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segunda-feira, abril 27, 2026

Samira, Escrevo-vos de um país distante. (Henri Michaux & Luís de Camões) - Eric Ponty

Samira, Escrevo-vos de um país distante. «Aqui», disse ela, «só temos sol uma vez por mês, e por pouco tempo.»
Já estamos a esfregar os olhos com dias de antecedência.
Mas foi em vão.
O tempo é implacável.
O sol só aparece na hora certa.
Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco como tua tez vista por um poeta que pouco conheço, mas foi vencido pelo cansaço.

Na metade do céu subido ardia
Mão clara, almo Pastor, quando deixavão
Céu verde pasto as cabras, e buscavão
Desta frescura suave água fria.

Com folha das árvores, tão sombria,
Raio candente as aves se amparavão:
Neste módulo esfregar, que cessavão,
Só nas roucas cigarras, paz sentia.

Quando Liso pastor n’hum campo verde
Samira, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tão tristes derramam.

Porque te vás de quem por ti se olhas,
Palhas quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.


V

Escrevo-vos do outro lado do mundo.
É importante que saiba isto.
Muitas vezes, as árvores tremem.
Recolhemos as folhas.
Têm uma quantidade incrível de nervuras.
Mas para quê?
Já não há nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, envergonhadas.

Será que a vida na Terra não poderia continuar sem vento?
Ou será que tudo tem de tremer, sempre, sempre?

Já a roxa e tão alva Aurora destoucava
Os doutros velos de ouro delicados,
E das urzes os campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava;

Quando do gentil gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente pelos prados;
Pastores tão unos, e ambos apartados,
De quem mesmo pavor não se apartava.
Com verdadeira pranteia Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha asseada,
Porque fenece jaz quem vive ausente;

Pois lide sem ti não resta ao nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Afrontar esperanças da tornada.


Há também agitação subterrânea e, dentro de casa, como se fossem acessos de raiva que se lançassem contra vós, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, e o que se vê não tem a menor importância.
Nada, e, no entanto, trememos.
Porquê? Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco.

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

domingo, abril 12, 2026

Sibilas de Samira III - (DOZE QUASI SONETOS DA SIBILA) - Eric Ponty

 P/Samira Agostine

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que fardo? Quem mo diria?
Porventura estaréo em mim atentando?

Se terão na Samira, como ou quando
Deles me vim tão hoje de alegria?
Ou se estardo aquele alegre dia
Que torne a vê-los, fronte figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se achardo em Samira muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência teus doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

II
Samira sou, Senhora, neste engano.
Tratar dele consiga é escusado,
Que mal pode de vês ser enganado
Quem de outras como vês tem desengano.

Já sei que foi à custa de meu dano
Que sé no doce dar tendes zelado;
Mas pera como eu sou de vês julgado,
Mui vãs são as esp’rancgas deste ano.

Tratei gréo tempo o Amor, e daqui veio
Conhecer Samira facilmente,
Que tal é, gentil Dama, o demonstrais.

De treslida caístes neste enleio;
Querei de mim o que eu quiser boamente,
Que no al a costa arriba caminhais.

III

Samira minha, se de pura inveja
Louvor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhares luz que o Sol deseja,

Não me pode colher que vos não veja
Nesta mão, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos verei sempre debuxada,
Por mais cruel da tarde que me seja.

Nela vos vejo, e vejo não renasce
Tão belo e fresco prado deleitoso
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.

Os lírios tendes fia e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem tiver só, se há tanto bem na terra!

 IV

Mil vezes se mexer meu pensamento
A louvar o Alvo rosto cristalino,
Da trança de Samira d'ouro fino, 
O vivo e mais que terno entendimento.

Que com meigo e suave movimento
Pudera irromper coração diamantino,
Tão graça imperante o ar divino,
A digna majestade o doce acento.

Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Com pérolas de seleção orientais,
Que atroe rosas mostrais no doce rizo.

Que essa luz que olhares derramais
É o doce resplendor do paraíso,
Pois me demonstrais, e dais com claro rizo.

 V

O sol é grande, caem com tua calma as aves
Da era, em tal sazão lhe soe ser fria:
Esta agora do alto então cai acordar-me-ia,
Samira não, mas vãos cuidados graves.

Samira quando quererão duros fados
Içar minha esperança tão caída;
Ou porque, se de todo é já perdida,
Arrumar podereis meus bens passados?

E tu despeitosa honra e fama,
Responde-me com tão mortal olvido,
Não tens a tanta fé algum ido!

Por amor me vi uma era já contente,
Por apego eu quis atormentado,
Então que veja meu erro tão pagado.

VI

 
Samira adornada de verdura,
Que esmaltavam por alto várias flores,
Então um dia a Deusa dos amores,
Com essa Deusa da caça e espessura.

Diana tomou a si uma rosa pura,
Vênus tal roxo lírio, quais melhores;
Mas então excediam muito outras flores
Quais violas na graça e formosura.

Duas perguntam Cupido, que ali achava:
Qual dentre as três flores tomaria
Por mais graça e pura, e mais formosa?

Sorrindo-lhe, o menino lhes tornava:
Todas formosas quais; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.

VII 

Samira, com Esperança já tão ida,
Tua soberana Sombra visitei:
Por fiança do naufrágio que alcancei,
Em recinto dos vestidos, pus Vida.

Que mais queres de mim, pois extinta
Me tens a Brasão toda que lhe arrumei?
Não vigies de render-me; que não sei
Volver a entrar-me onde não há foz ida.

Vês cá a Vida, e da Alma, e a Esperança,
Doces espólios de meu bem passado,
Em quanto o quis aquela que eu choro.

Nelas podes vestir de mim vingança:
E se te anseias inda mais vingado,
Agradar-te co’as fúcsia que lhe choro.

VIII

Descalça vai para a fonte 
Samira vai para a fronte
rosas pela verdura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Leva na cabeça o mote, 
O texto nas mãos de prata, 
Carta de fina escarlata. 
Sainho de chamalote; 
Traz a vasquinha na sorte. 
Mais alva que a neve pura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Encontra a touca a garganta, 
Cabelos douro o trançado, 
Fita de cõr de encarnado, 
Tão linda que eu mudo espanta; 
Chove bela graça tanta 
Que dá graça a formesura; 
Vai teimosa e não atura.

IX

Estava Amor seu arco guarnecendo,
Samira em fogo as setas temperando,
Cercadas de Amores, uns tecendo
A corda, outros a aljaba cruel dourando.

Nos floridos prados vão recolhendo,
Outros mil flores, que todo ano florescem,
Das quais ó filhas, e às capelas tecem.
Nunca vistas no Mundo, nem cheiradas

As flores são, que Amor para si faz.
Dumas o liquor frio, em que banhadas
As outras são, quando as do fogo esfria,

Uns formosos Amores, que debatem.
Em todas cruel, em todas espantoso.
Samira, nas segundas temerosa.

X

 Outras horas, Samira, te aguardava:
Outras se desviam.: ó triste, ó triste!
Enganado, nascido em cruel signo.
Quem me enganou? Ah cego que não cria.

Enganas, Samira! Mas só quem creras.
Tais olhares cerrados para sempre,
De velos já não de ouro, mas d’almas,
Àquelas mãos tão frias, e tão cruas.

Quem antes via tão alvas, e, fermosas,
Aqueles alvos peitos tão trespassados,
Desses golpes cruéis fúlgidas horas.

Aquele corpo em sombras tive em braços,
De tão vivo e formoso em flores pálidas,
Penhores divos, ó meu pai cruel! 

XI

Senhores teus então seus sós,
Tu, porém, não vias neles tão só,
À margem tão são ó minha luz Diva,
Já não me escutas? Já não ti hei de ver?

Já te não posso deparar toda à terra,
Chorem esse meu mal comigo m´ouvem,
Pranteiem terra dura tua espessura,
Nos homens s´achou de tanta da crueza.

Cubro-te então da crueza perfaz terza,
Nunca ria de si mesma, cá me m´ouvem,
Ajudem-me pedir Justiça do céu.

Com novas crueldades tua morte,
Lhe fiz margem Samira, hei fiz à margem,
Par´isto me dá, Deus somente à vida.

XII

Quantas penas, Amor, quantos zelos,
Quantas gemem tristes sem direito,
De que mil vezes viste, vulto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz dos velos;

Justos mortais perpétuas derramados
Do espírito por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, enfim, tu me tens feito,
Todos porão em mim bem pranteados.

Ao todo satisfaz (confesso-nisto)
Nesta só vista em branda e amorosa
Samira cativou minha ventura.

Flor sempre para mi hora ditosa!
Lhe posso temer já, cá tenho visto,
De tanto gosto meu, tanta brancura?

ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

sexta-feira, abril 10, 2026

Sibilas de Samira II - (Extratos) - Eric Ponty

 I 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
há uma sulamita, um mistério, 
papiros ainda indecifráveis 
areias selvagens, sussurros débeis 
útero de Saara terra 
estéril sonha fina delicadeza 
fontes expostos seios 
do mel e do mais puro leite 
dessas dunas alvas areias. 
 
No deserto Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
no candeeiro a luz de uma virgem 
no ato da espera das amargas ervas 
possam-se celebrar a cerimônia 
o amado gozando em paradisos 
longas entranhas a que seja única 
somente a una das amadas. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
a explicação intrínseca de Deus a Jó, 
flácido silêncio tecido, fonte deságua, 
a semente fez-se alvorecer o poente 
destituídas folhas de outonos, 
ninho de pássaros de voz de sonhos. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso, 
movidas vestes da dançarina, 
rangendo sombras noturnas, o gozo 
sagrado, lágrimas guardadas, desvão 
pálidas virgens ao gozo dos eleitos. 
 

No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
fios ouro reluzentes dos cabelos, 
são braceletes sem diamantes, 
presos quando mexe com os dedos 
quando inclinada ao vento me sonha. 
 
 II 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
neste meu porto sem mares, 
neste meu porto sem despedidas, 
neste meu porto está tatuado 
vestes de seda, e de alva prata. 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
escute a explicação dos sábios: 
O da esquerda é o de Constantinopla 
empreendeu longa viagem no mar, 
abarcou monstros e Tordesilhas, 
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se 
agora analisa os caules da efígie; 
O da direita é o do Império de Adriano, 
das terras andarilho dos longos desertos, 
monge dos castelos dos templários, 
diziam ser mito, apenas vestido, 
capa iluminada sem sentido alfarrábio, 
presente analisa os caules da efígie.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro, 
escuta a explicação desses eruditos, 
não faça nenhum conceito errado, 
glosam entre eles somente de ti 
meditaram os pentagramas, os raios 
dos dilúvios nos últimos séculos, 
achegaram o vácuo vôo dos pássaros, 
tentam entender de que é constituído, 
de que elemento sagrado não se fala, 
de que elemento não se pode traduzir.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro 
esses fios de ouro bordado de anjo, 
incompreensíveis a esse jardim, 
a luz existe e não se mitiga, 
ilumina-me na minha solidão, 
luzindo alva no candeeiro. 
 
 III 
 
Chegaram emanados de navio 
agora dispersos por essas minas, 
alegam consigo sussurros mouros, 
vendiam ícones dos santos 
porque Alá, o misericordioso, 
transcende-lhes o coração, 
ainda nas minas sem mesquita 
fizeram versos do Alcorão, 
escritos por uma donzela fosse 
do mineiro dessas estreitas vias. 
 
Samira intensa asa de borboleta, 
frágeis dedos, qual o significado 
da dor me doendo, e, não se silencia, 
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem 
às fronhas desse travesseiro? 
 
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas, 
fazei-a indicar de nosso compromisso 
matrimônio por nós acertado, quando 
impossibilitados no século IV 
sermos pai e filha de nos desposarmos.
  
Talvez ouvindo a voz de minha lira 
minhas canções de mero compasso 
a celebrizar enfim me eternize. 

Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

quarta-feira, abril 08, 2026

12 SONETOS RENASCENTISTAS PARA SAMIRA AGOSTINE (ESTUDOS)- ERIC PONTY

 D´alma minha lide, que te quebraste
Tão soturna está grafia tão polida,
Samira em eira tão falsa, poluída,
E anda lá pauta nunca resiste.

Se na letra humana em que a escrita
Desenha desta gente nos consente,
Não te escapes senhora rumor jazente
Que foi nos braços meus cantos perita.

Senhora não sei que possa acudir-me
Dessa dor que dizes que então te cegou
Dá pena, sem degredo, deste ouvir-me,

Rezo a Zeus, meus dias lhe dilatou,
Que tão credo não te prendam meus pulsos,
Que por bem de claros olhos me roubou.

II

Graça minha sutil, que te falaste
Tão vera nesta verve então tingida,
Sepulta em dor eterna, dolorida,
E desce lá na fala nunca triste.

Se no álveo erróneo em seio a treta
Samira que desta nau nos desmente,
Não te salves daquela dor que ausente
Se foi nos olhos meus viva desdita.

Daqui não sei de que posso amparar-me
Dessa luz que falas que te içou
Sem réstia, sem Samira, de escrever-me.

Berro a Deus, que meus zelos aumentou,
Que tão credo não te rezem meus cílios,
Que por bem de teus velos me levou.

 III

D´Alma que está ausente, que lhe partiste
Tão longa desta lide negligente,
Samira lá no Céu liricamente
E fique eu cá na roca, nunca assiste.

Se cá no espanto etéreo, onde gostaste,
Na memória da história se consente,
Não te olvides daquele amor candente
Já nos braços meu fio intenso existe.

E se volta que pode ofender-te
Samira cousa a luz que me rogou
Da graça, sem dilema, de usar-te.

Rogo ao Sol, luz teus olhos limitou
Que tão cedo de cá me traga a crer-te,
Quão ledos de meus braços te furtou.

IV

Dama minha servil, que te cansaste
Tão verde nesta fauna tão florida,
Já sepulta em lar de doce, ofendida,
E troca lá na meta nunca viste.

Se leito eterno em que lhe pinta
Veraz tão desta era nos consente,
Não te olvides daquele amor temente
Que foi nos olhos meus viva visita.

Distante não sei que possa usar-me
Essa luz que lume que te citou
ausência, sem segredo, de reler-me,

Imponho a Deus, que meus velos dilatou,
Que Samira não te soem meus braços,
Que por bem de teus anos me furtou.

V

Dama minha gentil, que me olvidaste
Tão cedo desta lide indolente,
Repousa lá no Céu suavemente
Fique eu cá no catre tão sempre triste.

Se lá no branco eterno, onde sorriste
Desprezo desta era que desmente,
Não te isentes naquele amor cadente
Que já nos lábios meus tão vivo existe.

E se então vires poder acender-te
Alguma cousa a flor que me ficou
Dá Dó, que sem remédio, de querer-te,

Gritei a Deus, que meus dias limitou,
Que tão longe de cá me leve a ter-te,
Quão ledo de meus braços te levou.

VI

Chama minha febril, que te calaste
Tão logo aterra terra tão punida,
Relaxa em zelo seca, dolorida,
Sofrendo lá na escrita jamais riste.

Se no repouso eterno em que a escrita
Memória criva à vida nos desmente,
Não te livres Samira amor ausente
Que foi nos olhos meus dura visita.

Porém não sei de que possa ajudar-me
Sendo dor que dizes que te burlou
Da mágoa, sem emenda, de olvidar-me.

Berro então a Deus, meus anos encurtou,
Que tão falhos não te escrevam meus olhos,
Que por bem de laço e braços me tirou.

VII

Coisa minha febril, eu te driblaste
Tão logo nesta sonora temida,
Enfada em rixa forma, dolorida,
E privar lá na pauta em flauta triste.

Se no leito erróneo em que finta,
Dizeres desta fauna nos desmente,
Não te lembres daquela verve ausente
Que foi nas rezas meus plena mesquita.

Porém não sei de que possa custar-me
Flama em luz que dizes que te gozou
Da mágoa, sem remédio, de rever-me,


Rogo a Deus, que meus verdes alongou,
Que tão tarde não te queime meus olhos,
Que por bem de teus olhos me brotou.

VIII

Arma minha Dama, que te faliste
Tão recente da terra imprudente,
Mover-se lá no Léu impaciente
E curta eu cá a tocar cana triste.

Se lá no álveo erróneo, agora fugiste,
Desleixo puro à fauna se pressente,
Não te safes daquele louvor dormente
Que já nos lábios trago tão pleno urdiste.

E se fores que pôde comover-te
Alguma chispa a luz que me rogou
Só plena, sem saída, deste ouvir-te,

Impõe a Deus, que teus olhos limitou,
Que tão longe de cá me leve a ser-te,
Quão verve de meus lábios te furtou.

IX

Dama minha foste hostil, que feriste
Tão cedo ainda vida imprudente,
Sossega lá no Céu finitamente
E cante eu cá na cana sempre triste.

Se lá na flama etéreo, onde surgiste,
Samira foste a terra se pressente,
Não te olvides música ardor fervente
Que já nas vozes minha tão aberto existe.

E se vires poderá abater-te
Alguma lauda a voz que me falou
De louvor, sem ajuda, de ganhar-te.

Grita então Zeus, que teus tetos limitou,
Que tão crente de cá me leve a crer-te,
Quão lerdo de meus braços te levou.

X

Dama minha civil, que te cansaste
De tão credo nesta era tão polida,
Serena em cela terna, abrigada,
Vive a tocar lá na flauta sempre triste.

Se no registro etéreo em que a ida,
Só Samira da pena nos consente,
Não te olvides daquele pudor jazente
Que foi nos laços meus pura vertida.

Longe não sei de que traga convir-me
Foi essa luz que dizes que te fixou
Sulamita, sem acerto, de ouvir-me,

Prego a Deus, que meus rogos sossegou,
Que distante não te criem meus cílios,
Que por bem de teus laços me roubou.

XI

Porém Dama meu ardil, que te fundiste
Tão tarde Samira de negligente,
Repousa lá no céu finitamente
E teça eu cá na flauta sempre triste.

Se lá na madre eterna, onde subiste,
História verve a vida se desmente,
Não te escapes daquela dor carente
Que já olhares meus tão intenso ouviste.

E se fores que pôde reviver-te
Alguma coisa a luz passou e safou
Graça tua, sem saída, de rever-te,

Prega a roca, que teus fios sossegou,
Que tão fortes de cá me leve a ter-te,
Quão força meus lábios te serenou.

XII

Dama minha gentil, que me salvaste
Tão logo dores vida tão punida,
Repousa em olhos frio, escondida,
Priva lá grafia de contínuo triste.

Se no álveo etéreo em que a grafia
História verve vida nos pressente,
Não olvides daquele louvor ausente
Que foi nos olhos meus pura que fia.

Porém não sei de que diga assistir-me
Dessa dor que dizes então ficou
Da fala, sem amparo, de perder-me,

Peço a Deus, que meus danos aumentou,
Que tão tarde não vejam meus olhos,
Que por bem de teus olhares apartou.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

segunda-feira, abril 06, 2026

Sibilas de Samira - Eric Ponty - (EXTRATOS) - REVISADO - 2007

P/Samira Agostine 

 onde deixaste a tua voz 
macia de capim e veludo 
semeada de estrelas 
  
Ana Paula Ribeiro Tavares - Angola  

Amor, encontrar esses olhos, 
sedutores de outras terras, 
sussurros do deserto 
pronúncia de Saara 
a boca fluente água 
me alimenta, e, ainda  
lápida minha fala. 
 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
ainda chegará esse dia, que sós, 
sós viremos nos perguntar: 
 
De qual Paradiso, poeta e esposa, 
foram tão bem esculpidos 
não se percebe-se o abatido, 
não há musa, apenas complemento, 
homem e mulher sem intervalos 
ressoado gozo, 
o vôo dos pássaros. 

 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
mistério de sulamita, cabelos loiros, 
o corpo de curvas densas 
conduzidas linhas da curvatura 
retira do meu centro na intensa luta  
contra os sentidos interiores 
a qual mulher sempre término  
enfim de joelhos.  

Sibilas de Samira III ou Paráfrase da Lira XXII de Gonzaga

Transvertido de Gonzaga adentro o poema
a celebrá-la lira ante aos homens ocos 
comporei brancura da face de leite puro 
exaltarei olhos e nenhuma luz aplaca, 
os seios pães mais frescos da padaria, 
o singular peça de ar das mandonas: 
 
Muito embora, Samira, muito embora,
outra madona, que não tenha essa tez, 
traços do nascimento Vênus, a sua face 
              silencia a amarga palavra. 
 
As paredes da sua sala,
Não lhe fazem jus tal é a espessura infinita; 
Pendam pobres cortinas, penda a lâmpada 
                 do teto inútil não a aclara.  
 
Não habita qualquer sofisticação, 
Nem está alienada a moda dessa passagem; 
Porém terá a mim que discorra, que te vide, 
        componha o poema à existência. 
 
O tempo não respeita a desejos da moda; 
E da pálida morte a mão tirana a lume 
Fazendo perder um a um desses atributos, 
                Que instantes foram eternos na urbe. 
 
Quantas modas, Samira, padeceram na aurora, 
Essa luta sempre se mostrou inútil e inglória! 
Só podendo conservar um nome eterno 
O seu, assinalando novas esperanças 
         Nem mesmo o rude pássaro se ufana. 
 
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca, 
Por mais que qualquer delas fosse linda, 
 
Não saberiam o mundo, se duraram 
Nem Laura, nem Clarinda, nem Marília  
Nenhuma possuía unos atributos Samira. 
 
É melhor, minha Bela, eu me emudecer. 
Pode algum deus lendo-me a vide e a almeje. 
Não sabem nada os homens se ufanam 
Os cabelos, as vestes, os títulos, a riqueza 
        irão então fenecer  pela aurora tardia.

ERIC PONTY 

  

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, abril 03, 2026

12 ESTUDOS RENANCETISTAS - LUÍS DE CAMÕES - ERIC PONTY

 

 SONETOS DE AUTORIA CONTROVERSA
 
Eu cantarei louvor tão docemente,
Por hunas gentes em si tão concertados,
Senhora accidentes namorados
Faça sentir ao jeito que não sente.

Então que Amor a todos avivente,
Perspectivas segredos delicados,
Lentas iras, suspiros magoados,
Fortaleza ousadia, e pena, ausente.

Porém, Senhora, do desprêzo honesto
De vossa fala branda e rigorosa,
Contentar-me-hei falando a menor parte.

Se eu para cantar de vosso gesto
Composição falta e milagrosa,
Tudo falta saber, engenho, e arte.

II

Só, que de meus suspiros vejo cheio;
vida, cansada já com meu tormento;
mágoa, que com mil lágrimas sustento;
Chama, que mais acendo no meu seio:

em luz estais em mim; e assi o creio,
sem esse ser o vosso tema intento,
pois, em flor onde falta o sofrimento,
o fado se sustém por vosso meio.

Ai imiga sortilégio! Vingativo
Alva! A que discursos por vós venho,
sem nunca vos deter com minha mágoa!

Se me quereis fartar, para que vivo?
E como lerdo, se contrários tenho
chama, Fortuna, Amor, ar, terra e água?

III

Daqui de longos fados, curto história
verão os que se portam de amadores;
reparo pode ter das suas dores
não apartar as sombras da memória.

Escrevi, não por flama nem por glória,
de que outras chamas são merecedores;
por demostrar triunfos, seus rigores,
a quem de mi disse tanta vitória.

Crecendo foi a pôr co tempo tanto
que em mármore me fez alheio de arte
falar do cego Amor que me venceu.

Se atento dei a voz, dei a alma ao pranto;
e, dando ao fardo à mão, está só parte
São minhas tristes penas escreveu.

IV

Bravas águas do Tejo que, passando
por estes verdes marmo que regais,
esculturas, e flores e animais,
pastores, cabras ides alegrando.

Porém (ah, doces águas!), não sei quando
vos tornarei achar; que mágoas tais,
vendo toda vos deixo, me causais
que de entornar já vou desconfiando.

Ordenou-lhe Destino, desejoso
de converter meus gestos em pesares,
partida que me vai passando tanto.

Saudoso de vós, fronte queixoso,
encherei de suspiros outros pares,
passarei outras águas com meu pranto.

V

Sombras de tantos dias malgastados,
fonte de tantas noites mal dormidas,
são, pois, de tantas lágrimas vertidas,
lentos suspiros vãos, vãmente dados;

Sendo não sois vós tão desenganados,
desejos, que de outrora esquecidas
quereis remediar largas feridas,
que Amor fez sem quem tédio, o Tempo, os Fados?

Então tivéreis já experiência
já sem-razões de Amor, a quem servistes,
tristeza fora em vós a resistência.

Mas, pois, por vosso mal, porém males vistes,
que d´eras não curou longa ausência,
que faz dele esperais, desejos tristes.

VI

Já desta sexta as águas aparecem
a meus olhos, não santas, antes alheios,
que, de outras diferentes fados cheios,
na sua longa vista inda mais crescem.

Da sexta que também forçadas descem,
segundo se detêm orações rodeios,
tristes por quantos lados, quantos meios
que minhas saudades me entristecem.

Lide, de tantos santos salteada,
reza a põe em termos que duvida
de conseguir o só desta jornada;

Porém se dá de todo pôr perdida,
sendo que não vai da alma acompanhada,
deu se deixou ficar onde tem vida.

VII

Na margem de um Lenheiro, que fendia
com líquido cristal das margens prado,
Tão triste pastor Liso debruçado
sobre os bruços de um freixo assim dizia:

«Tão, Natércia cruel, quem te desvia
desse cuidado teu, no meu cuidado?
Se para hei de penar desenganado,
enganado de ti olhar que queria.

Que foi santa da fé que tu me deste?
Lenheiro puro amor que me mostraste?
Quem todo trocar pôde tão asinha?

Quando esses puros teus noutro puseste,
Tal qual te não lembrou que me juraste
por todo o azul, luz que eras só minha?»

VIII

Novos casos de dor, novos enganos,
nutridos em lisonjas conhecidas,
do ser promessas falsas e escondidas,
onde do sal se cumprem grandes danos:

Tal quais não tomais já por desenganos
tantos ais, tantas fúcsias já perdidas,
pois em minha fé não basta nem mil vidas
são tantos dias tristes, tantos anos?

Um novo peito de mister havia
com outros membros menos agravados
para tornar a ser o que eu não cria.

Sendo comigo, enganos, enganados;
e se o quiserdes ter, cuidai um dia
o que fala dos bem acutilados.

IX

Os meus pesares, venturosos dias
passaram tal qual raio, brevemente;
movem-se os fados mais pesadamente
porém das fugitivas alegrias.

De falsas pretensões, vãs fantasias,
que me podeis já fazer me contente?
Já de meu fado peito a chama ardente
do Tempo reduziu a cinzas frias.

Nelas aposto agora erros passados,
que outro furto não deu a mocidade,
pra quem vergonha e flor minha alma deve.

Então vou mais de toda a mais idade
desejos vãos, já choros, vãos cuidados,
zelo que leve tudo o Tempo leve.

X

Se tornar por teu rei, e juntamente
qual Cristo, a governar aquela parte
onde tem demonstrado um Numa, um Marte,
do famoso Luís, justo e valente.

Lenheiro espere ver de todo o Oriente,
logo se tão raros dões o Céu reparte,
render a tanto engenho, aviso e arte
mil almas, mil tributos novamente.

Dos que vivem no Gange, os que no Indo,
pra quem pouco valerão lança e escudo,
já render-se terão por bom partido.

Do Eufrates temerá, teu nome ouvindo;
se, para dele ver vencido tudo,
já viu do braço teu todo vencido.
 
 XI

Horas Samira meu contentamento,
nunca me careceu, quando vos tinha,
que vos disse mudadas tão asinha
falas tão longos dias de tormento.

São altas torres, que fundei no vento,
relento as levou logo, que as sustinha;
do bem, que me ficou, a culpa é minha,
tão sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor de falsas mostras aparece;
Se tudo possível, tudo assegura
e longe, no melhor, desaparece.

Eu lhe quis, pois o quis minha Ventura,
que, tremendo e chorando, conhecesse
quão fugitivo ele faz, quão pouco dura.
 
 XII
 
Dama minha gentil, que te versaste
Tão cedo prado era descontente,
Cá Samira no léu finitamente
E jaza eu cá na campa sempre triste.

Se lá no apoio etéreo, onde versaste,
Conta em mim desta vida se consente,
Não te livres dos laços amor fervente
Que já nos olhos viva tão pura existe.

E se vires que poderá aprazer-te
Alguma cousa a foz que me cegou
Desta mágoa, que sem via, de perder-te.

Impõe a Deus, teus anos reduziu,
Desta tarde de cá me leve a ter-te,
Se há tarde de meus olhos te tirou.
ERIC PONTY

  
  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, abril 01, 2026

SONETOS - ERIC PONTY

 PARA ADAIR TIRADO - IN MEMORIAM

Amo o soneto porque é feitio antigo,
Para falar os doces sempre novas;
Porque antigo de não sei quantas trovas,
Um falar virginal alvo comigo.

O soneto é mais claro do que relvas,
Sim, perspectiva, eu nele apenas digo,
Inteiro é nobre em mim, feito que aprovas,
E é meu sereno á vida, e sendo meu ligo.

É alvo e leve, e tem sagrados de arte,
Uma leveza, enfim, tão cintilante,
Que, digo um dia lavrarei cantar-te.

Os teus diáfanos rútilos, dos versos,
Pus num soneto, e desde aquela cante,
Só sei compor-te, com destreza em versos.

II

Este soneto é todo teu, aclara,
Que ele traduziu sua humilde fúria,
Verso por estrofe estranha trajetória,
Desta musa afeição cintila e rara.

Leves, saudades, sanhas; nem notara,
Tanta fúria afinal na nossa hilária;
E este trecho, é grande dedicatória,
Onde a fala alma inteira se declara.

Abre esta relva, e encontraras senão
Teu coração de amor findo e falando,
Cantando e sorrindo o meu coração.

E se o falar mais claro a sós,
Sendo igual estivesses me olvidando,
Dizer de amor com tua própria foz!

III


Há tanto tempo que não aclara assim,
Num dia veste um céu escarcéu tão cinzento,
E ouço a chuva a ruir tal qual lamento,
Longe o rumor monótono sem fim.

Que entranha percepção de isolamento,
Nem atroz voz ouço ao longe de mim,
Só então ouço apenas lá por fora, o lento
A desfolhar as dores no jardim.

Ninguém diz meu redor, ninguém me fala;
E me largo a ficar com tédio imenso,
Desta sombria penumbra só desta ala.

Que inquietude tão oca há dentro em mim,
Não sei pra existo, não sei bem pra penso,
Há tanto tempo que não aclara assim!

 IV

Nada é ainda! A testa florescente alma,
N'esses teus ainda dos vazios ensaios,
Olha este crânio, que recebeu em flama
Do sol do fado então derradeiros raios!

Mas só tu, ao seu presente e ao já rachado
Imerso dando as costas, passa agora
Os dias que lhe faltam abismado
Temperanças dos tempos seus de outr'ora.

Ao passo, entanto, ele assim recebeu
Como um labor da sorte àquelas horas,
Convulsões do mundo não concebeu.

Linda é esta lida, tu verás, tão brusca,
Quando de longe nós podemos vê-la,
Que nos parece d´alma porque ofusca.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, março 30, 2026

SONETOS À ALLIE HAZE - ERIC PONTY

 

 Enquanto a Abastança estiolava, armada
Qualquer espera afável de alegria,
A lufa do anexim amoroso deu um anseio
De escrever prazeres e suas dores:

Mas Amor, aterrado em perspectiva 
que minha grafia lhe então saísse em cálculo 
que ele nunca evitou, emaranhar dor
sombria em meu gênio, nunca possa astúcia.

Ó vós, quem coação Amor podeis conter
A anseios tão várias! Ao lerdes sobre isso...
Preso em único livrinho, tão vários;

(Todos são certos, fatos sem defeito)
Aprendei que, conforme o amor que tendes,
Assim tereis aviso do meu verso.

II

Todos dóceis pousavam paz meio-dia;
Só Liso não sentia o brilho meio-dia;
Pois seu alívio do tormento amoroso
Residia a ninfa ele catava acalmar mal:

Fazia cada cume ao cerro tremesse:
Tristes queixas de sua dor lancinante;
Mas peito duro nunca à vista dó,
Cativo voluntário de outra vontade.

Cá, exausto andada sob sombra frondosa,
Nome a noção, bem fundo em tronco em faia,
Gravou as palavras que contavam disgra: —

Algo não aceito, nascido não sei onde,
Um mal que me mata sem se mostrar,
Vem porque não sei, dores não sei como.
 
 III

Enquanto a sorte quis que isso fosse dado,
De alguma espera grata de aleluia,
Lufada do pensamento amoroso 
Deitar papel aleluias, dor de escrever:

Mas Amor, terror com facultar  
meu Mando o arguisse pelo juízo, ele nunca 
rejeitou, Génio fundiu dores sombrias,
Por isso, nunca conto a vida em teu truque.

Ó vós, quem coação amor possais conter,
De outras Vontades! Vários! Quando leres
Que sobre eles juntos casos só livro.

Sejam todos certos, fatos sem falhas...
Saiba, na medida em que tem desse Amor,
Eis, a história por trás deste meu verso!
 
IV

Enquanto quis abastar-se fala sem
Em gestos vãos de algum contentamento,
O gesto delicado Pensamento
Me fez que seus efeitos escrevessem.

Porém, dizendo Amor que alerta dessem
Minha escritura a alguma chama isenta,
Escureceu-me a ciência co tormento,
Para que seus enganos não dissessem.

Ó vós, que chama obriga a ser dos jeitos
De diversas Vontades! Quando derdes
Num breve traço contos tão de versos,

Imagens puras são, e não de feitos...
Sabei que, segundo a chama tiverdes,
Tereis o engenho fúcsia em meus versos!

V

Mil vezes comove meu Pensamento
De louvar o alvo rosto cristalino,
A trança dos velos é de ouro fino,
Tão claro e mais que humano entendimento;

Que, com leve e suave movimento,
Pudera conter um peito diamantino,
De Graça senhoril, do Ar divino,
Qual de honesto esplendor, o doce acento:

As moças qu’entre neve semeais,
São pérolas seletivas orientais
Que antre bosques demostrais doce risco.

Que dessa luz, olhares derramais,
São do doce resplendor do Paraíso
E se o demonstrais e dais com claro risco.
ERIC PONTY

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, março 29, 2026

12 ESTUDOS PARA FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY

 

I

Aqueles de vós que ouvis em rima 
O suspiro que alimenta o coração
Que ao primeiro erro da primeira idade,
quando era em parte díspar da que tenho;

Estilo vário com que falo e zelo, 
Que dentre a dor e a espera oca,
daquele que, por ter amado, aceitou do Amor,
não mais o perdão, mas a dó saudosa.

Mas já do vulgar vejo na boca lendária.
fui uma grande ocasião em que muitas vezes
me ruborizo comigo mesmo;

É esse o fruto que a minha fúria toca,
vergonha porque agora envolvo e não
duvido todos os gênios humanos sejam sonho breve.

II
 
Era o dia que empalidecia ao sol
piedade pelo seu Autor crucificado, 
quando então, distraído, a minha alma 
foi arteira cativa pelos teus olhos.

Não era altura para brigar, 
Não supunha nenhuma ofensa de amor; 
E caminhava descuidadamente sem ter
suspeitado que era esse o princípio do meu desafio.

Ele encontrou-me desarmado Amor
totalmente desarmado e abriu olhos para ver o caminho
que são do grito do limiar e do passo rígido.

Mas, a meu ver, era uma loucura ferir-me
com uma flecha daquela maneira, e tu armado, 
e nem sequer mostrares o teu arco.

III

Ele que mostrou uma providência 
e arte infinitas no seu prodigioso magistério, 
criando este e aquele hemisfério e Júpiter
ainda mais dócil do que Marte,

vindo a terra para fazer o que os livros 
já tinham dito em parte misteriosa,
a Pedro e João deu-lhes o império celeste,
mudando das suas redes a presa e a arte.

Mas, não tendo nascido em Roma, 
mas na Judeia, a graça concedeu que, 
sobre toda condição modéstia exaltante está sempre à espera.

E agora, numa pequena aldeia, 
brilhou um sol, de tal forma que a criação e a aldeia 
se regozijam hoje pelo fato de, nesta, a inicial ser tão bela.

IV

Se eu mover os meus suspiros para te chamar
e o nome que o Amor escreveu em mim, 
um Lauro começa a sentir-se fora
ao som dos seus primeiros ecos claros.

Os direitos de autor, que se seguem à declaração, 
têm o dobro do valor para uma empresa tão distinta;
mais "LOURO" grita enfim, que honrá-lo seria
um fardo melhor para ombros mais esclarecidos.

Ao Lauro assim e ao Reverencia move-se a mesma voz 
com que só a vós o dizemos, nessa rima que atreve,
pois em honra e louvor bebe com a voz leve;

se Apolo não se revoltar com o que herdes,
para ver que com os vossos ramos sempre verdes
a língua mortal com presunção se atreve.

V

Tão longe está o meu delírio atrás daquela 
que em voo se revela qual numa novela,
e dos laços de luz o Amor voa pelos laços, 
antes do lento correr do meu pensamento;

quanto mais se acautela, menos ouve se acautela;
Nem o freio e a espora me servem com ele, 
pois tal brio teimoso é natural ao Amor.
E assim, depois de o travão ter sido puxado,

fico à sua mercê e com uma culpa tal feroz,
Lamento dizê-lo, mas transporta-me para a morte;
para ir apenas ao loureiro, onde ressoa teu nome.

Onde se colhe o fruto amargo, dessas eras
cuja polpa amarga percorre esse bosque,
a ferida aflige mais do que nos conforta.


VI

No sopé da colina em que a bela gala do corpo terrestre 
se vestiu pela primeira vez bela que muitas vezes, 
em lágrimas, perturba o sono daquele que hoje nos dá a ti,
Gostávamos de voar pelo salão etéreo da vida. 

Qualquer pássaro poderia desejar, 
sem suspeitar de achar um ardil feroz 
que abolisse com o bater da nossa asa.
Mas do estado miserável e da morte, 

Perdeu aquela vida já serena, que poderia dar,
Só há uma consolação para o nosso destino;
que é saber que aquele que nos condena a isso,

Por poder alheio, agora quase inerte nos desvãos,
Que ferradura fica com uma corrente mais comprida,
perturba o sono daquele que hoje nos dá a ti.

VII

Quando o planeta que mede as horas
regressa para reencontrar o Touro, 
uma tal virtude cai dos seus cornos dourados 
que veste o mundo com a cor que liberta;

Não só ao que à luz reside, margem do rio e
montanha, dá decoro floral, mas onde a sua luz 
nunca achou um foro, impregna o humor terrestre 
tanto quanto o que emite,

e nascem as frutas ou alimentos semelhantes;
Assim ela em mim, que é o sol entre todos, 
Se oferece luz e raio dos seus olhos,

Ela cria palavras, versos, odes de Amor;
mas, como ela os comanda a todos,
a primavera nunca floresce em mim.

VIII

Deixai pela sombra ou pelo sol que eu 
Nunca vejo o vosso véu, senhora,
depois de tu seres do desejo que sabe e
que faz sair do meu peito outro desejo.

Enquanto escondia o pensamento que a
morte em desejo me dava, vi o teu gesto
tingido de piedade; ainda mais quando 
tal Amor lhe mostrou tudo claramente,

era o cabelo coberto na altura e o olhar
honesto e amoroso escondido.
O que eu mais desejava em ti foi-me tirado;

é assim que o véu me trata com tanto desvão,
que pela minha morte, seja ao calor, seja ao
gelo de olhos tão belos, que cobre o brilho.

IX

Olhos tristes, enquanto eu te levar
na cara daquele que vos dá a morte e os
tormentos, peço-vos que estejais atentos
que no meu mal, o Amor está a desafiar-te.

A morte é apenas quem o meu pensamento
pode fechar o caminho que o conduz ao
doce porto que cura os seus males;
a tua luz está escondida de ti.

com menor e mais pobre estorvo, pois
sois feitos de essência mais leve. 
E por isso, porque já está próximo,

antes que encontres o tempo para
chorar, toma finalmente agora
a tão longo martírio um breve alívio.

X

O velhinho alvo e cinzento acaba
do doce lar onde a sua idade é cumprida, 
e da descendência da dor transitada
para ver o querido pai longe;

e, a partir daí, arrastar o velho corpo 
pelos dias extremos da sua vida,
é ajudada pela ânsia que nela se aninha, 
quebrada pela idade e calva pelo sol;

e vai para Roma, seguindo o seu desejo,
olhar para o rosto daquele que espera
ansiosamente lá em cima no céu para ver.

Por isso, ai de mim, quando vejo outra mulher, 
tanto quanto possível, nela procuro a
dessa tua amada forma adequada.

XI

Quando estou completamente virado e o
rosto da minha bondade irradia luz, e a luz
ainda permanece no meu sentido.
que me queima e consome parte por parte,

Eu, que receio que o meu peito se parta, e
vejo próximo o fim do meu fogo, ando
qual um cego que, mesmo sem luz, não sabe
para onde vai e, no entanto, parte.

Assim, fujo do mal que me mata, mas não
tão depressa desse desejo, pois ele não
costuma deixar-me andar sozinho.

silencioso eu vou, porque o meu lamento
morto faria chorar as pessoas e eu quero
Que as minhas lágrimas se derramem sozinhas.

XII

Há uma raça de animais de visão tão galante, 
que até do próprio sol se defende;
outra, por outro lado, que ofende tanto sua luz 
que o espera o véu escuro da noite;

E há outra, que o desejo não assusta, 
Para gozar o fogo, espera e, porque brilha, 
prova a sua outra virtude, a que inflama.
E é aqui que o Amor me mantém!

Que não suporto pensar nela o 
fogo ardente, nem num lugar sombrio, 
nem numa hora em que já é escasso.

Antes que, com gesto doentio e lacrimoso, 
o meu destino de olhar para ela se apodere de mim;
e eu sei bem que estou atrás daquele que me queima.

 ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, março 13, 2026

São Paulo, Domingo, 14 de Novembro de 1999 - MAIS - FOLHA DE SÃO PAULO

 IVO BARROSO
especial para a Folha

A 26 de maio de 1990, o então suplemento "Letras" deste jornal divulgava que o livreiro paulista José Luiz Geraldi, garimpando no seu comércio de obras raras, havia descoberto cinco traduções de Fernando Pessoa, até então desconhecidas, de poemas de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell, encontradas na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres", um cartapácio de 24 volumes com cerca de 13 mil páginas.
Os conhecedores da obra de Fernando Pessoa consultados foram unânimes em afirmar que essas traduções eram desconhecidas, não constando de nenhuma bibliografia do poeta. A descoberta era, sem dúvida, uma notícia literária de importância para um melhor conhecimento da obra completa de Fernando Pessoa, principalmente por não constar de seu acervo (o famoso baú).
O crítico e ensaísta português Arnaldo Saraiva, grande estudioso da obra pessoana, nove anos depois, publicou um livro denominado "Fernando Pessoa - Poeta-Tradutor de Poetas" (Nova Fronteira), em que, referindo-se em tom um tanto depreciativo àquela descoberta, relata ter encontrado muitas outras traduções de Pessoa ou atribuíveis a ele, numa pesquisa mais aprofundada que fizera no monumental calhamaço. O trabalho de Saraiva é exemplar: cita fontes, números do volume e da página, pesquisa a data da edição da obra, seus autores e colaboradores, cataloga o corpus das traduções pessoanas e até mesmo analisa a sua teoria e prática da tradução.
Obra impecável, não fosse por lhe ter passado pela peneira crítica uma página, precisamente a de número 9.802, do volume 20, em que aparece, com a indicação "Trad. de Fernando Pessôa", o poema "A Glória", de um equívoco sr. Alexandre Magariños Cervantes. O autor, segundo informa a epígrafe do poema, é um poeta "uruguayano" (sic), nascido em Montevidéu, em 1825, que iniciou sua carreira literária na Espanha, foi depois a Paris, onde fundou a "Revista de Ambos Mundos". Em 1855 regressou à pátria, onde foi catedrático de direito internacional na universidade, senador e ministro. Por aí pode-se avaliar a qualidade dos poetas. O poema é medíocre e grandiloquente, mas a culpa da escolha não pode recair sobre Pessoa, que fazia esses trabalhos com espírito amanuense de tradutor profissional e sabendo que a maioria deles sairia sem indicação do tradutor.
Como curiosidade e para complementar a excelente obra de Saraiva, o Mais! publica ao lado a referida tradução, encontrada pelo poeta Eric Ponty, de São João del Rei, nos alfarrábios da família.

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de "Arthur Rimbaud - Poesia Completa" (Ed. Aguilar).


 

 A GLÓRIA

Avante!... sempre avante!... nada importa
Que, rasgando o dossel do céu ingente
Qual flamígera nuvem, véu ardente
Ameace o universo devorar;
Avante!... sempre avante!... nada importa
Que zumba o furacão, e em fero embate
O raio tremebundo se desate,
E em seus fundos abismos ruja o mar!

Não importa que em louco torvelinho
Se despenhe tremenda a catarata,
E cubra com o seu lençol de prata
O plaino e o bosque até ao seu confim.

Sob o pé do viageiro audacioso
Não importa que a terra trema ou ceda,
Que não encontre rasto nem vereda
Que da viagem o conduza ao fim.

E avante seguirá, e sempre avante!
Cruzando sempre com crescentes brios
Selvas, desertos, páramos e rios,
Que absortos deixam a alma e o coração.
O sol a prumo lançará seus raios
Mas vão será que ao viajor assaltem
Que incendeiem o ar, e na erva saltem
Suas línguas de fogo em rebelião.

Ele impassível cruzará os braços,
E ainda que um instante o aterre o fogo,
O seu olhar altivo e firme logo
No espaçoso horizonte cravará.
E entre nuvens de cinzas escaldantes
Pisando a terra que inda ardendo acha,
Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha
E atrás das chamas para diante irá.

Avante sempre!... Fétidas lagoas,
Negros vapores que só morte exalam,
Vampiros que com sangue se regalam,
Insetos vis de peçonhento fel,
Serpentes que anunciam-se ferindo,
Magros tigres da selva nos horrores,
E que da lua aos trêmulos fulgores
Rugindo se aproximam em tropel;

Bárbara tribo que se oculta infida
E ao cristão vingativa morto deixa
Com a veloz envenenada flecha
Que silva, fere, passa e não se vê:
Nada amedronta nem detém o forte
Varão no seu caminho agro e divino;

Pode prostrá-lo ali o seu destino...
Mas não forçá-lo a desviar o pé!

Um impulso secreto, um misterioso
Instinto que seus passos firme rege,
O arrebata, o impele e o dirige
Para a sua missão, triste ou feliz.

E cai, e se levanta, e cai de novo,
E outra vez se levanta inda mais forte,
E segue sem temer para o seu norte,
O peito sossegado e alta a cruz.

Talvez por prêmio do afã seu, ao grato
Porto da sua ansiada esp'rança chegue,
E que ao vindouro o seu nome legue
Coberto de uma auréola divinal.
E talvez o demônio -cujo esforço
E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba-
Dê à sua ânsia prematura tumba
E ao seu nome o olvido perenal.

Deste modo é a glória!... os que a perseguem
A juventude imolam-lhe nas aras,
Ditas, prazeres, e quimeras caras,
Quanto entesoura a alma e o coração.
Assim somente se fecunda e brota
E se entreabre seu espinhoso lírio;
Porque a glória é, ou nada, ou o martírio,
É do anjo proscrito a expiação!

Enquanto o homem vive, ela lhe pede
A seiva toda da existência sua,
E faz que ardente sem cessar reflua
Pela frágua do tempo o seu porvir -
O porvir que não chega senão quando
A alma quebra a escravidão terrena
E se levanta à região serena
Entre nuvens de rosa e de safir.

Vem a glória depois, a virgem casta,
Que foge do homem quanto mais a implora,
E em seu sepulcro se lhe entrega e chora
Porque vivendo lhe negou o amor:
A terra beija que seus restos cobre,
E o puro pranto que abundoso verte
Em luz e aromas e lauréis converte
O lodo vil que só causava horror.

Alexandre Magariños Cervantes-Tradução de Fernando Pessoa

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Mario Benedetti & Ivo Barroso & Eric Ponty

 

Caro Éric,
Poderíamos fazer um acordo, está todo mundo comentando que sua voz poética faz sua tradução seja melhor que original, sendo que você vai criar um incidente diplomático com meu amigo Mario Benedetti. Me prometa que você nunca vai traduzi-lo.
Do amigo 
Ivo Barroso

Eleger minha paisagem

Se eu pudesse escolher minha paisagem
de coisas memoráveis, minha paisagem
de outono desolado,
eu escolheria, roubaria esta rua
que é anterior a mim e a todos.

Ela devolve meu olhar inútil,
o de apenas quinze ou vinte anos atrás,
quando a casa verde envenenava o céu.
Por isso é cruel deixá-la ao entardecer,
com tantos varandões como ninhos solitários
e tantos passos como nunca esperados.

Aqui estarão sempre, aqui, os inimigos,
os espiões traiçoeiros da solidão,
as pernas de mulher que arrastam meus olhos
longe da equação de duas incógnitas.

Aqui há pássaros, chuva, alguma morte,
folhas secas, buzinas e nomes desolados,
nuvens que crescem na minha janela
enquanto a umidade traz lamentos e moscas.

No entanto, existe também o passado
com suas rosas repentinas e escândalos modestos
com seus sons duros de uma ansiedade qualquer,
e sua insignificante coceira de lembranças.

Ah, se eu pudesse escolher minha paisagem,
eu escolheria, roubaria esta rua,
esta rua recém crepúsculo,
na qual revivo ferozmente
e da qual sei com estrita nostalgia
o número e o nome de suas setenta árvores. 
Mario Benedetti


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Irrompa infindamente
Do meu lábio amante, alto, numa explosão,
Mental, duma só vez este degredo ardente,
Assim tal qual um vagido, assim tal qual um clarão!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Ô Verbo tão imanente
Que fez Chama! Ô doce e terrível confissão!
Ô médica me indica atroz da cura da morfina,
A cor que vem do Azul varrendo a Noite em frente,

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Que senhora irradia,
Desta chama idéal que anda a queimar, à toa,
Silêncio! Traços meus... parai vossa Harmonia!

Presente voz deste Amor que me enleva e me aterra!
Do meu poema à minha Alma, indômita, revoa,
Tal qual um raio de sol que prende o Céu à Terra!

 
II
 
Para as morfinas de dores gelados
São ânsias e os socorros vão partindo,
Fúnebre azul, siderais convidados
De margens alvas a amplidão vestindo...

Num fúnebre de cânticos plantados
As ferinas, as citaras ferindo,
Passam, das margens nos troféus herdados,
São asas doiro finamente vão abrindo...

Dos etéreos turíbulos de igrejas
Claro incenso aromal, límpido seja,
Ondas nevoentas regiões levantam...

São as ânsias e os fúnebres infinitos
Vão com doiro anjo formulando mitos
Da Eternidade que erguem flores cantam...
 
III 
Morfina almas, sacra irmã gloriosa,
morfina irradiação do Sofrimento,
Quando surgirás no Deslumbramento,
Tão perto em mim, no pascer dor radiosa?!

Tu que és a foz da Mansão em coisa,
Pascer do estimado Encantamento,
Do signo astral do radioso Pensamento
Zelando eternamente a dor chorosa,

Morfina almas, meu rezar amigo,
Véu celeste, sacrossanto que digo,
Da morte e constelada vastidão,

Entre os teus laços de eternal fúcsia,
Pascendo e rezando em foz de delícia,
Do pascer te alçarei na Eternidade?!
IV
 

Tal qual serpente enorme, então natureza
Enroscava-se minha alma tão fria abatida:
Que se assobiava azul do céu tal qual vida,
Na morfina onde há sombra, o ar úmido e tristeza.

Enquanto gelo tal qual um ferro agudo buído,
Adestrava-me a sombra, sonho inquieto e aceso,
Arranjava um jazido, uma chama, página lido,
Na intimidade ideal de um jazido inglês.

Eis que próximo a mim, surge, irrompe, fulgura,
Tal qual fugida a um quadro, uma alva figura,
Tal qual só que Portinari sabia pintar.

Tal qual fronte gentil punha apenas de fora...
O meu corpo voava arrebatando a aurora,
Um furacão de azul levava-a pelo ar.

Eric Tirado Viegas (Ponty)



A Estátua de Sal Sacra - Eric Ponty

 

 

P/A N T O N I O C A R L O S S E C C H IN

Invés tal, ri, num rio de tormenta,
Como um artesão, que desengonçado,
Nervoso, ri, obra rio absurdo, inflado
De uma ironia e de uma flor tão benta.

Da paisagem atroz, sanguinolenta,
Pulsa os cinzeis, e convulsionado
Obra estátua de sal salta, varado
Pelo existir dessa agonia agenda...

Pedem-te obras artesão não se despreza!
Vamos! Retesa as estátuas, retesa
Nessas macabros azuis do céu d’aço...

E embora saias sobre o sal, fremente,
Afogado em teu sangue estátua a fronte,
Diz, existir movimento que traço.

 Eric Ponty

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Dois Poemas de Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 Quer meus versos, rainha de olhos briosos e doces!
Infeliz, sabes muito bem que, com os cães ínvidos,
Os críticos rancorosos, com lábios franzidos,
Que perdem em farrapos as estrofes dilaceradas,
Toda a pálida raça com a fronte amarelada de fel,
Cujo fel é o luto eterno pela prosperidade alheia,
Eu ladro com toda a força, e mais alto que os outros.
Ó poetas divinos, não sou mais um de vôs:
Fizeram-me um nicho onde fico à espreita,
No rodapé do jornal, qual um cão agachado;
E há muito tempo, no altar da minha alma,
Derrubei a urna de ouro onde brilhava a chama.
Para mim, não há mais primavera, nem arte, nem sono;
Não há mais quimeras loiras com sorrisos rubros,
Nem pombas privadas, de pescoço alvo e pés rosados,
Que bebem da minha taça e pousam no meu dedo.
Minha poesia está morta, e eu não sei mais nada,
Exceto de que tudo é feio, exceto de que nada é bom.
Eu encontro, por natureza, o mal em todas as coisas,
Dessas manchas do sol, o verme de cada rosa,
Triste enfermeiro, vejo os ossos sob a pele,
A cortina por dentro e o reverso do véu.
Assim eu vivo. - Como a bela musa antiga,
Erguida sob as longas pregas de tua túnica alva,
Com cabelos negros em duas ondas abertas,
Como o palato de flores douradas estreladas,
Sem ferir os pés com esses cacos de vidro,
Poderia ela descer até mim nessa terra?
Mas as belas sempre são intensas sobre nós:
Os leões botam focinhos ruivos sobre as patas.
O que a Musa de grandes asas não faria,
A Virgem aoniana de graças eternas,
Com teu doce beijo e a glória em recompensa,
Fazes, ó rainha! E em meu coração surpreso
Sinto brotar os versos e, toda alegre,
Abrir-se numa flor a rima brotada!


A campainha matinal enfim tocou a hora

Em que as pálidas, que um dia muito vivo toca,
Perto da sílfide que dorme vão deslizar sem ruído
No coração dos nenúfares e das belas da noite;
Giselle desfalecente com tuas poses suaves
Lentamente ofuscar-se sob teu sudário de rosas,
E não se vês mais do fantasma encantador
Do que uma pequena mão aberta para teu amante.
- Então aparece, tal qual caçadora soberba,
Arrastando teu veludo sobre o veludo da grama,
Um sorriso na boca, um raio nos olhos,
Mais fresca que a aurora que desabrocha na borda dos céus;
Bela com teu olhar azul, tua trança dourada,
Que a Grécia teria adorado em teus altares alvos;
Mármore puro de Paros, que as Graças, em coro,
Em teu grupo admitiriam como quarta irmã.
- Da floresta mágica fulgurando a abóbada,
Uma luz viva se espalha, - e duvidamos
Se o dia, que renasce em teu brilho vermelho,
Vem de tua presença ou se vem do sol!
Giselle morre; Albert, perturbado, se eleva,
E a realidade faz o sonho ofuscar-se;
Mas em atrações divinas, em casto prazer,
Que sonho pode valer tua realidade!
Sim, Forster, eu admirava teu ouvido divino;
Me entendeu bem, do elogio sendo então óbvio:
Como ela é encantadora de se ver nas faixas sinuosas
De teus cabelos ingleses tão ricamente dourados!
Nunca Benvenuto, deus da cinzelagem,
Traçou sobre a prata um niello mais fino,
Nem na alça de um vaso enrolado de ornamentos.
Com contorno mais gracioso e um sabor mais fascinante!
Desabrochando no canto da tua têmpora azulada?
Ela parece, em meio à tua brancura de alabastro,
Uma flor viva, uma rosa de carne,
Uma concha retirada do mar!
Como em um mármore grego, ela é reta e pequena,
E o molde foi tirado daquele de Afrodite.
Abençoada a joia que, com teus lábios de ouro,
Beija teu lóbulo rosa, - e mais feliz ainda
Aquele que pode derramar, ó favor sem igual!
Nos contornos perolados de tua concha vermelha,
Tremendo de emoção, empalidecendo, perturbado,
Uma palavra misteriosa, ouvida tão-só por ela!

Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

LA CHIMÈRE - Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

Uma jovem quimera, lábios da minha taça,
Nesta orgia, deste do beijo mais do doce.
Ela tinha olhos verdes, e até tua garupa
Ondulava em torrente o ouro dos cabelos ruivos.

Nesta asa de gavião tremiam nos teus ombros;
Ao vê-la voar, me saltei sobre tuas costas;
Fazendo-a dobrar colo de salgueiro até mim,
Enfiei minha mão qual um pente em teus cabelos.

Ela se debatia, lhe gritando e furiosa,
Mas em vão. Abatia flancos com meus joelhos;
Então ela me disse com tão uma voz graciosa,
Mais clara a prata: Mestre, para onde vamos?

Além do sol e além deste espaço aonde Deus, 
Só chegaria qual após da eternidade;
Mas antes chegarmos fado, asas jazerão cansadas:
Pois quero ver do meu sonho se tornar fato.

Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Requiem para mim - Eric Ponty

 

Eric Ponty & Ivan Junqueira 

Requiem – Officium


O nó ardente ao mal, minha longa espera,
sombra e um laço contados, me vi unido,
a Morte soltou, e tal peso eu nunca senti,
Nem se acredito que morra de dor.

Não desejando Officium fosse aceito,
Pequeno laço me deixou estendido
E em nova oferta de outro fogo aceso,
para que assim não pudesse escapar.

Desejo não tivesse me lembrado,
preso no laço teria ardido logo,
tanto mais quanto sou lenha mais seca.

E mais uma vez, Morte me libertou
Sendo desfez o nó, e apagou do fogo:
contra o qual não vale astúcia e esforço.

 
Requiem - Kyrie Eleison

Senhor Deus, Misericórdia meu holocausto,
Para os terrestres Kyrie Eleison no mármore,
Ver nem onde sentisse só tão livre,
Nem tantas queixas dessa paixão ouvisse;

Nem vale que oferecesse mais lugares
onde, para chorar, eu me escondesse;
Nem imagino que em Deus tivesse o Amor 
Ninhos tão suaves, nem em qualquer margem.

As águas, as brisas, galhos, as aves, 
Dos peixes e as flores, e a grama, e, falam
Implorando que ela arda em chamas vãs. 

Mas, que do céu me reclama, memória 
Dessa morte amarga, implora eu evite 
Azuis tramas mundanas, de vãs tranças.
 
 Requiem - Dies Irae

Mil vezes, aí, no meu amado refúgio,
fugindo de mim mesmo Dies Irae pessoas,
com meu choro banhei então dessas ervas
desse meu suspiro ardente quebrou o ar.

Mil vezes, tão desconfiado, me escondi,
entre sombras, procurando com mente
desse prazer que da Morte me tirou,
Aquele costumo chamar com frequência.

Ora na forma de Narciso ou de outra
que no fundo d´almas está morando
Sai para descansar em uma margem,

ora eu a vi, que pela grama que andando,
E, pisando flores como uma alma viva,
E em teu aspecto dó de mim lhe mostrando.
 
 
Requiem – Offertorium

Que Alma feliz que tanto a mim vieste,
Consolar minhas noites dolorosas,
com olhos que a Morte tornou mais vivas
do Offertorium que teu o olhar humano:

Agradeço-te porque ao meu peito ferido
permitiste curar-se com o teu olhar!
Assim, voltam a estar mesa presentes
as tuas belezas onde antes brilharam.

Onde te cantei pelos muitos anos,
agora, quão vês, estou lamentar:
não chorando por ti, por meus danos.

E consolo para minha ansiedade,
Te reconheço, quando voltas, vendo
teu andar, tua voz, teus olhos, e trajes.
 
Requiem – Sanctus

Sanctus, tu descoloraste o rosto sacro,
e desses olhos mais lindos apagou;
à alma que mais se inflamou então em virtude
tu soltaste desse nó mais gracioso.

Tu roubaste, repente meu glorioso
bem, e teu doce sotaque silenciou,
pelo que me lamento atormentado
Em tudo o que ouço e vejo então me é odioso.

Mas regressar consolar tanta dor,
para onde a Piedade conduz tua alma:
E outra ajuda minha alma nunca espera.

E se como ela fala, e ao falar brilha,
pudesse dizer, faria arder desse amor,
não direi de homem, coração de Sanctus.
 
Requiem - Agnus Dei

Tão rápidos são o tempo e o pensamento
que me devolvem minha amada morta,
que nenhum remédio consegue me cura:
mas nenhum mal sinto enquanto a vejo.

Mas o Amor, de que em tua cruz me atormenta,
De então tremer quando a vê junto à porta
da alma que me mata, ainda tão de alerta,
É doce à vista e de acento tão suave.


Como Agnus Dei ao teu abrigo, altiva vem,
do coração sombrio e grave expulsando,
Fronte serena, o pensamento triste.

A alma, que teus olhos não suportam,
«Bendita a hora», diz imo suspirando,
«que abriste este caminho com tua luz!»
  
 
 Requiem - Lux Aeterna

Se aquela suavidade com suspiros,
Daquela ouço, for minha Lux Aeterna
– Que, embora agora esteja no céu, 
que vive, sente e anda, ama e respira –

pudesse retratar, sei minha lira
comovesse tão zelosa e piedosa
regresse para mim, teme que na passagem
eu possa me perder, e cuida da minha alma.

Me ensina a seguir em frente; e eu, que entendo,
ditos com murmúrios baixos e piedosos,
Tuas súplicas e cândidas ternuras,

Devo cumprir tua lei; que é tua piedosa
Benigna palavra, se bem compreendo,
É capaz de enternecer pedras mármores.
 
Requiem – Lacrimosa

Ar de suspiros eu enchi, Lacrimosa,
Montanha para a doce planície,
onde nasceu aquela que tinha em mão,
Se meu coração em flor, e já maduro,

E quando, subindo ao céu, alma me deixou
de tal forma que, em teu abrigo distante,
procurando com meus olhos, sombras
ao meu lado não restou nenhum seco.

Não há pedras nestas montanhas serras,
nem nestes campos ramos ou folhagem,
nem flor nestes vales, nem folha ou erva,

nem brota gota de água destas fontes,
nem há fera nestas florestas tão feras,
que ignorem esta dor dessa tão amarga.
 Requiem – Epitaphium

Como é o mundo! Agora acho ameno,
o que mais me irritava; e vejo que sinto,
que, para minha saúde, tive tormento,
Breve guerra para uma paz duradoura.

Ó esperança, ó desejo, tão variável,
Mais ainda pensamento Epitaphium!
Quão pior seria auferir aleluia
daquela alma que está em glória perene!

Mas crido cego, minha mente surda,
Desviaram tanto que, por força viva,
Me empreendi a corrida morte.

Abençoada aquela que pra ribeira
voltou meu curso, e meu desejo ardente
com elogios freou, pra que eu não feneça!
 
ERIC PONTY
 
 
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sábado, fevereiro 14, 2026

Senhor Deus, Misericórdia - Eric Ponty

Uma chuva amarga fúcsia escorre em meu rosto
soprado vento de suspiros angustiados
se olhos se voltarem pra olhar tão-só pra ti,
por quem estou separado da humanidade.

Não há equívoco teu sorriso doce e aliviado
acalma o ardor de todos os meus desejos
me resgatando deste martírio ardente
enquanto mantenho meu olhar fixo em ti;

Mas então meu ânimo de repente esfria
quando vejo, ao partir, ditas predestinadas
desviando teu movimento gentil da minha vista.

Liberada, enfim, por duas chaves amorosas,
E alma abandona o peito para seguir ti,
Perdida em pensamentos, ela se afastou.

Eric Ponty

 
 
 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Contemplar Estrelas - Eric Ponty

 P/ Olavo Bilac

 Os ruídos nuvens exalaram pompas, 
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte logros! 
pascer do sempre mármore do raro! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Ó templo, anima abunda despejar! 
Acedem douros climas que dá treva, 
Das friezas das minas, quisto os transcreva.

ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA