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sábado, maio 13, 2023

22 SONETOS & CLARA MUSA - ERIC PONTY

I
Versos de louvor, conceitos esparsos
Engendrados d´alma em meus zelosos,
Parte de meus doídos abrasados,
Com mais dor que liberdade nascida;

Expostos ao mundo em que vão perdidos,
Tão certos olvidaste e trocados
Que só donde fossem já engendrados
Foram por sangue versados pelo mundo:

Pois lhes furtais ao labirinto a Creta,
Ao Dédalo dos altos chamamentos,
A fúria ao mar, as flamas ao abismo,

Se aquela áspide formosa nós aceitamos,
Deixa a terra, entreter os fortes ventos,
Descansareis em vosso centro mesmo.

II
Quando imagino meus breves dias
Aos mui que ao tirano Amor me atreve,
E em meu cabelo antecipar a neve,
Mais que os anos, as tristezas minhas.

Vejo que são suas falsas alegrias
Veneno no cristal da razão bebe,
Por quem o apetite voraz se atreve
Vestido de mil doces fantasias.

Que ervas do olvido há dado gosto
A razão, que, sem fazer seu artificio
Quer contrarrazão satisfazer-te?

Mas consolar-lhe pode meu desgosto,
Que es desejo do remédio indicio,
Remédio de amor querer vencer lhe.

IV
Com minha dor da mortal tal ferida,
Dum agravo de amor me lamentava;
E por ver se minha morte se chegava,
Procurava que fosse mais crescida.

Todo no mal n´alma divertida,
Pena por pena sua dor me somava,
Cada circunstância ponderava
Que sobravam mil mortes a uma vida.

E quando, ao golpe dum e outro me firo,
Rendido ao coração dava, penoso,
Senhas de dar o último suspiro,

Não sei com que destino prodigioso
Volvi em meu acordo e disse: Me admiro?
Quem louvor há sido mais que ditoso?

VI
Tua ribeira passível, infausto rio,
E orelhas que em tuas ondas banhas,
Se volvem penas côncavas e estranhas,
E fogo teu licor saboroso e frio.

Abrace um raio teu frescor sombrio,
Os roxos lírios e as verdes canas,
Ninguém a água serras e das montanhas,
E só te acompanhei do canto meu.

Até a areia, que ao correr levantas
Se volvam feras áspides airadas;
Mas, ai! Qual vã maldição lhe espera!

Quando em ti meu sol banha suas plantas,
Como ofende-la tu, deixo sagrados
Lírios, orelha, areia, água e ribeiras.

VIII
Que és isto, Carine? Como tua atura
Se deixa assim vencer dum mal tão zeloso,
Fazendo seus extremos de furioso
De demonstrações mais que de loucura?

Em que te ofendeu séria, si se apura?
O porquê ao Amor culpas de enganoso,
Se não asseguro nunca, poderoso,
A eterna possessão sua formosura?

A possessão de coisas temporais,
Temporal és de Carine, e és abuso
Ao querer conserva-las sempre iguais.

Com que teu erro tua ignorância acuso,
Pois Fortuna louvor, de coisas tais
Propriedade não há dado, senão há uso.

 CLARA MUSA

Qual Musa palmilhasse vagamente
Passagem de Minas, pedregosa,
Tal no fechar tardio da cena rouca

se misturasse ao tom de meus encantos 
que era pausado, surdo; manhãs pairassem 
no céu de zimbro, e suas cores negras,

lentamente se abrem diluindo cores,
na escuridão maior, vinda das mentes
E de meu próprio ter desenganado,

A Miragem da Musa se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de a ter olhado me carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir luz que fosse tão impura
nem um clarão maior que o aceitável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do aspecto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria efígie sua debuxada
na face do mistério, nos abismos.

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ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

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