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sábado, outubro 17, 2026

CÂNTICO DA MORENA ALVA - ERIC PONTY

 Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu
amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento
derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
Leva-me tu; correremos após ti…

Os arrebatados se deleitam um com o outro.
Os enlevados se elogiam recíproco.
O elogio tem o poder de demudar as pessoas.
Estar junto gera admiração, esperança e alegria.
Afastamento gera frustração e medo.
O amor deve se adolescer fluente e sem coação, e a plena
familiaridade física deve esperar pela ocasião certa, 
pelo lugar certo e pela pessoa certa morena alva.
O amante elogia a beleza formidável de sua amada.
Aos olhos do amor, ele não vê nenhum defeito nela.
O prazer que sente por ela aviva sua paixão e seu desejo por ela.
Ele a respeita e aguarda sua participação voluntária em
seus momentos de amor morena alva.
A demora em atender às indigências ou aos desejos 
do consorte pode levar à separação morena alva.
Valorizar a pessoa amada motiva a reconciliação.
A confiança no ajuste mútuo traz segurança em ocasiões difíceis.
Maravilhados e tomados pelo amor, os arrebatados veem a beleza
e a excelência de seu amado como algo que supera todas as outras.
Os enlevados acham prazer em se confiarem um ao outro.
Viver de acordo com a ordem de Deus reduz a disfunção
que brota de ignorar essa habite se.
O relacionamento entre um homem e uma mulher não pode ser
forçado; ele deve se adolescer a seu jeito e no seu próprio ritmo.
Limites e obstáculos sociais podem frustrar o amor.
O amor deve ser dado livremente; não pode ser comprado.
O amor é tão intenso e tão irresistível quanto a morte.

II


Que me beije com os beijos de sua boca! 
Em verdade, o teu amor é mais doce que o vinho,
Do que o aroma do teu óleo precioso. 
Óleo de saliva morena é o teu nome.
Por isso as moças te invejam morena alva.
Leva-me contigo, vamos correr!
Leva-me para seus aposentos,  
Vamos exultar e nos alegrar em ti.  
Vamos saborear teu amor mais do que o vinho,  
Com razão elas te invejam morena alva.
Se sou morena alva e bela,  
Ó moças de São João, 
Como as lendas do Lenheiro,  
Como eram os pavilhões do Matozinhos.
Não me olhem por ser morena alva, 
Pois o sol me escureceu ao meio-dia.
Os filhos da minha mãe ficaram indignados comigo, 
Me fizeram guardiã do Lenheiro; 
Mas a minha própria vinha eu não guardei.
Diga-me, meu amado, 
Onde você se olvida? 
Onde você recolhe as luzes ao meio-dia? 
Para que eu não seja como uma mulher velada 
Dentre os Lenheiros dos seus companheiros. 
Se você não sabe, 
Ó mais bela das mulheres,
Siga os rastros das ovelhas, 
E pesteie seus pacientes
Perto das cabanas dos pastores.
Duma égua da cavalaria do Faraó 
Eu te compararia, minha querida.
Suas amuras adornadas com pulseiras, 
Seu pescoço com contas.
Faremos para você pulseiras de ouro, 
Com lantejoulas de prata.
Enquanto estava em seu leito, 
Meu nardo exalava seu perfume.
Um feixe de mirra é o meu amor para mim, 
Entre meus seios ele repousa.
Um ramo de cipreste é o meu amor para mim, 
Dos jardins do Carmo,
De fato, tu és bela, minha amada morena alva, 
De fato, tu és bela morena alva.
Teus olhos são pombas.
De fato, tu és bela, meu amor, 
Sim, agradável.
Nosso leito é luxuoso porquê há te pertence.

ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Caibo de não caber em mim - Eric Ponty

 I
Caibo de não caber em mim
e há tanto tempo lhe espero
que caibo mesmo sem caber.

Em agonia eu vivo a vida
deste sofrimento imenso
porque vivo, vivo a espera
daquela que me escolheu.
Minha angustia lhe fiei os dias,
todo o meu ser compactuei
que caibo mesmo sem caber.

Esta passagem estranha vida
de angustia, que sofro ferido
faz-me ser um cativo sem cela
e meu coração, côdea de ilusão,
de tão cativo que já sou morena,
que caibo mesmo sem caber.

Ai! Como é vazia e de sombras
este instante que perece tudo!
Estas palavras de toscos ornatos
que se perdem nos vãos do vazio!
De pensar que em silêncio ficarei,
me abre mesmo um hiato no eu
que caibo mesmo sem caber.

Como as auroras são monótonas
e os amanheceres de fúteis brilhos
nesta espera que se desvela utopia
de se saber que as coisas fluem,
que caibo mesmo sem caber.

II

Paráfrase de São João da Cruz

 Em uma noite escura d´alma,
com ânsias, em amores inflamados
eu me verti nesta ventura morena,
entre os meus sonhos desejados
sai de dentro de mim sem ser notado
estando aí minha cama sossegada.

Noites escuras e seguras d´alma,
pelo secreto onírico disfarçado,
de escuros e encerrados gritos,
estando aí minha cama sossegada.

Em uma noite escura d´alma,
em segredo, que ninguém me via,
nem olhava os horrores e clamores,
sem outra luz que me guiava morena,
senão pela qual o meu coração ardia.

Esta me guiava pela noite escura
mais certo que a luz do meio-dia,
aonde esperava ao olhar-me
quem eu bem sabia não caber,
em parte de donde nada parecia
ser esta parte perdida de mim. 

Oh noite que me guias-te n´alma!
Oh noite suprema mais que a manhã!
Oh noite que me reuniste tão pleno
amado com amada uníssonos,
musa em Amada transfigurados!

Em meu peito florido de mágoas 
que mesmo solitário aguardava
ficou adormecido na noite escura
e eu a resgatava entre os delírios
de imagens alquebradas do dia
do qual ventos do céu lhe tocavam.

O ar da tarde que me tangia
quando por mim só passou
e eu em seus cabelos me perdia
em pele tão rubra e serena 
que em mim eu não mais me cabia
e todos os sentidos me suspendeu.

Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos esquecidos.

III

Caibo de não caber em mim
De olhar a luz de seus olhos
Na fluidez de seus cabelos
Na imensidão de quando vai.

Caibo de não caber em mim
Quando fico a recitar versos
Na chegada da madrugada
De silêncios e barulhos densos

Caibo de não caber em mim
Quando te penso tão distante
Nas imagens de seus sonhos.

Caibo de não caber em mim
Na escuridão de seus cabelos
Nesta pele tão alva e morena.

Caibo de não caber em mim
Quando fico em mim parado
Nesta ânsia de te imaginar.

Caibo de não caber em mim
Quando eu soçobro no olvido
Ao sussurrar esta que não há.

Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos já sendo olvidado.

Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Invocação ao despertar da musa - Eric Ponty

 Conta-me ainda, Musa enquanto vindo
é o calmo sopro ao liquido elemento.
Não longe desse pélago é o tormento indo.
E à direita, ao nascente é a conjura do vento.
Canto VII - IX – Audição de Orfeu –Jorge de Lima

I

Pierre Thomas, não pode pintá –lá em tua extensão,
tinha mistérios demais dissimulados pela tua tez,
exausto e desiludido, solitário subtraiu-se os pinceis
e adentrou para sempre nas margens deste poema.

Pierre Thomas, buscava com paciência e ilusão,
captar o talhe do teu rosto, a tua uma descendência,
a forma primeira que nasceu por entre brancas areias
e a casa onde abrigou o teu enxuto silêncio advindo.

Pierre Thomas, ignorava, porém que não a pintar,
preservá-la entre as efígies cotidianas da manhã,
já cotinha em si, o grande elogio da arte plástica,
porque uma metáfora é senão uma representação
que se esvai decompostas as margens do tempo.

Na tela de fundo azul, fez apenas um esboço tolo,
tua tez de ouro por entre duas pombas enamoradas,
usando uma coroa de ágata e flores alvas e gris,
pensava tosco, captá-la atravessando a Ipiranga
e a rua São João numa manhã de quarta-feira,
só assim captaria toda a extensão impressionista
que deixa os modernos pintores em brancos dias.

Ignorante não perceberá, a tradição de teus olhos,
quantos Saaras feneceram-se nesta neve de areia,
os haréns com histórias que nunca foram narradas,
quantas foram às misericórdias de Deus ao teu olhar,
a vastidão do Império Egípcio, os faraós que eternos
sucumbiram ao simples bocejo de teu cansaço noturno.

Ignorante não perceberá, a tradição de teus cabelos,
estes candeeiros de ouro acessos na rotina das ruas,
que rezam sem orações místicas a angustias profanas,
cinismo asséptico de nossa era neste Éden decadente,
a flor augusta e bela nascente de tua boca derradeira
quando recita maduros poemas femininos japoneses
numa lembrança de Bashô, Buson ou mesmo Issa.

Pierre Thomas, não pode pintá-la em tua extensão,
tinha mistérios demais dissimulados pela tua tez,
exausto e desiludido, solitário subtraiu-se os pinceis,
no desejo de forma e luz que fez a tua dimensão,
este agora repousa sobre o mármore deste poema. 



È como uma flor do desejo solitária,
inteira e densa como forma que a fiou
como acalanto para coisas solitárias
sem vozes, sem redenção à tarde.

Inteira e bela como uma estátua grega,
não o pincel não a poderia elogiá-la,
perderia-se de algo aqui de inspirado
Goya talvez pudesse tê-la eternizado,
mas era um pintor de um outro tempo.

Artistas não dormem, insones, exaustos,
procuram-na entre o jardim desta época,
na tarde vazia desta soturna noite griz...

II

Tua beleza é tal feita como o amor,
onde nada lhe ultrapassam as fronteiras
onde Eva deve ter olhado-a em reflexo
para ter se descoberto como mulher.

Entre as visões do Paradiso, Beatriz,
talvez fosse a melhor delas, apagada,
diante da branquidão alada da tua tez,
não pode Dante sequer pensá-la uma,
e adentrou só e tosco a selva escura.

Os dias perto de ti devem-se parecer
como instantes soprados ao relento,
como naquela nua árvore solitária ali,
e anos passados ao teu lado, elogios
sussurrados para a eternidade voraz.  

III

Homens incrédulos da beleza, não
censurem aquela que por ser bela
floresce entre as manhãs solares,
e arrastam alguns ao desespero,
por se fazer permanente espanto
entre as acácias e as folhagens
que da noturna noite desponta
as cicatrizes e nervuras do dia.

Por entre as sinagogas ou mesquitas
muitos rezam em vão por Paradisos,
diante de ti pode ser celebrado o belo
como altar, da juventude e do amor.

Não terei sido o primeiro ser expulso,
que por um arrasado desespero lato
ficou fatigada ao insone poente a beleza
mesmo Adão, caiu por tal singeleza,
como cai uma maçã de uma macieira. 

Mesmo os sábios se perderam em ti,
com teus feixes de sombras dormidos
estas coisas denominadas de almas,
ao pensarem que havia lhe encontrado
por fim, a visão do Paradiso aclamado,
Jacó deve tê-la visto como um anjo, e
depôs abatido para que lhe abençoasse
na ânsia da eternidade dos dias calmos.

IV

Não posso imaginá-la entre as outras,
meu pensamento não lhe concebe uma
porque mesmo solitária adensa-se efígie
que se desespera por não a captar ainda
na dimensão que te faça perpetuá-la.

No último dia, quando perto do infinito,
quando tudo se postar enfim na treva
quero confundir teu colo com a sombra
onde eu possa me proteger hospitaleiro
nestes cabelos morenos e de candeeiro. 

Interlúdio para uma alma cansada da musa

          Te convido por um instante a passear comigo. Partindo daqui onde estamos e caminhando por três dias em direção ao poente, encontra-se a pequena cidade de Hafiz, esta fica situada num lugarejo perto de Ervália, onde dizem que nasceu um poeta, um exilado que traduziu um nauta de um bêbado barco.

           Em Hafiz, o andarilho pode dialogar com a alma, sem que isto seja um sacrilégio ou um mero exercício metafísico, e pode até mesmo encontrar no coreto uma banda que toca canções de Mahler ou meninas dançam roda ao ritmo de Stravinsky.

            Os habitantes são meio matreiros, pois deixam os corpos envelhecerem a vontade, mas por um estranho mecanismo, dizem que umas rezas separam o corpo da alma, falam que fazem isto quando leem livros de poesia.

             Um verdadeiro lugar onde se pode descansar, onde tudo tem uma delicadeza que deixa a aurora rubra assim que amanhece, onde a ordem não é subvertida pela desordem.

            Quando o corpo velho morre, estes adentram as metáforas dos poetas que ali passam ganhando uma nova existência, e estes surgem de repente apenas com um olho que dizem que magnetizam o outro olhar que está distraindo lendo e encanta este andarilho despercebido.

           Sei que incrédulo dirá que tudo isto não passará de meras balelas de minha parte, meras metáforas de escrevente num instante de tédio em sua noite noturna, mas por um instante você esteve comigo em Hafiz, e os habitantes te viram e já fizeram uma reza enquanto estava magnetizado...

Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA