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quinta-feira, agosto 28, 2025

Légende théologique - Théophile Gautier - Trad. Eric Ponty

I
À beira dum canal fundo cujas águas verdes
Dorment, de nenúfares e barcos cobertos,
Com tetos pontiagudos, os imensos sótãos,
As torres com tetos de ardósia em céu azul.

Donde as cegonhas fazem os teus ninhos,
Com bares barulhentos, cheios de ébrios,
É antiga vila flamenga tal qual pintadas por Teniers.
Tu reconheces? Olha, ali está o salgueiro.

Teus cabelos descoloridos caindo sobre os ombros.
Qual menina no banho; a igreja e o teu campanário,
O lago onde os patos se pavoneiam em formação;

O único elemento que falta no quadro é a moldura.
Com o prego para pendurá-lo numa parede azul.

II
Conforto e descontração! Toda uma poesia
De calma e bem-estar, para dar fantasia
Ir para lá ser flamengo; ter cachimbo atrevido 
e o jarro com flores pintadas,

O copo grande com aptidão para quatro litros,
Quais os bebedores de Brauwer, e à noite
Perto do fogão que apita e estala, no centro
Duma névoa de tabaco, as duas mãos na barriga,

Seguir uma ideia no ar, dormir ou digerir,
Cantar uma velha canção, beber um pouco,
No fundo de um desses interiores quentes, 
que Ostade um dia tão doce sabe iluminar!

III
Para fazer você esquecer, pintor e poeta,
Este país encantado, cuja mignon de Goethe,
Frileuse, lembra-se e fala com o teu Wilhem;
Este país ensolarado onde os limões maduram,

Onde novas jasmim sempre florescem:
Nápoles para Amesterdão, o lorenço para Berghem;
A fazer com que se apaixone por estas paredes 
verdes cobertas de musgo onde Rembrandt, 

no meio dessa escuridão ruiva,
Faz brilhar algum Fausto em seu antigo traje,
Os belos palácios de mármore com colunatas brancas,

As mulheres de pele morena, as serenatas suaves,
E todo o azul veneziano a escorrer azul no céu!


IV
Nesta vila vivia outrora, segundo a crónica,
Uma mulher malvada chamada Verónica;
Todos a temiam e repetiam baixinho
Que se ouviam murmúrios estranhos.

Ao redor de tua morada, e que maus anjos
Viam-se durante a noite para se divertirem.
Eram ruídos sem nome, ignotos ao ouvido,
Qual a voz dum morto que despertar no teu jazigo

Uma evocação; gritos surdos saindo debaixo da terra 
e de rumores distantes, cânticos, gritos, choro, 
barulho de correntes, com gritos horríveis.

 Théophile Gautier - Trad. Eric Ponty

      ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

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