P/Samira Agostine
Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que fardo? Quem mo diria?
Porventura estaréo em mim atentando?
Se terão na Samira, como ou quando
Deles me vim tão hoje de alegria?
Ou se estardo aquele alegre dia
Que torne a vê-los, fronte figurando?
Se contarão as horas e os momentos?
Se achardo em Samira muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?
Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência teus doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!
II
Samira sou, Senhora, neste engano.
Tratar dele consiga é escusado,
Que mal pode de vês ser enganado
Quem de outras como vês tem desengano.
Já sei que foi à custa de meu dano
Que sé no doce dar tendes zelado;
Mas pera como eu sou de vês julgado,
Mui vãs são as esp’rancgas deste ano.
Tratei gréo tempo o Amor, e daqui veio
Conhecer Samira facilmente,
Que tal é, gentil Dama, o demonstrais.
De treslida caístes neste enleio;
Querei de mim o que eu quiser boamente,
Que no al a costa arriba caminhais.
III
Samira minha, se de pura inveja
Louvor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhares luz que o Sol deseja,
Não me pode colher que vos não veja
Nesta mão, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos verei sempre debuxada,
Por mais cruel da tarde que me seja.
Nela vos vejo, e vejo não renasce
Tão belo e fresco prado deleitoso
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Os lírios tendes fia e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem tiver só, se há tanto bem na terra!
IV
Mil vezes se mexer meu pensamento
A louvar o Alvo rosto cristalino,
Da trança de Samira d'ouro fino,
O vivo e mais que terno entendimento.
Que com meigo e suave movimento
Pudera irromper coração diamantino,
Tão graça imperante o ar divino,
A digna majestade o doce acento.
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Com pérolas de seleção orientais,
Que atroe rosas mostrais no doce rizo.
Que essa luz que olhares derramais
É o doce resplendor do paraíso,
Pois me demonstrais, e dais com claro rizo.
V
O sol é grande, caem com tua calma as aves
Da era, em tal sazão lhe soe ser fria:
Esta agora do alto então cai acordar-me-ia,
Samira não, mas vãos cuidados graves.
Samira quando quererão duros fados
Içar minha esperança tão caída;
Ou porque, se de todo é já perdida,
Arrumar podereis meus bens passados?
E tu despeitosa honra e fama,
Responde-me com tão mortal olvido,
Não tens a tanta fé algum ido!
Por amor me vi uma era já contente,
Por apego eu quis atormentado,
Então que veja meu erro tão pagado.
VI
Samira adornada de verdura,
Que esmaltavam por alto várias flores,
Então um dia a Deusa dos amores,
Com essa Deusa da caça e espessura.
Diana tomou a si uma rosa pura,
Vênus tal roxo lírio, quais melhores;
Mas então excediam muito outras flores
Quais violas na graça e formosura.
Duas perguntam Cupido, que ali achava:
Qual dentre as três flores tomaria
Por mais graça e pura, e mais formosa?
Sorrindo-lhe, o menino lhes tornava:
Todas formosas quais; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.
VII
Samira, com Esperança já tão ida,
Tua soberana Sombra visitei:
Por fiança do naufrágio que alcancei,
Em recinto dos vestidos, pus Vida.
Que mais queres de mim, pois extinta
Me tens a Brasão toda que lhe arrumei?
Não vigies de render-me; que não sei
Volver a entrar-me onde não há foz ida.
Vês cá a Vida, e da Alma, e a Esperança,
Doces espólios de meu bem passado,
Em quanto o quis aquela que eu choro.
Nelas podes vestir de mim vingança:
E se te anseias inda mais vingado,
Agradar-te co’as fúcsia que lhe choro.
VIII
Descalça vai para a fonte
Samira vai para a fronte
rosas pela verdura;
Vai teimosa e não se atura.
Leva na cabeça o mote,
O texto nas mãos de prata,
Carta de fina escarlata.
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha na sorte.
Mais alva que a neve pura;
Vai teimosa e não se atura.
Encontra a touca a garganta,
Cabelos douro o trançado,
Fita de cõr de encarnado,
Tão linda que eu mudo espanta;
Chove bela graça tanta
Que dá graça a formesura;
Vai teimosa e não atura.
IX
Estava Amor seu arco guarnecendo,
Samira em fogo as setas temperando,
Cercadas de Amores, uns tecendo
A corda, outros a aljaba cruel dourando.
Nos floridos prados vão recolhendo,
Outros mil flores, que todo ano florescem,
Das quais ó filhas, e às capelas tecem.
Nunca vistas no Mundo, nem cheiradas
As flores são, que Amor para si faz.
Dumas o liquor frio, em que banhadas
As outras são, quando as do fogo esfria,
Uns formosos Amores, que debatem.
Em todas cruel, em todas espantoso.
Samira, nas segundas temerosa.
X
Outras horas, Samira, te aguardava:
Outras se desviam.: ó triste, ó triste!
Enganado, nascido em cruel signo.
Quem me enganou? Ah cego que não cria.
Enganas, Samira! Mas só quem creras.
Tais olhares cerrados para sempre,
De velos já não de ouro, mas d’almas,
Àquelas mãos tão frias, e tão cruas.
Quem antes via tão alvas, e, fermosas,
Aqueles alvos peitos tão trespassados,
Desses golpes cruéis fúlgidas horas.
Aquele corpo em sombras tive em braços,
De tão vivo e formoso em flores pálidas,
Penhores divos, ó meu pai cruel!
XI
Senhores teus então seus sós,
Tu, porém, não vias neles tão só,
À margem tão são ó minha luz Diva,
Já não me escutas? Já não ti hei de ver?
Já te não posso deparar toda à terra,
Chorem esse meu mal comigo m´ouvem,
Pranteiem terra dura tua espessura,
Nos homens s´achou de tanta da crueza.
Cubro-te então da crueza perfaz terza,
Nunca ria de si mesma, cá me m´ouvem,
Ajudem-me pedir Justiça do céu.
Com novas crueldades tua morte,
Lhe fiz margem Samira, hei fiz à margem,
Par´isto me dá, Deus somente à vida.
XII
Quantas penas, Amor, quantos zelos,
Quantas gemem tristes sem direito,
De que mil vezes viste, vulto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz dos velos;
Justos mortais perpétuas derramados
Do espírito por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, enfim, tu me tens feito,
Todos porão em mim bem pranteados.
Ao todo satisfaz (confesso-nisto)
Nesta só vista em branda e amorosa
Samira cativou minha ventura.
Flor sempre para mi hora ditosa!
Lhe posso temer já, cá tenho visto,
De tanto gosto meu, tanta brancura?
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA