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segunda-feira, julho 22, 2024

As Herméticas Efígies de Marselha - (2000) - Eric Ponty

           As imagens do tarot de Marselha sempre me instigaram pelo caráter medieval, e de como estas imagens medievais ainda estão vivas e circulam nas mentalidades contemporâneas muito mais às vezes que no tempo que a eclodiram.   

          Ítalo Calvino foi um dos escritores contemporâneos que foram seduzidos pelas cartas e tanto em “castelo dos destinos cruzados” este tentou elaborar uma narrativa através da leitura do Tarot, este descobriu que o tarot não pode ser manipulado para conduzir o destino das personagens de sua imaginação, logo percebeu que teria de tomar um caminho arbitrário de interferir na narrativa, e não apenas narrá-la como o jogo ia sendo construído ao acaso.

             O Tarot possui 22 cartas os Arcanos Maiores que são as cartas mais importantes do tarot, pois representa as etapas da Alma em sua jornada em direção ao auto conhecimento. Os Arcanos Maiores começam com a carta zero (0), o Louco, que representa a ingenuidade e desprendimento, características das almas inexperientes ou muito jovens. O Louco, em sua viagem, irá passar pelas etapas de aprendizagem e por experiências retratadas nas outras cartas dos Arcanos Maiores. A última carta, a que fecha a viagem ou a questão, é O Mundo, onde o Louco já não é mais uma criança pura e inocente, mas uma pessoa madura e consciente do mundo que o cerca. É interessante notar também que o Mundo fecha um ciclo, uma questão ou uma dúvida, mas sempre outras situações vão se instalar, e o Louco de novo vai aparecer, dando início novamente à viagem pelos mistérios e questões que vivemos dia-a-dia. 

          Segundo Pilar Ferreras” O Tarot é o livro mais antigo que se conhece. Atribuído a Hermes Thot, foi trazido para o ocidente pelos ciganos, e durante muito tempo foi considerado apenas como um tratado de magia e instrumento de adivinhação. Hoje, graças aos estudos de Eliphas Levi, Papus e outros, sabemos que é um tratado de filosofia hermética. O livro é composto de duas partes bem diferenciadas: os arcanos maiores e os arcanos menores.A primeira parte ou os Arcanos Maiores, está formada por vinte e duas laminas ou cartas.Nas sete primeiras estão representados a criação de Deus, no seu aspecto feminino - da gestação e nascimento do universo, que na dimensão humana representa a gestação e nascimento dos seres humanos e a caminhada irreversível em busca de sí mesmos.Os arcanos menores divididos em quatro partes de quatorze laminas cada, indicam os Quatro caminhos que podem levar todos os seres humanos a auto realização. Cada um desses caminhos - denominados ouros, espadas, copas e paus, está relacionado com um elemento: terra, água, fogo e ar, respectivamente”, ou seja, captam em imagens medievais a complexidades e transformações por qual passam o ser humano, tanto que o poeta francês Gerard de Nerval admirava a carta da lua, e se sua vida não foi uma representação desta na existência do poeta.

         Minha leitura poética 22 cartas os Arcanos Maiores do tarot de Marselha, sobretudo poético, não seguindo o caminho do misticismo ou esoterismo, mas de uma leitura pessoal, do quais apenas quis que cada poema contivesse os símbolos básicos dos arcanos como identificação possível para o leitor.  

         Às vezes tento entender a minha maneira, o que pode uma carta significar, outra, atenho-me ao sentido poético que esta pode proporcionar na construção deste mesmo imaginário, de uma estrutura pré-determinada de temas do qual eu deveria seguir até o final desta ordem pré- estabelecida. 

Eric Ponty

0
Pobre homem com gorro de bufão,
por que desdenhas das coisas,
por que sorri de todas as linhas,
por que faz tamanho desdém?

Vestido como um bobo da corte,
esconde também as verdades,
tem toda liberdade para criticas,
tem ao ombro a vara com a trouxa
sempre pronto a se ir em temporada.

Por que o tigre ou o cão lhe atacam,
como inimigos desta tosca zombaria?

I

Com quantos encantamentos pode fazer um novo canto,
fazer mexer e surgir às linhas da paisagem que não movem
alinhar na tarde a voz esquecida dos espíritos adormecidos,
demonstrar outras realidades que submersas de real.

Com quantos encantamentos pode fazer um novo canto,
na mesa de madeira que segue de vila em vila anunciando
que basta crer que um novo pássaro surgirá de dentro
de uma árvore que se suicidou pela rotina da manhã. 

Com quantos encantamentos pode fazer um novo canto,
transpor um objeto mágico de um lugar a outro sem visão
servir o chá milagroso das ervas que nascem na meia lua
para que a alma nasça no movimento de cada cotidiano.

II

O inusitado se fez de real, onde uma mulher se fez papa,
perguntaram-se mais ignorantes da história das imagens,
folhearam as páginas amarelas dos mais apócrifos livros,
as notas de roda pé que giram sobre si mesmas ao léu,
na busca deste fato, que sem duvida só pode ser irreal.

Houve, porém uma papisa na confusa história do poder,
esta mulher de face tão esquisita e tão marginal fendida
que é melhor nada dizer, ignorá-la, como uma bizarrice,
articulada nas linhas das entranhas do poder aracnídeo
de onde nascer e morrer eram apenas meros entalhes;
qual tosco designo que se dissimula neste aberto livro?


III

Quantas cabeças rolaram sobre soberana ordem,
quantos inimigos se rederam aos encantos da tez,
de seu cedro quantos impérios foram fundados
quantas manhãs deixaram de surgir na aurora,
porque indisposta não acordou algaravia da relva.

Mesmo soberana porque se sempre soube rainha,
não se acovardou diante dos desígnios implacáveis,
fez alianças com o outro, para ser um só império,
com o brasão mostraste qual genealogia acerta
que se fez mover e se reunir vozes num só coro
nas árduas ruas vazias de sombras e de luzes.

Soberana aponte qual é esta verdadeira aliança
qual a vereda que conduzirá ao castelo urdido
com quantas curvas linhas se fazem a história
de quem entra e quem sai desta tosca parábola. 

IV

De lado mostra o teu perfil imperial e majestoso
barba branca fundida pelos vários outonos idos
cujos fios foram tecidos nas manhãs primaveris
que se impunham pelas terras largas do império.

Do centro teve comando exércitos bravios largos,
diplomatas, burgos, cavaleiros e belas donzelas,
que o reverenciaram nas linhas largas da história
em cujas lendas ainda ressoam latas ao ouvido.

De quais céus terá passado o voou do pássaro,
adornado de ouro, faz a efígie de teu emblema,
o azul céu que lhe orna a tua vestimenta real
senhor da mais fina hierarquia divina de Deus.

V

Entre dois pilares de Hermes e de Salomão
dá benção entre as coisas vivas e ocultas
com a mão direita e na esquerda segura
apoiando-se bastão encimado por cruz tripla
para que se ressoe a voz de Deus nos seres.

O que teria sido se não tivesse havido pecado,
Eva e Adão sido expulsos do paradiso longínquo
quantas guerras não teriam sido semeadas e os
homens perdidos as vozes em agudo desvão.

À sua frente ajoelham-se dois ministros pios,
em suas consciências ressoam mensagens
de outras terras, de outros burgos distantes,
estes dois ministros pios, serão um dia santos,
mas um já se fez talvez distante do batismo.

VI

Homem entre o Vício e a Virtude são próprios
da natureza que um dia foi corrompida por Eva
no jardim jamais sonhado e admirado do Paradiso
pois entre dois opostos, está dialética mais viva,
se será mesmo homem ou mais tosca decadência
de ter-se sonhado um dia, filho legitimo de Icaro.

Não está só homem entre o Vício e a Virtude
perto do alto, há um gênio alado ameaça o vício
para que não entre ignorante na relva soturna,
com um dardo. Há também aqui nestas efígies
Bibah e Malkuth.que se contemplam com gestos
com quais Sábias disposições estes se entreolham,
também nesta união quantas tentações perigosas.

VII

Fausto e majestoso surge pela avenida o carro,
em pompa tocam os clarins pela paisagem nua,
perfumam com a acácia e os ramos lhe saúdam,
este conquistador coroado que nos traz um cetro,
o veiculo de tal destino cúbica forma e um dossel.

Por que os dois cavalos que conduzem o desfile,
divergem por qual rude vereda irão se emprenhar,
para trazer a gloria aos ocos caminhos em vão,
o veiculo é constituído de quatro colunas reais,
trunfo, vitória da Justiça e do Juízo este conduz,
ou pode ser um ato de mera brutalidade, fraqueza
que já roda em suas rodas e no oco do galope?

VIII

Presença de tão majestosa soberana o silêncio,
o apoio de que existem ordens entre as coisas,
que o vil se torna punido, e o indefeso justiçado,
sobre esta coroa advindo do deus sol do cosmo,
do trono onde sentada está decide sobre tudo,
da coluna direita, pode haver o bem emanado,
da coluna esquerda, o mal que foi sussurrado,
nesta roda que se faz, o bem e o mal existir.

Presença de tão majestosa soberana o silêncio,
segurando na mão direita, uma espada do poder,
mão esquerda, balança onde pesa hoje e ontem.
onde o equilíbrio e justiça se encontram num ser.

IX

O homem o que tenta iluminar de tão oculto,
de onde esta escuridão grifou a liberdade viva,
que é preciso que ilumine este caminho lato,
onde a alma se perde nos mais toscos ais,
em alianças pervertidas, em sonhos de desvão?

Velho barbado de tez alva, envolto em um manto,
que parece puído pelas idas horas mais soturnas,
com a cabeça coberta por um capuz de egrégias
noites que a luz tangia a parafina de vela amarela,
traz na mão direita, uma lanterna, de oculta arte,
enquanto se apóia no firme báculo da prudência.

X

Roda e roda no caminho que se cria na vereda,
rodando nas calhas d´água do fluido  moinho,
tudo o que sob, um dia poderá também descer,
onde o que importa que haja este frágil revolver,
neste circulo que sabe girar as almas e as dores.

Do lado ascendente sobe um animal, que será,
do lado descendente, macaco, ou será a cobra,
que importa se estes sobem e descem na roda,
se acima há a forma de um anjo com a espada,
mas não fique tão feliz como tal pronunciamento
pode ser que diga boa ou má Fortuna na vereda.

XI

Qual rainha coroada tem a força de um homem,
quantos impérios foram construídos pelo desejo
que sussurrarem na manhã o seu augusto nome
na coroa de ouro que lhe adorna a alva cabeça.

Qual rainha coroada tem a força de guerreiro,
faz desaparecer impérios inteiros num só gesto,
faz sucumbir o nome de reis e mesmo imortais,
com calma e sem esforço, e com perseverança,
cerrando as toscas mandíbulas do furioso leão.

XII

Por que carrega dentro consigo a culpa do eu,
quantos homens te argüir-lhe-iam ao suplicio,
quantos condenaram, e quem te atraiçoou aqui,
neste estado tão tosco e horrendo de degredo,
igual a mais tênue e primeva imagem de Pedro.

O homem pendurado em uma espécie de forca,
corda segura-lhe por um pé suspenso no espaço,
de cabeça para baixo qual perspectiva lhe traduz,
mãos estão amarradas nas costas em um triangulo
enquanto as pernas estão na forma de uma cruz,
igual a mais tênue e primeva imagem de Pedro.

XIII

Prado em sombra entregue, ouve-se lamentos,
a paisagem assustada escondeu-se na noite,
nem longe e nem perto permanecer um ser vivo
esqueleto armado de foice ceifa cabeças ocas,
que guerreavam num outro tempo, num ontem.

Sobre as sombras da vastidão da noite no prado,
soa Cavaleiro do Apocalipse,vindo ceifar a vida,
traz consigo a alva caveira a tez pendida ao peso
mas ao fundo, onde se vê, um novo dia surgindo,
atem-se ao verdadeiro significado para o amanhã.

XIV

Os sinos da manhã lhe soam logo às seis horas,
as aves recantam-lhe novos saltérios tecidos,
um anjo com o sinal do Sol na testa se anuncia,
para as coisas que não se conjugam em união.

Da mão direita e da mão esquerda há um vaso,
onde o cristalino liquido percorreu o curso,
numa mudança que sempre se renova no agora
do ir e vir, do passado ao presente no futuro.

XV

O que já se tramou nesta minha primeira linha,
quantos laços tramaram nesta minha passagem,
quanta soberba e traição lhe cabem como eu,
demônio de chifre e asas, com garras de águia,
nesta transformação de anjo em desfiguração.

Sobre um altar, ao qual outros dois demônios,
serão estes os futuros aliados, serão os bufões,
que manda nas encruzilhadas como um pacto,
se na mão esquerda já traz consigo a tocha,
por que estão amarrados por coleira e corda?

XVI

Do alto desta torre quais são as línguas ditas,
quantas estas ruínas reunidas num só lugar,
torre cuja parte superior assemelha-se a coroa,
deste império de desvalidos e orgulho desmedidos
que estes dois homens foram expulsos da casa.

A Casa de Deus de uma torre que é uma coroa,
tombam de ponta-cabeça dois homens ao léu,
expulsos pela irá de Deus num raio de um trovão,
torre desmorona-se em chispas e escombros,
e nada pode ser dito além da letra hebraica Ayin.

XVII

Perdoe-me se olho tua nudez moça,
vejo que despeja água de dois vasos,
nas águas na margem de alvo lago,
esperam que tudo tenham sido lavado.

Vejo que acima, resplandece a estrela,
dizem que é reluzente estrela dos magos,
traz consigo sete pontas para se defender
em volta de ti nascem florestas e plantas,
sob tua mágica influência tudo se perpetra,
em uma delas pousa a borboleta de Psique,
percebo moça que você é uma estrela.

XVIII

Lua brilhando nos céus, orvalho caindo,
na noite que se faz noturna de efígies,
lobo e um cão estão uivando solitários
na tremenda algaravia surda e soturna
aos pés de duas torres de cada lado,
uma vereda se abre pelo oco horizonte
e pode-se perceber as gotas de sangue.

Lua brilhando nos céus, orvalho caindo,
na noite que se faz noturna de efígies,
nas torres altas do descente de Aquitania,
uma lagosta arrasta-se através da água,
em primeiro plano, na direção da Terra.


IX

Na tarde arde a tua luz fulgorosa,
dentro das Minas há feixes doirados,
que são como os raios que lhe fazem
ser pleno, astro Rei, desta via Láctea.

Na frente de um muro, talvez de adobe
duas crianças, onde á iluminas intenso,
na mais plena felicidade terrena,seres.

XX

Aquele que crer em mim ressuscitará,
disse o Senhor meu Deus de Abraão,
um anjo no céu já toca uma trombeta,
para acordar aqueles que ainda dormem,
traz amarrado um estandarte com a cruz.

Aquele que crer em mim ressuscitará,
disse o Senhor meu Deus de Abraão,
e os mortos já se levantam dos túmulos
ressuscitaram ao chamado divino de Deus.

XXI

Dentro de uma guirlanda florida de gloria,
moça nua coberta apenas por leve faixa
há natureza e a sua Divina Presença, e,
em cada mão carrega consigo o bastão.

Nos quatro ângulos da carta os animais,
angélicos do Apocalipse, na parte acima,
Águia e o Homem; um alado e terrestre,
na parte de baixo, há Leão e o Touro.

Dois animais que vencem pela força
nas ruas que se abrem pelas portas,
nas vastidões deste eu pelo mundo.
ERIC PONTY
ERIC PONTY POETA-TRADITOR-LIBRETTISTA

domingo, julho 21, 2024

Vincent Van Gogh ou a perspectiva do auto-retrato (2000) - Eric Ponty


Prefacio:

A coleção “Vincent Van Gogh ou a perspectiva do auto-retrato” nasceu de minha observação dos quadros de auto-retrato de Vincent Van Gogh e das nuanças de representação que este pintada em seus quadros.

Uma vez que o modelo desses quadros era o mesmo, ou seja, o próprio artista retratado percebi uma serie de nuanças e desenhos do ego ou do eu em cada quadro.

A presente coleção de sete poemas foi escrita um posterior ao outro tendo como base o primeiro poema, sendo que, cada um foi escrito durante um dia num total de uma semana.

Ao conceber esta coleção tive em mente em capturar as nuanças do eu, como este se transforma num mesmo objeto com seus vários significantes e significados e como cada poema é em si um poema inteiro e complexo.

Proponho ao leitor que use o mesmo método de leitura e que leia somente um poema de cada vez em cada dia desta coleção.

Eric Ponty
I

Perspectivo sua imagem
como quem olha um próprio,
mas tão próximo como um irmão, porém
a proximidade de quem se olha
no espelho.
 
Certas imagens transformam-se,
na atenção de quem se vê
ali parado; certo reflexo 
que se esculpiu em miragem.
 
Talvez o que ali se refletiu
foi o próprio ego refletido
desses, que a lua, ilumina,
na superfície da lagoa
e termina quando a nuvem
passa estancando o subterfúgio.
que a luz cobriu.

Imagem no espelho
será quem é, e qual eu
que ali se move como verdade,
e o eu que eu acordei ou eu dormi
posso me perspectivar ali? 

E eu me reflito ali
onde há representação de mim,
onde apenas o reflexo da luz tange
e não há mais nada do meu eu.

Se eu estou aqui,
só pode ser uma representação
ou meu irmão refletido ali
perspectivando minha imagem
que está refletida em mim.

II

Perspectivo a imagem
como quem olha o próprio rosto,
mas tão próximo como um quadro, porém
a proximidade de quem se olha
na posteridade.

Certos quadros transformam-se,
na atenção de quem se vê
ali parado; certo reflexo 
que se esculpiu na imagem ali fossilizada.

Talvez o que ali se representou
foi à própria imagem 
essa, que vemos na passagem, 
na persona iluminada,
na superfície da textura 
e termina quando se posteriza
na superfície de um quadro.
quando da luz o princípio se captou.

Imagem perspectivada no quadro
será a imagem real, e qual eu
que ali se representa enquanto verdade,
e o aquele ali posterizado
pode se perspectivar ali? 

E eu que me aproximo do quadro
onde há representação de alguém,
onde apenas o reflexo da luz tange
e não há mais nada do que uma imagem
saturada em si mesma.

Se eu estou aqui enquanto eu,
só pode ser uma representação
ou uma imagem refletida 
perspectivando minha imagem
que está refletida aqui neste quadro
imagem antimagem, tosca miragem.
III

Perspectivo sua imagem
como quem olha o horizonte,
mas tão próximo como a tarde, porém
a proximidade de quem se olha
na quase noite.
 
Certas imagens transformam-se,
na atenção de quem se vê na noite
ali parado; certo reflexo da sombra 
que a esculpiu em miragem noturna.
 
Talvez a sombra que ali se refletiu
foi o próprio ego refletido
dessas sombras, que a lua, ilumina,
na superfície da lagoa
e termina quando a nuvem
passa estancando o subterfúgio.
que a luz antes iluminara.

Imagem da sombra na noite
será quem é, e qual eu vulto
que ali se move como verdade,
e o eu que eu acordei ou eu dormi
posso me perspectivar ali
naquele grito disforme do negro? 

E eu me reflito ali na sombra
onde não há representação de mim,
onde apenas o reflexo tange no real
e não há mais nada do meu eu
apenas meu reflexo na superfície.

Se eu estou aqui por inteiro,
só pode ser uma representação
aquela sombra ou meu irmão refletido
e perspectivando minha imagem
que está refletida nas sombras.

IV

Perspectivo o presente
como quem olha a própria imagem,
mas tão próxima imagem, porém
a proximidade de quem se olha
na imagem com um reflexo.
 
Certas imagens transformam-se,
na atenção de quem se perspectiva
ali parado; certo reflexo de efígie 
que se esculpe em miragem.
 
Talvez o que ali se fez no presente
foi à própria imagem refletida
dessas efígies, que a lua, representa,
na superfície da lagoa adormecida
e termina quando a nuvem branca
passa estancando o subterfúgio
um branco travesseiro para recostar
os sonhos diuturnos da manha.

Imagem no presente que aqui jaz
Será esta quem é, e qual o eu
que ali se demove como verdade,
e o eu que eu acordei ou eu dormi
posso me perspectivar-me ali? 

E eu me reflito aqui em imagem
onde há representação de mim,
onde apenas o reflexo da luz tange
e não há mais nada do meu eu
neste estado da passagem do presente
erma breve e ausente.

Se eu estou aqui agora como imagem,
só pode ser uma mera representação
deste presente refletido dentro de mim
perspectivando minha imagem
que está refletida em mim neste instante
como miragem neste tosco grito
surgido do instante.

V

Como quem olha um próprio,
mas tão próximo como um irmão, porém
a proximidade de quem se olha
nas certas imagens que se transformam,
na atenção de quem se vê
ali parado;  
que se esculpiu em miragem.
 
Talvez o que ali se refletiu
foi o próprio ego refletido
desses, que a lua, ilumina,
na superfície da lagoa
e termina quando a nuvem
passa estancando o subterfúgio.

Imagem no espelho
será quem é, e qual eu
que ali se move como verdade,
e o eu que eu acordei ou eu dormi.

E eu me reflito ali
onde há representação de mim,
onde apenas o reflexo da luz tange.

Se eu estou aqui,
só pode ser uma representação
ou meu irmão refletido ali
perspectivando minha imagem.
VI

Perspectivo a paisagem do milharal
como quem lembra de algo que se foi,
mas tão doirada como se feita de ouro, porém
é uma paisagem  de quem se olha
num quadro retratado.
 
Certas imagens transformam-se,
antanhas na retina
ali parada; certos corvos solitários
sobrevoam a perspectiva do espectador. 

Talvez o que ali se refletiu
foi um poema de Rimbaud
desses, que a gente lê, e ilumina,
na superfície da consciência em noites
e termina com alguma iluminação
passando para estancar o subterfúgio
que este dia ceifou.

A paisagem ali perspectivada
será qual perspectiva, e qual real
que ali havia de representação como verdade,
e o eu quando eu olho e penso a paisagem 
posso estar perspectivando a mesma imagem? 

E todos nós nos refletimos enquanto eus
onde há representação de nós,
onde apenas o reflexo da luz tange
na perspectiva de quem a retrata.

Se eu estou aqui,
só pode ser uma lembrança da paisagem
uma alegoria ali expressa
perspectivando sombras de uma caverna
que está refletida.
VII

Perspectivo sua imagem Vincent
como quem olha o próprio rosto,
mas tão próximo como um irmão, porém
a proximidade de quem se olha
no quadro.
 
Certos auto-retratos transformam-se,
na atenção de quem se vê num retrato
ali parado; certo reflexo das nuanças
da miragem de um mesmo retrato.
 
Talvez o que ali se retratou
foi o próprio ego refletido do pintor
desses, que se expõe no museu, iluminados,
na superfície da posteridade dos olhares
e termina quando se sabe o valor
passa estancando o subterfúgio da arte.
que a usura que passa a valer.

Imagem do auto-retrato 
será quem é este Vincent, e qual eu
que ali se moveu como uma verdade,
e o eu que acordou ou que dormiu
posso se perspectivar ali? 

E eu (nós) me reflito ali retratado
onde há representação dos eus,
onde apenas o reflexo do olhar toca 
e não há mais nada do que um eu
perspectivado.

Se eu estou aqui como espectador,
só pode ser uma representação
ou meu irmão Vincent refletido ali
perspectivando minha imagem
que está refletida em mim.
ERIC PONTY



ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sábado, julho 20, 2024

Lílian Desnuda ( POEMAS EM PROSA) 2015 - ERIC PONTY


Teu cabelo escuro solto contra o azul céu percorre as filigranas da tonalidade que padece de outra cor mais escura.

Os fios de seu cabelo, negros que se fundem ao presente numa fundição abissal do próprio tempo.

A matéria presente das coisas não criadas, a margem do sussurro e do grito que padece de madrugadas.

A solidão da matéria como a própria consciência de ser matéria desprovida de ego, de se saber eu delimitado pelas fronteiras do próprio corpo, dimensão una aprisionada pelo fractal.

A possibilidade ante a própria impossibilidade de ser possível, um mero risco no azul.

A consciência de se renascer dentro da própria dimensão e de se expandir pela essência do risco de se fazer vivente.

Lílian II


Mas acontece que a noite se faz noturna
e ficou muitas vezes dentro do meu próprio eu
que se declama sobre os focos do mercúrio dos postes.

Meu eu se reconhece de longe 
deste eco evidenciado por vozes e sombras, 
pelos meus murmúrios, meus sussurros,
por aquilo que não sei mais enunciar como
a lúcida face que nasce de dentro do crepúsculo.
 
Sinto-me e me revejo que estou sobre 
as intricados vazios de minhas noites em claro; 
reminiscências esvaídas da memória, 
cinzas do que foi o dia, a essência póstuma 
dos subterrâneos discursos do urbano.

Apoiam-se meus dois olhos: 
notívagos, túrgidas efígies negras 
e até delírios sem pouso para o sonho. 

Em vão procuro outra dimensão da noite: 
também olhei a textura da tonalidade ocre
num ermo retiro de um céu destituído de azul
Onde esta distraída cingia seus cabelos de aura. 


Lílian III

       Você nasce dentro do ego das minhas linhas e de suas como uma imensa tonalidade ocre vindo da imensidão do cosmo quando o sol deixa de emanar seu foco sobre a terra e iluminar sua presença.
       Nesta ausência está edificado o teu ser, esta mudança de tonalidade quando resplandecia fulgurante ao sol e agora ausente, mas tem a afinidade de um imenso satélite alvo e cheio de espinhas que gira em volta de um planeta que gira
movimentado pela sua própria dimensão. 
       Sabe que nunca poderá alforriar deste plano porque somos seus habitantes e prisioneiros que nos encerramos como numa torre de pedra e nossos sonhos não passam de meros cavaleiros medievais que se perderam na dimensão do próprio sonho, 
que fingimos dentro da nossa própria solidão de outras conquistas que serão narrados por dois desaparecidos viajantes, 
e que nós nos nutriremos agora dessas suas narrativas. 


Lílian IV

        Outras vezes você se encolhe na sua solidão prendendo entre as mãos o murmúrio que se encolheu por causa da algaravia, estas falas que nascem por entre o casario que se decompõe no tempo.
        Meu opúsculo da madruga de cabelos negros e de tez lunar; basta que eu abra as janelas de meu quarto e te encontre no firmamento noctívago da noite sucumbida pela memória refletida dos raios de uma lua abandonada na visão do urbano.
        As nossas solidões preenchem as madrugadas de uma noite fria que somente as nuvens invisíveis podem se aquecer por serem a matriz de todas nevascas e de todas tempestades e de todas esperanças de um agreste rio seco.

Lílian V

       Algum andarilho em nossa mente com olhos do antigo já teria por nós passado, por acaso, numa destas ruas circunvizinha de casarões e ruas ermas que descambam em igrejas de tez meigas, 
e sucumbiu sem por nos adentrar.
       Não saímos ainda de nossas esperanças e
nem à primeira sombra foi projetada nas paredes dos muros de adobe que solitários dialogam com o silêncio, nem o ocre que nasce da noite do imenso silencio e percorre a noite sempre por acabar.


Lílian VI

                 Quando na madrugada  te aproxima da tez margeada do mundo que encolhida está entre os murmúrios, ó solitária, 
experimento a sensação arder de algumas falas entre o não dito, em algaravias que repercutem por entre as nuvens vazias e sem significado.
                 Circulo com o andar calmo com pensamentos que migram para outros destinos onde a solidão é apenas uma conjectura, sobre mim as sombras se aproximam como eternas andarilhas em busca de um sentido.
 
                 Então mil pássaros soturnos desprovidos de reflexos fogem em busca de suas agonias e soçobros que foram perdidos no cume do crepúsculo quando a tarde foi golpeada pelas nuvens ocres da noite.

Lílian VII

                  Noctívagos caminham pelos labirintos dos seus eus por ruas que se fundem dentro do mar onde últimos barcos levaram as ultimas almas para o delírio. 
 
                  E as ruas desertas cheias de almas que se ondulam em antigas lembranças do ontem passeiam pelas dimensões do universo sem a consciência do ser e do não ser.
 
                   Entretanto, porém, escapa por entre os subterfúgios dos olhares sem paisagens, agrestes como o mais árido sertão onde à noite sertão e mar são a mesma metáfora solitária. 

                   Os homens se entregam entre o tanger da noite; suas mascaras de cães se transformam em rostos de lobos e sem piedade atraiçoam o olhar primaveril da madrugada. 

                   A noite é transformada num imenso campo das vastidões humanas onde somente sobrevive aquilo que se maculou no tanger do crepúsculo e a manha se dissimula por entre as serras como uma virgem solitária. 


Lílian VIII

             Passam na memória algumas sombras vestidas de gente com um olhar lânguido dos combalidos em cadeiras de rodas que olham para a vastidão do campo e transforma-se em corvos que perpassam pelos milharais de trigo.
 
             Vêem-se espantalhos crucificados sofrendo de solidão que absortos no silencio meditam sobre o suicido e repercutiram seus lamentos no azul céu que melancólico tingiu-se de negro.

             O tempo é testemunha que os corpos passam e que foram construídos para sucumbirem á perspectiva de um grito que se adensasse numa canção de ninar de um eu menino.


Lílian XI

             Na longínqua e misteriosa noite percebo apenas seus reflexos vindos do cotidiano entre falas e olhares que sucumbem ao murmúrio dos significados atingidos.
 
            E nos reflexos serenos da madrugada entre gritos de extraordinária solidão eu virtuo o meu eu numa bruma entre o ser e o não ser.

            Numa das minhas solidões interiores repousa os raios lunares de uma lua que suspensa pelos cães de uma tarde compôs um mantra para um shiva que foi a muito olvidado após o espetáculo de transformação.  

           Nos lácteos raios de uma lua eu percebo a fluidez de seus cabelos por entre a brisa que chega após o crepúsculo se adensando numa noite de uivos.


Lílian X

          No silencio da noite os olhos dos noctívagos sempre perspectivaram sua cor por entre as macieiras fatigadas de inverno e os fantasmas sempre se alimentaram dela. 

          Bem sei da natureza de Rabi e daqueles que o quiseram difamar e do silencio que se fez quando este se transfigurou em uno de deixar um status num plano para transmigrar-se num outro.
 
         No silencio é necessário se entregar aos sons que nós nos lembramos em nossa mente no instante que fomos concebidos para adentramos ao nosso dharma.

Lílian XI

         A serpente da noite é sagrada e morde a si mesma num ato iniludível.
         Ao ser resta passar por ermos caminhos e mares salgados numa caminhada rumo ao movimento de Shiva numa constelação que é apenas um reflexo ecoando e inútil. 
         A noite pretendia a vida eterna, mas Shiva em sua dança cantou um mantra e a noite se tornou aparente por causa da vaidade da lua.
ERIC PONTY
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Pequenos Esboços Para Árcade de Alcipe - Eric Ponty


P/Ivo Barroso e aos atuais Marqueses de Alorna

Amor, que teço com teu fio? que traço
Com teu raio, um risco, uma rosácea?
Poemas de Amor – Visitações de Alcipe
–Ivo Barroso

I

Perdoe senhora por este indelicado
tempo que ruge em meio a barbárie
por estas palavras ríspidas soadas
por detrás dos raios solares da tarde.

Nobre árcade de Alcipe, flor exilada,
que exala ainda mais seu perfume,
nos onze anos no londrino convívio 
por ser rude os homens da terra.

Que bela e refinada tez imortal,
faces alvas que lembram a lua
quando atingidas pelos raios do sol,
e de cujas palavras ainda ressoam,
por este tempo sem gloria e aura.

Perdoe senhora, pelos rudes versos,
de metáforas de tonalidades toscas.

II
 
Passaram-se os anos e a arrogância, não;
Passaram-se os déspotas, e a intolerância, não;
Passaram-se os Deuses, e o fanatismo, não;
E o teu grito ainda soa vivo por estas Campinas,
por estas verdes paradas daí ou daqui, por
estes outros portugais que se entregam a mingua,
por não terem sido agraciados com seu olhar.   

O tempo é a nossa matéria e imortalidade,
bárbaros predadores naturais, que se disfarçam,
com tantos personagens, quando numa peça,
cujo fim é sempre burlesco e sem vida.

III

Deponho-me aqui ante sua memória
Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre,
cujos versos ainda repercutem como um eco
de suas delicadas mãos tingidas pela aurora.
Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

quarta-feira, julho 17, 2024

Vinte poemas de amor e uma canção de desespero - Pablo Neruda - Trad. Eric Ponty

Desde as primeiras linhas desta impressionante coleção do jovem Pablo Neruda, de vinte anos, é imediatamente evidente que estamos nas mãos de um mestre nascente, de alguém que pode nos conduzir, com confiança, liricamente, da escuridão para o doce reino dos sentidos. O fato de este poema, "Corpo de Mulher" junto com outros vinte, tenha sido publicado em 1924 - quando o mundo ainda estava a recuperar dos estragos da primeira verdadeira guerra verdadeiramente global - é ainda mais notável. O fato de esta coleção tenha sido recebido instantaneamente e de forma arrebatadora depois de ter estado "sozinho na solidão desta hora dos mortos" estava sedento de uma arte mais pessoal, mais íntima, que ansiavam por um apoio ao indivíduo e às suas lutas, amores e perdas. Em Pablo Neruda, encontraram o seu poeta.

Neruda chegou com dezesseis anos à capital Santiago para estudar literatura francesa, depois de uma infância passada maioritariamente em Temuco, uma região de floresta densa no Sul com o seu pai, operário dos caminhos-de-ferro, e o sua amorosa madrasta. (A mãe de Neruda morreu de tuberculose quando ele era criança). Quando era miúdo, lia muito e indiscriminadamente: os contos de aventuras de Júlio Verne, os romances sentimentais de Victor Hugo, as histórias de piratas de Emilio Salgari, as experiências dos poetas simbolistas franceses. Em adolescente, tentou traduzir Baudelaire e dedicou-se a Don Quixote.

A família de Neruda, especialmente seu pai, se opunha a que ele escrever poemas, preferindo que ele se concentrasse em atividades mais práticas. De fato, ele mudou seu nome de batismo, Ricardo Eliecer Neftalf Reyes, para Pablo Neruda (em homenagem ao romancista histórico tcheco Jan Neruda), em parte para evitar a desaprovação do pai.

Mas o jovem Neruda não podia ser dissuadido de, como ele mesmo disse, "caçar poemas". Em um poema posterior em Isla Negra, ele descreveu o mundo natural mágico de sua infância.

O que surgiu em Vinte poemas de amor e uma canção de desespero da qual, a segunda coletânea de Neruda é a voz de um poeta que confia em seus sentidos, em sua curiosidade e em sua experiência direta e aberta da vida. Não são poemas abstratos que visam idealizar a beleza ou o amor, mas as percepções confusas e perfumadas de amores e luxúrias vividos.

Neruda achou o próprio mundo para obter inspiração. Seus poemas não são povoados por distantes deusas gregas, mas pelas adoráveis e terrenas mulheres chilenas terrosas que o encantaram e a solidão que frequentemente o envolveu.

Seu trabalho é mais intuitivo do que intelectual e suas imagens estão firmemente enraizadas na beleza severa de seu solo nativo. Ele conecta o erótico com as forças telúricas e os ciclos orgânicos da natureza. O amante se torna uma "concha de terra, na qual a terra canta". A estrela da manhã queima, "beijando nossos olhos". Até mesmo a perda é um protagonista, levando a vida à sua expressão mais plena. Apesar de toda a sua beleza formal, há uma sensação improvisada e impulsiva nesses poemas, como se tivessem sido escritos no úmido rescaldo da paixão. Transformados pela memória, pelo arrependimento e, acima de tudo, por sua sensibilidade refinada, Neruda escreve a partir dos pontos de vista matizados de sua língua e das pontas de seus dedos, de suas narinas, seus olhos, seus ouvidos.

Neruda confia e celebra seus sentidos e vincula suas experiências, muito especificamente, com o mundo natural de raízes grossas e retorcidas dos pinheiros que penetram profundamente na terra; às chuvas solitárias que ocluíam o sol e lançavam o mundo por meio de seus finos véus; aos rios e mares agitados que trouxeram renovação e esperança e, às vezes, destruição. Para Neruda, essa teia bem tecida de simbolismo da natureza se tornou uma grade por meio da qual ele pôde começar a dar sentido à sua vida, para explorar os mundos espiritual e físico. Para ele, tudo era uma geografia contínua.

É essa combinação entre o sensorial e o natural, o subjetivo e o eterno, o instintivo e o comum transcendente (aliada a um feroz Anti-intelectualismo) que distingue a poesia de Neruda da de seus contemporâneos.

Ele encontra o glorioso no comum, transformando-o, de forma simples e vigorosa, com seu gênio lírico. Sua preocupação com símbolos pessoais recorrentes já está em evidência em Vinte canções de amor e uma canção de desespero: cerejas e estrelas, rios, raízes e trens. Eles sempre permearão sua paisagem poética. "Na casa da poesia", declarou Neruda certa vez, "nada permanece, exceto aquilo que foi escrito com sangue para ser escutado pelo sangue".

Pareceria incompleto e um tanto desonesto de minha parte discutir Vinte poemas de amor e uma canção de desespero) sem comentar sobre o impacto muito pessoal que essa obra teve em minha vida e na vida de muitos de meus amigos. Esse volume foi um dos primeiros a abrir meus olhos e minha sensibilidade para a possibilidade da poesia. Eu o li pela primeira vez no final dos meus vinte anos (junto com (ao lado de Federico Garcia Lorca e Wallace Stevens), quando eu ainda era jornalista e tentava descobrir a natureza do meu descontentamento.

Esses poemas não apenas ressoaram profundamente em mim, como também me estimularam, finalmente, a começar a escrever eu mesmo. Eles me mexeram com o corpo e a alma.

Com sua beleza e intimidade, sua sensualidade e rapsódia, e suas "revelações secretas da natureza", os poemas dos poemas de Neruda também me fizeram querer recuperar o espanhol, ao idioma de minha infância, depois de um longo e triste silêncio.  Não é exagero dizer que eles me ajudaram a descobrir quem eu era e o que eu deveria fazer. Como cantei esses poemas em voz alta, repetidas vezes, em espanhol e em inglês, pela pura alegria de ouvi-los em minha língua, pelas imagens que eles evocavam e os anseios que despertavam.


Esses poemas têm sido meus companheiros quando me apaixonei loucamente, na adolescência, no amor - quantas vezes os li para amantes, que também caíram em seu feitiço? - e nos momentos agridoces de angústia da separação. Como grande parte da obra de Neruda outros trabalhos, esses poemas foram feitos para serem falados, compartilhados com outras pessoas. Cada vez que volto a eles, eles me dão algo novo, revitalizam minha perspectiva, refrescam e restauram meus sentidos e meu coração às vezes cansado.

Seja sussurrando ou gritando exultante mente, os poemas Vinte poemas de amor e uma canção de desespero me incentivam a olhar atentamente para meu próprio mundo em busca de seus pequenos milagres e da persistência do amor. Eles me falam com o coração, como se fosse pela
como se fosse a primeira vez. Elas me lembram que a renovação e a mudança são possíveis, passando pela vida como muitas estações, inevitáveis, e surpreendentes ao mesmo tempo. Elas fazem algo que somente grande arte ou fé ou crianças, se tivermos sorte, fazem com alguma consistência: eles oferecem esperança.
-Cristina García 
Corpo de mulher,

Corpo de mulher, colinas brancas, coxas brancas,
você se assemelha ao mundo em sua atitude de rendição.
Meu corpo de grego selvagem o enfraquece
e faz o filho das profundezas da terra pular.

Fui só quão uma música! De mim, os pássaros estão voando,
e em mim a noite faz sua poderosa invasão.
Para sobreviver a mim, eu o forjei como uma arma,
Feito flecha em minha área, como uma pedra em minha funda.

Mas a bora da vingança cai, e eu amo você.
Corpo de pé, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah, os vasos do peito! Ah, os olhos da ausência!
Ah, as rosas do púbis! Ah, sua voz lenta e triste!

Corpo de mulher meu, persistirei em sua graça.
Minha sede, meu anseio, sem limites, meu caminho indeciso!
Canais escuros onde a sede eterna segue,
e o cansaço segue, e a dor infinita.

Na tua chama mortal

Na tua chama mortal a luz envolve-te.
Absorto, pálido pranteador, assim situada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de te rodeia.

Mudo, minha amiga
só na solidão desta bora de mortes
e cheia de vidas de fogo,
pura herdeira do dia destruído.

Do sol um cacho cai sobre o teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem inesperadamente da tua alma,
e para fora retornam as casas escondidas em ti,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém-nascido se nutre.

Oh grande e fecundo e magnífico escravo
do círculo que em preto e ouro acontece:
ereta, tenta e consegue uma criação tão viva
que as tuas chamas sucumbem, e está cheia de tristeza.

Ah, a vastidão dos pinheiros

Ah, a vastidão dos pinheiros, o som das ondas a rebentar,
jogo lento da luz, sino solitário,
o crepúsculo caindo nos teus olhos, sua boneca,
búzio terrestre, em ti a terra canta!

Em ti cantam os rios e neles foge a minha alma
como quiseres e para onde quiseres.
Sou um homem com um coração de esperança
e o sol no rio o meu estandarte de flechas.

À minha volta vejo a tua cintura de névoa
e o teu silêncio atormenta as minhas horas perseguidas,
e és tu com os teus braços de pedra transparente
onde os meus beijos ancoram e a minha saudade húmida vai.

Ah, a tua voz misteriosa que o amor afina e dobra
no crepúsculo retumbante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos eu vi
as espigas de milho dobrarem-se na boca do vento.

Uma canção de desespero

Tua memória emerge da noite em que estou.
O rio amarra teu lamento obstinado ao mar.

Abandonado como as docas ao amanhecer.
É o bora de partir, oh abandonado!

Em meu coração estão chovendo corolas frias.
Ó cuba de escombros, caverna feroz de naufrágios.

Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti os pássaros da canção levantaram tuas asas.

Tu engoliste tudo, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti era um naufrágio!

Era a bora alegre do ataque e do beijo.
A bora do estupor que queimava como um farol.

A ansiedade de um piloto, a fúria de um mergulhador cego,
intoxicação turva do amor, tudo em tu era naufrágio!

Na infância enevoada de minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em tu era um naufrágio!

Tu ficaste cego pela dor, agarrou-se ao desejo,
tu foste derrubado pela tristeza, tudo em tu naufragou!

Empurrei para trás a parede de sombra,
Caminhei além do desejo e do ato.

Ó carne, minha carne, mulher que me ama e me perde.
Para ti, nesta bora úmida, eu evoco e canto.

Como um copo, tu abrigaste uma ternura infinita,
e o olvido in finito a esmagou como um copo.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e lá, mulher do amor, teus braços me acolheram.

Era a sede e a fome, e tu foi o fruto.
Foi o luto e as ruínas, e tu foi o milagre.

Ah, mulher, não sei como tu pôde me conter
na terra de tua alma e na cruz de teus braços!

Meu desamor por tu foi o mais terrível e o mais curto,
o mais desgrenhado e bêbado, o mais tenso e ávido.

Cemitério de beijos, ainda há fogo em teus túmulos,
até os cachos queimam bicados pelos pássaros.


Oh, a boca mordida, oh, os membros beijados,
Oh, os dentes famintos, famintos, oh, os corpos trançados.

Oh, a gaiola louca de esperança e esforço
na qual nos enroscamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como água e farinha.
E a palavra que mal começa nos lábios.

Esse era o meu destino, e nele viajou o meu desejo,
e nele caiu minha saudade, tudo em tu era naufrágio!

Oh, porão de detritos, em ti tudo caiu,
que dor tu não espremeste, que dor tu não recebeste!

De tombo em tombo, tu ainda chamavas e cantavas.
Parado como um marinheiro na proa de um navio.

Mas ainda floresceu em canções, mas ainda se quebrou em correntes.
Ó porão de detritos, poço aberto e amargo.

Pálido mergulhador cego, infeliz lançador,
descobridor perdido, tudo em tu era naufrágio!

É o bora de partir, o bora duro e frio
que a noite guarda em cada bora.

O cinturão barulhento do mar, o litoral.
As estrelas nascem, os pássaros negros migram.

Abandonado como as docas ao amanhecer.
Apenas a sombra trêmula se contorce em minhas mãos.

Além de tudo. Além de tudo.
É hora de partir. Abandonado!
Pablo Neruda - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

terça-feira, julho 02, 2024

ALEXANDER NO TEMPLO DE ABRAÃO - POSTAGEM CONCEITUAL - ERIC PONTY

Eu o observo com olhos deslumbrados
como se fosse um lindo arco-íris,
Fecho meus olhos para me lembrar de ti 
no mar vagueia pela ilha luxuriante.
Eu olho para ti com a respiração calma
como faria com uma imagem de minha valiosa mãe,
e espero que os anjos da infância
devem estar boiando em algum lugar próximo.

Tenho receio da esperança,
tenho o peito esgotado,
tenho pensamentos suicidas,
tenho pensado muito em ti,
ouço a música do amolador de tesouras,
não tenho tesouras nem facas afiadas,
mas tenho uma corda de nylon
tenho um guarda-chuva guardado,
um fortuito encontro com maquinas 
de escrever não saio de casa,
ouço pássaros onde não há pássaros,
falam alegres assobios da minha morte
do vento e da macieira em flor,
como o chão de porta de igreja
depois de um casamento,
aquele momento em que o amor
é para toda a vida de choros e risos
às vezes tento a ternura pela janela,
em regra, preservo o cinismo das estrelas
se eu fosse um brioso, a minha armação,
seria uma arquitetura de sangue e mel,
não sei como cheguei à velhice,
talvez o nada com alguma coisa 
prá horror dos gregos pra essa ausência 
não sei se chegarei a este Sábado de Finados.”

Eis tua efígie de mim de rocha
o nosso encontro frugal aqui
do sílex mexido a lareira que moravam
achar primeira caverna do tempo
que recuei nesse espaço
a viver para encontrar no tempo
de novo a paixão ou o delírio dos templos 
à espera dos teus gestos dás memórias 
e no fim do tempo veio uma sombra
das brumas do Norte ao Sul
''Porque o anjo é tudo,
e a coisa amada é reluz na uma cortina
onde um vento angelical 
bate no alto da janela aberta”
que me deixaram a Oeste
sendo-lhe que lhes passamos dias
de lavrar a pedra com a relíquia
deixada por um anjo ontem à noite.

'Enquanto existires tu
e o meu olhar te buscar no vácuo 
além atrás dos montes,
enquanto nada aparte 
me encher essa minha alma,
senão a tua imagem, e houver
uma remota probabilidade de estares
em algum sítio, iluminada
por uma luz qualquer…Chama
                             Enquanto
eu pressentir que tu existes e te chamas
assim, com esse teu nome escrito
tão pequeno na máquina de escrever 
continuarei como agora, escrever
meus,
transido de distância,
preso deste eco que cresce e não morreu,
deste tambor que persiste e ecoa nunca acaba.''

Parábola rasgada 
pela mão de Deus. 

Por que no momento da vinda 
não o viva! a cortesia, mas, 
estranhamente, o adeus?

(Por fim, que enigma se disfarça 
na infinda Onisciência que foge 
à nossa pobre e afetuosa reserva?)

Pura carícia. Cabia num ninho.
Tenra haste, sem tecla nem fina flor. 
Por que levar com sua balada? 
Seu pranto sem dor enredar seu caminho?

Quem atinaria seu curso, 
seu guia enfraquecido? 
Do flúmen, refreado na pedra, 
nas curvas do leito?

Por que, de repente, 
igualmente do clima, 
no sincero a percepção de, 
da compleição engolfaste, 
a vastidão do ser?

Por isso na angústia de meus brotos 
– Lar de sombras e abrolhos – 
essa obra fida: como um batel ondulante 
Nessa embarcação do seu vulto.

Ah, os anjos são guris neste horrível orbe 
sem calmarias (não sabem falar adeus). 
Porém, fulgurou um secundário como 
se não fora esse o seu orbe puro fado 
consumido na cadente refugiada por Deus.

Que ensejo – ninguém a preveniu mais
– Se fez do barro mole e forte ais 
que apenas se formara o fluido mulher 
evanescente que o vento se dissipar ser
nessa alva clara que padece de zelo?

Ao induzir esse seu mistério 
não para a crepúsculo, 
que amanhecia, (e arriscar 
entender será exame estranha, vã) 
em verdade, quem diria? 

Fez-se brilho, invisível na luz da alvorada.
Súbito, esvaeceu tão cedo, antes de tudo – 
da angústia, da dor, do pensamento 
do belo tão pequenino, sem receio, 
tão-só miúdo, desarvorado do Fadário.

Espera. Conservei seu vulto vidente, 
o olhar percuciente das noites,
em seus olhos de guri, mas sem maretas a escolhos...

E fica a dúvida sem resposta do cerne 
que não aceita a madorna arrepiadora:
Que enigma, Senhor, se remata afinal, 
reservado em sua desfeita, antes 
que o Devaneio não dimensível 
que se volvesse dessa Existência?

Anseia uma flor uma janela
Um candelabro um verso imortal 
com cheiro de lilases uma estrela
Uma fuga de Bach ao piano tal
Que anseia um licor de rosas prenha
Um chá de Londres cheio de perfume
Anseia uma história de mistério Lúmen 
Anseia uma tela em tons de roxo
De um mapa de Giotto ou de Gauguin
De uma carícia ardente no colo
Anseia uma rima dita na redenção 
Anseia que chova faça vento na alusão 
E haja um veneno um filtro uma poção
Que embruxe na memória essa opção
fugaz deste era que tomo a dose certa.


ERIC PONTY

ERIC PONTY POETA TRADUTOR LIBRETTISTA

segunda-feira, julho 01, 2024

A CASA DE FOLHAS - UMA DICA DE ROMANCE - Mark Z. Danielewski



Na verdade, Lude havia me falado sobre o velho um mês ou mais antes daquela noite fatídica. (É isso mesmo? certo? destino? Com certeza não foi inteira. Ou foi exatamente isso?) Eu estava procurando um apartamento depois de uma pequena dificuldade com um proprietário que acordou uma manhã convencido de que era Charles de Gaulle. Fiquei tão atônito com esse anúncio que, antes que pudesse pensar duas vezes, já havia lhe dito a ele que, na minha humilde opinião, ele não se parecia em nada com um aeroporto, embora a ideia de um 757 pousando sobre ele não fosse nada desagradável. Fui expulso ágeis vezes. Eu poderia ter lutado, mas o lugar era um manicômio e fiquei feliz por ter saído. No fim das contas Chuckie de Gaulle incendiou o local uma semana depois. Disse à polícia que um 757 havia se chocado contra ele.

Durante as semanas seguintes, enquanto eu estava indo de Santa Monica a Silverlake à procura de um apartamento, Lude me contou sobre um senhor que morava em seu prédio. Ele tinha um apartamento no primeiro andar com vista para um pátio amplo e cheio de vegetação. Supostamente, o velho havia dito a Lude que morreria em breve. Não dei muita importância a isso, embora também não fosse exatamente o tipo de coisa que se esquecer também. Na época, achei que Lude estava me enganando. Ele gosta de exagerar. 

Acabei encontrando um estúdio em Hollywood e voltei à minha rotina de torpor mental como aprendiz em um estúdio de tatuagem.

Estávamos no final de 96. As noites eram frias. Eu estava superando uma mulher chamada Clara English que havia me dito que queria namorar alguém do topo da cadeia alimentar. Então, demonstrei minha devoção incansável à sua memória ao desenvolver logo uma forte paixão por uma stripper que tinha A Tombar tatuado bem no meio do caminho. logo abaixo da calcinha fio-dental, a poucos centímetros de sua buceta raspada ou, como ela gostava de chamar "O lugar mais feliz da Terra". Basta dizer que Lude e eu passamos as últimas horas do ano sozinhos, procurando novos bares, novos rostos, dirigindo de forma imprudente pelos desfiladeiros o melhor que pudemos para convencer os altos céus da meia-noite com um monte de besteiras. Nunca conseguimos. Falar com eles  quero dizer.

Então o velho morreu.

Pelo que pude perceber agora, ele era americano. Embora, como eu viria a descobrir mais tarde, aqueles que trabalharam com ele detectaram um sotaque, embora nunca pudessem dizer com certeza de onde vinha. Ele se autodenominava Zampanô. Esse foi o nome que ele alocou no contrato de aluguel de seu apartamento e em vários outros fragmentos que encontrei. Nunca encontrei nenhum tipo de identificação, seja passaporte, carteira de motorista ou outro documento oficial insinuando que sim, ele de fato era uma pessoa real e contabilizada.
Quem sabe de onde realmente veio seu nome. Talvez seja autêntico, talvez inventado, talvez emprestado, um nom de plume ou - meu favorito pessoal - um nom de guerre.

Como Lude contou, Zampanô morou no prédio por muitos anos e, embora fosse muito e, apesar de ser muito reservado, nunca deixava de aparecer todas as manhãs e noites para caminhar pelo pátio, um lugar selvagem com ervas daninhas na altura dos joelhos e, na época, povoado por mais de oitenta gatos de rua. Aparentemente, os gatos gostavam muito do velho e, embora ele não oferecesse nenhum atrativo, eles se esfregavam constantemente em suas pernas antes de voltarem para o centro daquele lugar empoeirado. De qualquer forma, Lude havia saído muito tarde com uma mulher que conhecera em seu salão de beleza. Passava das sete horas quando ele finalmente voltou ao pátio e, apesar da ressaca forte, viu já o que estava faltando, e, apesar da ressaca forte, viu imediatamente o que estava faltando. Viu já o que estava faltando. Lude sempre chegava cedo em casa e sempre encontrava o velho trabalhando ao redor do perímetro de todas aquelas ervas daninhas, ocasionalmente descansando em um banco desgastado pelo sol antes de antes de dar outra volta. Uma mãe solteira que se levantava todas as manhãs às seis horas também notou a ausência de Zampanô. Ela foi para o trabalho, Lude foi para a cama, mas quando o crepúsculo chegou e o velho vizinho e a mãe solteira foram alertar Flaze, o síndico do prédio.

ERIC PONTY POETA- TRADUTOR - LIBRETTISTA

domingo, junho 30, 2024

Os nossos amores não fenecerão - ERIC PONTY

Os nossos amores não fenecerão
(não fenecerão nunca)
Os amares não fenecem
há seis anos não vejo a minha,
de seus olhos Verde azeitona
cigana, como me amaria, de pois
ocorridos cinquenta a nos
hoje, Moema, é dia dos teus anos,
não te levei flores —
ajoelhei no chão
e beijei-o para que tu surjas...

Ivo Machado
Biscoitos, 27 de Junho de 2024
Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA -TRADUTOR - LIBRETTISTA

sábado, junho 29, 2024

(Ivo Machado Biscoitos, 25 de Junho de 2024) @ Eric Ponty

Mui alta, madrugada alta
Chavela Vargas me acordou
Com suas duas doces verdes
de Verdades da verdadeira
de sua voz me levou descalço
até ao mar onde aprendi a nadar
outro assunto não resolvido —
meu amor por ela na memória
e esta paixão por Caravaggio
que me leva pelo mundo a dentro 
logo (só por ele) volto ao Prado
e não fui ao enterro arado
de nenhum
mas ambos, sei, virão ao meu.

(Ivo Machado Biscoitos, 25 de Junho de 2024)



quinta-feira, junho 27, 2024

? - Eric Ponty

Quando nasci um pomba gira esbelto,
desses que anunciam nascimentos disse,
vai ter um filho com Moema.
Cargo muito pensado para escritores,
esta espécie ainda sem direito a grana.
Aceito as evasivas que me pertencem,
sem precisar de um mensageiro de asas
Não sou tão horrível que não possamos ignorar
Os vestígios da Umbanda aceitar desígnio,
Do mais lancei um livro na Academia de Letras
ora sim, ora não, creio em minhas poesias.
Mas o que sinto fica nas efígies do poema.
Cumpro a sina de Pai Joaquin
Inauguro desígnios, fundo leituras
— Traduzir não é amargura.
Minha literatura não tem pedigree,
já a minha vontade de termina-la,
hoje sonhei que perdi uma da costela
sendo-lhe maldição pra homem traduzir.
ERIC PONTY
ERIC PONTY POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

quarta-feira, junho 26, 2024

Emily Dickinson - Trad. Eric Ponty

RIQUEZAS REAIS.

Pouco me valem as pérolas no ar dor
Que possuem o amplo mar;
Ou broches, quando o Em perador
Com rubis me cobrem no lar;

Ou ouro, que sou o Príncipe das Minas;
Ou diamantes, quando vejo em finas
De um diadema para um domo
Sempre me coroando que imperador.

Superioridade ao destino

Superioridade ao destino
É difícil de aprender o tino.
Não é dê por ninguém par,
Mas é possível ganhar

Uma ninharia de cada vez,
Até que, para sua surpresa fez,
A alma com austera contenção
Subsiste até o Paraíso sem sermão.

UM CULTO DE MÚSICA.

Alguns guardam o Dia do Senhor indo à igreja;
Eu o guardo ficando em casa,
Com um pintassilgo como corista em asas,
E um pomar como cúpula que seja.

Alguns guardam o Sabbath em sobrepeliz;
Eu só uso minhas asas, cor giz
E em vez de tocar o sino da igreja,
Nosso pequeno sacristão canta a peleja.

Deus prega, - um notável clérigo, -
E o sermão nunca é longo;
Então, em vez de pôr fim chegar ao céu,
Eu estou sempre indo, não nego!
Emily Dickinson - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR- LIBRETTISTA

terça-feira, junho 25, 2024

NOSFERATU (Universal Studios) - XXX - Heinrich Ossenfelder - Trad. Eric Ponty

 


Este poema foi escrito pelo poeta alemão Heinrich Ossenfelder em 1748, é a primeira peça de literatura registada que apresenta um vampiro.

Minha jovem e preciosa donzela rezar,
No Insensível, veloz em forma tão firme,
Em todos ensinamentos desde sempre,
Uma filha de uma mãe sempre fida;
Tal como os vampiros imortais fel ao léu,
E neste folclórico portal do Tesse,
Tal como uma fiel inocente crê fiel,
Mas minha Christine não se demora,
E a minha amorosa defesa na hora,
Até que eu próprio vingue atrozes,
À saúde de um vampiro a beber vida,
Está flamejante em tocar tão pálido.

E tão suave dormis na janela azul,
Ouvirá então latir de cães e lobos,
A ti irei rastejando, qual serpente,
E sangue da tua vida se esvai no ente.
E assim estarás a tremer por tais juras,
Pois só assim estarei a beijar nas flamas,
E o limiar da morte tu estás a cruzar,
Com o medo, nos meus braços frios,
E por fim, pergunto-te só a ti em zelo,
Em símbolo com está instrução ao vê-la, 
De quais são dos encantos desta mãe?
Heinrich Ossenfelder - Trad. Eric Ponty

O amor chorava, e às vezes eu chorava - Eric Ponty

Essa demora eu... Me sinto inquieto, 
Quando avalio vê-la surgir, num culto,
- Teu beiço frio, frouxa de tão ofegante,
os teus olhos nos meus, linda, fitando...

Céu desfaz-se em luar... Num ventar nu
em folhagens Brandas, acariciante,
enquanto com o olhar afago amante
só à sombra crepúsculo buganvília...

E ela não vem... Elevar a apreensão:
- Num segundo que ao passar meu martírio,
sendo segundo sem fim da efeméride...

Mas eis que ela surgir tão de repente!...
- E feliz, chego a crer ímpar censurar,
quê abusava esperar-se eternamente!...

II

O amor chorava, e às vezes eu chorava com
de quem meus passos nunca se afastavam,
olhando, já que o efeito era amargo e estranho,
para teu íntimo, liberto das amarras do Amor.

Agora Deus o devolveu a exatas passagens,
Levanto minhas mãos com meu coração pra o céu,
grato àquele que, em Tua misericórdia, ouve
foi tão benigno as honestas orações humanas.

E se, ao retornar à passagem do amor,
tu encontra-se colinas e valas em tua passagem
o suficiente para quase fazê-lo voltar atrás,

E foi para mostrar qual a estrada é espinhosa,
e quão montanhosa e difícil é a escalada,
se quiser achar onde está o exato valor.

III

Fugaz de luz abluído, belo e esplêndido,
na morada imperial de pórfiro coruscante
E mármor da peônia. A casa caprichosa
demostra, em prata incrustar, Alecrim do Oriente.

Fronte no toro ebúrneo estende até à gentes...
Anéis em profusão do estrágulo fadigoso
Dourados bordados quê O olhar deslumbra, ardente,
Da púrpura Douro o brilho esplendoroso.

Bonita ancila cantar. A aurilavrada 
Lira em mão soluça. Ares perfumados,
Arde à mirra da forma em recendente.

Forma ascende, dançando, escravos fumos.
E chamas dormem ao sonhar, a fronte 
Nos alvos seios nus da lúbrica Orbe!
Eric Ponty
ERIC PONTY - POETA - TRADUTOR - LIBRETTISTA

segunda-feira, junho 24, 2024

Imitações de Petrarca - Eric Ponty

À Moema com ardor
Mas, como o amor
os olhos de Moema
são cegos.

Na noite imatura
os olharem dos espíritos 
deixam rastros de lírio
candente.

A quilha da lua
rompe as nuvens roxas
e os tremores
estão cheios de orvalho.

Oh, mas como o amor
os olhos de Moema
são cegos!

I

Descendente de arlequim, faceirice
com a coroa real de teu antepassado,
pegou em armas para derrubar a Babilônia
e todos os que extraem teu nome dela.

E o Vigário de Cristo retorna ao ninho
com o manto e as pesadas chaves,
e se nenhum outro acidente o impedir,
que chegará a Bolonha e depois à nobre Roma.

Esse seu cordeiro manso e gentil
destrói os lobos ferozes: e que assim seja
com todos os que destroem alianças legítimas.

Console-a então, tu que ela espera,
e Roma, ainda se queixa de seu esposo,
e peguem a espada agora por Cristo.

II

Agora que aquele espírito gentil que parte,
chamado para a outra vida antes de seu tempo,
se juntará à região mais abençoada do céu
quando for bem ganho, como com certeza será.

Se ele passasse entre Vênus, a terceira luz, e Marte,
ela diminuiria o brilho do sol, pois os espíritos nobres 
se reuniriam em torno dela tal qual árvores 
apenas para contemplar sua beleza infinita.

Se passasse abaixo da quarta, o Sol
todas as luzes guimbas semelhariam menos atraentes,
e somente ele teria a fama e a glória:

não poderia existir na quinta esfera de Marte:
Mas se voar mais alto, acredito que realmente
Júpiter será conquistado e todas as estrelas.

III

E quanto mais me aproximo do último dia
que põe fim à miséria humana mais rápida 
e leve vejo o tempo passar, e minhas esperanças 
se iludem e se desvanecem em tuas sombrias.

Em meus anexins, digo: 'Agora não há mais tempo
para falar de amor, pois esse duro e pesado
fardo terreno começou a derreter
tal qual é neve fresca: assim encontraremos paz:

Já que com o corpo a esperança também ofuscar-se,
que nos fez delirar por tantos anos com risos e lamúrias, 
de medo e raiva, enquanto o sol numa clareza:

pois assim vemos tal qual acontece com presença
que prosseguimos por meio de coisas incertas,
e vezes suspiramos sem nenhum propósito real".

IV

Virgem com uns olhares mágicos,
Virgem dó Penumbra,
aberta como uma desmedida
tulipa.
Em seu barco de luzes
vais
na maré alta
do orbe,
entre flechas turvas
e estrelas de giz.
Virgem com uns olhares mágicos
vais
ao longo do rio da rua,
até o mar!

ERIC PONTY
ERIC PONTY POETA - TRADUTOR - LIBRETTISRA