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domingo, fevereiro 01, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 


9
É o momento em que o planeta que marca as horas
retornar mais uma vez para fazer morada em Touro,
cujos chifres flamejantes cá derramam poder
E decoram o mundo com cores recém-criadas.

Não apenas o que se estende diante de nós,
Das margens e colinas, ele adorna com flores,
mas coisas ocultas nunca veem o alvorecer
E, ele torna férteis com umidade terrena;

Para que nos deem frutos e coisas iguais;
Assim, ela, que é sol entre todas as mulheres,
movendo os raios dos belos olhos, em mim.

Dá origem a pensamentos, atos e palavras de amor —
não importa, porém, num os controles ou transforme,
Sendo que primavera para mim nunca chegará.

10
Coluna gloriosa sobre a qual repousar,
nossa esperança e grande renome do Lácio,
que nem mesmo a ira de Júpiter com chuva forte
Ainda se desviou da passagem verdadeira:

Não há então palácios, teatros, galerias aqui;
em vez disso, abeto, faia, pinheiro se erguem —
entre a grama verde e a encosta da montanha próxima,
onde nós, na poesia, descemos e subimos —

Para abranger nossos intelectos da terra ao céu;
há um rouxinol que, nas sombras,
lamentar docemente e chora durante toda a noite,

E abarba cada peito com pensamentos de amor.
Por bondade, só tu interrompeste a perfeição,
mantendo-se longe de nós aqui, meu senhor.

F. Petrarca - Trad. Eric Ponty

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Uma negra possuída pelo diabo puto - S. Mallarmé - Trad. Eric Ponty

Uma negra possuída pelo diabo puto,
Quer provar a miúda consumida pelo novo prado,
E o fruto maligno sob teu vestido esfarrapado; 
Essa glutona inventa alguns truques tão astutos. 

Contra barriga, ela raspa dois seios jovens e ledos 
E, mais alto do que a mão poderia abichar o ser. 
Bate bruno de teus pés calçados com botas sem medo
Assim qual uma língua inexperiente no prazer. 

Contra a nudez assustada desta gazela 
Que treme, qual um elefante louco, deitada ela
De costas, espera. Espantar com ânsia.
Sorri com dentes infantis para a guria.
 
E, entre coxas, onde a vítima se estica. 
Içando a pele negra sob o pelo que fica. 
Ela impele para fora o palato a boca estranha ecoar,
Pálida e rosada como uma concha do mar.

 S. Mallarmé

O poema pertence ao género normalmente referido como obsceno. Descreve, ou melhor, narra (uma vez que a cena está em movimento) a posição erótica normalmente conhecida como sessenta e nove — com a tripla peculiaridade de ser um sessenta e nove entre duas mulheres, um sessenta e nove entre uma adulta e uma criança, um sessenta e nove entre uma negra e uma branca. Mas o que mais me interessa não é a obscenidade, mas o voyeurismo, que é duplo: Mallarmé não só nos faz espreitar algo tão estritamente privado como uma cena de amor lésbico, mas também algo privado dentro dessa privacidade, que é o interior do sexo femíneo, normalmente oculto da vista pelos púbicos.

 

 ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sábado, janeiro 31, 2026

PARA OS MEUS 102622 LEITORES - ERIC PONTY

 Que alegre parece ser essa guirlanda, e que
bem moldada com flores, em teus cabelos dourados!
Um pouco à frente, cada flor (eu juraria)
compete para ser a primeira a beijar sua face luminosa.
Ó vestido feliz vinte e quatro horas, e agora,
que prende os seios e flui com elegância,
e renda feliz de ouro que semelha se importar
Apenas por aquelas amuras e por aquele regaço (eu juro)!

Veja, em teu peito, aquela fita é muito alegre,
Não por tua beleza ou tua borda dourada,
Mas por aquele descanso ali mesmo e por aquele jogo.
E aquele cinto fino – ó doce embate –
Diz para si mesmo: Aqui mesmo, ó, deixe-me envelhecer!
Entendes agora o que meus braços fariam.

Para Giovanni, aquele de Pistoia.

Alarguei um bócio, com essa tristeza,
Se eu tivesse, tal qual os gatos da Lombardia,
Bebida água suja em grande batelada, –
O que faz o estômago inchar até o queixo.
Barba até as estrelas e uma nuca que prendo
Nos ombros, peito de harpia – esse sou eu;
E, ainda pingando, o pincel, como podes ver,
Deixou meu rosto maculado por dentro e por fora.

Para dentro da barriga adentraram meus quadris,
E com o assento eu contraponho a corcunda
E, tal não consigo olhar, em vão eu vou.
Na frente, minha pele está esticada e quase se vira,
Mas atrás as rugas formam um monte,
E curvado eu ando igual um arco sírio.

É por isso que, curvado e manchado,
até mesmo meus pensamentos emergem da minha cabeça:
atirar com um arcabuz torto é ruim.

Defenda minha pintura morta,
Giovanni, e minha honra que se amaina:
este lugar é ruim; além disso, eu não sou pintor.

MICHELANGELO BUONARROTI - TRAD.ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

sexta-feira, janeiro 30, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 

EU TE ACEITO

[CONTEMPLAÇÃO DO SYMBOLO OLVIDADO]POR [ERIC PONTY]

            Há defensores, na área da poesia, de uma coisa chamada "transcriação", processo que, alega-se, superaria os percalços do velho ato de traduzir. Tudo se resumiria, no caso, a priorizar a forma, relegando o sentido a um segundo plano. Aceita a tese, caberia ao transcriador recriar integralmente o poema. 

É uma escolha, claro, e, como tal, discutível.  

       Eric Ponty não se alinha entre os transcriadores. Prefere simplesmente filiar-se ao grupo dos tradutores. E, assim como Renan recomendava escrever apenas sobre aquilo de que gostamos, Ponty só traduz os poetas de sua preferência. Paul Valéry é um deles. E se não é obrigatório, é recomendável haver afinidade entre o tradutor e a obra. E essa comunhão estética entre o tradutor e o traduzido, deixadas as possíveis diferenças de lado, está patente nos poemas aqui recolhidos.

     Ainda caminhando na senda mallarmaica, o autor de Le cimetière marin desbastou sua poesia de toda forma de sentimentalismo, rejeição comparável a seu repúdio à egolatria romântica. Mas essa poesia, a de Valéry, carrega uma musicalidade ausente (ou pouco relevante) em Mallarmé e expressivamente atuante em Rimbaud e Verlaine. Aliás, é deste último o apelo: de la musique avant toute chose...

     E é esta música que o tradutor Eric Ponty capta.

João da Penha - Escritor e jornalista, traduziu os poetas russos Sierguei Iessiênin, Alieksandr Blok, Marina Tsviêtáieva e Anna Armátova


quinta-feira, janeiro 29, 2026

SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS - Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty

  SONNETS ON ENGLISH DRAMATIC POETS (1590-1650)



CHRISTOPHER MARLOWE

Coroado, cingido, vestido e calçado com luz e fogo,
Filho primogênito da manhã, estrela soberana!
Alma mais chegada da nossa estava mais afastada,
Mais distante no abismo do tempo, com tua lira.

Pendia mais alto sobre a veemência da aurora
Onde todos cantaram juntos, todos os que existem,
E todas as canções estreladas atrás de teu carro
Ressoaram em teia, todas nossas almas o aclamam, senhor.

"Se todas as penas que os poetas já tiveram
Mantido o anseio dos pensamentos de teus mestres,"
E qual com a pressa de carruagens em movimento.

O voo de todos os teus espíritos fosse impacto
Em direção a um grande fim, sua glória - não, não então,
Ainda não poderia ser assaz louvado pelos homens.

WILLIAM SHAKESPEARE


Nem que línguas dos homens e dos anjos, todas em uma
Falassem, poderias ser dito a palavra que poderia Te falar.
Córregos, ventos, bosques, flores, campos, montanhas, 
sim, o mar, que poder há em todos para louvarem o sol?

Teu louvor é este, - ele não pode ser louvado por ninguém.
Homem, mulher, criança, louvam a Deus por ele; mas ele
Não exulta por ser adorado, mas por ser.  Ele é;
Ele é; e, sendo, se considera tua obra bem-feita.

Toda a alegria, a glória, toda a tristeza, a força, todo o gozo,
São dele: sem ele, o dia seria noite na Terra.
O tempo não o admite, desde o era do tempo.

Todos alaúdes, harpas, todas violas, flautas, todas liras,
Ficam mudos diante de ti, antes Duma corda se suspenda.
Todas as estrelas são anjos, mas o sol é Deus.

BEN JONSON 

De base ampla, de frente farta, multiforme,
Com muitos vales cobertos de hera e videiras,
Onde as fontes de todos os riachos correm vinho,
E muitos penhascos de frente para a tempestade,

A montanha onde os pés de tua musa se arrefeceram
Os gramados que se apraziam com tua dança divina
Ainda brilhas com fogo do qual soia brilhar
Das tochas que se acendem em torno da dança.

Nem menos, nas alturas dos jazigos cinzentos,
Videntes de grande pensar, com luzes do céu acesas no peito
Conversam: e o rebanho de coisas insignificantes.

Sabes, ou por açoite ardente ou por haste ardente
Quando a ira se ergueu e riu em tua fronte larga
Abrumando tua alma com sombras das asas do trovão.


 

UM ESTUDO DE MEMÓRIA

 

Se essa ainda é uma alma viva que aqui verse-as,
Semelhava mais intensa aumento de numerar fontes
E vestida pelo tempo e pela dor com coisas mais belas
A cada ano que ia, via cumprir-se um novo ano de armada,

A morte não pode ter mudado nada do que a tornou prezada;
Bondade meio humorística, alegria de olhos graves nas asas
Sensatez intensa, voz mais alegre do que cordas que tocais;
A mais esplêndida calma, coroada com um ânimo conquistador;

Sendo então um espírito inviolável que sorria e cantava
Por força da natureza e necessidade heroica
Mais doce e forte do que o sonho ou o feito mais imponente;

Uma canção que cintilava, uma luz de onde ressoava a música
Tão alto quanto as alturas mais ensolaradas do pensar mais gentil;
Tudo isso deveria ser, ou tudo o que ela era não seria nada.


Além do vento norte, havia a terra de outrora onde os homens 
viviam alegres e sem culpa, vestidos e sustentados
Com as vestes intensas da alegria e com o doce pão do amor,
O rebanho mais branco do rebanho materno da Terra.

Ninguém poderia usar em seus sobrolhos registrados
Uma luz de fama mais bela do que a que cintila sua cabeça,
Cujo amor pelas crianças e pelos mortos
Todos os homens agradecem: eu vejo ao longe!

Uma valiosa mão morta que nos une, e uma luz
A mais bela e benigna da noite,
A noite do doce sono da morte, na qual pode haver.

Uma estrela para mostrar seu peito na visão coeva
Alguma ilha mais feliz no mar Elísio
Onde Rab possa lamber a mão de tua amada Marjorie.

Algernon Charles Swinburne - Trad. Eric Ponty
 
  
   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

terça-feira, janeiro 27, 2026

Pierrot Azul & Outros Poemas - Eric Ponty - Fernando Fábio Fiorese Furtado

Ao prefaciador de qualquer obra cumpre sempre a inglória tarefa de fazer o mapa de um território que nenhum papel acolhe ou respeita, de ser a voz reiterativa e unívoca de um coro que articula múltiplas entonações, sentidos e silêncios, de operar um texto condenado à marginalia, pois que o mínimo grafa das páginas subsequentes importa mais que as pistas que o prefácio pretenda desvelar. O trabalho tradutório do prefaciador está condenado a priori, pois raras vezes consegue surpreender o motor e a paixão que desdobram um livro em intermináveis leituras.

Prefaciar os poemas traduzidos por Eric Ponty e coligidos sob o título de Pierrot Azul & Outros Poemas implica antes de tudo reconhecer as diferenças entre dois modos de tradução. De um lado, a tradução técnica, de que o texto-prefácio é apenas um Ersatz mínimo, na medida em que tenciona assinalar as ideias principais da obra e reiterá-las de modo o mais literal possível; de outro, a tradução poética, na qual o adjetivo — derivado do grego poiesis, — prevalece sobre o substantivo para contaminá-lo com seus múltiplos sentidos: “criação, ação, fabricação, confecção, arte da poesia, faculdade poética, adoção”. 

Fernando Fábio Fiorese Furtado

segunda-feira, janeiro 26, 2026

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

 11
Deixe o véu para o sol ou para a sombra,
Mulher, eu não a vi desde que aceitou em mim,
que afastou de meu coração qualquer outro desejo.
Enquanto eu levava os belos pensamentos ocultos.

Que deixaram minha mente morta de desejo,
vi adornar teu rosto com piedade;
mas depois que o Amor me fez perceber,
tirou os cabelos loiros então velados.

E o olhar amoroso recolhido em si.
O que mais eu desejava-me foi tirado,
se o véu me governa que pela minha morte.
 
E pelo calor e pelo gelo dá doce luz 
Dos teus belos olhos ofuscar-se na lembrança,
Que carrego nos olhares dessas sombras.


12
Se minha vida, do amargo tormento,
pode tanto se proteger, e das aflições,
que eu vejo pela virtude dos últimos anos,
Mulher, que a luz dos teus belos olhos se abrande.

E os cabelos dourados se tornem prateados,
e deixem as guirlandas e os tecidos verdes,
e o rosto descolorido que, em meus danos,
Me torna temeroso e lento ao lamentar,

Ainda assim o Amor me dará tanta ousadia
que eu lhe revelarei dos meus martírios
onde foram os anos, e os dias, e as horas;

E se o tempo é contrário aos belos desejos,
Não será que pelo menos chegue ao meu redor
De algum socorro de suspiros tardios.

Francesco Petrarca - Trad. Eric Ponty

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

domingo, janeiro 25, 2026

A Clareza Do Enigma & Outros Sonetos - Eric Ponty

A mundanidade do mundo trouxe sempre à tona todo o fenômeno do forma fixa no mundo, sem, com isso, delimitar todos os seus eu líricos fatores constitutivos com a mesma clareza fenomenal do próprio fenômeno do mundo. A interpretação ontológica do mundo, que discutia as coisas intramundanas em questão, veio em primeiro lugar não apenas porque o A Clareza Do Enigma, na sua cotidianidade, está num mundo em geral e permanece um tema constante em relação a esse mundo, mas porque se relaciona com o mundo num modo predominante de forma fixa.

Primeiramente e na maior parte das vezes, o A Clareza Do Enigma é absorvido pelo eu lírico mundo. Este modo de forma fixa, estar absorvido no mundo e, portanto, estar- em que lhe está subjacente, determina essencialmente o fenômeno que agora iremos perseguir com a pergunta: Quem é que está no cotidiano do A Clareza Do Enigma?

 Todas as estruturas da forma fixa do A Clareza Do Enigma, portanto também o fenômeno que responde a essa questão de quem, são modos da sua forma fixa. A sua propriedade ontológica é existencial. Assim, carecemos assentar a questão corretamente e delinear o artifício para trazer à tona um domínio fenomenal mais amplo da cotidianidade do A Clareza Do Enigma. 

Ao investigar na direção do fenômeno que nos permite responder à questão do quem, somos levados às estruturas do A Clareza Do Enigma que são com à forma fixa no mundo: Neste tipo de forma fixa, o modo de forma fixa cotidiano de um eu lírico sou motivado, cuja explicação torna visível o que poderíamos chamar de "sujeito" do cotidiano, o deles.

ERIC PONTY

  

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Modernidade Em Baudelaire - Walter Benjamin - Trad. Eric Ponty

 https://clubedeautores.com.br/livro/modernidade-em-baudelaire

 
 "A modernidade é em Baudelaire uma conquista", eis aqui a definição de Benjamin. Já no primeiro poema de As flores do mal, Baudelaire convoca o leitor à ruptura da apatia. Benjamin aponta o método da aventura, a captura do presente, a intenção do poeta de revidar os atordoantes choques na grande cidade. Para não se tornar receptor inanimado ou ator automatizado, Baudelaire troca o gabinete pelas ruas, a duras penas, físicas e espirituais, e transita entre duas instâncias, flânerie e esgrima. Ao levar a vivência aos âmbitos do coletivo e do voluntário, imiscui-se no hiato da distribuição entre consciente e inconsciente. Conjura os perigos da absorção pela profundeza obscura ou da reflexão pela superfície ofuscante. Antes de o estímulo se queimar como resposta imediata, a vivência, ou se perder como memória de difícil acesso, insere poemas, contragolpes, no espaço intervalar. O modus fica em verso: "tropeçando em palavras como na calçada". É total exposição ao presente, com mente e corpo alertas, e plena compreensão de não se tratar de processo natural: "É essa a natureza da vivência a que Baudelaire atribuiu a importância de uma experiência. Fixou o preço pelo qual se pode adquirir a sensação da modernidade: a destruição da aura na vivência do choque".
 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

PARA MINHA ELEITA DO DESCONHECIDO - ERIC PONTY

                              XLIII 


Quão te amo? Deixe-me contar todos motivos 
Amo-te na fundura no ancho na elevação 
Minha alma consegue, quando se sente ausente 
Aos fins Sermos do ideal da Remissão. 
Te amo no parâmetro existido de cada dia 
Mais tranquilos, ao sol dão luz destas velas 
te amando tão franca, homens lidam à direita. 
Amar-te apenas, amor, transformam louvores. 
Eu te amo com paixão posta de todo jeito, 
Minhas antigas dores, fé que há minha infância 
 Te amo com um amor parecia-lhe perder-. 
Meus santos perdidos, - Eu amo-te com fôlego 
risos, prantos, minha vida! - E, se Deus fez 
te amando, mas ainda melhor após à morte.

EU TE ACEITO 

ERIC PONTY 

terça-feira, janeiro 20, 2026

Meu Luto Por Mim & OUTROS SONETOS - ERIC PONTY

Ao assinalar as tarefas emaranhadas na «formulação» da questão do soneto, mostramos que não só devemos identificar o soneto específico que funcionará como o soneto primário a soneto interrogado, mas também que são necessárias uma apropriação explícita e a garantia do acesso correto a esse soneto. Discutimos qual é o soneto que assume o papel principal na questão do soneto. Mas como esse soneto, o Meu Luto Por Mim, deve tornar-se acessível e, por assim dizer, soneto concebido numa interpretação perceptiva? A prioridade on-ontológica que foi demonstrada para o Meu Luto Por Mim poderia levar à opinião errada de que esse soneto teria de soneto o que é primariamente dado também on-ontologicamente, não apenas no sentido de que tal soneto poderia soneto compreendido «logo», mas também que a anteposição de sua maneira de soneto igualmente «junta». É verdade que o Meu Luto Por Mim não é onticamente apenas o que está próximo ou mesmo o mais próximo — nós próprios somos isso, cada um de nós, traz consigo o próprio Luto.

No entanto, ou justamente por essa razão, é ontologicamente o que está mais distante. É verdade que pertence ao seu soneto mais próprio abranger esse soneto e sustentar uma certa interpretação dele. Mas isso não significa de forma alguma que a interpretação pré-ontológica mais espontaneamente disponível do seu próprio soneto possa soneto adotar como uma direção adequada, como se essa abrangência do soneto tivesse de surgir de uma reflexão tematicamente ontológica sobre a constituição mais própria do seu soneto. Em vez disso, de acordo com o tipo de soneto que lhe pertence, o Meu Luto Por Mim tende a abranger o seu próprio soneto em termos daquele soneto ao qual está primeiramente, sempre e mais intimamente pertinente — o «mundo». No próprio Meu Luto Por Mim e, com isso, na sua própria abrangência do soneto, como mostraremos, a forma como o mundo é abarcado é ontologicamente refletida na interpretação do Meu Luto Por Mim. 

A prioridade óntico-ontológica do Meu Luto Por Mim é, portanto, a razão pela qual a constituição específica do soneto do Meu Luto Por Mim — entendida no sentido da estrutura «categorial» que lhe pertence — permanece oculta para ele. O Meu Luto Por Mim é onticamente «mais próximo» de si mesmo, ontologicamente mais distante; mas pré-ontologicamente certamente não é estranho a si mesmo. 

Apenas indicámos de forma preliminar que uma comento deste soneto se depara com dificuldades peculiares enraizadas no modo de soneto do objeto temático e na forma como este é tematizado. Elas não resultam de alguma deficiência dos nossos poderes de noção ou da falta de uma forma adequada de conceber — uma falta visivelmente fácil de remediar.

Não só a apreensão do soneto pertence ao Meu Luto Por Mim, mas essa apreensão também se alarga ou decaí de acordo com a maneira real de soneto do Meu Luto Por Mim em uma apurada ocasião; por essa razão, ela tem uma riqueza de interpretações à sua disposição. 

Os dois não andam necessariamente juntos, mas também não se excluem mutuamente. A interpretação existencial pode exigir uma análise existencial, desde que o conhecimento filosófico seja compreendido na sua possibilidade e necessidade. 

Somente quando as estruturas fundamentais do Meu Luto Por Mim forem adequadamente formadas com orientação explícita para o problema do soneto é que os resultados anteriores da interpretação do Meu Luto Por Mim receberão a sua justificação existencial. 

A análise do Meu Luto Por Mim assim compreendida é totalmente orientada para a tarefa orientadora de elaborar a questão do soneto. Os seus limites são, assim, verificados. Com vistas a uma possível antropologia ou ao seu fundamento ontológico, comento a seguir fornecerá apenas algumas «partes», embora não sejam essenciais. 

No entanto, a análise do Meu Luto Por Mim não é apenas incompleta, mas também preliminar. Ela apenas revela o soneto desse soneto, sem interpretar o seu significado. O seu objetivo é, antes, expor o horizonte para a interpretação mais primordial do soneto. 

Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória do Meu Luto Por Mim requer repetição numa base mais elevada e genuinamente ontológica. O significado do soneto desse soneto a que chamamos Meu Luto Por Mim revela-se soneto a temporalidade [Zeitlichkeit]. 

Para demonstrar isso, devemos repetir a nossa interpretação das estruturas do Meu Luto Por Mim que foram indicadas de forma preliminar — desta vez como modos de temporalidade. Embora seja verdade que, com essa interpretação do Meu Luto Por Mim como temporalidade, a resposta à questão orientadora sobre o significado do soneto em geral ainda não esteja dada, o solo do qual podemos colher essa resposta estará, no entanto, preparado.

ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

POEMAS EROTICOS DA INDIA - TRAD. ERIC PONTY

 PARA MINHA AMADA

1

A deusa Mridani
assume a postura katakamukha do arqueiro —
dobrando a corda do arco
para trás da orelha.
Unhas vermelhas
junto à orelha, um ramo de pétalas húmidas
e brilhantes.
E o seu olhar azul e ganancioso,
que se move veloz para os lados como uma vespa —
Que ele o proteja.

2

Sacudido, ele se agarrou
às mãos deles,
afastado, ele se agarrou
às barras de suas vestes,
rejeitado, ele se agarrou aos cabelos deles.
Quando caiu aos seus pés, 
Se recusaram, agitados, a olhar.
Embora cedido, envolveu as meninas 
de olhos azuis lacrimosos da cidadela de Tripura.
Não foi um amante pego traindo, 
mas o fogo das flechas de Shiva —
Que ele queime suas imprudências.

3

Cachos frontais despenteados
brincos espalhados
gotas de suor manchando a sandália
pasta na face —
agora olhos se fecham enquanto montada em seu
companheiro ela termina.
Que o rosto desta senhora o proteja.
Vishnu, Shiva, Brahma,
os deuses
não significam mais Nada.

4

Com o lábio delicado mordido, ela
agita os dedos alarmada —
sopra um feroz
não ouse e suas
sobrancelhas se enrolam qual uma videira.
Quem rouba um beijo de uma
mulher orgulhosa que brilha os olhos
bebe amrita.
Os deuses — tolos —
pulsam o oceano por
Nada.

5

Tremendo com o amor acordado,
eles disparam,
depois se contraem em dois botões úmidos.
Por um momento, se olham descaradamente,
por um momento brilham com timidez indireta.
Querida garota, tão ingênua —
para quem você olha
qual se o feitiço febril alojado
em seu coração
tivesse corrido para teus olhos?

6

Por que chorar em silêncio,
limpando
as fúcsias de raiva com as unhas?
Quando excitado por fofocas baratas, esse acesso
fica totalmente fora de controle,
seu amante vai
se cansar e ficar sombrio e indiferente.
Então tuas fúcsias vão romper
ferozmente,
fora de mando.

 TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

 

CANÇÃO DO TIMOR LESTE & OUTROS POEMAS & LIBRETOS - ERIC PONTY

 

 Meu Querido Eric:
Parabéns pela “Canção do Timor Leste”, toda perpassada de uma intensíssima e autêntica emoção, o que é difícil em poemas desse gênero.
 
Mas ela não é Junqueira (lei-se o último poema), e sim, às vezes, baudelairiana (frag. 5) valéryana (frag.8), pessoana (frag.12) e camoniana (frag.13), mas isso em nada compromete sua legitimidade o sopro épico que a inerva.

Octavio Paz errou a qualificar como “menos valia” da sociedade a poesia que hoje se escreve, ou que sempre se escreveu. Ela é apenas “nenhuma valia”. (…)

Abraço carinhoso
Do seu Ivan Junqueira

sábado, janeiro 17, 2026

Imagens-Signos & Outros Poemas - Eric Ponty

 https://clubedeautores.com.br/livro/imagens-signos-outros-poemas

A imposição empírica da linguagem ao encontrar resistência no campo do simbólico antecipa-se à tecnologia e o registro virtual, a saber o acontecimento, de maneira a incrementar o imaginário, i.e a diferença, que a linguagem poética desenvolve, colocando-se o leitor frente à divisão progressiva entre o saber e o fazer, o conhecimento e a técnica. 
 
O fascínio que a imagem exerce sobre o espectador diante do espelho, diante da imagem transformada em realidade, é o mesmo que a metáfora exerce ao abarcar o universo da subjetividade transformada agora em "paisagem sem órgão", segundo a expressão de Gilles Deleuze. A relação entre o sujeito e a imagem é uma relação de consciência e sentido, cujo distanciamento tem a aproximá-los unicamente a imagem. A Razão experimenta naturalmente um interesse especulativo; e experimenta-o pelos objetos que são essencialmente contidos à faculdade de conhecer sob a sua forma superior, segundo Gilles Deleuze sobre Kant.

Tal desdobramento linguístico mantém o fascínio que a poesia de Eric Ponty desencadeia ao associar a imagens com o sentido de homenagens dirigidas em última instância a pintores e poetas que recria ou traduz como Rilke ou Yeats.

O ato seco (...) de um grito, sombra de nós, memória do que somos e se desfaz nos gestos que findam (...) como o degredado em solo árido, - é sempre uma tentativa de captura do eco que se impõe diante de uma galeria de imagens-signos, que Eric Ponty homenageia, recorrendo ao espelho, fascinado diante do que vê.

 Não admite a fuga, como o herói diante das réstias do dia. 

Foed Castro Chamma – Poeta, escritor e tradutor. Transmutação da Pedra (Grande Prêmio de Poesia da 2*Bienal Nestlé de Literatura Brasileira) – Publicou O Poder da Palavra, em 1959; Labirinto em 1967; Ir a ti, em 1969. Em 1971, reuniu os três livros sob o título geral de Andarilho e a aurora para uma coedição com o convenio do MEC. Sons de Ferraria. Como tradutor: Mickiewicz Poemas (tradução) Epigramas Latinos Paráfrases e Navio Fantasma foram publicados em 1998.Bucólicas de Virgílio. Escreveu também Filosofia da Arte em 2000.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

PARA MINHA ELEITA DESCONHECIDA - ERIC PONTY

Os ruídos nuvens exalaram pompas,
passam mensagem, surdinas das trompas,
do rosto longo céu que aposte logros!
pasce, do sempre mármore do agro!

Após ser do apenar, fulgidas Tebas,
protege avantesma crê catacumbas,
Audácia pura fim soprando bruma
do inaudível do véu mausoléu duma.

Discreta frente céu pastorear!
Mitra apreciar à luz que lhe repousa,
ópera casta eterna ecoa-se à lousa.

Ó templo anima abunda despejar!
Acede douros climas que dá treva,
friezas das minas, quisto nos transcreva.

Eu indago Amarílis, tu infeliz,
agravar aos deuses deem maçãs,
atrelar sobre Albas tão nativas
Tityrus partiu a casa pinhos confins
Tityrus, o vero maio, vera água,
Aqui ficaram atraídos a ti!

Logo que nos raspar a mão da sorte,
ou seja, nesta serra, ou noutra terra,
Nossos laços terão, farão a corte
De esgotar os dois a mesma terra.
Na calpa, cingida de ciprestes,

Predirão dos vocábulos os louvores:
“Quem ansiar ser ditoso nos amores,
Adote dos moldes nos deram destes.”
Perdões, ó minha eleita desconhecida bela,
Perdões à má fortuna!

ERIC PONTY

 

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA 

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Alfabetos Sem Noçao - Edward Lear - Trad. Eric Ponty

 EDWARD LEAR (1812-1888), artista e humorista inglês, nasceu em Londres a 12 de maio de 1812. Os seus primeiros desenhos eram ornitológicos. Aos vinte anos, publicou uma seleção brilhantemente colorida das espécies mais raras da família Psittacidae. O seu talento atraiu a atenção do 13.º conde de Derby, que contratou Lear para desenhar o seu zoológico em Knowsley. Ele tornou-se um favorito permanente da família Stanley; e Edward, 15.º conde, foi a criança para cujo entretenimento foi composto o primeiro Livro de Bobagens.
ERIC PONTY
 

 

  ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Livro-dos-Sem-Nocao - Edward Lear - Trad. Eric Ponty

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          Em 1846 Lear publicou seu primeiro volume de poemas humorísticos Limeriques de cincos versos em litografias, que iria vender mais de três edições, ajudou a criar formas poéticas na literatura mundial. A primeira edição foi publicada por Thomas McLean em 10 de fevereiro. Havia no total setenta a dois poemas de Limeriques humorísticos de cincos versos de Limeriques nas litográficas em dois volumes, vendendo a 3s 6d cada. Essa foi a convenção no momento para as crianças, que os livros que seriam publicados anonimamente. "Sei não houve nenhuma menção de Lear, nome no livro. Limeriques poemas humorísticos de cincos versos são invariavelmente estilo de escrita com estabelecimentos como quatro ou mais uma linha atualmente, mas para Lear poemas humorísticos Limeriques de cincos versos foram publicados em uma variedade de formatos. 

          Parece que Lear escreveu-lhes em formato em tantas linhas como havia espaço sobre a imagem. Para as três primeiras edições mais são tantos tipos de estilo de declarações como, respectivamente, dois, cinco ou três linhas. Limeriques poemas humorísticos de cincos versos de Lear, a primeira e última linhas costumam terminar com a mesma palavra, em vez numa rima. Para a maior parte, eles são verdadeiramente absurdos e desprovidos de qualquer piada ou literais. 

       Também estão livres de linguagem obscena que é a forma de versos é agora é associado. O típico elemento temático é a presença de um tutor e crítica para "eles." Embora Lear faça sentido nos livros que eram populares durante sua vida, um rumor se tinha se espalhado que "Edward Lear" era apenas um pseudônimo e que o verdadeiro autor dos livros era o homem a quem Lear tinha consagrado, seu patrono o Conde de Derby. Os promotores destes rumores oferecidos como prova dos fatos que ambos os homens foram chamados Edward, e que "Lear" é um anagrama de "Earl". 
ERIC PONTY

 

     ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

 

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Preposicoes-Para-Maranhao-Sobrinho - ERIC PONTY

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Muito será ganho para a estética quando conseguirmos envolver diretamente — em vez de apenas constatar — que a arte deve a sua evolução contínua à dualidade, assim como a propagação da espécie depende da dualidade dos sexos, dos seus conflitos constantes e dos atos periódicos de reconciliação. Emprestei os meus adjetivos Simbolismo Existencial e Preposição Metafórica, que somos levados a reconhecer a enorme divisão, tanto em termos de origens quanto de objetivos, entre as artes plásticas e a arte não visual da música inspirada por Preposição metafórica.

As duas tendências criativas desenvolveram-se lado a lado, geralmente em oposição feroz, cada uma com as suas provocações forçando a outra a uma produção mais enérgica, ambas perpetuando numa concordância discordante aquela agonia que o termo arte denomina fracamente: até que, por fim, pela taumaturgia de um ato de vontade helénico, o par aceitou o jugo do casamento e, nessa condição, gerou a tragédia ática, que exibe as propriedades salientes de ambos os pais. 

Para compreender melhor essas duas tendências, comecemos por vê-las como os reinos artísticos separados do Simbolismo Existencial e da intoxicação metafórica, dois fenômenos fisiológicos que se relacionam entre si de Preposição Metafórica muito semelhante à metáfora existencial foi num Simbolismo Existencial, segundo Lucrécio, que os maravilhosos deuses e deusas se apresentaram pela primeira vez às mentes dos homens. 

O grande Poeta Maranhão Sobrinho contemplou num Simbolismo Existencial os corpos encantadores de seres mais do que humanos e, da mesma Preposição Metafórica, se alguém tivesse perguntado aos poetas sobre o mistério da criação poética, eles também o teriam remetido aos Simbolismo Existencial se instruindo-o.

ERIC PONTY

 

    ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA