Aquela que só comunica com as luzes e janelas mora no 3 andar quando surgirá para mim
I – Oferta de paixão
Sabe, acaso, o que é paixão? – É um pouco de espera,
É fragmento de um ser que vão diz o que pensa.
E o poeta? É um fazedor, de coração que sente,
Cuja alma para a lide é sempre incompreendida.
Pois bem, vou lhe dar paixão, e do simplesmente
Neste verso que escrevo e jamais será foi dito…
Quando, a sós, ficar disgra, e estiver esquecida,
Lerei-o que eu distante hei de ser devoto.
Já sinto – e não sei bem lhe recompensar quê,
- Que se um dia você me acende-se apenas na luz
Feita de mim qual eu já quero um pouco de você.
Mas pode ser mentira… É bem gostar portanto
Que você me ilumine apenas janela
Se não quer ser comigo uma grande decepção.
II – Tatuagem a tua sombra
É por muito te querer que não quero mais viver;
Sou mísero, artista… e lhe estimo a nobreza;
Agora, tu és luz, e habitas a riqueza,
- por que ilude em mim?... Busca por outro então parte…
Este louvor eu sonhei, é um símbolo de se parte,
- é o mesmo devoto à sua singeleza…
Falo eu, mas somente, - eu faço essa certeza –
No soneto fizer julgando pintar-te a consagrar.
É um sonho… uma quimera…uma ilusão dar-te,
Que não pode lide…que o tempo irá apagar,
Feito a estrela que risca e não se avisa.
Não iluda mais em mim… Busca então um outro alarde!
Há uma desdita entre nós… Tu não podes me falar
E é por muito te adorar que quero então aceitar-te.
III – Expectativa e espera por ti
Espero-te… E sei bem que eu só que te aguardo…
Cá tu me tens… Constante e eterna é minha espera…
- Por que hei sofrer assim sempre devoto e sincero
Por mais que expectativa eu lide, e a vida eu arda.
Chegarás… E lerás uma resposta esquiva
Ao que indagar-te…E eu que tanto desejo
Renderei outra vez disgra à palma, cativa,
- enquanto iluminarás feliz… desespero…
Há um imenso poder na sua maturidade,
E esse seu ar de mansa tortura e meiguice
Estraçalhar-lha ao seus pés toda minha lealdade.
Que fazer? Hei de sempre perdoar suas luzes…
E se aguarda, nem sei… Olvidando que disse então,
Sou eu enxugar o pranto e ainda proponho minha alma.
IV – Agonia sem ti
A luz do nosso louvor, pressenti, na agonia,
Das suas falas, rápidas, e luz amiúde,
Se eu tantas, com o fardo imenso te escrevia,
Tão roucas me aproximavam reposta apenas.
Soneto que a sofrer, te tatuo agora a margem,
Adiava a fatalidade sempre, dia a dia,
Buscando então iludir em vão meu sofrer
Muito amiúde eu soubesse quanto me iludia.
Hoje… Já não foi mais lindeza para mim,
Dizes, ( feito quem tem piedade), que é fazer
Não continuarmos amiúde… E tens razão; afinal.
Há muito eu a esperava e pressentia o ar…
Fez-se! Que hei de iludir? Agora seria a lide
Se ela não viesse nunca…e eu ficasse te aguardar.
V – Prece feita para seu colo
Em seu calmo semblante e em seu olhar estático,
Há iludido, - bem sei, - um mistério de outrora,
Quem sabe que pecaste…e eu fui seu pecado,
Que te fez olvidar que és soberba e és mulher.
Hoje és sacra… Horas quem passaram, - é o passado,
- dela já não terás uma efígie sequer…
E sua flor que se tornou funesta e amargurada,
Sepultar no silente… e em seu árduo mister…
Mais à frente está a lide… a lide humana e formosa!
Sua ausência é uma prece; seu passado: Conjectura,
Seu futuro: um rosário sacro, altar, uma vela.
Evadida do fundo, - ao ver-te, à luz noturna,
- não sei se te admire à renúncia suprema,
Foste lastimar a sua imensa covardia.
VI – A GATA – I
Este meu verso inteiro seu, aparta,
Que ele traduz gata em humilde glória,
Letra por letra, estranha trajetória,
Miado nossa afeição ciumenta e cara.
Beijos, afagos, sonhos… Nem fizera
Tanto miado afinal na coxa história…
E esta letra, é alegre dedicatória
Onde a minha gata inteira se declara.
Aparte este verso… E encontrará então
Sua afeição de gata miando e rosnando,
Feição sorrindo qual minha emoção.
E se dizer mais finda quando a sós,
É feito se estivesse engatinhando
Miar de gata com a sua própria foz.
VII – A GATA – II
Se esse olhar seu no meu verso, imerso,
Procurarem diversas gatinhas,
- não tente detilhar: mil emoções
Nós as temos miados sós, todo rosnado.
Os meus rosnados cá existe apartados,
Feito a língua sapeca e as dimensões
No véu íntimo de suas ilusões,
Grunhidos fel interior partilhado de olhos.
Não procures uma gata surpreender,
- A língua que uma lambida desnuda,
Dizer outras, aceitam, sem carinhos.
Umas, são dizeres…Outras, ao contrário,
- No mistério da lida as contas formam
Cascatas que são mágoas de seu rosário.
VIII – Aos seus pés de rainha
Aguarda-te… E sei bem que eu lhe aguardo,
Cá me tens… Flagrante e eterna expectativa,
- Por que hei de ser sincero na perspectiva,
Por mais iluminado eu seja por sua imagem.
Chegará enfim… E terás a mim sombra esquiva,
Afinal te indagar… Eu que tanto te sonho na lide,
Hei dizer novamente a minha fala cativa,
- enquanto indagarás pura… e eu desespero…
Há um imenso pudor nessa sua sinceridade,
E esse seu falar de imensa ternura de fêmea,
Estraçalha na sua língua toda minha imensidade.
Que dizer? Hei de sempre ressoar o que dizes,
E ti aguarda, nem sei… Olvidando seus pés,
Sou eu aguardo o fardo e ainda medito te bainha…
IX – Iluminado por ti
Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
Está própria passagem jaz tão benta,
Dir-se-ia ter a flor, tão consumida olhar,
Quando flosrece em pétala junto a mim.
É um clarim a soar feito um paraíso,
Misto angelical e de deslumbramento,
Sei o que é louvor, fruta amor…porque aparto,
É apartar a ternura que nasce em pétala em mim.
Beijo-te instante às mãos em flores indo beijar-te,
Na dupla comoção (jaz lenta a ternura)
Em que meu olhar inteiro se reparte.
- já perceber em meu estranho acalanto,
Que há uma fruta entre o interno e fraterno,
Entre um demónio e o ardor do pastor em flor.
X – Epifania
Seus seios… Quando os sonhos, quando aparto,
Nessa ânsia dos seus peitos incontentado,
- são aureolas de anjo envolvendo as santas,
Florações róseas duma carne em louvor.
E das manhãs… quando afinal entre efígies,
Das paisagens do leito então soltam nus,
- pintam, não sei, dois fartos girassois,
Hóstia ostenta a dizer dois sermões.
- Na primavera ardente dum louvor,
Que existe para nossa una comoção,
Procura à sombra e perseguindo à luz.
Túmido entre flores sensuais ao luar,
Feito duas cerejas presas as árvores,
São dois pomos de louvor de carne.
XI - Quem lhe disse que sua ausência dormita
Quem lhe disse que sua ausência pausa olvido,
Mal soube louvar, porque se louvar soubera,
(Ausência que faz sua) morte que não aparta,
São conjecturas dum louvor desconhecido.
Poderá se olvidar que estou ferido,
Pela mecha traçoeira, quando se aparta,
Cheirar ao acaso a caixa de boceta,
Essência da alma furor penetrante.
O veloz animal a sebe então partido,
A fruta nos apara a chaga que se deleita,
Por ti foi deferida a exaustão da ausência.
Não apartas, pois em ver-me assim flexado,
Que a ferida então consumida pelo louvor,
Queima, e em qualquer chaga, será ardida.
XII – Com vosso amar
Tal vosso amar é uma vela arder ignorante,
Qual vosso amar chama apartar mais prudente,
Tal vosso amar se absolve envolvente dissolvente,
Qual vosso amar faria o mais constante.
Tal vosso amar falante sendo galante,
Qual vosso amar é freira culpada insolente,
Tal vosso amar é chaga humilde e arrogante,
Qual vosso amar é louvar displicente.
Tal vosso amar luzido e obscuro,
Qual vosso amar é nata que então pano cobre,
Tal o vosso amar é custo do mais iníquo.
Tal vosso amar é dizer o que é mais puro,
Qual vosso amar nobre o que é mais obre,
Tal vosso amar é sobre o que é mais louro.
XIII – Duma Lírica Portuguesa
No regaço de amor quase estava,
Dormitar tão formosa se atrevia,
No coração que mais isento dizia,
Que sua própria fala de amor matava.
Ela em olhar a luz contemplava
De quanto esquiva o mundo reluzia,
Tudo, porém, pensando lhe dizia
Que todo aquele fel ela o causava.
Sonhava que, graduado em seus louvores,
De saber de ambos mais atreve a Ventura,
Assim teve a dúvida aos senhores.
Se bem me ferem sempre então sem ter cura,
De menino os ardentes louvores e pendores,
Mais me fere efígie de sua formosura.
XIV – Ausência sua e dos seus lábios
Não fales que não sofro – meu sofrimento
Profundo com um motivo nos lábios mui vez afago,
Da dor – é feito a pedra que vai – cai pro fundo
Sob a face amena e serena e tranquila efígie.
Um instante de puro douro – um segundo,
Mui vezes me basta, e já me dou pelo seu afago,
Se inveja, invejo aquele que não jaz tão fundo,
Tem mundos para além dolhar ardente de afago.
Que eu não faço a dizer que afago e me atormento,
É sofrimento a gente maldizer-se à toa agora,
Sendo viver essa lida entre lento e um lamento.
Já, não! Ei sei que sofrer, mas apartar – que importa,
Desta hora de dizer aos homens que fundo é belo,
Dessa… suprema agonia… minha lida conforta…
IX – Duma Lírica Portuguesa II
Em laços baixos fui um tempo apartado,
Estrondoso castigos dos meus erros:
Ainda agora arrojando cravo os ferros,
Que a sorte, a meu pesar, tem já pensado.
Sacrifiquei a lida a meu cuidado,
Louvor não quer carneiros e nem bezerros,
Li mágoa assisti misérias, cri em desterros,
Contudo que me estava assim ordenado.
Já falei-me com pouco, dispensando zelo,
Sendo era o contentamento lastimoso,
Só por ser que cousa era olhar ledo.
Mas minha era disgra, que eu já agora entendo,
A sorte pega, e o fato duvidoso
Me esculpiram de gestos de haver medo.
XVI – Duma Lírica Portuguesa III
Quando da fera vista e largo riso,
Formando estão meu olhar mantimento,
Tão carregado sinto esse pensamento,
Que me jaz ser a terra então Narcíso.
Faço do bem feminino estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo alento,
Assim que em forma tal, segundo a lida,
Pouco bem a fazer que se alça ao siso.
Já louvar-vos, formosa, não me findo,
Porque quem possa as graças farto sente,
Falará que não pode conhecê-las.
Pois de larga estranheza sois ao fundo,
Já não é de entranhas, Dama excelente,
Que que vossa tez, tivesse céu e firmamento.
IVII - Lua de Mel
Ei-la toda de alva. Jaz aos pés intenso céu,
Feito em flores de espuma, espalhando o véu,
Neste olhar, dentro dos olhos entreabre um fel,
Carrega um bereú mais em forma bocetaria.
Jaz lábios… Ah! Na boca formosa há labor de mel,
Sendo a carícia dada em flor se enlaça em cada chão,
- e que tremor na pele, ao deixar ao papel,
No nome dá ela, o meu… o dos dois se faz então…
Quem lhe disse da lida? Lida é sonhar outra lida,
Desta passagem azul, desse enlaçado embaraço,
Faz sentir-se ao seu lado formosa e preferida.
Aos seus pés reféns feito nuvem alva ao prado intenso,
Quem falará ao seguir apoiada ao seu laço,
Não pensa em que se passa em direção ao véu.
XVIII – Gata Angorá
Jaz vi perder seu alço às alvas rosas,
Tão quase escurecer-se a clara luz
Diante de umas mostras pegasosas,
Tal Vênus mais que jamais engrandecia.
A formosura, enfim, olhei tão fermosa,
Que louvor a si mesma se diria,
Mais que temia o pensamento altivo,
Já não ser para ter clamor tão farto.
Agora tudo então está diferente,
Que faz mover os peitos ao grande espanto,
Que nasceste tal Júpiter quanto potente.
Se enfada já do fundo jazer pelo mundo,
Já às aves pousam ao céu o suave acalanto,
Mais que a ausência dela se emagrece prato.
XIV – Gata na paisagem à margem do prado
Canta, agora em louvor, que a gata pasce,
Entre às úmidas ervas sossegada nasce,
E já no alto Lenheiro encanta e renasce,
Na sacra serra à sombra recostada.
Olhares ao chão, tendo a mão na sua face,
Está para se escutar apartada do prado,
E com silente entristecido estão as ninfas,
Olhares destilando se em alvas linfas.
O prado as rosas alvas que estão tão rubras,
Sendo está suavemente apresentado,
Nestas solicitas leves e breves abelhas.
A sua cabeça se reclina ao som divino,
Com sussurro agradável então voando,
Das cândidas e pacíficas dessas serras.
XX – Fragmento do seu vestido azul
Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Sobre nós tenho olvido e hei de apartar,
Não há letra que valha uma gata de pranto,
Nem teorema que traduz essa segunda flor.
Nem escrito que se exprima o encanto em dor,
De um pedaço de véu do seu vestido azul,
Ah! Feito me parecer inútil todo quando,
Nesta lida, tenho inscrito sobre nossa ausência.
Não deveria existir o fragmento escrito infinito,
Destes gestos de alvor da luz entre três janelas,
Do louvor que me enlevo entre vãs horas de espera…
Quanto me sinto no profundo indefinido imenso céu,
Sendo que eu o acho tão grande intensidade escrevo,
Parece-me tão rouco daquilo que agora relevo…
XXI – Doçura efeito do seu desejo
Qual pensamento Ovídio desterrado,
Nesta aspereza do Prado imaginado
Ter-se de seus pesares apartados,
Deste escuro e puro nascimento.
Dos seus prados via estar nascendo,
Dos saudosos rios desse Lenheiro,
Sua alva esposa desamparada aparta,
Feito o seu natural lhes permitia beiro.
Só sua doçura musa o acompanha,
Nos prazerosos versos que escrevia,
Desta causa atirar o sentimento feito dela.
Qual a pena que com causa então se padece,
Tal muito doí a que se não merece,
Já pondo em doçura efeito do seu desejo.
XXII – Soneto do pensamento da amada à sombra
Sei que sempre é enfim, - distante agonizo,
Mil vezes que não fia, mas que ainda hei de fiar,
Perto aparte – meu Jesus!... Faço mais que uma disgra,
Que olvida-se nesta lição do instante divino.
Medito que a foz que escorre desse meu soneto a pino,
Fará soar no prado longínquo sons em tom de violino,
- e hei de deixá-la farta ao doce vinho escorrer
Dos seus lábios e da sua boca em tom fino.
Ao meu fardo, no instante, embalado emudeceu,
Já os seus lábios que afino em som violocelo,
Eu de todo do incenso que esvai dos seus cabelos.
E seremos neste soneto em silêncio jazer mudo,
Mas meus olhares enfim, serão assim sem fim,
E meus olhos em olhares puseram todo e tudo…
Te consagro na elegia
Estes versos, leitora minha,
Que ao teu deleite eu consagro,
Que só têm de bons,
Conhecer eu que são maus,
Nem deputá-los vou querer,
Nem quero recomendá-los,
Porque isso fora querer,
Fazer deles muito caso,
Não agradecido eu lhe busco,
Pois não deves bem olhado,
Estimar o que eu nunca,
Julguei que fora suas mãos,
Em sua liberdade eu me ponho,
Se quiseres censurá-los,
Pois que afinal, te estás,
Neles estou muito afinal,
Não havendo coisa mais livre,
Que o entendimento humano,
Pois que Deus nos violenta,
Porquê eu hei de violentá-lo?
De quando quiseres dele,
Que quando mais inumano,
Me medires, então
Que fica ainda mais obrigado,
Pois deves minha musa,
O mais sancionado pranto,
(que é murmurar), segundo
Um adagio cortesão.
E sempre lhe servirei, pois,
O seu agrado, não tê-la agradado,
Se te agrado tu divertes,
Murmuras senão lhe quadro,
Bem eu pudera dizer-te
Por desculpa, que não há nada dado,
Local para então corrigi-los,
Na brisa dos traslados,
Que chegam de diversos versos,
De que alguns homens,
Matam a sorte do sentido,
Que é o cadáver do vocábulo,
Que quando eu tê-los feito,
Haverá de ter sido em curto espaço,
Que padeceram então o seu ócio,
Pressões feitas deste meu estado,
Que tenho então mais idade,
E contínuos embaraços,
Tais, que dizendo isso em versos,
Levo a pluma trotando,
Porém, isto tudo não serve,
Pois pensará que eu me elogio,
De que quizá foram contudo bons,
Ao fazei-los, porém, de despaço,
Não querendo que tu creias,
Se não é que vou contudo dar-vos,
Nessa intensa luz, tão só,
Obedecer este meu mandato;
Isto é se gosta de crê-los,
Que sobre isto eu não me mato,
Pois por fim farás o que
De que puseres nesses cascos,
Sendo Deus, que isto não é mais
Dar-te à mostra desse pano;
Senão lhe agrada então essa peça,
Não me entregue essa elegia de fardo.
II
Aos vossos olhos apresenta-se amor,
este verso, por ficar do seu lado na lida
iluminado por tanto sol vindo dos seus lábios,
digno de tal divindade do seu vestido alvo,
Divirtam-se só por um bocadinho
é o máximo que conseguirá aspirar,
que fosse um grande desafio ousar ocupá-la.
Como ousar para vos servir
é uma imprudência cortês,
defendido na sua intenção deste seu olhar,
consagra-se ao vosso altar.
Com todo o respeito pelas vossas janelas,
pede, no seu disfarce,
para não vos dar motivos para especular,
mas apenas o que explicar.
Que seja lido com tanto prazer na sua mandeixa,
que, orgulhoso, se expandirá pelas horas a margem
os momentos de atenção a séculos de vaidade.
Procura-se tornar-se imortal os seus seios de azul,
que favor tão celestial é medido na estimativa
a preces eternas.
Tudo o que está contido em vós
por ter sido decifrado, dá-o,
porque não se trata de um erro na fé
propor, mas sim duvidar da minha devoção.
A atenção com que é apresentado
não espera que lhe agradeçam;
que, na vossa paixão, acreditar
Começa por não esperar minha súplica,
O respeito é tão resignado ao vosso amar
vai para os vossos altares ser devota do amor,
que a primeira oferenda é não ter vontade,
mas ter lealdade ao vosso ser.
A ousadia de se atrever não pretende desculpar,
que, ao procurar-vos, a sua razão
aumentou a sua indignidade.
Um descuido da vossa parte exige que,
porque, sendo enfim um verso assim,
para que a atenção não se desviasse
com erros decorrentes da ociosidade.
Deseja muito, pois não ignora
que, por piedade natural de ser vosso devoto
deve ter mais cuidado com o voto
mais a negligência do que a ânsia.
Mas nem esquecimentos nem atenções
Será que estes confins versos conseguirão,
porque é daquelas coisas indignas,
e vocês são incapazes de fazer isso.
Criou-vos como divindades;
mas, ao ver a vossa beleza,
uma vez que não há outra opção senão devotar,
justifica-se por não saber.
Isso leva-o a deduzir que, crer o máximo possível já,
ainda se vangloria de que é a sua face a não ser a sua teimosia.
E se, por natureza, quanto do oculto penetrais,
tudo o que é saber porque então me amais assim
já não será uma questão de adivinhar.
III
Amor estou condenado,
Á morte suave dos seus cabelos,
Por decreto do seus olhos alvos,
Na sentença atirada
Ao apelo resistindo suas mãos,
Escuta-me que não tenho por culpado,
A quiçá para confessar que seja negado.
Porque te tão informado
Disse, que meu peito seja ofendido,
Há enfim de ferro condenado,
Mas a notícia incerta, que não é ciência,
Que tenha na realidade experiência.
Sim outros créditos são dados
Porque aos seus olhares é enfim negado
Para o sentido trocado,
De que a lei ao meu colo se faz entregar,
Pois liberal me amplia os rigores,
E avara me restringe os favores?
Se então de outros olhares alvos tenho visto,
Para matar-me aos seus atirados olhares,
Se há outro carinho assisto,
Assistir-me implacável os louvores,
E se de outro amor de seus lábios me diverte,
Você que tem sido enfim minha vida dê a morte,
Se, outro alegre, hei me admirado
Nunca, alegre, me admire ou se faça olhar,
Se então lhe falei do seu agrado,
Eterno desagrado que enfim possua,
E, se outro amor, inquieta o meu sentido,
Segue-me alma tu, que na minha alma
Haverá de tê-la sido enfim minha vida dê a morte,
Mas suposto que eu morro,
Sem resistir a minha infeliz sorte,
Que me dê só quero,
Licença de que venha então vir escolher,
Eu contudo minha sorte que irá apartar minha morte,
Deixa a morte nesta minha eleição medida,
Pois, em suas mãos ponho enfim minha sorte,
Não padeça de seus rigores na minha vida então lida,
Quando de amores eu possa vir morrer,
Tu cre e eu posso enfim permanecer na margem,
Que morrer de amor, não me dê de desculpas,
Não culpado, não é menos morte, contudo, honrada.
Perdão se enfim lhe venho lhe pedir,
De muitas ofensas que lhe hei feito,
Em dizer-lhe minha amada,
Que se as ofensas são, pois são o seu despeito,
E com mui razão te ofendeu o meu trato,
Pois que eu, com querer-te, te faço ingrata.
ERIC PONTY