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quinta-feira, outubro 01, 2026

APRÉS LE BALLET PARA UMA DEFUNDA - ERIC PONTY

 

Vi.- Num deslumbramento irradia,
Natália é luz, fulgura, arde, flameja,
Na hora o cavalo de oiro fugidio,
Hora a irante fagulha duma igreja.

Hora um caixão luxuoso, em que dardeja,
Da orquestra doida a fulgurante orgia,
Quais sons, enquanto voa, ala-se, adeja,
Na turba astral, que trança enrola e ébria.

E alma quisera um soneto teu,
Dum verso, aceno, ou mãe silente apenas,
Verte a correr pela estrada, a espádua nua.

Aos beijos só das luxúrias falenas,
E eu olhar filha haver o sol e a lua,
Para acolchoar delas tuas mãos pequenas.
 
II

Tal qual estátua de mármore na campa,
Feita de fino, olvidar nevoeiro,
De rendas em que deita o travesseiro,
Que luar doce o corpo se ampara.

Azula-o brandamente etérea flama,
Reza a cruz do teu falar faqueiro;
No sol, nos teus dois sóis prisioneiro,
Embale ir para o véu forceja e chama.

Deixa-a ir. Fica tu serenas e vasta,
Neste calor da alcova pequenina,
Que a imensa curva Vênus mais fasta.

Deixa-me após na cruz que me fascina,
Desta campa em que estás, e, que me farta,
Cair morto aos teus pés, mãe tão divina.   

III

Tens da virgem cristã a face e o pejo,
Que de um certo disfarce não te exprime,
Já uma tristeza de fatal sublime,
Junto à lascívia dum mortal desejo.

És morta… e pura, e creio-te, lhe vejo,
Tal face aonde a palidez se exime,
E o teu corpo, que firme, campa um vime,
Desdobra mesmo ao hálito do desejo.

És pura, se desejo de repente,
Se não me vem já súbito a descrença,
Da cruz dos teus finados beijos crentes.

Já seja há serpe, sair do ninho que se lança,
Feito roscas douro luminoso – já a gente,
Chorando no teu zelo de criança.    
ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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