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quarta-feira, abril 05, 2023

JUAN BUSCÁN -TRAD.ERIC PONTY

 (Barcelona, 21 de Setembro de 1492 - Perpignan, 1542), foi um poeta e tradutor espanhol.

De família nobre, recebeu excelente formação humanística e serviu na corte dos Reis Católicos e depois na do imperador Carlos I de Espanha. Foi preceptor do Duque de Alba. Casou com uma culta dama valenciana, doña Ana Girón Rebolledo. Viajou à Italia como embaixador e ali encontrou Garcilaso de la Vega, com quem fez amizade.

Boscán, que havia cultivado antes a poesia cortesã no estilo dos cancioneiros, após sua estada na Itália introduziu na poesia espanhola o verso hendecassílabo, o soneto, a oitava real, o terceto encadeado, a canção estrófica e os hendecassílabos brancos, além de motivos da poesia de Petrarca, influenciando Garcilaso de la Vega e Diego Hurtado de Mendoza. Seu poema Hero y Leandro foi o primeiro em espanhol que tratou de temas legendários e mitológicos clássicos. Sua Epistola a Mendoza introduziu na Espanha o modelo da epístola moral, imitando Horácio, onde expôs o ideal estóico. Traduziu Il Libro del cortegiano de Baldassare Castiglione e preparou edições de Garcilaso de la Vega.

Nesta edição encontram-se os primeiros 16 sonetos feitos pelo poeta em língua espanhola introduzindo o Soneto.

XXI – Soneto

Nunca de amor esteve tão contento,
Que em seu elogio meus versos ocupar-se,
Nem a nada aconselhe que se enganei,
Buscando ao amor contentamento.

Isto sempre julgou meu entendimento,
Que deste mal todo homem a guardar-se,
E assim, porque esta lei se conservasse,
Folgar ser todos d´escarnecimento.

Oh vós outros andais traz meus escritos,
Os que de Deus tão grande merece haveis,
Que do poder de amor fostes quitados!


XXX – Soneto

As chagas que de amor, que são invisíveis,
Quero como visíveis que se apresentem,
Porque aqueles que humanamente sentem
Se espantem de acidentes tão terríveis.

Os casos de justiça mais horríveis,
Em público hão de ser porque castigados
Com sua torpeza, e de que se amedrontem
Até os seus corações invencíveis.

Eu trago aqui a história de meus males,
Donde ilustre de amor hão ter concorrido,
Tão fortes, que não sei como contá-las.

Eu só em tantas guerras fui ferido,
E são minhas feridas, os sinais,
Tão feias, que hei vergonha mostrá-las.

 XXI – Soneto

Nunca de amor esteve tão contento,
Que em seu elogio meus versos ocupar-se,
Nem a nada aconselhe que se enganei,
Buscando ao amor contentamento.

Isto sempre julgou meu entendimento,
Que deste mal todo homem a guardar-se,
E assim, porque esta lei se conservasse,
Folgar ser todos d´escarnecimento.

Oh vós outros andais traz meus escritos,
Os que de Deus tão grande merece haveis,
Que do poder de amor fostes quitados!


XXX – Soneto

As chagas que de amor, que são invisíveis,
Quero como visíveis que se apresentem,
Porque aqueles que humanamente sentem
Se espantem de acidentes tão terríveis.

Os casos de justiça mais horríveis,
Em público hão de ser porque castigados
Com sua torpeza, e de que se amedrontem
Até os seus corações invencíveis.

Eu trago aqui a história de meus males,
Donde ilustre de amor hão ter concorrido,
Tão fortes, que não sei como contá-las.

Eu só em tantas guerras fui ferido,
E são minhas feridas, os sinais,
Tão feias, que hei vergonha mostrá-las. 

XXXIII - Soneto

Há um bem não fui saído desta cama,
Nem da ama de leite fui eu deixado
Quando o amor me teve condenado
A ser dos que seguem a sua fortuna.

Deu-me logo misérias, duma a uma,
Por fazer meu costume em seu cuidado,
Depois em mim dum golpe há descartada,
Quando mal há debaixo de uma lua.

Na dor fui eu criado e fui eu nascido
Dando dum triste passo em outro amargo,
Tanto que si, há passos, és desta morte.

Oh, coração que sempre há de padecido,
Dê-me tão forte mal, como és tão largo?
E mal tão largo, diz, como és tão forte?

XXXIV – Soneto

Ao alto céu, que em seus movimentos,
Por diversas figuras discorrendo,
Em nosso sentir fraco está influindo
Diversos e de contrários sentimentos.

E uma vez move brandos pensamentos,
Outra vez asperezas vão incendiando,
E és seu uso ao trairmos revolvendo
Agora com pesa agora contento.

Fixo está em mim nunca haver mudança,
De planeta nem, porém em eu sentido,
Clavado em meus tormentos, todavia.

De ver outro hemisfério não hei esperança,
Assim donde uma vez me há anoitecido,
Ali me estou sem esperar o dia.

XXXV – Soneto

Só e pensativo de infértil desertos,
Meus passos dou cuidados e cansados,
Estorvados olhos trago levantados,
A ver não veja alguém meu desconcerto.

Meus tormentos ali vêm tão certos,
Vão meus sentimentos tão carregados,
Que um dos campos me soltem ser pesados,
Porque todos não estão secos e mortos.

Se ouço falar acaso algum dum rico,
E a voz do pastor dá aos meus ouvidos,
Ali se me resolve meu cuidado.

E ficam espantados meus sentidos,
Como é ter sido não haver desesperado
Depois de tantos cantos doloridos?


XXXVI – Soneto

Quis amá-los senhora, de meu grado,
Com brancos sentimentos brandamente
E então eu me senti tão de acidente 
Com o qual não ficarei melhorado.

Deste amor não haveis vós contentado,
Porque sair os vistes mansamente,
Senão que, por mostrá-los mais valente,
Minha branda vontade haveis forçado.

Aborreço-me na mansa vassalagem,
E quiseste de usar de sua tirania,
Vosso reino estragado com ultraje.

Danais maldosamente a fé que é minha,
Assim os quis quebrar em homenagem,
E si agora pudesse eu que o faria.
XXXVII – Soneto

Como sozinho o ar este cometa,
Ou algum outro sinal novo espantarmos,
E tanto seu temor faz ao avisarmos,
Que então cada um é grande profeta.

Assim mostra nosso bem clara e oculta,
Si a mim meus sentimentos quereis dar-nos
Não podemos, porém, muito alteramos,
Tão novo está no bem nosso planeta.

Não sofre minha dor nenhum estado,
De nenhum bem si não és mui pouco a pouco,
De outra arte penso ser sempre enganado.

Nunca creio ao prazer, ao que lhe toco,
E sim a vez tão mal, hei me assegurado,
Temo que tenham todos por um louco.

XXXVIII – Soneto

Quereis-me de vós, senhora, quando,
De vossas artes fui um ser tão ignorante
Que me cambava em ver vosso semelhante
Vosso ser pelo gesto imaginando.

Ficasse depois de desenganado
E vi no que de vós me viste diante,
Que vosso uso e natura és culpada
Que vós já sobre vós não tenhais mando.

Assim que agora não há de que queixar-me,
Meu direito e minhas queixas hão parado,
Pois vós não tendes que já de pagar-me.

Não ei de ser eu de prudência tão minguado,
Que deste fogo, no qual fui queixar-me
Fiquei queixoso em ver que há queimado.

XXXIX – Soneto

Não és tempo já de não ter temperança,
Se minha dor quisesse consenti-la,
Perdoou minha fatiga e ao senti-la,
Ao desgosto que do sofrer me alcança.

Mas ao amor me põe com tanta sua lança,
Que oxalá já pudesse não de sofre-la;  
Hajam de mim os homens já manchados,
Sequer porque sou eu sua semelhança.

Caiu e levanto, espero e desconfio,
Não tenho de viver senão que sinto,
Já quando sou parece desvario.

Si um pouco mais em meu penar porfio,
Em mim presto se acabará o tormento,
Seu poder acabando com o meu.


XL – Soneto

Vime através em fortes penas dado,
Quase sem vida, e os demais perdido,
E então fui de prudência de tão caído
Que em tanto mal me vi estar descuidado.

Hei entendido depois tão mal estado,
Quando as gentes dele me hão advertido,
E si agora, aqui estou arrependido,
Não me contento, pois, tanto hei demorado.

Não demore em entender logo engano,
Porém, o miserável, não lhe queria,
Acabar de crer de tão forte dano.

Venceu ao fim a verdade minha porfia,
E ficou confirmado o desengano,
Tomando nova volta na alma minha.

XLI – Soneto

Deixa-me em paz, oh duros pensamentos,
Basta-os do dano e a vergonha feita,
Se todo é passado de que se aprova,
Inventar sobre meus novos tormentos?

Natura em mim perdeu seus movimentos,
N´alma já dos pés da dor que si enche,
Tem por bem, nesta regra tão estreita,
A tantos casos, a tantos sofrimentos.

Amor, fortuna e morte que és presente,
Me levaram ao fim por suas jornadas,
E minha conta devia ter me chegado.

Já quando acaso arrochar acidente,
Si volto ao rosto e olho minhas pisadas,
Temo em ver me por onde me hei passado.

XLII – Soneto

Eu conto já dos passos que vou dando,
Vendo bem as terras que eu me trespasso,
Si o peço em me dar um só do passo,
Quero sempre parar e sempre ando.

Trago este corpo que por força mando,
E com carga dele vou me tão ao passo,
E em pouca terra tanta da dor passo,
Que és quando ando a andar-me reparando.

Eu que farei que me parti com cuidado?
Mal volverá quem tanto mal me há feito,
Assim és agora mal quando eu faço.

Ando comigo em tudo já tão penado,
Que em mim de nada fico satisfeito,
Porém de ver que não me satisfaço.

XLIII – Soneto

Põe-me na vida mais brava importuna,
De pedir mim vezes a Deus mortalha,
Põe-me idade madurês, mas que trabalha,
Nos braços da ama ou em nesta cama.

Põe-me embaixo em próspera da fortuna,
Põe-me do sol ao trato humano encontra,
O a do por frio ao alto mar se imóvel,
No abismo que encima desta lua.

Põe-me dos nossos pés vivem as gentes,
O na terra ou em céu ou em que vento,
Põe-me dentre feras, posta entre dentes.

Da morte e do sangue és tudo o fundamento,
Onde queira conservar sempre presente,
Os olhos por quem morro tão contento.

XLIV – Soneto

Quando será que volta a ver os olhos,
De donde amor me fez tanta da guerra
E possa estar olhando aquela terra,
Que me deixei com todos meus despojos?

Não posso, triste, mais com meus nojos,
A cada passo o coração me cerra,
Ver tanto canto em meio e tanta serra,
Por viver me arrancam desta abundância.

Ando mil vezes por tomar o meu voo,
E volver mal, sem esperar razão,
Haver por mais prudência esta loucura.

Porém logo levanto-me um tremor,
Conosco que me engana ao coração,
Estando estou por não estragar a cura.

JUAN BUSCÁN -TRAD.ERIC PONTY


ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

Sonetos e Romances - Pedro Calderón de La Barca – TRAD. ERIC PONTY

Para às flores

Estas que foram pompa e alegria
despertando ao albor da manhã,
a tarde serão lástima vã
dormindo aos braços da noite fria.

Este matiz que ao céu desafia,
Iris listada de ouro, neve e grama
será escarmento da vida humana:
Tanto se empreende ao terminar dum dia!

Eflorescer as rosas madrugaram,
para envelhecer floresceram:
Cunho e sepulcro em botão falaram.

Tais os homens suas fortunas vieram:
em um dia nasceram e aspiraram;
que passados séculos horas foram.

Há um altar em Santa Teresa

Há que vês em piedade, chama e voo,
Ara o solo, sol à queima, ao vento ave,
Argos de estrelas, imitada nave,
Nuvens vence, ar rompe toca ao céu.

Esta pois se cumpre no Carmelo
Mira fiel, mansa ocupa e ara grave,
Com admiração mostra suave,
Casto amor, justa fé, piedoso céu.

Ô militante igreja mais segura,
Pisa a terra, ar ardente, mar navega,
E há mais pilotos que seu governo fia.

Triunfa eterna, está firme, vive pura;
Que há no seu golfo que te vê te nega
Culpa infiel, torpe erro, cega heresia.


Crisântemo

Quem em humana sorte fará tido
juntos tantos afetos desiguais?
Males pois não bastou haver sido males,
senão males opostos haver sido?

Ao céu por se saber deste pedido,
dum trio Deus mistérios celestiais,
morte ao pedido ao mirar-se, em tais
penas, da beldade favorecido.

Pois Como vida e morte meu desvelo
é possível céu de alguma vez peça,
se é pedir juntos perdida e consolo?

Mais certo ao pedir-lhes não me impeça
vida o morte, suposto que é do céu
árbitro desta morte e desta vida.

Para o Mirto

Sem cuidado o cabelo, e tão incerta
ao coração ao sangue redimida,
tão desmaiada com ar de dormida,
e dormida com ar de despertada.

Pouco certo ao viver, beldade certa,
na alma sem obrar em si de escolhida,
para poder matar como com vida,
e para senti-lo, como se morta.

A vi, ao ir se falar, disse advertindo:
se formoso de ingrato é argumento,
desmaiada, e esquiva terá se ouvido.

Logo em vão é dizê-lo que sinto,
mal poderá senti-lo sem sentido,
se algum com ele não tem sentimento.


Aurélio

Lício? Esta obstinação te porfia?
Mariposa solicita do dano
Morrer quer à luz do desengano?
Teus sóis culpa, obediência minha.

Que muito se confia de quem se fia,
Sabes que Lisis com o traidor engano
Memórias há de um ano outro ano
Nos olvidos sepultou de um dia?

Ô quando avaro está dor contigo
Pois algum da queixa não se atreve dá-la,
De mim, de Lisis, nem ti tampouco?

Que teu zeloso, ela mulher, eu amigo
Nos fala desculpados, pois nos fala
Ao meu fiel, a ela fácil, e a ti louco.    
  
Do Pecador ferido

Se este sangue, por Deus, ser poderia
que dá ferida aos olhos passara,
antes de que a verteria que a chorara,
fora eleição e não violência se fora.

Nem o interesse ao céu me moveria,
nem do inferno o dano me obrigaria;
só por ser quem é a derramara
quando nem prêmio nem castigo houvera.

E se aqui Inferno e céu que me agonia,
abertos viera, cuja pena ou cuja
glória estivera em mim, se prevenia.

Ser vontade de Deus que me destruía,
o inferno me fora por ser da minha
e não se entrara no céu sem ser sua.
del Rei

Vendo estou meus impérios dilatados,
minha majestade e, glória, e grandeza,
em cuja variedade natureza
perfeiçoou de espaços seus cuidados.

Fortalezas possam ser levantadas,
minha valia há nascido da beleza,
a humildade de uns, de outros há riqueza,
o triunfo são arbítrios destas estrelas.

Para reger tão desigual, tão forte
monstro de muitos colos, me concedam
os céus de atenções das mais felizes.

Ciência me deem com que reger acerte,
que é impossível que domar-se possam,
com uma carga não mais tantas cervizes.

Formosura

Vendo minha beldade linda e pura;
nem ao rei invejo, nem seus triunfos quero,
pois mais império ilustre considero
que é ele que minha beleza assegura.

Porque se ao rei subjugar-se procura
as vidas eu, as almas, logo infiro
com causa que meu império é primeiro,
pois reina na almas desta formosura.

O pequeno mundo a filosofia
chamo ao homem; sem nele meu império fundo,
como o céu lhe tem, como o solo,

bem pode presumir a deusa minha
ao que homem chamou de pequeno mundo,
chamará a mulher de pequeno céu.

Imagem de Maria Imaculada

Penso com Filho nos braços Maria
que dum trono de nuvens se sentava,
cuja Alba e cujo Sol a um tempo dava
luz para noite, escuridão ao dia.

Temor e amor, grave e formosa, unia
com olhos de palomba que mirava,
e sua manta ao coração se prostrava
com um só cabelo que lhe feria.

Desta ideia, formada a bela cópia,
flor a flor, rosa a rosa, estrela a estrela,
que algum de original sempre cópia,

Cá sem original há de fazê-la;
mal poderá sair a imagem própria
de Original que nunca culpo nela.

Interpretação de José

Que ao rio hieroglífico se há sido
do tempo - grão senhor - prova é bastante
que sempre corre e sempre vai adiante,
sem que nunca haja atrás retrocedido.

Logo é o tempo, de que há nascido
em espigas e vacas, o abundante;
é o tempo também é inconstante
tudo o deixa a nada de reduzido.

De sete férteis anos se imagina
em espigas e vacas, cujo agrado
em outros sete estéreis se termina.

E, pois, te avista ao golpe nesse âmago,
a abundância preveem contra a ruína
e a felicidade contra o estrago.

A Noite


Estes rasgos de luz, estas centelhas,
que cobram com âmagos superiores
alimentos do Sol em resplendores
aquilo vivem que se duela delas.

Flores noturnas são: ao que tão belas,
efêmeras padecem seus ardores,
pois se um dia é século das flores,
uma noite é a idade das estrelas.

Desta, pois, primavera fugitiva,
e nosso mal, e nosso bem se infere;
registro nosso, o morra sol o viva.

Que duração haverá que homem espere,
que mudança haverá que não o receba
do astro que a cada dia nasce e que morre?

Centauro

Apenas o inverno gelado e branco
este monte com neves desvanece,
quando desta primavera floresce,
e o gelado que se viu, se olha ufano.

Passa a primavera, passa o verão
menosprezos do sol sofre e padece;
chega alegre o outono se enriquece
o monte de verdor, de fruta ao plano.

Tudo vive sujeito na mudança:
dum dia para outro dia dos enganos
cumpre dum ano, este outro alcança.

Com esperança sofre desenganos
um monte, que faltar-te a esperança
ia se rendera ao peso destes anos.

Laura

Que gênero de ardor é a que chegou
hoje a sentir, que mais parece encanto,
pois luzindo tampouco abrasa tanto
e abrasando tão mudo, arde tão cego?

Que gênero de canto é sem sossego
este que a tanto incêndio nos dá espanto,
pois ao fogo apagar não pode ao canto,
nem canto pode consumir o fogo?

Donde matéria não há, não dá chama.
Mas aí! Que da matéria nesse abismo
uma e outra apreensão é quem inflama.

Logo certo será este silogismo:
se fogo de apreensão tem há quem ama,
amor e inferno tudo é dum mesmo.


Soneto a São Isidoro

Os campos de Madri, Isidoro santo,
emulação divina são do céu,
pois humildes os anjos são seu solo
tanto celebram e veneram tanto.

Celestes labradores, enquanto
são amorosa voz, com santo celso
vos enviais angélico consolo
doce oração, que fertiliza o canto.

Ditoso agricultor, em que se encerra
na colheita de tão férteis despojos,
que divino humano os dá de tributo

Não recebeis o fruto da terra,
pois cozeis dos céus vossos olhos,
semeando aqui suas lágrimas, o fruto.

Sonhos do Faraó

Eu sonhei que dum rio da ribeira
sete vacas belíssimas saiam,
e quando de suas margens padeciam
as esmeraldas desta primavera;

vi outras sete de lodosa esfera
tão fracas que esqueletos pareciam,
saindo contra elas, consumiam
a altivez que de sua idade primeva.

Depois vi sete férteis das espigas,
uma lágrima cada grão do orvalho,
e outras sete, que áridas fatigas,

sem raleá-las abril, ceifou-se estio;
lidando dumas de outras inimigas,
venceu seco com o levar o rio.

Pedro Calderón de La Barca – TRAD. ERIC PONTY


ERIC PONTY -POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA










terça-feira, abril 04, 2023

Luis de Góngora y Argote TRAD.ERIC PONTY

 Era filho de Francisco de Argote, jurista e corregedor em Córdoba, e de sua esposa, Leonora de Argote, pertencendo assim a uma das famílias privilegiadas da cidade.

Aos 15 anos foi para Salamanca para cursar os estudos jurídicos e filosóficos na sua Universidade. Cursou a Universidade sem destaque, e decidindo-se enveredar pela carreira eclesiástica, tomou ordens menores em 1585. Por essa altura já era conhecido como poeta, sendo os seus dotes líricos louvados por Miguel de Cervantes na sua La Galatea.

Iniciou a sua carreira eclesiástica com um emprego na catedral de Córdova, mas a sua vida boémia e a mordacidade de algumas das suas poesias trouxeram-lhe a reprovação dos seus superiores na igreja, sendo-lhe negada a ordenação sacerdotal.

Em 1605 foi-lhe finalmente concedida ordenação sacerdotal e por influência do duque de Sandoval foi nomeado em 1617 para um dos postos de capelão honorário do rei Filipe III de Espanha, fixando-se então em Madrid e passando a frequentar a corte. Diz-se que se arruinou financeiramente com o seu estilo de vida, amante de luxos e de divertimentos, e por ter procurado conseguir cargos e prebendas para quase todos os seus familiares.

No ano em que faleceu (1626) o impressor Juan López Vicuña publicou uma antologia intitulada Obras en verso del Homero español, a primeira edição impressa dedicada exclusivamente às obras de Góngora. Apesar de uma dedicatória ao censor geral, a edição foi mandada recolher pela Inquisição, tendo pouca divulgação. Nova edição surgiu em 1633 pela mão de Gonzalo de Hoces, conhecendo algum sucesso.

Apesar de já nas suas obras iniciais encontrarmos o típico conceptismo do barroco, Góngora, cujo talento era o de um esteta com forte tendência para a autocrítica (costumava dizer: el mayor fiscal de mis obras soy yo), não se conformava com os cânones existentes. Assim, decidiu tentar, segundo as suas próprias palavras, hacer algo no para muchos e intensificar ainda mais a retórica e a imitação da poesia latina clássica. Para tal, introduziu numerosos cultismos e una sintaxe baseada no hipérbato e na simetria.

A Juan Rufo, de sua “Áustria”

Cantastes Rufo, já, tão heroicamente,
Daquele César, novo augusta história,
Que está duvidosa entre os dois glória,
E a qual se deva dar nenhum assento.

E assim Fama, que hoje de gente em gente,
Quer que dos dois a igual da memória,
Do tempo e do olvido haja duma vitória,
Une do louro a cada qual à frente.

Deveis com grande razão ser igualados,
Pois fostes cada qual único em sua arte,
Ele só em armas, vós em nas letras só.

E ao fim ambos igualmente ajudados,
Ele à espada do sangramento de Marte,
Vós da lira do seu sagrado Apolo.

A Córdova

Oh excelso muro, oh torres consumadas,
Da honra da majestade, da galhardia!
Oh grande rio, grande rei Andaluzia,
De areias nobres, já que não doiradas.

Oh fértil canto, oh serras levantadas,
Que privilegia o céu e doira o dia!
Oh sempre gloriosa pátria minha,
Tanto de plumas quanto de espadas.

Se entre aquelas ruinas e seus despojos,
Que enriquece Genil e Dauro banha,
Tua memória não foi alimento meu.

Nunca mereçam meus ausentes olhos,
Ver teu muro tuas torres e teu rio,
Teu canto e serra, oh pátria, oh flor da espada!

De uma enfermidade de Dom Antônio de pazos, bispo de Córdova

Deste mais que a neve, branco touro,
Robusta honra que deste gado meu,
E destas aves duas, que ao novo dia,
Saúdam de haver com doce choro.

A ti ele mais rubro, Deus do alto coro,
Está estranha faço oferenda pia,
Sobre este com flama, vencido envia,
Seu fumo de âmbar e sua chama de ouro.

Porque tanta saúde seja reposta,
Do nosso sacro e douto pastor rico,
Que um os que nascerem estão em vão.

Já que das três coroas que neste unido
Ao menos maioral do Tajo, e sejam
Planta abrigo, arminhos a com pelica.

Do Márquez de Santa Cruz

Não em bronzes, que caducam, mortal mão,
Oh católico Sol dos gananciosos,
(que já entre gloriosos capitães
És deidade armada, Marte Humano.)

Esculpirá teus maduros, senão em vão,
Quando descobrir queira tuas fadigas,
E as bem reportadas bandeiras,
Do Turco, do Inglês, do Lusitano. 

Em um mar de tuas velas coroado,
De teus remos ao outro escarnecido,
Tábuas serão de coisas tão estranhas.

Da imortalidade ele não cansado,
Pincel os logre, e sejam tuas rojadas
Alma do tempo, espada do olvido.


A Don Luís de Vargas

Teu (cujo ilustre entre uma e outro muro,
Da imperial cidade, pátrio edifício,
Ao Tajo olha em seu húmido exercício,
Pintar os campos e doirar a areia).

Marginalize aquele Lauro em boa hora,
Aqueles dois (já mudas de ofício),
Relíquias doces do gentil Salicio,
Heroica lira, pastoral aveia.

Chegadas, oh claríssimo mancebo,
Ao douto peito, a sua suave boca,
Punindo lei ao mar, freio aos ventos.

Sucede em todo castelhano Febo,
(Que agora és glória muita e terra pouca),
Na pátria, em profissão, em instrumentos.

Na morte de duas senhoras monjas irmãs naturais de Córdoba

Sobre as urnas de cristal tão lavradas
De vidro em pedestais tão sustentadas
Chorando estão as ninfas já sem vidas,
O Betis em suas húmidas moradas.

Tanta sua formosura Dele amá-las
Que ao que as demais ninfas doloridas,
Se mostram de seu terno fim sentidas,
Ele derramado em lágrimas cansadas.

- Almas – lhes disse – vosso voo santo,
Seguir penso até esses sacros ninhos,
Do bem se goza sem tremer contrário.

Que vista essa beleza em meu grão canto,
Por o céu seremos convertidos,
Que gémeas vós outras, já em Aquário.  

De pura honestidade ao templo sagrado

De pura honestidade ao templo sagrado,
Cujo belo cimento e gentil muro,
De branco nácar e alabastro duro
Foi por divina mão já fabricado.

Pequena porta de coral apreciado,
Claras umbreiras de olhar seguro,
Que a esmeralda fina verde puro,
Haveis para virdes tão usurpados.

Soberbo teto cujas cimbras ouro.
Ao claro sol, enquanto em torno gira,
Ornam a luz, coroam a beleza.

Ídolo belo, há quem humilde adoro,
Ouve piedoso ao que por ti suspira,
Teu hino canta, e tuas virtudes rez

  
Trás vermelha Aurora, o sol doirado,

Trás vermelha Aurora, o sol doirado,
Por as portas saia, deste oriente,
Ela às flores a rosada frente
Ele de acesos raios tão coroados.

Similar seu contento o seu cuidado,
Qual com voz doce, qual com voz dolente,
As ternas aves com à luz presente,
No fresco ar e nesse verde prado. 

Quando saiu, bastante a dar, Leonora,
Corpo aos ventos e as pedras da alma,
Cantando seu rico albergue e logo.

Nem ouvi as aves mais, nem vi Aurora,
Porque ao sair, o todo ficou em calma,
O eu, que és mais certo surdo e cego.

Oh clara honra líquido elemento

Oh clara honra de líquido elemento,
Doce arrozinho de corrente planta,
Cuja água dentre erva se dilata
Doação sonora com passo lento.

Pois a por quem gelar e arder me sento
(durante em ti que olha) do Amor retrata,
De seu rosto a neve deste escarlate
Em teu tranquilo e brando movimento.
Vete como ti vais, não deixes folhas,
A undosa renda a cristalina parada
Com quem governa tua veloz corrente.

Que não é bem que confusamente acolha
Tanta beleza em seu profundo seno
O grande senhor do húmido tridente.

Ao transmontar do sol, a ninfa minha

Ao transmontar do sol, a ninfa minha,
De flores despojadas ao verde canto,
Quantas trocavas da formosa mão,
Tantas ao branco pé crescer fazia.

Ondulações ao vento que corria,
Ao ouro fino com error galante,
Qual verde folha de álamo vigor,
Se move ao roxo despontar do dia.

Mas logo que uniu suas Senas belas,
dos vários despojos desta sua fralda,
(término posto de ouro e da neve),

Jurarei que vazio mais sua grinalda,
Com ser das flores, a outra ser de estrelas,
Que a ilustra ao céu em luzes novas.

Oh clara honra líquido elemento

Oh clara honra de líquido elemento,
Doce arrozinho de corrente planta,
Cuja água dentre erva se dilata
Doação sonora com passo lento.

Pois a por quem gelar e arder me sento
(durante em ti que olha) do Amor retrata,
De seu rosto a neve deste escarlate
Em teu tranquilo e brando movimento.
Vete como ti vais, não deixes folhas,
A undosa renda a cristalina parada
Com quem governa tua veloz corrente.

Que não é bem que confusamente acolha
Tanta beleza em seu profundo seno
O grande senhor do húmido tridente.
Qual parece ao romper da manhã

Qual parece ao romper da manhã,
Pérola branca sobre frescas rosas,
Os quais mãos fecha artificiosas,
Bordadura pérola sobre grande.

Tais de minha pastora soberana,
Pareciam as lágrimas formosas,
Sobre as sobrancelhas milagrosas,
De quem mesclados leites, sangue mana.

Laçando as voltas de seu terno canto,
Um ardente suspiro em meu peito,
Tal que o mais duro canto enterneça.

Si enternecer bastara um duro canto,
Olhas que haver com um coração fato,
Que ao canto e ao suspiro foi de cera.

Já beijando umas mãos cristalinas

Já beijando umas mãos cristalinas,
Já me anulando a um branco e liso colo,
Já esparzindo por aquele cabelo,
Que Amor sacou entre ouro de suas minas.

Já quebrando naquelas pérolas finas,
Palavras doces mil sem merece-lo,
Já cogitando de cada lábio belo,
Purpuras rosas sem tremor de espinhos.

Estava, oh claro sol tão invejoso,
Quando tua luz me ferindo aos olhos,
Matou minha glória, e acabou minha sorte.

Si o céu já não é menos poderoso,
Por que não dão as tuas mais iradas,
Raios, como teu filho, te deu morte. 

Já beijando umas mãos cristalinas

Já beijando umas mãos cristalinas,
Já me anulando a um branco e liso colo,
Já esparzindo por aquele cabelo,
Que Amor sacou entre ouro de suas minas.

Já quebrando naquelas pérolas finas,
Palavras doces mil sem merece-lo,
Já cogitando de cada lábio belo,
Purpuras rosas sem tremor de espinhos.

Estava, oh claro sol tão invejoso,
Quando tua luz me ferindo aos olhos,
Matou minha glória, e acabou minha sorte.

Si o céu já não é menos poderoso,
Por que não dão as tuas mais iradas,
Raios, como teu filho, te deu morte. 
Luis de Góngora y Argote TRAD.ERIC  PONTY


ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

DON FRANCISCO DE QUEVEDO Y VILLEGAS -TRAD. ERIC PONTY

 De uma família fidalga, a infância de Quevedo passou-se na Corte, onde os pais desempenhavam altos cargos. O pai, Francisco Gómez de Quevedo, era secretário da princesa Maria, esposa de Maximiliano da Alemanha, e sua mãe, María de Santibáñez, era camareira da rainha. Rapaz ainda, sobredotado intelectualmente, mas de pés disformes, coxo de uma perna, gordo e curto de vista, tornou-se órfão aos seis anos de idade, refugiando-se nos livros que consultava no Colégio Imperial dos Jesuítas de Madrid. Em 1596 frequentou a Universidade de Alcalá de Henares. Aproveitou para aprofundar os seus conhecimentos em vários ramos, como em filosofia, línguas clássicas, árabe, hebreu, francês e italiano.

Tendo a Corte voltado a Madrid, Quevedo regressa em 1606 e reside aí até 1611, onde trabalhará no ofício das letras, ganhando a amizade de Félix Lope de Vega (que o elogia por diversas vezes nos seus livros de Rimas; assim como Quevedo faz críticas igualmente elogiosas às suas Rimas humanas y divinas de Tomé Burguillos, seu heterónimo) e de Miguel de Cervantes (que o louva em Viaje del Parnaso; correspondendo-lhe Quevedo com os elogiosos comentários de Perinola), que o acompanhava na Confraria dos escravos do Santíssimo Sacramento.

Em 1639, depois de um memorial que apareceu debaixo do guardanapo do rei, Sacra, católica, cesárea, real Majestad..., onde era denunciada a política do Conde Duque, foi detido, confiscaram-lhe os livros e é levado para o convento de São Marcos de Leão. Depois de libertado desta prisão vergonhosa, retira-se para a Torre de Juan Abad. Será na sua vizinhança, no convento dos padres Dominicanos de Villanueva de los Infantes, que morrerá, a 8 de Setembro de 1645.

A estátua de Do Rei Don Felipe III

Oh quanta majestade! Oh quanto havia
a tecer a Felipe invicto e o santo 
me presume do bronze que lhe imitou 
Oh quanto estes semblantes à luz presumem!

Os Séculos reverenciam não consomem,
Vulto que igual adoração e espanto,
Mereceu amigo e inimigo entanto,
Que de sua vida, dilatou o volume.

Ouso imitar artífice toscano,
Ao que Deus imitou de tal maneira
Que és por rei e por santo soberano.

O bronze por sua imagem verdadeira
Se introduz na relíquia e deste canto
Em majestade augusta reverbera.

Mais de bronze serás que tua figura,
Quem olhas no bronze, senão lhe chora,
Quanto já ao sentimento que adora,
Fará brando o metal a forma dura.

A mesma estátua

Quis que do teu cavalo a ferradura,
Pisar líquidas sendas, que da aurora,
Ao seu passo perfuma donde flora,
Ostenta varia e fértil formosura. 

A dura vida com mão lisonjeira,
Ti deu Florência artífice engenhoso,
E reinas nas almas e nas esferas.

O bronze que ti imita és tão virtuoso,
Oh quanto do gládio da glória fora
Sim os anos lhe imitaras numeroso!

Inscrição Da estátua de César Carlos V em Aranjuez

As selvas o fiz navegar, e ao vento,
O pavio em suas velas que respeitava 
Quando Cortez sua respiração taxa,
Com necessidade do seu movimento.

Dilatou sua vitória ao vencimento,
Pelas ribeiras que o Danúbio lava,
Caiu África ardente, gemeu escrava,
Falsa religião no fim sangramento.

Viveu Roma a desordem de sua gente,
Si não piedosa ardente valentia;
E de Espanha ao rumor sossegou ausente.

Retirou ao Solimão, temor da Hungria,
E por se retirada mais valente,
Se retirou a si mesmo ao derradeiro.

Para Um Retrato de Pedro Giron
Que fez Guido Bolonês, armado e gravado em ouro as armas

Vulcano as forjou, com seu toque Midas,
Armas em que outra vez a Marte cerra,
Rígidas com seu preço desta serra
No rubro metal descoloridas.

Ao ademais seguiram as feridas,
Quando seu braço estremeceu à terra,
Não as prestou ao pincel deu-as para guerra,
Flandres as viveu sangrentas, temidas.

Pôr o que tem do seu Girão de Osuma,
Sabem ser apassiveis os horrores,
E nelas és carmim a sua Trácia Lua. 

Fulminam seus semblantes vencedores,
Assistiu à arte em Guido a Fortuna,
E o lenço és belicoso nas suas cores.


A festa de Touros e Cañas do Bom Retiro
No dia de grande neve

Chovem caladas águas nas suas margens,
Brancas de neves mudas, passa o dia,
Mas não sem majestade na sombra fria,
E olha ao sol, que se esconde nos balcões.

Não se admitem ao Inverno corações,
Assistidos de ardente valentia,
Que influi na Espanhola Monarquia,
Força igualmente em touros e punhais.

O brasão de Jarama, umedecida,
Ardendo a ancha frente em turva sanha
Em sangue verte a sua púrpura vida.  
 
E lisonjeira ao grande Rei da Espanha,
A tempestade, em neve escurecida,
Aplaudi-o o braço, ao cedro e a canã. 


Mostra com ilustres exemplos quão cegamente desejam os homens

Proveu deus companhia ao grande Pompeu,
De piedosas e moléstia das febres,
A saúde abundou de desventuras,
E lhe usurpou as suas glórias ao troféu.

Quem poderá desculpar nosso desejo,
Si no cerco do sol caminha às escuras,
Nas sombras em companhia de sepulturas,
Faltante desta morte neste rodeo.

Se Mario a alma esplêndida exalava,
Tão fértil com os triunfos desta guerra,
Largos, desterros e cárcere ignorara.

Muita da treva, esta noite se encerra,
Quando destina ao homem e tudo para,
Em pretendida morte, e pouca terra.

Sêneca devolve a Nero a riqueza que lhe havia dado

Esta miséria grão senhor honrosa,
De humana ambição alma doirada,
Esta pobreza ilustre acreditada,
Fatiga doce, inquietude preciosa.

Este metal da cor que faz medrosa
E da força contra tudo foi usada
Devolvo que alta dádiva invejada
Enferma fortuna mais enfadosa.

Recebo Nero, que em douta história,
será mais receber foi lhe daria,
E mais segurança em mim ao devolve-lo.

Pois julgaram te sendo mais glorioso,
Que desse ouro há quem supôs depreciá-lo,
Para mostrar que supôs merece-lo.  

DON FRANCISCO DE QUEVEDO Y VILLEGAS -TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

Ao Leitor - CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY

A tolice, o erro, o pecado, a mesquinhez,
Ocupando nossos espíritos e corpos,
Que nos alimentam nossos amáveis remorsos,
Como mendigos nutrem seus parasitas.

Pecados são teimosos arrependimentos,
Nós no fazer pagar muita nossa confissão
Nossas voltas alegremente em caminhos lodosos
Crentes vis choros lavar todas nossas nodoas.

Sobre orelha do mal deste Satã Trismegisto,
Que ilude longamente nossa alma encantada,
E o rico metal tinir de nossa vontade
É tudo vaporiza por sábio tão químico.

Este diabo que tem filhos que nos agitam!
Aos objetos repugnantes que nos encontramos 
Cada dia versa inferno nossos decaímos passos
São horrores defeitos das trevas que fedem.

Como um deboche pobre sexual comido,
O seio martirizado duma antiga meretriz,
Nossas fugas passagens prazeres clandestinos
nos incitarmos bem fortes como velha laranja.

Apertado formigando como milhão vermes,
Em nosso cérebro bródio um povo demónios,
quando nós respiramos Morte em nossos pulmões,
desce rio invisível com as surdas queixas.

Se violência, veneno, punhal, incêndio,
Não fazem passar ainda borda seus agradáveis desenhos,
Nas telas banais dos lastimáveis destinos,
Que esta nossa alma, hélas não está passar suficiente ousada;

Mas entre meio dos chacais, panteras, os linces,
Macacos, escorpiões, abutres, as serpentes,
Os monstros estridentes urradores, rosnando, rastejantes
Em mendicidades infames de nossos vícios;

Ele não está mais feio, mais perverso, mais imundo,
Ainda ele nem empurre nem grandes gestos nem grandes gritos,
Ele faça de boa vontade da terra um caco
E em bocejo engolindo o mundo.

Este tédio! _ Olhar carrega choro involuntário,
Ele sonha cadafalso fumegante seu assovio
Tu conheces leitor, este mostro delicado
_ Hipócrita leitor – meu semelhante – meu irmão!

CHARLES BAUDELAIRE - TRAD. ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY


quinta-feira, março 16, 2023

MOEMA ENTRE JANELAS - ERIC PONTY

Acreditei a mim mesmo sob um véu gracioso,
Descobrir uma mulher jovem, indefesa,
Ternura às orações, ou mesmo em trança e saia,
Como quando se estava ao sol da geada;

Mas, tendo destapado o ardor que oculto,
E o forte desejo que em mim está impregnado,
temperado como uma coluna alta
ou pedra ou sílex para o céu mais conturbado.

E ela, num lindo jaspe embrulhado, vi,
Da Medusa mostram a aparência e os braços,
Tal maneira que fiquei gelado e rouco; entre um gato.

E queria dizer, e não se retirou, presença,
enquanto estava fora duma pedra e dentro o fogo:
espeta-me senhora, mas primo me põe aceso.

II

Ciúme disse: 'Vou dar uma olhadela',
Que numa inspeção mais atenta a flor é o meu cupão,
Que terei pessoas de tanta providência,
Num relicário Livro das Horas jaz ela.

Ao jardim foi orgulhosa e galante,
E lá encontrou Bellacoglienza,
E disse: "Fizeste uma tal falsidade,
Que te tomo por tolo e por musa.

E a ti digo: Jaz o Medo e Vergonha,
Que aquele que procura flores confie em si,
De certeza que não está a ler Bolonha.

E que esquife que aponta agora não grita,
Disse-me que estava na Catalunha,
Semeia, não olha bem para o que tem no seu guia.

Caros leitores deste bloque,
Não sou de suprimir poemas publicados, mas, neste caso nasceu um livro UMA LÍRICA FLOR PARA MOEMA que pretendo publicar, assim sendo vou suprimir alguns poemas publicados.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, março 12, 2023

POR ATHENA PETRARCA: AMANTE INFELIZ – por Eric Ponty - DISSN 2184-0709 ——- Revista Trimestral – Edição nº 23 – Março de 2023


O idioma vernacular que ele usou ecoa em nossa linguagem própria, tanto literária como musical; e de sua personificação do amante infeliz como anti-herói se tornou um de nossos principais modelos. Petrarca foi um grande poeta lírico, mas também um psicólogo talentoso, cujas pesquisas sobre literatura das épocas e em sua própria psique o atraiu profundamente para as regiões onde a verdadeira culpabilidade e inocência são encontradas.

Humilde pecador, esteta, secretamente de espírito atormentado, observador de baba e defensor da vida, o “eu” nestes poemas possui uma personalidade tão complexa quanto sua experiência de seu tempo. Em um estado contínuo de devir, deterioração ou equilíbrio delicado (dependendo do ponto de vista do poema), ele tem certeza de ter visto uma única vez e apaixonado por uma mulher cujas qualidades e efeitos dominam seus pensamentos a partir daquele dia como podemos vislumbrar neste segundo soneto:

II

Determinados se vingar graciosamente,
E punir num dia mil erros, em vão que errados,
Secretamente, que do Amor retomou teu arco,
Sendo propôs a hora e o local certos pra a greve.

Minha força se concentrou em meu coração,
E ali e aos meus olhos ergueu tua defesa,
Quando caiu sobre ele, sendo golpe mortal,
Onde todas outras flechas tinham sido embotadas;

E assim, desnorteado com este primeiro assalto,
Não teve do vigor ou a oportunidade,
Para pegar em armas na hora de lutar,

Ou até mesmo pra me levar arguto retorno,
Que montanha alta e dura que me salva do abate,
Do qual ele gostaria, mas não pode ajudar.

A partir deste senso de si mesmo como um ator em um drama que estava sendo encenado no seu tempo, ele criou passo a passo uma autobiografia fictícia cujas verdades só podem ser plenamente apreciadas na conclusão do trabalho, como uma experiência compartilhada pelo leitor e poeta. No entanto, o prazer de ler o Canzoniere também pode vir de repente, das suas muitas pequenas revelações. Uma em particular é a descoberta de que a sua sátira não está limitada a ataques flagrantemente flagrantes contra a política, a religião e a cultura dos estabelecimentos da sua época. Numerosos outros poemas da coleção entregam os seus golpes de maneira dissimulada, convidando-nos a enfurecer, chorar ou rir por causa de algumas perfídias ou insensatez. E muitos dos poemas que levam um leitor moderno a estremecerem por causa do seu estilo extravagante (o seu choro incessante), de egocentrismo e obsessão com o amor e a morte) foram intencionalmente projetados para entreter e edificar o público contemporâneo de Petrarca.
O Canzoniere é uma espécie de Petrarca fictício segundo nos diz ele no primeiro poema, como se um dia adormecesse e sonhasse um sonho de prazer do qual ele despertou algum tempo depois um homem triste, mas mais sábio. Porque tal admissão de erro poderia ser descartada como um pouco de prevaricação ou de convenção literária ou como uma expressão da impotência sexual de um velho homem. Os leitores podem facilmente aceitar os poemas que se seguem e o seu protagonista com o valor de face, como lamentos de um poeta-cantor dividido entre o bem e o mal em impulsos e lutas para lidar com o pathos do amor ilícito e não correspondido.
Em conjunto com Varro, Boethius na Filosofia da Consolação, e Dante na Vita nuova, Petrarca está frequentemente ligada à tradição de sátiras menipônicas para a variedade de formas que ele usava no Canzoniere, mas, o seu impulso satírico não foi examinado de forma notável em comentários sobre os próprios poemas individuais. No entanto, quando um escárnio político é percebido nos poemas 199-200, por exemplo, dois sonetos sobre a mão de Lauras quão luva, pode surgir um propósito totalmente novo para estes poemas. Como um desenho animado político moderno, o poema 199 desenha um retrato de um pequeno poeta observando à figura de poder, a partir de um ponto de vantagem em algum lugar perto da ponta do dedo do pé (a política dura, vestida com um vestido de noiva):

Ó mão linda que aperta meu coração,
encerrando em tão pouco tempo minha vida,
da mão na qual toda arte e cuidado foram gastos,
pela Natura e pelo Céu por teus elogios,

Com tuas cinco pérolas de cor oriental,
Cuja única crueldade amarga é ferir-me,
Dedos longos e macios que cá estão nus,
Feliz, o Amor me mostra para minha melhora.

Puro branco e alegre leve, essa cara luva,
Que cobrem marfim polido e rosas frescas,
Quem já viu na terra espólios tão graciosos?

Oxalá eu tivesse tanto do teu véu justo!
Ó a inconstância das coisas humanas!
Mas isto é roubo e deve ser retomado.

A mão sem a luva revela as unhas vermelhas, brilhantes e a pele de marfim da tentação, cujos braços sufocarão o protesto e cuja cabeça e face, no poema 200, irá bloquear a luz divina. Os símbolos da mão e da luva cujos Petrarca manipula timidamente aqui – porque são conhecidos como significantes da monarquia e papal – ele recupera por meio de um novo bajulador estilo no poema 201, mantendo a pureza da sua visão original de Laura nas últimas linhas, mas indicando que ele descobriu os usos desses, e, aprendeu a ser manhoso, entrou em sua maturidade.
♦♦♦
Eric Ponty – Brasileiro de Minas Gerais – É poeta e escreveu o considerado clássico “Menino retirante vai ao circo de Brodowski”.  São Paulo: Musa Editora, 2003.  POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR- Rio de Janeiro: Edições Galo Branco,2009. Como tradutor: O Cemitério marinho de Paul Valéry – CINQUENTA MIL DE MILHARES DE POEMAS – RAYMOND QUENEAU – EDGAR ALLAN POE- O CORVO EM UMA E OUTROS POEMAS, Charles Baudelaire. RICHARD WAGNER E TANNHÄUSER À PARIS, – Paris Spleen – Pequenos poemas em prosa – 50 MESTRES DA POESIA além de outros poetas e nacionalidades.

sábado, março 11, 2023

CAPITAL DA DOR - PAUL ÉLUARD - TRAD. ERIC PONTY

(pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel; Saint-Denis, 14 de dezembro de 1895 - Charenton-le-Pont, 18 de novembro de 1952) foi um poeta francês, autor de poemas contra o nazismo que circularam clandestinamente durante a Segunda Guerra Mundial.

Participou no movimento dadaísta, foi um dos pilares do surrealismo, abrindo caminho para uma ação artística mais engajada, até filiar-se ao partido comunista francês. Tornou-se mundialmente conhecido como O Poeta da Liberdade.

É o mais lírico e considerado o mais bem-dotado dos poetas surrealistas franceses.

Aos 16 anos, após uma infância feliz, Paul Éluard contraiu tuberculose, o que o obrigou a interromper seus estudos. Na Suíça, no Sanatório de Davos, o jovem conhece o poeta Manuel Bandeira, que lá também estava a tratar sua tuberculose. Éluard também trava contato com uma jovem russa, Helena Diakonova, que ele chama de Gala. Casa-se com ela em 21 de fevereiro de 1917. Sua impetuosidade, seu espírito decidido, sua cultura impressionam o jovem Éluard, que encontra nela seu primeiro impulso de poesia amorosa. Juntos, eles leem poemas de Gerard de Neval, Baudelaire e Apollinaire. Em 11 de maio de 1918, nasce sua filha Cecile.

Em 1918, quando a vitória é proclamada, Paul Éluard alia a plenitude de seu amor a um profundo questionamento do mundo: é o movimento Dada que vai disparar este processo, através do absurdo, da loucura, do nonsense.

Amigo íntimo de André Breton, Éluard participa de todas as manifestações dadaístas. Mas ele é o único do grupo a afirmar que a linguagem pode ter um propósito por ela mesma, enquanto os outros a consideram apenas como um “meio de destruição”.

O surrealismo, na sequência, lhe dará os subsídios para sua criação. Muito bem aceito pelos críticos tradicionais da época, atualmente, sua vida confunde-se com o movimento surrealista.

Em abril de 1948, Paul Éluard e Picasso são convidados a participar do Congresso para a Paz em Wroclaw, Polônia. Em junho, Éluard publica os “Poemas Políticos”. No ano seguinte, participa dos trabalhos do Congresso em Paris como Conselheiro mundial da Paz. No mês de junho, passa alguns dias com os gregos entrincheirados no Monte Grammos.

Depois vai para Budapeste, assistir às festas comemorativas do centenário da morte do poeta Sandor Petõfi, onde encontra Pablo Neruda. Em setembro, participa de mais um Congresso da Paz, no México. Conhece Dominique Lemor e se casa com ela em 1951.

Neste mesmo ano, publica “O Phoenix”, obra inteiramente dedicada à alegria reencontrada.

Em novembro de 1952, Paul Éluard morre do coração, em sua casa. Neste dia, segunfo Robert Sabatier, “o mundo inteiro estava de luto”.


Paul Éluard  Obra I da Gallimard  de 1971

Os pequenos justos

l
Na casa do riso
Um pássaro riu em suas asas.
O mundo é tão leve
Ele não está mais em seu lugar
E, se alegre
Ele não tem nada.
 
II

Por que eu sou tão bonito?
Porque o meu mestre me lava.
 
III

Eu mudar com seus olhos como com luas
E eu virar e conduzir e pena
A água preta misteriosa que o rodeia
Ou no seu cabelo a sua ligeira vitória.

VI
O mostro da fuga aspira mesmo as plumas,
Deste pássaro chamuscado pelo fogo dum fúsil
Se lástima vibrar todo longo de um muro de lágrimas
E cinzel dos olhos cortam a melodia
Que desabrocha já no coração do caçador.

VII

A natureza que está se prende as redes da vida
A árvore, tua sombra mostram sua carne: o céu.
Ela a voz da areia e os gestos do vento
E toda esta que te diz no bojo atrás ti.

VIII

Ela se recusa sempre em compreender, a ouvir
Ela ri por esconder seu terror dela mesma.
Ela sempre marcha sob arcas das noites
E por todo onde ela passa
Ela a deixa
A impressão das coisas partidas.

IX

Sobre o céu danificado sobre estas vidraças d´água doce
Qual face mourisca sonora
Anuncia que à noite de amor toca ao dia
Boca aberta atada a boca fechada.

X

Sensação ela está mais forma preferida,
Este que retira preocupação de ser um homem
E eu vou e eu perco e eu suporto
Minha dor como pequeno sol na água da fonte. 

Não compartilhar

Na noite de loucura, nua e clara,
O espaço entre as coisas na forma de minhas palavras,
A forma de palavras de um estranho,
A partir de um vagabundo que desata o cinto de sua garganta
E leva ecos da restia.

Entre árvores e cercas,
Entre paredes e mandíbulas,
Entre este grande tremor pássaro
E a colina que o oprime,
O espaço tem a forma de meus olhos.

Meus olhos são inúteis,
O reinado do pó estiver concluído,
O cabelo do caminho tem o seu manto rígido
Ela não fugiu, eu não irá se mover,
Todas as pontes são cortadas, a céu não vai mais
posso ver bem mais lá.
O mundo está separado do meu mundo
E, por cima das batalhas,
Quando a temporada de sangue desaparece no meu cérebro,
Posso ver o dia este homem clareza
Que é meu,
Faço uma distinção entre a vertigem da liberdade,
A morte de intoxicação,
Sonho sono
Oh reflexões sobre mim mesmo! oh minhas reflexões sangrentas!

PAUL ÉLUARD - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

sexta-feira, março 10, 2023

Yannis Ritsos -trad. ERIC PONTY

Yannis Ritsos (1909- 1990) foi, e continua a ser, uma das mais importantes vozes da poesia mundial. Escritor prolífico, publicou mais de cem livros, uma vida que foi, por quaisquer normas, passagens turbulentas. Sua infância foi marcada pela ruína financeira de sua família, e a morte precoce de sua mãe e do irmão de tuberculose e o confinamento de seu pai em um manicômio. Mais tarde, Yannis Ritsos foi passar quatro anos em um sanatório, tendo também contraído tuberculose. Ele era um Comunista declarado, um dos motivos pelos quais ele foi obrigado a passar à clandestinidade durante meados da década de 1930, quando a ditadura Metaxas queimaram seus livros em público. Mais tarde preso, Yannis Ritsos foi internado em campos de detenção brutal, em primeiro lugar, em Lemnos, depois de Makronisos e Ayios Stratis. Enquanto no infame "Instituto Nacional de Re-educação" de Makronisos, Ritsos escreveu poemas, então, coloco-os em um vaso e enterrou. Quando, em 1967, o golpe por um grupo de coronéis, Yannis Ritsos foi preso novamente e mais uma vez enviado para a prisão no exílio, encerrando-se em prisão domiciliária em Samos. Sua poesia tem sido, por vezes abertamente políticas, às vezes épicas em dimensão poética.

O envelope

Ele caminha na chuva - sem pressa . . .
Com cintilação grades; as árvores
São negras, com um vermelho fraco duma escova.
Há um antigo ônibus de pneu com ovelhas encurraladas.

Há uma casa azul mais azul que está luz.
Tudo isso é um meio de fazer nada
Menos do que era. Penhasco. O punho cerrado.

No rio, um envelope vazio; talvez
O seu nome e endereço estejam do outro lado.

Manhã

Ela abriu às venezianas e expôs
lençóis da janela de peitoril.

Ela teve um grande dia. O pássaro olhou por trás dela.
"Eu estou sozinha, estou viva . . .' Ela parou na frente do espelho.

"Isso é, também, uma janela. Se eu pular,
Eu vou cair em meus próprios braços. ".

PENELOPE

Não é que ela tenha sido enganada pelo seu disfarce:
Ela teria reconhecido por suas cicatrizes com certeza,
Pela forma como ele lançou seus olhos sobre os mortos
E moribundos antagonistas. O que é que haviam de dizer?
Vinte anos acordando dos sonhos . . .. Agora aqui pôs-se
À luz da morte incêndio,
agarrou tom mesclado com tecido. "Seja bem-vindo", disse ela,
em uma voz que ela mal sabia, mal reconhecida.

Seu tear elencado treliça às sombras no teto,
túmulo de pano do qual ela tinha trabalhado para destruir
pendurado no esqueleto como algo ferido
são formas de o tecer que escurecerá às cinzas
e levantaram, às aves da noite negra
baixas no horizonte desaparecendo rapidamente.

Teatro Antigo

Assim como em torno do meio-dia um jovem grego pôs-se em pé ao
centro de um antigo teatro, mais incautos, e, ainda, ser belo como
eles haviam sido,
Que ele deixou um grito (não de entusiasmo, para ele se sentiu
Não há entusiasmo em todos, e mesmo que ele tivesse
Ele certamente não teria sabido expressá-lo), um simples grito
Talvez a partir do sem destino da alegria de sua juventude,
Ou puramente para sentir a acústica do local. Em frente,
acima das altas montanhas íngremes, o eco respondeu -
O grego o eco que não imita ou repete
Mas persiste, muito meramente, há uma altura incomensurável
o eterno grito de ditirambo. 

Questionamento forçoso

Vou pretender-me há tempo aproximado, à luz, à cor.
Durante à noite, quando o cavalo na cabine sobrevém carregado com barris,
Uma das suas rodas comprimem seus cacos de gesso
nas tensões da parede rangida. Por trás dos vidros das janelas
Você pode ver em frente à branca cozinha, uma geladeira,
e os pés descalços do ancião. Então, à luz do banheiro
Vai sobre ele. Não puxe à cortina. A empregada
bebe uma taça de maçãs na varanda.
Gramofone é escutado. Você não pode eleger
entre às coisas sem afinidade ou afronte,
Até que o grito é escutado e a faca é impelida à
mesa de madeira esfaqueando um guardanapo de papel
com um primoroso crio de dois trajados lábios.

Não há interrogues

Ela poderia estar numa discoteca portanto
paralelepípedos do passeio depois da chuva
ou o som de uma cisterna entornar,

Ou sedoso respingo
desagregando batendo numa rosa, 
ou você pode decidir
se a obscuridade das trevas vertia às lágrimas dum rouxinol ...

Eu olhei em frente e reparei como ela dormia
com o seu joelho enfiado até onde
sabia o que eu sentia não era amor, embora, de certa forma,

Na ocasião, tudo o que há e o que foi era a ternura:
o cheiro da folha, a dobra do seu joelho, o dobre
duma capa, que se trata de uma noite quente de primavera.

Olha, quem pode dizer o que significam estas coisas?
Eles fazem os moldes em nossas vidas e tudo o que sei.
Não é sabendo que ajuda, mas eu não podia dizer-lhes porquê.
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, março 09, 2023

PARA DUQUESA - JUAN BUSCAN - PARA MOEMA

Há quem darei amorosos versos meus,
Que pretendem amor, com virtude junto,
Desejam também mostrar-se formosos,
A ti senhora, há quem isto tudo cabe,
A ti deem, por quanto que se carecem
Destas coisas que digo que pretendem
Em ti as falaram lhes cumprimentar
Recolhe-los com branda suavidade
Se veres que são brandos, e si não,
Recolhe-los como eles mereciam,
Depois eles te importunarem muito
Com chorar, porque assim soube faze-lo
Não te pareçam mal os tristes choros,
Pois são suas lágrimas com causa,
Não só grande razão que se consentem
Mas hão de ser doridas e choradas
Por todos os que virem donde caem
Eles se vão esvaindo de minhas mãos
Pensar podiam viver onde queiram 
Porém segundo hão se oferecidos
E pouco corrigidos em seus vícios,
O perigo andará si em ti não falam
A maneira de viver sua oferta
Amparo por valer-se em seus erros,
Se passarem com honra, dais vida
E si não, não os pague o remédio,
Que tempo lhes dará com sua justiça
Que morram e que os cubra de terra
E da terra será de eterno olvido.
JUAN BUSCÁN- TRAD.ERIC PONTY

(Barcelona, 21 de Setembro de 1492 - Perpignan, 1542), foi um poeta e tradutor espanhol.

De família nobre, recebeu excelente formação humanística e serviu na corte dos Reis Católicos e depois na do imperador Carlos I de Espanha. Foi preceptor do Duque de Alba. Casou com uma culta dama valenciana, doña Ana Girón Rebolledo. Viajou à Itália como embaixador e ali encontrou Garcilaso de la Vega, com quem fez amizade.

Boscán, que havia cultivado antes a poesia cortesã no estilo dos cancioneiros, após sua estada na Itália introduziu na poesia espanhola o verso hendecassílabo, o soneto, a oitava real, o terceto encadeado, a canção estrófica e os hendecassílabos brancos, além de motivos da poesia de Petrarca, influenciando Garcilaso de la Vega e Diego Hurtado de Mendoza. Seu poema Hero y Leandro foi o primeiro em espanhol que tratou de temas legendários e mitológicos clássicos. Sua Epistola a Mendoza introduziu na Espanha o modelo da epístola moral, imitando Horácio, onde expôs o ideal estóico. Traduziu Il Libro del cortegiano de Baldassare Castiglione e preparou edições de Garcilaso de la Vega.

quarta-feira, março 08, 2023

JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY

(1572 – 1631) foi um poeta inglês e um pastor anglicano que viveu na pobreza por muitos anos. Suas obras de juventude são principalmente poesias amorosas e sátiras enquanto as da velhice são sermões religiosos.

John Donne agora é geralmente considerado o mais proeminente membro do que mais tarde seria chamado poetas metafísicos - uma expressão cunhada em 1781 pelo crítico Dr Johnson. Anteriormente o poeta John Dryden tinha escrito de Donne em 1693 como afetando "metafísica, não só na sua suas Sátiras, mas no seu encontro amoroso dos versos, onde a natureza só deve reinar; e faz senão criar perplexidade junto dos espíritos do justo sexo com amáveis especulações da filosofia, quando ele deve acionar os seus corações e entreter com suavidade de amor."

Poesia metafísica está preocupado com o pensamento abstrato, imaginativa conceitos ou filosóficas sujeitos tratados com leviandade e ironia. Por conseguinte, o estilo de metafísica da poesia é caracterizado por finura e intangíveis conceitos. Estes poemas fornecem frequentemente muito rebuscada ou incomuns símiles ou metáforas, que são então estendidas em um formato de epigramas.

Donne publicado muito pouco de poesia na sua vida, protegendo mais fama como um pregador de sermões de um escritor de versos. Seus primeiros poemas demonstraram uma compreensão da sociedade inglesa, que ele muitas vezes sofreu ataques com duras críticas. Não era até dois anos após a morte de Donne em 1633, quando esta famosa coleção das suas canções e sonetos foi publicado pela primeira vez.

Muitos dos poemas são dos seus primeiros dias como um escritor e a recolha é particularmente memorável para o erótico e poemas que ele contém. Nestas obras Donne tem sido elogiado por seu uso de metáforas não convencionais, com os mais famosos sendo utilizadas para o grande efeito de comédia em dissipar.

No poema A Pulga como mordidas de pulgas dois amantes um após o outro, o poeta compara o ato de sexo, argumentando que eles podem bem agora se consideram a si próprios como os amantes físicos. No entanto, estes poemas também contêm algumas das mais belas poesias do século XVII, com obras como Romper do dia e O Nascer do Sol, que exemplificam Donne poder alcançar uma beleza lírica e forte clima de amor apaixonado em sua poesia.

Por sua complexidade metafisica de imagens, resolvei abrir mão da métrica para não as perder optando pelo verso livre e alguns poemas, e versos cativos em outros. 

A Pulga

Marca, mas está pulga, e a marca do esta
um pouco mais do que tu me recusas;
A chupar-me, em primeiro lugar, e cá sugar,
E, essa pulga nossos dois sangues mexidos.
Tu sabes que isso não pode ser dito
culpa, nem labéu, nem perda, mas, fincada cabeça;
No entanto, esta goze antes de seduzir,
E mimar altivez com sangue feito dos dois.
E esta, infeliz! É mais qualquer de nós faria.

A estadia, três vidas em uma pulga poupada,
Onde estamos quase, sim, mais casados
Estávamos está pulga é tu e eu, e esta
Em nosso leito conjugal, templo casamento.

Ainda pais guardem reservas, e tu, foste acolhida
E no claustro, vivem em paredes do azeviche.
Mas o uso hábil para me matar
Não deixes a que o suicídio sucedido,
É sacrilégio, três pecados, matando três.

Cruel e brutal, tens tu uma vez
roxa no teu prego de inocência?
Onde poderia está pulga ser culpada
Exceto no que queda ela chupar-vos de ti?
Mas tu triunfante, e dizer-te que tu
Encontrar-me não te escondas nem aos mais fracos agora.
Si fiel, então, saiba como falsos temores;
Apenas assim, muita honra, quando tu me lucras
Será esperdício, como essa pulga morta levou vida de ti.

Á obra

Tenho feito uma coisa das mais corajosas
a todos a se lembrará das suas riquezas;
e já um dos mais bravos queixara a Primavera
ou seja, para se manter escondido.

Ele foi, mas uma loucura agora a comunicar
à arte da pedra especular,
quando ele, que pode ter de aprender à arte
ao cortar, possa encontrar nenhuma.

Assim, se eu agora deveria pronunciar-me nesta,
Outros, porque não mais
tais coisas ao trabalho, não há
serás que o amor, mas como antes.

Mas ele, graças dentro
porventura achadas, todas ausentes têm fastio,
há quem ama as cores, e a pele,
ama, mas vossas roupas mais antigas.

Se, como eu, tu também não
na virtude de mulher veja
E atrever-vos ao amor, e ao dizê-lo,
E olvidar o que ele e ela.

E se este amor, embora coloque assim,
dos profanos homens que tu ocultes,
que, sem fé no presente entregado,
ou, se o fizeram, não te respeitaram;
Então tu ter feito uma coisa mais brava
todos a se advertirá vossas riquezas;
E mais bravos dali, Primavera,
ou seja, a manter-vos disfarçou.
JOHN DONNE - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

terça-feira, março 07, 2023

LEOPODO LUGONES - TRAD. ERIC PONTY

 O primeiro livro de Lugones, Las montañas del oro, foi publicado em 1897 e intrigou ou entusiasmou os leitores. Tudo nele era deliberadamente novo, até ao dispositivo tipográfico de dar aos versos, separados apenas por traços, o aspecto de prosa. Este arranjo pode ter sido influenciado por Rimbaud e Maeterlinck[3]; como tantas outras inovações, foi também um arcaísmo, uma vez que os monumentos mais antigos da poesia medieval - Beowulf, o Canto dos Nibelungos e o Poema do Cid - estavam nesta forma.

Os travessões, no Primeiro Ciclo, separam linhas hendecassilábicas assonantes:

"... Depois compreendi (Santa Miséria!) - o amor misterioso dos pequenos; - odiava a bem-aventurança das sedas nobres, - eu prosápia com raízes de ferro; - encontrei nos vossos germes de lírios na lama, - pus a amargura dos meus beijos - em bocas roxas que eram feridas - ...".

No Segundo Ciclo, eles marcam as pausas entre versos irregulares:

"... São as vacas que vieram à meia-noite, - farejando nas distâncias da sombra, - o aroma subtil da morte que levantam da terra - molhadas com o abate, a frescura do frond. - Com pesados trotes vêm - as carpideiras selvagens, - na névoa que envolve as silvas - flutuando, - absorvendo o ar coalhado das suas narinas, - que sobre a terra muda com o soluço estertor rouco, - e destilam grandes lágrimas - cheias de candura selvagem, as suas pupilas sonhadoras, - e o sangue derramado humedece - encharcadas de humilhação e tristeza. - ...".

O volume fecha-se com um longo poema em prosa rítmica, o Hino das Torres. Há também composições em verso alexandrino (Responsório) ou hendecassilábicas (Salmos del combate), em que cada verso ocupa, da forma tradicional, uma linha.

A presença de Hugo é evidente ao longo de todo o livro. Esta influência já foi, mais de uma vez, censurada a Lugones. Muito poderia ser dito contra esta acusação. Imitar Hugo não é fácil; imitá-lo sem cair na mera grandiloquência e sem o tom vacilante é uma tarefa difícil, mesmo para o próprio Hugo; Lugones, contudo, executa-a alegremente. Ele não só herda as sonoridades do mestre - que tanto prejudicaram os imitadores medíocres - mas também a faculdade narrativa e uma expressão direta e concreta. Ele não ignora que o épico aceita, entre muitas coisas, o efeito aparentemente prosaico. No Hino das Torres, ele escreve:

"... eu vou Cristóvão Colombo com uma cruz e uma espada bem leal; i Marco Polo, com um tratado cosmográfico de Cosmas na sua mão... i o Flor de Maio com a carta do Rei João; i Dumond Durville com um planisfério e uma âncora; i Tasman com uma bússola; i Stanley com o lápis do New York Herald e o seu capacete de cortiça; i Livingstone com a sua Bíblia e a sua esposa - David Livingstone o pai do Nilo".

À memória de Hugo e Whitman acrescenta-se, talvez, a de Baudelaire, que aparece na blasfémia e na sensualidade de certas imagens. Dante e Homero, duas admirações que estarão com ele até ao fim dos seus dias, já são celebradas neste livro.

A língua de Las montañas del oro é espontaneamente argentino, sem qualquer afetação de criolismo.

À fama literária do segundo livro de Lugones, Los crepúsculos del jardín (1905), acrescenta-se outro de natureza polémica e quase judicial. Foi uma acusação de plágio. Em 1904, o poeta uruguaio Julio Herrera y Reissig publicou Los éxtasis de la montaña; Blanco Fombona, no prólogo da edição Garnier (Paris, 1912), sublinhou as afinidades deste livro com Los crepúsculos del jardín e acusou Lugones de ter copiado Herrera. O argumento, assim formulado, parece irrefutável; mas como salientado, entre outros, por conhecidos escritores uruguaios - Horacio Quiroga, Víctor Pérez Petit, Emilio Frugoni - os poemas de Lugones já tinham aparecido em revistas de Buenos Aires e Montevideo antes de serem recolhidos num só volume. Assim, Los doce gozos foi publicado em revistas argentinas por volta de 1898 e 1899[4].

O que é certo é que Lugones e Herrera tinham lido Samain.

Tecidos, crepúsculos, jardins, suspiros, lagos e fragrâncias invadem a poesia de Lugones e banem as vastas divindades de Hugo. Mas os motivos que aparecem desfocados em Samain, em termos de melancolia, não são os mesmos que na poesia de Lugones.

JORGE LUIS BORGES 
(13 de junho de 1874 – 18 de fevereiro de 1938) foi um poeta, escritor e jornalista argentino.

Nascido em Villa de María del Río Seco, tradicional cidade da província de Córdoba, no coração católico da Argentina, Lugones pertencia a uma família de grandes proprietários rurais. Ele começou a escrever profissionalmente no jornal La Montaña, onde tinha o respaldo de Manuel Quintana, um aristocrata que se tornaria presidente da Argentina. Tal proximidade conduziu-o à Buenos Aires, onde seu talento literário desenvolveu-se rapidamente.

Lugones foi um dos expoentes argentinos da corrente literária latino-americana conhecida como Modernismo, uma forma de parnasianismo influenciada pelo simbolismo e escreveu um romance denso, La guerra gaucha (1905). Também foi um jornalista, polemista e orador apaixonado, que começou apoiando o socialismo, mais tarde tornou-se conservador e finalmente terminou por apoiar o fascismo.

Leopoldo Lugones viajou à Europa em 1906, 1911, 1913 e em 1930, ano no qual apoiou o golpe de estado contra o presidente do partido da União Cívica Radical, o idoso Hipólito Yrigoyen.

Profundamente deprimido no início de 1938, quando vivia no balneário de El Tigre, próximo de Buenos Aires, Lugones cometeu suicídio ingerindo cianureto.
ERIC PONTY
Delação morosa

A tarde com ligeira pincelada
Que iluminou paz de nosso asilo,
Apontou em seu matiz topázio 
Uma sutil decoração morada.

Surgiu enorme à lua na enramada
As folhas agravavam seu sigilo,
E uma aranha na ponta de um fio,
Tecia sobre o astro, hipnotizada.

Assentado de morcegos nas rochas
Céu à maneira de chineses biombos,
Tuas rodas exangues sobre as pinturas.

Manifestam sua delícia inerte
E nossos pés um rio com jacinto
Corria sem rumor até à morte.

Amapola

Com sua saia de velhos brocais,
ia Clori saborosa até as trilhas,
vê-las entre meses amarelados
inflavam em seus rincões dóceis.

Evocavam fandangos e rondeis,
E nas medias furou panturrilhas,
E ao sangue pintava em seus círios
Como uma descendia de encravados.

Só um beijo.... Vasos resíduos canas
Se fatigavam em ardente brisa
Enquanto Clori com fingido nojo.
Brotou lhe uns pequenos vão roxo
Do tremulo coral de seu sorriso.

Camélia

Como se chama o coração augura:
-Clélia, Eulália, Clotilde – algum primeiro
Nome com muitos eles como um fino
Cristal, todo vibrante de água pura.

Se incende no claro de sua brancura,
Com diminuta chama, um essênio
Carmim. Sua alma lilial conta ao destino
Românticas novelas da amargura.

No vago perfil donde se destila,
Seu olho negro e fatal desola aquela
Palidez. Suas maneiras são prolixas.

Como as dessas moribundas rasas,
Que se cobrem os dedos de anéis,
E se desvivem pôr as sedas claras.

A graciosa

Abaixo fluidos riscos cachos da frota,
Sua fina cabeça, de rubra beldade,
Reclui no âmbito de longo chapéu 
Com mesmo adorável de sua pueril.

No breve seio, denunciado apenas,
A esfumaçada linha veia azul
Limita um sucinto prado de açucenas
Que faz crepúsculo a bruma do tule.

A frágil da graça desta sua argila,
Um quase real ar melancolia
E com incentivo carmim ilumina
A falácia irônica que houve sua careta.

Seu olho, um pouco fátuo, abate na sombra
Da olheira, em leves insônias de arbusto,
Achando o discreto matiz da passadeira,
Petulante arqueia seu pequeno pé.

Transparente lírio silente médio....
E com abanico lânguido e burla
Sobre especiosa opinião que assedia
Pulverizando um pouco seu coração.
LUGONES
Dizer que o primeiro escritor da nossa república morreu, dizer que o primeiro escritor da nossa língua morreu, é dizer a verdade e dizer muito pouco. Com Groussac morto, o primeiro destes dois primados corresponde-lhe; com Unamuno morto, o segundo. Ambos provêm de uma eliminação; falam-nos de Lugones e de outros homens, não dos Lugones íntimos; ambos o deixam em paz. Ambos, em suma (embora não incapazes de provar) são vagos como todos os superlativos.
Ninguém fala de Lugones sem falar das suas muitas inconstâncias. Em 1897 - a época de Las montañas de oro - era um socialista; em 1916 - a época de Mi beligerância - um democrata; a partir de 1923 - a época das conferências de Coliseo - um profeta teimoso e dominical da Hora de la Espada. Parece também que em The Strange Forces (1906) ele foi culpado de não prever as duas teorias de Einstein, que, no entanto, ajudou a divulgar em 1924. Nem lhe é perdoada a transição do ateísmo irreverente para a fé cristã, como se ambas não fossem provas da mesma paixão. O homem que é sincero e meditativo não pode não mudar: só os políticos não mudam. Para eles, a fraude eleitoral e a pregação democrática não são incompatíveis.
Não há dúvidas sobre isso. Estas "mudanças múltiplas", que são o escândalo ou a admiração dos argentinos, são de natureza ideológica e ninguém ignora o facto de que as ideias de Lugones - ou melhor, as opiniões de Lugones - são menos importantes do que a convicção e a esplêndida retórica que ele lhes dedicou. Esplêndida retórica disse eu, não retórica útil, pois Lugones preferiu a intimidação à persuasão. Chesterton ou Shaw enriqueceram as doutrinas que professavam com problemas e razões; Lugones trouxe às suas empresas apenas a sua adesão, acompanhada de algumas metáforas. Ele normalmente simplificou as discussões ao ponto de uma monstruosa simplificação. Por exemplo, lembro-me dele postular uma diferença moral entre o dispositivo métrico de repetir certas sílabas (rimas) e o de não as repetir.
As suas razões quase nunca estavam certas; os seus epítetos estavam quase sempre certos. Vale a pena procurá-los, então, nas partes da sua obra que não estão contaminadas com polémica: por exemplo, nas páginas descritivas de El payador. "Era o monstruoso banquete de carne, para homens, cães e aves de rapina... Ao lado dos imensos cozinheiros, homens sentenciosos, ensopados em sangue, comentavam as aventuras do dia, desenhavam marcas no chão, ou limpavam lentamente os seus dedos untados com gordura no peito da bota... "ou em algum admirável conto fantástico - La lluvia de fuego, Los caballos de Abdera, Yzur - ou naquele Lunario sentimental que é o arquétipo não confessado de toda a "nova" poesia profissional do continente, desde El cencerro de cristal de Güiraldes até El retorno maléfico de López Velarde ou La suave patria, talvez superior ao modelo. (Porquê aludir a imitações incompetentes, tais como La pipa de Kif).
O mau gosto de Lugones é deplorado - não sem justiça. Também o deploro, mas deixa-me menos desconfortável do que outros: digamos Ortega y Gasset. O um - "Y cumbres siempre, cumbres, en torno, cumbres en el horizonte, como si al bienvenido, todo aquel suelo, de un solo bloque, se erigiera en montañas" - é temperado pela paixão; o outro - "Me hizo meditar mucho cierta damita en flor, toda juventud y actualidad, estrella de primera magnitud en el zodíaco de la elegancia madrileña" - é meramente e friamente feio.
Em vida, Lugones foi julgado pelo último artigo ocasional a que a sua indiferença tinha consentido. Morto, ele tem o direito póstumo de ser julgado pelo seu trabalho mais elevado.
Quanto ao resto, tanto quanto sabemos... No terceiro dos quatro Estudos Helénicos estão estas palavras: "O homem, mestre da sua vida, é também mestre da sua morte". (Vale a pena recordar o contexto. Ulisses recusa a imortalidade que Calipso lhe oferece; Lugones argumenta que recusar a imortalidade equivale a suicídio, a um prazo remoto).
JORGE LUIS BORGES – TRAD. ERIC PONTY


LEOPODO LUGONES-TRAD.ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

terça-feira, fevereiro 28, 2023

CHARLES BAUDELAIRE - AS FLORES DO MAL - TRAD. ERIC PONTY - ED. ALTA BOOKS (SP)

 

Boa tarde Eric!

sim avançamos com As flores do mal!

Desculpe o longo silêncio, mas é que a Faria e Silva foi encorporada por uma editora chamada Alta Books, mas continua como Faria e Silva e eu continuo à frente dela.

Já temos o contrato assinado e em breve alguém da produção editorial da Alta Books irá procurá-lo.

Vamos em frente!

Abraço

---

Rodrigo de Faria e Silva

     Editor-responsável