Contemple-se limpidez e diga ao seu aspecto
que já se reproduza sem demora de ato;
se não renovar sua frescura em outro,
desolará o mundo e uma mãe noutro.
Pois que donzela haverá tão altiva
ponto de fechar seu vergel à sua causa?
E quem tão brioso que prefira
privar-nos do encanto com sua sorte?
Você é conceito vivo de sua mãe assaz;
vê em você o frescor de primaveras;
também, na vetustez, poderá ser vista.
E se verá na idade qual douro que agora vive.
Mas se preferir que não se lembrem mais de ti,
Não os tenha, e conceito morrerá consigo.
II
Encanto transbordante, por que deixas
tua deixa de encanto apenas em ti mesma?
A Natureza quase nada dá de graça:
apenas presta àqueles que dão sem limites.
Por que, então, belo egoísta, abusas
da bondade com que foste dotada?
Usurário transitório, por que afadigas
tal falta e não achas descanso?
Se teu único cliente és tu mesmo,
revogarás sugando teu próprio encanto;
assim, quando enfim chegar tua hora.
Reserva irás contrapesar teu saldo?
Sem uso, teu encanto é algo caçado;
usada, se torna teu algoz traçada.
III
As horas francas que esculpiram
desse rosto que cativa nos olhares
serão as mesmas que, como tiranos,
desgraçarão o que agora irradia graça.
O tempo insensível transfigura
o verão garboso em inverno feroz:
a seiva esfriada, os galhos nus,
o belo sob a neve, desse prado árido;
Dessa essência do verão de não continuar
Tão cativa em seu cárcere cristalino,
a bondade e seu efeito, ambos perecem.
Mesmo tempo, sem deixar memória viva.
As flores, mesmo que hibernem, destiladas,
não faíscam mais, mas guardam a essência.
V
Vê só! Quando a luz suave renasce
e teu feixe que surge nesse Oriente,
todos os olhos prestam homenagem
há sagrada majestade deste astro.
E quando, já em sua meia-idade, alcança,
robusto e ainda jovem, o cume etéreo,
destes olhares não deixam de adorá-lo,
enquanto seguem sua travessia dourada.
Mas quando se retira lentamente
em carruagem cansada, tal qual um ancião,
destes olhos que o honravam já se desviam.
Se deixam de seguir em seu fluxo.
Tu, que estás no zênite da jornada,
sem filhos, perecerás desapercebido.
VI
Será que o medo do choro de uma viúva
te fará desperdiçar tua vida sozinho?
Se pereceres sem deixar descendência,
do mundo chorará qual de uma esposa.
Se grávida de viuvez e não de vida,
pois não deixas rastros ao partir,
enquanto outras viúvas, quando olham
para os olhos de teus filhos, veem o pai.
O que um esbanjador gasta no mundo
passa de uma mão para outra, não se perde.
O belo, quando desperdiçado, dura pouco;
De quando não é usado, se destrói para sempre.
Não ousa há bater no amor ao próximo no peito
de quem já cometeu então um crime tão abjeto.
ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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