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terça-feira, janeiro 03, 2023

CONSIDERAÇÕES EXTEPORÂNEAS SOBRE ESSE BLOQUE

 



MOÇAS BALZAQUIANAS SOLTEIRAS SANJOANENSES


Caríssimo Cipriano Augusto, 
Deixei seu e-mail por muito tempo sem resposta, mas isso não significa que a olvidei. Pelo contrário, ela é do tipo de e-mail que alguém relê quando depara no meio da sua contrapartida, e eu o reconheci nela como se pessoalmente quando a leio, como agora, na grande paz desta distância, fico estremecido por seu admirável acurado com a vida, sinto que nunca um homem poderá dar uma resposta às perguntas e aos anseios que têm vida no fundo do seu ser. Pois mesmo os melhores erram nas palavras quando elas devem significar o que há de mais leve e quase indizível. Apesar disso, acredito que você não precise ficar sem uma solução, caso se atenha às coisas que lhe são análogos, nas quais meus olhos alertam agora, por exemplo, nesse poema de sua lavra:

Cidade atroz,
Rouca voz,
Que será de nós?

Busque compor com eles algum tipo de eucaristia bucólica e devotado, que não careça ser corrompida à medida que mesmo se demuda cada vez mais. Ame neles a existência em uma outra forma e seja compreensivo com pessoas mais envelhecidas que receiam a solidão na qual tem fé. Evite nutrir aquele drama que sempre há entre pais e filhos; ele dissipa muita força dos filhos e consome o amor dos pais, um afeto que atua e acolhe, mesmo que não seja condescendente. Não reivindique deles consulta algum e não exponha com apreensão alguma, mas creia em um amor que foi guardado como um espólio, confie na ocorrência de que há nessa afeição uma força e uma bendição, das quais não fugirá para ir muito bem longe.

Se ativer à natureza, ao que há de mais simples nela, às pequenas coisas que quase não vemos e que, de maneira inesperada, podem se tornar grandes e colossais; se tiver esse amor pelo ínfimo e buscar com toda simplicidade alastrar-se como um funcionário a confiança do que parece pobre - então tudo se tornará mais fácil, pleno e de algum modo reconciliador, talvez não no campo do entendimento, que fica para trás, espantado, mas em sua consciência mais íntima, no campo do zelo e do saber.

Não averígue agora os contragolpes que não lhe podem ser dados, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de habituar-se tudo. Viva as perguntas. Talvez acerte, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a habituar-se as respostas. Talvez já traga consigo a probabilidade de erguer e formar, como um modo de habituar-se notadamente afortunado e puro; eduque-se para isso. Mas abrigue com grande fé o que surgir, e se vier apenas de seu anseio, se for derivado de qualquer obrigação de seu íntimo, aceite-o e não o abomine. Mas é difícil a nosso encargo, quase tudo o que é ajuizado é complexo, e tudo é sério. Se conhecer apenas isso e chegar a apoderar-se, a partir de si, de sua acomodação e de seu modo de ser, de seu conhecimento numa relação inteira própria (não contida pelo ajuste e pela praxe) com a concupiscência, então não carece mais ter temor de se perder e se tornar aborrecível de sua melhor posse com certeza à poesia fruirá em você!
ERIC PONTY

O PIERROT LUNAIRE E AS SUAS CORRESPÔNDENCIAS - ENSAIO-ATHENNA PORTUGAL - ERIC PONTY

Música de Invenção, São Paulo, Editora Perspectiva, 1998.
Em 1912, um ano antes da colisão da SAGRAÇÂO DA PRIMAVERA, de Stravinsky, uma outra obra escandalizou as orelhas do século: PIERROT LUNAIRE, de Arnold Schoenberg, um ciclo de 21 poemas de Albert Giraud, em versão alemã de Otto Erich Hartleben, para voz e pequeno conjunto instrumental (piano, flauta e flautim, clarinete e clarinete baixo, violino, viola e violoncelo).
 

Se não foi um Fruto fundante, Pierrot Lunaire desempenhou extraordinária influência sobre outros compositores. O próprio Stravinsky, que compareceu em Berlim a uma das primeiras apresentações da obra (8 de dezembro de 1912), pagou-lhe homenagem direto em duas das Três Poesias Líricas Japonesas, para voz e pequeno conjunto instrumental.

O Poeta e Tradutor Augusto de Campos nesse importantíssimo e basilar ensaio sobre PIERROT LUNAIRE nós damos à notícia de John Cage:

John Cage dá um curioso e emocionado depoimento sobre o Pierrot e sua intérprete Maria Freund num artigo de 1949 sobre os Festivais de Música Contemporânea na Itália. Comentando o 23º Festival da Sociedade Internacional de Música Contemporânea (Palermo-Taórmina, 22-30 de abril) e o Primeiro Congresso de Música Dodecafônica (Milão, 4-7 de maio), ele escreve a propósito do primeiro: Se Acima de tudo isto e de tudo o que foi ouvido em Milão ergueu-se o Pierrot Lunaire de Schonberg como o monte Etna se eleva sobre Taórmina. Marya Freund, aos 74 anos de idade, cantofalou esta obra, acompanhada por um extraordinário conjunto italiano dirigido por Pietro Scarpini, que também foi o pianista. 

A performance, em 23 de abril, na Villa Igliea, em Palermo, foi tal que ninguém que a ouviu jamais a esquecerá. Uma espectadora que veio da Austrália disse que finalmente tinha entendido porque tinha viajado de tão longe. Este repórter se viu tremendo ainda por algum tempo depois e observou outras pessoas chorando. E natureza hemática dessa obra deu-se nessa ocasião um caráter quase oracular, de modo que parecia estar-se ouvindo uma verdade especial e profundamente necessária. O presidente do comitê internacional havia escrito esta mensagem de boas-vindas para os congressistas: 

Quando mais tarde, em nossas vidas, cada um de nãos tiver, como um suave leitmotiv na sinfonia das recordações, a visão desta Ilha Ensolarada num cenário de límpidos cãs©us azuis e harmonias celestes, nos sentiremos amplamente recompensados pela entusiástica preparação destes nove dias de retiro espiritual. Seus votos se tornaram realidade com o Pierrot Lunaire:

PIERRÔ LUNAR TRANSCRIAÇÃO AUGUSTO DE CAMPOS

A cantora não cantava nem recitava. Fazia qualquer coisa entre essas duas coisas. Era o Sprechgesang (cantofalado), uma prática vocal inaudita na tradição musical do Ocidente.

Os instrumentos crispavam de dissonâncias os breves melodramas fantasmagóricos, um dos quais, Galgenlied (Canção da Forca), durava pouco mais de 10 segundos. SENÃO era o poema de Número 12 aqui transcriado pelo Poeta e Tradutor Augusto de Campos:

A virgem hirta
de colo fino
ideia fixa
antes do fim.

Dentro da mente
como um espinho
a virgem hirta
de colo fino.

Como um caniço
de trança e fita,
carícia fina,
lasciva a fita
a virgem hirta.

Segundo o Poeta e Tradutor Augusto de Campos nos esclarece que esses problemas da tradução não são poucos. Segundo CAMPOS: Primeiro lugar, há a própria qualidade do texto utilizado por Schoenberg. NESSA versão alemã de uma adaptação livre, por Otto Erich Hartleben, de uma série de poemas do belga Albert Giraud, em formado de rondes, de treze linhas, com repetição da primeira na 7” e 13” como podemos ver muito bem expresso pelo mesmo.

Segundo o Poeta e Tradutor Augusto de Campos nos esclarece texto alemão não ao rimado como o original, e o ritmo, octossilábico no original, passa a ser mais variado, encolhendo-se as quatro sílabas no poema não 12, Galgenlied (Canção da Forca), ou espraiando-se ao nove no n° 15, Heimweh (Nostalgia). Para exemplificar o meu exemplo, parto de uma tradução trilíngue do primeiro Lied que na tradução de Augusto de Campos esse nos dá a seguinte versão de Otto Erich Hartleben (1864 - 1905):

Den Wein, den man mit Augen trinkt,
Gießt Nachts der Mond in Wogen nieder,
Und eine Springflut überschwemmt
Den stillen Horizont.

Gelüste schauerlich und süß,
Durchschwimmen ohne Zahl die Fluten!
Den Wein, den man mit Augen trinkt,
Gießt Nachts der Mond in Wogen nieder.

Der Dichter, den die Andacht treibt,
Berauscht sich an dem heilgen Tranke,
Gen Himmel wendet er verzückt
Das Haupt und taumelnd saugt und schlürft er
Den Wein, den man mit Augen trinkt.

 Bêbado de Lua

O vinho que meus olhos sorvem
a lua verte em longas ondas
que numa enorme enchente solvem
os mudos horizontes.

Desejos pérfidos se escondem
no filtro do luar que chove.
O vinho que meus olhos sorvem
a lua verte em longas ondas.

O poeta, no silêncio absorto
absinto santamente absorve
e o céu é seu, até que cai,
olhar em alvo, gesto tonto,
do vinho que meus olhos sorvem.

Para exemplificar o meu exemplo, parto de uma tradução trilíngue do primeiro Lied esse nos dá a seguinte versão de 1. Mondestrunken de Otto Erich Hartleben (1864 - 1905) em nossa tradução:

1 - ÉBRIO LUNAR

O vinho que se bebeu com os olhos,
À noite, a lua cai em ondas,
E uma enchente de maré primavera,
No horizonte silencioso.

De anseios macabros e doces,
Nadar sem número nas ondas!
O vinho que se bebeu com os olhos,
À noite, a lua cai em ondas.

O poeta movido pela devoção,
Intoxicado com a poção sagrada,
Em direção ao céu ele se torna extasiado,
O vinho que se bebeu com os olhos.

2 – COLUMBINA

Pálidas flores da luz da lua,
De rosas milagrosas brancas,
Desabrochar nas noites de julho –
Oh, eu só quebrei uma!

Para aliviar meu sofrimento angustiado,
Eu procuro pelo riacho escuro,
Pálidas flores da luz da lua,
As rosas milagrosas brancas.

Todos meus anseios seriam agradados,
Que eu possa ser tão fabulosa secreta,
Tão feliz silencioso – desfolha,
Pálidas flores da luz da lua.

3 - O DANDY

Com um fantástico feixe de luz,
A lua ilumina os fláculos de cristal,
Sobre lavatório preto, alto sagrado,
Do Dandy Silencioso de Bergamo!

Em uma tigela de bronze de cor,
Ri-se intensa da fonte, som metálico.
Com um fantástico raio de luz,
A lua ilumina os fláculos de cristal.

Pierrot com a cara de cera,
Pensou e ajusta: quanto se maquilha hoje?
Longe impele o rubro e o verde oriental,
E pintou o rosto em estilo sublime!

4. Uma lavadeira pálida

Uma lavadeira pálida,
Lava panos pálidos à noite;
Braços nus, prateados e alvos,
Estirarmos nessa enchente.

Ventos rastejam pela clareira,
Em silêncio, movem a corrente,
Uma lavadeira pálida,
Lava panos pálidos à noite.

E a gentil dama do céu,
Delicada acariciada pelos galhos,
Espalhados nos prados escuros,
Com teu tecido de linho claro...
Duma lavadeira pálida!

5. Valsa de Chopin

Quão uma gota de sangue pálido,
Colorir os lábios de um doente,
Então, descansará nestes tons,
Numa sedução aniquiladora.

Acorde de luxúria selvagem [turbar].
Sonho gelado do desespero,
Quão uma gota de sangue pálido,
Colorir os lábios de um doente.

Quente e exultante, doce e languidez,
Valsa melancólica sombria,
Você nunca vai sair do meu juízo!
Quão uma gota de sangue pálido!

Segundo Poeta e Tradutor Augusto de Campos: Nem o original nem a versão alemã são literariamente muito fortes. O ciclo de poemas de Albert Giraud foi publicado em 1884, anos depois de Verlaine haver popularizado, em Fêtes Galantes (1869), tal tema de Pierrot e outras personagens da Commedia dell'Arte. Para esse ensaio trazemos em rara edição de Paul Verlaine de Fêtes Galantes (1869) com os dois temas citados pelo Poeta e Tradutor Augusto de Campos:

Se a esfumaçada luz dessa lua simbolista. E de Albert Giraud nem chegou as tais sutilezas musicais do Verlaine, nem se lançou tais às audácias e finuras da ironia do Laforgue, cujos livros Complaintes e L'Imitation do Notre-Dame la Lune, com seus sofisticados “lamentos do Lord Pierrot e suas epigramáticas litanias à Lua, seriam lançados em 1885 dos quais trazemos às seguintes traduções para esse ensaio:

Ô Sol! É Militar coberto por medalhas e pontas,
Que fizeste sem à classe, saberás que Vestais,
Há quem há Lua, de falaz dum olhar de felina,
Sendo dum roseiral divinal duma Única Catedral.

Saberás que dos Pierrôs, falenas lhe dominaram,
Ninfeias brancas, donde Gomorra jaze adormecida,
E dos Bem-aventurados que pascidos neste Éden
São renúncias, sempre. Primaverais, te execram!

E que te hão retirados os teus peculiares desprezos,
Segunda, Perdulário, Mascarra, Rastaqueras
Sendo está cascavel doirada, que te pôs tão reles
Sóis feita desta pobre Terra e tua ufana lunar.

Andas perseguindo dando crepúsculos inúteis
Nos dias desta ressaca das Festas Nacionais,
Adelgaçando estação ao soltares teus dramas,
Nessas grandes Apoteoses aos fins Umbilicais.

Achegas já, Febo! Deverias, deus do mal Despertar,
Observe-nos este Port-Royal que dos divinos estetas,
Que em teu Decamerão inventaram à luz da Lua
Diziam postar qualquer preço, sem mais, à tua cabeceira.

Ti ficaras muitos dias por durar, só eu percebi;
Porém cresceste na tribo das antigas tradições,
Do «Absoluto, ao que? », sonhando-se Amor e Arte,
Neste aglomerado Inorgânico que foste existir.

Ampara por hoje, vegete, ausente-se conformamos,
Com o refregaste nas colinas de Teu Papanatismo,
Isto que o Homem já te avisaste na frente do Poente,
Aposto há quem o jamais lhes tiveras desconfiado.

— Enterraste que lhe diziam ser duma frase estupenda,
Deste osso vistoso, porém, sem essência nenhuma,
Muita conversa vã, porém, tudo não sejais teatro!
A Pureza Febo, sem mais! Os comentários sobejam.


Ô Fantasma do Tempo, onde. Ser, foste castigado,
Com Febo, percorrei já!  Contestarás teu retorno
És deste antigo cresceste et multiplica mini,
Para ir-se inocular-se na tua frescura Lunar!

JULES LAFORGUE - TRAD. ERIC PONTY, L´Imitation do Notre-Dame la Lune

ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

segunda-feira, janeiro 02, 2023

A Jerusalém Libertada da Topbooks - ENSAIO ATHENNA - PORTUGAL - ERIC PONTY

 


Um leitor que abre Jerusalém Libertada (Gerusalemme liberata) ao ler as primeiras estrofes irá ter várias pistas divergentes para que o poema lhe apresenta. As estrofes de abertura afirmam ser um poema épico, colocando-o em uma tradição que se remonta pelo menos à de Eneida de Virgílio cujas estrofes iniciais, "Braços e o homem que canto…’, que ecoam em nós.

As Estrofes especificam seu assunto, a “Guerra Santa” que “libertou” o local do Santo Sepulcro em Jerusalém sendo objeto de peregrinação cristã—já primeira, isto é, das campanhas militares europeias na Palestina que foi conhecida como às Cruzadas, que culminou na captura de Jerusalém
em julho de 1099. Estas estrofes não deixam dúvidas de que o poema apresentará este não apenas como um ‘choque de civilizações’ em que a Ásia e a Líbia (esta última um termo genérico para a África) sendo uma luta contra os cruzados, mas como uma guerra que foi estendendo-se até mesmo para o céu e o inferno. 

No entanto, se isso sugere um relato claro e simples de uma batalha entre o bem e o mal, sendo a primeira estrofe termina com uma sugestão de que as coisas podem não ser tão simples: o ‘Capitão’
Dos cruzados, teve que lidar não apenas com os ditos ocupantes estrangeiros de Jerusalém, mas também com cavaleiros "Errantes" por conta própria do próprio lado - abrindo a possibilidade de que o poema possa não se tratar não apenas com a própria cruzada, mas também com quaisquer distrações que mantiveram os Cruzados de sua tarefa principal como podemos observar nessas estrofes que abrem o primeiro canto:

As armas canto e o capitão piedoso
Que libertou de Christo a sepultura,
Aí frontando os trabalhos valeroso,
Armado de prudência e força dura:
Embalde o inferno o combateu raivoso,
E a Ásia se aliou à Líbia impura,
Que o céu lhe deu socorro, e os espalhados
Sócios juntou sob os pendões sagrados.

Quanto ao leitor do século XXI, essas cinco primeiras estrofes irão provavelmente provocará várias reações conflitantes. Sendo que As Cruzadas não são dum episódio da história europeia que estamos muito devotos a celebrar, e o ethos das cruzadas é aquele que passamos a ver com uma certa suspeita, então é muito improvável que queiramos ler o poema por causa de seu objeto declarado. Mas mesmo a partir dessas poucas estrofes, é claro que o poema de Tasso não é apenas uma celebração inquestionável desta "Guerra Santa" que em cujo seu título pode implicar, mas algo muito mais complexo.

Essas estrofes também levantam a maioria das questões que precisamos enfrentar se nós questionamos para entender e apreciar o poema de Tasso, que podem fornecer uma estrutura conveniente para uma breve discussão de cada uma dessas questões postadas conosco. Esperançosamente, elas também nos terão intrigado o suficiente para persuadir nós que valerá a pena de fazer o esforço ainda mais quando temos em mente à tradução do português JOSÉ RAMOS COELHO cujo feito nos remete 1864 em cuja tradução privilegiada nos citamos essas estrofes de cuja realização A Editora Topbook´se encarregou de uma esmerada publicação nas mãos de Marcos Luchessi e Alexei Bueno. 

Tu, grande Aí Afonso, por quem sou liberto 
Da morte, e a porto amigo conduzido.
Eu, peregrino errante, que tão perto
D'ela estou, pelo mar quase sorvido,
Acolhe os versos meus com rosto aberto,
Qual voto que te faço e te é devido. 
Talvez por ti de minha pena saia 
Um dia o que somente agora ensaia.

Líder carismático desde o início como vemos ainda no canto 1, Afonso exorta seus colegas líderes a não atrasar ao avançarem em Jerusalém com base em que um exército de alívio do Egito pode-se esperar que venha em breve em defesa da cidade. Se não é verdade que o califa egípcio al-Mustali tinha interesse em defender Jerusalém, do qual seu exército expulsou o governador turco apenas alguns meses antes, aproveitando a fraqueza dos turcos após sua perda de Antioquia; mas, novamente, este contra-ataque veio apenas mais tarde, quando já os cruzados já estavam sitiando Jerusalém, o que os levou invadir a cidade mais cedo do que gostariam. 

Na realidade, a inicial essa reação egípcia à presença dos cruzados na região foi muito amigável, vendo-os como aliados em potencial contra seu inimigo comum, os turcos, sendo que eles propuseram uma divisão de território que teria permitido que os cruzados mantivessem o controle de Antioquia enquanto o califa se retida de Jerusalém—sendo uma abertura que é a base para a embaixada de Alethes para o acampamento dos cruzados em um dos cantos.

Para um poeta ambicioso na Itália do século XVI—e Tasso foi nada se não ambicioso—havia apenas um gênero que poderia garantir seu lugar na história: o épico. No crescente limite de regras do clima literário que prevaleceu após a redescoberta de Aristóteles na sua Poética (publicada em uma tradução latina em 1536) o épico ficou o mais no gênero de prestígio, mas também o mais problemático. Poesia narrativa sobre tais temas militares e cavalheirescos tiveram uma longa história na Itália, culminando nesta obra que dominou a cena literária nos anos em que Tasso estava crescendo: Orlando furioso de Ludovico Ariosto, publicado em sua edição definitiva em 1532, que Ariosto havia escrito na corte de Ferrara, onde Tasso completaria seu poema na década de 1570.

O poema de Ariosto forneceu um modelo que Tasso não podia ignorar, mas já estava muito longe de ser um exemplo clássico de épico de acordo com tais Normas aristotélicas; e a tensão resultante vai muito longe explicando as dificuldades de Tasso em escrever A Jerusalém Libertada e levando em contando suas qualidades distintas.

O poema de Ariosto foi um grande sucesso e continua sendo um dos mais textos divertidos no cânone literário italiano. Mas seu sucesso desprezou todas às regras da recém-definida ortodoxia aristotélica, de acordo com que o épico deve tratar de um único tema histórico de uma maneira uniforme num estilo elevado: o Furioso se entregava a constantes desvios românticos de seu enredo principal, que em qualquer caso foi apenas vagamente baseado em seu suposto cujo cenário histórico, e seu tom era provocadoramente evasivo, sempre se mantendo uma distância irônica entre o narrador e seu tema.

Não foi apenas a ortodoxia literária que se tornou mais restritiva entre a geração de Ariosto e a de Tasso. Sendo os primeiros trinta anos do século XVI, quando Ariosto escrevia o Orlando furioso, eram uma época de considerável liberdade de expressão política, religiosa e muito moral. Ariosto poderia criticar os governantes italianos de sua época, incluindo os papados (embora ele tivesse o cuidado de abrir uma exceção para seus patronos, Estes governantes de Ferrara), e introduzir episódios em seu poema que provocativamente questionou os valores convencionais, sejam racionais (a loucura do título não se limita a Orlando, social, ou sexual, sem se preocupar com as consequências. 

Mas se o clima mudou marcadamente na década de 1540. A igreja, sob o Papa Paulo III, se recuperou suficiente desse choque inicial da revolta luterana para lançar seu contra-ataque: o Santo Ofício foi estabelecido em 1542 como a autoridade máxima para combater a heresia; o Concílio de Trento, que reafirmou que as doutrinas tradicionais que Lutero desafiou tiveram sua primeira sessão em 1545; o primeiro Índice de Livros Proibidos foi publicado em 1557. Então nessa época em que Tasso começou a escrever, no final da década de 1550, um autor sempre havia estar ciente do censor que pode estar olhando por cima do ombro.
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

A Poética Lésbica de Djuana Barnes - ENSAIO PARA ATHENNA PORTUGAL - ERIC PONTY

 A questão nasce fatalmente: O que quer dizer com "literatura lésbica"? Ao juntar e amplificar essas complexidades enredadas do género, sexualidade, desejo, raça, classe, afeto, corpos, amizade, organização social, normatividade, cultura, identificação e representação, o problema das definições lésbicas dramatizam - poder-se-ia dizer que executam - a irresolúvel indeterminação de contingência linguística e a efemeridade da experiência.

Está ingresso não assegura então definições consumidas, para além do reconhecimento quais problemas e as preocupações de definição são endémicos das "lésbicas", particularmente quando suturadas à "literatura". 

Em vez disso, reconhecer algumas das implicações e complicações, e inclusões e exclusões, funcionais pela proposta de "Literatura Lésbica", manifestar-se neste ensaio sobre a Poesia de Djuana Barnes, jornalista, Contista, Romancista e Poetisa que se consagrou com essa série desses poemas denominados O Livro das Mulheres Repulsivas (1915). 


Os Livros de Djuana Barnes – A Primeira Parte:

Djuana Barnes (12 de junho de 1892 - 18 de junho de 1982 e artista norte-americana mais conhecida por seu romance Nightwood (1936), esse um clássico culto da ficção lésbica e um importante obra modernista Literatura que foi prefaciada por T.S. Eliot que saiu pela Editora Codex do Brasil que segundo uma leitora numa resenha nos cita:

E, como uma boa parte da produção literária do período, Nightwood (título que foi belamente traduzido por @caetanowgalindo para essa edição da Códex como no bosque da noite) é um típico roman à clef, que ficcionaria personagens e circunstâncias da vida privada de sua autora - e, principalmente, a relação de oito anos de Barnes com a escultora Thelma Wood, marcada pelos ciúmes e possessividade da escritora, pela frustração de não manter sua amada sob os laços de uma relação monogâmica.

No prefácio à primeira edição do romance, T. S. Eliot já nos alertava que ele encantaria principalmente leitoras e leitores de poesia. Essa advertência de Eliot, 84 anos mais tarde, segue válida: No bosque da noite é, antes de tudo, uma narrativa lindamente escrita (sem ser essencialmente, como também já dissera Eliot, uma prosa poética no sentido estrito). As descrições das protagonistas femininas, a apaixonada Nora Flood e a etérea e indecifrável Robin Vote, todas elas baseadas em metáforas do reino vegetal - que ressemantizam o arquétipo ancestral da árvore como representação da psique feminina, alegorizam a pujança emocional das relações lésbicas por meio da figura literária do bosque e prestam o tributo, através da multiplicação da palavra wood ao longo do livro, ao amor perdido de Barnes - despertam, no ato da leitura, uma inevitável elaboração imagética (sobretudo na complexa construção de Robin, que é, ao mesmo tempo, o tordo e as árvores que o sustentam e dão impulso aos seus voos)...

Em 1913, Barnes começou sua carreira como jornalista freelancer e ilustradora do Brooklyn Daily Eagle. No início de 1914, Barnes tinha sido uma repórter prospera muito procurada, entrevistadora e ilustradora cujos trabalhos apareceram nas capitais dos jornais e periódicos dessa cidade.

Somente Mais tarde, o talento e as conexões de Barnes com esses proeminentes boêmios de Greenwich Village lhe deram o ensejo de publicar sua prosa, poemas, ilustrações e peças de um ato em revistas literárias de vanguarda e revistas populares, e ao publicar um volume ilustrado de poesia, O Livro das Mulheres Repulsivas (1915) do qual traduzimos alguns poemas para essa edição.


Em 1921, a Comissão deu uma Bolsa com a revista McCall que a levou Barnes para Paris, onde fez de moraria nos próximos dez anos. Nessa ocasião publica Lydia Stepoe Stories (1923):
CONTADOR DE VANTAGENS

O nome da heroína desta história é Madeleonette. Parecia importar ainda menos que o herói parecia importar ainda menos que o herói devesse ser chamado de Doutor, embora ele não tivesse visto até mesmo um caso de sarampo em toda sua vida.


O clímax ocorre em Long Beach, mas você não vai entender isso até chegar ao fim, embora eu faça bem em avisá-lo que foi lá que a Madeleonette e o Doutor caíram. De onde a Madeleonette e o Doutor caíram nos braços um do outro, muito para a consternação do muito para o desgosto dos "regulares" do calçadão. 
Nesta história, porém, havia uma terceira pessoa, e seu nome era Josiah Illock, um daqueles homenzinhos inúteis que parecia que deveria ter sido ao estar colocando tubos em uma pequena cidade suburbana em vez de fazer amor com a Madeleonette.
(....)
A GAROTA E A GORILA

Uma NOVA ESPÉCIE chegou à cidade!
Pensamos que tínhamos uma linha sobre todos os diferentes tipos de feminilidade no mundo, seus modismos, fantasias e modas, suas virtudes e suas indiscrições - quando de repente entra na Dinah, a garota do mato.
Ela não é nem muito feminina nem muito frágil, para se ver. Ela tem a moda do ombro largo do cabelo, mas isto é até onde vai a semblante, como ela está diante de nós apoiando-se nos antebraços curvados, esticados como suspense, olhando de olhos distantes sobre uma vida chamada civilizada.

Tal é a mulher gorila, a única viva cativa de sua raça.

Olhando para ela do lado do público dos bares, percebi apenas uma coisa vaga, cinza, com a cabeça afundada entre os ombros - um feixe de apreensões insondáveis. Mas quando entrei na gaiola, com o mantenedor Engelholm de um lado e o professor Robert L. Garner do outro, ela ficou bruscamente erguida e, estendendo uma mão enrugada, preta, glacé-kid, exigia alguma coisa - alguma coisa para comer. Seu apetite é espantoso.

O mantenedor Fred Engelholm estava um pouco duvidoso sobre a forma como a Dinah me receberia, sendo eu a primeira mulher que veio dentro da carícia ou distância de batalha. Mas o professor Garner parecia confiante de que a Dinah se encontraria em mim algo, por mais insignificante que fosse, que se encontraria com ela para aprovação.

Ela se aproximou de mim com seus nós dos dedos dobrados sob ela, uma inclinação que há maior parte do corpo que fechou a pouca luz que a gaiola permitia, até que ela chegara à cadeira que tinham preparado para ela.

Há uma espécie de sala de desenho queer cautelosa a seu respeito. Ela está constipada numa espécie de olhar de avaliação que não tem inveja nem malícia. A multidão que recolhe fora de sua gaiola que ela não vê, ou se ela vê, pode muito bem ser uma fileira de couves. Aparentemente, ela não se opõe à cereja ou ao preto costurando em um par de luvas de vestido.
Encontrei - pois eu tinha vindo para estudá-la - que a maior e mais esplendida satisfatória na vida da Dinah é ela mesma. Ela prefere ficar bem de pé em sua própria estimativa do que em uma base social.
(....)
Sendo duma coletânea de poesias, peças teatrais e contos, que mais tarde foi reeditado, com um benefício de três histórias, de Uma Noite Entre os Cavalos (1929) editado pela Editora Hiena:

O Ladies Almanaque (1928)
 Durante essa tal década de 1930, Barnes passou um tempo na Inglaterra, Paris, Nova York e norte da África. Foi durante o tempo ocioso que escreveu e publicou Nightwood.

Em outubro de 1939, após quase duas décadas viver sobretudo na Europa, Barnes regressou para Nova York. Publicou sua última grande obra, a peça teatral em versos The Antiphon, em 1958, inspirada em T.S. Eliot com quem conviveu e veio a falecer em seu apartamento em Patchin Place, Greenwich Village em junho de 1982.

O Livro das Mulheres Repulsivas (1915) – Segunda Parte:


Para além das coordenadas mínimas de tempo e lugar - Sapho viveu a ilha de Lesbos na viragem do século VII para o VI a.C. – as realizações literárias e reputação são os "fatos" mais fiáveis sobre os quais os estudiosos concordam. Como "a mulher poetisa mais conceituada da Grécia e Antiguidade Romana", Sapho escreveu poesia lírica - canções acompanhadas por uma Lira - que foi recolhida por estudiosos em Alexandria séculos após a sua morte; desta, pouco sobreviveu, e quase só em fragmentos tais quais Djuana Barnes com O Livro das Mulheres Repulsivas (1915) composto por apenas oito poemas entre longos e uns quase refrãos.

Esses fragmentos que expressam o desejo de mulheres ganharam o Sapho um lugar central dentro da história literária e lésbica. Sapho sendo uma das pedras de toque para uma "história global de amor entre mulheres" como podemos ver refletidos nesse poema de Djuana Barnes, titulado: 

PARA DANÇARINAS DUM CABARET

Das mil claridades a enfermaram. Para estar fato;
A vida tinha desobediente e dado um local para o cântico
Jazida com alegrias espaçosas e bonança; 
De Anistia admirável;
E admirou entre fulgores e o vinho por pessoa tão fina
E deparou a vida apenas ardor 
Dilatada 'Twixt boca e vinho.
Admitiu de buscar, o arder dum sábio 
Lhes contornar aquém bem.
No entanto, qualquer coisa admirável 
Dentro da baderna nutrida xeque:-
Estava escasseando tal apalpou 
Empunhou sobre o pescoço dela.
Dum acorde mestre que não podíamos 
Aprazer para invadir às chaves,
No entanto, aludiu tal que cantou 
Dentre nossos joelhos.
Nós à percebemos com às chamas sutis 
E os pés estudados,
Caindo entre o ébrio admirável,
No entanto, duma forma qualquer afetuosa.
Observamos essa rubra lhes aceitar amuras 
Que flamas em olhares;
Pois quando uma mulher perdura 
De formidável azáfama 
Que duma mulher já padeceu.

O lugar central de Sapho nas próprias origens da “Civilização Ocidental” não só unira "lésbicas" e "literatura" no início história, mas também tornou Sapho uma figura apelativa para a apropriação moderna por uma identidade sexual de outro modo marginalizada:

Enigmas abriram nossas horas à noite 
E tornaram sáficas,
Lambuzavam à alma afetuosa e inábil 
E vagaram o lance.
Empecilhos e dos corações dois falidos 
- Poeiras debaixo dos pés dela.
Você adveio quarenta vezes 
E caçoou na avenida.
As mil zombarias tinham do travesso para isso, 
enfim; até que essa rubra arruinada de seus lábios 
Arderam elusiva e dilatada.

No entanto, está remota elevada dessas filiações culturais também assinalam os obstáculos problemáticas das "lésbicas," referenciando um humanista exclusivo, eurocêntrico, ocidental, normativo, liberal e humanista, ilustração, ratificar e privilegiado - Sapho era um aristocrata, afinal de contas - posição do sujeito.

No seu conjunto, as várias amostras de Sapho - como uma poetisa venerada em cuja voz lírica apregoava desejo pelas mulheres, e como um anexo elusivo de tais fragmentos literários e conjecturas eruditas, contendo especulações que lideraram "uma espécie de identidade ou escola para donzelas" destinada à sua e desenvolvimento cultural todos informam e influenciam a sua associação com duma categoria de identidade sexual moderna. No entanto, no fim de contas, é tudo o que fazemos não saber sobre Sapho que faz um homónimo tão canino e assombroso.

A sua presença histórico-literária, para arriscar um cliché crítico, se constitui numa ausência irrecuperável, abrindo um portal imaginativo para a especulação e projeção, pela qual Sapho a Lésbica se tornou a Sapho lésbica.

O safio em geral também informa uma miríade de cenas de escrita, independentemente de perfil sexual da escritora, onde "a lésbica" pode trabalhar qual uma figura de um fascínio impossível, especulação erótica, marginalização social, similitude idealizada, glamour grotesco, crítica política, fora-da-lei ou desejo insatisfeito, temporário, perturbação, ou qualquer outra abstração poética convincente.

Na literatura ocidental "praticamente todos os autores de impressões desde que o Renascimento escreveu algo, algures, tocando no tema de amor entre mulheres". Essa percepção da escassez literária lésbica, sendo o resultado de um desrespeito académico anterior, não uma ausência dum retenho literário tendo sido um tema recorrente de fantasia e exploração na literatura imaginativa, pelo menos desde a antiguidade clássica se esse reconhecimento académico deste fato tem sido quase absolutamente escasso até ao nosso próprio tempo. 

Os escândalos proliferantes de leitura de Djuana Barnes na cúspide das abonações duma virada para uma maior consciência literária e recursos inaugurados por movimentos políticos baseados na identidade. Novas prensas, publicações, livrarias, eventos de leitura literária, e as revistas formaram uma cultura literária contribuindo para o estabelecimento, manutenção, diversificação e contestação de política, identidades e identidades feministas, lésbicas.


Se nessa essência de um movimento feminista era uma condição prévia essencial para o desenvolvimento duma literatura feminista, a crítica, e estudos das mulheres, que no início se centravam quase inteiramente sobre essas investigações de literatura". 

Se num contexto conferível, não existia para as críticas feministas: "Não há movimento político para dar poder ou apoio àqueles que querem observar as mulheres numa experiência por meio do estudo da nossa história, literatura e cultura . . . há não um corpo graúdo de teoria política feminista em cujos pressupostos poderiam ser usados num estudo desta arte dessa mulher como podemos citarmos no seguinte poema de Djuana Barnes do O Livro das Mulheres Repulsivas (1915):

Qual nível desse altar, 
Qual a face de valor sem preço?
Qual guinada de missiva, 
Que truque desse Lance
Sem ser réu?
E nós aquilatamos 
Ainda um pouco 
Mais do que Cristo.

Se tais Escândalos transformadoras de leitura também povoam lésbicas anglo-americanas literatura que antecederam esse período lésbico/feminista qual percorremos nesse poema da Generalidade de Djuana Barnes que terminamos de predisser.

Se tal Escrita moderna sobre afinidades entre essas mulheres, nos recomenda, e demonstrar, devendo continuar satisfatoriamente ilegível. Se esta Safo em total também nos confirma duma miríade de tais desordens dessa escrita, involuntariamente de perfil sexual da escritora, onde "a lésbica" podendo trabalhar num formato de deslumbre impraticável.

Se por tal exemplo, poderemos ver dessa ilustração de Djuana Barnes, de O Livro das Mulheres Repulsivas (1915):  


O contentamento de introduzir as mulheres às palavras que descrevem essa vida sexual, em tal imagem dos corpos e desejos, à confiança de ouvir bem os exames sexuais comuns e perversas de outras mulheres, não tem havido contorno. Sexualmente, não há nada de novel debaixo do sol. Mas ainda há tantas sombras, e foram essas conversas, dessa grafia e da revelação que lançaram para a luz.

Essas relações lésbicas desencadearam ao ponto de libertar toda esta paixão e problemas da experiência sexual das mulheres. Mesmo as lésbicas que não eram doutrinadas pelo feminismo tinham muitas vezes essa sua vida sexual regida pelo segredo e pela vergonha. Não sendo preciso ter um papel de posicionamento para explicar porque é que se pode ter vergonha e temor dos seus desejos sexuais. 

As mulheres são infeccionadas pela dúvida sexual desde à infância, e duma predisposição para o lesbianismo não sendo uma cautela para fora do tradicional receio feminino e estupidez das tais anteposições sexuais.

Tal teoria sexual lésbico-feminista reduziu-se a purgar qualquer coisa agressiva, vicária, e novelista do seu vocabulário erótico. Os principais meios de comunicação social lésbicas falavam de clichés sexistas sobre a "natureza dos homens e das mulheres" que poderiam ter saído de um púlpito fundamentalista. E à medida que o cisma da política sexual feminista foi acrescentando nos anos oitenta, foi precisamente isso que incidiu.

Os homens eram caracteristicamente descritos como de modo inerente agressivos, facilmente promíscuos e objetivados, só genitais; propensos a vícios sexuais, masturbação pornográfica arrogante, e em geral, precisando de ser contidos para que essa sua busca ativa da sexualidade não fosse duma advertência pública.

As mulheres, por outro lado, foram louvadas pela nossa inerente gentilidade sexual e natureza monogâmica, igualando o desejo ao amor romântico, sexo a uma sensualidade nutritiva e não genitalmente focada. O prazer sexual e a liberação não eram definitivamente prioridades para as mulheres. Afinal, as mulheres nunca empregaram, deram ou contemplaram pornografia como podemos apreciar esse poema lapidar de Djuana Barnes, de O Livro das Mulheres Repulsivas (1915), que encerra o livro:

A FINADA A
Trouxeram-na, num pequeno fraturado 
Casulo
Com corpo um pouco ferido tal 
Duma lua assombrada;
E todas essas sinfonias perspicazes 
Numa runa de crepúsculo.

A FINADA B

Deram-lhe empurras prematuras 
Deste feitio 
E Disso.
Seu corpo abalroamento apressado 
Como uma gata da urbe.
Assentou ausente do apático 
tal um caneco pequeno 
Potável jazido sem chão.

Se dessas Três poderosas constelações culturais discursivas trabalham como linhas para um mapa do Queer, do modernismo anglo-americano feminino. Emprego o termo "gay". para denotar práticas sexuais e/ou subjetividades normativas tal erotismo feminino, lesbianismo, safíssimo, esmagamento, bissexualidade, travestis, inversão de género, e/ou transexual ou transexual dessa Encarnação.

No entanto, como argumentou Michel Foucault, o puro cultural investimento na sexualidade, especialmente no pacto entre as formas de ser sexual e dessas noções de fato, interioridade e informação, intensificou-se a duma febre no século XIX e início do século XX.

Os Modernistas articularam essa onda deste frenesim, e assim o desvio sexual tornou-se uma questão de "cruzeta" no sentido do termo estudos culturais - uma inquietação manifestada no discurso público e retrabalhadas tanto no popular no "altivo”. Das formas culturais.

Se dessas linhas cruzam-se e divergem para desenvolver uma rede do que Foucault chamou de “ponto(s) de transferência denso(s) para relações de poder".  Esta rede abrangeu a rede Queer do modernismo feminino, de língua inglesa.

Se sendo duma "alternativa" à simples autobiografia lésbica é a roman à clef, o romance que pode ou não ser "correto", que se baseia em acontecimentos na vida da autora. E pode não estar claro se a mascarada é esta artística, lúdica ou camuflada, particularmente devido à impossibilidade de declarar tais verdades dos desejos e experiências de cada um. 

Um exemplo bom exemplo modernista é um texto quase inescrutável de Djuna Barnes Ladies Almanack (1928), sobre o qual Daniela Caselli explica-nos, num posfácio intitulado, "Os Prazeres ilegíveis de Ladies Almanack": "Sobretudo seguindo as recomendações de Natalie Barney's e dessas cópias registradas de Janet Flanner, o almanaque foi lido como tal um romano à clef", mas segundo uma leitora numa resenha nos esclarece que tal romance está circunscrito quanto ao estilo de linguagem à Década de 30 com expressões típicas daquele período parisiense de gays e lésbicas.


Se formalmente, tal autobiografia lésbica contemporânea jaz a mexer com tais regras comuns. Mesmo tais "romances" que são inscrições nessa primeira pessoa sobre lésbicas explorações e escapadelas e nas quais da protagonista é chamada pelos mesmos nome dessas autoras nos dando a mesma questão controversa de categoria que a do Poema de Sapho continuando a ser o único artifício para contar a vida duma lésbica como vimos nesses poemas de Djuna Barnes.
ERIC PONTY

POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

domingo, janeiro 01, 2023

Dulcíssimo amor, eu não siga - JOHN DONNE - TRAD.ERIC PONTY


Dulcíssimo amor, eu não siga
sendo canseira para ti
Nem na espera do mundo possam mostrar
apto amor por mim;
Mas desde que eu
Deva morrer por último, teu melhor
Para me usar no enigma
Assim pelo fingimento seria a morte morrida
Ontem à noite o sol se assim,
E é ainda hoje aqui;
Ele não tem vontade nem sentido,
Nem metade tão curta uma forma:
Então não me temam
Mas penso que vou fazer
Viagens mais rápidas, pois tenho
Mais asas e esporas do que ele.

Quão fraco é o poder do homem,
Que se boa sorte cair,
Não é possível adicionar outra hora,
Nem se perdeu uma hora memória
Mas venha má chance,
E nós nos unirmos à nossa força,
E nós ensinar arte e dimensão,
Si sobre-nos antecedência.
Quando tu suspiraste, teu suspiro não era vento,
Mas suspiro a minha alma alcançada;
Choraste, tipo da tua maldade,
Minha existência sanguínea do atraso porventura.

Ele não pode ser
Que. Tu amaste-me, como tu dizia-me,
Se na tua a minha vida tuas sobras,
Que és o melhor de mim.
Não deixe o teu coração adivinhando
Me qualquer mal;
O destino pode levar a tua parte,
E pode cumprir os teus receios;
Mas penso que nós
Mas seriam de terras são para dormir;
Eles que um outro mantém
Viva, nunca dividia seria.

JOHN DONNE - TRAD.ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY


Imitation of Spencer -John Keats - TRAD. ERIC PONTY

Hoje veio a manhã de tua câmara do oriente,
E primeiros passos tocaram uma colina verde;
Coroando tua crista com a chama âmbar,
Que, puros dos leitos musgosos, destilavam pra baixo,
E após a separação dos canteiros de flores simples,
Por muitos riachos, um pequeno lago se encheu,
Que ao redor de tua orla refletiam arqueiros tecidos,
E, em teu espaço médio, um céu que nunca desce.
Lá o rei-pescador viu tua plumagem viva,
Tingir com peixes de corante intenso aquém,
Cujas nadadeiras de seda, e escalpes sapés leves,
Lançam para alto, pelo meio das ondas, um brilho rubi:
Lá viu o cisne com teu pescoço de neve arqueado,
Faiscou teus olhos de cais; teus pés demostraram,
Sob as ondas como o ébano da África,
E de costas, um feno reclinado voluptuosa,
Ah! eu poderia contar maravilhas duma ilha,
Que naquele lago mais justo tinha sido assentado,
Eu poderia ter Dido de tua dor peguilhe;
Ou roubar do velho Lear seu amargo adolescente:
Com certeza, um sítio tão justo nunca foi visto,
De todo esse sempre sedutor olhar romântico:
Parece uma esmeralda no brilho prateado,
Das águas intensas; ou como quando em alto,
Por meio de nuvens do alvo pulguento, ri-se do céu "árido".
E ao seu redor mergulharam luxuosos,
Declives de verdura por meio da maré cheia de brilho,
O que, por assim dizer, é uma amizade suave,
Encantado com o lado florido;
Quão se pra colher lamentos rubras, ele tentou,
Que caiu profusa do caule da árvore da rosa!
Haja vista foi o modo funcionamento de teu orgulho,
Em luta para lançar duma joia sobre a costa,
Exceder todos botões do diadema da Flora.
John Keats - TRAD. ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY


sábado, dezembro 31, 2022

The Spectator (setembro de 1712), recolhido neste volume, Joseph Addison - TRAD ERIC PONTY

 Em um ensaio no The Spectator (setembro de 1712), recolhido neste volume, Joseph Addison observou que a alma humana, quando sonha, brotada do corpo, é ao mesmo tempo do teatro, dos atores e do público. Podemos acrescentar que é também o autor da fábula que está comparecendo. Existem lugares análogos de Petrônio e Dom Luis de Góngora. Uma leitura literal da metáfora de Addison poderia nos levar à tese perigosa atraente de que os sonhos constituem sendo mais antiga e não menos complexa dos gêneros literários. Esta curiosa tese, que não temos dificuldade em aprovar para a boa execução deste prólogo e para a leitura do texto, poderia justificar a composição duma história geral dos sonhos e de sua influência sobre as cartas. Este volume variado, compilado para a diversão do leitor curioso, ofereceria algum material como estes de exemplo:

A Visão dos Quatro arcanjos

Montes silencio, borda alva do mundo,
Quatro arcanjos caíram contra céu sem luz,
Suportaram, passos tranquilos e iguais,
Em grandes asas forradas, de grandes asas forradas,
caixãozinho porco onde uma criança deve aleitar,
Tão pequeno. (entanto irreal, Deus nunca poderia,
Ter-lhes dado a volta da criança primavera à luz do sol,
E fechá-lo naquele piso só, pra cair pra sempre,
No vago e no silêncio, pra a noite....)
Então, no puro auge do rol, acudiram à sua queda,
Por meio em dores ignotas, àquele frágil caixão negro,
Tal pequeno um pobre Corpo de Deus jaz, gasto,
Qual floral ermo, jazido gasto e magro,
Até não fosse mais visível; após acuado inda,
Rostos tristes e calmos pra, debaixo, campo

SOLDADO

SE eu morrer, pense apenas isto de mim:
Que há algum canto dum campo estrangeiro,
Isso é para sempre Inglaterra. Haverá
Naquela terra rica esconde-se um pó mais rico;
Um pó que a Inglaterra suportou, adaptou, fez cientes,
Deu, uma vez, suas flores pra amar, passagens pra vagar,
Um corpo da Inglaterra, respirando ar inglês,
Lavado pelos rios, abençoado por sóis de casa.
E pensem, neste coração, todo o mal se derrama,
Dum pulso no pensamento eterno, não menos
Dá algum lugar retorno ideias dadas pela Inglaterra;
Suas visões e sons; sonhos felizes qual seu dia;
E gargalhadas, saber dos amigos; e gentileza,
Em corações em paz, sob um céu inglês.

TRAD. ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

terça-feira, dezembro 27, 2022

VARIAÇÕES SOBRE MUSIC CHAMBER - ERIC PONTY

 ESTRUTURA DOS POEMAS DA CHAMBER MUSIC 

DANTE...BRUNO...VICO...JOYCE 

Primavera I II III IV V VI VII VIII IX 

Verão    X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII 

Outono XIX XX XXI XXII XXIII XXIV XXV XXVI XXVII 

                          Inverno     XXVIII  XXXVI  XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV

                      "Estrutural não faço só a marcada divisão externa, mas um nu esqueleto para albergar materiais. Me refiro as incessantes variações substantivas de três pulsões, a interação endógena dos três temas, que resultaram em uma decoração de arabescos; decoração e algo mais que decoração. A parte I é uma massa de sombra do passado, que corresponde para tanto, a primeira instituição humana, segundo Vico, a Religião, o seu período Teocrático, o, simplesmente a uma abstração: O Nascimento. A parte II é jogo de amor de crianças, que corresponde segunda instituição, O Matrimonio, ao período Heroico, ou a uma abstração: A Maturidade. A parte III transcorre durante o sonho, e corresponde a terceira instituição, O Enterro, ao período Humano, ou uma abstração: a Degradação. A parte IV é o dia que começa de novo e corresponde a Providência de Vico, ou a transcrição desde período Humano ao período Teocrático, ou a uma abstração: A Geração. James Joyce não deu ao Nascimento tão por suposto como parecer fiz com Vico. Que se lhes vão realizar. 

A consciência de que apagado octogenário há muito da criança por nascer; e, mui de ambos, no homem que se encontra o apogeu de sua curva vital, difundida da rígida ITER exclusividade que é, de um pequeno, um dos perigos de toda nítida construção. A Degradação não fica excluída na parte I, nem há maturidade da parte II. Os quatro ramos rentes cardinais se presentam em do mesmo plano: Seu elemento cardinal Numen, Sua Irrigaste o cardinal D'Esposa, seu Opulento o cardinal Weisswash e sua Eminência a cardinal Enésimo Valens, em FW, numerosas referências das quatro instituições humanas de Vico. 



Allegro ma non troppo 

Strings in the earth and air,  

Make music sweet; 

Strings by the river where, 

The willows meet.. 

JAMES JOYCE

Cordas no ar e terra conduzem; 

Cordas junto ao rio 

De onde se reúnem. 

Como um seco rio de
minha memorobilia flui 
Na lembrança por onde as águas 
abriram este formoso lago. 

II 

As cordas por onde flui esta 
Música tão cotidiana.

A voz do pássaro é crua qual
a geada fria. 

O vale outrora foi lago 
Hoje ausência d'água.  

Cordas do céu e do ar 
que tangem a descoberta 
Pela fluidez dos cabelos 
Anelados dos lábios. 

Há música em todo rio 
Pois por aqui vaga este amor 
de pálidas flores no manto, 
de negras rosas do pelo.

 III 

Tocam as cordas pelo 
rio da terra conduzindo a música.
 
Sobre este céu e ar 
Quatro pombas brancas 
voam e retornam pelo manto das rosas.
 
 Todos tangem muito suave, 
dedicados à música e mexem 
com os dedos pelo instrumento. 
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

segunda-feira, dezembro 26, 2022

FLAUTA DE JADE - ERIC PONTY

Para Stael Viegas
FLAUTA STAEL VIEGAS

Em fileiras negras, existem gansos selvagens cruzando o céu. Ainda existem ninhos. O vulto da montanha parece ser o mais pesado. És achei perto de uma árvore uma fonte onde havia uma Flauta de Jade.

Tocaste sem fim, pois esse é teu ofício. Vivis a tocá-la nos cerimoniais e cortejos dos policiais Mortos pelas milícias, E, troca de tiros pelos confrontos sendo esse ofício enchendo-a de melodias para que esses policiais possam repousar no vulto da montanha.

Ao toque imortal de teus lábios na flauta de Jade, o meu pequeno íntimo olvidou tais traços da alegria e escuta das inexprimíveis melodias, será que são ao cantarem esses seus destinos?

Teu infindo tom de tua Flauta de Jade chega até mim trazendo os murmúrios desses policiais numa harmoniosa cantiga às minhas exíguas mãos. Passam os anos vais vertendo sempre essas alegrias de escutar essas inexprimíveis melodias...


ERIC PONTY

POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY


sábado, dezembro 24, 2022

HOMEM DE HERODES - ( CONTO DE NATAL ) - ERIC PONTY

Era na montanha. Eu estudava então gramática latina com o senhor Juca Magalhães do céltico, e vivia castigado no reitoral. Há um me veio num eco da janela, choroso e suspirante. Minhas lágrimas caíam silenciosas sobre a gramática da nebrina, e, era o dia de Natal, e o senhor Juca Magalhães havia-me condenado a não acenar até que suspendesse daquela terrível conjugação.

Eu, perdido em toda esperança de consegui-lo, e disposto há algum como um santo ermitão, me distraía admirando o horto, donde cantava um Mirto que recorria aos saltos dos ramos duma nogueira centenária. As nuvens, pesadas e plúmbeas, iam a congregar-se sobre a serra de célticos num horizonte d´água, e os pastores, dando vozes aos seus rebanhos, abaixavam pressurosos pelos caminhos, encapuchados em suas capas de juncos.

No arco íris cobria o horto, e os nodais escuros e os mirtos verdes e úmidos pareciam tremer em um raio de alaranja luz.

Ao cair à tarde, o senhor Juca Magalhães atravessou o horto: andava encurvado embaixo duma grande guarda-chuva negro: se revolveu desde a cancela, e vendo-me na janela me chamou como há outro irmão. Eu reclinei temeroso. Ele me disse:

—Há aprendido isso?
—Não, senhor.
—Por que?
—Porque é mui difícil.
O senhor Juca Magalhães. - Sorrio bondoso.
—Está bem: amanhã o aprenderás. Agora acompanha-me a igreja.

Me conduziu com a mão para resguardar-me com guarda chuvas, pois principiava a cair uma ligeira chuvinha, e achamos o caminho adiante da Igreja estava acerca. Tinha uma porta de estilo Barroco, e, segundo dizia o senhor Juca Magalhães, era fundação da época de Alejadinho.

Entramos. Eu fiquei só no presbitério, o senhor bispo passou a sacristia falando com o acólito, recomendando-lhe que estivesse todo disposto para a Missa do Galo.

Pouco despois revolvíamos a sair.
Já não chova, e pálido crescente da lua começava a luzir no céu triste e invernal.

O caminho estava escuro, era um caminho de ferradura, pedregoso e com grandes charcos. De largo em largo falávamos de algum rapaz aldeão que deixava beber pacificamente junta cansada de seus bois.
Os pastores que retornavam do monte trazendo os rebanhos por distante, se detinham nas redondezas e arreavam dum lado suas ovelhas para deixar-nos passo. Todos saudavam com cristianismo:
— Bem-dito seja Deus!
— Alado seja!
—Siga mui orgulhoso o senhor Juca Magalhães e a sua companhia.
— Amém!
II


— Algo terrível ocorreu em minha vida! — Negros presságios de um destino horrendo e ameaçador pesam sobre mim qual nuvens sombrias, impenetráveis à benevolência de um raio de sol. Vou te contar o que se passou; tenho de contar o que vejo com tanta nitidez, muito embora me baste pensar nisso para que me aflore um riso demente aos lábios. Ah!, meu querido hei de dizer para que sintas, ainda que vagamente, quanto é nefasta a influência que esse acontecimento recente passou a ter em minha vida! Queria que estivesses aqui e visses com teus próprios olhos! Mas sei que vais me tomar por um visionário supersticioso. — Em suma, a experiência terrível que tive, e cujo resultado fatal ainda me esforço em vão para apartar de mim, é simplesmente que, há poucos dias, precisamente em 25 de dezembro, ao meio-dia, entrou no meu quarto com a intenção de levar minha alma. Não fiz com ele, nenhum pacto, com nada e ameacei jogá-lo escada abaixo, o que bastou para que ele tratasse de ir embora.

III

Talvez concluas que apenas conjunturas muito peculiares e estreitamente unidas à minha vida podem aferir importância a esse fato! A não ser na hora do almoço, nós, ou seja, meus irmãos e eu, quase não víamos papai durante o dia. Mas também, com muita frequência, papai nos dava livros ilustrados para folhear e punha-se muito calado e imóvel na poltrona, soltando baforadas tão grosseiras que todos acabávamos envoltos em uma neblina de fumaça. Nessas noites, mamãe ficava muito triste e, assim que o relógio dava as onze horas, dizia: “Vamos, meninos! Para a cama! Para a cama! O Homem de Herodes está chegando, eu sei!”

Nessas ocasiões, eu sempre ouvia barulho lá fora, passos lentos e pesados subindo a escada: só podia ser o Homem de Herodes, mas, pelo contrário, minha mente infantil desenvolveu a clara ideia de que mamãe só negava a existência do Homem de Herodes para que não ficássemos com medo; afinal, eu sempre o ouvia subir a escada. Procurando saber mais sobre o Homem de Herodes e sua relação com as crianças, finalmente perguntei à velha ama-seca de minha irmã caçula quem era o tal Homem de Herodes.

“Ora”, ela retrucou, “então não sabes? É um homem mau que aparece para as crianças que não querem ir para a cama, e as carrega com ele para levá-las ao Reino de Herodes no Inferno!

 Desde então, formei uma imagem horrenda do Homem de Herodes; e à noite, quando ouvia barulho na escada, tremia de pavor e espanto.

ERIC PONTY

POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

A Family Christmas.Andrea Bocelli, Matteo Bocelli, Virginia Bocelli - RESENHA CRÍTICA - ERIC PONTY

PARA PESSOAL DO TERÇO

As férias são um tempo para que os entes queridos se reúnam. Para Andrea Bocelli, basta uma pedra de toque para tê-lo inspirado a convidar seu filho Matteo de 24 anos e sua filha Virgínia de 10 anos para gravarem juntos o A Family Christmas, o primeiro álbum do trio. Gravado durante o verão, este projeto apresenta uma variedade de faixas solo, duetos e trios que incluem tudo, desde velhos favoritos como "Feliz Navidad", "Have Yourself a Merry Little Christmas" e "Joy To the World" até um par de originais - "The Greatest Gift" e "When Christmas Comes to Town". E enquanto o projeto foi sugerido pelo selo do ancião Bocelli Capitol/Decca, foi proposta que ele abraçou, particularmente quando lhe foi dada a chance de cantar com seus filhos - uma ocorrência constante ao redor de sua casa.

"Estávamos muito entusiasmados com a oportunidade, pois ela envolveria toda a família", disse Andrea Bocelli. "Começamos com a gravação dos vocais, que foi feita em nosso estúdio de gravação em casa. Em casa, a música faz parte de nosso cotidiano e sempre encontramos momentos para nos reunirmos ao redor de nosso piano, para tocar ou cantar. Este ano, com Um Natal em Família, quisemos dar um ao outro um 'presente de Natal' especial - gravando estas canções juntas".

Este projeto atual é o sucessor do primeiro álbum de férias de Bocelli, "My Christmas" de 2009. Ao escolher o material para Um Natal em Família, ele queria que as seleções ressoassem além do quão conhecidas elas poderiam ser.

"Olhamos para uma variedade de canções de Natal, embora nem todas as que escolhemos possam ser as mais populares, mas sim as mais atraentes para minha família e para mim", disse o patriarca. "Seleções que permitiriam que Matteo e Virgínia brilhassem sua luz no álbum e se sentissem mais exemplares por seus vocais, dos quais, é claro, como pai, estou tão orgulhoso. Foi também maravilhoso ter minha esposa, Verônica, e meu filho mais velho, Amos, também participando da escolha das canções. E a seleção que surgiu é muito cara ao meu coração. Escolhemos canções que pensamos serem aquelas que acenderiam o espírito natalino no coração dos outros, um sentimento que é especial para esta estação específica".
Pois tão gratificante e satisfatório quanto entrar no estúdio de gravação com sua prole foi para Bocelli, dar o próximo passo para trazê-la para o caminho das massas não é menos uma experiência emocionante para o ícone da música clássica italiana. E quando perguntado o que os fãs podem esperar quando a ninhada de Bocelli vier, ele promete que a magia capturada no disco se traduzirá bem no palco.

"O formato do show começará com a primeira parte centrada em peças de ópera conhecidas e adoradas e será seguido por uma segunda parte ligada a músicas de romance e baladas do meu catálogo", explicou ele. "Depois, é claro, a segunda parte também incluirá seleções do novo repertório de Natal de Um Natal em Família". Estou entusiasmado em dizer que Matteo e Virginia estarão ao meu lado no palco se apresentando juntos como uma família". Estamos ansiosos para compartilhar o calor e o amor de nossa família no palco com a família estendida do público de Long Island através do poder divino da música".
E embora cantar com seu pai seja algo que ambos os filhos de Bocelli conhecem bem ao longo de suas vidas, os irmãos estão igualmente em lua cheia para ter a oportunidade de fazer isso noite após noite.
Quando se trata da tarefa gigantesca de atuar para suas multidões típicas de 20.000 pessoas, cada membro da família Bocelli se prepara de uma maneira diferente.

A filha Virgínia, 10 anos, é conhecida por fazer saltos de valetes. "Eu amo a ginástica, então quando eu danço, mexo meu corpo e meu coração bate bem antes de subir ao palco, é por causa dos valetes de salto e não por medo".

Enquanto isso, seu irmão Matteo está todo em busca de descanso. "Eu tento relaxar o máximo possível", explica a criança de 25 anos. "O melhor remédio para sua voz é dormir".
E quanto à Andrea de 64 anos, o lendário tenor e seu pai superstar? Nenhuma rotina de pré-show.
"Nenhum ritual de boa sorte, nenhum amuleto da sorte", explica Andrea. "Mantemos o estresse baixo tendo uma consciência limpa, vivendo uma vida o mais saudável possível e enfrentando o público com a quantidade certa de seriedade e positividade".

"Crescendo, lembro que meu pai sempre tocava canções de Natal durante as festas e nós cantávamos juntos", disse Virginia. "Este é nosso primeiro álbum de Natal em família juntos e é tão divertido porque me lembro de gravá-lo juntos em julho". Agora as músicas estão finalmente por aí e estou animada para poder dividir o palco com meu pai e meu irmão e ver os fãs reagirem a estas canções especiais que gravamos juntos".

Matteo acrescentou: "Nos divertimos tanto no estúdio gravando a música, que será incrível, especialmente na época do ano com as férias, ver a alegria em nosso público enquanto compartilhamos nossas tradições familiares com as deles".

Tendo tido um assento na primeira fila para o sucesso global que seu pai experimentou, forneceu muita inspiração para que o filho de Boccelli começasse sua própria carreira. Sua entrada no negócio da família será acelerada consideravelmente à medida que o trabalho no álbum de estreia de Matteo começar em janeiro.

"A música tem sido uma parte de minha vida desde que eu estava na barriga de minha mãe", disse ele. "Sempre ouvi meu pai cantar e sinto como se estivesse cantando com ele desde que eu era uma criança muito pequena. Comecei a cantar piano aos seis anos de idade e foi aí que as coisas realmente pegaram impulso. Meu pai sempre apoiou tanto meu desejo de cantar e de iniciar minha própria carreira solo".
Mas, por enquanto, a Família Boccelli estará aproveitando a energia única produzida pelas linhas de sangue e pelo amor de cada um e o que representa a temporada de férias. É um feito que cai no alto da já grande variedade de marcos de Andrea Bocelli.

"Ter parte da família no palco comigo é um sentimento extraordinário", disse ele. "É um sonho tornado realidade - o melhor presente de Natal que eu já poderia receber. Estarei assim no palco, mas ao mesmo tempo, literalmente 'com a família', enquanto o público será nossa 'família estendida', com a qual celebrar o Natal através da música". Espero que seja uma agradável surpresa para todos, uma noite que nos dará boas lembranças. Se os membros das plateias voltarem para casa ainda que um pouco mais serenos, com um sorriso no rosto, então minha missão está cumprida".

A Family Christmas Andrea Bocelli, Matteo Bocelli, Virginia Bocelli, Apresentado em forma de fábula, a apresentação de cerca de 45 minutos foi gravada em Gressoney, no Vale de Aosta, em um mundo de magias e sonhos para redescobrir o espírito de Natal sendo um álbum de música onde se encontra tudo encaixadinho numa faixa após há outra. Há quem goste deste tipo de esquema de música.

ERIC PONTY