La ballade du noyé
Está no fundo, bem no fundo do rio,
Que minha carcaça, que por fim viúva
De tua alma, em silêncio, jaz ao profundo,
Ao pé de um novo píer, que por meio,
Ao fundo está agora se decompondo.
Que no meio coberto dessa lama,
Fenda em todas direções pela turfa,
Meio de larvas, vermes fedorentos,
Às vezes abraçado pela curva
De que duma enguia com anéis viscosos
Teus inúmeros grupos se reúnem
Em minhas entranhas, que eles vasculham
Tais com esses movimentos alegres.
E de que muitas vezes um sapo
Olha pra mim com teus grandes olhos.
Na água verde, a perca passa nadando
Com a gorda tenca rosa tão rubra
E que a carpa de barriga prateada;
O lúcio ganancioso, que nessa trilha,
Que seguindo o assustado gudgeon.
Que por meio desse vidro profundo,
Lembro-me da comida loira frita
E o vinho azul do céu que eu bebia
De quando eu ainda estava nesse mundo
E com uma mulher que eu então amava.
Texte communiqué sans indication d’origine
A l’amphithéâtre
Sobre a pedra fria, em que ela se acha está nua;
Grandes olhos amarelejados jazem abertos.
Com a tua carne está lívida com tons verdes,
Pois teu corpo é velho e a mulher jaz cheira mal.
Tampe o nariz, mas admire: ela ainda é linda e podre,
Em uma postura desavergonhada e louca,
Esperando para se levantar, teu último amante.
Ela vai provar algumas carícias tristes,
E se consumar esse amor tão sombrio,
Ela se manteve no pesado delírio,
Do encanto doentio de antigas intoxicações.
Meu repentino desgosto por beijos frios,
Agora sei tua terrível origem jovem:
Não era ela um cadáver e do qual jaz um verme
Em nossos dolorosos amores de outrora?
- Procure, Carabin, nervos, barriga, cérebro.
E só tirarem ossos, cortar essa carne.
Para conhecer a bela; não temamos
nem o sangue corrompido nem os vermes.
Quando não somos nada além de uma massa disforme,
As partes dispersas de um cadáver jazem mole,
Tal qual velho cão morto, para ela dormir.
Nós a jogaremos em um grande buraco.
Le Figaro, 8 janvier 1869. « Paris au jour le jour », publié par Francis Magnard, à qui cette piècen avait été communiquée par M. Marius Roux, comme « détachée d’un ensemble qui porte ce titre général ; les Vieilles plaies »
Le chien mort
Nós dois jazíamos no jardim onde a alto cresce
A violeta junto à água,
E, mãos dadas, minguado banco coberto musgo.
Observávamos o riacho límpido.
Pois as águas cantantes fluíam resplandecentes
Sob os raios que desse grande sol dourado...
Em um leito de líquen, entre as flores brilhantes
Diante de nós estavam com um cachorro morto.
Os besouros de esterco azuis e moscas verdes
Que se enxameavam sobre a massa viscosa;
Os olhos estavam roídos, entranhas abertas,
Do qual essa barriga escorria escancarada;
Desse sangue coagulou no pelo do animal.
Que se fizeram coagulou em pedaços pretos;
E do cheiro da morte subiu às nossas cabeças,
Se fazendo penetrando, acre, em nossos cérebros...
Botei meu braço em volta de sua amada cintura,
Tão flexível dos tais quais os juncos,
E tua cabeça perfumada inclinou pra mim
Inundando-me desses teus cabelos loiros:
E contemple", eu disse, "para esta carcaça.
Tal qual neste cachorro morto liquefeito.
Um mundo inteiro vive, continua e continua
Que então multicolorido e variado!
Nessas cavidades ocas, entre essas presas
fétidas, vejam, na primavera radiante,
Desse encontro amoroso de porcas gulosas
E gorgulhos negros e azuis refletir teu céu!
La Liberté, 15 février 1872. — Il ressort d’un article : Hier et demain, Un effacé volontaire, paru k la Lanterne sans signature le 20 avril 1883 que le Chien Mort est un pastiche d’Amédée Cloux. L’auleur raconte notamment : « L’éditeur Pincebourde, — un nom prédestiné — qui était en train de faire une édition de Beaudelaire (sic), y comprit pieusement le Chien Mort, et ce ne fut que sur l’aveu même de Cloux, lequel eut pitié de lui, qu’il le fit disparaître. »
Soneto
A la Morgue, ce 2 mai 1864.
A la Morgue, ce 2 mai 1864.
Ó Jovem de cabelo negro e rosto altivo,
Por que, por teu próprio anseio, nos braços da morte,
Nesta vil barraca de carnificina humana,
Se deitaste tão cedo, tão poderoso e tão forte?
Então quebraste essa corrente do trabalho?
Tu caíste nesse feitiço desse destino?
Não. Pois corpo, então, retorcido pelo ódio amargo,
Teria mantido a curva de teu esforço supremo.
Hoje teu corpo está flexível, ele sorri, descansa.
Eu ouço, sob a enchente negra, - é amor perdido
Que reencontrou. Nestes lábios semicerrados.
Beijo de uma mulher morta fez com brilhos rosados
E o leito nupcial que lhe foi devolvido enfim,
É a laje onde o sangue ferido apodrece!
Por que, por teu próprio anseio, nos braços da morte,
Nesta vil barraca de carnificina humana,
Se deitaste tão cedo, tão poderoso e tão forte?
Então quebraste essa corrente do trabalho?
Tu caíste nesse feitiço desse destino?
Não. Pois corpo, então, retorcido pelo ódio amargo,
Teria mantido a curva de teu esforço supremo.
Hoje teu corpo está flexível, ele sorri, descansa.
Eu ouço, sob a enchente negra, - é amor perdido
Que reencontrou. Nestes lábios semicerrados.
Beijo de uma mulher morta fez com brilhos rosados
E o leito nupcial que lhe foi devolvido enfim,
É a laje onde o sangue ferido apodrece!
L’Evénement, 28 avril 1866, publié dans un article de Georges Maillard, paru sous la rubrique : Hier, aujourd’hui, demain
Charles Baudelaire - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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