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domingo, agosto 09, 2026

Sete anos a pobreza de Minas - Eric Ponty

Sete anos a pobreza de Minas,
Serviu a uma Pastora Princesa e bela,
Porém serviu então a cria, e não a ela,
Que então a cria só por prêmio pretendia.

Mil dias de esperança de um só fia,
Passava então contentando-se com vê-la,
Mas fr. João usando de cautela,
Deu-lhe a sombra, quitando-lhe a fidalguia.

Vendo as Gerais, que por tão lide modos,
Se lhe usurpará, a sua linda Pastora,
Quase a golpes de um traço e de diva.

Logo se arrependeram louvar todos,
E qualquer coisa amara então não fora,
tão limpo louvor tão sombria Princesa.

 Eric Ponty

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

segunda-feira, agosto 03, 2026

Ó velha lâmpada - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 Ó velha lâmpada, ó velha amiga, à tua luz
Quantos livros li, quantos versos escrevi!
Sob teu humilde abajur, quantas vezes me viste
Ficar acordado, quando o sono corava minhas pálpebras!

Lâmpada achatada e barriguda, de cobre amassado,
Como ainda se vê em antigas aparadores,
Muitas vezes ouviste confidências sérias:
Das minhas esperanças mais secretas, falei-te. 
Lâmpada, por muito tempo foste minha única amiga;
E, quando eu morava lá no alto, sob o telhado,
Só as noites passadas ao teu lado me eram doces…
E as carruagens passavam pela rua adormecida.

Quantas vezes, apoiado na minha mesa de madeira branca,
Construí existências com o teu pó dourado,
E quantas vezes compus, para quem você sabe, estrofes,
Inclinando minha testa pálida em teu círculo trêmulo!

E quando o amanhecer rosado começava a surgir,
Quando o céu, já com tons de azul esverdeado,
A aurora cintilava sobre Paris, o transeunte
Te via ainda piscando na minha janela. 
A idade às vezes te fazia divagar.
Teu mecanismo apresentava uma estranha fragilidade.
Era preciso te dar corda, te dar corda sem parar,
E girar tua chave incessantemente entre os dedos.

Mas você descia, sua malvada! E sem que eu entendesse
Por quê. Parecia que você queria se divertir.
O pavio teimava em se carbonizar.
E eu ficava furioso, achando que fosse um capricho.

Muitas vezes amaldiçoei sua excentricidade,
E seu humor, naquela época, me parecia um enigma.
De repente, você emitia um ruído de borborigmo,
E então se calava sem motivo, abruptamente.

Eis que, no dia seguinte, eu precisava retomar
A tarefa… E, alcançando-lhe insultos e desprezo,
Eu ia dormir! — Perdoe-me! Agora eu entendi:
Você se importava com seu pobre dono.

Não querendo vê-lo por tanto tempo debruçado
Para escrever ou ler, com um dedo na têmpora,
Você deixaria de brilhar… E essa era, boa lâmpada,
Sua maneira de me mandar dormir.

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

domingo, agosto 02, 2026

Dedicado - EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY


Eu amo quero que todos saibam disso,
Ó escarnecidos, ó desamparados,
São insultados pelo público covarde,
A quem chamam de fracassados!
Portanto, neste momento em que me lanço
No meio da batalha, onde vou
Bater, quebrar mais de uma lança,
Receber mais de um golpe cruel,
Onde o desejo ardente me devora
De atacar de frente meus rivais,
Sem saber ainda
O que sou, o que valho,

Penso em vocês, ó pobres coitados!
Em com quem, talvez, esta noite,
Eu compartilhe as misérias,
Entre as quais irei sentar-me;

E por muito tempo contemplo,
Para ver bem se tenho o coração forte,
Para me certificar da minha coragem,
A tristeza do destino de vocês. 
Se eu fosse, pelo ridículo
Que vos lançam, deixado em polvorosa,
Ainda há tempo de recuar:
Seria melhor para mim voltar para casa.

Mas não! Pois quero a luta.
E a sua sorte não tem nada
Que me repugne ou me afaste.
Na verdade, eu a prefiro bem mais

Do que aquelas, que dizem ser mais felizes,
Dos que chamavam de “filisteus”;
Prefiro as iguarias etéreas
Dos seus sonhos aos banquetes deles!

Se eu cair como vocês,
Se eu tiver que esvaziar os alforjes,
Bem, e daí! Serei um de vocês,
Não é verdade, rapazes? 
A vocês, então, que são alvo de escárnio e vaias,
E sobre os quais se abate o desprezo,
Ó multidão incontável, aglomeração,
Dos marginalizados, dos incompreendidos!

A vocês que foram assombrados pela quimera,
Do definitivo, do perfeito,
E que, por quererem fazer tudo muito bem,
Acabaram não fazendo nada;

A vocês que carregavam em suas mentes
Ideais sonhados belos demais,
A todos vocês, grandes poetas
De poemas inacabados;

A vocês cujas preguiças
Estão repletas de projetos tão orgulhosos,
E que são perseguidos pelos pesadelos
De temas magníficos demais;

A vocês cujo pensamento grandioso,
Grande demais, não cabia
Sem quebrá-la em uma forma,
Em um molde sem estragá-la;

A vocês, pintores, a quem desespera
A cor sempre fugaz,
Que diante de um jogo de luzes
Jogam seus pincéis de dor;

Músicos, pálidos ao ouvir
Dentro de vocês acordes maravilhosos,
E que, por não poderem reproduzi-los,
Têm lágrimas nos olhos;

A vocês que, não podendo traduzir
As sutilezas que sentem,
Preferem nunca criar,
Ó delicados, requintados fracassados!

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os entusiasmados, os loucos, 

A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os apaixonados, os loucos,
Que, sem dar ouvidos aos sarcasmos,
Triunfam em noites modestas;
A vocês, cujos entusiasmos
Gesticulam nas calçadas,
Personagens acrobáticos,
Feios, cabeludos e caretas,
Pobres dons, Quixotes grotescos,
E por isso mesmo ainda mais comoventes,
Cuja Musa é a Dulcinéia,
—Ó cavaleiros errantes da arte,
A quem a glória destinada
Talvez tenha faltado por acaso!
Sendo vosso amigo, vosso irmão,

EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

sexta-feira, julho 17, 2026

DEZESSETE SONNETOS - Eric Ponty

Foste descanso Lucas com cuidado
neste leu oceano mundo tempestuoso
não aguardes de me achar nenhum repouso
porém em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas velhas que velado,
em Teu está o tesouro mais que preciso;
se estás tu fermosura desejoso,
Vês este Senhor ficas namorado.

Se tu furtas haveres ou prazeres,
nele está o dulçor dos dulçores
que a todos te deleitam com vitória.

Porventura vivida ou honra queres,
Que ao ser honra podes ser nem glória
que servir ao Senhor bom destes senhores?


II

Gestos falsos louvor, gostos fingidos,
gestos sãos sempre limitados,
gestos grandes quanto imaginados,
acenos curtos quando possuídos;

Ainda não contraídos já perdidos,
ainda não abancados já acabados,
inconstantes, incertas, apressados,
vão surgidos e desaparecidos.

E já vos dei, e vos dei a esperança
de vos caminhar; agora só queria
convosco se abolisse esta lembrança;

que, se me lança a lide e fantesia
existir vós tão longe, mais me cansa
lembrar-me a era que vos possuía.

III
Não há amor que aporte à menor parte
tão quanto para se vê, bela Senhora.
Vós sois luzir louvor; quem devora
Tão-só tão-somente a este o engenho e arte.

Enquanto por muitas damas se lhe parte
de gentil e de fermoso em vós agora
se ajusta em modo tão que pouco fora
dizer que sois o tudo, nelas parte.

Calpa logo não é, se vou amoldar-vos,
Verem incapazes todos louvores,
pois tanto quis o Céu avantajar-vos.

Seja a luta de vossos resplandores;
e a que eles têm vos dou, só dama dar-vos
o mor favor de todos os maiores.

IV

Aquela tristeza leda madrugada,
Tão cheia toda flauta e de piedade,
enquanto houver no fundo saudade
desejo seja sempre celebrada.

Ela tão, fundo amena e marchetada
saía, flertar ao mundo claridade,
viu apartar sua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só as viu lágrimas em fio,
que de uns e de outros brotos brotados
se sobrepuseram em grande e largo rio.

Então ouviu as tão expressões magoadas
que puderam tornar o vigor frio
e dar descanso às almas bombardeadas.

V
Transforma-se do amador na causa dada,
Por amor que do muito imaginar:
Não posso logo mais te desejar,
Hora em mim tenho a parte imaginada.

Se tudo está minha alma transformada,
Que mais almeja o corpo ide alcançar?
Em si que tão-só pode descansar,
Pois com ele tão se achou desta liada.    

Mas está estrema e ingênua sem ideia.
Que que da nau acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma:

Está no pensamento reluz ideia;
E viva e pura aliança de que sou feito,
Como a tal assunto simples busca a forma.

VI
Paro por minhas aflições tão isentas
Desta compaixão ampla nem pequeno,
Que só por a pretensão com que peno
Me fica carecendo mais tormento.

Via louvor faltar tanto a tento idade,
Apimentando a farpa com veneno,
Que do pesar a licença desordeno,
Porque não me atende a ansiedade.

Porém se esta afinação o Amor pensa,
E pegar-me meu mal que com mal tensa,
Torna-me com fazer tal qual ao sol neve;

Mas vê com indisposições contente,
Faz-se avaro da cruz, é porque entende
Que porque mais me paga, mais me atreve.

VII
A fermosura desta bela dama
na sombra dos azuis castanheiros,
deste manso passear destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som luar, a estranha fera,
o abrigar do Sol pelos outeiros,
o recolher dos fados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda gera;

enfim, todo o que a fazer natureza
com tanto grande número nos of’rece,
me está, se não te vejo, lanhando.

Sem ti, tudo me enoja e acabrunha;
sem ti, perpetuamente jazo passando,
desta mor alegria, mor tristeza.    

VIII

Ah, Fortuna real! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu fardo vos mudastes!
passou o era que me descansastes;
hoje em dia descansais com os meus fados.

Falastes-me sentir dos bens passados,
para mor flor da dor que me ordenastes;
então nũa agora juntos mos levastes,
deixando em teu lugar males herdados.

Ah! Que melhor fora não então vos ver,
gostos, que assi estais tão de partida
tal ficar duvidoso se vos vi.

Sem vós dá me não ficar que perder,
senão se for desta abatida vida
que, por mor lesão minha, não perdi.

IX 

Suaves prados, verdes de arvoredos,
vivas e arejar banhas de postado,
que em vós os debuxais ao adequado,
discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres rumas, grosseiros penedos,
mesclados em contrato desigual,
sabei que, sem alvará de meu mal,
Jjá não podeis fazer meus olhos quedos.

E, pois, me já não proíbas como vistes,
não me alegrem verdores deleitosas,
nem banhas que viajando alegres vêm.

Semearei em vós alvitres tristes,
regando-vos com fúcsias tuas saudosas,
que surgirão pesares de meu bem.

X

Silente silencio, que te partiste
Tão brado fluir vida descontente,
Cá silente lá no Céu eternamente
Eu arda eu cá na terra sempre triste.

Se em dor no registro etéreo, onde existe,
memória desta lide que se atende,
não te olvides daquele passo ardente
que já olhos meus tão puro reviste.

E se atires que ao céu merecer-te
Sabe em cousa a dor que me ficou
do desgosto, sem remédio, de perder-te,

rogai a Deus, que tuas chama encurtou,
que tão ledo de cá me arque ao ver-te,
tão cedo meus olhares te elevaram. 

 II
Louva ardor zelar que sem se crer,
é uma brecha que foi, e não se crente;
é lava uma exultação descontente,
é fator desatina sem ti fazer.

É um não ansiar mais tudo rever;
é um andar despovoado entre crente;
é nunca se agradar de instante;
é um zelar que apanhar em se pender.

É que quer estar laço por vontade;
é sentir a quem ouvir, o pendor;
é com quem de olhar nos laça, cidade.

 XII
Daquela lide e de fria madrugada,
Cor que faz de de mágoa e de piedade,
enquanto possuir no fundo saudade,
aspiro que seja sempre tão afamada.

Prendê só, quando afável e marchetada
saía, oferecer ao fundo claridade,
viu se arredar de dũa outra vontade,
que jamais poderá ver-se afastada.

Prende só viu destas fúcsias em fio,
que de uns de outros olhadas derivadas
que se apuseram em grande e amplo fio.

Prendê ouviu as expressões magoadas
que puderam volver a chama e o frio
e dar repouso às almas condenadas.

XIII

Cá, Mulher Samira donde mana
Ser mulher a quanto bem do mundo cria;
cá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e cega Monarquia
vigia que um nome vá a desengana;

cá, Mulher Samira, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

Lá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, João!

XIV

Cá, Jeane Vertigem donde flana
Tal mulher a quanto bem do mundo cria;
lá laço do puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que diz de mais, tudo profana;

Lá, onde o mal se calha e o bem se flana,
e pode mais que brasão a tirania;
cá, onde a enfada e então cega Monarquia
vigia que um nome aqui a desengana;

cá, Jeane Vertigem, onde a grandeza,
com coragem e saber pedindo vão
às portas da pretensão e da vileza;

cá no carregado caos de confusão,
impendendo curso estou da natureza.
Vê se me deslembrarei de ti, então!

XV

Quantos planos, Ardor, quanto adubados,
Quantas pranteias jururus sem colheita,
De mil ocasiões olhos, rosto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz lavados;

Quantos letais perpétuas derramadas
Do peito faz por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, em fim, tu me tens fato,
Juntos formão em mi bem funcionários.

A tudo que agrada (confissão isto)
Huma só aspecto afável e amorosa
De quem me encantou minha ventura.

¡Oh de continuo mi hora próspera!
Que posso recear ja, pois tenho possa,
Com tanto gôsto meu, tanta ternura?

XVI
 
Flama prateada, que, esclarecida
Com a foz que do intenso Phebo ardente,
Por estar com natural transparente,
Em si, que brilha em espelho, reluzia,

Cem mil milhões de perdões lhe influía,
descer me appareceo o excellente
Rio de vosso aspecto, distante
Em perdão e em amor do que sohia.

Eu vendo-me tão cheio de obséquios,
E tão propinquo a ser todo vosso rio,
Louvei a maré viva, e a noite escura,

Pois nella déstes côr a meus favores:
Donde collijo claro que não posso és
De tempo para vós jaz ter ventura.

XVII
Doce sonho, plano e soberano,
Se sendo que longo tempo me durára!
Ah quem do sonho jaz nunca acordára,
Ali havia de ver tal desengano.


Ah aprazível bem! ah suave engano!
Se por mais extenso espaço me enganára!
Se então a lide tão pobre acabára,
De aleluia e de prazer morrêra ufano.


Próspero, não ficando em mi, pois tive
Repousando o acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu fadário!


Em fim, fóra de mim próspero estive.
Em calúnias ter ditado razão rio,
Pois sempre nas confianças fui mofino.

 Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

terça-feira, junho 09, 2026

A você, minha terra natal - Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

A você, minha terra natal, agradeço esta canção.
Nas montanhas Harz, no vale do selvagem Bode,
No reino arado pela tempestade do grande Wode
Está o rio de minha juventude dourada.
Vim humildemente, sem nada me faltar,
À sua maravilhosa natureza,
Você me deu tudo porque eu não desejava nada,
E sorridentemente me mostrou o caminho de sua vida.
Você abriu os olhos e os ouvidos do jovem
E me guiou com mãos de mãe fiel,
Quando nas montanhas, entre paredes rochosas,
Na solidão da floresta, eu me perdi.
No brilho do sol, na escuridão sombria,
No início da manhã e no vermelho da noite,
Nas ondas nebulosas e no brilho do orvalho
Foi você quem me ofereceu tesouro sobre tesouro.
Mais precioso para mim do que o minério precioso
De suas minas, o que você deu em abundância,
Era como a fragrância em um botão delicado,
Eu a inalei, e meu coração se embriagou.
Logo senti a bênção dentro de mim,
Que a semente profundamente afundada criou raízes,
Ela começou a crescer e a tomar forma,
E feliz com a posse, eu a mantive em segredo.
O que foi que você me deu lá
Com suas flores desabrochando, as ondas ondulando,
O farfalhar das copas das árvores e o sussurro do ar?
Foi algo em que você ainda pensa hoje?
Foi um esforço tímido e furtivo,
Um pressentimento feliz e uma meia compreensão,
Um alegre pegar e depois devolver,
Um acontecimento poético involuntário.
Você me mostrou o domínio da imagem,
A mudança fugaz e a duração fixa
E provocou arrepios piedosos em minha alma
Diante de um poder incompreensivelmente alto.
Você me ensinou seus contos de fadas e lendas,
Deu-me a vara de adivinhação em minha mão,
E onde eu andava e ficava, ela batia.
Eu sou seu devedor, você é minha terra Harz
Uma velha canção sopra em suas montanhas,
O próprio vento da tempestade é seu portador rude,
Ela se precipita e ruge como um caçador selvagem,
Poderoso, terrível como o som de um trovão.
Eu captei um eco dele,
E ele nunca se apagou desde que o deixei;
Pegue de volta o que eu só recebi de você -
A você, minha terra natal, dedico esta canção.

 Julius Wolff - TRAD.Eric Ponty

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, junho 03, 2026

DOIS POEMAS DE ROBERT FROST- TRAD. ERIC PONTY

 Por conta própria

Para o meu próprio mundo


UM dos meus desejos é que aquelas árvores sombrias,
Tão antigas e firmes que mal se movem com a brisa,
Não fossem, por assim dizer, a mero disfarce da tristeza,
Mas se estendessem até os confins da perdição.

Nada me impediria de, algum dia, 5
Fugir para a sua imensidão,
Sem medo de descobrir terras acendidas,
Ou estradas onde as rodas lentas espalham a areia.

Não vejo por que eu deveria voltar,
Ou por que aqueles não deveriam seguir meus passos 10
Para me arrumar, aqueles que sentiriam minha falta aqui.

E ansiariam saber se ainda os amava.
Não me descobririam diferente daquele que conheciam —
Apenas mais certo de tudo o que confiava ser verdade.

A CASA FANTASMA


Moro numa casa solitária, eu sei;
Que desapareceu há muitos verões atrás,
E não deixou outro vestígio além das paredes da adega,
E uma adega onde a luz do dia penetra,
E crescem framboesas silvestres de caule roxo. 5
Sobre cercas em ruínas, as videiras protegem;
A floresta volta ao campo de ceifa;
A árvore do pomar formou um pequeno bosque
De madeira nova e velha, onde o pica-pau bate;
O caminho que leva ao poço está curado. 10
Eu jazo com o coração inexplicável dolorido
Naquela morada ofuscar-se, lá tão distante
Naquela estrada abandonada e olvidada
Que já não tem poeira para o sapo se banhar.
A noite chega; os morcegos negros voam e se lançam; 15
O mocho-de-bico-curto vem para gritar;
E para se calar, cacarejar e esvoaçar por ali:
Eu o ouço começar bem longe;
Muitas vezes, para dizer o que tem a dizer;
Antes de chegar para dizê-lo em voz alta. 20
É sob a pequena e fraca estrela de verão.
Não sei quem são essas pessoas mudas
Que compartilham o lugar sem luz comigo —
Aquelas pedras sob a árvore de galhos baixos
Sem dúvida têm nomes que o musgo desfigura. 25
São pessoas incansáveis, mas lentas e tristes,
Embora sejam dois, sempre juntos, a moça e o rapaz, — 
Sem que nenhum deles jamais cante,
E, no entanto, considerando tantas coisas,
São os companheiros mais amenos que se poderia ter.

 Robert Frost-TRAD.ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, maio 27, 2026

LOUVOR A AFRODITE - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY


Ó Safo, por que estás sempre
Cantando louvores à abençoada
Rainha do céu?

Por que o coração em teu peito
Sempre volta, em seu anseio,
A palpitar pela Deusa?

Por que teus sentidos, insaciáveis,
Estão sempre em busca do amor
Indescritível e imortal?

Ah, graciosa Filha de Chipre,
Nunca, como mortal,
Me cansarei de te servir.

Vem, por minha causa, de Creta a este templo sagrado,
onde se encontra teu encantador bosque de macieiras,
e os altares exalam fumaça
de incenso;

ali, a água fria canta entre os galhos das macieiras,
e todo o lugar está coberto pela sombra das rosas,
e das folhas trêmulas um sono mágico
desce.

Ali, um prado com pastagem para cavalos floresce com…
Flores, e doces
Brisas sopram


Ali, pegando as guirlandas, Cypris,
em taças douradas, luxuosamente,
deixe o néctar misturado com alegria
ser servido como vinho
(para estes meus amigos e seus.)

SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

quinta-feira, maio 21, 2026

Alexandrinos na Paisagem - Análise Crítica - Avelina Ferraz - Portugal

 Alexandrinos na Paisagem apresenta-se como uma obra de rara ousadia estética, marcada por uma intensa experiência linguística. Desde as primeiras páginas, percebe-se que o autor não pretende oferecer ao leitor uma poesia de fácil apreensão; ao contrário, constrói um universo verbal deliberadamente denso, onde o som, o ritmo e a imagem assumem protagonismo sobre a linearidade discursiva.

A obra dialoga com tradições poéticas que evocam Mallarmé, Paul Valéry, o decadentismo finissecular e determinadas experiências barrocas da língua portuguesa. Não por acaso, o próprio autor explicita essa filiação ao incluir uma “Imitação de Paul Valéry”, peça em que a musicalidade do verso e a abstração metafísica se entrelaçam.

Eric Ponty revela domínio do verso alexandrino enquanto estrutura poética, mas ultrapassa o rigor métrico clássico. O alexandrino, aqui, deixa de ser apenas forma. A cadência dos poemas cria atmosferas que oscilam entre o sagrado e o onírico, entre o pastoral e o metafísico, conduzindo o leitor por imagens de rara estranheza: jardins, mármores, aves, neblinas, águas, sinos, ruínas e figuras litúrgicas compõem uma iconografia recorrente, quase ritualística.

Salientamos a forma como Eric Ponty trabalha a palavra: há um deliberado rompimento com a lógica narrativa tradicional. Em certos momentos, o texto parece querer regressar a um estado primordial da língua, em que o significado nasce da vibração fonética e da associação intuitiva entre as palavras.

Outro aspecto relevante é a presença da paisagem enquanto entidade espiritual. A natureza em Alexandrinos na Paisagem não é decorativa; respira, sofre, canta e participa da condição humana. As estações inspiradas em Vivaldi, por exemplo, transformam os ciclos naturais em estados da alma, convertendo primavera, verão, outono e inverno em expressões emocionais e filosóficas.

Como editora, é possível afirmar que Alexandrinos na Paisagem se destaca como uma obra de personalidade literária incomum, destinada a leitores que apreciam poesia de elaboração formal sofisticada e de intensa carga simbólica. Trata-se de um trabalho que honra a tradição poética, que procura reinventá-la, inscrevendo-se com singularidade no panorama contemporâneo da poesia em língua portuguesa.

 Avelina Ferraz - Portugal



domingo, maio 03, 2026

4 ESTUDOS RENANCETISTAS - TORQUATO TASSO - ERIC PONTY

Este primeiro soneto é quase uma introdução à obra: nele, o poeta afirma merecer louvor por ter se arrependido imediatamente de seus devaneios e exorta os amantes, com seu exemplo, a devolverem ao Amor o domínio sobre si mesmos.

Se reais foram essas aleluias e de ardores;
por isso então chorei e cantei em versos variados,
que podiam igualar então para som das armas
e das glórias dos heróis e os amores castos;

E se o meu não foi dos coros mais obstinados,
nem dos afetos vãos, não deveria carpir disso,
pois parece-me que pois então mais louvável
do arrependimento, desse onde a honra se honra.

Ora, com do meu exemplo, tão amantes sensatos,
ao lerem meus deleites e o vã desejo,
pois retirem ao Amor se o freio das almas.

Desde que outros enxuguem logo as lágrimas quentes
por razão, às vezes o coração se irrite, se é
doce ao guardar no peito desejo amoroso.

II 

Descreve a beleza de sua amada e o início de seu amor, que surgiu em sua juventude.

 Era da minha idade, naquele alegre abril,
movida pela fantasia, a alma juvenil,
que já sendo em busca em belezas sedutoras.
Tão de prazer em prazer, espírito gentil,

quando me surgiu uma mulher muito idêntica,
em sua voz, a um anjo Cândido: asa até não 
demostrou, mas quase eleita surgia se adequar 
Ao meu estilo gracioso. Milagre tão novo!

Ela aos meus versos e eu; cercava seu nome 
com plumas altivas; e um pelo outro voamos 
à prova. Esta foi aquela cuja luz suave;

Essa foi aquela cuja uma luz tênue e tão suave,
Chorar sozinho e cantar me faz bem,
primeiros ardores espalham um doce olvido.


III

 Segue-se a mesma descrição sobre a ampla 
fronte, o cabelo dourado e brilhante
ondeava minado, e o brilho do belo olho
avocava o chão florido de maio.

E julho aos coros de ardor sem medida.
No seio branco, o Amor, graça, zombava, 
E não ousou ofendê-lo; e a brisa 
Que dessa conversa cortês e sábia.

entre as rosas, ouvia-se crebra o sopro 
Eu, que vi aquela forma celestial,
fechei os olhos e disse: “Ai de mim, quão!

É tolo olhar ousar fixar-se nela!”
Mas do outro perigo não me apercebi:
pois cerne me foi dolo pelos ouvidos.

IV 

 Isso demonstra como o amor que a visão de sua amada despertou nele foi avivado pelo seu canto.

Seus gestos suaves e seu feitio charmoso
já haviam falido o gelo que armava o peito 
de desdém; e os vestígios do antigo ardor
eu reconhecia no meu peito transformado;

Com a doce isca de um suave engano:
assim me incitava o sedutor Amor,
que nos belos olhos havia achado refúgio;
Quando eis que um novo canto tocou o coração,

e alimentava o mal com prazer, com a doce 
isca de um suave engano: assim me premia 
sedutor Amor, que no belo olhar havia. 

Quando, de repente, o coro entoou uma nova canção,
No coro, e soprou em seu fogo, e mais ardentes 
tornou as chamas que antes plácidas e tranquilas;

Nem o crescer, nem o brilhar tal qual vento;
nunca vi rostos tão comovidos, prazer
qual o fogo nos crescia dos seres e as faíscas.

TORQUATO TASSO - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

segunda-feira, abril 27, 2026

Samira, Escrevo-vos de um país distante. (Henri Michaux & Luís de Camões) - Eric Ponty

Samira, Escrevo-vos de um país distante. «Aqui», disse ela, «só temos sol uma vez por mês, e por pouco tempo.»
Já estamos a esfregar os olhos com dias de antecedência.
Mas foi em vão.
O tempo é implacável.
O sol só aparece na hora certa.
Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco como tua tez vista por um poeta que pouco conheço, mas foi vencido pelo cansaço.

Na metade do céu subido ardia
Mão clara, almo Pastor, quando deixavão
Céu verde pasto as cabras, e buscavão
Desta frescura suave água fria.

Com folha das árvores, tão sombria,
Raio candente as aves se amparavão:
Neste módulo esfregar, que cessavão,
Só nas roucas cigarras, paz sentia.

Quando Liso pastor n’hum campo verde
Samira, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tão tristes derramam.

Porque te vás de quem por ti se olhas,
Palhas quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.


V

Escrevo-vos do outro lado do mundo.
É importante que saiba isto.
Muitas vezes, as árvores tremem.
Recolhemos as folhas.
Têm uma quantidade incrível de nervuras.
Mas para quê?
Já não há nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, envergonhadas.

Será que a vida na Terra não poderia continuar sem vento?
Ou será que tudo tem de tremer, sempre, sempre?

Já a roxa e tão alva Aurora destoucava
Os doutros velos de ouro delicados,
E das urzes os campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava;

Quando do gentil gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente pelos prados;
Pastores tão unos, e ambos apartados,
De quem mesmo pavor não se apartava.
Com verdadeira pranteia Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha asseada,
Porque fenece jaz quem vive ausente;

Pois lide sem ti não resta ao nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Afrontar esperanças da tornada.


Há também agitação subterrânea e, dentro de casa, como se fossem acessos de raiva que se lançassem contra vós, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, e o que se vê não tem a menor importância.
Nada, e, no entanto, trememos.
Porquê? Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco.

 

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

domingo, abril 12, 2026

Sibilas de Samira III - (DOZE QUASI SONETOS DA SIBILA) - Eric Ponty

 P/Samira Agostine

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que fardo? Quem mo diria?
Porventura estaréo em mim atentando?

Se terão na Samira, como ou quando
Deles me vim tão hoje de alegria?
Ou se estardo aquele alegre dia
Que torne a vê-los, fronte figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se achardo em Samira muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência teus doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

II
Samira sou, Senhora, neste engano.
Tratar dele consiga é escusado,
Que mal pode de vês ser enganado
Quem de outras como vês tem desengano.

Já sei que foi à custa de meu dano
Que sé no doce dar tendes zelado;
Mas pera como eu sou de vês julgado,
Mui vãs são as esp’rancgas deste ano.

Tratei gréo tempo o Amor, e daqui veio
Conhecer Samira facilmente,
Que tal é, gentil Dama, o demonstrais.

De treslida caístes neste enleio;
Querei de mim o que eu quiser boamente,
Que no al a costa arriba caminhais.

III

Samira minha, se de pura inveja
Louvor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhares luz que o Sol deseja,

Não me pode colher que vos não veja
Nesta mão, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos verei sempre debuxada,
Por mais cruel da tarde que me seja.

Nela vos vejo, e vejo não renasce
Tão belo e fresco prado deleitoso
Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.

Os lírios tendes fia e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem tiver só, se há tanto bem na terra!

 IV

Mil vezes se mexer meu pensamento
A louvar o Alvo rosto cristalino,
Da trança de Samira d'ouro fino, 
O vivo e mais que terno entendimento.

Que com meigo e suave movimento
Pudera irromper coração diamantino,
Tão graça imperante o ar divino,
A digna majestade o doce acento.

Sendo flor que do cheiro a toda a Pêra.
Com pérolas de seleção orientais,
Que atroe rosas mostrais no doce rizo.

Que essa luz que olhares derramais
É o doce resplendor do paraíso,
Pois me demonstrais, e dais com claro rizo.

 V

O sol é grande, caem com tua calma as aves
Da era, em tal sazão lhe soe ser fria:
Esta agora do alto então cai acordar-me-ia,
Samira não, mas vãos cuidados graves.

Samira quando quererão duros fados
Içar minha esperança tão caída;
Ou porque, se de todo é já perdida,
Arrumar podereis meus bens passados?

E tu despeitosa honra e fama,
Responde-me com tão mortal olvido,
Não tens a tanta fé algum ido!

Por amor me vi uma era já contente,
Por apego eu quis atormentado,
Então que veja meu erro tão pagado.

VI

 
Samira adornada de verdura,
Que esmaltavam por alto várias flores,
Então um dia a Deusa dos amores,
Com essa Deusa da caça e espessura.

Diana tomou a si uma rosa pura,
Vênus tal roxo lírio, quais melhores;
Mas então excediam muito outras flores
Quais violas na graça e formosura.

Duas perguntam Cupido, que ali achava:
Qual dentre as três flores tomaria
Por mais graça e pura, e mais formosa?

Sorrindo-lhe, o menino lhes tornava:
Todas formosas quais; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.

VII 

Samira, com Esperança já tão ida,
Tua soberana Sombra visitei:
Por fiança do naufrágio que alcancei,
Em recinto dos vestidos, pus Vida.

Que mais queres de mim, pois extinta
Me tens a Brasão toda que lhe arrumei?
Não vigies de render-me; que não sei
Volver a entrar-me onde não há foz ida.

Vês cá a Vida, e da Alma, e a Esperança,
Doces espólios de meu bem passado,
Em quanto o quis aquela que eu choro.

Nelas podes vestir de mim vingança:
E se te anseias inda mais vingado,
Agradar-te co’as fúcsia que lhe choro.

VIII

Descalça vai para a fonte 
Samira vai para a fronte
rosas pela verdura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Leva na cabeça o mote, 
O texto nas mãos de prata, 
Carta de fina escarlata. 
Sainho de chamalote; 
Traz a vasquinha na sorte. 
Mais alva que a neve pura; 
Vai teimosa e não se atura. 
  
Encontra a touca a garganta, 
Cabelos douro o trançado, 
Fita de cõr de encarnado, 
Tão linda que eu mudo espanta; 
Chove bela graça tanta 
Que dá graça a formesura; 
Vai teimosa e não atura.

IX

Estava Amor seu arco guarnecendo,
Samira em fogo as setas temperando,
Cercadas de Amores, uns tecendo
A corda, outros a aljaba cruel dourando.

Nos floridos prados vão recolhendo,
Outros mil flores, que todo ano florescem,
Das quais ó filhas, e às capelas tecem.
Nunca vistas no Mundo, nem cheiradas

As flores são, que Amor para si faz.
Dumas o liquor frio, em que banhadas
As outras são, quando as do fogo esfria,

Uns formosos Amores, que debatem.
Em todas cruel, em todas espantoso.
Samira, nas segundas temerosa.

X

 Outras horas, Samira, te aguardava:
Outras se desviam.: ó triste, ó triste!
Enganado, nascido em cruel signo.
Quem me enganou? Ah cego que não cria.

Enganas, Samira! Mas só quem creras.
Tais olhares cerrados para sempre,
De velos já não de ouro, mas d’almas,
Àquelas mãos tão frias, e tão cruas.

Quem antes via tão alvas, e, fermosas,
Aqueles alvos peitos tão trespassados,
Desses golpes cruéis fúlgidas horas.

Aquele corpo em sombras tive em braços,
De tão vivo e formoso em flores pálidas,
Penhores divos, ó meu pai cruel! 

XI

Senhores teus então seus sós,
Tu, porém, não vias neles tão só,
À margem tão são ó minha luz Diva,
Já não me escutas? Já não ti hei de ver?

Já te não posso deparar toda à terra,
Chorem esse meu mal comigo m´ouvem,
Pranteiem terra dura tua espessura,
Nos homens s´achou de tanta da crueza.

Cubro-te então da crueza perfaz terza,
Nunca ria de si mesma, cá me m´ouvem,
Ajudem-me pedir Justiça do céu.

Com novas crueldades tua morte,
Lhe fiz margem Samira, hei fiz à margem,
Par´isto me dá, Deus somente à vida.

XII

Quantas penas, Amor, quantos zelos,
Quantas gemem tristes sem direito,
De que mil vezes viste, vulto e peito,
Por ti, cego, me viste jaz dos velos;

Justos mortais perpétuas derramados
Do espírito por tanto a ti sujeito,
Quantas doenças, enfim, tu me tens feito,
Todos porão em mim bem pranteados.

Ao todo satisfaz (confesso-nisto)
Nesta só vista em branda e amorosa
Samira cativou minha ventura.

Flor sempre para mi hora ditosa!
Lhe posso temer já, cá tenho visto,
De tanto gosto meu, tanta brancura?

ERIC PONTY

 

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

sexta-feira, abril 10, 2026

Sibilas de Samira II - (Extratos) - Eric Ponty

 I 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
há uma sulamita, um mistério, 
papiros ainda indecifráveis 
areias selvagens, sussurros débeis 
útero de Saara terra 
estéril sonha fina delicadeza 
fontes expostos seios 
do mel e do mais puro leite 
dessas dunas alvas areias. 
 
No deserto Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
no candeeiro a luz de uma virgem 
no ato da espera das amargas ervas 
possam-se celebrar a cerimônia 
o amado gozando em paradisos 
longas entranhas a que seja única 
somente a una das amadas. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
a explicação intrínseca de Deus a Jó, 
flácido silêncio tecido, fonte deságua, 
a semente fez-se alvorecer o poente 
destituídas folhas de outonos, 
ninho de pássaros de voz de sonhos. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso, 
movidas vestes da dançarina, 
rangendo sombras noturnas, o gozo 
sagrado, lágrimas guardadas, desvão 
pálidas virgens ao gozo dos eleitos. 
 

No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
fios ouro reluzentes dos cabelos, 
são braceletes sem diamantes, 
presos quando mexe com os dedos 
quando inclinada ao vento me sonha. 
 
 II 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
neste meu porto sem mares, 
neste meu porto sem despedidas, 
neste meu porto está tatuado 
vestes de seda, e de alva prata. 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
escute a explicação dos sábios: 
O da esquerda é o de Constantinopla 
empreendeu longa viagem no mar, 
abarcou monstros e Tordesilhas, 
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se 
agora analisa os caules da efígie; 
O da direita é o do Império de Adriano, 
das terras andarilho dos longos desertos, 
monge dos castelos dos templários, 
diziam ser mito, apenas vestido, 
capa iluminada sem sentido alfarrábio, 
presente analisa os caules da efígie.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro, 
escuta a explicação desses eruditos, 
não faça nenhum conceito errado, 
glosam entre eles somente de ti 
meditaram os pentagramas, os raios 
dos dilúvios nos últimos séculos, 
achegaram o vácuo vôo dos pássaros, 
tentam entender de que é constituído, 
de que elemento sagrado não se fala, 
de que elemento não se pode traduzir.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro 
esses fios de ouro bordado de anjo, 
incompreensíveis a esse jardim, 
a luz existe e não se mitiga, 
ilumina-me na minha solidão, 
luzindo alva no candeeiro. 
 
 III 
 
Chegaram emanados de navio 
agora dispersos por essas minas, 
alegam consigo sussurros mouros, 
vendiam ícones dos santos 
porque Alá, o misericordioso, 
transcende-lhes o coração, 
ainda nas minas sem mesquita 
fizeram versos do Alcorão, 
escritos por uma donzela fosse 
do mineiro dessas estreitas vias. 
 
Samira intensa asa de borboleta, 
frágeis dedos, qual o significado 
da dor me doendo, e, não se silencia, 
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem 
às fronhas desse travesseiro? 
 
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas, 
fazei-a indicar de nosso compromisso 
matrimônio por nós acertado, quando 
impossibilitados no século IV 
sermos pai e filha de nos desposarmos.
  
Talvez ouvindo a voz de minha lira 
minhas canções de mero compasso 
a celebrizar enfim me eternize. 

Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

quarta-feira, abril 08, 2026

12 SONETOS RENASCENTISTAS PARA SAMIRA AGOSTINE (ESTUDOS)- ERIC PONTY

 D´alma minha lide, que te quebraste
Tão soturna está grafia tão polida,
Samira em eira tão falsa, poluída,
E anda lá pauta nunca resiste.

Se na letra humana em que a escrita
Desenha desta gente nos consente,
Não te escapes senhora rumor jazente
Que foi nos braços meus cantos perita.

Senhora não sei que possa acudir-me
Dessa dor que dizes que então te cegou
Dá pena, sem degredo, deste ouvir-me,

Rezo a Zeus, meus dias lhe dilatou,
Que tão credo não te prendam meus pulsos,
Que por bem de claros olhos me roubou.

II

Graça minha sutil, que te falaste
Tão vera nesta verve então tingida,
Sepulta em dor eterna, dolorida,
E desce lá na fala nunca triste.

Se no álveo erróneo em seio a treta
Samira que desta nau nos desmente,
Não te salves daquela dor que ausente
Se foi nos olhos meus viva desdita.

Daqui não sei de que posso amparar-me
Dessa luz que falas que te içou
Sem réstia, sem Samira, de escrever-me.

Berro a Deus, que meus zelos aumentou,
Que tão credo não te rezem meus cílios,
Que por bem de teus velos me levou.

 III

D´Alma que está ausente, que lhe partiste
Tão longa desta lide negligente,
Samira lá no Céu liricamente
E fique eu cá na roca, nunca assiste.

Se cá no espanto etéreo, onde gostaste,
Na memória da história se consente,
Não te olvides daquele amor candente
Já nos braços meu fio intenso existe.

E se volta que pode ofender-te
Samira cousa a luz que me rogou
Da graça, sem dilema, de usar-te.

Rogo ao Sol, luz teus olhos limitou
Que tão cedo de cá me traga a crer-te,
Quão ledos de meus braços te furtou.

IV

Dama minha servil, que te cansaste
Tão verde nesta fauna tão florida,
Já sepulta em lar de doce, ofendida,
E troca lá na meta nunca viste.

Se leito eterno em que lhe pinta
Veraz tão desta era nos consente,
Não te olvides daquele amor temente
Que foi nos olhos meus viva visita.

Distante não sei que possa usar-me
Essa luz que lume que te citou
ausência, sem segredo, de reler-me,

Imponho a Deus, que meus velos dilatou,
Que Samira não te soem meus braços,
Que por bem de teus anos me furtou.

V

Dama minha gentil, que me olvidaste
Tão cedo desta lide indolente,
Repousa lá no Céu suavemente
Fique eu cá no catre tão sempre triste.

Se lá no branco eterno, onde sorriste
Desprezo desta era que desmente,
Não te isentes naquele amor cadente
Que já nos lábios meus tão vivo existe.

E se então vires poder acender-te
Alguma cousa a flor que me ficou
Dá Dó, que sem remédio, de querer-te,

Gritei a Deus, que meus dias limitou,
Que tão longe de cá me leve a ter-te,
Quão ledo de meus braços te levou.

VI

Chama minha febril, que te calaste
Tão logo aterra terra tão punida,
Relaxa em zelo seca, dolorida,
Sofrendo lá na escrita jamais riste.

Se no repouso eterno em que a escrita
Memória criva à vida nos desmente,
Não te livres Samira amor ausente
Que foi nos olhos meus dura visita.

Porém não sei de que possa ajudar-me
Sendo dor que dizes que te burlou
Da mágoa, sem emenda, de olvidar-me.

Berro então a Deus, meus anos encurtou,
Que tão falhos não te escrevam meus olhos,
Que por bem de laço e braços me tirou.

VII

Coisa minha febril, eu te driblaste
Tão logo nesta sonora temida,
Enfada em rixa forma, dolorida,
E privar lá na pauta em flauta triste.

Se no leito erróneo em que finta,
Dizeres desta fauna nos desmente,
Não te lembres daquela verve ausente
Que foi nas rezas meus plena mesquita.

Porém não sei de que possa custar-me
Flama em luz que dizes que te gozou
Da mágoa, sem remédio, de rever-me,


Rogo a Deus, que meus verdes alongou,
Que tão tarde não te queime meus olhos,
Que por bem de teus olhos me brotou.

VIII

Arma minha Dama, que te faliste
Tão recente da terra imprudente,
Mover-se lá no Léu impaciente
E curta eu cá a tocar cana triste.

Se lá no álveo erróneo, agora fugiste,
Desleixo puro à fauna se pressente,
Não te safes daquele louvor dormente
Que já nos lábios trago tão pleno urdiste.

E se fores que pôde comover-te
Alguma chispa a luz que me rogou
Só plena, sem saída, deste ouvir-te,

Impõe a Deus, que teus olhos limitou,
Que tão longe de cá me leve a ser-te,
Quão verve de meus lábios te furtou.

IX

Dama minha foste hostil, que feriste
Tão cedo ainda vida imprudente,
Sossega lá no Céu finitamente
E cante eu cá na cana sempre triste.

Se lá na flama etéreo, onde surgiste,
Samira foste a terra se pressente,
Não te olvides música ardor fervente
Que já nas vozes minha tão aberto existe.

E se vires poderá abater-te
Alguma lauda a voz que me falou
De louvor, sem ajuda, de ganhar-te.

Grita então Zeus, que teus tetos limitou,
Que tão crente de cá me leve a crer-te,
Quão lerdo de meus braços te levou.

X

Dama minha civil, que te cansaste
De tão credo nesta era tão polida,
Serena em cela terna, abrigada,
Vive a tocar lá na flauta sempre triste.

Se no registro etéreo em que a ida,
Só Samira da pena nos consente,
Não te olvides daquele pudor jazente
Que foi nos laços meus pura vertida.

Longe não sei de que traga convir-me
Foi essa luz que dizes que te fixou
Sulamita, sem acerto, de ouvir-me,

Prego a Deus, que meus rogos sossegou,
Que distante não te criem meus cílios,
Que por bem de teus laços me roubou.

XI

Porém Dama meu ardil, que te fundiste
Tão tarde Samira de negligente,
Repousa lá no céu finitamente
E teça eu cá na flauta sempre triste.

Se lá na madre eterna, onde subiste,
História verve a vida se desmente,
Não te escapes daquela dor carente
Que já olhares meus tão intenso ouviste.

E se fores que pôde reviver-te
Alguma coisa a luz passou e safou
Graça tua, sem saída, de rever-te,

Prega a roca, que teus fios sossegou,
Que tão fortes de cá me leve a ter-te,
Quão força meus lábios te serenou.

XII

Dama minha gentil, que me salvaste
Tão logo dores vida tão punida,
Repousa em olhos frio, escondida,
Priva lá grafia de contínuo triste.

Se no álveo etéreo em que a grafia
História verve vida nos pressente,
Não olvides daquele louvor ausente
Que foi nos olhos meus pura que fia.

Porém não sei de que diga assistir-me
Dessa dor que dizes então ficou
Da fala, sem amparo, de perder-me,

Peço a Deus, que meus danos aumentou,
Que tão tarde não vejam meus olhos,
Que por bem de teus olhares apartou.

ERIC PONTY

 

  POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

segunda-feira, abril 06, 2026

Sibilas de Samira - Eric Ponty - (EXTRATOS) - REVISADO - 2007

P/Samira Agostine 

 onde deixaste a tua voz 
macia de capim e veludo 
semeada de estrelas 
  
Ana Paula Ribeiro Tavares - Angola  

Amor, encontrar esses olhos, 
sedutores de outras terras, 
sussurros do deserto 
pronúncia de Saara 
a boca fluente água 
me alimenta, e, ainda  
lápida minha fala. 
 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
ainda chegará esse dia, que sós, 
sós viremos nos perguntar: 
 
De qual Paradiso, poeta e esposa, 
foram tão bem esculpidos 
não se percebe-se o abatido, 
não há musa, apenas complemento, 
homem e mulher sem intervalos 
ressoado gozo, 
o vôo dos pássaros. 

 
Amor, 
te encontrar esses olhos, 
mistério de sulamita, cabelos loiros, 
o corpo de curvas densas 
conduzidas linhas da curvatura 
retira do meu centro na intensa luta  
contra os sentidos interiores 
a qual mulher sempre término  
enfim de joelhos.  

Sibilas de Samira III ou Paráfrase da Lira XXII de Gonzaga

Transvertido de Gonzaga adentro o poema
a celebrá-la lira ante aos homens ocos 
comporei brancura da face de leite puro 
exaltarei olhos e nenhuma luz aplaca, 
os seios pães mais frescos da padaria, 
o singular peça de ar das mandonas: 
 
Muito embora, Samira, muito embora,
outra madona, que não tenha essa tez, 
traços do nascimento Vênus, a sua face 
              silencia a amarga palavra. 
 
As paredes da sua sala,
Não lhe fazem jus tal é a espessura infinita; 
Pendam pobres cortinas, penda a lâmpada 
                 do teto inútil não a aclara.  
 
Não habita qualquer sofisticação, 
Nem está alienada a moda dessa passagem; 
Porém terá a mim que discorra, que te vide, 
        componha o poema à existência. 
 
O tempo não respeita a desejos da moda; 
E da pálida morte a mão tirana a lume 
Fazendo perder um a um desses atributos, 
                Que instantes foram eternos na urbe. 
 
Quantas modas, Samira, padeceram na aurora, 
Essa luta sempre se mostrou inútil e inglória! 
Só podendo conservar um nome eterno 
O seu, assinalando novas esperanças 
         Nem mesmo o rude pássaro se ufana. 
 
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca, 
Por mais que qualquer delas fosse linda, 
 
Não saberiam o mundo, se duraram 
Nem Laura, nem Clarinda, nem Marília  
Nenhuma possuía unos atributos Samira. 
 
É melhor, minha Bela, eu me emudecer. 
Pode algum deus lendo-me a vide e a almeje. 
Não sabem nada os homens se ufanam 
Os cabelos, as vestes, os títulos, a riqueza 
        irão então fenecer  pela aurora tardia.

ERIC PONTY 

  

 POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA