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sexta-feira, março 13, 2026

São Paulo, Domingo, 14 de Novembro de 1999 - MAIS - FOLHA DE SÃO PAULO

 IVO BARROSO
especial para a Folha

A 26 de maio de 1990, o então suplemento "Letras" deste jornal divulgava que o livreiro paulista José Luiz Geraldi, garimpando no seu comércio de obras raras, havia descoberto cinco traduções de Fernando Pessoa, até então desconhecidas, de poemas de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell, encontradas na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres", um cartapácio de 24 volumes com cerca de 13 mil páginas.
Os conhecedores da obra de Fernando Pessoa consultados foram unânimes em afirmar que essas traduções eram desconhecidas, não constando de nenhuma bibliografia do poeta. A descoberta era, sem dúvida, uma notícia literária de importância para um melhor conhecimento da obra completa de Fernando Pessoa, principalmente por não constar de seu acervo (o famoso baú).
O crítico e ensaísta português Arnaldo Saraiva, grande estudioso da obra pessoana, nove anos depois, publicou um livro denominado "Fernando Pessoa - Poeta-Tradutor de Poetas" (Nova Fronteira), em que, referindo-se em tom um tanto depreciativo àquela descoberta, relata ter encontrado muitas outras traduções de Pessoa ou atribuíveis a ele, numa pesquisa mais aprofundada que fizera no monumental calhamaço. O trabalho de Saraiva é exemplar: cita fontes, números do volume e da página, pesquisa a data da edição da obra, seus autores e colaboradores, cataloga o corpus das traduções pessoanas e até mesmo analisa a sua teoria e prática da tradução.
Obra impecável, não fosse por lhe ter passado pela peneira crítica uma página, precisamente a de número 9.802, do volume 20, em que aparece, com a indicação "Trad. de Fernando Pessôa", o poema "A Glória", de um equívoco sr. Alexandre Magariños Cervantes. O autor, segundo informa a epígrafe do poema, é um poeta "uruguayano" (sic), nascido em Montevidéu, em 1825, que iniciou sua carreira literária na Espanha, foi depois a Paris, onde fundou a "Revista de Ambos Mundos". Em 1855 regressou à pátria, onde foi catedrático de direito internacional na universidade, senador e ministro. Por aí pode-se avaliar a qualidade dos poetas. O poema é medíocre e grandiloquente, mas a culpa da escolha não pode recair sobre Pessoa, que fazia esses trabalhos com espírito amanuense de tradutor profissional e sabendo que a maioria deles sairia sem indicação do tradutor.
Como curiosidade e para complementar a excelente obra de Saraiva, o Mais! publica ao lado a referida tradução, encontrada pelo poeta Eric Ponty, de São João del Rei, nos alfarrábios da família.

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de "Arthur Rimbaud - Poesia Completa" (Ed. Aguilar).


 

 A GLÓRIA

Avante!... sempre avante!... nada importa
Que, rasgando o dossel do céu ingente
Qual flamígera nuvem, véu ardente
Ameace o universo devorar;
Avante!... sempre avante!... nada importa
Que zumba o furacão, e em fero embate
O raio tremebundo se desate,
E em seus fundos abismos ruja o mar!

Não importa que em louco torvelinho
Se despenhe tremenda a catarata,
E cubra com o seu lençol de prata
O plaino e o bosque até ao seu confim.

Sob o pé do viageiro audacioso
Não importa que a terra trema ou ceda,
Que não encontre rasto nem vereda
Que da viagem o conduza ao fim.

E avante seguirá, e sempre avante!
Cruzando sempre com crescentes brios
Selvas, desertos, páramos e rios,
Que absortos deixam a alma e o coração.
O sol a prumo lançará seus raios
Mas vão será que ao viajor assaltem
Que incendeiem o ar, e na erva saltem
Suas línguas de fogo em rebelião.

Ele impassível cruzará os braços,
E ainda que um instante o aterre o fogo,
O seu olhar altivo e firme logo
No espaçoso horizonte cravará.
E entre nuvens de cinzas escaldantes
Pisando a terra que inda ardendo acha,
Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha
E atrás das chamas para diante irá.

Avante sempre!... Fétidas lagoas,
Negros vapores que só morte exalam,
Vampiros que com sangue se regalam,
Insetos vis de peçonhento fel,
Serpentes que anunciam-se ferindo,
Magros tigres da selva nos horrores,
E que da lua aos trêmulos fulgores
Rugindo se aproximam em tropel;

Bárbara tribo que se oculta infida
E ao cristão vingativa morto deixa
Com a veloz envenenada flecha
Que silva, fere, passa e não se vê:
Nada amedronta nem detém o forte
Varão no seu caminho agro e divino;

Pode prostrá-lo ali o seu destino...
Mas não forçá-lo a desviar o pé!

Um impulso secreto, um misterioso
Instinto que seus passos firme rege,
O arrebata, o impele e o dirige
Para a sua missão, triste ou feliz.

E cai, e se levanta, e cai de novo,
E outra vez se levanta inda mais forte,
E segue sem temer para o seu norte,
O peito sossegado e alta a cruz.

Talvez por prêmio do afã seu, ao grato
Porto da sua ansiada esp'rança chegue,
E que ao vindouro o seu nome legue
Coberto de uma auréola divinal.
E talvez o demônio -cujo esforço
E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba-
Dê à sua ânsia prematura tumba
E ao seu nome o olvido perenal.

Deste modo é a glória!... os que a perseguem
A juventude imolam-lhe nas aras,
Ditas, prazeres, e quimeras caras,
Quanto entesoura a alma e o coração.
Assim somente se fecunda e brota
E se entreabre seu espinhoso lírio;
Porque a glória é, ou nada, ou o martírio,
É do anjo proscrito a expiação!

Enquanto o homem vive, ela lhe pede
A seiva toda da existência sua,
E faz que ardente sem cessar reflua
Pela frágua do tempo o seu porvir -
O porvir que não chega senão quando
A alma quebra a escravidão terrena
E se levanta à região serena
Entre nuvens de rosa e de safir.

Vem a glória depois, a virgem casta,
Que foge do homem quanto mais a implora,
E em seu sepulcro se lhe entrega e chora
Porque vivendo lhe negou o amor:
A terra beija que seus restos cobre,
E o puro pranto que abundoso verte
Em luz e aromas e lauréis converte
O lodo vil que só causava horror.

Alexandre Magariños Cervantes-Tradução de Fernando Pessoa

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Mario Benedetti & Ivo Barroso & Eric Ponty

 

Caro Éric,
Poderíamos fazer um acordo, está todo mundo comentando que sua voz poética faz sua tradução seja melhor que original, sendo que você vai criar um incidente diplomático com meu amigo Mario Benedetti. Me prometa que você nunca vai traduzi-lo.
Do amigo 
Ivo Barroso

Eleger minha paisagem

Se eu pudesse escolher minha paisagem
de coisas memoráveis, minha paisagem
de outono desolado,
eu escolheria, roubaria esta rua
que é anterior a mim e a todos.

Ela devolve meu olhar inútil,
o de apenas quinze ou vinte anos atrás,
quando a casa verde envenenava o céu.
Por isso é cruel deixá-la ao entardecer,
com tantos varandões como ninhos solitários
e tantos passos como nunca esperados.

Aqui estarão sempre, aqui, os inimigos,
os espiões traiçoeiros da solidão,
as pernas de mulher que arrastam meus olhos
longe da equação de duas incógnitas.

Aqui há pássaros, chuva, alguma morte,
folhas secas, buzinas e nomes desolados,
nuvens que crescem na minha janela
enquanto a umidade traz lamentos e moscas.

No entanto, existe também o passado
com suas rosas repentinas e escândalos modestos
com seus sons duros de uma ansiedade qualquer,
e sua insignificante coceira de lembranças.

Ah, se eu pudesse escolher minha paisagem,
eu escolheria, roubaria esta rua,
esta rua recém crepúsculo,
na qual revivo ferozmente
e da qual sei com estrita nostalgia
o número e o nome de suas setenta árvores. 
Mario Benedetti


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Irrompa infindamente
Do meu lábio amante, alto, numa explosão,
Mental, duma só vez este degredo ardente,
Assim tal qual um vagido, assim tal qual um clarão!

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Ô Verbo tão imanente
Que fez Chama! Ô doce e terrível confissão!
Ô médica me indica atroz da cura da morfina,
A cor que vem do Azul varrendo a Noite em frente,

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Que senhora irradia,
Desta chama idéal que anda a queimar, à toa,
Silêncio! Traços meus... parai vossa Harmonia!

Presente voz deste Amor que me enleva e me aterra!
Do meu poema à minha Alma, indômita, revoa,
Tal qual um raio de sol que prende o Céu à Terra!

 
II
 
Para as morfinas de dores gelados
São ânsias e os socorros vão partindo,
Fúnebre azul, siderais convidados
De margens alvas a amplidão vestindo...

Num fúnebre de cânticos plantados
As ferinas, as citaras ferindo,
Passam, das margens nos troféus herdados,
São asas doiro finamente vão abrindo...

Dos etéreos turíbulos de igrejas
Claro incenso aromal, límpido seja,
Ondas nevoentas regiões levantam...

São as ânsias e os fúnebres infinitos
Vão com doiro anjo formulando mitos
Da Eternidade que erguem flores cantam...
 
III 
Morfina almas, sacra irmã gloriosa,
morfina irradiação do Sofrimento,
Quando surgirás no Deslumbramento,
Tão perto em mim, no pascer dor radiosa?!

Tu que és a foz da Mansão em coisa,
Pascer do estimado Encantamento,
Do signo astral do radioso Pensamento
Zelando eternamente a dor chorosa,

Morfina almas, meu rezar amigo,
Véu celeste, sacrossanto que digo,
Da morte e constelada vastidão,

Entre os teus laços de eternal fúcsia,
Pascendo e rezando em foz de delícia,
Do pascer te alçarei na Eternidade?!
IV
 

Tal qual serpente enorme, então natureza
Enroscava-se minha alma tão fria abatida:
Que se assobiava azul do céu tal qual vida,
Na morfina onde há sombra, o ar úmido e tristeza.

Enquanto gelo tal qual um ferro agudo buído,
Adestrava-me a sombra, sonho inquieto e aceso,
Arranjava um jazido, uma chama, página lido,
Na intimidade ideal de um jazido inglês.

Eis que próximo a mim, surge, irrompe, fulgura,
Tal qual fugida a um quadro, uma alva figura,
Tal qual só que Portinari sabia pintar.

Tal qual fronte gentil punha apenas de fora...
O meu corpo voava arrebatando a aurora,
Um furacão de azul levava-a pelo ar.

Eric Tirado Viegas (Ponty)



A Estátua de Sal Sacra - Eric Ponty

 

 

P/A N T O N I O C A R L O S S E C C H IN

Invés tal, ri, num rio de tormenta,
Como um artesão, que desengonçado,
Nervoso, ri, obra rio absurdo, inflado
De uma ironia e de uma flor tão benta.

Da paisagem atroz, sanguinolenta,
Pulsa os cinzeis, e convulsionado
Obra estátua de sal salta, varado
Pelo existir dessa agonia agenda...

Pedem-te obras artesão não se despreza!
Vamos! Retesa as estátuas, retesa
Nessas macabros azuis do céu d’aço...

E embora saias sobre o sal, fremente,
Afogado em teu sangue estátua a fronte,
Diz, existir movimento que traço.

 Eric Ponty

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA    

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Dois Poemas de Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 Quer meus versos, rainha de olhos briosos e doces!
Infeliz, sabes muito bem que, com os cães ínvidos,
Os críticos rancorosos, com lábios franzidos,
Que perdem em farrapos as estrofes dilaceradas,
Toda a pálida raça com a fronte amarelada de fel,
Cujo fel é o luto eterno pela prosperidade alheia,
Eu ladro com toda a força, e mais alto que os outros.
Ó poetas divinos, não sou mais um de vôs:
Fizeram-me um nicho onde fico à espreita,
No rodapé do jornal, qual um cão agachado;
E há muito tempo, no altar da minha alma,
Derrubei a urna de ouro onde brilhava a chama.
Para mim, não há mais primavera, nem arte, nem sono;
Não há mais quimeras loiras com sorrisos rubros,
Nem pombas privadas, de pescoço alvo e pés rosados,
Que bebem da minha taça e pousam no meu dedo.
Minha poesia está morta, e eu não sei mais nada,
Exceto de que tudo é feio, exceto de que nada é bom.
Eu encontro, por natureza, o mal em todas as coisas,
Dessas manchas do sol, o verme de cada rosa,
Triste enfermeiro, vejo os ossos sob a pele,
A cortina por dentro e o reverso do véu.
Assim eu vivo. - Como a bela musa antiga,
Erguida sob as longas pregas de tua túnica alva,
Com cabelos negros em duas ondas abertas,
Como o palato de flores douradas estreladas,
Sem ferir os pés com esses cacos de vidro,
Poderia ela descer até mim nessa terra?
Mas as belas sempre são intensas sobre nós:
Os leões botam focinhos ruivos sobre as patas.
O que a Musa de grandes asas não faria,
A Virgem aoniana de graças eternas,
Com teu doce beijo e a glória em recompensa,
Fazes, ó rainha! E em meu coração surpreso
Sinto brotar os versos e, toda alegre,
Abrir-se numa flor a rima brotada!


A campainha matinal enfim tocou a hora

Em que as pálidas, que um dia muito vivo toca,
Perto da sílfide que dorme vão deslizar sem ruído
No coração dos nenúfares e das belas da noite;
Giselle desfalecente com tuas poses suaves
Lentamente ofuscar-se sob teu sudário de rosas,
E não se vês mais do fantasma encantador
Do que uma pequena mão aberta para teu amante.
- Então aparece, tal qual caçadora soberba,
Arrastando teu veludo sobre o veludo da grama,
Um sorriso na boca, um raio nos olhos,
Mais fresca que a aurora que desabrocha na borda dos céus;
Bela com teu olhar azul, tua trança dourada,
Que a Grécia teria adorado em teus altares alvos;
Mármore puro de Paros, que as Graças, em coro,
Em teu grupo admitiriam como quarta irmã.
- Da floresta mágica fulgurando a abóbada,
Uma luz viva se espalha, - e duvidamos
Se o dia, que renasce em teu brilho vermelho,
Vem de tua presença ou se vem do sol!
Giselle morre; Albert, perturbado, se eleva,
E a realidade faz o sonho ofuscar-se;
Mas em atrações divinas, em casto prazer,
Que sonho pode valer tua realidade!
Sim, Forster, eu admirava teu ouvido divino;
Me entendeu bem, do elogio sendo então óbvio:
Como ela é encantadora de se ver nas faixas sinuosas
De teus cabelos ingleses tão ricamente dourados!
Nunca Benvenuto, deus da cinzelagem,
Traçou sobre a prata um niello mais fino,
Nem na alça de um vaso enrolado de ornamentos.
Com contorno mais gracioso e um sabor mais fascinante!
Desabrochando no canto da tua têmpora azulada?
Ela parece, em meio à tua brancura de alabastro,
Uma flor viva, uma rosa de carne,
Uma concha retirada do mar!
Como em um mármore grego, ela é reta e pequena,
E o molde foi tirado daquele de Afrodite.
Abençoada a joia que, com teus lábios de ouro,
Beija teu lóbulo rosa, - e mais feliz ainda
Aquele que pode derramar, ó favor sem igual!
Nos contornos perolados de tua concha vermelha,
Tremendo de emoção, empalidecendo, perturbado,
Uma palavra misteriosa, ouvida tão-só por ela!

Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

LA CHIMÈRE - Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

Uma jovem quimera, lábios da minha taça,
Nesta orgia, deste do beijo mais do doce.
Ela tinha olhos verdes, e até tua garupa
Ondulava em torrente o ouro dos cabelos ruivos.

Nesta asa de gavião tremiam nos teus ombros;
Ao vê-la voar, me saltei sobre tuas costas;
Fazendo-a dobrar colo de salgueiro até mim,
Enfiei minha mão qual um pente em teus cabelos.

Ela se debatia, lhe gritando e furiosa,
Mas em vão. Abatia flancos com meus joelhos;
Então ela me disse com tão uma voz graciosa,
Mais clara a prata: Mestre, para onde vamos?

Além do sol e além deste espaço aonde Deus, 
Só chegaria qual após da eternidade;
Mas antes chegarmos fado, asas jazerão cansadas:
Pois quero ver do meu sonho se tornar fato.

Théophile Gautier – Trad. Eric Ponty

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA  

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Requiem para mim - Eric Ponty

 

Eric Ponty & Ivan Junqueira 

Requiem – Officium


O nó ardente ao mal, minha longa espera,
sombra e um laço contados, me vi unido,
a Morte soltou, e tal peso eu nunca senti,
Nem se acredito que morra de dor.

Não desejando Officium fosse aceito,
Pequeno laço me deixou estendido
E em nova oferta de outro fogo aceso,
para que assim não pudesse escapar.

Desejo não tivesse me lembrado,
preso no laço teria ardido logo,
tanto mais quanto sou lenha mais seca.

E mais uma vez, Morte me libertou
Sendo desfez o nó, e apagou do fogo:
contra o qual não vale astúcia e esforço.

 
Requiem - Kyrie Eleison

Senhor Deus, Misericórdia meu holocausto,
Para os terrestres Kyrie Eleison no mármore,
Ver nem onde sentisse só tão livre,
Nem tantas queixas dessa paixão ouvisse;

Nem vale que oferecesse mais lugares
onde, para chorar, eu me escondesse;
Nem imagino que em Deus tivesse o Amor 
Ninhos tão suaves, nem em qualquer margem.

As águas, as brisas, galhos, as aves, 
Dos peixes e as flores, e a grama, e, falam
Implorando que ela arda em chamas vãs. 

Mas, que do céu me reclama, memória 
Dessa morte amarga, implora eu evite 
Azuis tramas mundanas, de vãs tranças.
 
 Requiem - Dies Irae

Mil vezes, aí, no meu amado refúgio,
fugindo de mim mesmo Dies Irae pessoas,
com meu choro banhei então dessas ervas
desse meu suspiro ardente quebrou o ar.

Mil vezes, tão desconfiado, me escondi,
entre sombras, procurando com mente
desse prazer que da Morte me tirou,
Aquele costumo chamar com frequência.

Ora na forma de Narciso ou de outra
que no fundo d´almas está morando
Sai para descansar em uma margem,

ora eu a vi, que pela grama que andando,
E, pisando flores como uma alma viva,
E em teu aspecto dó de mim lhe mostrando.
 
 
Requiem – Offertorium

Que Alma feliz que tanto a mim vieste,
Consolar minhas noites dolorosas,
com olhos que a Morte tornou mais vivas
do Offertorium que teu o olhar humano:

Agradeço-te porque ao meu peito ferido
permitiste curar-se com o teu olhar!
Assim, voltam a estar mesa presentes
as tuas belezas onde antes brilharam.

Onde te cantei pelos muitos anos,
agora, quão vês, estou lamentar:
não chorando por ti, por meus danos.

E consolo para minha ansiedade,
Te reconheço, quando voltas, vendo
teu andar, tua voz, teus olhos, e trajes.
 
Requiem – Sanctus

Sanctus, tu descoloraste o rosto sacro,
e desses olhos mais lindos apagou;
à alma que mais se inflamou então em virtude
tu soltaste desse nó mais gracioso.

Tu roubaste, repente meu glorioso
bem, e teu doce sotaque silenciou,
pelo que me lamento atormentado
Em tudo o que ouço e vejo então me é odioso.

Mas regressar consolar tanta dor,
para onde a Piedade conduz tua alma:
E outra ajuda minha alma nunca espera.

E se como ela fala, e ao falar brilha,
pudesse dizer, faria arder desse amor,
não direi de homem, coração de Sanctus.
 
Requiem - Agnus Dei

Tão rápidos são o tempo e o pensamento
que me devolvem minha amada morta,
que nenhum remédio consegue me cura:
mas nenhum mal sinto enquanto a vejo.

Mas o Amor, de que em tua cruz me atormenta,
De então tremer quando a vê junto à porta
da alma que me mata, ainda tão de alerta,
É doce à vista e de acento tão suave.


Como Agnus Dei ao teu abrigo, altiva vem,
do coração sombrio e grave expulsando,
Fronte serena, o pensamento triste.

A alma, que teus olhos não suportam,
«Bendita a hora», diz imo suspirando,
«que abriste este caminho com tua luz!»
  
 
 Requiem - Lux Aeterna

Se aquela suavidade com suspiros,
Daquela ouço, for minha Lux Aeterna
– Que, embora agora esteja no céu, 
que vive, sente e anda, ama e respira –

pudesse retratar, sei minha lira
comovesse tão zelosa e piedosa
regresse para mim, teme que na passagem
eu possa me perder, e cuida da minha alma.

Me ensina a seguir em frente; e eu, que entendo,
ditos com murmúrios baixos e piedosos,
Tuas súplicas e cândidas ternuras,

Devo cumprir tua lei; que é tua piedosa
Benigna palavra, se bem compreendo,
É capaz de enternecer pedras mármores.
 
Requiem – Lacrimosa

Ar de suspiros eu enchi, Lacrimosa,
Montanha para a doce planície,
onde nasceu aquela que tinha em mão,
Se meu coração em flor, e já maduro,

E quando, subindo ao céu, alma me deixou
de tal forma que, em teu abrigo distante,
procurando com meus olhos, sombras
ao meu lado não restou nenhum seco.

Não há pedras nestas montanhas serras,
nem nestes campos ramos ou folhagem,
nem flor nestes vales, nem folha ou erva,

nem brota gota de água destas fontes,
nem há fera nestas florestas tão feras,
que ignorem esta dor dessa tão amarga.
 Requiem – Epitaphium

Como é o mundo! Agora acho ameno,
o que mais me irritava; e vejo que sinto,
que, para minha saúde, tive tormento,
Breve guerra para uma paz duradoura.

Ó esperança, ó desejo, tão variável,
Mais ainda pensamento Epitaphium!
Quão pior seria auferir aleluia
daquela alma que está em glória perene!

Mas crido cego, minha mente surda,
Desviaram tanto que, por força viva,
Me empreendi a corrida morte.

Abençoada aquela que pra ribeira
voltou meu curso, e meu desejo ardente
com elogios freou, pra que eu não feneça!
 
ERIC PONTY
 
 
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sábado, fevereiro 14, 2026

Senhor Deus, Misericórdia - Eric Ponty

Uma chuva amarga fúcsia escorre em meu rosto
soprado vento de suspiros angustiados
se olhos se voltarem pra olhar tão-só pra ti,
por quem estou separado da humanidade.

Não há equívoco teu sorriso doce e aliviado
acalma o ardor de todos os meus desejos
me resgatando deste martírio ardente
enquanto mantenho meu olhar fixo em ti;

Mas então meu ânimo de repente esfria
quando vejo, ao partir, ditas predestinadas
desviando teu movimento gentil da minha vista.

Liberada, enfim, por duas chaves amorosas,
E alma abandona o peito para seguir ti,
Perdida em pensamentos, ela se afastou.

Eric Ponty

 
 
 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Contemplar Estrelas - Eric Ponty

 P/ Olavo Bilac

 Os ruídos nuvens exalaram pompas, 
passam mensagem, surdinas das trompas, 
do rosto longo céu que aposte logros! 
pascer do sempre mármore do raro! 

Após ser do apenar, fulgidas Tebas, 
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma 
do inaudível do véu mausoléu duma.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Ó templo, anima abunda despejar! 
Acedem douros climas que dá treva, 
Das friezas das minas, quisto os transcreva.

ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

SONETOS - FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO 

3
Foi nesse mesmo dia em que o sol se urgia,
com pena de teu criador, diminuiu teu brilho,
que fui capturado, com minha guarda distraída,
pois teus olhos intensos, minha consorte, me prenderam.

Não parecia ser o momento para eu planejar defesa 
Contra o golpe do Amor; segui minha passagem
seguro, desprevenido; assim, naquele dia
de tristeza geral, todos os meus males pôr-se.

O Amor me encontrou sem armadura para a luta,
Meus olhos uma estrada aberta para o coração,
olhos que agora são uma válvula para as fúcsias fluírem:

No entanto, ele não exerceu um papel honroso
ao me ferir com tua flecha em tal estado;
ele viu armado e não ousou erguer teu arco.

7
O sono, as camas macias e preguiçosas e a gula
baniram a virtude do mundo dos homens,
de modo que nosso natural, rasa por tais hábitos,
está quase exilada de tua passagem correta;

E toda luz bondosa que do céu molda a vida humana 
É tão desperdiçada que qualquer um que se esforce 
Por trazer novos fluxos de Helicon
é apontado como algum prodígio estranho.

Quem se importa com a murta cá, quem com a louro?
“Nua e pobre então percorre, Filosofia”,
grita a caravana, tomada em lucros miseráveis.

Terás poucos compartes na outra passagem;
por isso, ainda mais, ó alma gentil, eu imploro,
não ceda tua nobre obra para esses olhares.

12
Se minha vida puder resistir à dor amarga
e à luta, minha senhora, por tempo regular para ver,
à medida que os anos passam, e, exercem teu império,
a luz em teus olhos intensos começar a diminuir,

E os cabelos dourados abrumarem com fios prateados,
e as vestes verdes e guirlandas serem guardadas,
e aquele tom extinto que, mesmo na miséria,
ainda me faz hesitar e temer reclamar:

Então é certo Amor enfim me dará tuas forças
Sendo da coragem para revelar meu sofrimento
e contar contigo sobre teus anos, dias e horas:

E se da velhice negar meus doces desejos,
isso não impedirá minha tristeza de receber
pelo menos o consolo de suspiros tardios.

16
Ele se move, um velho pálido e de cabelos grisalhos,
de teu doce lar onde os anos se passaram,
e da pequena família em consternação
que vê que teu querido pai irá embora;

Membros velhos a se moverem além disso,
arrastando-os pelo meio de teu dia que expira,
se esforçando da melhor maneira possível,
de quê raso pelos anos e pela passagem;

Sacudido pelo teu desejo, chegar a Roma
para então contemplar a imagem daquela
que espera ver ao mesmo tempo no céu.

Assim, infeliz, minha senhora, às vezes vagueio,
buscando em outros rostos apenas tu,
alguma afinidade com a única forma certa que amo.

33
A estrela do amor já brilhava forte no Leste, 
E no céu do norte, àquela que desperta a inveja de Juno
era encantadora com os raios radiantes que emitia,
dessa estrela do amor já brilhava forte no meu peito.

Da velha, descalça e seminua, havia se alçado para fiar 
E, para que o fogo não se apagasse nessa hora,
revolvia as cinzas, e se aproximava a hora
que o alvorecer chama os amantes a chorar de teu descanso:

quando ela, minha esperança, já quase se esfalfada,
chegou ao meu peito, não pela porta habitual
que o sono mantinha unida e a tristeza havia molhado,

como estava desigual, ai de mim, do que era antes!
E parecia dizer: “Por que tua coragem lhe enfraquece?
Ver esses olhos ainda não lhes é negado”.

FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

SONETOS & POEMA - FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO

 I

Era o dia em que os raios pesados do sol
Empalideciam em dó pelo teu Senhor padecedor,
Quando caí cativo, senhora, deste olhar
Belos olhos, forte preso a corda do amor.

Não tive então tempo para me defender
Ou buscar abrigo dos golpes súbitos do Amor;
Eu andava seguro, sem entender nenhum mal, quando
minhas dores abriram em meio às disgras gerais.

O amor me achou inteiro indefeso dos meus olhares,
onde as fúcsias soem fluir, ele viu essa passagem
aberta para o meu peito. Tua flecha voeja.

E aborda o alvo onde deve jazer para sempre.
É pouca honra para me ferir assim, nem demonstrar
bem armada contra ele, nem mesmo o teu arco! 

 III

Mil vezes busquei fazer pazes com teus belos olhos, 
ó minha doce inimiga tão formosa guerreira,
E lhe ofereci meu peito; mas mal sabia eu
Que teu espírito brioso se rebaixaria tanto.

No entanto, se outra quiser prender esse peito,
Viverá ela em esperanças incertos e sonhos falsos;
Já que eu desprezo todas as coisas que tu desdenhas,
Ele não é mais meu quando desprezado por ti.

Se expulso, não podes achar amparo contigo  
Em tua passagem errante, nem ficar sozinho, 
Nem ir aonde outros chamam em vão por ti.

Longe de tua passagem natural, deves então se desviar.
Sobre nossas duas almas este pesado dolo repousará,
Mas mais sobre a tua, pois é quem meu peito mais ama.
 

IV

Meu rival resplandecente, em cujo rosto inconstante
Tu vês os olhares que o Amor e do céu apreciam,
Encantam com uma beleza que não é tua, uma graça
Alegre e doce além de qualquer aparência mortal.

Foste por teu conselho maligno, minha senhora,
Que me expulsou de teu coração gentil.
Triste exílio! Agora, na solidão, eu definho,
Incapaz de habitar com tamanho valor.

Se eu estivesse seguro ali, não deverias me ferir 
com teu espelho intenso, afagando só a si mesma, 
De tão orgulhosamente se fazendo bela!

Pense em Narciso e teu prazer vaidoso!
Como ele, se tornará uma flor, mas onde
O gramado digno de uma planta tão rara?

V

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo o teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram tão jovens, que dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo coração selvagem se regressaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons vários, teus rostos se ardiam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes tão juntos”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, ele então se afastou.

Assim, ele alastrou flores e palavras; até que em mim
Uma alegria trêmula se espalhou ao redor do meu coração.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, que se fez alegre! 


VIII

Para qualquer criatura que habita a terra,
(Exceto aquelas cujos olhos odeiam o sol)
O tempo de trabalhar é enquanto ainda é dia;
E quando enfim os céus acendem tuas estrelas,
O homem volta para casa, animais se abrigam na brenha
E deparam repouso pelo menos até o alvorecer.
Mas eu, desde a primeira hora em que o alvorecer precoce
Para sacodir a escuridão da terra,
Despertando os animais em todas as brenhas,
Não tenho trégua em suspirar pelo sol,
E quando à noite observo as estrelas flamejantes
Eu me lamento, ansiando então pelo dia.
Quando a noite afasta o dia brilhante,
E nossa noite profunda traz o alvorecer para os outros,
Tristemente, contemplo as estrelas cruéis
Que formaram meu corpo a partir da terra sensível,
E amaldiçoo o dia em que vi o sol,
Até parecer alguém criado na brenha.
Nem sonho que alguma vez tenha pastado na brenha
Uma criatura tão selvagem, seja de noite ou de dia,
Como aquela que lamento na sombra e no sol,
E não me canso de chorar, seja à noite ou ao alvorecer,
Pois, embora meu corpo mortal seja da terra,
Meu amor imutável vem contigo das estrelas.
Antes que eu volte para vos, ó estrelas intensas,
Ou caia em pó nesta brenha apaixonada,
E deixe meu corpo qual um pedaço de terra sem vida;
Que ela tenha piedade, que em um único dia
Possa expiar por longos anos! Que antes do alvorecer
Pudesse me abençoar, desde o pôr do sol!
Ó, se eu estivesse com ela desde o pôr do sol,
E ninguém para nos observar além das estrelas soturnas
Apenas uma noite! E que não houvesse alvorecer!
Nem que ela se transformasse em brenha frondosa,
Escapando de meus braços, como naquele dia
Quando Febo acompanhou Dafne pela terra.
Mas em um caixão sem sentido eu repousarei,
E o dia chegará repleto de pequenas estrelas,
Antes que o sol brilhar sobre um alvorecer tão doce.

FRANCESCO PETRARCA- TRAD. ERIC PONTY

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

SETE ESTUDOS &DOIS ALEXANDRINOS & RONDÓ PARA AUTA DE SOUZA - Eric Ponty


 I

Segue traços do Pastor enquanto do estudo,
Soube do então bruno vale para o horizonte,
Que a coroa de sempre das fúcsias te afronte
Nesta vitória da então crença que lhe é tudo.

Não te detenhas na sombra escabrosa via
E que a taça amarga de fel não te amedronte
Louvar deste madeiro que te dobrou a fronte
Para que essa estrada cruel, de áspera e fria.

Enquanto há sol, que avança então na subida,
De alma desfalecente e consumida agonia,
Então bendizendo o martírio que te eleva!

Seja por essa Luz tua excelsa recompensa,
Porque a noite da morte agonia é triste e densa
Para aqueles que dormem sombras sob da treva.

II

Minh’ alma é triste até para à morte,
Tu que então trevas me sepultaste?
Minh’ alma triste qual a dor aterra
Beija então teus passos. Cordeiro aferra!

Que noite negra, tão cheia destas sombras.
Não foi a noite que aqui então passaste?
Estrelas tão lindas neste céu brilharam.
Voltou-me o teu riso, já quase do horto.

Não tenhas medo então do sofrimento.
E sendo ele é a escada do Paraíso...
Contemplar os astros do firmamento,

Olha para estrelas... No céu então escuro
Parecem ser risos amortalhados...
Assim, nestas trevas do mundo impuro!

III

Partiu-se do fio branco e tão delicado,
São dos sonhos de Minh ‘alma que desditosa...
E das contas do rosário assim tão quebrado,
Que caíram como folhas de que umas rosas.

Tu debalde eu as procuro tão lacrimosas,
Que são estas doces relíquias do Passado,
Para que guardá-las nesta urna perfumosa,
Deste meu seio nesse cofre imaculado.

Aí! se eu ao menos por uma, só lhe pudesse,
Que d’estas contas se achar que me fizesse,
Lhe Lembrar um mundo de alegrias tão doidas...

Feliz tão séria..., Mas Minh ‘alma lhe atenta,
De que em vão procura uma continha benta:
Quando então partiste m’as levaste com todas!

 IV
Oro de joelhos, pelo Senhor, na terra
Que purificada pelo esse teu pranto...
Minh’alma triste à sombra dá dor aferra,
Beija em teus passos. Cordeiro manto!

Eu disse... e das sombras se dissiparam.
Senhor descendo sobre desse meu Horto...
Estrelas de tão lindas no céu brilharam.
Regressou-me o riso, já quase torto!

Levanta-se olhos para o meu rosto,
Que à vista dele foge então o Desgosto,
Não tenhas medo então do sofrimento.

Contempla dos astros do firmamento,
Olha das estrelas... Nesse céu escuro,
Brilham sombras almas dos desolados.

V
É tempo regressar. O inverno ainda 
Qual avezinha se mudando chão...
É conciso deixar a terra finda
Em singelas casinhas sem portão.

É imperioso partir, embora, ainda
Sinta estourar de dor meu coração,
E a alma cheia de lembrança infinda
Tão sozinha chora então em solidão.

Minha alma treme qual mariposa,
Que se despe na chama, alucinada
Em de cada vez que o meu olhar se pousa.

Vamos, coração, não soluces tanto...
Oculta bem este teu sentido pranto,
Não tenhas pena de quem ficou cá.

VI
Se tudo foges e desaparece,
Se tudo vai ao vento dessa Desgraça,
Se a vida é o sopro que os lábios passam
Gelando o ardor verdadeira prece;

Se sonho chora e geme e desfalece
Dentro do coração que o amor enlaça,
Se rosa murcha inda em botão, desgraça
Da moça foge quando a idade cresce.

Se Deus transforma em tua lei tão pura
Da dor das almas que o ideal apura,
Nesta demência feliz, pobres loucos...

D’água do rio em oceano percorre,
Se tudo cai. Penhor! Por que não ocorre,
Dores sem fim que me devora aos poucos.

VII
Tu passaste por mim toda de aleto,
Pela mão conduzindo em uma aliança...
E eu cuidei lhe ver ali uma Esperança,
E duma saudade em pálido afeto.

Pois, quando a falta de um sagrado afeto
De lastimar este canto não cansa,
Numa alegria descuidosa de sã.
Passar o infante, o beija-flor tão quieto.

Na vida nesse gozo e desventura
Pisam sempre unidos, tão mãos dadas,
Cultura, às vezes, leva à sepultura...

Neste coração - um horto de martírios!
Brotam sem fim tão ilusões douradas,
Quais nas campanhas desabrocham lírios!

 I.I
Suave formosa em tua voz que esvai este céu,
Tu roubaste-a, Maria, aos rouxinóis neste arado?
Aqui na igreja santa então vens rezar cruz.
Quanta piedade tal trazes no olhar em luz.

Como és bela Maria altar, para teu olhar de estrela,
Tens a pálida alvura em um lírio usura em flor,
Deixa o lábio de rosa ardor, e, que doce brancura,
Junta esta mão, formosa em tal noite já desceu.

Olhar que eu tenho medo então da escuridão...
Deixas o lábio em rosa enquanto diz por mim,
Vamos: terminar tão cedo tua oração enfim.

Vale tanto uma prece então dita por jus!
Ô Maria. Como és bela então conjunto a Jesus!
Aqui na igreja santa então vens rezar cruz.

I.II
Ter doze anos somente, e, na idade sofrer!
Sonhar porvir ridente então, e, na aurora morrer!
Eis o que te foi da existência, Ó desditosa,
Doce lírio inocência, pobre floco neblina.

Quais dois botões pequenos, flores orvalhadas,
Que teus olhos dormem serenos sob as pálpebras,
Voaste, tão meiga infante de tão feiticeira,
Sendo tal qual um riso esperança uma folha.

Triste morrer no fim urna manhã esplendores,
Fronte a ocultar, assim, numa grinalda flores,
Quando suspiro leve, est’alma que o corpo encerra!

Desprender-se da terra em voo suave e franco,
Fugiu para o céu de anil... Qual noiva gentil,
Aí, no funéreo leito em coberta das rosas.


 RONDÓ
Que noite negra, cheia destas sombras.
Não foi a noite então que aqui te passaste?
Noite imensa... por que vós vindes sobras,
Como se da corda de um ’harpa trouxe:
Tu que nestas trevas me sepultaste?

Na longa estrada cheia de suicídios,
Guia do meu passo, nos bons Idílios,
Tu que nas trevas me trouxeste ouro?

Que noite negra, cheia destas sombras
Noite imensa... por que vós vindes sobras,
Assim, nestas trevas do mundo impuro,
Se parecem sonhos amortalhados,
Que brilham as palmas dos desolados.

Nesta longa estrada cheia de espinhos,
Guia do meu passo, nos bons caminhos,
Tu que nas trevas me trouxeste puro?

ERIC PONTY

 

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos - FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY

 

Senhora, não a vi afastar-se na relva sombria,
Na sombra escura ou sob céus serenos
O véu que abriga teu rosto gracioso
Desde percebeu pela primeira vez a paixão intensa.

Que afasta tudo o mais do meu coração.
Enquanto eu arrumava manter adágios valiosos ocultos —
Esses sonhos matam todos os meus sentidos ardentes —
Vi compaixão revelada em teu rosto,

Mas depois que o Amor traiu o teu desejo,
Jogando um véu sobre teus cabelos dourados,
E teu olhar gentil se retirou para dentro de si mesmo.

O que mais eu aprecio agora não vejo mais —
Tão perto que aquele véu pesado me restringe,
A mim escurecer a doce luz de teus belos olhos.
II

Duas rosas frescas que cresceram no Paraíso
No dia em que maio nasceu em todo em teu orgulho,
Como um belo presente, um amante, velho e sábio,
Entre dois que ainda eram jovens, se dividiu;

E juntou palavras tão doces e sorrisos tão alegres
Que até mesmo peito selvagem se voltaria para o amor,
E brilharia e cintilaria com um raio amoroso;
E assim, com tons variados, teus rostos se inflamavam.

“Nunca o sol viu tal par de amantes”,
Rindo (mas não sem um suspiro), ele disse,
E então, abraçando cada um, se afastou.

Assim, espargiu flores e palavras; até que em mim,
Alegria trêmula se espalhou ao redor do meu peito.
Ó abençoado dom da fala! Ó dia, tão alegre!
FRANCESCO PETRARCA - ERIC PONTY
 
  
  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, fevereiro 01, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 


9
É o momento em que o planeta que marca as horas
retornar mais uma vez para fazer morada em Touro,
cujos chifres flamejantes cá derramam poder
E decoram o mundo com cores recém-criadas.

Não apenas o que se estende diante de nós,
Das margens e colinas, ele adorna com flores,
mas coisas ocultas nunca veem o alvorecer
E, ele torna férteis com umidade terrena;

Para que nos deem frutos e coisas iguais;
Assim, ela, que é sol entre todas as mulheres,
movendo os raios dos belos olhos, em mim.

Dá origem a pensamentos, atos e palavras de amor —
não importa, porém, num os controles ou transforme,
Sendo que primavera para mim nunca chegará.

10
Coluna gloriosa sobre a qual repousar,
nossa esperança e grande renome do Lácio,
que nem mesmo a ira de Júpiter com chuva forte
Ainda se desviou da passagem verdadeira:

Não há então palácios, teatros, galerias aqui;
em vez disso, abeto, faia, pinheiro se erguem —
entre a grama verde e a encosta da montanha próxima,
onde nós, na poesia, descemos e subimos —

Para abranger nossos intelectos da terra ao céu;
há um rouxinol que, nas sombras,
lamentar docemente e chora durante toda a noite,

E abarba cada peito com pensamentos de amor.
Por bondade, só tu interrompeste a perfeição,
mantendo-se longe de nós aqui, meu senhor.

F. Petrarca - Trad. Eric Ponty

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Uma negra possuída pelo diabo puto - S. Mallarmé - Trad. Eric Ponty

Uma negra possuída pelo diabo puto,
Quer provar a miúda consumida pelo novo prado,
E o fruto maligno sob teu vestido esfarrapado; 
Essa glutona inventa alguns truques tão astutos. 

Contra barriga, ela raspa dois seios jovens e ledos 
E, mais alto do que a mão poderia abichar o ser. 
Bate bruno de teus pés calçados com botas sem medo
Assim qual uma língua inexperiente no prazer. 

Contra a nudez assustada desta gazela 
Que treme, qual um elefante louco, deitada ela
De costas, espera. Espantar com ânsia.
Sorri com dentes infantis para a guria.
 
E, entre coxas, onde a vítima se estica. 
Içando a pele negra sob o pelo que fica. 
Ela impele para fora o palato a boca estranha ecoar,
Pálida e rosada como uma concha do mar.

 S. Mallarmé

O poema pertence ao género normalmente referido como obsceno. Descreve, ou melhor, narra (uma vez que a cena está em movimento) a posição erótica normalmente conhecida como sessenta e nove — com a tripla peculiaridade de ser um sessenta e nove entre duas mulheres, um sessenta e nove entre uma adulta e uma criança, um sessenta e nove entre uma negra e uma branca. Mas o que mais me interessa não é a obscenidade, mas o voyeurismo, que é duplo: Mallarmé não só nos faz espreitar algo tão estritamente privado como uma cena de amor lésbico, mas também algo privado dentro dessa privacidade, que é o interior do sexo femíneo, normalmente oculto da vista pelos púbicos.

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sábado, janeiro 31, 2026

PARA OS MEUS 102622 LEITORES - ERIC PONTY

 Que alegre parece ser essa guirlanda, e que
bem moldada com flores, em teus cabelos dourados!
Um pouco à frente, cada flor (eu juraria)
compete para ser a primeira a beijar sua face luminosa.
Ó vestido feliz vinte e quatro horas, e agora,
que prende os seios e flui com elegância,
e renda feliz de ouro que semelha se importar
Apenas por aquelas amuras e por aquele regaço (eu juro)!

Veja, em teu peito, aquela fita é muito alegre,
Não por tua beleza ou tua borda dourada,
Mas por aquele descanso ali mesmo e por aquele jogo.
E aquele cinto fino – ó doce embate –
Diz para si mesmo: Aqui mesmo, ó, deixe-me envelhecer!
Entendes agora o que meus braços fariam.

Para Giovanni, aquele de Pistoia.

Alarguei um bócio, com essa tristeza,
Se eu tivesse, tal qual os gatos da Lombardia,
Bebida água suja em grande batelada, –
O que faz o estômago inchar até o queixo.
Barba até as estrelas e uma nuca que prendo
Nos ombros, peito de harpia – esse sou eu;
E, ainda pingando, o pincel, como podes ver,
Deixou meu rosto maculado por dentro e por fora.

Para dentro da barriga adentraram meus quadris,
E com o assento eu contraponho a corcunda
E, tal não consigo olhar, em vão eu vou.
Na frente, minha pele está esticada e quase se vira,
Mas atrás as rugas formam um monte,
E curvado eu ando igual um arco sírio.

É por isso que, curvado e manchado,
até mesmo meus pensamentos emergem da minha cabeça:
atirar com um arcabuz torto é ruim.

Defenda minha pintura morta,
Giovanni, e minha honra que se amaina:
este lugar é ruim; além disso, eu não sou pintor.

MICHELANGELO BUONARROTI - TRAD.ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sexta-feira, janeiro 30, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 

EU TE ACEITO

[CONTEMPLAÇÃO DO SYMBOLO OLVIDADO]POR [ERIC PONTY]

            Há defensores, na área da poesia, de uma coisa chamada "transcriação", processo que, alega-se, superaria os percalços do velho ato de traduzir. Tudo se resumiria, no caso, a priorizar a forma, relegando o sentido a um segundo plano. Aceita a tese, caberia ao transcriador recriar integralmente o poema. 

É uma escolha, claro, e, como tal, discutível.  

       Eric Ponty não se alinha entre os transcriadores. Prefere simplesmente filiar-se ao grupo dos tradutores. E, assim como Renan recomendava escrever apenas sobre aquilo de que gostamos, Ponty só traduz os poetas de sua preferência. Paul Valéry é um deles. E se não é obrigatório, é recomendável haver afinidade entre o tradutor e a obra. E essa comunhão estética entre o tradutor e o traduzido, deixadas as possíveis diferenças de lado, está patente nos poemas aqui recolhidos.

     Ainda caminhando na senda mallarmaica, o autor de Le cimetière marin desbastou sua poesia de toda forma de sentimentalismo, rejeição comparável a seu repúdio à egolatria romântica. Mas essa poesia, a de Valéry, carrega uma musicalidade ausente (ou pouco relevante) em Mallarmé e expressivamente atuante em Rimbaud e Verlaine. Aliás, é deste último o apelo: de la musique avant toute chose...

     E é esta música que o tradutor Eric Ponty capta.

João da Penha - Escritor e jornalista, traduziu os poetas russos Sierguei Iessiênin, Alieksandr Blok, Marina Tsviêtáieva e Anna Armátova


quinta-feira, janeiro 29, 2026

SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS - Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty

  SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS (1590-1650)



CHRISTOPHER MARLOWE

Coroado, cingido, vestido e calçado com luz e fogo,
Filho primogênito da manhã, estrela soberana!
Alma mais chegada da nossa estava mais afastada,
Mais distante no abismo do tempo, com tua lira.

Pendia mais alto sobre a veemência da aurora
Onde todos cantaram juntos, todos os que existem,
E todas as canções estreladas atrás de teu carro
Ressoaram em teia, todas nossas almas o aclamam, senhor.

"Se todas as penas que os poetas já tiveram
Mantido o anseio dos pensamentos de teus mestres,"
E qual com a pressa de carruagens em movimento.

O voo de todos os teus espíritos fosse impacto
Em direção a um grande fim, sua glória - não, não então,
Ainda não poderia ser assaz louvado pelos homens.

WILLIAM SHAKESPEARE


Nem que línguas dos homens e dos anjos, todas em uma
Falassem, poderias ser dito a palavra que poderia Te falar.
Córregos, ventos, bosques, flores, campos, montanhas, 
sim, o mar, que poder há em todos para louvarem o sol?

Teu louvor é este, - ele não pode ser louvado por ninguém.
Homem, mulher, criança, louvam a Deus por ele; mas ele
Não exulta por ser adorado, mas por ser.  Ele é;
Ele é; e, sendo, se considera tua obra bem-feita.

Toda a alegria, a glória, toda a tristeza, a força, todo o gozo,
São dele: sem ele, o dia seria noite na Terra.
O tempo não o admite, desde o era do tempo.

Todos alaúdes, harpas, todas violas, flautas, todas liras,
Ficam mudos diante de ti, antes Duma corda se suspenda.
Todas as estrelas são anjos, mas o sol é Deus.

BEN JONSON 

De base ampla, de frente farta, multiforme,
Com muitos vales cobertos de hera e videiras,
Onde as fontes de todos os riachos correm vinho,
E muitos penhascos de frente para a tempestade,

A montanha onde os pés de tua musa se arrefeceram
Os gramados que se apraziam com tua dança divina
Ainda brilhas com fogo do qual soia brilhar
Das tochas que se acendem em torno da dança.

Nem menos, nas alturas dos jazigos cinzentos,
Videntes de grande pensar, com luzes do céu acesas no peito
Conversam: e o rebanho de coisas insignificantes.

Sabes, ou por açoite ardente ou por haste ardente
Quando a ira se ergueu e riu em tua fronte larga
Abrumando tua alma com sombras das asas do trovão.


 

UM ESTUDO DE MEMÓRIA

 

Se essa ainda é uma alma viva que aqui verse-as,
Semelhava mais intensa aumento de numerar fontes
E vestida pelo tempo e pela dor com coisas mais belas
A cada ano que ia, via cumprir-se um novo ano de armada,

A morte não pode ter mudado nada do que a tornou prezada;
Bondade meio humorística, alegria de olhos graves nas asas
Sensatez intensa, voz mais alegre do que cordas que tocais;
A mais esplêndida calma, coroada com um ânimo conquistador;

Sendo então um espírito inviolável que sorria e cantava
Por força da natureza e necessidade heroica
Mais doce e forte do que o sonho ou o feito mais imponente;

Uma canção que cintilava, uma luz de onde ressoava a música
Tão alto quanto as alturas mais ensolaradas do pensar mais gentil;
Tudo isso deveria ser, ou tudo o que ela era não seria nada.


Além do vento norte, havia a terra de outrora onde os homens 
viviam alegres e sem culpa, vestidos e sustentados
Com as vestes intensas da alegria e com o doce pão do amor,
O rebanho mais branco do rebanho materno da Terra.

Ninguém poderia usar em seus sobrolhos registrados
Uma luz de fama mais bela do que a que cintila sua cabeça,
Cujo amor pelas crianças e pelos mortos
Todos os homens agradecem: eu vejo ao longe!

Uma valiosa mão morta que nos une, e uma luz
A mais bela e benigna da noite,
A noite do doce sono da morte, na qual pode haver.

Uma estrela para mostrar seu peito na visão coeva
Alguma ilha mais feliz no mar Elísio
Onde Rab possa lamber a mão de tua amada Marjorie.

Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty
 
  
   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA