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segunda-feira, maio 22, 2023

LAMENTO DE UMA AMANTE - W. SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY

O poema intitulado Lamento de uma amante, composto em estrofes de sete versos com rima ababbcc, a chamada "rima real", foi publicado em 1609 juntamente com os Sonetos e atribuído a Shakespeare, mas a sua autoria foi sempre muito contestada. Foi mesmo dito que poderia ser obra de John Davies de Hereford (1565-1618), admirador e a Shakespeare.


Numa colina cujo ventre do oco
Dobrava a triste canção de outro vale,
Então parei para lhe ouvir o eco,
Com todos os meus sentidos à espera;
E vi uma mulher pálida e variável
Dividindo-se em dois anéis e pás,
E afogando as suas disgras no vento.
Um capuz de palha protegia-lhe o rosto
Do sol, onde nascia o pensamento,
Poderíamos pensar, vimos certa marca,
De uma beleza murcha. Mas o tempo
Não tinha cortado totalmente o rasto,
Dessa juventude nem o céu zangado,
Que envidraçou aquele encanto com anos.
Assim como ele limpou o salgado,
Gotas das suas lágrimas no lenço,
Lhe lavando as curiosas inscrições
Bordadas na seda com cuidado,
Estava a emitir todo tipo de gemidos,
Quer voz alta, quer gemidos lânguidos,
Enquanto relia avidamente os sinais.
Por vezes, com precisão de uma arma,
Aponta o olho para o céu em bateria;
Por vezes as pupilas estão presas,
Ao solo terrestre; outras vezes fixa,
Em frente à visão e depois olhar
Para todo o lado e para lado nenhum,
Confundindo pensamento e a visão.
Os seus cabelos, nem arranjos para trás,
São um sinal de orgulho descuidado.
Alguns pendem do chapéu, muito bem,
Burla para baixo, junto à tez branca,
E há outros, sujeitos ao seu vínculo,
Preferem ser-lhe fiéis e ficarem,
Foram trançados com descuido.
De um cesto tirava mil presentes,
Um de âmbar, um cristal ou jato,
E os atirou-os para o rio triste
Nas margens do qual tinha ido ficar:
De tão-somente molhado a usura junta,
Tal qual rei que não dá migalha aos pobres,
E aos ricos dá tudo o que pede.
Ele guardou, em folhas, muitas cartas,
Que eu atirei a água partido, a suspirar,
E alianças da união douro e osso atirou em nacos
Em nacos para suas sepulturas no lamaçal,
Sério encadernado, a linha em sangue,
Mais e mais notas gravava, cujos selos
Guardavam seus segredos de curiosos,
E ele já as estava a molhar com dois olhos,
Beijou-os, partiu-os, gritar: "Ó sangue falso, 
Testemunho para testemunha sincera,
Espúrio de uma coleção de mentiras,
Mais negra e mais maldita que a tinta!
Assim disse ela, com raiva, destruindo,
Contentam-se com esse desagrado.
Perto dali pastava um pastor venerável
Um pastor que já foi um patife da corte 
E da urbe, um daqueles que sabem como
Ver as horas passarem no relógio;
O homem aproxima-se do aflito
E, usando o privilégio dos seus anos,
perguntou-lhe a causa da dor.
Desce em direção a ela; abaixar sobre 
O seu bastão de madeira abaixar 
Para de uma distância prudencial,
Sentar-se e repetir o seu desejo
De também fazer parte do drama:
Que se ele pudesse dar, ela declara,
Alívio da sua angústia, ele fá-lo-á
Por causa da clemência da idade.
"Que cá em mim", diz ela, "pai, vês
No traço de horas profundas de dor
Não deve guiar teu julgamento, de sou velha:
Das mágoas, não a idade, são a minha carga.
Eu poderia ainda estar a abrir-me
E ser a flor que eu era, se me tivesse dado,
pra mim o meu amor, em vez de amar em vão.
"Mas ai de mim, não sou lento a responder
Que razões às requisições deste amor,
de um jovem tão belo que as donzelas
Não conseguem tirar olhos do seu rosto,
Porque Vénus, sem lar, buscou um dos seus
e quando se deparou com ele e a sua planta esguia,
Cobrou maior idade que minha velhice,
"Os seus caracóis castanhos, pendiam soltos,
Que deviam ser sedosos nos seus lábios
Em cada leve exalação do vento.
As coisas agradáveis, por fim, passarão:
todos olhos sucumbiam aos seus encantos
Para ver seu semblante imaturidade
Do que deste paraíso nos reserva,
"Sem quase nenhum vestígio homem no queixo,
Que então um cabelo tipo fénix sobressaía
Numa pelúcia tenra sobre aquela pele fina,
Que sem barba era melhor do que com vieira,
Ainda ele ainda ganhasse com a barba.
Dos seus juízes não sabiam como decidir,
Se seria com ela ou talvez sem ela.
"Mais igualado em virtudes e presença,
Tendo a voz e a fala de moça; por outro lado.
Nos pulas dos homens era uma tempestade
Do tipo que se vê entre Abril e Maio,
De um vento delicado e montanhoso.
Com a sua rudeza e juventude, conseguia
dar à mentira uma aparência de verdade.
"Ele montava bem e, como muitos dizem,
"O bom cavaleiro dá ao seu cavalo o brio, 
Submissão, o orgulho no galope, no andar, 
No freio, na rédea, na passada".
Daí a controvérsia sobre o quanto o
Nobre equino devia à sua equitação
E quanto é que ele devia ao cavalo.
"Mas a contenda foi logo resolvida:
A sua essência deu vida e graça
Ao que era ornamento e aparência,
Lhe era adepto a ele, não à sua frente.
E aquilo ao lado, se agraciava a si próprio
Pedia mais; e em vez de diminuir,
A sua graça, espalhada, era maior.
"E assim, na ponta da sua doce língua
Dormiam e espreitavam, à sua vontade,
Das razões, argumentos e respostas
de várias condições e de todos géneros:
Transformou o choro em riso e lamento,
Dos risos, com uma graça sem esforço,
E extasiando instantaneamente toda a gente.
"Ele reinava assim nestes corações,
De jovens e adultos de ambos os sexos,
Dispostos a defender os seus valores
ou acompanhá-los com novos contextos.
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 W. SHAKESEARE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA
 

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