Pesquisar este blog

segunda-feira, setembro 18, 2023

22 SONETOS & CLARA MUSA (excerto) ERIC PONTY

I

Versos de louvor, conceitos esparsos
Engendrados d´alma em meus zelosos,
Parte de meus doídos abrasados,
Com mais dor que liberdade nascida;

Expostos ao mundo em que vão perdidos,
Tão certos olvidaste e trocados
Que só donde fossem já engendrados
Foram por sangue versados pelo mundo:

Pois lhes furtais ao labirinto a Creta,
Ao Dédalo dos altos chamamentos,
A fúria ao mar, as flamas ao abismo,

Se aquela áspide formosa nós aceitamos,
Deixa a terra, entreter os fortes ventos,
Descansareis em vosso centro mesmo.

II
Quando imagino meus breves dias
Aos mui que ao tirano Amor me atreve,
E em meu cabelo antecipar a neve,
Mais que os anos, as tristezas minhas.

Vejo que são suas falsas alegrias
Veneno no cristal da razão bebe,
Por quem o apetite voraz se atreve
Vestido de mil doces fantasias.

Que ervas do olvido há dado gosto
A razão, que, sem fazer seu artificio
Quer contrarrazão satisfazer-te?

Mas consolar-lhe pode meu desgosto,
Que es desejo do remédio indicio,
Remédio de amor querer vencer lhe.

III
Aspiramos ver que mais bela acorde
A que essa beleza em flor não padeça,
Pois até o fruto pródigo de Eva sucumba
Sendo justo que um retorno lhe suceda;

Porém em ti mandam teus belos olhares,
E ao ser teu alimento da tua chama,
Lembras à fome ali onde hei de todo
Sendo eu própria presa maltratada.

Tu hoje adornas com teu encanto mundo
Me anuncias sem igual à Primavera,
Sendo mesquinhas ao vigor de teu orgulho.

E ao não amar derrotas tuas reservas:
Tenha clemência e não deixes que tua gula
Se junte à cunha mundo ir à tumba.

IV

Ó minha musa, apaixonada por palácios,
Tu, quando é janeiro lança aos teus ventos,
No tédio negro das noites de neve, busque
Toras meio torradas a aquecerem pés roxos?

Teus ombros manchados, ficarão tão quentes
Raios lua deslizam no vidro da nossa janela?
Sabendo que a bolsa e o paladar estão secos,
Tu vais colher ouro dos cofres azuis dos bosques?

Tu deves, é ganhar teu escasso pão da noite,
Qual menino de altar tédio balançar incensários, 
Vocais aos deuses nunca presentes Te Deums,

Cá, morrer fome, deite então encantos à venda,
Teu mergulho em choros pelos olhos de ninguém,
Para trazer diversão para a multidão vulgar.

V

Ó musa do meu coração amante de palácios,
Tu terás, quando janeiro soltar seu Bóreas,
Durante os problemas negros das noites de neve,
Uma marca a aquecer seus dois pés roxos?

Raios da lua pelo meio das venezianas esquentam?
Teus ombros trêmulos, marcados de frio?
Com a bolsa e o paladar secos, tu deves correr
Com cofres azuis a recolher o teu ouro?

Veja como tu deves preparar teu pão da noite:
Tu tocas o coral, não poupes o incenso,
E cante Te Deum, embora tu estejas aflita, em dúvida;

Ou, uma acrobata faminta, mostre teus encantos,
risada mergulha em choros invisíveis e acepções
Para dividir lados desta multidão insensível.


 CLARA MUSA

Qual Musa palmilhasse vagamente
Passagem de Minas, pedregosa,
Tal no fechar tardio da cena rouca

se misturasse ao tom de meus encantos 
que era pausado, surdo; manhãs pairassem 
no céu de zimbro, e suas cores negras,

lentamente se abrem diluindo cores,
na escuridão maior, vinda das mentes
E de meu próprio ter desenganado,

A Miragem da Musa se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de a ter olhado me carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir luz que fosse tão impura
nem um clarão maior que o aceitável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do aspecto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria efígie sua debuxada
na face do mistério, nos abismos.

Abriu-se em alma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter olhado os já pudera

e nem desejaria recobrá-los,
sem desvão e para sempre repetimos
mesmos sem rotineiros ristes périplos,

convidando-os a todos, numa sorte,
a se aplicarem sobre o rosto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim disse, senhora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a façanha,

a outro alguém, diuturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca demostrou,
mesmo afetando dar-se ou se adendo,
e cada momento mais se retraindo,
(.......................................)

ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

Nenhum comentário: