I
Queria te dar minha lira mais ira,
Associar-te melodia faz dia,
Migalha por migalha pouco cura,
Que pudesse pura desse haver.
Essa estranha capela apela a regra,
Se desfigura o verso que se disgra,
Pureza que eu digo com leveza,
E queria te dar essa faz ternura.
Bem quis ofertar que lhe direi a lei,
Que mesmo está efêmera fala desvela,
De esperdiço na fala que componho.
Nada quiseste… e assim faço refletir,
Se ontem, puderam ser que lhe mentir,
… hoje, são duas passagens que oponho.
II
Para que os homens dele em suplemento,
De que culpa farão sem julgamento,
Para que não ides à noite antes da aurora,
Que seja logo manhã, vou logo embora.
Para que entre o seu leito e o seu rito,
Faze a canção que ficou muito sombria,
Para quem irá pensar em tal traição,
E que então ficai o dia, e agi destarte.
Que seja que pendurou no cinturão,
Lhe saudai-o, pois, desse meu aparte,
Logo quem irá pensar em tal traição.
De que nesse salão foram deitar-te,
Para que depois à noite, a lei jantar,
Seja então para esta carta entregar.
III
Sou Daquele, que os passados anos
Já cantei minha lira maldizente
torpezas dos versos, vícios e enganos.
Do bem que os decantei bastantemente.
Que o canto segunda vez mesma lira
Do mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto, que me está flama, ou que me inspira
Dessa Talia, que Anjo é minha guarda,
Dês que Apolo ao fado, que me assistira.
Arda Fulana, e todo o fundo arda,
De que, a quem de ofício falta à verdade.
Nunca a Dominga das verdades tarda,
Nenhuma era excetua se à Cristandade,
Musas, que estimo ser, quando às invoco?
IV
Ah, soneto cruel! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu plano vos mudastes!
disgra o tempo que me descansastes;
verso meu descansais com meus cuidados.
Deixastes-me falar os bens passados,
para mor dor da flor que me ordenastes;
então nũa hora juntos mos levastes,
deixando em seu verso males dobrados.
Ah! quanto milhor fora não vos ter,
gostos, que assi passais tão de florida
que fico duvidoso se a vos ti.
Sem vós já me não passa que perder,
senão se for está cansada Lida
que, por mor pena minha, não perdi.
V
Alvitres tristes, versos que gastais tempo
Já cansar mais um soneto cansado?
Contentai-vos em me ter em tal estado;
Já queirais de mi mor vencimento.
Temo tão louco já vosso tormento,
Que andar a passar mal acostumado,
Do sinto de me ver atormentado
Já nada poder ter já contentamento.
Trabalho em vão, cuidando empecer
Prá quem a esperança tem perdida
Já tudo quanto teve e desejou.
De ganhar muito não tenho a perder
se não for está cansada Lida
De, por mor perda minha, me ficou.
ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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