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domingo, outubro 08, 2023

A poesia de Catulo - Translação - Eric Ponty

A poesia de Catulo chegou até nós numa antologia de 116 carmina, que pode ser dividida em três partes: sessenta polímeras curtas em vários metros, oito poemas mais longos e quarenta e oito epigramas. Não há consenso académico sobre se Catulo organizou esta ordem dos poemas.

Os poemas mais longos diferem dos polimetra e das epigramas não só pela extensão, mas também nos seus temas. Há sete hinos e um mini-épico, ou epilião, sendo uma forma muito apreciada de poesia narrativa. A polimetra de Catulo e os epigramas podem ser divididos em quatro grandes grupos temáticos:

Poemas dirigidos e relativos aos amigos do poeta, poemas eróticos, incluindo os famosos poemas dirigidos à amada do poeta à amada "Lésbia", pseudónimo de uma amante casada invectivas: frequentemente ofensivas e por vezes obscenas, dirigidas a amigos que se tornaram traidores, rivais de Lésbia, poetas conhecidos, políticos (incluindo Júlio César) e retores (incluindo Cícero) condolências: para confortar e lamentar amigos e entes queridos.


LEMBRAI-VOS, Graças e Amores, e todos vós que as Graças amam. O pardal da minha senhora morreu, o pardal de estimação da minha senhora, que ela amava mais do que os seus próprios olhos, porque era doce como o mel e conhecia a sua senhora tão bem como uma moça conhece a sua própria mãe. Não se afastava do seu colo, mas, saltando ora aqui, ora ali, continuava a chilrear só para a sua dona agora ele vai pela estrada escura, para onde dizem que ninguém regressa. Mas maldição sobre vós, malditas sombras de Orcus, que devoram todas as coisas bonitas! Meu pardal bonito, vocês levaram-no. Ah, cruel! Ah, pobre passarinho! Tudo por tua causa, os olhos prezados da minha senhora estão pesados e vermelhos de chorar.

Chorem cada Vénus celeste, todos os Cupidos,
Chorem todos os homens que têm alguma graça em vós.
Morto o pardal, em quem o meu amor se deleitava,
O querido pardal, em quem o meu amor se deleitava.

Sim, muito precioso, sobre os seus olhos, ela segurou-o
Doce, todo mel: a ave que a saudou
Senhora, como se saúda a mãe da moça.

Nem se afastava dos seus braços, mas só
Saltando em torno dela, para cá ou para lá,
e não se lhe dava com ninguém.

Agora ele percorre o caminho de luz,
de onde, dizem-nos, não há espera de regressar.

Maldade em vós, as sombras do mal Orcus,
sombras que devoram todas as belas coisas felizes,
Um pássaro tão belo e feliz vós o tomastes.

Ah! por piedade; mas ah! por ele o pardal,
O nosso pobre pardal, em quem pensar
Que os olhos de minha senhora se coram de raiva.
Catulo- Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sábado, outubro 07, 2023

58.000 Acesos e X Églogas de VEGÍLIO - Translação - Eric Ponty

Caros Leitores deste Bloque, agradeço os 58.000 acesos, estava eu a terminar à tradução das Églogas de VEGÍLIO que pretendo publicar se houver algum editor para tal; e compreendo que o mercado esteja em retração. Aos Leitores deste bloque ponho o trecho da X Égloga:

Este é o último dos meus trabalhos,
Dá-me licença, Arethusa! É preciso que eu
Cantar uma breve canção para Gallus - breve, mas ainda assim
Tal como o próprio Lycoris pode ler.
Quem não cantaria para Gallus? Então, quando tu
Debaixo das ondas de Sicania deslizares,
Que Dóris não misture nenhuma onda amarga com a tua,
Começa! O amor de Gallus será o nosso tema,
E as dores astutas que ele sofreu, enquanto, perto,
Das cabras de nariz vencido pastam no mato tenro.
Não cantamos para ouvidos surdos; nenhuma palavra nossa
Mas os bosques ecoam-na. Que bosques ou relvados
vos guardaram, garotas dríades, quando por amor indigno
de uma perda tão querida. Gallus estava a morrer?
VEGÍLIO
ERIC PONTY
ERIC PONTY- POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, outubro 06, 2023

Eneida - Livro I - Virgílio - Abertura Transladada - Eric Ponty

Armas, e o homem que eu canto, que, forçado pelo destino,
e o ódio implacável da altiva Juno,
expulsa e exilada, deixou a costa de Troia.
Longos trabalhos, tanto por mar, por terra, ela suportou,
E na guerra duvidosa, antes de ganhar
O reino de Latius, e construiu a cidade de destino;
Seus deuses banidos foram devolvidos aos ritos divinos,
e puseram uma sucessão segura em sua linhagem,
de onde veio a raça dos pais albaneses,
e as longas glórias da majestosa Roma.

Ó Musa! As causas e os crimes relatam;
Que deusa foi provocada, e de onde veio seu ódio
Por que ofensa a Rainha dos Céus começou
Perseguir um homem tão corajoso e tão justo;
Envolvendo sua vida ansiosa em cuidados sem fim,
Expondo-o a necessidades e precipitando-o em guerras!
Podem as mentes celestiais mostrar tão grande 
ressentimento, ou exercitar seu rancor na dor humana?

Contra a foz do Tibre, mas muito longe,
uma antiga cidade estava assentada no mar;
Uma colónia Tíria; o povo foi feito
forte para a guerra, e estudioso do seu ofício:

Cartago o nome; mais amada por Juno
Do que a sua própria Argos, ou a costa de Zâmia.
Aqui estava o seu carro; aqui, se o céu fosse bondoso,
a sede de um terrível império que ela projetou.
Mas ela tinha ouvido um rumor antigo,
(há muito citado pelos povos do céu)
que os tempos vindouros veriam a raça troiana
a ruína de Cartago e a destruição das suas torres;
Nem assim confinados, o jugo do domínio soberano
Que o tempo futuro verá a raça de Troia arruinar 
sua Cartago, e suas torres deformar.

Ela refletiu sobre isto, e temeu que fosse o destino;
E não podia esquecer a guerra que ultimamente travava
para conquistar a Grécia contra o estado de Troia.
Além disso, longas causas trabalhavam em sua mente,
e sementes secretas de inveja, estavam por trás;
Intensamente gravada em seu coração, a disgra jazeu
De Paris parcial, e sua forma desdenhada;
A graça concedida ao arrebatado Gani mede,
as glórias de Electra, e seu leito ferido.
Cada um era uma causa só; e todos se combinavam
Para acender a vingança na sua mente altiva.
Por isso, longe da costa latina
Expulsou os sobejos do exército troiano;
E durante sete longos anos o infeliz escolto
Foram jogados pelos dilúvios e lavrados pelo oceano.
Tal tempo, tal trabalho, exigia o nome romano,
tal duração de trabalho para tão vasta estrutura.
Agora a frota troiana, com velas e remos!

Virgílio - Eric Ponty 
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, outubro 04, 2023

Poemas que podem salvar uma vida - Eric Ponty

Há poemas nesta coleção que foram escritos por mãos desconhecidas. Embora possam não ter o talento e a arte dos grandes poetas da língua, as suas vozes são igualmente legítimas.

Pode argumentar-se que estes poemas anónimos são os mais amados. Estes são, afinal, versos que foram transmitidos pelo meio das gerações. Onde pesados volumes de versos de Virgílio e Ovídeo podem ter sido como prendas de fim de Festejos de Natal, estes poemas menos reconhecidos foram inúmeros:

Até aqui a terra dos campos e as estrelas do céu;
Hoje eu vou cantar-te, Baco, e, contigo,
As jovens plantações da floresta e o fruto
Da azeitona de lenta maturação. Vem depressa,
O pai do lagar; tudo aqui
Que tudo aqui se enche com as mercês da tua mão; para ti
Com o outono vínico carregado florescer no campo,
E espuma a vindima com cubas a transbordar;
Vem cá, ó Pai do lagar,
E despidos do capão mancham os teus membros nus

Não podemos saber qual foi a motivação versos, aquele escrito por figuras conhecidas, incluindo os aclamados célebres, ainda só podemos especular sua inspiração poética.
Foi este o rosto que lançou mil navios,
E queimou as torres de Ílio?
Doce Helena, torna-me imortal com um beijo.
Os teus lábios sugam a minha alma: vê, para onde ela voa!
Vem, Helena, vem, dá-me a minha alma de novo.
Aqui habitarei, pois o céu está nestes lábios,
E tudo é escória que não é Helena.
Eu serei Paris, e por amor a ti,
em vez de Troia, Wittenberg será saqueada;
E combaterei com o fraco Menelau,
e usarei as tuas cores no meu brasão de plumas;
Sim, vou ferir Aquiles no calcanhar,
e depois voltarei para Helena para um beijo.
Oh, tu és mais bela que o ar da noite
Vestida com a beleza de mil estrelas;
Mais brilhante és tu do que Júpiter flamejante,
Quando ele apareceu à infeliz Semele;
Mais belo que o monarca do céu
Nos braços azuis da devassa Aretuza;
E só tu serás minha amante!
CHRISTOPHER MARLOWE
l
Lembrai-vos de mim quando me for embora,
For para longe, para a terra silenciosa;
Quando não puderes mais segurar-me pela mão,
Nem eu me virar para ir, mas ficar.
Lembra-te de mim quando já não houver dia a dia
Falas-me do nosso futuro que planeaste:
Lembrai-vos apenas de mim; compreendeis
Que será tarde para aconselhar ou rezar.
Mas se por algum tempo me esqueceres
E depois te lembrares, não te entristeças:
Pois se a escuridão e a corrupção deixarem
Um vestígio dos pensamentos que outrora tive
É muito melhor olvidar e sorrir
do que recomendar e ficar triste.
ll
Há corações leais, há espíritos audazes,
Há almas que são puras e adequadas,
Então deem ao mundo o melhor que têm,
E o melhor voltará para ti.
Dê amor, e o amor fluirá para a sua vida,
Uma força na tua maior necessidade,
Tem fé, e muitos corações mostrarão
A sua fé nas tuas palavras e atos.
Dá a verdade, e a tua dádiva será paga em espécie;
E a honra encontrar-se-á com a honra;
E um sorriso que é doce que certo achará
Um sorriso igualmente doce.
Dá piedade e tristeza àqueles que choram,
E voltarás a colher em flores
As sementes dispersas dos teus pensamentos
Embora a sementeira tenha sido vã.
Pois a vida é o espelho do rei e do escravo,
É exatamente o que somos e fazemos;
Então dá ao mundo o melhor que tens,
E o melhor voltará para ti.
lll
Duas estradas divergiam num bosque amarelo,
E lamentando não poder viajar por ambas
E ser um só viajante, por muito tempo fiquei
E olhei para uma delas o mais longe que pude
Até onde ela se curvava na vegetação rasteira;
Depois apanhei o outro, que era igualmente justo,
E talvez com melhores condições,
Porque era de relva e precisava de ser usada;
Embora, quanto a isso, há passagem por ali
A outra, por ser mais formosa e ter melhor anseio,
E ambas, nessa manhã, jaziam mais
Em folhas que nenhum passo tinha pisado.
Oh, eu guardei o primeiro para outro dia!
Mas sabendo como o caminho leva à passagem,
duvidei se alguma vez voltaria.
Contarei isto com um suspiro
Algures, daqui a séculos e séculos:
Duas estradas divergiam num bosque, e eu...
Eu apanhei a menos percorrida,
E isso fez toda a diferença.
lV
Posso impedir que um coração se parta
Se eu puder impedir que um coração se parta,
não viverei em vão;
Se eu puder aliviar a dor de uma vida,
Ou arrefecer uma dor,
Ou ajudar um tordo a desmaiar
Para o seu ninho de novo,
Então não viverei em vão.
V
Boceta de confeitos, favorito da minha amada,
Com quem comer, ou nos teus braços acariciar,
Ela se deleita, mas logo contudo com o dedo
Que, em riste, a provoca-o a morder o céu:

Quando a minha dama, estrela adorável que se deseja, 
Inclina o teu esplendor um pouco para a adivinhação;
Boceta talvez um coração cuidadoso a seduzir,
Pardalzinho, dor mais pesada talvez, para suavizar;

Se eu, como ela, em feliz adivinhação acariciando
A ti, meu dolente coração, por algum tempo oferecer!

Eu me alegraria, como antes se alegrava a senhoritas
Correndo fugaz, com a maçã dourada a olhar,
Que, tarde, foi está que soltou o teu este cinturão.
VI
Estou unido no meu próprio coração
porque o meu amor está longe de mim,
nem nas maravilhas tenho parte
que enchem o seu cavo abrigado:
A floresta selvagem do pensamento aventureiro
e as terras do amanhecer que meu sonho conquistou,
as riquezas da Fada trazidas
estão enterrados com o nosso sol nupcial.
E eu estou num lugar estreito,
e todas as suas pequenas ruas são frias,
porque a ausência do seu rosto
roubou o ar sombrio do ouro.
A minha casa está num dia mais largo:
às vezes vejo-a brilhar
por meio do portão sem brilho, um jogo de flores
e odor de eterna primavera:
Os longos dias que vivi só,
a doce loucura das fontes que perdi,
são derramados além, e por meio deles sopram
e os meus lábios se beijam:
- E aqui, da minha alegria à parte,
Espero o girar da chave: -
Estou unido no meu próprio coração
porque o meu amor está longe de mim.
Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

segunda-feira, outubro 02, 2023

Moema - Estou a jazer por dentro - Eric Ponty

Qual pólvora, sobre o ramo de árvore,
Senta-se a chorar a carência do seu corréu;
E, nas suas canções, envia muitos votos de desejo
Para o seu regresso que parecer tardar:
Então eu sozinho, agora desconsolado,
Choro para mim mesmo a carência do meu amor;
E, vagueando aqui e ali todo desolado,
Busco com minhas queixas abarbar aquela pomba triste,
Nem a alegria de nada do que há no céu,
me pode confortar, senão a sua alegre visão
Cujo doce aspeto tanto Deus, homem podem comover,
Em seu prazer sem nódoa para deleitar.
O meu dia é bruno, enquanto a sua bela luz me foge,
E morta a minha vida que quer tão viva ventura.
Eric Ponty

Dois Poemas — Henry Wadsworth Longfellow - trad. Eric Ponty

Não me diz, em números tristes,
A vida não passa de um sonho vazio!
Pois a alma que dorme está morta,
E as coisas não são o que parecem.
A vida é real! A vida é séria!
E o túmulo não é o seu objetivo;
Pó és, ao pó retornarás,
não foi dito da alma.
Nem gozo, nem tristeza,
é o nosso fim ou caminho destinado;
mas agir, para que cada amanhã
Nos encontre mais longe que o dia de hoje.
A arte é longa, e o tempo é fugaz,
e nossos corações, embora fortes e corajosos,
Ainda, como tambores abafados, estão batendo
Marchas fúnebres para o jazigo.
No amplo campo de batalha do mundo,
No acampamento da vida,
Não sejais como o gado mudo e impelido!
Não sejas um herói na luta!
Não confieis em nenhum futuro, por mais agradável que seja!
Que o passado morto enterre os seus mortos!
Obrar, - atuar no Presente vivo!
Coração dentro, e Deus acima da cabeça!
As vidas dos grandes homens lembram-nos
Que podemos tornar a nossa vida sublime,
E, partindo, deixar atrás de nós
Pegadas nas areias do tempo;
Pegadas, que talvez outro,
Navegando sobre o solene leito da vida,
Um irmão abandonado e náufrago,
vendo-o, voltará a ter coragem.
Vamos, então, levantar-nos e fazer,
Com um coração para qualquer destino;
Ainda alcançando, ainda perseguindo,
Aprendam a trabalhar e a esperar.
Todos são arquitetos do Destino,
Trabalhando nestas paredes do Tempo;
Alguns com feitos maciços e grandiosos,
Outros com ornamentos de rima.
Nada é inútil, ou baixo;
Cada coisa em seu lugar é melhor;
E o que parece ser apenas um espetáculo ocioso
Fortalece e apoia o resto.
Para a estrutura que erguemos,
O tempo é preenchido com materiais;
Os nossos dias de hoje e de ontem
São os blocos com que construímos.
Moldá-los e modelá-los realmente;
Não deixem espaços vazios entre eles;
Não penses, porque ninguém vê,
Tais coisas permanecerão invisíveis.
Nos tempos antigos da Arte,
Os construtores trabalhavam com o maior apurado
Cada minuto e parte invisível;
Pois os Deuses veem em todo o lado.
Façamos o nosso trabalho também,
Tanto o que não se vê como o que se vê;
Façamos a casa, onde os Deuses podem habitar,
Bela, inteira e limpa.
Caso contrário, as nossas vidas estão incompletas,
Parados nestas paredes do Tempo
Escadas quebradas, onde os pés
Tropeçam quando tentam subir.
Constrói hoje, então, forte e seguro,
Com sua uma base firme e ampla;
E ascendente e seguro
Amanhã achará o seu lugar.
Só assim podemos chegar
A essas torres, onde o olhar
Vê o mundo qual uma vasta planície,
E um céu sem limites.


Henry Wadsworth Longfellow - trad. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, outubro 01, 2023

UM POEMA DA INOCÊNCIA- TRAD.ERIC PONTY

Moema vem cá!
"Eu não tenho nome;
Tenho apenas dois dias de vida".
Como vos chamarei?
"Eu sou feliz,
Moema é o meu nome."
Doce alegria te acompanhe!

Bela alegria!
Doce alegria, mas com dois dias de idade.
Doce Moema eu chamo-te:
Tu sorris,
Eu canto enquanto isso;
Doce Moema vos sobrevém!
ERIC PONTY




sábado, setembro 30, 2023

A TRISTIA DE OVÍDEO - (excerto)- LIBRETO MINIMALISTA- ERIC PONTY

 OVÍDEO {Só lendo o livro.}: 

Livrinho, irás sem mim - e eu não me arrependo - para a cidade. Excepcionalmente, o teu amo não pode ir! Vai, mas vai sem adornos, como o livro de um exilado; na tua desgraça, usa o traje que convém a estes meus dias. Não terás nenhuma capa tingida com o sumo de bagas roxas - nenhuma cor é adequada para o luto; o teu título não será tingido nem o teu papel com óleo de cedro e não usareis saliências brancas nos vossos bordos escuros. Os livros de bom augúrio devem ser adornados e o meu destino é que deveis ter em mente. Não deixeis que a pedra-pomes frágil não lustre tuas duas bordas; eu quero que apareças com fechaduras, tudo áspero e desordenado. Não vos envergonheis das manchas; quem as vir sentirá que foram causados pelas minhas lamúrias.

Vai, minha carta, e em meu nome saúda os lugares amados: Eu pisá-los-ei pelo menos com o pé que me for possível. Se, como é natural numa multidão tão grande, houver alguém que ainda se lembre de mim, que porventura pergunte como estou vivo, mas não com saúde e felicidade; que até o fato de viver considero uma dádiva de um deus. Exceto isto, calai-vos - pois quem perguntar mais deve ler-vos - e tende cuidado para não dizerdes o que não deves; em breve, se apenas um lembrete for dado, o leitor e eu ainda serei condenado pela voz do povo como um criminoso público.

Não vos defendais se fordes atacado com palavras mordazes. A minha causa não é boa e será demasiado difícil de defender! Encontrareis alguém que suspira pelo meu exílio, que lê as vossas linhas com as faces que não estão secas, alguém que pronunciará uma prece silenciosa sem ser ouvida por qualquer malfeitor, para que, através do abrandamento da ira, o meu castigo possa ser aliviado. Pela minha parte, rezo para que, seja ele quem for, o sofrimento não venha para aquele que deseja que os deuses sejam gentis com o sofrimento. Que o seu desejo seja realizado! Que a remoção da ira me dê o poder de morrer em casa, no meu país!

A Sombra de César:
Ó alegria de que poucos desfrutam
e que logo se esvai e já acabou,
como o sol seca com raios dourados
Com o orvalho prateado da manhã:
A sua data expira mesmo antes de ter começado!
Um mundo ameaçador está sempre à espera
o dono dessa honra e dessa delícia.

O belo é persuasivo sem discursos
e atrai o olhar por si mesmo;
Será então necessário abusar
de elogios que destacam o primoroso?

OVÍDEO {Só lendo o livro.}:
Mas vós ides, mas em meu lugar, vós, que podeis fazê-lo, contemplar Roma! Quem dera que os deuses me concedessem agora ser o meu livro! - E não penseis que, por entrardes na grande cidade como alguém de terras estrangeiras, podeis vir como estranho para o povo. Ainda que te falte um título, o teu próprio estilo de reconhecimento; embora queiras fazer-te de enganador, é evidente que sois meu. E, no entanto, entrai secretamente, para que os meus versos não vos façam mal; eles já não são populares como antes. Se houver alguém que vos considere que vos julgue indigna de ser lida por serdes minha e vos repelir do seu peito, dizei-lhe: "Examina o título. Eu não sou o mestre do amor; esse trabalho já pagou a pena merecida".

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, setembro 29, 2023

O CAMPESINO DO LENHEIRO - ROMANCEIRO DAS VERTENTES {excerto} - ERIC PONTY

PARA MOEMA
O CAMPESINO DO LENHEIRO:
Todos os amantes guerreiam, e o Cupido tem a sua tenda,
é que o que é mais importante é o que é mais importante.
Que a idade de Marte, com a de Vénus, se harmoniza.
O que é que se pode fazer, se não se pode fazer?
aqueles que os amantes desejam.
A quem se dá o nome de "O Rei", o nome de "O Rei":
O seu dorme isto; que os seus Capitães guardam.
Os soldados têm de ralar longe: a mulher manda-os para lavra,
Sobe, e nuvens dobradas de chuva ele passa,
E pisa os desertos que a neve cobre.
E, se o vento de leste vai para o mar, não se aflige
E não se deixa levar pelo vento do mar.

O PASTOR DA INOCÊNCIA:
Quando os verdes bosques riem com a voz da alegria,
E o riacho corre a rir;
Quando o ar se ri com a nossa alegria,
E a verde colina ri-se com o seu barulho;

Quando os prados riem com um verde vivo,
E o gafanhoto ri-se na cena alegre;
Quando O Campesino do Lenheiro sorri,
Com as suas doces bocas redondas cantam "Ha ha he!"

Quando os pássaros pintados riem à sombra,
Onde a nossa mesa com cerejas e nozes está espalhada:
Vem viver, e ser feliz, e junta-te a mim,
Para cantar o doce coro de "Ha ha he!

O CAMPESINO DO LENHEIRO:
Quem, a não ser um amante ou um amante, é capaz
Que, se não é um homem de coração, é um amante,
Um, como um espião, vai ter com os seus inimigos,
O outro vê o seu rival como seu inimigo.
O que é mais importante para urbe, é mais importante para ele:
Este arromba os portões da urbe, mas ele os seus servidores.
"É bom invadir o inimigo adormecido
E armado para derramar o sangue de povos desarmados.
E os cavalos cativos despediram-se do seu senhor.
Os amantes de paz vigiam até que o sono encante a fanfarra do esposo,
Quem se arrasta, ergue-se em braços inchados.
Os guardas e o corpo de guardas passam
Os soldados, e os pobres amantes, trabalham antes.
A guerra e o amor são duvidosos, os vencidos se erguem
E quem nunca pensaste que cairia, pensamento.
Por isso, quem antes do amor a tristeza chamar,
que se resseque: o amor é o que melhor prova a inteligência.
Marte, no ato, a rede de serpentes negras, firmou,
No céu nunca houve fábula mais notória.
Eu mesmo estava aborrecido e fraco, inclinado à preguiça,
O prazer e a conforto tinham-me molestado pensamento.
A bela moça, com seus cuidados, expulsou está preguiça,
e para as suas tendas me dirigi eu mesmo.
E, se não for, não se pode fazer nada:
Quem não quiser crescer preguiçoso, que ame amalta.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, setembro 27, 2023

OVÌDEO - XV. SAFO PARA FAON - APÓS A LEITURA DE HEROIDAS - LIBRETO PARA TENOR - ERIC PONTY - 2023

 Postagem para Win Mertens e Moema

Um novo tipo de composição genérica sem paralelo na literatura anterior, as primeiras 14 cartas da coleção são escritas pelas heroínas Penélope, Fílis, Briseida, Phaedra, Oenone, Hypsipyle, Dido, Hermione, Deianeira, Ariadne, Canace, Medeia, Laodamia e Hipermestra aos seus amantes masculinos ausentes. Carta 15 apresenta a voz da poeta histórica Safo para Phaon, e as cinco últimas cartas são composições emparelhadas que incluem uma carta a um amante e uma resposta, com Páris e Helena, Herói e Leandro, e Acontius e Cydippe.

Ovídeo {Em cena a escrever uma carta}:

Dizei-me, quando olhastes para os caracteres da minha ansiosa mão direita, o teu olho soube já de quem eram - ou, a menos que tivesses lido o nome do seu autor, Safo, não saberias de onde vêm estas breves palavras?

Talvez também perguntes por que meus versos se alternam, quando sou mais adequado ao modo lírico. Tenho de chorar, pelo meu amor - e a elegia é a não há lira que se adapte às minhas lágrimas.

Eu ardo - como arde a terra frutífera quando as suas colheitas estão em chamas, com ventos indomáveis do Leste, que conduzem a chama. Os campos que frequentas, ó Phaon, estão longe, junto a Aetna de Tifo; e eu - o calor não menos que os fogos de Aetna me persegue. Nem eu posso moldar nada da canção para se adequar à corda bem ordenada.

E o que é que eu faço? Nem as moças de Pyrrha me encantam agora, nem as de Methymna, nem todas as outras.

De que o homem, que é o mais belo, não se Nada me atrai Anactorie, nada me atrai Cydro, as deslumbrantes moças que amei aqui para meu opróbrio; indigno, o amor que pertenceu a muitas moças só tu possuis.

Mas por que me mandas para as margens de Áccio, infeliz que sou, quando tu próprio poderias voltar atrás nos teus passos errantes? Tu podes melhor que a onda leucadiana; tanto em beleza como em bondade serás para mim um Phoebus. Ou, se eu perecer, ó mais selvagem que qualquer penhasco ou se eu perecer, ó mais selvagem que qualquer penhasco ou onda, podes suportar o nome de causar a minha morte? Mas quanto melhor é o meu peito ser apertado ao teu do que ser atirado de cabeça rochas! - O seio, Phaon, daquela que tu costumavas elogiar, e que tantas vezes te pareceu ter o dom do génio. O pássaro canta Itys, Safo canta o amor abandonado - é tudo; tudo o resto é silencioso como a meia-noite.


Safo e Phaon: [Para ser gravado em mp4 com duas vozes.}
Divina Afrodite do trono resplandecente, filha de Zeus, tecedora de problemas, peço-te, não derrotes a minha alma com angústias e preocupações, minha Rainha.
Ovídeo {em cena a escrever uma carta}:
O pássaro canta Itys, Safo canta o amor abandonado - é tudo; tudo o resto é silencioso como a meia-noite. Mas, porventura, as minhas preces servem para alguma coisa? Ou é frio e duro, e os zéfiros levam embora as minhas palavras que caem de improviso? Quem dera que os ventos que levam as minhas palavras pudessem trazer as tuas velas de novo; este feito seria apropriado para 
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, setembro 22, 2023

O PINTOR BOSSA NOVA - LIBRETO - ERIC PONTY - 2020

O PINTOR PODERIA ENGANAR-SE, ACREDITANDO QUE É BELEZA ESTÁ NOS SEUS QUADROS, COMO AS MULHERES SE ENGANAM QUANDO PARA TODAS ELAS OLHAM, PORQUE NA VERDADE OLHAM BASTANTE. SEI QUE NÃO SE TRATA DE BELEZA E SIM DE OUTRA COISA, SIM OUTRA COISA.

PARECER AQUILO QUE QUER PARECER, SENDO UMA CANÇÃO, BONITINHA, BONITINHA, POR EXEMPLO, PARA UM QUADRO QUE ESTÁ A SER PINTANDO, ISSO É SOMENTE, TUDO O QUE QUEREM QUE POSSO SER É NOVA.

PARA NOVA, O ÚNICO CÚMPLICE ERA PINCEL. SE DIZ PINCEL, ENCANTADOR COMO TODOS AQUELES QUE DIZIAM DE NUM QUADRO ÉBRIO E SEU VIOLÃO.

O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

A TINTA QUE MEU OLHAR SORVE
FAZ TUA FRONTE VERTER EM ONDAS 
QUE NUM BARCO ÉBRIO SOLVEM
AS MUDAS FALAS DOS QUADROS.

SONHOS PERDIDOS SE ESCONDEM
NA PÁTINA DA PINTA QUE ESCORRE.
A TINTA QUE MEU OLHAR SORVE
A TINTA VERTE EM LONGAS VERTIGENS. 

O PINTOR, NO SILENTE ABSORTO
BEBE DA TINTA SANTAMENTE O QUE PINTA. 
O OLHAR É TEU ATÉ QUE DELE CAÍA
AO OLHAR PARA UMA LINHA TÃO PERTO
DA TINTA QUE OLHAR NO TEU SORVE.

O PINTOR BOSSA NOVA:

ESTE OLHAR TEU OLHOS
QUANDO ACHAM O CÉU
DIZ MAIS DE MIM COISAS
NÃO POSSO CRER JAMAIS!

É JEITO TÃO DOCE ILUSÃO
AO PENSAR-TE EM VÃO
SE GOSTARES ASSIM
COMO EU NO OLHAR TEU!

É MAIS QUE FASCINAÇÃO
QUANDO ME FUI NA RAZÃO
QUEM TE PINTOU MATIZ
EM FORMA DE CORAÇÃO!
QUANDO ME DESFIZ EM TI
RÓI O CORAÇÃO QUE FALOU
EM SONHÁ-LA DEMAIS!

AH! SE TU PUDESSES CRER
O QUE QUERO DIZER-LHE EM TI...
OS TEUS OLHOS SERIAM TELAS 
DUMA SERRA COM BARQUINHO 
NAVEGAR ATRAVÉS DELAS.

O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

COM SUA MAIS FANTÁSTICA TINTA
ESPALHA-SE A COR DA RUA EM FIOS CRISTAIS
SOBRE O BRANCO DA PÊLE SAGRADA
DO APATICO DÂNDI DESSAS TRINCHAS. 

O PINTOR COM A FACE DA RUA
SE ADMIRA COM SUA FACE DE MIRA:
DE QUE SERÁ PINTADA ESSA MÁSCARA DE IRA?

A SE RECOLHER NO AZUL E O VERDE ACIDENTAL
E SE PINTAR TAL QUAL FACE DA RUA
COM SUA MAIS FANTÁSTICA TINTA.

O PINTOR BOSSA NOVA:

EU SEM TEU OLHAR
NÃO TENHO MAIS PORQUÊ
PORQUE SEM TEU OLHAR
NÃO SEI SE VOU CHORAR
SOU FLOR SEM LUZ
AÍ DE MIM SEM LUAR
LUAR QUE FAZ CHORAR
CHORAR A SE DAR.

EU SEM TEU OLHAR
SÓ DESATO UMA FLOR
UMA TARDE SEM LUAR
UM PRADO SEM CANTOR
BELEZA QUE VAI
BELEZA QUE VEM
SEM TEU OLHAR, MINHA FLOR, 
EU NÃO SEI MAIS PINTAR.

AÍ, QUE NOSTALGIA
QUE VONTADE DE VER APARECER NA VIDA
RETORNAR PARA MIM MARGARIDA
AS TUAS PELATAS PRECISAM DA MINHA
MEUS BRAÇOS NECESSITAM DAS TUAS
ESTOU TÃO SÓ
TRAGO OLHAR PARA A RUA
ME VER SEM DIA
SEM TEU OLHAR, MINHA FLOR, 
EU NÃO SEI MAIS PINTAR.
O PINTOR BOSSA NOVA:

NÃO, NÃO PODES MAIS MINHA VISÃO, 
VERSAR ASSIM DESCONSOLADO
ENRAIZADO HÁ UMA IMENSIDÃO
QUE SÓ ME DÁ ILUSÃO.

NÃO, NÃO VEJA A VIDA SEMPRE EM MIM
SENDO UMA RUA DESEMPARADA
A DERRAMAR NOSTALGIA EM MIM
DOR EM MIM...

AH, TOSCA ILUSÃO, SAI DO SEU JEITO
RADIANTE IMENSIDÃO
QUE PINTA DENTRO DO MEU CORAÇÃO.


O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

PINTOR! MINHA EFÍGIE
SE DESPEDAÇOU!
TEU RISCO TE FEZ ASTRO:
DEIXOU — DEIXOU!

ALTO ESCALASTE
TEM TEU CONTORNO.
PINTOR! MINHA EFÍGIE
SE DESPEDAÇOU!

Ó! POR ISSO INVOCO,
MESTRE DAS SANHAS,
PIVÔ DAS TARDES,
SENHOR DAS RUAS,
PINTOR — MINHA EFÍGIE!

O PINTOR BOSSA NOVA:

Ó MINHA ISSA TÃO BELLA
SÃO OS OLHOS TEUS
SÃO AÍS NOTURNOS
CHEIO DE DEUSES
SÃO MUSAS MANSAS
BRILHANDO QUAIS URGES
QUE APAGAM AO LONGE
LONGE DOS TEUS...

Ó MINHA VIDA ISSABELLA
SÃO OS OLHOS TEUS
TÃO CHEIOS DE MISTÉRIOS
NOS NEGROS OLHOS TEUS
DE QUANTAS DORES FEITAS
DE QUANTAS FLORES ACEITAS
QUANDOS ADÁGIOS TOCADOS
LONGE DOS TEUS TÃO ATADOS...

MINHA VIDA SEM ISSA TÃO BELLA,
SÃO OS OLHOS NEGROS TEUS
SE ADEUS HOUVERA PARA TI
FIZERA QUE FOSSEM OS TEUS
POIS ELE NÃO FIZERA OLHAR
QUEM NÃO HÁ DE SABER!

AH, MINHA VIDA, ISSABELLA,
DOS OLHARES DE ADEUS
FAZ DOS OLHARES MEUS
DE VEREM UM DIA NOS TEUS
O OLHAR PERDIDO DOS MEUS
DISTANTE DOS OLHOS TEUS.

O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

TUA OCRE DINASTIA:
AO CONTORNAR NOS DEDOS,
AO CRIAR TIPO NAS TELAS
SOBE ANDAR — PINTOR.

AO CHÃO, ADEUS DÁ VOLTA,
RISCOU O DETALHE SACRO,
OCRE DINASTIA,
AO CONTORNAR DOS DEDOS.

COM RISCOS DIVINOS,
ABARCA LONGOS MEDOS
A TINTA GOTEJANTE:
TEU CORAÇÃO SAGRADO
OCRE DINASTIA!

O PINTOR BOSSA NOVA:

Ó, CONQUESTAÇÃO QUE ME DEU
DECLARAÇÃO MAIS DADA,
FEZ RUIR A FLOR DO MEU ARDOR
DUM ARDOR TÃO ESMERADO
 
Ó, POR QUE FOSTE UM MAL EM MIM
ARDOR TÃO DECLAMADO
Ó, MINHA TRISTE, QUE NUNCA DEU
NÃO PODES SER DECLARADA ASSIM

TUA CONQUESTAÇÃO, OLVIDA ILUSÃO
DIZ SÓ FALSIDADES
QUEM COME O TEMPO, OLVIDA ILUSÃO
RUGIR DAS AMENIDADES.

SEGUE MINHA ILUSÃO, DIZ ILUSÃO
ILUSÃO ADORADA
SEGUE, PORQUE QUEM NÃO TEM PIEDADE
HAVENDO SERINIDADE DOURADA. 

O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

A RUA — DUM OCRE ORIENTAL
EM SEU ATELIE SOBRIO DE RENDA,
ETERNAL E NU — ONDA BANAL,
NA FATURA PARVA NOITE FATAL.

PINTOR PINTA SEU RUMO, SÓ,
E COM TEMOR, OLHAR, MUNDO
A RUA — OCRE ORIENTAL FENDA
EM SEU ATELIE SOBRIO DE RENDA, 

TROFEJA CHEIO DA PAISAGEM,
JULGA PERDER SENSO, ESVANECE MARGEM
E CAIR: SE ILUMINA EM LOUVOR IDEAL,
EM SEU DESVELO SENTIR FRIO MORTAL
DA RUA - DUM OCRE ORIENTAL.

O PINTOR BOSSA NOVA:

QUANTAS TU FIZESTE
QUE ME EXAURI
PORQUE TU FIZESTE
ABUSOU DA MALICIA
ONDE SILÊNCIO VALE MAIS

DA PRIMEIRA VEZ
MUSA CHOROU
MAS RESOLVEU ENCANTAR

É QUE EM TAIS MOMENTOS
TINHAM DEIXADOS TORMENTOS
NO TEU SONHAR

DEPOIS PERDEU A LICENÇA
PORQUE A ILUSÃO TAMBÉM CESSA
DE ILUDIR.

TEM SEMPRE UMA HORA QUE A VISÃO TRAIR
POIS VOU CURTIR MINHA ILUSÃO, MAS
ACESO VOU DEIXAR A LUZ QUE ME ILUMINA
SE ALGUM DIA A BELEZA IR
QUISER ENTRAR

E UM ASENTO POR PERTO
PORQUE ESTIVERES CERTO
QUE TU VAIS IGNORAR.
  
O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

FAGULHAS BORDADO CETIM
NO SEU CABELO GRIZ,
A MUSA MURMUREJA,
TRAJADA DE CARMIM.

AGUARDA NA QUINTANDA
O SEU PINTOR DEVOTADO
FAGULHAS BORDADO CETIM
NO SEU CABELO GRIZ

MAS ESCUTA-SE UM MURMÚRIO,
UM RISCO RISCA A MUSA:
A RUA, VIA BURLESCA,
IMITA COM SEUS UIVOS
FAGULHAS BORDADO CETIM

DESDE HÁ MUITO, MUITO TEMPO OCORRIDO, VAREI-LHE UMA CONFIDÊNCIA, ANDAMOS A DEBATER-NOS COM O LUAR.
É MUITO RARO QUE A LUZ, SUAVE, ELA NOS PAREÇA CONTENTE. E NEM É COISA QUE SE DURE. DI-LO O SEU JEITO DE LUAR, ALIÁS, UM JEITO A POBRE (NÃO FORA SUA AMARGURA).
DEVERIA-LHE EXPLICAR-TE AGORA O CASO DOS BRILHOS DO LUAR. INCRIVILMENTE COMPLICADO, E A LUA... POR FAVOR, CONFIA EM MIM. ALGUMA VEZ QUERIA ENGANAR-TE?
O LUAR NÃO PASSA DUMA SIMPLES ILUSÃO. NÃO PASSA MEDO. EXISTE, JURO QUE EXISTE; ESTAMOS CONTASTEMENTE A VÊ-LO.
QUEM? NÓS, CLARO, NÓS ESTAMOS A VÊ-LO. CHEGA DE MUITO TEMPO A METER-SE CONOSCO E ASSUSTAR-NOS.
QUANDO VIERES HÁS-DE VÊ-LO, TAMBÉM TU, E FICARAS MUITO ESPANTADO. “OLHA SÓ”, DIRÁS PORQUE LUA ASSOMBRA.
HAVEMOS UM DIA DE VÊ-LA JUNTOS. JULGO QUE DEIXAREI DE TER RECEIO. OU ACHAS, DIZ-ME LÁ TU, QUE ISSO NUNCA VAI NOS ACONTECER?

 O PINTOR BOSSA NOVA:

VÊ QUE COISA MAIS TRANÇA
MAIS CHEIA DE DANÇA
SENDO A MUSA TRANÇA
QUE CHEGA E DANÇA
NUM DOCE ACALANTO
PAISAGEM AO DANÇAR.

MUSA DA FORMA ESTAMPADA
DO LUAR QUE QUE ME DELINHAS
A SUA DANÇA
É MAIS 
É DUMA COISA MUITO TRANÇADA
QUE POR MIM VEM TRAFEGAR

AH, POR QUE ESTOU TÃO ENTREGUE,
AH, POR QUE TUDO FAZ PARTE DO LUAR
A FORMA ESTAMPADA NÃO É MINHA
QUE TAMBÉM PASSA NUM VULTO DE SER...

AH, SE A MUSA PERCEBER-SE
QUE QUANDO ELA SE MEXE
AS CORES AS ENVOLVEM
BEBENDO DOS MATIZES DA RUA
TUDO PERMANCE MAIS SÓ
POR CAUSA DO SEU DANÇAR...

O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

A RUA É O ALARIDO OCIDENTAL
DA PASSAGEM DUMA VIÚVA
DE PERNAS MARMOREAS AO VENTO
PINTOR PINTA DE AZUL

A SOMBRA MURMURA AS ALMAS
NUM CÂNTICO DAS CHAMAS
A RUA É O ALARIDO OCIDENTAL
DA PASSAGEM DUMA VIÚVA.

O BARCO ÉBRIO DA RUA 
VÊ O PINTOR RISCAR.
TREME VERSO ORIENTE
D´ÁGUA HORIZONTE
A RUA FAZ SEU ALARIDO OCIDENTAL

.

O PINTOR BOSSA NOVA:

VISÕES DERRADEIRAS
PINTANDAS NO DIZER
ROXAS PASSAGEIRAS
ENTORNO DO EMBALAR

QUE DERRADEIRA
FAZER PROFISSÃO
DA RENASCENÇA
SEM MAIS EXPLICAÇÃO

VERSOS DANTECOS
TÃO FENOMENAIS
VERSOS FREQUENTES
COM MUSAS IGUAIS
AI, BEM ME PUDERA
RETORNAR PARA TRÁS
SEM SENTIR IGUAL MAIS
DE TANTA IMENSIDÃO

MAIS DE REPENTE
ESTANDO CIENTE
CHEGA-NOS SOLIDÃO

INEXPLICADAMENTE
ABRE ABISMO CORRENTE
EM NOSSA DESILUIÇÃO

A GENTE APRENDE
MAS FICA CONTENTE
PINTAR O QUE SE GANHA
E O QUE PODES FAZER?

MUSA É BELA ILUSÃO
TODO RESTO É COMPREENDER
VENDER O QUE NÓS DAMOS UM TROÇO
DESSA IMENSIDÃO.

 O CRÍTICO DA BOSSA NOVA:

Ó ANTIGA DOR DOS DIAS IDOS
FUNDA-ME NOS SENTIDOS!
EFÍGES DE CORES OCRES DANÇAR
REFÉNS DUM LEVE ESTAZIAR.

UM QUADRO BOM ME FAZ DELIRAR
RECORDAÇÕES QUE SE ESVANECEM:
Ó ANTIGA DOR DOS DIAS IDOS
MORTE, APELO DE TEU RIGOR!

TODA MINHA LEVEZA SE DESFAZ. 
POR TUA PERSPECTVA ILUMINADA
ME VEJO EM TI COMO TU ME VÊS
PENSAR ALÉM DESSA IGUALDADE...
Ó ANTIGA DOR DOS DIAS IDOS!

O PINTOR BOSSA NOVA:

ANDAM FALANDO NAS VARANDAS
QUE EU JÁ NÃO TE PINTO JAMAIS
QUE ESTOU NAS VARANDAS
E JÁ PORQUE NÃO TE CLAMO MAIS
QUE EU A RUA OCIDENTAL TALVEZ DIZ
BUSCANDO UM OUTRO MATIZ.

MAS NINGUÉM, PERCEBE, MUSA
O QUE É TER AMARGURA
QUE EU SAIO A RUA
SE FICO SOZINHO COM A LUA
BEM PERTO DOS TEUS NINHOS
BEM PERTO DAS TUAS RAMAS

PERTO DA FLOR DE EXISTIR
QUE ESSA LUZ NÃO REFLETE
E QUE TUDO ESTÁ A PASCER
TEM SEMPRE MEIGO TRISTE DURAR
ATÉ MEU AMARGURAR
ATÉ NOSSO MATIZ
RESSOAR POR UM TRIZ.

ANOS DEPOIS, DEPOIS DE TANTOS DESENENGANOS, DE PINTURAS SOLTAS AO RELENTO, ELE FOI VER O LUAR COM A MUSA. PINTO-A NUM QUADRO. SOU EU DISSE-LHE. A MUSA RECONHECEU. O PINTOR DISSE: QUERIA APENAS OUVIR SEU SUSSURRO. MUSA DISSE: SOU EU. BOM DIA. SUA VOZ COMEÇOU A SUSSURRAR DE REPENTE. E, COM ESSE SUSSURRO, SUBITAMENTE REENCONTROU-SE NO SEU MATIZ.

ERIC PONTY - 2020
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, setembro 21, 2023

ALERTA DE ANÁLISE DE ORIGINAIS - COMPANHIA DAS LETRAS

 Caros amigos do bloque de Eric Ponty,

Minha poesia não é premiada é porque não me escrevo em concursos, porquê de foro íntimo para não o fazer; mas desta vez recebi um e-mail da COMPANHIA DAS LETRAS me convidando para participar com outros 500 originais, coisa que fiz e estou participando com meu original:

COMPANHIA DAS LETRAS

Olá, como está?
Entramos em contato para avisar que o período para submissão de originais vai começar em breve!

A submissão do material este ano será feita nos dias 18 e 19 de setembro a partir das 10h. Aceitaremos até 500 originais: receberemos 250 em cada dia e será permitido o envio de apenas UMA obra por pessoa, sob o risco de anulação da inscrição se esta regra não for cumprida.

Cuidado: para efetuar a inscrição, é preciso que preencha o formulário no nosso site e depois receba a confirmação por e-mail. Lembre-se de que é obrigatório estar logado no site, entrar no “fale conosco” ao fim da página e acessar a aba “análise de originais”.

Reitero, se não estiver logado no site, não será possível efetuar a inscrição. Lembre-se também de quais arquivos serão solicitados: Sinopse do original em PDF de até 500 KB e o Original em PDF de até 3 MB.

Esperamos pelo seu original!

Atenciosamente,
Departamento Editorial
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, setembro 20, 2023

22 Sonetos e elegia aos crepúsculos das serras do Lenheiro - Eric Ponty

I

Chega de luzes vão fundir crepúsculo,
Se uma delas por tal traço ti a janelas,
Que a cor mudará envolta dos cabelos,
São o nó que lhes traço se soltará!

São colo e dos seus pés mancos rebeldes
dizer por cortesia, que gente é esta?
Esta que ela que ao mundo chama Amor,
Benções for seu qual O Nosso Senhor:

Era um traço torno do qual sol escondia-se,
pela piedade do Criador Paradiso,
Quando fui preso, e não me revelei!

Porém só traços e braços tendo em mais,
Matizes mil, que traço era despido;
Em luzes piedade sol era vertido!

 II
No tempo que restauram meus suspiros,
Por certo está à cata desta sua d’alma,
cuja arca arde ainda versos à memória,
Que fui há princípio aos seus longos martírios.

Vós escutais em rima esparsa soar,
em suspiros que eu me nutria em coro,
de que em meu primo juvenil do erro,
ficará em parte noutro aquele soar.

De vários estilos em que eu choro,
fazendo de vã esperança e vã dor,
por esta via por prova entenda amor,
confio trovar piedade, não perdoes.

Mas bem me vejo como o povo todo,
fábula foi grande tempo, onde espessa,
do meu modesto fato me envergonho:

VIII

Uma sombra enquanto meu outro malvado,
me vem encontra e chama pelo nome,
reconhece-me eu que te reconheça;
Ou que este por amar se consegue?

O encontro assim amargo certa forma,
transação que eu me porto, no ar opaco;
Dão para os olhos seus, mas vero amigo,
sou seu vero amigo, mas não inimigo.

No grande tempo é que eu me pensava,
verte-te entre nós que do primo ano
de tal presságio de sua vida dava,

fui bem ver, mas amoroso ofegar,
me espaventar se eu largar-me empresa;
porto ao peito o pano me esfarrapar.

XII

De que há pouco tempo ti julgará,
se um deles por tal traço ti não sai,
A cor mudará envolta dos cabelos,
que o nó que lhes falo se soltará!

São colo e dos seus pés mancos rebeldes
dizer por cortesia, que gente é esta?
Este que ele que ao mundo chama Amor,
Quando for seu qual O Nosso Senhor:

Era em torno do qual sol escondia-se,
pela piedade do Criador paraíso,
Quando fui preso, e não me guardei!

Porém só ombros e braços tendo em mais 
Matizes mil, que resto era despido;
Pela piedade sol era vertido!

XVI

Uma sombra enquanto meu outro malvado,
me vem encontra e chamar pelo nome,
reconhece-me eu que te reconheça?     
Que tal presságio de sua vida dava.

Ou que este por amar se consegue,
encontro assim amargor certa forma,
Montanha que eu me porto, no ar opaco;
Dão pra os olhos seus, mas vero amigo.

No grande tempo é que eu me pensava,
verte-te entre nós neste primo ano
de tal presságio de sua vida trouxe,

fui bem ver, mas amoroso ofegar,
mundo mudará envolta dos cabelos,
porto ao peito o pano me esfarrapar.

XVIII

SUAVE és bela quão se música alça,
Ágata, telas, trigo, transparentes,
Houveram erigir a fugaz estátua.
Havia a onda lhe dirige tua frescura.

O mar molha brunidos pés cingidos
Forma recém trabalhada na areia
És agora teu ardor mulheril rosa
Uma só borbulhar que sol e o mar.

Ai, que nada te toque senão o sal!
Que nem o amor destrua intacta forma,
Formosa, musa indefinível espuma,

Deixa que tua cintura imponha água
Uma medida nova dum cisne azul
Navegue estátua por Moema eternal.


XXII

No tempo que restauram meus suspiros,
Pela doce memória que está em entorno
Que fui há princípio aos seus longos martírios,
cuja arca arde ainda versos à memória:
Vós escutais em rima esparsa soar,
em suspiros que eu me nutria em coro,
de que em meu primo juvenil do erro,
ficará em parte noutro aquele soar.

Mas bem me vejo como o povo todo,
fábula foi grande tempo, onde espessa,
do meu modesto fato me envergonho:

Do meu divagar vergonha meu fruto,
me seduz a conhecer tão claramente
quando desejei o mundo breve drama.


Elegia aos crepúsculos das serras do Lenheiro
O dia de outono está a desvanecer-se,
Os campos estão húmidos e sombrios;
O rude aguaceiro leva as flores de buganvília,
E a Natureza parece cansada;
A perdiz se reúne, fugindo do fadário,
Se ocultam no restolho branqueador,
E muitas aves, sem o seu par,
Nos espinheiros brilharem o carmesim,
A ti sigo, e ponho os meus pés
Nas suas próprias pegadas. Não porque queira caber
Contigo, mas por amor, porque desejo seguir
E imitar-te. Por fim, porque é que uma andorinha
Lutar com os cisnes? Como é que um pequeno com pernas 
que vacilam pode alcançar o galope de um cavalo? – 
A corrida não seria igual.
Como as abelhas provam todas as flores dos prados floridos,
Esta manhã, quando acordei,
uma nuvem negra pairava sempre no Sul;
"Penso que agora vamos pô-la de molho.
Adivinhei com razão.
"Fé! Fiquei feliz por ver o sinal,
Eu queria descansar.
E, um dia de acúleo foi aquele;
Mas a prudência é certa com o que vi,
E, não me faltasse nada, fiquei em casa;
Conheceis o meu credo:
Trabalho inútil, nunca me interessei por ele.
Mas vamos continuar.
Escrevo apenas para não fazer maldades,
Pobres como sois!
Com coração e alma honestos, sinceramente,
São todos para mim.
Este rabisco, marca o pedido,
embora não mereça a vossa atenção,
significa um humilde convite
Para um dia qualquer:
Tu és o amigo montanha do Lenheiro,
Há muito que me agrava o choque,
ao ver os nossos gentis-homens tão arrogantes:
Mas a tristeza é muitas vezes apanhada pela zombaria,
Pois como foi.
O orgulho, o poder não valem uma caminhada
Eu preferiria ser um rato de prisão com suas serras,
como eu seria o rei do nosso domínio,
Ou qualquer outro,
Um é tão bom como o outro.
Nem eu daria de mão beijada,
um único alfinete por tudo isso:
O rústico trabalhador ouve o seu inimigo inquieto,
E cansado, com as suas dores a queixar-se,
Vai buscar os seus cavalos à charneca:
E o que é mais importante, é que o homem não se cansa
Que a noite se aglomerava à porta do Lenheiro,
As carroças sacodem com ruído;
E porcos agora se aglomeram na estrada poeirenta,
Grunhindo e tagarelando, em disputa, em torno
A quem não tem o que fazer.
Que traços impressos marcam o caminho do vagão;
Que poeirenta azáfama desperta o eco em redor;
Como os raios quentes do sol afastam a névoa;
E, afiando, jarros com som agudo e tilintante,
E, faixa por faixa, se alonga sobre o chão;
Enquanto que, sob algum monte amigo, aconchegado e protegido
De um sol que estraga, ocultar a delícia do coração;
E o que é mais do que isso, é o que é mais do que isso,
E o que é mais importante, o que é mais importante.
O que é mais que um simples e belo, 
sendo um grande louvor a quem o fez nascer Lenheiro,
Um grupo heterogéneo que o campo de clareira rodeia:
Filhos da humanidade, nunca negueis
O humilde respigador a entrada nos vossos terrenos;
O frio triste do inverno e a pobreza estão próximos.
Não vos raleis da Providência a escassa provisão:
Nunca vos faltará em vosso amplo estoque.
Quem nega, cão de caça endurecido e faminto
Nunca as bênçãos lhe baterão à odiada porta!
Mas nunca faltará a quem dá aos pobres.
Ah, belo Lenheiro! misturado com o resto,
"As tuas belezas florescendo na vida baixa e invisível,
A compaixão suspira, sente e chora,
Retratando cada dor
O homem desumano, em vingança, amontoa
Em todo o Lenheiro inferior.
Ah, Piedade! Muitas vezes teu coração sangrou,
Como agora sangra de dor;
E lamúrias ternas seus olhos derramaram
Para ver atos cruéis.
A chicotada que feriu a pele de um pobre,
Para se gabar quando está no poder,
Já que, sujeitos a mil malefícios,
perecem como uma flor.
Ai de nós! Não temos nada de que nos vangloriarmos aqui,
e menos ainda para nos orgulharmos;
O sol mais brilhante só nasce claro
Para se pôr atrás de uma nuvem.
O mais belo sol, que se ergue e se põe atrás de uma nuvem,
devem renunciar a todos os seus poderes;
Não posso evitar a vontade do destino,
Nem posso evitar que ele te ame.
Ainda assim devo amar-te, doce encanto!
Ainda assim a minha alma deve aquecer-se em êxtase;
Ainda assim a minha rudeza deve arrancar a flor,
Embora a ignorância o carregue de abusos,
E os tolos desprezem a bênção enviada,
e zombem da boa intenção do Lenheiro. -
Ó Deus, deixa-me fazer o que é bom,
Que eu faça aos outros o mesmo Lenheiro,
Como eu quero que os outros me façam a mim,
E aprender pelo menos a humanidade.
O céu está cada vez mais escuro;
O sono fecha os olhos do trabalhador:
Vizinhos onde os vizinhos se deparam
A colheita para louvar, e o trabalho na mão,
E batalhas contadas em terras estrangeiras.
Enquanto o seu cachimbo está a soprar,
(..........................................)
Eric Ponty
Eric Ponty-Poeta-Mestre-Tradutor-Libretista

segunda-feira, setembro 18, 2023

A TRISTIA COM OITO SONETOS - ERIC PONTY

 A TRISTIA

Pequeno livrinho meu sigas
(E não te desprecio por ele),
Sem mim irás à cidade Urbana, 
Ai de mim!  Coitado de mim!

Onde ao teu dono não lhe está lícito abraçar. 
Sigas, porém sem adornos de douro, 
Qual convém há um desterrado: 
Percorreste, infeliz, o imaginando 
Certo está infeliz ocasião ouro.

Que não te envolvam adelfas com cor corada, 
Já que essa cor não se convém 
Muito bem em ocasiões de tristeza; 
Nem te escrevas teu título com mínio, 
Nem se embelezem tuas folhas de papiro 
Com o azeite de cedro!

Nem leves alvas chapas em uma tetra fronte. 
Fiquem esses adornos aos livrinhos felizes; 
Parte, não deves olvidar há triste casta. 

Que nem se quer espalmem cantos 
Com frágeis pedra polmes, 
Ao fim de que apareças arrogante, 
Com as madeixas desregradas
Não te envergonhes dos borrões: 
O que os veja pensará que hão sido 
Feitos com minhas próprias lamúrias.

Lembra, livrinho, e saúde com 
Minhas palavras todos lugares prezados: 
Os tocarei, ao menos, com o pé 
Com que este está admitido
Fazê-lo. Com Oito Sonetos
Trarão saudades aos netos. 

Se alguém, advém entre povo, 
Não se há olvidado ali de mim, 
Si tiver alguém que, por lanço, 
Ti perguntares como estou, lhe dirás 
Que estou vivo, porém não ardente bem, 
E há por isso, feito de viver, 
O devo ao favor dum Deus.
OITO SONETOS
I

Eu que nas rimas sumiram os ecos ouvidos
Suspiros tristes quais meu coração comia
Quando deste viço do meu abril conduziu,
Muito diferençar do eu agora apareço.

Palpitar meio espera inquieta e medo frenético,
Daqueles por quem meu estilo díspar é lido,
Espero que, seus cernes de amor sangrarem,
Não só o perdão, mas talvez seja duma fúcsia.

Mas agora vejo claro isso da humanidade
Mui tempo era conto: de onde anexim amargo
Autocensura rubores crebros são grandes;

Enquanto meu delírio, aperto o fruto que encontro,
E triste contrição, e a prova, de tão prezada,
Que a alegria do mundo é apenas um sonho.

II

Ô casa, entanto caseira - pensamentos de ti
Nunca pude deixar de aplaudir peito falta;
Quão vezes fero êxtase -ter-sido doído em mim,
Retornar atrás, dum fatigado e perigo;

Quão vezes eu parei ao ver a lareira 
Densas nuvens de fumo em lajes leve azuis,
E, já abaixo, flor amarela casa-alho-porro,
Enquanto se beira breve numa visão mais adjunta.

Estas, embora são ninharias, já deram prazer;
Nunca agora levam-me fundo desejado,
Pintar o grupo noturno antes à minha vista,

De amigos e iguais sentados entorno do fogo.
Ô Era! Quão fluxo veloz fazem teus tempos,
Mudanças cena alegria às cenas de aflição.

III

Certo meditar sobre pedra raspada,
Anseio saber quem pô fez com que calar,
Penso ansioso sobre o pode demostrar-se,
Data ilusória busca brotar ervas daninhas;

Alvo prova seco - Tanto ao tempo e o nome
Tinha pico a idades arriscados ao olvido.
Sol continua a ser ornamento esculpido
Deu-nos prova crível de laurel à fama:

Busca fiz a minha visão tanto de tormento,
Naquela época, questionava expor ideia;
Alvo cedo constata- "É o que é há ti.

Pó se acha cá? - Uma vez queres ser breve
Olvidou quão ele - Então Era deve te ordena ir
Puro êxtase céu, ou aí aflição do inferno ".

IV

Velho carvalho marrom lavrou o pau em paz,
Quão é doce à sua paz calmante soia ser;
Pode abençoar e ainda, quão faz pensar o humor,
Fim agora confusão se adapte o melhor de mim.

"É por amor," a brisa soprou-nos dizer,
"Ceder nossa floresta silenciosa aqui?
É por amor, se movimentar tão longe
De ainda sombreia correr onça tão caro? "

"Não, brisas, não!" - Respondo com um suspiro,
"O amor nunca pode muito chorar meu peito; 
Colina, meu amigo! - Ai de mim! Tão cedo a finar-se –

Essa é a queixa me pressiona ao sair:
Apesar ruído não curar, pode aroma alguns rogar;
Desígnio Silente irritar nas feridas de aflição ".

V

Acercar-se um dia Amor a tornar rende,
retrograda este ímpio do penhor,
que receia, e, que não querem, o prende,
desta alegria penar do par louvor.

Se atrair chama minha que se renda,
Fé, e o enorme e infindo se despe amor,
vossa certeza, vosso vício pendam,
compungir tarde donde alguém se prenda.

E eu estou lhe atraindo este alvedrio,
Do caso viver o lacre sevo pio,
é provisório brando à noiva idade.

E desejo pensar reto céu escolta,
vendo quiçá do anjo homem crueldade,
ter vosso meu ser vendeta revolta!

VI

São provisórios brando à noiva idade.
E desejo pensar reto céu escolta,
vendo quiçá do anjo homem crueldade,
ter vossa do meu ser vendeta volta!

Quisera eu meigo amada na foz rês,
olvidar-se de mim senhora três,
desejo plácido ave aflora à tez,
sutil advém voltar amores vez.

Exausto vida ponho máscara Alba,
floresta cinge flores pias de adoba,
sôfregos pedem vão perdão da alcova,
sonhá-la mais que fogo clama arriba.

Pássaros, credos, sós, sem voo saga,
extasiados seres dragam à vaga,
reunidos lajens funda efígie rara.

VII

Uma grei, alcunha pátria fez no drama,
fez-se de acenos treva fama estranha,
dum com louvor, intrínseco eco alma,
eram de párias serras Cáspia sanha.

Muitos para a terra esvaem-se sina,
que depois feitos dignos obram mina,
torcessem prêmio fez dos próprios lares,
que dimanava sorte terra aos pares.

Este, depois que contra breve agrave,
fez-se que mundo fim amor tão grave,
este com bela ufana areia que lave.

Já tinha visto carne de alva atada,
então que não profundo amor lavrada,
quando achegado foz jornada tenra.

VIII

Como —se espessa treva se respira,
Ou se em nosso hemisfério já anoitece—
Distante se vê um mulino então girava,

Ver distantes uma torre me parece;
O vento me encha atrás, e abrigo peço
Ao meu Senhor, porque outro não oferece.

Já estávamos — com medo canto e medo—
Onde surgem as sombras abnegadas
Qual canudo que no vidro se há metido.

Umas fazem e estão doutras paradas;
Possuem a testa o bem os pés adiante,
Os pés em os rostos, estão arqueados.

Quando tanto nós passamos adiante
Que meu mestre teve bem mostrar-me
Ao que teve uma vez belo semblante,

Se deteve ante mim, me fez parar-me,
E disse: «Olha e me Dite; é o momento,
De que tua alma tem de valor se arme».

Qual me fica de friagem sem alento,
Não perguntes, leitor, nem eu o escrevo
Nem o pode expressar nenhum acento.

No que me morria nem sequer vivia:
Ao pensar por ti, si é que é engenhoso,
Qual fui para ambas coisas negativo.

Ao Senhor do Império era doloroso
Deste médio corpo acima se mostrava;
E mais me comparava eu há colosso

Que um gigante braços comparavam:
Calcula como o todo ser deveria,
Que com tamanha parte concordava.

Se foi belo qual feio se observavam,
E contra seu fazedor alçou o seja,
Sem dúvida é o quem todo luto cria.

Ali minha mente ficou perplexa,
Se, pois, tinha três caras nesta testa.
Uma adiante, e esta era vermelha;

Aos outros dois unirem-se com esta
E por cima de uma e outra paleta,
E se juntavam-se na mesma cresta:

A destra era entre branca e amarela;
O sinistro, com tinta que declarou
O que do rio se tostou da orelha.

As Duas asas grandes abaixo caras,
Que ao pássaro tamanho convinham,
De tais velas jamais um barco içara—

Do morcego eram; e se careciam,
De plumas, que dá vez se ateavam
De modo que três ventos produziam

Que da água do Lenheiro congelavam;
De seis olhos suas lágrimas brotando,
Com sua sangrenta baba se mesclavam.

Com cada boca estava triturando
Há um pecador, como uma agrimavam,
Aos três de igual forma castigando.

Mas e para o de diante que nada era
O morder, com a espalda comparado,
Que estava desgarrada toda inteira.

A este a maior pena lhe há tocado:
Que da água do Lenheiro congelavam
Está na boca, de se panteia airado;

Haver abaixo estes dois que tem postos,
—Disse-lhe Senhor—; do rosto denegridor
É o Bruto, que dor não se manifesta;

Casio do terceiro é, alto e fornido,
Mas já à noite chega, e deste instante,
Ao marcharmos, que todo visto há sido.

Eu me abracei ao colo e, vigilante,
O momento escolheu que lhe convinha 
E, quando se abriu as asas ao bastante,

Ao flanco hirsuto se agarrou meu ardor:
De velho em velho descendendo fomos
Dentre das cerdas e da costa já fria.

Quando ao lado da coxa ao fim nos vimos,
Onde se inchava e forma da cadeira,
Cansados e angustiados nos sentimos:

Volveu a testa vazia da garra fera
Ao mestre, que lhe vendo se safava
Igual que se ao Inferno se volvera.

Agarre bem —me disse, e ladeava—;
Pela escala abandonar-me espero
Tanto mal», e cansado se mostrava.

Alcançou duma rocha com o aguaceiro
E com cuidado me sentou na ribeira;
Logo levou ao meu lado o pé ligeiro.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

22 SONETOS & CLARA MUSA (excerto) ERIC PONTY

I

Versos de louvor, conceitos esparsos
Engendrados d´alma em meus zelosos,
Parte de meus doídos abrasados,
Com mais dor que liberdade nascida;

Expostos ao mundo em que vão perdidos,
Tão certos olvidaste e trocados
Que só donde fossem já engendrados
Foram por sangue versados pelo mundo:

Pois lhes furtais ao labirinto a Creta,
Ao Dédalo dos altos chamamentos,
A fúria ao mar, as flamas ao abismo,

Se aquela áspide formosa nós aceitamos,
Deixa a terra, entreter os fortes ventos,
Descansareis em vosso centro mesmo.

II
Quando imagino meus breves dias
Aos mui que ao tirano Amor me atreve,
E em meu cabelo antecipar a neve,
Mais que os anos, as tristezas minhas.

Vejo que são suas falsas alegrias
Veneno no cristal da razão bebe,
Por quem o apetite voraz se atreve
Vestido de mil doces fantasias.

Que ervas do olvido há dado gosto
A razão, que, sem fazer seu artificio
Quer contrarrazão satisfazer-te?

Mas consolar-lhe pode meu desgosto,
Que es desejo do remédio indicio,
Remédio de amor querer vencer lhe.

III
Aspiramos ver que mais bela acorde
A que essa beleza em flor não padeça,
Pois até o fruto pródigo de Eva sucumba
Sendo justo que um retorno lhe suceda;

Porém em ti mandam teus belos olhares,
E ao ser teu alimento da tua chama,
Lembras à fome ali onde hei de todo
Sendo eu própria presa maltratada.

Tu hoje adornas com teu encanto mundo
Me anuncias sem igual à Primavera,
Sendo mesquinhas ao vigor de teu orgulho.

E ao não amar derrotas tuas reservas:
Tenha clemência e não deixes que tua gula
Se junte à cunha mundo ir à tumba.

IV

Ó minha musa, apaixonada por palácios,
Tu, quando é janeiro lança aos teus ventos,
No tédio negro das noites de neve, busque
Toras meio torradas a aquecerem pés roxos?

Teus ombros manchados, ficarão tão quentes
Raios lua deslizam no vidro da nossa janela?
Sabendo que a bolsa e o paladar estão secos,
Tu vais colher ouro dos cofres azuis dos bosques?

Tu deves, é ganhar teu escasso pão da noite,
Qual menino de altar tédio balançar incensários, 
Vocais aos deuses nunca presentes Te Deums,

Cá, morrer fome, deite então encantos à venda,
Teu mergulho em choros pelos olhos de ninguém,
Para trazer diversão para a multidão vulgar.

V

Ó musa do meu coração amante de palácios,
Tu terás, quando janeiro soltar seu Bóreas,
Durante os problemas negros das noites de neve,
Uma marca a aquecer seus dois pés roxos?

Raios da lua pelo meio das venezianas esquentam?
Teus ombros trêmulos, marcados de frio?
Com a bolsa e o paladar secos, tu deves correr
Com cofres azuis a recolher o teu ouro?

Veja como tu deves preparar teu pão da noite:
Tu tocas o coral, não poupes o incenso,
E cante Te Deum, embora tu estejas aflita, em dúvida;

Ou, uma acrobata faminta, mostre teus encantos,
risada mergulha em choros invisíveis e acepções
Para dividir lados desta multidão insensível.


 CLARA MUSA

Qual Musa palmilhasse vagamente
Passagem de Minas, pedregosa,
Tal no fechar tardio da cena rouca

se misturasse ao tom de meus encantos 
que era pausado, surdo; manhãs pairassem 
no céu de zimbro, e suas cores negras,

lentamente se abrem diluindo cores,
na escuridão maior, vinda das mentes
E de meu próprio ter desenganado,

A Miragem da Musa se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de a ter olhado me carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir luz que fosse tão impura
nem um clarão maior que o aceitável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do aspecto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria efígie sua debuxada
na face do mistério, nos abismos.

Abriu-se em alma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter olhado os já pudera

e nem desejaria recobrá-los,
sem desvão e para sempre repetimos
mesmos sem rotineiros ristes périplos,

convidando-os a todos, numa sorte,
a se aplicarem sobre o rosto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim disse, senhora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a façanha,

a outro alguém, diuturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca demostrou,
mesmo afetando dar-se ou se adendo,
e cada momento mais se retraindo,
(.......................................)

ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA