Pesquisar este blog

sexta-feira, maio 19, 2023

SONETOS DE SHAKESPEARE - FAÇA VOCÊ MESMO - TRAD. ERIC PONTY


Apesar de o livro ter sido publicado em 1609, ainda não há consenso quanto à data de composição, que varia entre 1592 e 1602. Para alguns críticos, é mesmo a mais antiga das suas obras. No seu catálogo, Francis Meres afirma que em 1598 os sonetos estavam a circular em manuscrito entre os seus amigos mais próximos. O volume de 1609 só foi reimpresso em 1640. Os 154 sonetos de Shakespeare tratam de temas como o tempo, o amor, a beleza e a mortalidade. Todos os poemas, exceto dois, foram publicados pela primeira vez num quarto de 1609, e os sonetos 138 e 144 foram previamente publicados na miscelânea de 1599 The Passionate Pilgrim, de 1599. O quarto termina com A Lover's Complaint, um poema narrativo de 47 estrofes de sete linhas escritas em rima real.

Os primeiros 126 sonetos são escritos a um jovem - o patrono do poeta -, incitando-o a casar e a ter filhos para imortalizar a sua beleza, imortalizando a sua beleza e transmitindo-a à geração seguinte. Estes sonetos também mencionam um poeta rival e a própria amante do poeta. A partir do soneto 127, Shakespeare dirige-se a uma Dama das Trevas, por quem confessa o seu amor e de quem fala frequente num tom depreciativo. Os dois últimos sonetos são tratamentos alegóricos de epigramas gregas que se referem ao pequeno deus do amor, O Cupido e há muitos questionam a sua autenticidade.
I

Desejamos ver que o mais belo abunde
para que a beleza em flor não morra,
pois até o fruto pródigo sucumbe
sendo justo que um retorno o suceda;
porém em ti mandam teus formosos olhos
e ao ser tu o alimento de tua chama,
semeadura a fome ali donde há de todo
e sóis tua própria presa maltratada.
Tu que hoje adornas com tu encanto o mundo
e anuncias sem igual a primavera,
mesquinhas ao vigor de ti capulho
e ao não gastar derrotas tuas reservas:
tenha dó e não deixes que tu gula
se parta ao pão do mundo com a tumba.

II

Quando um assedio de quarenta invernos
te sulque o belo prado de trincheiras,
tua roupa, que agora é ostensiva e nova,
será uma piscadela que já não interessa.
E quando te perguntem onde jaze
o esplendor de teus bem longe anos,
não diz que em teus olhos espectrais,
pois soará a artifício o da bochecha.
Darás más digno emprego a tua postura
si podes contestar: «Este filho meu
redime minha velhice, quadra minha suma;
meu patrimônio está em seu parecido».
chegada a velhice, sua jovem vida
acalentará teu sangue que se esfria.

III

Contemplaste ao espelho e diz a teu rosto
que já se reproduza sem demora;
si não renovas tua frescura em outro
ao mundo e a uma mãe infeliz.
Pois que donzela fará tão altaneira
para vedar seu rosto a tua semente?
E quem tão vaidoso que prefira
privarmos de beleza com sua morte?
Tu eras a viva imagem de tua mãe
e ela vê em ti o frescor de seus abris;
também tu na tua velhice poderás olhar-te
e ver a idade de ouro que agora vives.
Mas se preferes que não te recordem,
não engendres e tua imagem contigo morre.

IV

Encanto derrotado, por quê gastas
Tua herança de a postura só em ti?
Natura não provem apenas nada:
Tão só presta a quem dão sem fim.
Por que, então, belo egoísta, abusas
Dá largueza com que te hão munido?
Efêmero usuário, por que apuras
Tamanha suma e não obtive folga?
Se tu único cliente é tua persona,
Acabarás findando-se teu encanto;
Assim, quando por fim chegue tua hora,
Com que reserva farás adequar teu saldo?
Sem uso, tua beleza é coisa morta;
Usada, se converte em teu testamenteiro.

V

Estás horas obsequiosas que esculpiram,
E, tal rosto que cativar nosso olhar,
Serão das mesmas que, como tiranos,
Que desgraça o que agora irradia graça.
O tempo inexorável que transfigura
O Verão gracioso em Inverno feroz:
Desta seiva congelada, os ramos nus,
Do belo sob a neve, o campo estéril;
Se a essência do Verão não continuar,
prisioneira na sua prisão cristalina,
A beleza e o seu efeito, ambos morrem
Ao mesmo era, sem deixar memória viva.
Flores, mesmo que hibernem, destiladas
Não brilham, mas conservam a sua substância.

VI

Não deixes, pois, o inverno ríspido,
Se não tiverdes licor vosso Verão:
Adoça um vaso; que te procura onde,
Incluir a vossa bolsa e não a enterrar.
Tal uso não é usura irrefletida
Porque enche de alegria os que pagam,
Beneficia da criação de um igual 
A si, ou dez, se possível, improvável,
Serás dez vezes mais feliz que és hoje,
Em ver-se refletido em dez outros;
A morte não será capaz de o matar,
Porque se eles vivem, tu também vives.
Mas não desfrutes teu legado só,
Ou os vermes herdarão o teu encanto.

VII

Vê! Quando tua luz tenra já renasce,
E a tua pluma espreita do oriente,
Todos os olhos prestam homenagem,
Na sagrada majestade da estrela.
E quando, na tua meia-idade, arruma,
Robusto e ainda jovem, o cume etéreo,
Olhares que seguem tua viagem douro,
Que seguem em tua viagem dourada.
Mas quando se retira lentamente,
Na carruagem cansada, como um velho,
Olhos que o honraram já estão a afastar,
E deixam de o seguir nesta tua viagem,
Tu que estás no zénite da estrada,
Sem filhos, morrerás sem ser notado.

VIII

Se és música, que entristece-te ouvi-la?
Se o doce é doce estás a alegria é alegre,
Por que amais que tomais com amargura?
E se lhe comprazem no ignominioso?
Se não vos é ameno ouvir a união notas
De notas que se harmonizam se somam,
É porque te repreendem com voz suave:
Esta partitura não é só pra ti.
Cordas, como sabem, estão dispostas,
Pares melodiosos e pressionando-os,
Enquanto nos cantam um só acorde,
Eles parecem pai, filho e mãe amada,
E a sua canção, sem letra e com estilo,
Canta em ti: "Tu, solista, não és ninguém".

IX

Será que o medo do choro de uma viúva
Te fará desperdiçar tua vida sós?
Se morreres sem deixar descendência,
O mundo chorará como uma noiva
Grávida de viuvez e não da vida,
Não deixas rasto quando te vais ainda,
Outras viúvas, quando olham para os olhos.
De seus filhos que olham para o pai,
Quem é que um natimorto vós gastais,
Passa de uma mão para outra, não perde.
Belo, desperdiçado, tem vida curta;
Não usado, é destruído para sempre,
Não há amor ao próximo bata ao peito,
Que impõe a si próprio um crime tão abjeto.

X

Não amas ninguém: pois não queres negá-lo,
Nem sequer te cuidas consigo mesmo.
Mas, sem dúvida, és amado por muitos,
Qualquer delas foi ou é correspondida.
O ódio criminoso que há em vós
Incita conspirar contra vossa casa,
Obrigar deitar abaixo o seu nobre teto
Quando o mais nobre é vê-lo reparado.
Ponham a vossa cotar e eu, a minha dúvida:
Proibir o ódio mais do que o amor?
Sê, quão a tua presença, amável e gentil
Ou tentai, pelo menos, a compaixão.
Faz, para nós, outro igual; é justo
Que encanto possa viver em ti ou teus.

XI

Ao tempo que tuas minguas crescerás
Em um dos teus, ao que deixas;
Sei que, de jovem, saibas dar
Será tua propriedade quando envelheces.
Nele há sensatez, beleza, aumento;
Sem ele, necessidade, velho, estrago:
Pensando como tu, cessará o tempo
E ao mundo durará sessenta anos.
Que aqueles que natura desatende,
Os espessos, ferros, safos, se suprimam;
Na troca, o mais dotado mais obténs:
Com parte-o com cresce então vivas.
Natura te talhou como seu emblema;
Imprime mais, não deixes que se morra.

XII

Quando conto o relógio que diz as horas,
ver dia audaz afundar na noite hedionda;
Porque vejo a violeta a passar do ponto,
Lesmas zibelinas cobertas de alvo;
Quando vejo árvores altas sem folhas,
Partir do calor, fez grei se abatesse,
E o verde do Verão cingido em feixes,
Carregado no caixão com barba alva:
Então, tua beleza faço questão,
Que entre as perdas de tempo deves ir,
Já que os doces e as belezas se cedem.
Morrem tão já quão vê em outros crescer,
E nada contra a foice da era abriga,
Cobrai raça afrontar vos levar quanto.

XIII

Tu fosses tu próprio; mas, amor tu és,
Já não é teu, do que tu mesmo vives:
Contra este fim adjunto, preparar-te,
E tua doce analogia és outra dádiva:
Deves ser belo que tens de aluguel,
Não achar consignação; então, era,
Tu mesmo, muito depois da tua morte,
Quando tua doce emissão forma ostentar,
Quem deixa casa justa cair em ruínas,
Pecuária em honra possa defender,
Contra as lufas vento do dia de Inverno,
E a fúria árida frio eterno da morte?
Ninguém mais dos ruins; caro amor, tu sabes,
Tiveste um pai: deixas teu filho dizê-lo.

XIV

Ainda eu não seja versado em estrelas,
E que presumo que sei astronomia.
Não é para dizer sorte, boa ou má,
E nem prevejo a fome ou o infortúnio;
Não anuncio a sorte em pormenor,
Nem a cada um o teu vento, a tua chuva;
Nem sei quão prever as vicissitudes,
De um reino que decifra o firmamento.
Os teus olhos, duas ditas teimosas,
São a própria fonte da minha ciência,
Dizem-me, se semearmos nossa linhagem,
A verdade e da beleza triunfam;
Por outro lado, se ceder, auguro,
Que o vosso fim será o teu término.
SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

Nenhum comentário: