III
Olha-te ao espelho e diz ao teu rosto
Que ele então se reproduzirá sem demora;
Não renovares teu frescor num outro,
No mundo que uma mãe que desanimas.
Pois que donzela há de já tão altiva
Proibir o seu jardim à tua semente?
E quem é tão vaidoso que prefere
privar-nos da beleza com sua morte?
Tu és qual imagem viva da tua mãe,
E ela vê em ti a frescura dos seus anos;
Também tu, na idade tardia, olhar pra ti
E ver a idade douro em que hoje vives,
Mas se tu preferes não ser lembrado,
Não gere e a vossa ideia morre convosco.
IV
Encanto inútil, porque desperdiças
A tua herança de apóstrofo só em ti?
Para Natura não dá quase nada:
só empresta há quem dá sem parar,
Por que, então, belo egoísta, abusas bondade,
Da beleza com que foste dissipado?
Tu, efémero agiota, porque é te apressas,
Soma tão avultada e não tem descanso?
Se o seu único cliente é você mesmo,
Acabará por se privar do seu encanto;
Pra que quando a vossa hora afinal chegar,
Reserva compensarás a tua balança?
Sem uso, a tua beleza já está morta;
Usada se converte executor!
SHAKESPEARE - TRAD. ERIC PONTY

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