Natália é luz, fulgura, arde, flameja,
Na hora o cavalo de oiro fugidio,
Hora a irante fagulha duma igreja.
Hora um caixão luxuoso, em que dardeja,
Da orquestra doida a fulgurante orgia,
Quais sons, enquanto voa, ala-se, adeja,
Na turba astral, que trança enrola e ébria.
E alma quisera um soneto teu,
Dum verso, aceno, ou mãe silente apenas,
Verte a correr pela estrada, a espádua nua.
Aos beijos só das luxúrias falenas,
E eu olhar filha haver o sol e a lua,
Para acolchoar delas tuas mãos pequenas.
Tal qual estátua de mármore na campa,
Feita de fino, olvidar nevoeiro,
De rendas em que deita o travesseiro,
Que luar doce o corpo se ampara.
Azula-o brandamente etérea flama,
Reza a cruz do teu falar faqueiro;
No sol, nos teus dois sóis prisioneiro,
Embale ir para o véu forceja e chama.
Deixa-a ir. Fica tu serenas e vasta,
Neste calor da alcova pequenina,
Que a imensa curva Vênus mais fasta.
Deixa-me após na cruz que me fascina,
Desta campa em que estás, e, que me farta,
Cair morto aos teus pés, mãe tão divina.
Tens da virgem cristã a face e o pejo,
Que de um certo disfarce não te exprime,
Já uma tristeza de fatal sublime,
Junto à lascívia dum mortal desejo.
És morta… e pura, e creio-te, lhe vejo,
Tal face aonde a palidez se exime,
E o teu corpo, que firme, campa um vime,
Desdobra mesmo ao hálito do desejo.
És pura, se desejo de repente,
Se não me vem já súbito a descrença,
Da cruz dos teus finados beijos crentes.
Já seja há serpe, sair do ninho que se lança,
Feito roscas douro luminoso – já a gente,
Chorando no teu zelo de criança.
Tu, Lesbos, queres que Natália diga,
Com quantos beijos a farás contente,
Põe uma sobre outra os chãos do areal fatal,
Da Líbia, onde Cirene o odor fatiga.
Que do templo Lebos onipotente,
Segue sagrada igreja à campa antiga,
Já amontoa depois, ó morta amiga,
Na estrela noturna erma em silêncio.
Olhares furtivos, terrais favores…
Diga: o insensato poeta que precisa,
Quer, para mitigar os seus louvores.
Cifra então ideal, farta, infinita,
Já não dê dizer os faladores,
Nem permita a inveja há tanto dita…
V
E ainda olhar mármo encima-se de glória,
Tal qual o Sigeu, a cana o soou Homero,
De qual tal verso menos augusto e austero,
Já também deste cantar musa da memória.
Quem é? Quem foi? Conheceram o retrato?
De tal Rima do douro já tine os passos dela,
Não fale foi estranhamente então tão bela?
Queríamos ver-lhe um belo busto de tão alvo.
Uma fagulha numa estrada em ruina achada,
Do que nos resta talvez de uma grande deusa,
Nela mármore dela a fronte esculturada,
Sendo tal qual quando a fatal brilhou em nova?
Sendo já ou cipó quase em pó ou bronze do sol,
Quase salvo do tempo, já que o tempo arruína,
Do qual ou na estrutura de estragado busto,
Para que um campônio já achou, cortando a moita…
Sendo doirada às flamas quentes do Oriente,
Mesmo só dela à cruz das auroras da Vindima,
Desde já há vê-la e ouvi-la, e tê-la enfim? – Na campa.
Será o teu nome andará de beiço em boca ida,
Tal como meu verso, tu em que fulges envolvida,
Sendo tal qual o de Hesíodo, e Safo e Orfeu, menina,
Então dirá meu canto a mocidade morena.
Então dirá meu canto a mocidade morena,
Da qual inda não poluiu ao fundo o busto,
Para quem têm uma asa para fado, e outra asa,
Sendo a beleza, que a ébria, e a enleva, - já aplaude.
Sendo que a falar esse tropel de morenas,
Já que laureadas professoras do futuro,
Digas – quem assim na ebriez busto tão puro,
Já cinzelado em brinco, ou cinzelados colossos.
Sendo um busto ao capitel se então traça,
Já que de uma coluna, que restou de uma igreja,
E quando há de querer, achando o busto o exemplo,
Desde que o meu nome enrolado à tua desgraça.
Já são duas estrelas que num mesmo verso,
Pra que padecendo uma só estrela acesa,
Irão de hão de tua grandeza dizer minha,
Nesta minha chama à tua flama acesa.
Irão de hão de idear hipérboles de assombros,
Irão então compor e recompor a nossa vitória,
Sendo já eu gozarei das flamas da história,
Já que debruçado por cima dos teus ombros.
Surge sobre o meu coração, a colina em dores,
Está sentada, ouço-a inda fluir distante torrente,
Sendo minha vida a cantar os seus amores,
Tal qual feito Pã feito um deus onipotente.
Sendo do que importa? Que Deus está dentro de mim,
Contudo eu tenho em mim o inferno e o paradiso:
Do qual um é tua morte, o outro teu sorriso;
Crendo e é minha a infinidade e eu sou dela,
Já não sei porque andas em mim ao mesmo tempo,
Que nessa família, na raça, e ideia e esforço;
Do qual que anda o universo sobre o nosso dorso,
E para que nele tu o medes eu mesmo vou.
Sendo a beleza o instinto, a norma da justiça,
Já que jaz em nós mesmos, tal qual planta em germe,
Por quem busco amor, feito amor consigo quer-me;
Já que nessa tendência do bem é lei mortal,
Talvez tu no além há de sentir o mesmo impulso,
Sendo que há em nós o equilíbrio das estrelas,
Já que delas nos veem e nós pairar a vê-las,
Sendo nos levar a todos nós o mesmo olhar fatal.
Será que está começo e fim de todo em tudo:
Será do abismo o mundo, o fundo sublime,
Sendo que já um enchendo a virtude, um outro o crime,
Neste no fim do tempo a misturar-se vem.
Sendo não haverá eleitos, que precitos;
Do qual a dor do tempo todo purifica:
Será do que há de ser, enfim o todo que fica,
Já que não é um grande esplendor do sol – do Bem…
Sendo que nós somos feitos serpe mutilada,
De que cujos astros se procuram, saltando;
Para que hão de unir-se em num dia … não sei quando…
Já dessa eternidade longa margem jaz,
Do qual mundos cridos virão depois de mortos,
Do quais feitos fenecidos, que irão para há campa,
Sendo de que buscar novo alento e além novo,
Pra novo e velho!... do que haverá inda existe…
Retratou-a um artista ousado e fulminante:
Só lhe falta voltar, mas parece que viva,
Tanta expressão lhe aviva a fronte esplendorosa.
É Vênus, é Diana, é vestal. Natália tem tudo,
Duma constelação num pedaço de Phalhos,
Carece que hoje em dia os Fídias não são raros,
Apesar que o suicídio a respeito andar fundo.
Se mãos notem bem o calor da pele delicada,
Traçam fios douro em local de áureos finos cabelos,
São de dois olhos que têm o véu enrolados em novelo,
Sendo abandono do andar do cavalo enfadado.
Disseram um dia olhando mármore já defunto,
São dessas estátuas, escultor eminente,
Autopsiou-o e creio, entre farto e absorto,
São dessas vísceras falar o coração somente.
Havia no local em que o músculo não ampara,
Duma poça de pranto e sangue derretido,
Que sendo entre o crepitar de liquefeita amarra,
Que doiro esvai e flui em sangue abismo suicidado.


