Uma negra possuída pelo diabo puto,
Quer provar a miúda consumida pelo novo prado,
E o fruto maligno sob teu vestido esfarrapado;
Essa glutona inventa alguns truques tão astutos.
Contra barriga, ela raspa dois seios jovens e ledos
E, mais alto do que a mão poderia abichar o ser.
Bate bruno de teus pés calçados com botas sem medo
Assim qual uma língua inexperiente no prazer.
Contra a nudez assustada desta gazela
Que treme, qual um elefante louco, deitada ela
De costas, espera. Espantar com ânsia.
Sorri com dentes infantis para a guria.
E, entre coxas, onde a vítima se estica.
Içando a pele negra sob o pelo que fica.
Ela impele para fora o palato a boca estranha ecoar,
Pálida e rosada como uma concha do mar.
S. Mallarmé
O poema pertence ao género normalmente referido como obsceno. Descreve, ou melhor, narra (uma vez que a cena está em movimento) a posição erótica normalmente conhecida como sessenta e nove — com a tripla peculiaridade de ser um sessenta e nove entre duas mulheres, um sessenta e nove entre uma adulta e uma criança, um sessenta e nove entre uma negra e uma branca. Mas o que mais me interessa não é a obscenidade, mas o voyeurismo, que é duplo: Mallarmé não só nos faz espreitar algo tão estritamente privado como uma cena de amor lésbico, mas também algo privado dentro dessa privacidade, que é o interior do sexo femíneo, normalmente oculto da vista pelos púbicos.
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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