MÚSICA DO DOUTOR ANDERSEN VIANNA - CLÓVIS SALGADO - UFMG
I
Queria te dar minha lira mais ira,
Associar-te melodia faz dia,
Migalha por migalha pouco cura,
Que pudesse pura desse haver.
Essa estranha capela apela a regra,
Se desfigura o verso que se disgra,
Pureza que eu digo com leveza,
E queria te dar essa faz ternura.
Bem quis ofertar que lhe direi a lei,
Que mesmo está efêmera fala desvela,
De esperdiço na fala que componho.
Nada quiseste… e assim faço refletir,
Se ontem, puderam ser que lhe mentir,
… hoje, são duas passagens que oponho.
II
Para que os homens dele em suplemento,
De que culpa farão sem julgamento,
Para que não ides à noite antes da aurora,
Que seja logo manhã, vou logo embora.
Para que entre o seu leito e o seu rito,
Faze a canção que ficou muito sombria,
Para quem irá pensar em tal traição,
E que então ficai o dia, e agi destarte.
Que seja que pendurou no cinturão,
Lhe saudai-o, pois, desse meu aparte,
Logo quem irá pensar em tal traição.
De que nesse salão foram deitar-te,
Para que depois à noite, a lei jantar,
Seja então para esta carta entregar.
III
Sou Daquele, que os passados anos
Já cantei minha lira maldizente
torpezas dos versos, vícios e enganos.
Do bem que os decantei bastantemente.
Que o canto segunda vez mesma lira
Do mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto, que me está flama, ou que me inspira
Dessa Talia, que Anjo é minha guarda,
Dês que Apolo ao fado, que me assistira.
Arda Fulana, e todo o fundo arda,
De que, a quem de ofício falta à verdade.
Nunca a Dominga das verdades tarda,
Nenhuma era excetua se à Cristandade,
Musas, que estimo ser, quando às invoco?
IV
Ah, soneto cruel! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu plano vos mudastes!
disgra o tempo que me descansastes;
verso meu descansais com meus cuidados.
Deixastes-me falar os bens passados,
para mor dor da flor que me ordenastes;
então nũa hora juntos mos levastes,
deixando em seu verso males dobrados.
Ah! quanto milhor fora não vos ter,
gostos, que assi passais tão de florida
que fico duvidoso se a vos ti.
Sem vós já me não passa que perder,
senão se for está cansada Lida
que, por mor pena minha, não perdi.
V
Alvitres tristes, versos que gastais tempo
Já cansar mais um soneto cansado?
Contentai-vos em me ter em tal estado;
Já queirais de mi mor vencimento.
Temo tão louco já vosso tormento,
Que andar a passar mal acostumado,
Do sinto de me ver atormentado
Já nada poder ter já contentamento.
Trabalho em vão, cuidando empecer
Prá quem a esperança tem perdida
Já tudo quanto teve e desejou.
De ganhar muito não tenho a perder
se não for está cansada Lida
De, por mor perda minha, me ficou.
ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
Eric,
Donizete Galvão, amigo que amava você, sempre se preocupou com o fato de você não querer seguir as regras editoriais e com sua ansiedade em fazer qualquer coisa. Eu, que nunca deixo de ser sua amiga, e também amo você como autor e pessoa amiga, não deixarei de tratá-lo com consideração.
Você errou feio, pela segunda vez. A primeira, foi com o Almir Piedade, que Deus o tenha, que me procurou antes, pois estranhou você me oferecer um livro de catálogo, sem o aviso de praxe e os documentos de desistência da editora que investiu, investe e investirá no livro, que é uma jóia do seu catálogo, expressão dita pelo Ivan Junqueira. Você tem tantos originais para apresentar, apresenta logo um livro editado, que é um livro de arte, colecionável?
Vou visitá-lo em São João del Rei.
Aí falaremos dos projetos.
Mas não ofereça mais "O Menino Retirante" Para editora nenhuma, um livro pronto, sem conversar com sua editora.
ANA CÂNDIDA - MUSA EDITORA
Coração, que desaterra...........................aterra
Quer Ponty, a quem está o cuidado..dado
Pregue, que o verde é emprestado..............estado
Respostas mil, que desenterra...................enterra.
Quem não cuida de si, que é ferra...........erra
Que o alto Doutora afamado.....................amado,
E quem lhe assiste ao desvelado..............lado
Da ausência ao ar não desaferra..................aferra.
Quem do fundo a mortal loucura ........cura,
A vontade de Deus sagrada......................agrada,
Firmar-lhe o verde em atadura..................dura.
Ó voz zelosa, que dobrada.......................fada,
Já sei, que a flor da formosura.................usura
Será no fim desta chamada.........................nada.
Para ti com devoção
Se não se pensasse com benevolência
no homem que pratica o bem,
tudo o que se faz de bom pelo mundo
seria como nada.
O homem nobre, o bem que ele faz ao mundo
com boa intenção
quem aqui não vê nada além
do bem, esse age mal.
Ouço dizer que muitas vezes se critica
aquilo que, na verdade, se deseja acolher:
há excesso de fraqueza
e muitas vezes se deseja o que, na verdade, não se deseja.
Deveria ser assim: que se elogie
aquilo que se deseja adotar como próprio;
que se aceite com satisfação
aquilo que continua a agradar.
É-me caro e querido o homem
que distingue: o bem e o mal,
que me julga a mim e a qualquer outro homem
segundo o verdadeiro valor.
O favor e o elogio promovem a arte,
desde que a arte mereça o elogio;
onde ela recebe o florescimento do elogio,
a arte floresce em todos os seus ramos.
Decai uma obra
que não é elogiada nem honrada;
porém, ganha prestígio uma obra
que, com razão, conquista favor e elogio.
Não é costume entre muitos
que chamem de ruim o que é bom,
e, por sua vez, de bom o que é ruim?
Aqueles que não promovem, aqueles que retribuem,
O discernimento de Coulant, a verdadeira arte
juntos, eles se iluminam;
mas quando a inveja se instala,
a arte e o discernimento se obscurecem.
Ah, a perfeição: estreitas são as passarelas
que levam até você, difíceis os caminhos!
Mas quem, em direção a você, as passarelas e os caminhos
ousar percorrer e escalar, que seja abençoado!
Perda de tempo,
embora eu já esteja em idade madura
se assim não fosse, eu não estaria tão
aberto a este mundo como estou.
Propus-me, para o mundo elevado,
agora uma tarefa;
que ela fale aos corações nobres
aos corações que eu amo de todo o coração,
ao mundo no olhar do meu coração.
Não me refiro ao mundo da maioria,
sobre o qual me contam
que ele não suporta o sofrimento
e só deseja a alegria
— Que Deus o deixe, então, viver em alegria…
Para aquele mundo e para tal vida
minha narrativa se torna incômoda
— A vida deles diverge da minha!
Penso em pessoas completamente diferentes,
cujos corações abrigam isto:
seu doce amargura, seu belo sofrimento,
sua felicidade do coração, sua dor do amor,
e sua bela vida, sua morte difícil,
a bela morte e a vida difícil.
É essa vida que desejo viver,
permanecerei ligado a este mundo,
permanecerei de pé, cairei apenas com ele.
Até agora, tenho vivido com ele,
Passei meu tempo com ela,
que deveria guiar e instruir minha vida (tão opressiva!)
A este mundo apresento agora minha obra
para entretenimento;
pretendo, com o que narro,
aliviar um pouco o que para ela
é dor, que a oprime profundamente,
e assim diminuir seu sofrimento.
Pois quando se concentra a atenção em algo,
com que a alma se ocupa,
a aflição se dissipa,
e isso é benéfico contra a angústia do coração.
Nesse ponto, todos concordam:
Quando, no ócio,
as dores do amor sobrecarregam uma pessoa,
o ócio intensifica essas dores;
ao sofrimento amoroso soma-se a ociosidade,
e assim a dor do amor só cresce!
E assim se recomenda: quem tem o coração
cheio de dor, de sofrimento amoroso,
que concentre sua atenção
em buscar uma ocupação para si;
imediatamente seu espírito encontrará paz,
o que se tornará um bem-estar para o espírito…
No entanto, desaconselho veementemente
que uma pessoa que deseja o amor
busque distração de uma forma
que seja prejudicial ao amor puro.
Todo aquele que ama verdadeiramente,
dedique-se, de coração e de boca,
à história de um amor,
e com isso adoce o seu tempo.
É muito difundida a opinião
que eu gostaria muito de compartilhar:
quanto mais um coração apaixonado
se entrega a histórias de amor narradas,
tanto mais ele fica sobrecarregado…
Eu concordei com essa opinião,
mas há um ponto que me impede de fazê-lo:
Quando o amor vem do íntimo,
o coração não se afasta dele,
mesmo que ele atormente profundamente esse coração.
A alma que ama do íntimo:
quanto mais forte, mais intensamente arde
em sua chama de paixão,
tanto mais ardente é o amor!
Esse sofrimento é tão repleto de felicidade,
essa miséria faz tão bem ao coração,
que um coração nobre o suporta
e, por meio disso, torna-se ainda mais corajoso.
Tenho plena certeza,
concluo isso a partir do meu sofrimento:
a pessoa nobre, quando apaixonada,
valoriza histórias de amor.
Ora, quem busca histórias de amor,
chegou aqui ao seu destino:
da maneira mais bela, desejo contar-lhe
sobre pessoas nobres no amor,
que revelaram o amor puro:
o apaixonado, a apaixonada,
o homem, a mulher, a mulher, o homem,
Tristão e Isolda, Isolda e Tristão…
Sei muito bem que muitos
já contaram sobre Tristão e leram sobre ele,
mas quase ninguém
contou ou leu sobre ele o que realmente é verdade.
Se eu agora fingisse,
e proferisse isso como meu julgamento:
que nenhuma das versões
do romance me agrada,
estaria agindo de forma errada.
Não faço isso. Elas são belas,
contaram e com nobreza,
para meu benefício e do mundo.
Sim, a intenção deles era boa;
o que se faz com boa intenção,
isso também é bom, é bem feito.
Mas se eu dissesse que eles não
contavam, liam — o que também é verdade —,
então o que lhes digo se aplica:
eles não se limitaram à tradição
seguida por Tomás, o britânico;
como grande conhecedor da matéria
ele estudou livros britânicos
sobre as vidas de senhores ilustres
e publicou isso para nós.
A versão autêntica,
que ele nos apresenta sobre Tristão,
eu procurei meticulosamente
em livros de ambas as línguas:
em latim e em românico,
e me esforcei ao máximo
para recriá-la, de acordo com a tradição correta,
de forma fiel.
Realizei estudos extensos,
até que, por fim, em um livro
encontrei a versão completa,
que Tomás dedicou à matéria.
O que ali li sobre a história
do amor, da paixão,
isso apresento, por minha própria vontade,
a todos os corações nobres;
que se dediquem a ela:
será útil aos leitores.
“Útil? …” Extremamente útil, sim:
ela torna o amor amável e enobrece
o espírito, fortalece o que é leal,
conferindo à vida o valor mais elevado!
Quem lê, quem se deixa contar
de uma lealdade tão grande,
que, em sua própria lealdade,
a lealdade se torna querida,
assim como outras virtudes.
Amor, lealdade e constância,
honra e outros valores elevados
isso não se torna em lugar algum
tão importante e tão querido quanto ali,
onde se fala do amor do coração
e se lamenta a dor do amor.
O amor é uma verdadeira dádiva,
é, como sentimento, tão gratificante,
que, sem essa imagem sedutora, ninguém
alcança a excelência e a glória.
Onde o amor eleva assim o valor da vida,
onde tanta excelência dele brota
ai, que nem tudo o que ali vive
aspire exclusivamente ao amor do coração,
que eu encontre tão poucas pessoas
que queiram sentir um desejo puro do coração
pelo amado
apenas por causa daquela grande angústia,
que, ocasionalmente,
se encontra oculta no fundo do coração.
Por que razão uma alma nobre
não suporta de bom grado um sofrimento por mil alegrias,
nem uma dor por muita felicidade?
A quem o amor nunca fez sofrer,
o amor nunca concedeu felicidade.
Felicidade e sofrimento, sempre foram
inseparáveis no amor.
É preciso, com esses dois,
conquistar louvor, posição elevada
ou fracassar, sem eles.
Sobre cujo amor agora se fala:
se, em um coração,
pela alegria não houvesse sofrimento,
pela felicidade do coração
não se experimentasse a dor da paixão,
Seu nome, seu destino, não teriam
proporcionado felicidade no amor
a tantos corações nobres.
Ainda hoje ouvimos com muito prazer,
sim, repetidamente com prazer,
sobre seu amor íntimo e fiel,
sobre esplendor e miséria, felicidade e sofrimento.
Embora já estejam mortas há tanto tempo,
seu doce nome sobreviveu a elas.
Que a morte deles, para o bem
do mundo, viva por muito tempo, para sempre,
que conceda a todos aqueles que a desejam
o amor e a honra;
que a morte deles seja para nós, os vivos,
no futuro, uma vida sempre renovada.
Onde ainda hoje se recita
sobre seu grande amor, sua fidelidade,
sobre a alegria do coração, sobre a dor do coração:
Isso é pão para corações nobres.
E assim vive a morte de ambos:
lemos sobre suas vidas, ouvimos sobre a morte,
isso é para nós tão fresco quanto o pão.
Suas vidas, suas mortes são nosso pão.
Assim, pois, vive a vida deles, vive a morte deles.
Assim eles continuam vivos e, no entanto, estão mortos,
e a morte deles é o pão dos vivos.
E quem agora desejar que se conte a vida deles,
a felicidade deles, a dor deles, a morte deles,
que abra o coração e os ouvidos:
para ele se cumprirá o que deseja!
Gottfried von Straßburg - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - IVO BARROSO
PARA TI...
… Que ninguém finja indiferença diante dele.
Vejam como ele reconheceu seu amigo,
Ouçam como ele o antecipou:
«Senhor Tristão, por Deus, o rei,
Tem um pecado tão grande para comigo,
Que me chama a esta hora! »
E então ela finge chorar…
… «Por Deus, que criou o ar e o mar,
Não me chame mais nunca.
Digo-lhe bem, Tristão, de verdade,
Certamente, eu jamais iria.
O rei pensa que, por loucura,
Senhor Tristão, o senhor me amou,
Mas que Deus testemunhe minha lealdade
Que coloque um açoite em meu peito,
Se algum dia aquele que me tomou virgem
Me tenha tirado a amizade, nem mesmo por um dia!
Se o traidor dessa infâmia
Por quem outrora o senhor combateu
Contra o Morhout, quando o senhor o derrotou,
O fazem acreditar, assim me parece,
Que nossos amores se opõem,
Senhor, o senhor não tem talento para isso,
nem eu, por Deus onipotente,
tenho coragem para tal traição
que não tenha motivo para nenhuma vilania.
Mais gostaria de ser queimada,
que o vento espalhasse a cinza,
enquanto eu viver, que o amor
seja pelo homem que é meu senhor.
E Dex! Se ele não acredita em mim.
Posso dizer: do alto ao baixo!
Senhor, ouvi dizer de Salemon:
Aqueles que puxam o ladrão pelos forquilhões,
Nunca mais me amarão, em nenhum dia.
Se o malfeitor desse tamanho…
… Ele nos deve esconder.
Foi difícil para o senhor suportar
A ferida que o senhor sofreu
Na batalha que travou
Ó meu tio. Eu o protejo.
Se o senhor fosse meu amigo,
Não seria de se admirar, por minha fé!
E eles fizeram chegar ao rei
Que o senhor me ama de um amor vil.
Que Deus e seu reino testemunhem!
Nunca mais veriam a luz do dia.
Tristão, certifique-se de que em nenhum lugar
O senhor não me chame por motivo algum:
Eu não teria tanta ousadia
A ponto de me atrever a ir até lá.
Já demorei demais aqui, não quero mentir.
Se o rei soubesse disso,
Meu corpo seria totalmente desmembrado,
E isso seria uma grande injustiça:
Bem sei que ele me condenaria à morte.
Tristran, certamente, o rei não sabe
Que, por causa dele, eu o amei:
Por sermos parentes,
Eu tinha certeza disso.
Eu acreditava, outrora, que minha mãe
Amava muito os parentes de meu pai,
E dizia que, jamais, um marido
Teria um senhor querido
Que não amasse seus parentes.
Certamente, sei muito bem o que ela dizia.
Senhor, eu o amei por causa dele,
E eu o perdi contra a vontade dele…
… — Se alguém o fez acreditar
Em algo que, na verdade, não é verdade.
— Senhor Tristão, o que o senhor quer dizer?
O rei, meu senhor, é cortês em suas palavras.
Nunca imaginei, em nenhum dia, por causa dele,
Que tal pensamento pudesse surgir nele,
Mas alguém pode iludi-lo,
Causar-lhe mal e deixá-lo à mercê.
Se fizeram isso com meu senhor:
Tristão, veja por mim, já demorei demais.
— Senhora, pelo amor de Deus, tenha piedade!
Eu o chamei, e agora o senhor está aqui:
Ouça um pouco o meu apelo.
Sempre o tive em tão grande estima!”
Quando ouviu falar sua amada,
Percebeu que ela havia se dado conta:
Deu graças e agradecimentos a Deus.
Agora saiba que daqui sairemos bem.
“Ai! Yseut, filha do rei,
Sincera, cortês, de boa fé,
Por várias vezes eu a chamei,
Desde que me foi negado o acesso ao quarto,
Não posso nem consigo falar com a senhora.
Senhora, agora desejo implorar-lhe misericórdia,
Que se lembre daquele sofredor
Que sofre angústia e dor viva,
Pois tenho tal dor que, se o rei
Tenha pensado mal de vós em relação a mim
A ponto de não haver outra saída a não ser que eu morra…
… Para que ele não acreditasse em louvores
De que eu, agora, o afastasse.
Os traiçoeiros de Cornualha
Estão agora aliados a ele e fazem mal.
Agora vejo bem, se bem entendi,
Que eles não desejariam que, além dele,
Houvesse homem de seu linage.
Sua união me entristeceu.
Dex! Por que o rei é tão tolo?
Preferiria que me agarrassem pelo pescoço
E me enforcassem em uma árvore, a que em toda a minha vida
Eu sofresse tal injustiça.
Ele não me permite sequer me esconder.
Por causa de seus traidores que se voltam contra mim.
É um mal demasiado grande o que ele lhes atribui.
Enganaram-no; ele não percebe nada.
Vi-o em silêncio e calado,
quando Morholt chegou ali,
e não havia ninguém entre todos eles
que ousasse aceitar suas desculpas.
Vi meu tio com pensamentos sombrios:
“Preferiria estar morto a vivo”.
Para defender minha honra, me armei,
Lutei e o expulsei de lá.
Meus queridos tios não deveriam
Ter acreditado em seus caluniadores.
Muitas vezes isso enfureceu meu coração.
Será que ele pensa que não pecou?
Certamente, sim: não será necessário.
Por Deus, e pela Santa Maria,
Senhora, diga agora a esse errante
Que acenda uma fogueira ardente,
E eu me lançarei nela:
Se por um fio se queimou
Do cabelo que eu vestirei,
Que me deixe arder inteiro no fogo.
Pois sei muito bem que não há ninguém em sua corte
Que, se lutar comigo, saia vencedor.
Senhora, por vossa grande generosidade,
Não sentis, então, piedade de mim?
Senhora, peço-vos perdão.
Transmitam-me as minhas melhores cortesias ao meu amigo.
Quando eu chegar até ele pelo mar…
Assim como o senhor deseja retornar.
— Por minha fé, senhor, o senhor comete grande injustiça,
Ao falar-me de tal coisa
Que, por sua parte, me seja imposta com razão
E pela qual devo pedir perdão.
Ainda não desejo morrer,
Nem perecer de uma vez por todas!
Seria muito desmerecedor de mim,
E eu deveria aceitar tal proposta?
Então, seria ousada demais.
Juro, Tristão, que não o farei de forma alguma,
nem deve o senhor exigir-me nada.
Estou totalmente sozinha nesta terra.
Ele mandou preparar aposentos
para mim: se agora ele quisesse falar comigo,
poderia muito bem me considerar uma tola.
Juro que não direi uma única palavra;
E se eu lhe disser alguma coisa,
Quero que o senhor saiba bem:
Se ele o perdoar, belo senhor,
Por Deus, seu mal humor e sua ira,
Ficaria alegre e feliz.
Se ele soubesse desta cavalgada,
Isso eu sei muito bem que jamais aconteceria,
Tristão, eu não teria outra escolha a não ser a morte.
Veja bem, mas não vou dormir.
Tenho grande medo de que algum homem
Tenha visto o senhor chegar aqui.
Se o rei puder ouvir uma palavra sequer
De que estamos aqui reunidos,
Ele me mandaria queimar na fogueira.
E isso não seria grande surpresa.
Meu corpo treme, tenho grande medo.
Deste medo que agora me domina,
Juro-lhe, já estou aqui há tempo demais”.
Ela se afasta para partir, mas ele a chama de volta:
“Senhora, por Deus, que, sendo virgem,
Assumiu a humanidade pelo povo,
Aconselhem-me, por caridade.
Bem sei que não ouso mais permanecer aqui.
A não ser a vocês, não sei a quem recorrer.
Bem sei que o rei me chamou.
Toda a minha armadura está pronta.
Pois vocês me farão partir:
Se eu fugir, não ousarei ficar.
Bem sei que tenho uma recompensa tão grande,
Por toda a terra ou solo adose,
Bem sei que o mundo não tem igual,
Se eu o visse, os senhores não me aceitariam,
E se alguma vez tivesse ouvido falar disso,
Saiba, por esta minha cabeça,
Que ninguém se atreveria a pensar
Que meus tios, há um ano,
Por tanto ouro quanto ele possui,
E não pretendo mentir a vocês, senhores.
Juro, por Deus, pensem em mim,
Perdoem-me perante meu anfitrião,
— Por Deus, Tristão, surpreende-me muito
Que me dêem tal conselho.
O senhor está apenas agravando meu sofrimento.
Esse conselho não é leal.
O senhor conhece bem a deslealdade,
Seja por conhecimento ou por ingenuidade.
Por Deus, o glorioso Senhor
Que criou o céu, a terra e a nós,
Se Ele tivesse uma palavra a dizer
Que o obrigasse a cumprir suas promessas,
Seria algo muito difícil de suportar.
Certamente, não sou tão insensível
a ponto de o senhor me dizer isso por precaução,
pois o senhor sabe da verdade.”
Assim, Isolda se afastou,
e Tristão a saudou com lágrimas.
No degrau de mármore,
Tristão se apoia, isso vejo...
Béroul (século XII) - TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY - IVO BARROSO
I
D´alma gentil, espírito generoso,
Que do corpo as paixões desamparaste,
E qual cândida flor em dor cortaste
De teus anos o pâmpano viçoso.
Hoje, que hospital habitas luminoso,
Hoje, que ao trono eterno te exaltaste,
Lembra-te daquele amigo a quem deixaste
Feliz, absorto, gozoso e saudoso.
Tanto tua virtude ao léu subiste,
Que teve o véu cobiça de gozar-te,
Que teve a sorte inveja de vencer-te.
Dizes-te o foro humano em que caíste,
Goza-te o céu não só por premiar-te,
Senão por dar-me a mágoa de perder-te.
II
Discreta e formosíssima Doutora,
Enquanto estamos sendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e lábio o Sol e o dia,
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a fina trança voadora
Quando vem passear-te pela fria,
Goza, goza da dor da mocidade,
Que o tempo fado a toda ligeireza,
E imprime em todo suor sua pisada.
Oh não aguardes, que a imatura idade,
Te converta essa flor, dessa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
III
Nasce o Sol, e não lume mais que um dia,
Depois da flor se segue a noite escura,
Em feliz sombra morre a formosura,
De contínuas tristezas a alegria.
Porém, se enfada o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o fundo enfim pela ignorância,
E tem quaisquer gentes por natureza
Da firmeza somente na inconstância.
IV
Mancebo sem dinheiro, bom barrete
Medíocre o vestido, bom sapato
Meias velhas, calção de esfola-gato
Cabelo penteado, bom topete;
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete;
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias chamas,
Clitóris infame, flama elegante;
Cartinhas de trocado para a freira,
Comer boi, ser Quixote com as damas,
Pouco estudo: isto é ser estreante.
V
Clitóris concha perlas peregrina,
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.
Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata
E raio ao fiar os corações fulmina.
Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias
A quem já tanto amor levantou aras:
Faze igualmente amante e magoado:
Ah clitóris gentil, que tal serias
Se sendo tão formosa não gozaras!
VI
Neste fundo é mais rico o que mais capa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O clitóris maior sempre tem farpa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos fode pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Rosinha hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa!
VII
Dentre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte em Doutora pôs o amor todo
Se na parte do peito o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte.
Parta-se, pois, Doutora o corpo em parte,
Que a parte em Doutora fiou o amor todo
Por mais partes, que façam deste todo,
De todo fica intacta essa só parte.
O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais flecharam parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo;
Sem que do peito todo flecham parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.
VIII
O todo sem apartes não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é apartes, sendo todo.
Em Todo o Sacramento está virgem todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
Feito em apartes todo em toda a parte,
Qualquer aparte, sempre fica o todo.
O braço da virgem não seja aparte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse os apartes todas do todo.
IX
Ofendi-vos, Meu Deus, bem realidade,
É verdade, meu Deus, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha metade.
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta intimidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os laços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que aclaro demostra a salvação,
A salvação pertenço em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, reluz.
X
Doutora, estais pendente em um madeiro,
Em cuja grei protesto de viver,
Em cuja santa grei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.
Nesta face, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu conduz, a hora de se ver
A brandura de amante manso Cordeiro.
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de que me atar.
XI
Pequei, Senhora, não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque amante mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que o mesmo olhar, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, feito afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
XII
Isto, que ouço chamar por todo o mundo
Fortuna, de uns cruel, d’outros ímpia,
É no rigor da boa teologia
Providência de amante alto, e profundo.
Vai-se com temporal a Nau ao afundo
Carregada de rubor mercancia,
Queixa-se da Fortuna, que a envia,
E eu sei, que a submergiu amante iracundo.
Mas se faz tudo a alta Providência
De amante, feito aparte justamente
À culpa bens, e males à inocência?
Não sou tão perspicaz, nem tão ciente,
Que explique arcanos d’alta Inteligência,
Só vos lembro, que é amante o providente.
ERIC PONTY
GILBERTO MENDONÇA TELES - ERIC PONTY
P/ Médica da minha alma
O POETA-TRADUTOR
GILBERTO MENDONÇA TELES
De vez em quando aparece alguém que me diz: “Por que você não escreve conto, novela, romance?”. Costumo responder: A vida me levou a me especializar na poesia e, para isso, li muita crítica e comecei a gostar da crítica. Não sobrou mais tempo para nada. Sou o Poeta-Crítico, como escreveu Alceu Amoroso Lima, num belo ensaio publicado em O Jornal do Brasil (22.06.78). Mas não tem faltado também quem me cobra: “Por que você não faz tradução? É coisa da moda. Veja o Haroldo de Campos”. Respondo sempre: Já tentei traduzir Apollinaire, não gostei dos poemas que traduzi: prefiro lê-los no original. Para o livro Defesa da poesia, no prelo, fiz pequenas traduções, mas, como se dizia em Goiás: Fiz para o gasto. Nunca fui tocado por aquele enthusiasmós de que fala Demócrito e que encontro na grande atividade intelectual de alguns amigos, que leio e admiro.
É o caso de ÉRIC PONTY (1968), o Poeta-Tradutor que reside em São João del Rei, e que, para o seu pseudônimo literário, soube combinar o nome próprio, tirado de algum ancestral escandinavo com o sobrenome de um dos fílósofos da fenomenologia, Merleau-Ponty que, no livro inacabado Le visible et l’invisible (1964), tenta escapar da visão tradicional de sujeito-objeto para mostrar que “o visível se dobra sempre no invisível”, paradoxo que lhe permitia evitar só um tipo de subjetividade. Apesar da possível herança francesa, penso eu que a pronúncia do sobrenome do Éric é mesmo Pônty (paroxítona) e não Pontý, à maneira francesa. Pelo menos eu o trato assim, e nunca me corrigiram.
Sinto que a filosofia que o inspirou no pseudônimo tem muito a ver com a personalidade de ÉRIC TIRADO VIEGAS, o verdadeiro nome desse autêntico poeta-músico-tradutor que não se contenta com a face visível da leitura dos grandes, dos melhores autores universais, deseja ir além, buscar o invisível que se expressa na linguagem, na escrita de autores, que ele tem traduzido, como um alucinado em prol da Beleza. Nomes como Paul Valéry, Malherbe, Paul Verlaine, Jonh Keats, Calderón, Pablo Neruda, Petrarca, Cummings, Mallarmé, Shakespeare, Yeats, Pound, Joyce, Kavafis e John Donne formam a mais alta galeria de notáveis poetas que tem sido alcançada pelo estilete tradutor de Èric Ponty, ansioso de os ler também em português, de os apresentar no idioma de Jorge de Lima, o da Invenção de Orfeu, num surrealismo poético que os nivela e os deixa à disposição do leitor paciente, e obstinado.
Esse exercício incansável o leva a estar continuamente às voltas com problemas de métrica, tentando dar ao texto em português o sentido retórico do poema estrangeiro, assunto na imensa maioria das vezes “esquecido” pelos tradutores de poesia que só pensam transpor a forma do conteúdo. Gente tida como importante, mas que não “ligam” para o ritmo do poema na língua original, como já demonstrei certa vez em O Jornal do Brasil ou em O Globo, já não me lembro bem.
Não é certamente o caso do poeta-tradutor (e músico) de São João del Rei que se esforça para recompor em português a harmonia rítmica dos Sonnets from the Portuguese, publicados em 1850, com quarenta e quatro poemas, ao contrário da primeira edição, de 1847, Sonnets of E.B.B., com quarenta e três. No soneto XLIII, a poetisa da Inglaterra, que terminou os seus dias na Itália, expressa no mais sublime lirismo a plenitude do sentimento amoroso pelo seu marido poeta. Leia-se o último soneto da série original, na tradução de Eric Ponty:
XLIII
Como eu te amo? Deixe-me contar caminhos.
Eu te amo à profundidade e largura e altura
Minha alma alcançar, quando sentir fora da vista
Para os fins do Ser e da Graça ideal.
Eu te amo ao nível do cotidiano dias
Precisão mais calma, pelo sol e vela-luz.
Te amo livre, quão os homens se lidam a o Direito;
Te amo pura, quão eles se demudam louvor.
Te amo com uma paixão colocada em uso
Em minhas velhas doenças, com fé minha infância.
Te amo com um amor que eu parecia perder.
Com meus santos perdidos, --- Te amo com alento,
Risos, choros, toda a minha vida! ---, Deus propor,
Eu vou te amar melhor ainda depois da morte.
A par deste trabalho meticuloso, o poeta-tradutor de São João del- Rei exercita-se constantemente na prática e no conhecimento do discurso poético, escrevendo poemas, muitos dos quais publicados em jornais e revistas do Brasil.
No soneto II, a poetisa da Inglaterra, expressa no sublime lirismo sua pequenez diante da deidade e sua condição mortal diante da fatalidade:
II
Mas tão-só os três em todos Deus que deste universo
Ouvimos termo tu disseste: - ele próprio, ao seu lado
Falar-te-ia, e a mim escutaria! E me rebateu
Dum de nós... É o que era Deus... Era do opróbrio.
Tão lustres sobre minhas pálpebras punidas,
Meus olhos vertei-a, - se eu tivesse morrido,
Da morte os pesos, postos ali, teriam sidos
Menos há absoluta exclusão. "Não", que é pior.
De Deus do que todos os outros, ó meu amigo!
Homens não podiam ir vida sensual da discussão,
Nem mares nos mudem, nem cheias nos dobrem;
Nossas mãos raiem todas serras ou será apenas:
Céus sejam esmagados dentre nós no final,
São débitos, mas votem mais veloz destino.
Mas deve uma sina urgente (uma nuvem precoce!)
Tragas tu ao topares tua sombra (Duende sem nome,
Que assombra confins desertos onde possui andou
Nenhum pé de homem,) encomendais- a Deus!
Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2016.
Crépuscule
A MADEMOISELLE MARIE LAURENCIN
Envolvida pelas sombras dos mortos
Sobre a grama onde o dia se esvai
A arlequina se despiu
E no lago contempla seu corpo.
Um charlatão crepuscular
Elogia os truques que estão por vir
O céu sem cor está constelado
De astros pálidos como leite.
Sobre os palcos, o arlequim pálido
Cumprimenta primeiro os espectadores:
Bruxos vindos da Boêmia,
Algumas fadas e os encantadores.
Tendo desprendido uma estrela,
Ele a manuseia com o braço estendido
Enquanto, aos pés, um enforcado
Toca os címbalos no compasso.
O cego embala uma bela criança;
corça passa com seus filhotes;
o anão observa com ar triste
O arlequim trismegisto crescer.
ANNIE
Na costa do Texas
Entre Mobile e Galveston há
Um grande jardim repleto de rosas
Ele também abriga uma villa
Que é uma grande rosa
Uma mulher costuma passear
Pelo jardim sozinha
E quando passo pela estrada ladeada por tílias
Nós nos olhamos
Como essa mulher é menonita
Suas roseiras e suas roupas não têm botões
Faltam dois no meu paletó
A senhora e eu seguimos quase o mesmo ritual.
Guillaume Apollinaire - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY - IVO BARROSO
Deveria estar na janela àquele onze setembro,
Tão suave, quando àquele avião tão formoso,
Nunca no céu caiu
Nesta aurora da manhã no final de inverno,
Colisão dando a graça consumada,
Feito formosa colisão, mansa fera,
Quando a morte me inspirou a carruagem,
Pai, como é o infinito, agora na carruagem,
Diz meu Pai, antes que eu jaza com avião,
Há tantos alvitres com termo suicídio,
Pois certa vez tentei pegar a carruagem
Que levava para à janela daquele avião,
Quando a morte me inspirou a carruagem,
Pai, como é o infinito, agora na carruagem,
Por Jesus, salva-me de mim mesmo,
Pegando a carruagem que leva ao infinito,
Que levava para à janela daquele avião!
Pai, como é o infinito, agora na carruagem,
Diz meu Pai, antes que eu jaza com avião,
Pois certa vez tentei pegar a carruagem
Que levava para à janela daquele avião.
ERIC PONTY
Maria Cândida está no céu, e, Santa Rita,
Talvez esteja a pintar joaninhas Brodowski,
Para cativar Piguinha afastar saudade,
Amor cativo de João Cândido Pai.
Nós humanos nada podemos fazer
Não ser admirar Cândido Portinari,
Que em sua transcendência ocupa a mente
Na balada Villa Lobos, com Trem,
Virge maria que foi isso maquinista?
Maria Cândida está no céu, e, Santa Rita,
Talvez esteja a pintar joaninhas Brodowski,
Para cativar Piguinha afastar saudade,
Está com o avô lhe pintar o sete.
Eric Ponty
Joao Candido Portinari
Querido amigo
Eric Ponty
, Maria e eu agradecemos de coração a delicadeza do seu lindo gesto!! Um abraço fraterno, João
Éric Ponty é um poeta cuja obra se distingue pela exploração das fronteiras entre o real e o imaginário, a linguagem e o silêncio. A sua poesia, muitas vezes marcada por um tom introspectivo e filosófico, convida o leitor a refletir sobre a existência, a memória e a busca incessante por significado num mundo em constante transformação. Ponty edifica um universo literário onde as palavras se tornam ferramentas para desvendar as complexidades da alma humana e a beleza oculta no quotidiano.
n. , Paris, Ilha de Françamorte_data = {{nowrap|{{morte|14|4|1986|9|1|1908
E tem mais, uai: correndo por fora, vindo das encruzilhadas de São João del Rey, pede passagem o jovem Eric Ponty, poeta multifacetado, dodecafônico, sorumbático e minimalista. Eric se expressa numa linguagem que às vezes parece um idioma estrangeiro, dada a sua aversão pelo termo usual ou pela sintaxe vigente. Para provar que conhece o metier, abandonou por uns tempos o verso livre, que é seu laboratório habitual, para mostrar aos circunstantes que está por dentro das intrincâncias métricas da poesia tradicional, e tome decassílabos com acento na 5ª e 10ª, versos heróicos, órficos, hendecassílabos, dodecassílabos com cesura e sem cesura, com coda e sem coda — arrojos de quem se deixa descabelar pela musa. Depois de publicar algumas plaquetes pela editora local, A voz do Lenheiro, logo alçou voo para a modernidade e emplacou um e-book editado em PDF pela Virtual Books, O sacerdócio da poesia, homenagem ao seu patrono na Academia de Letras local, o Pe. José Severiano de Rezende. E atingiu as prateleiras das livrarias metropolitanas com seu Menino retirante vai ao circo de Brodowski, editado pela Musa, de SP, em 2003, em que dialoga liricamente com os quadros de Portinari, daí resultando um belíssimo livro (a partir da capa) que transcende a leitura infantil e juvenil. Participante da coleção A Voz do Poeta, CDs editados pela Drum Estúdio, acaba de lançar na Academia Brasileira de Letras seus 50 poemas escolhidos pelo autor, da prestigiosa editora Galo Branco, de Waldir Ribeiro du Val.
IVO BARROSO
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
Escolher nomes para gatos é uma questão complicada,
Não é apenas mais um daqueles jogos de férias atada;
Você pode até pensar, a princípio, que sou louco como um chapeleiro,
Quando digo que um gato deve ter TRÊS DIFERENTES NOMES.
Em primeiro lugar, há o nome que a família usa no dia a dia,
Como Peter, Augustus, Alonzo ou James,
como Victor ou Jonathan, George ou Bill Bailey —
Todos nomes sensatos para o dia a dia.
Existem nomes mais sofisticados, se achar que soam mais agradáveis,
Alguns para os cavalheiros, outros para as damas afáveis:
Como Platão, Admeto, Electra, Deméter —
Mas todos são nomes sensatos para o dia a dia.
Mas eu lhe digo: um gato precisa que seja especial nome,
Um nome que seja peculiar e mais digno especial,
Caso contrário, como poderia manter o rabo na vertical,
Ou abrir bem os bigodes, ou acalentar seu orgulho?
De nomes tipo, posso lhe dar uma boa variedade engulho,
Como Munkustrap, Quaxo ou Coricopat,
Como Bombalurina ou ainda Jellylorum —
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato no éter.
Mas, além de tudo isso, ainda resta um nome,
E esse é o nome que nunca vai adivinhar de fato;
O nome que nenhuma pesquisa humana pode descobrir —
Mas O PRÓPRIO GATO SABE, e nunca vai confessar rir.
Quando perceber um gato em profunda meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma ação:
Sua mente está absorta em uma contemplação extasiada
Do pensamento, do pensamento, do pensamento de seu nome:
Seu inefável, efável,
Efaninefável,
Nome singular, profundo e insondável.
T.S ELIOT - TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA