VIAGEM À RODA DO PROFESSOR MOMMSEN
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Entre a personagem do poeta e a personagem do ficcionista, qual a diferença? Talvez a mesma que entre via e viagem, viajante e paisagem. Assim, em Fernando Pessoa, Ricardo Reis é via nos desdobramentos da identidade e da diferença, viajante no jogo de espelhos que é toda a cena da modernidade; enquanto na ficção de Saramago, singular e sem interlúdio, o heterônimo muda na viagem da história, na paisagem em que o labirinto encontra a sua matemática.
Por mim desentranhada do incipit de um ensaio do historiador das religiões, filósofo, romancista e poeta romeno Mircea Eliade, a personagem Professor Mommsen foi antes Theodore Mommsen, famoso historiador alemão que, no ínício da última década do século XIX, proferiu uma série de conferências acerca da Atenas do quinto século. A “surpreendente mostra de erudição, memória e sensibilidade literária de Mommsen” chegou até Eliade através do relato de um dos professores deste na Universidade de Bucareste. Portanto, já mudado em personagem.
E foi na mise-en-texte que surpreendi o Professor Mommsen como via e viagem, como um dos papéis avulsos de meu Pequeno livro de linhagens (19971998), para nele, senão resolver, ao menos revolver o embate entre as minhas digressões calculadas de professor e o devenir fou da escrita poética. Se “a maior autoridade viva sobre Atenas do quinto século”, capaz de traçar o plano da cidade como era no tempo de Sócrates, “achava-se completamente perdida em sua própria cidade, a Berlim do Rei Guilherme III”, também eu reencenava igual perdição no trânsito entre as aulas teóricas sobre linguagem e as operações incalculadas da oficina poética.
E agora surpreendo outros muitos e singulares desdobramentos desta personagem na série de poemas Mapa do Professor Mommsen que Eric Ponty soube desentranhar não do ensaio de Eliade ou do breve poema “Axis mundi” em que ela figura, mas da sua destreza lírica, pois “Há mapas nascidos do acaso /feito à foz da fonte”. E o acaso, ou melhor, a escrita de Ponty multiplica as linhas do fortuito Theodore, estende as fronteiras deste mapa aleatório que é toda personagem lírica, acrescenta ao professor uma altura que apenas a existência poética nos pode conferir.
Juiz de Fora, primavera de 2002.
(EXTRATO POÉTICO)
MAPA DO PROFESSOR MOMMSEN
Hoje pensei em ilustrar-me na ciência,do professor Mommsen;

Nenhum comentário:
Postar um comentário