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terça-feira, maio 23, 2023

A TARTARUGA E A FÊNIX - William Shakespeare - TRAD. ERIC PONTY

Composto em tetrâmetro troqueu, foi publicado pela primeira vez em 1601 como apêndice do poema alegórico de Robert Chester intitulado Love's Martyr, juntamente com outras variações sobre a ideia da fénix e da Tartaruga de John Marston, George Chapman e Ben Jonson. A contribuição de Shakespeare não foi aí intitulada e só começou a ser assim designada a partir de 1807.


Do que a ave que canta mais alto,
lá numa única árvore da Arábia
Tendo de clarim e grave arauto,
Ao som das quais castas dobram asas.
Mas tu, emissário estridente
Núncio perverso do maligno,
Dos mortos queimam, eu acho,
A está banda não se aproxima.
A partir desta sessão é interdito,
Todas as aves de asa tirânica
Exceto o rei emplumado, a águia,
Pois as exéquias são rigorosas,
Já o padre com a sua aurora,
Que a música mortuária pode,
Ser o cisne adivinho da morte,
Para que o réquiem correto ganhe.
E tu corvo de tripla idade
Que crias a tua prole em zibelina,
Com o sopro que entra e sai,
Lá com os enlutados ides.
Aqui começar esta antífona,
Amor com a seu afinco morreu,
a fénix e a rola ofuscar-se
Na chama mútua da terra.
Amavam-se como dois se amam,
Tendo uma só essência,
Tão distintos, sem divisão,
Figura enlevada morreu ali,
Almas distantes, mas unidas;
distância sem espaço que veriam
entre está rola e a sua rainha;
Noutros seria maravilhoso,
Tão forte era o brilho do amor
que o pombinho sentiu o direito,
no olhar ardente da fénix,
um era para o outro meu,
A predicado tremia assim,
A sua própria já não era a mesma,
Só natura com nomes díspares,
nem dois nem um foram chamados.
A razão em si mesma atordoava,
viu na divisão o mesmo tronco,
para eles nem uma coisa nem outra,
candura tão bem idealizada
Que ela gritava: "Que par tão puro
que concórdia há não que une,
Amor está certo, sem razão qualquer,
Se o que parte assim pode ficar".
Do qual ele fez este comboio,
Para a fénix e para a pomba,
costuremos e estrelas amorosas,
Como coro no seu trágico fato.

CORO

Beleza, verdade e raridade,
graça em pura simplicidade,
cá lindados, em cinzas dormem.
A morte é cá um ninho de fénix
E da pomba o peito amigo
Para a eternidade se foram,
Ficaram sem posteridade,
Mas não por causa duma doença,
Ela foi nubente em castidade.
É verdade que parece, mas não é,
Esta beleza parece, mas não é,
Sepultar a verdade e a beleza.
Para esta urna vêm aqueles
Que são puros ou belos,
Rezem por dois pássaros mortos.

William Shakespeare - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY -POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

 

segunda-feira, maio 22, 2023

SONETTO À MOEMA - ERIC PONTY


Moema tuas luzes estão luzir céus,
Iam dar, sedosos, aos seus lábios,
A cada leve exalação do vento,
Dó agradável, por fim, passará:

Pelúcia tenra naquela pele fina
Que era sem barba em vez ser recortada,
Com sua rudeza e viço, conseguia
Dar mentira uma aparência verdade.

Daí a controvérsia sobre o quanto à luz,
Nobre equino devia à sua equitação,
Enquanto é que ele devia ao cavalo.

A sua graça, espalhada, era maior.
"E assim, na ponta da sua doce língua
Dormiam e espreitavam, à sua vontade!

ERIC PONTY
ERIC PONTY -POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA



LAMENTO DE UMA AMANTE - W. SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY

O poema intitulado Lamento de uma amante, composto em estrofes de sete versos com rima ababbcc, a chamada "rima real", foi publicado em 1609 juntamente com os Sonetos e atribuído a Shakespeare, mas a sua autoria foi sempre muito contestada. Foi mesmo dito que poderia ser obra de John Davies de Hereford (1565-1618), admirador e a Shakespeare.


Numa colina cujo ventre do oco
Dobrava a triste canção de outro vale,
Então parei para lhe ouvir o eco,
Com todos os meus sentidos à espera;
E vi uma mulher pálida e variável
Dividindo-se em dois anéis e pás,
E afogando as suas disgras no vento.
Um capuz de palha protegia-lhe o rosto
Do sol, onde nascia o pensamento,
Poderíamos pensar, vimos certa marca,
De uma beleza murcha. Mas o tempo
Não tinha cortado totalmente o rasto,
Dessa juventude nem o céu zangado,
Que envidraçou aquele encanto com anos.
Assim como ele limpou o salgado,
Gotas das suas lágrimas no lenço,
Lhe lavando as curiosas inscrições
Bordadas na seda com cuidado,
Estava a emitir todo tipo de gemidos,
Quer voz alta, quer gemidos lânguidos,
Enquanto relia avidamente os sinais.
Por vezes, com precisão de uma arma,
Aponta o olho para o céu em bateria;
Por vezes as pupilas estão presas,
Ao solo terrestre; outras vezes fixa,
Em frente à visão e depois olhar
Para todo o lado e para lado nenhum,
Confundindo pensamento e a visão.
Os seus cabelos, nem arranjos para trás,
São um sinal de orgulho descuidado.
Alguns pendem do chapéu, muito bem,
Burla para baixo, junto à tez branca,
E há outros, sujeitos ao seu vínculo,
Preferem ser-lhe fiéis e ficarem,
Foram trançados com descuido.
De um cesto tirava mil presentes,
Um de âmbar, um cristal ou jato,
E os atirou-os para o rio triste
Nas margens do qual tinha ido ficar:
De tão-somente molhado a usura junta,
Tal qual rei que não dá migalha aos pobres,
E aos ricos dá tudo o que pede.
Ele guardou, em folhas, muitas cartas,
Que eu atirei a água partido, a suspirar,
E alianças da união douro e osso atirou em nacos
Em nacos para suas sepulturas no lamaçal,
Sério encadernado, a linha em sangue,
Mais e mais notas gravava, cujos selos
Guardavam seus segredos de curiosos,
E ele já as estava a molhar com dois olhos,
Beijou-os, partiu-os, gritar: "Ó sangue falso, 
Testemunho para testemunha sincera,
Espúrio de uma coleção de mentiras,
Mais negra e mais maldita que a tinta!
Assim disse ela, com raiva, destruindo,
Contentam-se com esse desagrado.
Perto dali pastava um pastor venerável
Um pastor que já foi um patife da corte 
E da urbe, um daqueles que sabem como
Ver as horas passarem no relógio;
O homem aproxima-se do aflito
E, usando o privilégio dos seus anos,
perguntou-lhe a causa da dor.
Desce em direção a ela; abaixar sobre 
O seu bastão de madeira abaixar 
Para de uma distância prudencial,
Sentar-se e repetir o seu desejo
De também fazer parte do drama:
Que se ele pudesse dar, ela declara,
Alívio da sua angústia, ele fá-lo-á
Por causa da clemência da idade.
"Que cá em mim", diz ela, "pai, vês
No traço de horas profundas de dor
Não deve guiar teu julgamento, de sou velha:
Das mágoas, não a idade, são a minha carga.
Eu poderia ainda estar a abrir-me
E ser a flor que eu era, se me tivesse dado,
pra mim o meu amor, em vez de amar em vão.
"Mas ai de mim, não sou lento a responder
Que razões às requisições deste amor,
de um jovem tão belo que as donzelas
Não conseguem tirar olhos do seu rosto,
Porque Vénus, sem lar, buscou um dos seus
e quando se deparou com ele e a sua planta esguia,
Cobrou maior idade que minha velhice,
"Os seus caracóis castanhos, pendiam soltos,
Que deviam ser sedosos nos seus lábios
Em cada leve exalação do vento.
As coisas agradáveis, por fim, passarão:
todos olhos sucumbiam aos seus encantos
Para ver seu semblante imaturidade
Do que deste paraíso nos reserva,
"Sem quase nenhum vestígio homem no queixo,
Que então um cabelo tipo fénix sobressaía
Numa pelúcia tenra sobre aquela pele fina,
Que sem barba era melhor do que com vieira,
Ainda ele ainda ganhasse com a barba.
Dos seus juízes não sabiam como decidir,
Se seria com ela ou talvez sem ela.
"Mais igualado em virtudes e presença,
Tendo a voz e a fala de moça; por outro lado.
Nos pulas dos homens era uma tempestade
Do tipo que se vê entre Abril e Maio,
De um vento delicado e montanhoso.
Com a sua rudeza e juventude, conseguia
dar à mentira uma aparência de verdade.
"Ele montava bem e, como muitos dizem,
"O bom cavaleiro dá ao seu cavalo o brio, 
Submissão, o orgulho no galope, no andar, 
No freio, na rédea, na passada".
Daí a controvérsia sobre o quanto o
Nobre equino devia à sua equitação
E quanto é que ele devia ao cavalo.
"Mas a contenda foi logo resolvida:
A sua essência deu vida e graça
Ao que era ornamento e aparência,
Lhe era adepto a ele, não à sua frente.
E aquilo ao lado, se agraciava a si próprio
Pedia mais; e em vez de diminuir,
A sua graça, espalhada, era maior.
"E assim, na ponta da sua doce língua
Dormiam e espreitavam, à sua vontade,
Das razões, argumentos e respostas
de várias condições e de todos géneros:
Transformou o choro em riso e lamento,
Dos risos, com uma graça sem esforço,
E extasiando instantaneamente toda a gente.
"Ele reinava assim nestes corações,
De jovens e adultos de ambos os sexos,
Dispostos a defender os seus valores
ou acompanhá-los com novos contextos.
(.................................................)

 W. SHAKESEARE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA
 

sexta-feira, maio 19, 2023

SONETOS DE SHAKESPEARE - FAÇA VOCÊ MESMO - TRAD. ERIC PONTY


Apesar de o livro ter sido publicado em 1609, ainda não há consenso quanto à data de composição, que varia entre 1592 e 1602. Para alguns críticos, é mesmo a mais antiga das suas obras. No seu catálogo, Francis Meres afirma que em 1598 os sonetos estavam a circular em manuscrito entre os seus amigos mais próximos. O volume de 1609 só foi reimpresso em 1640. Os 154 sonetos de Shakespeare tratam de temas como o tempo, o amor, a beleza e a mortalidade. Todos os poemas, exceto dois, foram publicados pela primeira vez num quarto de 1609, e os sonetos 138 e 144 foram previamente publicados na miscelânea de 1599 The Passionate Pilgrim, de 1599. O quarto termina com A Lover's Complaint, um poema narrativo de 47 estrofes de sete linhas escritas em rima real.

Os primeiros 126 sonetos são escritos a um jovem - o patrono do poeta -, incitando-o a casar e a ter filhos para imortalizar a sua beleza, imortalizando a sua beleza e transmitindo-a à geração seguinte. Estes sonetos também mencionam um poeta rival e a própria amante do poeta. A partir do soneto 127, Shakespeare dirige-se a uma Dama das Trevas, por quem confessa o seu amor e de quem fala frequente num tom depreciativo. Os dois últimos sonetos são tratamentos alegóricos de epigramas gregas que se referem ao pequeno deus do amor, O Cupido e há muitos questionam a sua autenticidade.
I

Desejamos ver que o mais belo abunde
para que a beleza em flor não morra,
pois até o fruto pródigo sucumbe
sendo justo que um retorno o suceda;
porém em ti mandam teus formosos olhos
e ao ser tu o alimento de tua chama,
semeadura a fome ali donde há de todo
e sóis tua própria presa maltratada.
Tu que hoje adornas com tu encanto o mundo
e anuncias sem igual a primavera,
mesquinhas ao vigor de ti capulho
e ao não gastar derrotas tuas reservas:
tenha dó e não deixes que tu gula
se parta ao pão do mundo com a tumba.

II

Quando um assedio de quarenta invernos
te sulque o belo prado de trincheiras,
tua roupa, que agora é ostensiva e nova,
será uma piscadela que já não interessa.
E quando te perguntem onde jaze
o esplendor de teus bem longe anos,
não diz que em teus olhos espectrais,
pois soará a artifício o da bochecha.
Darás más digno emprego a tua postura
si podes contestar: «Este filho meu
redime minha velhice, quadra minha suma;
meu patrimônio está em seu parecido».
chegada a velhice, sua jovem vida
acalentará teu sangue que se esfria.

III

Contemplaste ao espelho e diz a teu rosto
que já se reproduza sem demora;
si não renovas tua frescura em outro
ao mundo e a uma mãe infeliz.
Pois que donzela fará tão altaneira
para vedar seu rosto a tua semente?
E quem tão vaidoso que prefira
privarmos de beleza com sua morte?
Tu eras a viva imagem de tua mãe
e ela vê em ti o frescor de seus abris;
também tu na tua velhice poderás olhar-te
e ver a idade de ouro que agora vives.
Mas se preferes que não te recordem,
não engendres e tua imagem contigo morre.

IV

Encanto derrotado, por quê gastas
Tua herança de a postura só em ti?
Natura não provem apenas nada:
Tão só presta a quem dão sem fim.
Por que, então, belo egoísta, abusas
Dá largueza com que te hão munido?
Efêmero usuário, por que apuras
Tamanha suma e não obtive folga?
Se tu único cliente é tua persona,
Acabarás findando-se teu encanto;
Assim, quando por fim chegue tua hora,
Com que reserva farás adequar teu saldo?
Sem uso, tua beleza é coisa morta;
Usada, se converte em teu testamenteiro.

V

Estás horas obsequiosas que esculpiram,
E, tal rosto que cativar nosso olhar,
Serão das mesmas que, como tiranos,
Que desgraça o que agora irradia graça.
O tempo inexorável que transfigura
O Verão gracioso em Inverno feroz:
Desta seiva congelada, os ramos nus,
Do belo sob a neve, o campo estéril;
Se a essência do Verão não continuar,
prisioneira na sua prisão cristalina,
A beleza e o seu efeito, ambos morrem
Ao mesmo era, sem deixar memória viva.
Flores, mesmo que hibernem, destiladas
Não brilham, mas conservam a sua substância.

VI

Não deixes, pois, o inverno ríspido,
Se não tiverdes licor vosso Verão:
Adoça um vaso; que te procura onde,
Incluir a vossa bolsa e não a enterrar.
Tal uso não é usura irrefletida
Porque enche de alegria os que pagam,
Beneficia da criação de um igual 
A si, ou dez, se possível, improvável,
Serás dez vezes mais feliz que és hoje,
Em ver-se refletido em dez outros;
A morte não será capaz de o matar,
Porque se eles vivem, tu também vives.
Mas não desfrutes teu legado só,
Ou os vermes herdarão o teu encanto.

VII

Vê! Quando tua luz tenra já renasce,
E a tua pluma espreita do oriente,
Todos os olhos prestam homenagem,
Na sagrada majestade da estrela.
E quando, na tua meia-idade, arruma,
Robusto e ainda jovem, o cume etéreo,
Olhares que seguem tua viagem douro,
Que seguem em tua viagem dourada.
Mas quando se retira lentamente,
Na carruagem cansada, como um velho,
Olhos que o honraram já estão a afastar,
E deixam de o seguir nesta tua viagem,
Tu que estás no zénite da estrada,
Sem filhos, morrerás sem ser notado.

VIII

Se és música, que entristece-te ouvi-la?
Se o doce é doce estás a alegria é alegre,
Por que amais que tomais com amargura?
E se lhe comprazem no ignominioso?
Se não vos é ameno ouvir a união notas
De notas que se harmonizam se somam,
É porque te repreendem com voz suave:
Esta partitura não é só pra ti.
Cordas, como sabem, estão dispostas,
Pares melodiosos e pressionando-os,
Enquanto nos cantam um só acorde,
Eles parecem pai, filho e mãe amada,
E a sua canção, sem letra e com estilo,
Canta em ti: "Tu, solista, não és ninguém".

IX

Será que o medo do choro de uma viúva
Te fará desperdiçar tua vida sós?
Se morreres sem deixar descendência,
O mundo chorará como uma noiva
Grávida de viuvez e não da vida,
Não deixas rasto quando te vais ainda,
Outras viúvas, quando olham para os olhos.
De seus filhos que olham para o pai,
Quem é que um natimorto vós gastais,
Passa de uma mão para outra, não perde.
Belo, desperdiçado, tem vida curta;
Não usado, é destruído para sempre,
Não há amor ao próximo bata ao peito,
Que impõe a si próprio um crime tão abjeto.

X

Não amas ninguém: pois não queres negá-lo,
Nem sequer te cuidas consigo mesmo.
Mas, sem dúvida, és amado por muitos,
Qualquer delas foi ou é correspondida.
O ódio criminoso que há em vós
Incita conspirar contra vossa casa,
Obrigar deitar abaixo o seu nobre teto
Quando o mais nobre é vê-lo reparado.
Ponham a vossa cotar e eu, a minha dúvida:
Proibir o ódio mais do que o amor?
Sê, quão a tua presença, amável e gentil
Ou tentai, pelo menos, a compaixão.
Faz, para nós, outro igual; é justo
Que encanto possa viver em ti ou teus.

XI

Ao tempo que tuas minguas crescerás
Em um dos teus, ao que deixas;
Sei que, de jovem, saibas dar
Será tua propriedade quando envelheces.
Nele há sensatez, beleza, aumento;
Sem ele, necessidade, velho, estrago:
Pensando como tu, cessará o tempo
E ao mundo durará sessenta anos.
Que aqueles que natura desatende,
Os espessos, ferros, safos, se suprimam;
Na troca, o mais dotado mais obténs:
Com parte-o com cresce então vivas.
Natura te talhou como seu emblema;
Imprime mais, não deixes que se morra.

XII

Quando conto o relógio que diz as horas,
ver dia audaz afundar na noite hedionda;
Porque vejo a violeta a passar do ponto,
Lesmas zibelinas cobertas de alvo;
Quando vejo árvores altas sem folhas,
Partir do calor, fez grei se abatesse,
E o verde do Verão cingido em feixes,
Carregado no caixão com barba alva:
Então, tua beleza faço questão,
Que entre as perdas de tempo deves ir,
Já que os doces e as belezas se cedem.
Morrem tão já quão vê em outros crescer,
E nada contra a foice da era abriga,
Cobrai raça afrontar vos levar quanto.

XIII

Tu fosses tu próprio; mas, amor tu és,
Já não é teu, do que tu mesmo vives:
Contra este fim adjunto, preparar-te,
E tua doce analogia és outra dádiva:
Deves ser belo que tens de aluguel,
Não achar consignação; então, era,
Tu mesmo, muito depois da tua morte,
Quando tua doce emissão forma ostentar,
Quem deixa casa justa cair em ruínas,
Pecuária em honra possa defender,
Contra as lufas vento do dia de Inverno,
E a fúria árida frio eterno da morte?
Ninguém mais dos ruins; caro amor, tu sabes,
Tiveste um pai: deixas teu filho dizê-lo.

XIV

Ainda eu não seja versado em estrelas,
E que presumo que sei astronomia.
Não é para dizer sorte, boa ou má,
E nem prevejo a fome ou o infortúnio;
Não anuncio a sorte em pormenor,
Nem a cada um o teu vento, a tua chuva;
Nem sei quão prever as vicissitudes,
De um reino que decifra o firmamento.
Os teus olhos, duas ditas teimosas,
São a própria fonte da minha ciência,
Dizem-me, se semearmos nossa linhagem,
A verdade e da beleza triunfam;
Por outro lado, se ceder, auguro,
Que o vosso fim será o teu término.
SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, maio 18, 2023

NORTHANGER ABBY - JANE AUSTEN - UMA REFLEXÃO - ERIC PONTY

Este, o terceiro dos primeiros romances de Jane Austen, foi escrito em 1798-9, com a ação pretende ser contemporânea, e foi originalmente chamado Susan. Em 1802, Jane Austen reviu-o e acrescentou uma ligeira referência atualizada ao romance popular Belinda, de Maria Edgeworth, que tinha sido publicado em 1801; e depois, com a ajuda do seu irmão Henry, vendeu o manuscrito e os seus direitos de autor por 10 libras para um editor londrino, Benjamin Crosby & Co., na Primavera de 1803. Crosby anunciou-o nesse ano - "In the Press: Susan, um romance em 2 volumes" - mas nunca, mas, de fato, nunca o publicou. Em 1809, Jane escreveu à firma, recordando-lhes destes seis anos de atraso, e sugerindo que poderia fornecer-lhes uma cópia de reserva do manuscrito, caso o original se tivesse perdido, ou então que desejava publicar noutro local.

 A resposta foi rude, com a ameaça de intentar uma ação judicial ameaçando tomar medidas legais para impedir que qualquer outro editor comprasse a obra, e oferecendo-se para devolver o manuscrito em troca do pagamento original de 10 libras. Esta quantia estava evidente para além das possibilidades limitadas de Jane, que não dispunha de meios suficientes, teve de deixar o assunto.

Com o dinheiro dos direitos de autor na mão, pediu a Henry para contactar Crosby em seu, e ele comprou Susan de volta, dizendo a Crosby apenas depois de a transação ter sido que este manuscrito, não avaliado por ele, era da autoria de Razão e Preconceito. Jane voltou a rever o texto, mudando o nome da heroína para "Catherine", porque outro romance chamado Susan tinha sido publicado em 1809. Ela pensou então, evidentemente, em oferecer o texto uma segunda vez para publicação e preparou um "Advertisement" para o leitor, explicando as origens da história, Jane desanimou:

No início de 1817, escreveu à sua sobrinha Fanny Knight: "Miss Catherine está a trabalhar no Shelve por agora, e não sei se alguma vez sairá:

Esta pequena obra foi completada no ano de 1803, e destinada a publicação junta. Foi vendida a um livreiro, foi e até anunciada, mas o autor nunca soube por que razão o negócio não foi adiante. autor nunca conseguiu saber. O fato de um livreiro achasse que valia a pena comprar o que ele não achava que valia a pena publicar parece extraordinário. Mas com isto, nem o autor nem o público tem qualquer outra preocupação para além de ser necessária alguma observação necessária sobre as partes da obra que treze anos tornaram relativamente obsoletas. Pede-se ao público que tenha em mente que treze anos se passaram desde que foi completada, muitos durante esse período, lugares, costumes, livros e opiniões e que, maneiras, livros e opiniões sofreram modificações abundantes.

JANE AUSTEN


Após a morte de Jane, em Julho de 1817, Henry Austen tomou conta deste manuscrito e do seu último romance concluído, Persuasão, e, como eram ambos mais curtos do que as suas outras, providenciou para que fossem publicados juntos em 1818 por John Murray, em quatro volumes, ao preço de 2As. Jane tinha aparentemente deixado as duas histórias sem título, pelo que foi presumivelmente, foi Henry que lhes chamou A Abadia de Northanger e Persuasão, respetivamente.

A Abadia de Northanger, embora ainda divertida hoje em dia, teria sido de uma forma bastante diferente para os seus primeiros leitores, porque foi escrito como uma paródia deliberada dos romances "horrendos" muito populares da época - aquilo que hoje chamaríamos de "thrillers" - alguns dos que Isabella Thorpe listou no seu livro de bolso e recomenda a Catherine Morland: O Italiano, O Castelo de Wolfenbach, Clermont, Avisos Misteriosos, Necromante da Floresta Negra, O Sino da Meia-Noite, Órfão do Reno, Mistérios Horrendos. Sob a orientação de Isabel, Catarina começa por ler Os Mistérios de Udolpho e, mais tarde, começa a imaginar que o General Tilney é um assassino de esposas como o sinistro Signor Montoni dessa história.

Todas as heroínas deste tipo de romance são de nascimento altivo, beleza angelical, extrema virtude e sensibilidade e, embora, geralmente órfãs e firmemente crescendo na pobreza nalguma solitária montanha estrangeira, são, no entanto, tão naturalmente dotadas que possuem todas as capacidades femininas sem nunca terem tido qualquer ensino formal. Depois de muitas deambulações, de suportar horrores misteriosos ou fantasmagóricos, e o rapto por parentes perversos ou outros vilões invejosos que a prisão em antigos castelos desolados ou abadias em ruínas, são enfim resgatados e unidos a heróis disfarçados de nascimento e virtude igualmente nobres.

Demostra como ela era versada na ficção popular da época. No entanto, em 1816, estes romances "horrendos" tinham proliferaram a tal ponto que se tornaram comuns e, logo, começaram a sair de moda, razão pela qual Jane teme que a sua paródia pudesse também parecer desatualizada.

Em Março de 1818, o crítico do British Critic apreciava a exatidão dos enredos, e do desenho das personagens de Jane, mas considerava que não compunha, mas sim compunha e desenhava com precisão dos enredos e do desenho de personagens de Jane, mas achava que ela não estava a compor mas apenas um relato da vida:

Em imaginação, de todos os géneros, parece ter sido assaz deficiente; não só as suas histórias são total e inteiramente desprovidas de invenção, mas as suas personagens, os seus incidentes, os seus sentimentos, são obviamente todos retirados apenas da experiência. Os sentimentos que ela põe na boca dos seus atores, são os sentimentos que todos os dias temos o hábito de ouvir... ela parece não ter outro objetivo que meramente pintar algumas das cenas que ela própria viu, que todos podem testemunhar diariamente... Os seus heróis e heroínas, fazem amor e casam-se, tal como os seus leitores amam e casam ou casarão; nem uma sorte imprevista para impedir, acontecimentos que estão na base dos seus romances.

CONCLUSÃO

No entanto, o crítico anónimo continua a elogiar Northanger Abbey como sendo "uma das melhores produções de Miss Austen, e compensará de todas as formas o tempo,e o trabalho de a ler" - embora, mesmo assim, qualificasse o seu elogio desaprovando o General Tilney - ". . . não é uma personagem muito provável e não é retratada com o gosto e o discernimento habituais da nossa autora". Muitos poucos outros comentários contemporâneos sobre A Abadia de Northanger e o romance que a acompanha, e uma parte da edição começou por ser remetida em 1820.

Em suma, só resta enquanto leitores, Jane não contou à sua família nenhuma pequena informação sobre as personagens, o que nos deixa espaço para esperar que o brusco John Thorpe, e que Isabella, depois de se ter casado com James Morland, acreditando erradamente que conseguiu apaixonar o Capitão Tilney, acabe casada com algum lojista local de Putney.
ERIC PONTY

ERIC PONTY -POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA


segunda-feira, maio 15, 2023

SONETOS DE SHAKESPEARE - FAÇA VOCÊ MESMO - TRAD. ERIC PONTY

 


III

Olha-te ao espelho e diz ao teu rosto
Que ele então se reproduzirá sem demora;
Não renovares teu frescor num outro,
No mundo que uma mãe que desanimas.
Pois que donzela há de já tão altiva
Proibir o seu jardim à tua semente?
E quem é tão vaidoso que prefere
privar-nos da beleza com sua morte?
Tu és qual imagem viva da tua mãe,
E ela vê em ti a frescura dos seus anos;
Também tu, na idade tardia, olhar pra ti
E ver a idade douro em que hoje vives,
Mas se tu preferes não ser lembrado,
Não gere e a vossa ideia morre convosco.

IV

Encanto inútil, porque desperdiças
A tua herança de apóstrofo só em ti?
Para Natura não dá quase nada:
só empresta há quem dá sem parar,
Por que, então, belo egoísta, abusas bondade,
Da beleza com que foste dissipado?
Tu, efémero agiota, porque é te apressas,
Soma tão avultada e não tem descanso?
Se o seu único cliente é você mesmo,
Acabará por se privar do seu encanto;
Pra que quando a vossa hora afinal chegar,
Reserva compensarás a tua balança?
Sem uso, a tua beleza já está morta;
Usada se converte executor!
SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA



sábado, maio 13, 2023

22 SONETOS & CLARA MUSA - ERIC PONTY

I
Versos de louvor, conceitos esparsos
Engendrados d´alma em meus zelosos,
Parte de meus doídos abrasados,
Com mais dor que liberdade nascida;

Expostos ao mundo em que vão perdidos,
Tão certos olvidaste e trocados
Que só donde fossem já engendrados
Foram por sangue versados pelo mundo:

Pois lhes furtais ao labirinto a Creta,
Ao Dédalo dos altos chamamentos,
A fúria ao mar, as flamas ao abismo,

Se aquela áspide formosa nós aceitamos,
Deixa a terra, entreter os fortes ventos,
Descansareis em vosso centro mesmo.

II
Quando imagino meus breves dias
Aos mui que ao tirano Amor me atreve,
E em meu cabelo antecipar a neve,
Mais que os anos, as tristezas minhas.

Vejo que são suas falsas alegrias
Veneno no cristal da razão bebe,
Por quem o apetite voraz se atreve
Vestido de mil doces fantasias.

Que ervas do olvido há dado gosto
A razão, que, sem fazer seu artificio
Quer contrarrazão satisfazer-te?

Mas consolar-lhe pode meu desgosto,
Que es desejo do remédio indicio,
Remédio de amor querer vencer lhe.

IV
Com minha dor da mortal tal ferida,
Dum agravo de amor me lamentava;
E por ver se minha morte se chegava,
Procurava que fosse mais crescida.

Todo no mal n´alma divertida,
Pena por pena sua dor me somava,
Cada circunstância ponderava
Que sobravam mil mortes a uma vida.

E quando, ao golpe dum e outro me firo,
Rendido ao coração dava, penoso,
Senhas de dar o último suspiro,

Não sei com que destino prodigioso
Volvi em meu acordo e disse: Me admiro?
Quem louvor há sido mais que ditoso?

VI
Tua ribeira passível, infausto rio,
E orelhas que em tuas ondas banhas,
Se volvem penas côncavas e estranhas,
E fogo teu licor saboroso e frio.

Abrace um raio teu frescor sombrio,
Os roxos lírios e as verdes canas,
Ninguém a água serras e das montanhas,
E só te acompanhei do canto meu.

Até a areia, que ao correr levantas
Se volvam feras áspides airadas;
Mas, ai! Qual vã maldição lhe espera!

Quando em ti meu sol banha suas plantas,
Como ofende-la tu, deixo sagrados
Lírios, orelha, areia, água e ribeiras.

VIII
Que és isto, Carine? Como tua atura
Se deixa assim vencer dum mal tão zeloso,
Fazendo seus extremos de furioso
De demonstrações mais que de loucura?

Em que te ofendeu séria, si se apura?
O porquê ao Amor culpas de enganoso,
Se não asseguro nunca, poderoso,
A eterna possessão sua formosura?

A possessão de coisas temporais,
Temporal és de Carine, e és abuso
Ao querer conserva-las sempre iguais.

Com que teu erro tua ignorância acuso,
Pois Fortuna louvor, de coisas tais
Propriedade não há dado, senão há uso.

 CLARA MUSA

Qual Musa palmilhasse vagamente
Passagem de Minas, pedregosa,
Tal no fechar tardio da cena rouca

se misturasse ao tom de meus encantos 
que era pausado, surdo; manhãs pairassem 
no céu de zimbro, e suas cores negras,

lentamente se abrem diluindo cores,
na escuridão maior, vinda das mentes
E de meu próprio ter desenganado,

A Miragem da Musa se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de a ter olhado me carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir luz que fosse tão impura
nem um clarão maior que o aceitável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do aspecto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria efígie sua debuxada
na face do mistério, nos abismos.

(..........................................)

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, maio 12, 2023

DUAS EPIFANIAS - SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY

 

Afrodite imortal no teu trono deslumbrante,
Ao filho de Zeus, tecelão de laços, peço-vos,
Não, este com angústia e dor, Senhora,
partiram-me o coração.

Mas vem cá agora, se é que alguma vez no passado,
Ouvindo, que ouviste os meus gritos de bem longe,
E deixando a casa dourada do teu pai,
agora vieste até mim,

Ao amarrar a tua carruagem. Belos pardais velozes,
Atraiu-te sobre a terra preta,
Com as suas asas rodopiantes, descem do céu,
por meio do ar,

E ligeiramente chegaram. E tu, ó Deusa abençoada,
Com um sorriso no teu rosto imortal,
Perguntou o que se passava e porquê,
E se tivesse voltado a ligar-te em mim;

E o que eu mais queria que tivesse caído,
Eu, com meu peito louco: "A quem devo mover desta vez,
Para te levar de volta ao seu amor? Quem é, Sapho,
Quem vos fez mal?

Porque mesmo que fuja, em breve irá persegui-la,
Se recusar prendas, vai dar em vez disso.
E se ela não amar, amará em breve,
Mesmo contra a tua vontade.

Por isso, vem a mim cá, liberta-me do intolerável,
Dor. Tudo que o meu coração anseia e aconteça.
És Tu fazer acontecer. Tu própria,
Para ser minha aliada.

II

Aproximai-vos de mim, peço-vos,
Senhora Hera, e que a vossa graciosa forma nasça,
Para quem os filhos de Atreu rezavam,
esses reis gloriosos,
após terem realizado mui grandes feitos,
Primeiro em Tróia e depois no mar.
Chegaram a esta ilha, mas não puderam,
Concluir a Tua viagem de regresso,
Até te invocaram a ti e, Zeus, deus dos suplicantes,
E a adorável filha de Thyone.
Por isso, sejam gentis e ajudem-me também,
Como na antiguidade.
 SAFO DE LEBOS - TRAD. ERIC PONTY
 ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, maio 10, 2023

A CHILD’S GARDEN OF VERSES - ROBERT LOUIS STEVENSON - TRAD. ERIC PONTY

 FROM HER BOY

 
Pelas longas noites que passas acordadas,
E vigiava por minha indigna causa:
Para a mão mais confortável,
Isso levou-me por meio da terra desigual,
Para todos os livros de contos que lês:
Por todas as dores que confortou:
Por tudo tiveste pena, tudo que suportaste,
Nos dias tristes e alegres de outrora: -
A minha segunda mãe, a primeira mulher,
Sendo-lhe anjo da minha vida infantil,
Da criança doente, hoje bem e velha,
Toma, samaritana, o livrinho que tens na mão!

E concedei, Céu, que todos os que lerem,
Pode achar samaritana tão querida quando carecer,
E todas as crianças que ouvem as minhas rimas,
No clima luminoso, à lareira, do berçário,
Poderá ouvi-lo numa voz tão gentil,
Como alegrou os meus dias de criança!

R. L. S.

BED IN SUMMER


No Inverno, levanto-me de noite,
E vestir-se à luz das velas amarelas.
No Verão, é sendo o contrário,
E tenho de me deitar de dia.

Tenho de ir para a cama e ver,
Aves persistem a saltar na árvore,
Ou ouvir-lhe os pés dos adultos,
Ainda passam por mim na rua.

E não te apareceu difícil?
Quando o céu está limpo e azul,
E gostaria tanto de ir jogar,
Ter que ir para a cama de dia?

 A THOUGHT

É muito bom pensar que
o mundo está cheio de carne e de ébrias,
Com as criancinhas a dar graças,
Em todos os lugares cristãos.


THE LITTLE LAND

QUANDO em casa, sozinho, sento-me,
E estou muito farto,
Basta-me fechar os olhos,
Indo navegar pelos céus –
Navegar para longe,
Para a agradável Terra do Brincar;


Para a terra das fadas lá longe
Onde está a Gente Pequena;
Navegar em pequenas viagens;
E acima das margaritas,
Por meio das gramíneas,
No alto da cabeça o abelhão,
Com zumbido e passagem.

Naquela floresta de um lado para o outro,
Posso vaguear, posso então ir;
Ver a aranha e a mosca,
E as formigas vão passando,
Carregando pacotes com os pés
Pela rua verde e relvada.
Posso sentar-me na azenha,
Onde a joaninha se acomoda.

ROBERT LOUIS STEVENSON - TRAD. ERIC PONTY

 ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, maio 07, 2023

Prayers Written at Vailima - ROBERT LOUIS STEVENSON - TRAD. ERIC PONTY

 INTRODUCTION

Em todos os lares samoanos, o dia é encerrado com uma oração e o canto de hinos. A omissão deste dever sagrado indicaria não só uma falta de formação religiosa do chefe de família, mas um desrespeito descarado por tudo o que é da respeitável na vida social samoana. Sem dúvida que, para muitos, o serviço noturno mais do que um dever cumprido. A criança que reza ao colo da mãe não pode ter uma concepção real do significado das palavras que tão, que a criança que reza ao colo da mãe não pode ter uma concepção real do significado das palavras que lhe faltaria se a oração fosse olvidada. O samoano médio não passa de uma criança maior na maior parte das coisas, e deitaria a cabeça desconfortável na sua cama de madeira se não se tivesse juntado, mesmo que superficialmente, ao serviço noturno. Com o meu marido, na oração, o apelo direto, era uma necessidade. Quando estava feliz, sentia-se impelido a dar graças por essa alegria imerecida; quando estava triste, ou a sofrer, pedia forças para suportar o que tinha de ser suportado.

 Vailima ficava a cerca de três milhas de subida contínua de Apia, e a mais de mais de metade dessa distância da aldeia mais próxima. Era um longo caminho para um cansado homem que descia todas as noites com o único objetivo de participar no culto familiar e o caminho pelo mato era escuro e, para a imaginação dos samoanos e, para a imaginação samoana, era cercado de terrores sobrenaturais. Por isso, logo que a nossa casa entrou numa rotina regular, e os laços da vida familiar samoana começaram a unir-nos mais, Tusitala sentiu a necessidade de incluir os nossos criados nas nossas devoções noturnas. Suponho que a nossa era, suponho que a nossa era a única família de brancos em toda a Samoa, exceto a dos missionários, onde o dia terminava naturalmente com este costume caseiro e patriarcal. Não só os escrúpulos religiosos dos nativos foram satisfeitos, mas, o que não prevíamos, a nossa respeitabilidade - e, aliás, a dos nossos criados – ficou sobre a influência de Tusitala aumentou dez vezes.

 Acho que nunca nos ocorreu que houvesse qualquer incongruência no uso incongruência no uso do búzio de guerra para o convite pacífico à oração. Em resposta à sua membros brancos da família ocuparam os seus lugares habituais numa das extremidades do grande salão, enquanto os samoanos - homens, mulheres e crianças – entraram, e crianças - entravam por todas as portas abertas, alguns com lanternas, se a noite estivesse escura, todos se moviam calmamente, e, em semicírculo no chão, por baixo de um grande candeeiro que pendia do teto. A cerimônia em serviço começa com o meu filho a ler um capítulo da Bíblia samoana, Tusitala, e depois uma oração em inglês, por vezes improvisada, mas mais frequente, mas mais frequentemente a partir das notas deste pequeno livro, interpolando ou mudando circunstâncias do dia. Depois, cantava-se um ou mais hinos na língua materna na língua nativa, e a recitação em concerto do Pai-Nosso, também em samoano. Muitos destes hinos eram cantados com melodias antigas, muito selvagens e bélicas, e estranhos diferentes das palavras dos missionários.

 Por vezes, um bando de guerreiros hostis, com rostos enegrecidos, e muitas vezes éramos obrigados a parar até que o barulho dos tambores nativos em muitas vezes éramos obrigados a fazer uma pausa até que o ruído monótono e inexplicável selvagem dos tambores nativos, mas nenhum samoano, nem, creio, nenhum branco, mudou a sua atitude reverente. Uma vez, lembro-me de um olhar de surpresa e consternação de Tusitala quando o meu filho, contrariando o seu costume de ler o capítulo seguinte ao de ontem, voltou as folhas da sua Bíblia para encontrar um capítulo ferozmente denunciador, e muito aplicável aos ditadores estrangeiros da Samoa pensativa. Noutra ocasião, o próprio chefe de serviço foi interrompido de repente. Tinha acabado de saber da conduta de uma pessoa em quem ele tinha todas as razões para confiar. Nessa noite, a oração parecia invulgarmente curta e formal. Quando o canto terminou, ele levantou-se bruscamente e saiu da sala. Apressei-me a segui-lo, receando que fosse uma doença súbita. O que é que se passa? perguntei. É isto", foi a resposta; "ainda não estou em condições de dizer: "Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos perdoam os que nos ofendem".

 É com natural relutância que abordo a última oração da vida do meu marido. Muitos supuseram que mostrava, na redação desta que tinha alguma premonição da morte que se aproximava. Tenho a certeza de que não tinha tal premonição. Fui eu que disse à família reunida que sentia um desastre iminente, cada vez mais próximo.

Qualquer escocês compreende que a minha declaração foi recebida com seriedade. Não era possível, pensámos, que o perigo estivesse a ameaçar alguém dentro de casa; mas o Sr. Graham
mas o Sr. Graham Balfour, primo do meu marido, que nos é muito próximo e querido, estava fora num cruzeiro perigoso. Os nossos receios seguiam os vários navios, mais ou menos inseguros, em que ele ia de ilha em ilha até ao atol onde o rei exilado no atol onde o rei exilado, Mataafa, estava nessa altura preso. Na última oração do meu marido, na noite anterior à sua morte, pediu-nos que, fizemos uma oração para sua alma.

 FOR SUCCESS

 Senhor, olhai para a nossa família aqui reunida. Agradecemos-Te por este lugar em que vivemos pelo amor que nos une, pela paz que hoje nos é concedida, pela esperança com que esperamos o dia seguinte pela paz que nos é concedida neste dia; pela esperança com que esperamos o dia seguinte; pela saúde, pelo trabalho, a comida e os céus brilhantes, que tornam a nossa vida agradável; pelos nossos amigos em todas as partes da terra, e pelos nossos ajudantes amigos nesta ilha estrangeira. Que a paz seja abundante na nossa pequena empresa. Expurgai de cada coração o rancor. Dai-nos a graça e a força para suportar e perseverar. Aos ofensores, dai-nos a graça de aceitar e perdoar os ofensores. Olvidados ajudai-nos a suportar com alegria o olvido dos outros. Dai-nos a coragem, a alegria e a bonança de espírito. Poupai-nos os nossos amigos, suavizai-nos os nossos inimigos. Abençoai-nos, se for o caso, em todos os nossos esforços inocentes. Se assim for se não, dai-nos força para enfrentar o que há-te vir, para que sejamos corajosos no perigo, constantes na tribulação, moderados na ira e em todas as mudanças, e, em todas as mudanças de sorte e, até às portas da morte, leais e amáveis uns para com os outros.
Como o barro para o oleiro, como o moinho de vento para o vento, como filhos do seu como filhos de seu pai, nós Vos pedimos este auxílio e misericórdia por amor de Cristo

 FOR GRACE

 CONCEDE que nós, aqui diante de Ti, sejamos libertados do medo da vicissitude e do medo da morte, terminemos o que nos resta do nosso sem desonra para nós nem prejuízo para os outros e, quando chegar o dia, possamos morrer em paz. Livrai-nos do medo e do favor, das esperanças mesquinhas, e, dos prazeres baratos. Tende piedade de cada um na sua carência, não o deixeis ser o que, não seja vencido; amparai os que tropeçam no caminho, e daí enfim descanso aos arrebentados.

AT MORNING

O dia regressa e traz-nos a ronda mesquinha de preocupações e deveres irritantes. Ajuda-nos a fazer de homem, ajuda-nos a cumpri-los com riso e, rostos amáveis, que a alegria abunde com a indústria. Dá-nos a possibilidade de continuarmos alegre-se que nos leve para o nosso leito de repouso, cansados e contentes e, não desonrado, e que nos conceda, no final, o dom do sono.

BEFORE A TEMPORARY SEPARATION

Hoje saímos separados, uns para o prazer, outros para o culto para o culto, outros para o dever. Acompanha-nos, nosso guia e anjo, e faz com que Tu nos nossos caminhos divididos, o sinal da nossa fraca vocação, para sermos ainda fiéis ao pequeno melhor que podemos alcançar. Ajuda-nos nisso, nosso criador, o dispensador de Tu, dos vastos desígnios em que cegamente trabalhamos, ajuda-nos a que sejamos tão constantes para conosco e para com os nossos!

FOR FRIENDS

Pelos nossos entes queridos ausentes, imploramos a Vossa bondade. Mantém-nos em vida, conservai-os em crescente honra; e por nós, fazei que continuemos a ser dignos do seu amor. Por amor de Cristo, que os nossos amados não corem por nós, nem nós por eles. Concedei-nos apenas isso, e dai-nos coragem para suportar firmemente os males menores, e aceitar a morte, a perda e a desilusão como se fossem palhas na maré da vida!

FOR THE FAMILY

 AJUDA-NOS, se for da Tua vontade, nas nossas preocupações. Tende piedade desta terra e dos
e dos povos inocentes. Ajudai-os que neste dia lutam desiludidos com as suas fragilidades. Abençoa a nossa família, abençoa a nossa casa na floresta, abençoa os nossos ajudantes da ilha. Vós, que criastes para nós este lugar de conforto e de esperança, aceitai e, inflama a nossa gratidão; ajuda-nos a retribuir, servindo-nos uns aos outros, a dívida dos teus benefícios e misericórdias imerecidas, para que, quando o período de nossa mordomia chegar ao fim, quando as janelas começarem a escurecer, quando os laços da família se soltarem, não haja amargura do remorso nas nossas despedidas.

 Ajuda-nos a olhar para trás, para o longo caminho que nos trouxeste, para os longos dias em que fomos servidos, não segundo os nossos desertos, mas os nossos desejos; sobre o poço e o lodo, a escuridão do desespero, o horror da má conduta, de onde os nossos pés foram arrancados. Pelos nossos pecados perdoados ou evitados, pela nossa vergonha não publicada, nós Vos bendizemos e agradecemos, ó Deus. Ajuda-nos mais uma vez e sempre. Ordena os acontecimentos, fortalece a nossa fé, que, dia a dia, nos apresentemos diante de Ti com este cântico, e, no final, sejamos despedidos com honra. Na sua fraqueza, e, no seu medo, os vasos da Tua obra assim Te rogam, assim Te louvam. Amém.

 SUNDAY

 Suplicamos-Te, Senhor, que nos vejas com benevolência, gente de muitas famílias e nações reunidas na paz deste teto, homens e mulheres fracos, e, mulheres que subsistem sob o manto da Vossa paciência. Sê paciente ainda; tolera-nos ainda um pouco mais; - com os nossos propósitos quebrados de bem, com os nossos o mal, deixai-nos suportar um pouco mais, e (se for o caso) ajudai-nos a fazer melhor. Abençoai-nos as nossas misericórdias extraordinárias; se chegar o dia em que elas devam ser tiradas, preparai-nos para fazer o papel de homem aflito. Sede com os nossos amigos, com nós próprios. Ide com cada um de nós para o repouso; se algum acordar, tempera-lhes as horas escuras de vigília; e quando o dia voltar, volta, e, nos chame com rostos matinais e corações matinais - ansiosos para trabalhar - ansiosos para ser felizes, se a felicidade, com os corações matinais - desejosos de trabalhar - desejosos de ser felizes, se a felicidade for, e, se o dia estiver marcado para a tristeza, fortes para a suportar.
Nós Vos agradecemos e Vos louvamos; e com as palavras daquele para quem este dia é sagrado, encerrai a nossa oblação.

 FOR SELF-BLAME

 Senhor, ilumina-nos para vermos a trave que está no nosso próprio olho e cega-nos para o argueiro que está no olho do nosso irmão. Fazei-nos sentir com as mãos as nossas ofensas, fazei que sejam grandes e brilhantes diante de nós como o sol, fazei que as comamos, e, bebê-las para nossa alimentação. Cegai-nos para as ofensas do nosso amado, limpai-as as da nossa memória, tirai-as da nossa boca para sempre. Que todos aqui os que estão diante de Vós levem e meçam com as falsas balanças do amor, e sejam, E, sejam aos seus próprios olhos e em todas as conjunturas os mais culpados. Ajudai-nos ao mesmo tempo com a graça da coragem, para que não nos deixemos abater quando nos sentamos a lamentar entre as ruínas da nossa felicidade ou da nossa integridade: toca-nos com fogo do altar, para que nos levantemos e façamos a reconstrução da nossa cidade: em nome e pelo artifício daquele em cujas palavras de oração hoje concluir.

 FOR SELF-FORGETFULNESS

 SENHOR, as criaturas da tua mão, os teus filhos deserdados, vêm perante com os seus desejos e arrependimentos incoerentes: Crianças somos, crianças seremos até que a nossa mãe, a terra, se tenha alimentado dos nossos ossos, Aceitai-nos, corrige-nos, guia-nos, teus inocentes      culpados. Seca as nossas lágrimas vãs, apaga os nossos ressentimentos vãos, ajuda os nossos esforços ainda mais vãos. Se houver algum aqui, amuado como crianças, trata-o e esclarece-o faz com que o dia seja sobre essa pessoa, para que ele se veja e se envergonhe. Fazei com que seja o céu para ele, Senhor, pelo único caminho para o céu, o esquecimento de si mesmo, E, fazei com que seja dia para os seus vizinhos, para que eles o ajudem e não o atrapalhem.

FOR RENEWAL OF JOY

Somos maléficos, ó Deus, e ajudai-nos a ver isso e a corrigir-nos. Somos bons, e ajudai-nos a sermos melhores. Olhei para os teus servos com um olhar paciente, tal como envias o sol e a chuva.
Tu mandas o sol e a chuva; olha para baixo, invoca os ossos secos, vivifica-os, vivificai; recriai em nós a alma de serviço, o espírito de paz; renovai em nós o sentimento de alegria.
 
 AUTHOR’S NOTE
Alguns poderão adivinhar que eu tinha uma certa paróquia no olhar, e isso faz com que eu deva acrescentar uma palavra de desdém. No meu tempo houve dois ministros nessa paróquia. Do primeiro tenho uma razão especial para de falar bem, mesmo que houvesse quem pensasse mal. O segundo, encontrei-o muitas vezes; e por muito tempo (na devida expressão) "sentei-me" na sua igreja, e nem aqui nem ali ouvi uma palavra desagradável ou feia dos seus lábios. O pregador do texto não tinha, portanto, nenhum original naquela paróquia em particular; mas, quando eu era menino, ele poderia ter sido observado em muitas outras; ele estava (tal como o mestre-escola) no estrangeiro; e, segundo informações recentes, parece que ainda não se ofuscou inteiramente.

 ROBERT LOUIS STEVENSON - TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, maio 05, 2023

TRÊS POEMAS DE ROBERT LOUIS STEVENSON – TRAD. ERIC PONTY

PRAYER
Pergunto coisas boas que detesto,
Com discursos justos;
Não atenteis, peço-Vos, Senhor, ao meu peito,
Mas ouvistes a minha oração.

Eu digo coisas más que não diria –
Coisas inconscientes:
Olhai pelo meu peito, Senhor, no Vosso dia,
E não a minha oração.

O meu coração é mau à Tua vista:
Os meus pensamentos bons fogem:
Ó Senhor, não consigo desejar bem –
Desejo-te para mim.

Dobrai a Vós as minhas palavras e atos,
No entanto, está doente,
Que eu, sejais o que for que diz ou seja,
Que ainda Te sirvam.

Que os meus pensamentos estejam em Ti,
Para que eu não caia:
Mostra-me a Ti mesmo em tudo o que vejo,
Tu, Senhor de todos.

Para Musas
Renuncia à rapsódia, ao sonho,
Aos homens de maior alcance;
Seja a nossa a busca dum tema simples,
Nesta piedade da palavra.

Tal qual escribas monges desde a manhã,
Trabalhou até ao fim do dia,
Nem pensou um dia supino longo para fazer
Ou numa linha ou letra brilhante:

Nós também com uma mente ardente,
O tempo, a riqueza e a fama olvidados,
A nossa glória na nossa paciência,
E na desnata, e desnata o pote:

Até ao fim, quando à volta da casa ouvimos,
Nesta música dos pássaros,
Aparece num canto do céu azul,
No nosso poço de palavras claras.

Deixa, deixa então, musa do meu coração!
Sem acabamento e sem moldura,
Deixar sem adornos artísticos inúteis,
Que nesta imagem tal como surgiu.

ESPOSA

Certo, sombrio, vivo, verdadeiro,
Com olhos de ouro e de orvalho,
De aço verdadeiro e lâmina reta,
O grande artesão
Fiz-me amigo.

Honra, cólera, valentia, fogo;
Num amor que a vida não se cansa,
Morte extinguir ou mal pulsar,
O mestre poderoso,
Deu-lhe.

Mestra, terna, confreira, esposa,
Um consorte de vida,
De coração inteiro e alma livre,
O pai augusto,
Deu-me!

 ROBERT LOUIS STEVENSON – TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, maio 04, 2023

DER VAMPIR - ERIC PONTY

O Vampir sentam-se à tumba,
Mas sem fida na vinda;
Ora cheios, já não rezam,
Senão flamas de infinito.

Ficam-se esquivos, distantes,
Estão escutar brio esmolas,
Que os penitentes pedem,
Mas o silêncio se olvida.

Não desfazer dos que brandam,
Suas mínguas, onde se pisa,
Onde logo então rezar,
Que Palmas ardida flamam.

Esmolham-se das esmolas,
Rezas em plumas esvaem,
Os verpes estão nas tumbas,
Tais lendo-o pergaminhos.

Se empardecer dos meninos,
Se a vidas em si já é fida,
Restam apenas se iam,
Transfigurados de lida.

Lembro que foram-se equívocos,
Furtaram de si em si,
Ora agreste não bebem,
Pois fidas permanecem.

O Vampir sentam-se à tumba,
Vossas sombras tão sombrias,
De que ainda ardem no sol,
Sentaram -se amanhã.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

terça-feira, maio 02, 2023

Der Vampir by Heinrich Ossenfelder - Trad. Eric Ponty

Este poema foi escrito pelo poeta alemão Heinrich Ossenfelder em 1748, é a primeira peça de literatura registada que apresenta um vampiro.

Minha jovem e preciosa donzela rezar,
No Insensível, veloz em forma tão firme,
Em todos ensinamentos desde sempre,
Uma filha de uma mãe sempre fida;
Tal como os vampiros imortais fel ao léu,
E neste folclórico portal do Theyse,
Tal como uma fiel inocente crê fiel,
Mas minha Christine não se demora,
E a minha amorosa defesa na hora,
Até que eu próprio vingue atrozes,
À saúde de um vampiro a beber vida,
Está flamejante em tockay tão pálido.

E tão suave dormis na janela azul,
Ouvirá então latir de cães e lobos,
A ti irei rastejando, qual serpente,
E sangue da tua vida se esvai no ente.
E assim estarás a tremer por tais juras,
Pois só assim estarei a beijar nas flamas,
E o limiar da morte tu estás a cruzar,
Com o medo, nos meus braços frios,
E por fim, pergunto-te só a ti em zelo,
Em símbolo com está instrução ao vê-la, 
De quais são dos encantos desta mãe?
Heinrich Ossenfelder - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

segunda-feira, maio 01, 2023

II. O ALBATROZ - Charles BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY


Muitas vezes, por prazer, os marinheiros
Prendem os albatrozes, grandes aves dos mares,
Que seguem, indolentes companheiros de viagem,
O navio a deslizar sobre os amargos abismos.

Assim que os colocam sobre as pranchas,
Esses reis do azul, sem jeito e envergonhados,
Deixam com pena suas grandes asas brancas
Como remos pendurados ao seu lado.

Este viajando alado, como é grotesco e frouxo!
Ele, antes tão bonito, como é cômico e feio!
O marujo pica seu bico com um cachimbo bruxo,
Outro o imita mancando, o aleijão que voava!

O Poeta lembra o príncipe das nuvens,
Que vence a tempestade e ri do arqueiro;
Preso ao chão, em meio às vaias,
As asas gigantescas o impedem de caminhar.

Charles BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, abril 30, 2023

QUESTÕES DE TEORIA LITERÁRIA - ENSAIO - ERIC PONTY

 Qualquer pessoa que tenha participado recentemente num comitê de nomeações num departamento de literatura confrontou-se com provas demasiado palpáveis de que a teoria não está morta. No mercado de trabalho acadêmico muito restrito, em que qualquer vaga pode atrair centenas de candidaturas, é possível fazer um levantamento do estado da literatura.

O trabalho acadêmico, onde qualquer vaga pode atrair centenas de candidaturas, é possível fazer um levantamento do estado dos estudos literários simplesmente lendo as candidaturas, e a conclusão é inevitável: a teoria está em todo o lado. Mesmo os domínios anteriores imunes ou resistentes, como os estudos chineses ou os estudos medievais, produzem hoje candidatos com grande sofisticação teórica - conhecedores de um vasto leque de discursos teóricos e, mais importante, uma propensão os ajudaram a formular, sobre as relações entre literatura e cultura popular, literatura e política, literatura e literatura e as forças da globalização, e assim por diante citarei um soneto de Shakespeare:

Ó tempo, correndo as patas do leão,
Faz com que a terra devore a tua prole,
Da mandíbula do tigre a apodrecer,
E a fênix arde envolta nos Teus humores.
Alterar as colheitas como achar melhor,
E depressa, agora, como tu desejas,
Do mel do mundo e as tuas vísceras,
Mas não cometer o crime infame,
Pisar a testa que eu amo com as tuas horas,
Ou assinar com a Tua caneta velha,
Libertas, a Tua pessoa do teu estigma,
Pois deve ser um exemplo de beleza.
Mesmo faças o que queres, o Tempo velho,
Meu amor viverá jovem nos meus versos.

Os textos são lidos intensivo, e sintomaticamente, num trabalho de estudos culturais que explora a forma como cultural como se enquadram em várias práticas discursivas de identidade ou de produção da sexualidade, de projeção de comunidades imaginadas a resistência à globalização, ou a dialética da subversão e da contenção.

Assim, não se trata, sublinho, apenas do fato das referências a figuras reconhecidas como teóricos - Butler, Derrida, Foucault, Jameson, Lacan, Spivak, Zizek – aparecem em dissertações e padrões de escrita. A forma como as perguntas dos projetos de dissertação ou pós-dissertação é gerada ou inflectida por investigações teóricas, especulações teóricas, especulações e argumentos. 

Nesse sentido, os estudos literários e culturais são muito teóricos da teoria não é tão proeminente como um movimento de vanguarda, um conjunto de textos ou discursos que desafiam insiders e outsiders, talvez porque os estudos literários e culturais se desenrolam num espaço articulado pela teoria, ou teorias, discursos teóricos, debates teóricos.

Isto aplica-se não só ao inglês, ao francês, ao alemão e à literatura, mas também de áreas do estudo literário que até então tinham permanecido relativos há relativamente pouco tocados pelos discursos teóricos e de domínios que têm sido eles próprios frequentemente mais hostis à chamada alta teoria, como os estudos culturais; E os editores apresentam a sua convicção de que a teoria é um mercado vivo, preferindo publicar introduções à teoria ou antologias de teoria em vez de monografias críticas.

Apesar do seu alegado desaparecimento, escreve Jean-Michel Rabate, "a teoria não pára de voltar, o que é confirmado pelo grande número de antologias, guias, companheiros e novas introduções. Se a teoria se reduz ao fantasma de si mesma, então é um fantasma muito intrusivo que continua a andar e a agitar as suas correntes nos nossos velhos castelos académicos.

Para designar os discursos que passam a exercer influência fora do seu domínio disciplinar aparente influência porque oferecem caracterizações novas e persuasivas e persuasivas de problemas ou fenómenos de interesse geral: língua, consciência, linguagem, a consciência, o sentido, a natureza e a cultura, o funcionamento da psique, as relações da experiência individual com estruturas maiores, etc. E assim por diante. A teoria, neste sentido, é inevitável interdisciplinar: trabalhos de filosofia, linguística, antropologia, psicologia, etc....

As obras de teoria funcionam, característico, não como demonstração, mas como especulação - ideias cujo alcance é o mesmo que o da teoria, funciona caracteristicamente não como demonstração, mas como especulação - ideias cujo âmbito de aplicabilidade não é conhecido de antemão. 

A teoria é analítica, especulativa, reflexiva, interdisciplinar e contrária às visões do senso comum; ou, um contraponto aos pontos de vista do senso comum. E neste carácter interdisciplinar da teoria ajuda a explicar por que razão a "teoria literária”. 

No sentido de análises da natureza da literatura ou do funcionamento de modos ou géneros literários específicos até da literatura ou do funcionamento de determinados modos ou géneros literários - tem desempenhado um papel menos proeminente na "teoria" dos estudos literários nos últimos tempos, do que seria de esperar.

Na medida em que a teoria da literatura funciona respectivamente no âmbito da disciplina dos estudos literários, não tem parecido ser realmente teoria e, por isso esse ponto de vista, argumentando que o aparente eclipse do literário é uma espécie de ilusão. 

Onde quer que os discursos da teoria se originem, eles em geral trabalham para nos alertar para versões da literariedade em ação em discursos de todos os tipos e, assim, reafirmam, da forma literária em ação em discursos de todos os tipos e, assim, reafirmam, à sua maneira, a centralidade do literário.

CONCLUSÃO

Os textos são lidos intensivo, e sintomaticamente, num trabalho de estudos culturais que explora a forma como cultural como se enquadram em várias práticas discursivas de identidade ou de produção da sexualidade, de projeção de comunidades imaginadas a resistência à globalização, ou a dialética da subversão e da contenção.

Na medida em que a teoria da literatura funciona respectivamente no âmbito da disciplina dos estudos literários, não tem parecido ser realmente teoria e, por isso esse ponto de vista, argumentando que o aparente eclipse do literário é uma espécie de ilusão. 

É verdade, no entanto, que os trabalhos sobre a linguagem, o desejo, o poder, o corpo, etc., são também um fator de mudança, poder, o corpo, etc., tem levado a uma negligência de questões teóricas que são particulares da literatura e do sistema do literário. Negligenciada pelos teóricos.

ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

MISSIVA DE IVAN JUNQUEIRA PARA ERIC PONTY

 


ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA