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domingo, junho 11, 2023

Canção Sobre O Ranger Da Tarde (2000) - ERIC PONTY

Não sei mais onde estamos, em que fim de amor, em que recomeço de outro amor, em que história nos extraviamos.

Margarite Duras


Teus olhos são como chamas
têm duas estrelas fulgurantes: 
Neles passam um arco 
que dissecado pelo tanger 
das sete cores da paisagem 
principia o arco-íris e a noite 
enciumada fere o crepúsculo 
com a timidez do escuro. 
Uma olha a dimensão dos dias
a outra olha o infinito... 
Piscam as duas estrelas 
incendiarias de teus olhos,
onde está tucanos e risos violeta,
(Dentro de tua consciência
um universo de probabilidade tangível) 
Olhos com duas estrelas 
que brincam de fitar o infinito. 
(Por que ninguém percebe 
este rumor latente e gemido? 
Por que ninguém percebe 
este luzir sobre o cotidiano?) 
Teus olhos têm duas chamas 
São fulgurantes de estrelas e olhos.

II 
 
Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
que se vai pela tarde azul
que exausta se esvai; e olha
perspectiva deste abismo
que se funde nos nossos dias.

Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
por este céu de nuvens alvas
que brincam de te admirar
e fazem repentinamente água
só para coroá-la com um arco
na Íris das sete cores cálidas. 
 
Sobre a solidão do cotidiano
percebo o seu mover contido
sobre você canta este lenheiro
e o tempo faz uma pausa
para que este não te atinja.

III  

No silêncio quando me liga 
(espaço preenchido pela voz) 
há tantos enigmas ali 
que tangem por este espaço 
que descem e sobem no ido. 
  
(Por que ninguém percebe 
este rumor latente e gemido? 
Por que ninguém percebe 
este luzir sobre o cotidiano?) 
  
No silêncio quando me liga 
(espaço preenchido pela voz) 
há um silêncio  
há um cotidiano  
há angustia profunda   
que tange uma procura 
na voz que indaga: Alô!!!  

IV 

Teu movimento 
é circular como a lua 
simples como o rio 
efígie de um cisne 
suplica que perpetra 
por entre estas margens 
nítidas do cotidiano. 
Teu movimento 
é uma teoria do acaso 
do tanger da lua e do sol 
pelos raios na face escura 
da terra que sôfrega 
adormece. 
Teu movimento 
tange a clareza 
da lua 
por entre as rosas 
que se dissecam 
nas varandas 
deste rio.

 
Na solidão e no desespero 
vivo a chama da morte 
pois em vão admiro a paisagem 
que se desfaz num quadro 
mofino e amorfo. 
 
Na ilusão é variada como a tarde 
que delineia o perfil sobre o acaso 

e penso, que as flores murcham 
porque se esconde de mim nula. 
 
Se na ilusão é imortal como Inês 
mesmo morta sagrou-se rainha 
os ponteiros se movem túrgidos 
e estes fúnebres nem me conhecem 
e não param ante minha passagem. 
 
Na solidão e no desespero 
vivo a chama da morte 
que funda como a pedra parada 
que desconhece a nuvem e nem 
a ignora quando se esvai 
por entre estes detalhes da tarde.

VI
 
Doce senhora de tez tímida 
que não leu versos de Dante 
ou não desceu a profundidade 
da dor sobre o negro soturno. 
 
Terá você ouvido falar talvez 
De Gaspara Stampa ou de Paulo 
E Francesca de Remini; seres 
condenados ao subsolo do caos? 
 
Doce senhora de tez tímida 
cuja perplexidade se traduz 
por não conhecer o meu eu 
e eu muito menos o seu. 
 
Doce senhora de tez tímida 
que tem uma fala terrena 
traduz-se nas rubras faces 
de dissimular aquilo que voa.

VII

No jardim da praça há um verde 
que encobre a paisagem da pedra 
que pouco a pouco leva a natureza 
por entre os subterfúgios da tarde. 
 
Como uma estátua de mármore 
nua por entre os olhares findos 
sai de um cheiro que embriaga 
o aroma que se vai cotidiano. 
 
Mulher o teu torso é uma ágata 
especiaria preciosa que se guarda 
por entre as filigranas dos olhos. 

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

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