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quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Dois Poemas de Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 Quer meus versos, rainha de olhos briosos e doces!
Infeliz, sabes muito bem que, com os cães ínvidos,
Os críticos rancorosos, com lábios franzidos,
Que perdem em farrapos as estrofes dilaceradas,
Toda a pálida raça com a fronte amarelada de fel,
Cujo fel é o luto eterno pela prosperidade alheia,
Eu ladro com toda a força, e mais alto que os outros.
Ó poetas divinos, não sou mais um de vôs:
Fizeram-me um nicho onde fico à espreita,
No rodapé do jornal, qual um cão agachado;
E há muito tempo, no altar da minha alma,
Derrubei a urna de ouro onde brilhava a chama.
Para mim, não há mais primavera, nem arte, nem sono;
Não há mais quimeras loiras com sorrisos rubros,
Nem pombas privadas, de pescoço alvo e pés rosados,
Que bebem da minha taça e pousam no meu dedo.
Minha poesia está morta, e eu não sei mais nada,
Exceto de que tudo é feio, exceto de que nada é bom.
Eu encontro, por natureza, o mal em todas as coisas,
Dessas manchas do sol, o verme de cada rosa,
Triste enfermeiro, vejo os ossos sob a pele,
A cortina por dentro e o reverso do véu.
Assim eu vivo. - Como a bela musa antiga,
Erguida sob as longas pregas de tua túnica alva,
Com cabelos negros em duas ondas abertas,
Como o palato de flores douradas estreladas,
Sem ferir os pés com esses cacos de vidro,
Poderia ela descer até mim nessa terra?
Mas as belas sempre são intensas sobre nós:
Os leões botam focinhos ruivos sobre as patas.
O que a Musa de grandes asas não faria,
A Virgem aoniana de graças eternas,
Com teu doce beijo e a glória em recompensa,
Fazes, ó rainha! E em meu coração surpreso
Sinto brotar os versos e, toda alegre,
Abrir-se numa flor a rima brotada!


A campainha matinal enfim tocou a hora

Em que as pálidas, que um dia muito vivo toca,
Perto da sílfide que dorme vão deslizar sem ruído
No coração dos nenúfares e das belas da noite;
Giselle desfalecente com tuas poses suaves
Lentamente ofuscar-se sob teu sudário de rosas,
E não se vês mais do fantasma encantador
Do que uma pequena mão aberta para teu amante.
- Então aparece, tal qual caçadora soberba,
Arrastando teu veludo sobre o veludo da grama,
Um sorriso na boca, um raio nos olhos,
Mais fresca que a aurora que desabrocha na borda dos céus;
Bela com teu olhar azul, tua trança dourada,
Que a Grécia teria adorado em teus altares alvos;
Mármore puro de Paros, que as Graças, em coro,
Em teu grupo admitiriam como quarta irmã.
- Da floresta mágica fulgurando a abóbada,
Uma luz viva se espalha, - e duvidamos
Se o dia, que renasce em teu brilho vermelho,
Vem de tua presença ou se vem do sol!
Giselle morre; Albert, perturbado, se eleva,
E a realidade faz o sonho ofuscar-se;
Mas em atrações divinas, em casto prazer,
Que sonho pode valer tua realidade!
Sim, Forster, eu admirava teu ouvido divino;
Me entendeu bem, do elogio sendo então óbvio:
Como ela é encantadora de se ver nas faixas sinuosas
De teus cabelos ingleses tão ricamente dourados!
Nunca Benvenuto, deus da cinzelagem,
Traçou sobre a prata um niello mais fino,
Nem na alça de um vaso enrolado de ornamentos.
Com contorno mais gracioso e um sabor mais fascinante!
Desabrochando no canto da tua têmpora azulada?
Ela parece, em meio à tua brancura de alabastro,
Uma flor viva, uma rosa de carne,
Uma concha retirada do mar!
Como em um mármore grego, ela é reta e pequena,
E o molde foi tirado daquele de Afrodite.
Abençoada a joia que, com teus lábios de ouro,
Beija teu lóbulo rosa, - e mais feliz ainda
Aquele que pode derramar, ó favor sem igual!
Nos contornos perolados de tua concha vermelha,
Tremendo de emoção, empalidecendo, perturbado,
Uma palavra misteriosa, ouvida tão-só por ela!

Thephrile Gautier - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

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