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terça-feira, janeiro 27, 2026

Pierrot Azul & Outros Poemas - Eric Ponty - Fernando Fábio Fiorese Furtado

Ao prefaciador de qualquer obra cumpre sempre a inglória tarefa de fazer o mapa de um território que nenhum papel acolhe ou respeita, de ser a voz reiterativa e unívoca de um coro que articula múltiplas entonações, sentidos e silêncios, de operar um texto condenado à marginalia, pois que o mínimo grafa das páginas subsequentes importa mais que as pistas que o prefácio pretenda desvelar. O trabalho tradutório do prefaciador está condenado a priori, pois raras vezes consegue surpreender o motor e a paixão que desdobram um livro em intermináveis leituras.

Prefaciar os poemas traduzidos por Eric Ponty e coligidos sob o título de Pierrot Azul & Outros Poemas implica antes de tudo reconhecer as diferenças entre dois modos de tradução. De um lado, a tradução técnica, de que o texto-prefácio é apenas um Ersatz mínimo, na medida em que tenciona assinalar as ideias principais da obra e reiterá-las de modo o mais literal possível; de outro, a tradução poética, na qual o adjetivo — derivado do grego poiesis, — prevalece sobre o substantivo para contaminá-lo com seus múltiplos sentidos: “criação, ação, fabricação, confecção, arte da poesia, faculdade poética, adoção”. 

Fernando Fábio Fiorese Furtado

segunda-feira, janeiro 26, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 11
Deixe o véu para o sol ou para a sombra,
Mulher, eu não a vi desde que aceitou em mim,
que afastou de meu coração qualquer outro desejo.
Enquanto eu levava os belos pensamentos ocultos.

Que deixaram minha mente morta de desejo,
vi adornar teu rosto com piedade;
mas depois que o Amor me fez perceber,
tirou os cabelos loiros então velados.

E o olhar amoroso recolhido em si.
O que mais eu desejava-me foi tirado,
se o véu me governa que pela minha morte.
 
E pelo calor e pelo gelo dá doce luz 
Dos teus belos olhos ofuscar-se na lembrança,
Que carrego nos olhares dessas sombras.


12
Se minha vida, do amargo tormento,
pode tanto se proteger, e das aflições,
que eu vejo pela virtude dos últimos anos,
Mulher, que a luz dos teus belos olhos se abrande.

E os cabelos dourados se tornem prateados,
e deixem as guirlandas e os tecidos verdes,
e o rosto descolorido que, em meus danos,
Me torna temeroso e lento ao lamentar,

Ainda assim o Amor me dará tanta ousadia
que eu lhe revelarei dos meus martírios
onde foram os anos, e os dias, e as horas;

E se o tempo é contrário aos belos desejos,
Não será que pelo menos chegue ao meu redor
De algum socorro de suspiros tardios.

Francesco Petrarca - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, janeiro 25, 2026

A Clareza Do Enigma & Outros Sonetos - Eric Ponty

A mundanidade do mundo trouxe sempre à tona todo o fenômeno do forma fixa no mundo, sem, com isso, delimitar todos os seus eu líricos fatores constitutivos com a mesma clareza fenomenal do próprio fenômeno do mundo. A interpretação ontológica do mundo, que discutia as coisas intramundanas em questão, veio em primeiro lugar não apenas porque o A Clareza Do Enigma, na sua cotidianidade, está num mundo em geral e permanece um tema constante em relação a esse mundo, mas porque se relaciona com o mundo num modo predominante de forma fixa.

Primeiramente e na maior parte das vezes, o A Clareza Do Enigma é absorvido pelo eu lírico mundo. Este modo de forma fixa, estar absorvido no mundo e, portanto, estar- em que lhe está subjacente, determina essencialmente o fenômeno que agora iremos perseguir com a pergunta: Quem é que está no cotidiano do A Clareza Do Enigma?

 Todas as estruturas da forma fixa do A Clareza Do Enigma, portanto também o fenômeno que responde a essa questão de quem, são modos da sua forma fixa. A sua propriedade ontológica é existencial. Assim, carecemos assentar a questão corretamente e delinear o artifício para trazer à tona um domínio fenomenal mais amplo da cotidianidade do A Clareza Do Enigma. 

Ao investigar na direção do fenômeno que nos permite responder à questão do quem, somos levados às estruturas do A Clareza Do Enigma que são com à forma fixa no mundo: Neste tipo de forma fixa, o modo de forma fixa cotidiano de um eu lírico sou motivado, cuja explicação torna visível o que poderíamos chamar de "sujeito" do cotidiano, o deles.

ERIC PONTY

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Modernidade Em Baudelaire - Walter Benjamin - Trad. Eric Ponty

 https://clubedeautores.com.br/livro/modernidade-em-baudelaire

 
 "A modernidade é em Baudelaire uma conquista", eis aqui a definição de Benjamin. Já no primeiro poema de As flores do mal, Baudelaire convoca o leitor à ruptura da apatia. Benjamin aponta o método da aventura, a captura do presente, a intenção do poeta de revidar os atordoantes choques na grande cidade. Para não se tornar receptor inanimado ou ator automatizado, Baudelaire troca o gabinete pelas ruas, a duras penas, físicas e espirituais, e transita entre duas instâncias, flânerie e esgrima. Ao levar a vivência aos âmbitos do coletivo e do voluntário, imiscui-se no hiato da distribuição entre consciente e inconsciente. Conjura os perigos da absorção pela profundeza obscura ou da reflexão pela superfície ofuscante. Antes de o estímulo se queimar como resposta imediata, a vivência, ou se perder como memória de difícil acesso, insere poemas, contragolpes, no espaço intervalar. O modus fica em verso: "tropeçando em palavras como na calçada". É total exposição ao presente, com mente e corpo alertas, e plena compreensão de não se tratar de processo natural: "É essa a natureza da vivência a que Baudelaire atribuiu a importância de uma experiência. Fixou o preço pelo qual se pode adquirir a sensação da modernidade: a destruição da aura na vivência do choque".
 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

                              XLIII 


Quão te amo? Deixe-me contar todos motivos 
Amo-te na fundura no ancho na elevação 
Minha alma consegue, quando se sente ausente 
Aos fins Sermos do ideal da Remissão. 
Te amo no parâmetro existido de cada dia 
Mais tranquilos, ao sol dão luz destas velas 
te amando tão franca, homens lidam à direita. 
Amar-te apenas, amor, transformam louvores. 
Eu te amo com paixão posta de todo jeito, 
Minhas antigas dores, fé que há minha infância 
 Te amo com um amor parecia-lhe perder-. 
Meus santos perdidos, - Eu amo-te com fôlego 
risos, prantos, minha vida! - E, se Deus fez 
te amando, mas ainda melhor após à morte.

EU TE ACEITO 

ERIC PONTY 

terça-feira, janeiro 20, 2026

Meu Luto Por Mim & OUTROS SONETOS - ERIC PONTY

Ao assinalar as tarefas emaranhadas na «formulação» da questão do soneto, mostramos que não só devemos identificar o soneto específico que funcionará como o soneto primário a soneto interrogado, mas também que são necessárias uma apropriação explícita e a garantia do acesso correto a esse soneto. Discutimos qual é o soneto que assume o papel principal na questão do soneto. Mas como esse soneto, o Meu Luto Por Mim, deve tornar-se acessível e, por assim dizer, soneto concebido numa interpretação perceptiva? A prioridade on-ontológica que foi demonstrada para o Meu Luto Por Mim poderia levar à opinião errada de que esse soneto teria de soneto o que é primariamente dado também on-ontologicamente, não apenas no sentido de que tal soneto poderia soneto compreendido «logo», mas também que a anteposição de sua maneira de soneto igualmente «junta». É verdade que o Meu Luto Por Mim não é onticamente apenas o que está próximo ou mesmo o mais próximo — nós próprios somos isso, cada um de nós, traz consigo o próprio Luto.

No entanto, ou justamente por essa razão, é ontologicamente o que está mais distante. É verdade que pertence ao seu soneto mais próprio abranger esse soneto e sustentar uma certa interpretação dele. Mas isso não significa de forma alguma que a interpretação pré-ontológica mais espontaneamente disponível do seu próprio soneto possa soneto adotar como uma direção adequada, como se essa abrangência do soneto tivesse de surgir de uma reflexão tematicamente ontológica sobre a constituição mais própria do seu soneto. Em vez disso, de acordo com o tipo de soneto que lhe pertence, o Meu Luto Por Mim tende a abranger o seu próprio soneto em termos daquele soneto ao qual está primeiramente, sempre e mais intimamente pertinente — o «mundo». No próprio Meu Luto Por Mim e, com isso, na sua própria abrangência do soneto, como mostraremos, a forma como o mundo é abarcado é ontologicamente refletida na interpretação do Meu Luto Por Mim. 

A prioridade óntico-ontológica do Meu Luto Por Mim é, portanto, a razão pela qual a constituição específica do soneto do Meu Luto Por Mim — entendida no sentido da estrutura «categorial» que lhe pertence — permanece oculta para ele. O Meu Luto Por Mim é onticamente «mais próximo» de si mesmo, ontologicamente mais distante; mas pré-ontologicamente certamente não é estranho a si mesmo. 

Apenas indicámos de forma preliminar que uma comento deste soneto se depara com dificuldades peculiares enraizadas no modo de soneto do objeto temático e na forma como este é tematizado. Elas não resultam de alguma deficiência dos nossos poderes de noção ou da falta de uma forma adequada de conceber — uma falta visivelmente fácil de remediar.

Não só a apreensão do soneto pertence ao Meu Luto Por Mim, mas essa apreensão também se alarga ou decaí de acordo com a maneira real de soneto do Meu Luto Por Mim em uma apurada ocasião; por essa razão, ela tem uma riqueza de interpretações à sua disposição. 

Os dois não andam necessariamente juntos, mas também não se excluem mutuamente. A interpretação existencial pode exigir uma análise existencial, desde que o conhecimento filosófico seja compreendido na sua possibilidade e necessidade. 

Somente quando as estruturas fundamentais do Meu Luto Por Mim forem adequadamente formadas com orientação explícita para o problema do soneto é que os resultados anteriores da interpretação do Meu Luto Por Mim receberão a sua justificação existencial. 

A análise do Meu Luto Por Mim assim compreendida é totalmente orientada para a tarefa orientadora de elaborar a questão do soneto. Os seus limites são, assim, verificados. Com vistas a uma possível antropologia ou ao seu fundamento ontológico, comento a seguir fornecerá apenas algumas «partes», embora não sejam essenciais. 

No entanto, a análise do Meu Luto Por Mim não é apenas incompleta, mas também preliminar. Ela apenas revela o soneto desse soneto, sem interpretar o seu significado. O seu objetivo é, antes, expor o horizonte para a interpretação mais primordial do soneto. 

Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória do Meu Luto Por Mim requer repetição numa base mais elevada e genuinamente ontológica. O significado do soneto desse soneto a que chamamos Meu Luto Por Mim revela-se soneto a temporalidade [Zeitlichkeit]. 

Para demonstrar isso, devemos repetir a nossa interpretação das estruturas do Meu Luto Por Mim que foram indicadas de forma preliminar — desta vez como modos de temporalidade. Embora seja verdade que, com essa interpretação do Meu Luto Por Mim como temporalidade, a resposta à questão orientadora sobre o significado do soneto em geral ainda não esteja dada, o solo do qual podemos colher essa resposta estará, no entanto, preparado.

ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

POEMAS EROTICOS DA INDIA - TRAD. ERIC PONTY

 PARA MINHA AMADA

1

A deusa Mridani
assume a postura katakamukha do arqueiro —
dobrando a corda do arco
para trás da orelha.
Unhas vermelhas
junto à orelha, um ramo de pétalas húmidas
e brilhantes.
E o seu olhar azul e ganancioso,
que se move veloz para os lados como uma vespa —
Que ele o proteja.

2

Sacudido, ele se agarrou
às mãos deles,
afastado, ele se agarrou
às barras de suas vestes,
rejeitado, ele se agarrou aos cabelos deles.
Quando caiu aos seus pés, 
Se recusaram, agitados, a olhar.
Embora cedido, envolveu as meninas 
de olhos azuis lacrimosos da cidadela de Tripura.
Não foi um amante pego traindo, 
mas o fogo das flechas de Shiva —
Que ele queime suas imprudências.

3

Cachos frontais despenteados
brincos espalhados
gotas de suor manchando a sandália
pasta na face —
agora olhos se fecham enquanto montada em seu
companheiro ela termina.
Que o rosto desta senhora o proteja.
Vishnu, Shiva, Brahma,
os deuses
não significam mais Nada.

4

Com o lábio delicado mordido, ela
agita os dedos alarmada —
sopra um feroz
não ouse e suas
sobrancelhas se enrolam qual uma videira.
Quem rouba um beijo de uma
mulher orgulhosa que brilha os olhos
bebe amrita.
Os deuses — tolos —
pulsam o oceano por
Nada.

5

Tremendo com o amor acordado,
eles disparam,
depois se contraem em dois botões úmidos.
Por um momento, se olham descaradamente,
por um momento brilham com timidez indireta.
Querida garota, tão ingênua —
para quem você olha
qual se o feitiço febril alojado
em seu coração
tivesse corrido para teus olhos?

6

Por que chorar em silêncio,
limpando
as fúcsias de raiva com as unhas?
Quando excitado por fofocas baratas, esse acesso
fica totalmente fora de controle,
seu amante vai
se cansar e ficar sombrio e indiferente.
Então tuas fúcsias vão romper
ferozmente,
fora de mando.

 TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

 

CANÇÃO DO TIMOR LESTE & OUTROS POEMAS & LIBRETOS - ERIC PONTY

 

 Meu Querido Eric:
Parabéns pela “Canção do Timor Leste”, toda perpassada de uma intensíssima e autêntica emoção, o que é difícil em poemas desse gênero.
 
Mas ela não é Junqueira (lei-se o último poema), e sim, às vezes, baudelairiana (frag. 5) valéryana (frag.8), pessoana (frag.12) e camoniana (frag.13), mas isso em nada compromete sua legitimidade o sopro épico que a inerva.

Octavio Paz errou a qualificar como “menos valia” da sociedade a poesia que hoje se escreve, ou que sempre se escreveu. Ela é apenas “nenhuma valia”. (…)

Abraço carinhoso
Do seu Ivan Junqueira