu a reputação de Shakespeare como o mestre absoluto das palavras espirituosas. Isto deve ter parecido uma resposta satisfatória ao

Groatsworth. Além disso, a partir desta altura, as fortunas financeiras de a família Shakespeare melhoraram muito: não houve mais ações judiciais contra John Shakespeare e foi feita uma tentativa concertada para recuperar a propriedade de Mary Arden em Wilmcote. Em poucos anos, havia dois sinais claros de que os Shakespeare tinham recuperado a respeitabilidade em

Stratford-upon-Avon: em 1596, John Shakespeare, quase de certeza por meio de seu filho, estava a pedir um brasão de armas e, portanto, o estatuto de Maio do ano seguinte, William fez um excelente negócio ao comprar New Place, a segunda -a maior casa da cidade.

SONETO Xll
Quando conto o relógio que diz as horas,
ver dia audaz afundar na noite hedionda;
Porque vejo a violeta a passar do ponto,
Lesmas zibelinas cobertas de alvo;
Quando vejo árvores altas sem folhas,
Partir do calor, fez grei se abatesse,
E o verde do Verão cingido em feixes,
Carregado no caixão com barba alva:
Então, tua beleza faço questão,
Que entre as perdas de tempo deves ir,
Já que os doces e as belezas se cedem.
Morrem tão já quão vê em outros crescer,
E nada contra a foice da era abriga,
Cobrai raça afrontar vos levar quanto.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-TRADUTOR-LIBRETISTA