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domingo, junho 04, 2023

Mapa do Professor Mommsen - (Inspirado No Poema de Fernando Fiorese) - ERIC PONTY

VIAGEM À RODA DO PROFESSOR MOMMSEN

 Fernando Fábio Fiorese Furtado

Entre a personagem do poeta e a personagem do ficcionista, qual a diferença? Talvez a mesma que entre via e viagem, viajante e paisagem. Assim, em Fernando Pessoa, Ricardo Reis é via nos desdobramentos da identidade e da diferença, viajante no jogo de espelhos que é toda a cena da modernidade; enquanto na ficção de Saramago, singular e sem interlúdio, o heterônimo muda na viagem da história, na paisagem em que o labirinto encontra a sua matemática.

Por mim desentranhada do incipit de um ensaio do historiador das religiões, filósofo, romancista e poeta romeno Mircea Eliade, a personagem Professor Mommsen foi antes Theodore Mommsen, famoso historiador alemão que, no ínício da última década do século XIX, proferiu uma série de conferências acerca da Atenas do quinto século. A “surpreendente mostra de erudição, memória e sensibilidade literária de Mommsen” chegou até Eliade através do relato de um dos professores deste na Universidade de Bucareste. Portanto, já mudado em personagem.

E foi na mise-en-texte que surpreendi o Professor Mommsen como via e viagem, como um dos papéis avulsos de meu Pequeno livro de linhagens (19971998), para nele, senão resolver, ao menos revolver o embate entre as minhas digressões calculadas de professor e o devenir fou da escrita poética. Se “a maior autoridade viva sobre Atenas do quinto século”, capaz de  traçar o plano da cidade como era no tempo de Sócrates, “achava-se completamente perdida em sua própria cidade, a Berlim do Rei Guilherme III”, também eu reencenava igual perdição no trânsito entre as aulas teóricas sobre linguagem e as operações incalculadas da oficina poética.

E agora surpreendo outros muitos e singulares desdobramentos desta personagem na série de poemas Mapa do Professor Mommsen que Eric Ponty soube desentranhar não do ensaio de Eliade ou do breve poema “Axis mundi” em que ela figura, mas da sua destreza lírica, pois “Há mapas nascidos do acaso /feito à foz da fonte”. E o acaso, ou melhor, a escrita de Ponty multiplica as linhas do fortuito Theodore, estende as fronteiras deste mapa aleatório que é toda personagem lírica, acrescenta ao professor uma altura que apenas a existência poética nos pode conferir.

Juiz de Fora, primavera de 2002.

(EXTRATO POÉTICO)

MAPA DO PROFESSOR MOMMSEN

Hoje pensei em ilustrar-me na ciência,
do professor Mommsen;
se me poderia informar em seu mapa
do século V a. C. dar abrigo contra o inimigo.

Talvez o mapa do século V a. C.
poder-me-ia descortinarem vertentes,
por exemplo, local de Ulisses,
a face desconhecida daquele Homero,
tanto revelado na solitária Ilíada,
das sibilas das serpentes de Serafim. 

Contra o mundo não poderia haver muito,
tendo-se somente a voz talvez tecida
das circunstanciadas coisas do mundo. 

Mapa do Século V a. C

I

Há mapas nascidos do acaso,
a foz da fonte.
Mapas podem significar coisas
no tanger da lua na noite.

Mapas consomem o acaso,
quando a morte se apresenta;
sem antes nos avisar ao lado.

Mapas apontam direções
em Dakar o andarilho solitário.

II

Ó meu país, estou a ver os muros,
E os arcos, as colunas e as estátuas,
E torres tênias dos nossos antepassados,
Mas não vejo essa tua glória;
Não vejo o loureiro e a tua espada,
Que os nossos antepassados usavam.
A tua testa e o teu peito estão nus,
Sem defesa. Ah, de tantas feridas,
Contusões, sangue: senhora formosa,
É assim que tu és! Eu peço ao céu e à terra,
para me dizer: Quem lhe fez isto?
E, pior ainda, os teus braços,
estão presos por correntes;
E o cabelo solto, sem teu o véu,
senta-se no chão, só e sem esperança,
Do rosto entre os joelhos
e chora.
Chora, porque tens razões para chorar,
Nascida para superar os outros
Tanto na felicidade como na miséria.

IV

Embora a Paz esteja a reunir,
Nosso povo sob as suas alvas asas
As mentes não serão libertadas,
Da sua sonolência mui antiga,
Se está grande terra não regressa,
Ao exemplo dos nossos antepassados.

Por favor, volte para trás, minha terra,
Olhem pra trás, essa grandeza de imortais,
E choram a tua de vergonha;
Porque o luto sem vergonha não faz sentido:
E que a memória desses teus antepassados,
Que o nosso país livre desta desgraça!

Mapas, que estejas no teu coração,
Para honrar antigos; pois esta terra,
não tem homens assim hoje em dia,
E ninguém virá para honrar a razão.


POETAS-TRADUTORES MARCOS LUCHESI-ERIC PONTY

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