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terça-feira, setembro 08, 2026

AMAPOLA E MEMÓRIA - PAUL CELAN - TRAD. ERIC PONTY

 

 UMA CANÇÃO NO DESERTO

E trançei uma coroa de folhagem escura na região de Akra:
ali fiz o cavalo negro dar uma volta completa e ataquei a morte com a espada.
Bebi também em tigelas de madeira a cinza das fontes de Akra
E, com a viseira abaixada, saí ao encontro das ruínas do céu.

Pois os anjos morreram e o Senhor ficou cego na região de Akra,
e não há ninguém que proteja, em meu sonho, aqueles que aqui partiram para o descanso.
Duramente maltratada foi a lua, a florzinha da região de Akra,
assim florescem aquelas que competem com os espinhos, as mãos com anéis enferrujados.

Assim, finalmente me prostrarei até o beijo quando rezarem em Akra.
Péssima era a armadura da noite, por suas juntas escorre o sangue!
Assim me transformei em seu irmão sorridente, no querubim de ferro de Akra.
Assim ainda pronuncio o nome e ainda sinto o ardor nas bochechas.

COROA

Na mão, o outono devora sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo volta para a casca

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca diz a verdade.

Meu olho
desce até o sexo da amada:
olhamos um para o outro,
dizemos algo obscuro,
amamo-nos mutuamente como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.

Estamos abraçados na janela, nos veem da rua:
é hora de que se saiba!
É hora de que a pedra se prepare para florescer,
de que a inquietação tenha um coração que bate.
É hora de que seja hora.

É hora.


FUGA DA MORTE

Bebemos o negro do amanhecer ao entardecer
bebemos ao meio-dia e pela manhã, bebemos à noite
bebemos e nos embriagamos
cavamos uma cova nos céus; lá não há estreiteza
Na casa mora um homem que brinca com as cobras, que escreve;
que escreve ao anoitecer: “À Alemanha, teu cabelo dourado, Margarete”;
ele escreve e sai até a porta de casa, e as estrelas brilham; ele assobia, chamando seus;
cães;
ele assobia e seus judeus saem; ele manda cavar uma cova na terra;
ele nos ordena: “Toquem agora música de dança”

Leite negro do amanhecer, nós te bebemos à noite
nós te bebemos pela manhã e ao meio-dia, nós te bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as cobras, que escreve
que escreve ao anoitecer para a Alemanha, teu cabelo dourado, Margarete
Seu cabelo cinza, Sulamita, cavamos uma cova nos ares, lá não há
estreiteza 
Gritem: “Cavem mais fundo no reino da terra”, uns e outros, cantem e
toquem;
agarram a espada no cinto, ele a empunha, tem olhos azuis;
enfiem as pás mais fundo, uns e outros, voltem a tocar música de dança.

Leite negro do amanhecer, nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e pela manhã, te bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
um homem mora na casa, seu cabelo dourado, Margarete, seu cabelo cinza
Sulamita, ele brinca com serpentes
Grita: toquem mais docemente para a morte; a morte é um senhor da Alemanha
grita: toquem os violinos mais sombriamente; depois vocês subirão como fumaça no ar
depois vocês terão uma cova nas nuvens; lá não há estreiteza.

Leite negro do amanhecer, nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia; a morte é um senhor da Alemanha
nós a bebemos ao entardecer e pela manhã bebemos
e bebemos; a morte é um senhor da Alemanha, seu olho é azul
ela te atinge com uma bala de chumbo, te atinge com precisão
um homem mora na casa; seu cabelo dourado, Margarete
incita seus cães contra nós, nos presenteia com uma cova no ar
persegue com as serpentes e sonha — a morte é um senhor da Alemanha
seu cabelo dourado, Margarete
seu cabelo cinza, Sulamita

PAUL CELAN - TRAD. ERIC PONTY

 

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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