sexta-feira, janeiro 12, 2018

Os embates dum caracol aventureiro - Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

Existe candura infantil
No alvorecer sereno.
As árvores alargam
Seus braços ao chão.

Um sopro tremente
Ganga as sementeiras.
E as aranhas ampliam
Suas passagens de seda
- Confins na limpidez do cristal
Da feição.

Na via
Uma fonte lê
Sua canção entre as chelpas
E o caracol, pacifico
Corriqueiro da vereda
Desconhecido e miserável
A vista observa
A nobre quietude
Da Casta
Deu-lhe coragem e fé
Olvidando-se das aflições
De sua morada
Observar o fim da seda.
Colocou-se a marchar e adentrou-se
Em uma brenha de heras
E de urtigas. No meão
Existia duas rãs antigas
Que recebiam sol,
Enfadadas e doentias.

“Esses hinos atuais
- Murmurava uma dentre elas-
“São incultos. ” Juntos
Amigavelmente – lhe responde
A outra rã-das-moitas, que se achava
Com chaga e quase alucinada
“ Quando nova cria
Que se enfim Deus escutasse
A nossa serenata traria
Dó. E minha noção
Pois já existi assaz
Faz com que não ache.
Eu já não faço serenata...”

As duas rãs se lamentar
Exorando uma pedincha
A uma rã jovem
Que sobrevém convencida
Espaçando as ervas.

Ante brenha triste
O caracol se terrifica
Quer berrar. Não pode
As rãs aproximam-se dele

“É uma mariposa? ”
- Diz a pouco mais ofuscada
“Tem dois cornichos”
- A outra rã contrapõe
“É caracol que notarás
Caracol, doutros chãos.

“Chego da minha moradia e quero
Bem já retornar para ela. ”
“É uma peste muito inerme
- Exclama a rã ofuscada
“Não seduzes nunca? ” “Não canto”
Diz caracol. “ Nem faz as preces?
“Também não – Jamais estudei
“ Nem acredita na existência eterna?
“Do que se trata disso?

“É existir eterna
Dentro d’água mais amaina
Perto dum chão florejada
Que argentário manjar escora. ”

“ Quando o garoto me falou
Um dia a minha paupérrima avó
Que, ao padecer, eu partiria
Para unidas folhagens mais tenras
Do arvoredo mais alto.

“ Uma irreligiosa foi tua avó.
O fato te contamos
Nós. Fias nela”,
Falam as rãs irritadas.

“ Por que quis observar a senda? ”
- Soluça o caracol. “Sim, acredito
Para sempre uma existência eterna
Que (me) predicais...”

As rãs
Muito contemplativas, arredam
E o caracol, assombrado
Vai-se arrastando no bosque.

As duas rãs pedintes
Como enigmas ficam.
Uma delas se argumenta.
“Acreditas na existência eterna”
“ Não creio! ” Pronunciando muito triste
A rã chaga e alucinada
“ Por que nos pronunciamos
Ante o caracol que cresse?
“Por que... Me indago a razão
- Pronuncia a rã cega.
“Parto-me de emoção
Ao notar a firmeza
Com que avocam os meus filhos
Deus nos concebe acéquia.

As formigas exclamam
Mexendo as suas antenas.
“Trucidar-te-emos; és
Inerte e perversa
Os afazeres são sua lei. ”

“Observei estrelas”,
Diz a formiga com ferimento.
E o caracol sentencia:
“Deixa que parta,
Prossegui os vossos trabalhos.
É crível que muito preciso
Entregue faleça.

Pela feição dulcifico
Atravessou uma abelha.
A formiga, estertorando
Cheira a tarde enorme
E conta: “ É aquela vai conduzir-me
Uma estrela.

As demais formiguinhas 
Evadem ao observe-la morta.

O Caracol anseia
E tonto se arreda
Repleto de confusão
Pelo ensejo do eterno. A senda
Não se finda”- exclama.
“ Quiçá às estrelas
Se abeirar-se por aqui.
Mas minha boa covardia.
Me atalhará de abeirar-se.
Não falemos mais nelas. ”

Tudo jazia brumoso
De sol precário e bruma.
Campanários distantes
Evocam pessoas à igreja,
E o caracol, pacifico
Corriqueiro da senda
Tonto e irrequieto
A vista vê.      

Trad, Èric Ponty





quinta-feira, janeiro 11, 2018

Cata-ventos - Federico Garcia Lorca - Trad. Eric Ponty

Vento do Sul,
Moreno, ardente,
Chegas sobre minha carne
Conduzindo-me a semente
De brilhantes
Olhares, admirados
De flores de laranjeira.

Pões vermelha a lua
E soluçantes
Os álamos seduzidos, mas vens
Demasiado tarde!
Hei já enrolado à noite do meu canto
Na estante!

Sem nenhum vento
Creia em mim
Reja, coração;
Reja, coração.

Ar do Norte
Urso branco do vento!
Faz-me caso!
Reja, coração;
Reja, coração.

Ar do Norte,
Urso branco vento
Chegas sobre minha carne
Tremente de auroras
Boreais
Com tua capa de espectro
Capitães
E sorrindo aos gritos
De Dante
Ô polidor de estrelas!
Porém chega
Demasiado tarde
Meu armário está musgoso
Hei perdido a chave.

Sem algum vento,
Creia em mim!
Reja, coração;
Reja, coração.

Brisas, gnomos e ventos
De alguma parte.
Moscas de rosa
De pétalas piramidais.

Alísios destetados
Entre as grosseiras árvores
Flautas na tormenta
Abandona-me!
Tem graves cadeias
Minha lembrança
E este prisioneiro pássaro
Que se esboça com trinos
À tarde.

As passagens que partem não retornam jamais
Juntamente o orbe conhece disso,
E entre o fulgente gentio dos ares
É baldado lamentar-se.

Não é veridicidade choupo, senhor da brisa?
É inculto lastimar-se. 

Sem algum vento,
Creia em mim!
Reja, coração;
Reja, coração.


Trad. Eric Ponty

terça-feira, janeiro 09, 2018

Para Diótima - Friedrich Holderlin - Trad. Eric Ponty

Vastamente morto e repregado em si mesmo,
meu coração saúda a beleza do mundo,
seus galhos prosperam e enchem brotos,
adulvadas por uma seiva inovação.

ô, eu regressarei a viver,
assim como o feliz valor de minhas flores
abarcando sua dura cápsula
que se lança vazia ao ar e a luz.

Como hei mudado de ar de todo!
O que eu odiei e temi,
Se funde hoje aos seus ternos acordes
da melodia de minha vida;
e cada vez que a hora sonha,
uma misteriosa emoção me faz lembrar
os dias doirados da infância,
desde que falhe meu único bem.

Diótima, este brioso ser!
Alma sublime por quem meu coração
recoloca na angústia de viver
se promete a juventude eterna dos deuses.

Nosso céu durará!
Antes já que se verse, nossas almas,
unidas por suas insondáveis espessuras,
se havia reconhecido.

Quando, estou perdido pelos sonhos da infância
nítido como o azul do dia,
eu descansava sobre solo enriquecido
embaixo das árvores de meu jardim,
quando iniciava a primavera de minha vida
com suaves acordes de gozo e de beleza,
a alma de Diótima, como um zéfiro
passava entre galhos, sobre mim.

E quando, tal lenda
a beleza se iluminou de minha vida,
e me falei indigente e cego,
excluído de tanto paraíso,
quando o peso do dia me fatigava
E minha vida fria e sem cores vivas
deseja já, declinante,
o mudo reino das sombras:
então, do Ideal retornaram,
como desde céu, força e ânimo,
E apareceste radiante em minha noite,
divina efígie!

Deixando o porto silencioso para unir-me contigo,
espalhei de novo minha barca dormida
no azul do oceano.

Agora hei que retorno a te encontrar,
mais formosa que como te havia sonhado
nas horas solenes do amor.
Briosa e boa, ali se encontravas!

ô pobreza da fantasia,
somente vós, Natureza, podes criar este exemplar único,
no meio de suas eternas harmonias,
feliz seja tua perfeição!

Como os bem-aventurados em suas altas paragens,
onde a alegria busca refugio
E floresce a inalterável beleza
Emancipa da sua existência.

Como urania, harmonia
em meio do caos arrebentado,
ela segue divina e pura
Dentre ruina dos tempos.

Atrás prodigar-lhe todas homenagens,
meu espírito, obscuro, derrotado,
tratou de conquistar
ao que passa no interior seus pensamentos
mais agressivos. Que Ardor solar
E doçura primaveril, luta
E paz, lutam no fundo de meu coração
Diante de sua efigie angelical.

Muitas vezes me derramei ante ela
lagrimejadas de lágrimas de meu coração,
e tratei, em cada acorde da vida,
de vibrar ao uníssono com sua doçura.

As vezes, ferido no profundo,
exorei sua piedade,
quando ao céu que dela apossei
se abre claro r santo aos meus olhos.

Porém quando em seu silencio, rico imensamente,
com uma só olhada, uma só palavra
sua alma comunica com minha
sua paz de sua plenitude,
quando vejo aos deuses que me animam
deslumbrar uma chama em sua frente,
e vencido por sua admiração
me acuso ante ela de mim de mais nada,
então sua alma celeste me desaba
na doçura dum jogo infantil,
embaixo seu feitiço minhas cadeias
se denudam em gozo.

Assim desaparece meu pobre apanágio
e se ilumina último rastro de minhas lutas!
Minha natureza mortal entra
na plenitude duma vida de deus.

Em andante, meus elementos sois
esse onde nenhuma força terrestre,
nenhuma ordem divina nos afasta mais.

Ali onde saboreamos a união total.
Porque ali, tempos, já advindos
que nada valem, necessidade, são imêmores:
por fim então me sinto viver.

Assim como o aquário das Τυνδαρίδαι
com majestoso centeio
prossegue seu trajeto, a passível como nós,
nas alturas do céu noturno,
também desce, larga e brilhante,
desde a aborda do céu
vazia de folhagem onde a chama dum afetuoso descanso.

E nós, ô ardor de nossas almas,
encontramos em ti uma tumba bendita,
nos abismamos em sua folhagem
exultante dum júbilo mudo;
logo, quando ao chamado da hora,
acordados já, cheios dum orgulho novo
retornemos, como as estrelas,
Duma noite breve da vida.


Trad. Eric Ponty



Grodek - Georg trakl - Trad. Eric Ponty

Ao anoitecer, as madeiras de outono ressoam.
Com armas mortíferas, os campos sapés e lagos azuis,
o sol sobrevoado. Mais sombriamente;
A noite se cinge de guerreiros moribundos,
Lamentação selvagem de suas bocas falidas.
No entanto, as nuvens silenciosamente encarnadas,
nas quais um deus irado vive,
Reunidos num salgueiro, qual sangue foi derramado,
a frieza da lua;
Todas as estradas fluem em ruína sombria.
Sob os ramos sapés do entardecer e das estrelas,
a sombra da irmã se agita por meio da brenha silenciosa,
Para congratular as almas dos heróis,
das cabeças sangrando;
E, docemente,
os galhos escuros do outono tocam nos juncos.
Mais angústia! Vôs altíssimos,
nessa ardente flama do espírito hoje devorada
por uma agonia poderosa, das proles não nascidas.

Trad. Eric Ponty

Os Corvos - Georg Trakl- Trad. Eric Ponty

Sobre o negro ângulo apressam-se
Ao meio dia os corvos com duro grasnido
Suas sombras o servo roça seguido
E as vezes taciturnos se lhes vê descansando.

Ô como parda calma vão rompendo
Em que uma asa se sente embelezada
Tal fêmea em grave pressentir cultivada
E as vezes se lhe pode ouvir grunhindo.

Sobre uma coroa farejam por todo lugar
E o voo de pronto dirigem do Norte
E desaparecem em tal fúnebre corte
Em ares que se estremecem de prazer.

Trad. Eric Ponty

A brisa marinha - Stéphafane Mallarmé - Trad. Eric Ponty

A carne está triste hélas! E eu li todos livros,
Fugir! Ali fugir! Sinto pássaros são livres,
Se há dentre espuma tão incógnita e dos céus!

Nada, nem velhos jardins refletem para seus olhos,
não retém nem este imo acima mar mergulha,
as noites! Nem clareza erma minha lâmpada,
em que o vazio papel que brancura defende,
e nem que jovem fêmea amamenta já infante.

Eu partirei! Navios balançando maduro,
içar âncora para uma exótica natura!
Um tédio, desolado aos tempos cruéis espera
Acreditam em que ainda adeus sumo lenços!

E, poder ser do mastro acenam às tempestades,
ser ele que dum céu que vento atém aos seus náufragos,
perdidos seu mastro sem mastro ou férteis ilhéus,
mas, ô me ouçam meu cerne, ouçam o canto dos nautas!

Trad.Eric Ponty

Canto I - Dante Aliguiere - Trad. Eric Ponty

A metade do caminho desta vida
Eu me encontrava em uma selva escura,
Com a senda direita já perdida.

Ah, pois dizer qual era é coisa dura,
A selva selvagem, áspera e forte
Que em o pensar renova a coragem!

É tão amarga que algo mais é morte,
Mas por tratar do bem que ali encontrei
Direi de quanto ali me deu na sorte

Repetir não sabia como entrei na via,
Ela, pois, me vencia sonho o mesmo dia
Em que o veraz caminho abandonei.

Mas atrás chegar ao cerro que subia
Ali onde aquele vale terminava
Com pavor a minha alma confundia,

Ao olhar a cumpre, vi que me estava
Vestida das extensões do planeta,
Que o bom caminho a todos assinalava.

Ficando a apreensão um pouco quieta
Que de meu coração dolorido
Em o lago durou a noite que me inquieta.

E como aquele que com alento ardido,
Do oceano saído a ribeira dum rio,
Olhar a água que quase lhe há perdido,

Minha alma, que fugitiva então era,
Voltou-se a contemplar de novo o passo
Que no atravessa nada sem que morra.

Atrás repousar pouco corpo cansado,
Meu caminho segue por um tal deserto,
Mais abaixo sempre o pé que não dá passo.

E, apenas o caminho me ouve aberto,
Um leopardo leviano ali surgia,
De pé manchado todo recoberto;

Parado em frente minha, frente me havia
Cortando desse modo meu caminho,
E eu, para volver, já me retornava.

Era ao tempo primeiro matutino
E se eleva ao sol com suas as estrelas
Que estiveram com o quando o divino

Amor movia daquelas coisas belas,
E esperar bem podia, e com razão,
Ao que a fera esbravejava visse,

Agora da aurora e a doce estação;
Mas não sem temor me produzisse
A efígie, que vi então, que dum leão.

Me pareceu contra minha viesse,
Alta a testa e com alongados olhos,
Que parecia que o ar lhe temesse

E uma loba, que todas suas garras
Guardar semelhava em sua brancura
E há muitos procurou duelo emboscada,

Me chegou de inquietude com a bravura
Vinha reluzir em sua perspectiva
E perdi a esperança desta altura.

E, como a aquele que goza na jornada
Dá ganância e, quando chega o dia
De perder, chora sua alma contristada,

Assim a besta, que havia me vencia,
Me esforçava sem trégua, lentamente,
Ao lugar em que ao sol não se brilhava.

Então me deslizava ao pedinte,
Já me olhava sendo descoberto
Há quem por mudo porque silencia.

Quando ao contemplei no grande deserto,
«Tenha piedade —eu lhe gritei— de minha,
Já sejas sombra ou sejas homem certo! ».

Respondia-me: «Homem não, que homem já fui,
E por pais lombardos sendo gerado,
Dá mantuana pátria. Eu nasci qual filho

Abaixo Júlio, ao que tarde, e hei morado
Na Roma regida nobre Augusto,
A que a falsas deidades hei adorado.

Poeta fui, cantei então ao justo homem
Filho de Aquiles, que de Troia vindo
Quando o soberbo leão ficou robusto.

Mas por que moves em teu amargo sino,
Por que não vai ao monte complacente
Que de todos os gozem sendo caminho? ».

Es tu aquele Virgílio e essa fonte
De quem brota caudal da eloquência?
Lhe respondi com vergonhosa frente—.

Dos poetas a honorável e ciência,
Vaga-me ao largo estudo e grão amor
Com que busquei em teu livro sapiência.

Olhava teu mesmo mestre, teu meu autor:
És tu somente aquele do que hei tomado
O belo estilo que me dirá honradez.

Olhando besta havia atrás me encontrado,
Sábio famoso, e arrojando-me seu ultraje;
Por ela penso e venhas me hão observado. »

«Te convêm empreender distinta viagem
—Me respondeu me olhando que chorava—
Para deixar este lugar selvagem:

Que esta, por a que gritas, besta brava
Não cedeu a nada ao passo por sua via
E com a vida de que planeja acaba;

Sendo sua natureza tão ímpia no trato
Nunca sacia sua consciência odiosa
E, detrás comer, tendo fome, todavia.

Com muitos animais que se desposa,
E muitos mais serão até ao momento
Em que de Lebre morte espantosa.

Não serão terra e ouro seu alimento,
Senão amor e sapiência reunida;
Tenderá entre mago, mago nascimento.

Verá Itália suas forças ressurgidas
Por quem, virgem, Camila falou morte
E Euríalo, Turno e Niso, em feridas.

Dum povo e doutro lhe encherá, de sorte
Que fará de dar com ela no Inferno,
De que a inveja primeira que a diverte

De onde, por teu bem, penso e discerno
Que me sigas e eu lhe serei teu guia,
E hei de levar-te até ao lugar eterno

Onde ouvirás espantosa gritaria,
Verás almas tão antigas dolorosas:
Que segunda morte choram a porfia,

Verás gentes também que são grandiosas
No fogo, que esperam conviver
Dum dia com suas almas venturosas

Das quais, se aspiras a ascender,
Mais que a minha existe uma alma pura:
Com ela, a irei-me eu, te verei ir;

Que aquele imperador que aí na altura,
Posto que fui rebelde a sua doutrina,
Que eu não cheguei a sua cidade busca

A todo desde ali regi e domina,
Ali estão sua cidade e sua alta sede;
Feliz aquele há quem ali destina! ».

Dizendo eu: «Poeta, pois eu sou pode
Aquele Deus tu nunca terás conhecido,
Deste mal livre, e de outro maior, fique;

Leva-me onde agora hei prometido,
E as portas de Pedro vejas um dia
E a os de ânimo triste e afligido».

Ao eco ao andar, e eu detrás seguia.

Trad. Eric Ponty

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Caros possíveis leitores,
Peço um pouco de paciência, pois irei postar integral à tradução de Sonetos de Orpheu com poema recitado no alemão, assim como à tradução integral dos Sonetos da Portuguesa com poema recitado no inglês como à tradução integral de Flores do Mal com poema recitado no francês. E como à tradução de Romance sem Palavras com poema recitado no francês como são uma quantidade de poemas muito volumosos e algo levará tempo.

 Este trabalho se dá uma vez, que parafraseando Theodor Adorno que nos diz A crítica cultural encontrasse diante do último estágio da dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema após Auschwitz e da situação cultural e política do Brasil é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas.

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Soneto IX até XI - Shakespeare, William - Trad. Eric Ponty

Soneto IX

Acaso ao medo ao canto duma viúva,
farás delapidar tua vida apenas?
Se morrer sem deixar progenitora
Ao mundo chorará como uma esposa?

Sombria de viuvez e não desta vida,
Pois tu não deixas sinais ao andar-te,
Entanto que de outras viúvas quando olham
Os olhos de seus filhos, chegam ao pai.

O que no mundo gasta perdulário
Vai duma mão há outra, não se perde,
O belo derrocado, dura pouco.

Não usados, se destrói já para sempre    
Não batas amor ao próximo teu peito    
De quem se impõe um crime tão abjeto.

Soneto X

Há nada quer, não queira negá-lo,
Pois se quer se vigia que de ti mesmo
Sem dúvida te amam muito sem embargo
Nenhum há sido nem foi correspondido.

O ódio criminal que carregas dentro,
Te incita a conspirar contra tua casa
E fazer-te derrubar seu nobre teto
Quando nobre és ver que este se repara.

Depõe teu empenho e eu, minha incerteza:
Produziras mais ódio de que ao amor?
Se como tua presença amável e doce.

Ao tentae quando menos compaixão    
Faz, por outros, de outro igual és justo    
Que a beleza reaviva em ti sem custo. 

Soneto XI

Neste tempo que tu mínguas cresceras,
Em um dos teus, ao que deixas partir 
Ao fresco sangue com jovem tu outorgas
Serás teu atributo quando envelheças.

Nele há sensatez, beleza, aumento,
Sem ele, necessidade, velho estrago,
Pensando como tu cessará tempo,
E ao mundo durará setenta anos.

Que aquela natureza desatente,
Os densos, ferros, rudes, se suprimam,
Corrução, o mais dotado mais obediente,

Compartilhar com cresces enquanto vive,    
Natureza talhe como seu emblema    
Imprima mais não deixes morras problema.

XIII
Se ficaras tu eu! Porém, ai, meu amor,
Tu só serás teu enquanto tu existas;
Desponte em abandonar esta ilusão
Chega em outro tuas fascinações finas.

Assim conseguirás que ela não se finde
Esta beleza que tu detém, posto
Que quando ao doce rama te imite
Serás de novo tu, ao que hajas morto.

Tão digna residência não merece
Que um mal tutor a deixe abandonada
As despesas do inverno e suas correntes.

Frio eterno da morte que nos dá vazio.
Não desaltere, pois, amor, ao dar-lhe
Ao teu filho que tu tiveste um dia: um pai.

Soneto XXI

Não farei como musa em seus versos
Lhes cantar em uma beleza enfeitada
Que se atreve usar o céu de seu ornamento
E, da força de encontrar em cada graça.

Um símile do belo que lhe iguala,
Ao sol, a lua, das gemas destes mares
À toda flor de abril e a mil raridades
Que habitam as esferas celestiais.

Deixa-me ser veraz, ame o escriba
E creia que meu amor não é mais formoso
Que ao filho de qualquer mulher nem brilha.

Qual o éter nos cálices deste ouro    
Se hão de fazer tumulto por meu bem ser    
Eu não farias, pois nada hei de vender.

Eric Ponty

domingo, dezembro 31, 2017

Sonetos V - VIII - Shakespeare, William - Trad. Eric Ponty

Soneto V

As horas obsequiosas que talharam,
O rosto que cativo destes olhares,
Serão as mesmas de que como tiranos
Desgraciem o que agora irradia vida.

O tempo que inexorável transfigura,
O agraciado estio que em fero inverno
O alento gelado, os ramos já nus,
A Graça embaixo neve, do campo ermo.

Se essência estival não permanece,
Prisioneira em sua prisão cristalina,
A beleza seu efeito ambos padecem.

Há um tempo sem deixar memória viva,      
As flores que hibernam já destiladas      
Não brilham, mas guardam essência alada.

Soneto VI

Não deixes, que tosco inverno macule,
Se não há destilado ao teu verão,
Conduza uma vasilha, procure onde
Incrementar seu erário e não enterrá-lo.

Este uso não é usura mal olhada,
pois plena de alvoroço há quem paguem,
e a ti te beneficia desta criança
de um igual a ti, que o dez se cabe.

Serás dez vezes mais feliz que agora,
Ao verte refletido entre outros dez
A morte não poderá com sua pessoa.

Pois se eles vivem, vives tu também;      
Mas não te desfrutes só teu legado      
Morte invadida farás iscas herdado.  

Soneto VII

Os observa quando luz terna renasce,
E assoma pelo oriente de sua vaidade,
Todos os olhos riram em homenagem
A sagrada majestade que deste astro.

E quando sua idade mediana alcança,
Robusto e jovem a um etéreo fim,
Não deixes de adorá-lo nestas olhadas
Que seguem em sua adorada travessia.

Mas quando já se retira lentamente
Em seu cansado carro, como dum velho
Os olhos que não horaram já que se volvem.

E deixam de segui-lo já em seu trajeto    
Tu que este zênite que deste caminho    
Sem filhos morrerás impensado linho.

Soneto VIII

Se tu és música, e, ti aflige ao ouvi-la,
Se ao doce és doce e és gozoso ao gozo,
Por que amas que torna com aversão
E acolhe com prazer ignominioso?

Se não és grato fundir milho ao vinho,
De notas que harmonizam se assomam
És porque te renegam com a voz suave,
Não és só para ti esta partitura.

As cordas, como sabes, se disponham
Por melodiosos pares e ao pulsá-las,
Ao tempo que nos cantam de um acorde.

Parecem pai, filho, e duma mãe amada,      
E sua canção sem letra e com graça      
Te cantas: Tu solista és nada, praça!

Eric Ponty

Sonetos I a IV - Shakespeare, William - Trad. Eric Ponty

Soneto I
Desejamos ver que mais belo abunde,
Para que esta beleza em flor não morra
Pois até o fruto pródigo se sucumbe
E é justo que um retorno se suceda.

Porém em ti mandam seus gentis olhos
E ao ser tu és alimento que de teu chama
Semeadura da fome ali há tudo
E eras tua própria presa maltratada.

Tu que hoje adornas com encanto o mundo
E anuncias sem igual a primavera
Tão mesquinha ao vigor de teu casulo.

E ao não gastar esbanja tuas reservas,     
 Apiedes, não deixes teu glutão seja      
Se parta ao pão do mundo com tumba veja.

Soneto II
Quando um assedio de quarenta invernos,
Se brota ao belo prado destas trincheiras
Teu traje que agora é ostentando e novo 
Serás farrapo que já não nos interessa.

E quando te perguntarem onde jazes,
Ao esplendor destes teus frondosos anos
Não diga em teus olhos espectrais
Pois sonhará o artifício e insolência.

Darás mais digno empenho a tua postura
Se pode contestar: Este filho meu
Redime minha velhice quadra a soma

Meu patrimônio está no seu perecido,  
Chegada a velhice, tua jovem vida      
Acalentará teu sangue esfria lida.

Soneto III

Comtemplaste ao espelho e ao do teu rosto,
Que este já se reproduza sem demora
Se não renovas tua frescura em outro
Ao mundo e uma mãe na insipidez.

Pois que donzela fará tão altaneira,
Para vedar seu horto a tua semente,
E quem tão vaidosa prefinirá  
Privarmos de tua beleza com tua morte?

Tu eras a efígie mais viva de sua mãe,
E ela vê em ti o frescor de seus abris,
Também em teu inverno poderá olhar-te.

E ver a idade de ouro que agora vives,
Mas se preferes que não te lembrem    
Não unas tua efígie contigo morrem.

Soneto IV

Encanto tão arruinado por quê gastas
Tua heresia de gentileza só em ti?
Natureza não deleita tão só nada:
Somente afina há quem lhe dá um fim.

Por que então belo egoísta por quê abusas
De sua largueza com que ti há munido?
Efêmero usuário por quê apuras
Tamanha soma e não lhe há descanso.

Si tu és o único cliente de tua pessoa,
Acabarás terminando seu encanto
Assim quando fim chegares a tua hora.

Quais reservas farás guardar tua soma?     
Sem uso, tua graça coisa mortal     
Usada, se transpõe algoz fatal.

Eric Ponty

Albatroz - Charles Baudelaire - Trad. Eric Ponty

Às Vezes para distrair os homens equipagem,
Prendem do albatroz vastos pássaros mares,
Que segue indolente companheiro de viagem
Um navio escorregadio sobre abismos amargos

A pena ele tem depositado sobre as tábuas,
Que estes reis do azul sem jeito vergonhoso
Deixando lamentável suas grandes asas brancas
Como remo puxado nas suas costelas.

Passageiro alado como ele está sem jeito débil
Ele há pouco era belo está cômico e feio
E um irritado bico com uma torrada goela
Outro mimo coxear revogar seu voo.

O Poeta é semelhante príncipe das nuvens,
Que se assombra tempestade e se ri arqueiro,
Acha-se exilado sobre chão meio toque
Suas asas gigantes impedem de andar.

Trad. Eric Ponty

Ao Leitor - Charles Baudelaire - Trad. Eric Ponty

A tolice, o erro, o pecado, a sovinice,
Empatando nossos espíritos e corpos,
Que nos alimentam nossos amáveis remorsos,
Como pedintes nutrem seus parasitas.

Pecados são teimosos arrependimentos,
Nós fazer pagar muita nossa confissão
Nossas voltas contentes lodosos caminhos
Crentes vis choros lavar todas nossas nódoas.

Sobre orelha do mal do Satã Trismegisto,
Que ilude longamente nossa alma encantada,
E o rico metal tinir de nossa vontade
É tudo vaporiza por sábio tão químico.

Este diabo que tem filhos que nos agitam!
Aos objetos repugnantes nós encontramos
Cada dia versa inferno nossos decaídos passos
São horrores defeitos das trevas que fedem.

Como um escárnio pobre sexual comido,
A teta martirizada antiga meretriz,
Nossas fugas passagens prazeres clandestinos
nos incitarmos bem fortes qual velha laranja.

Abraçando formigar como milhão vermes,
Em nosso cérebro bródio um povo demónios,
quando nós respiramos Morte em nossos pulmões,
desce rio invisível com as surdas queixas.

Se fereza, veneno, punhal, incêndio,
Não faz passa borda de agradáveis desenhos,
Nas telas banais dos lastimáveis destinos,
nossa alma, hélas não está passar suficiente ousada.

Mas entre meio dos chacais, panteras, os linces,
Macacos, escorpiões, abutres, as serpentes,
monstros estridentes urrar, rosnar, rastejantes
Em mendicidades infames de nossos vícios.

Ele não está mais feio, mais perverso, mais imundo,
Ainda ele nem empurre grão gestos nem grão gritos,
Ele tenha de boa vontade da terra um caco
E em bocejo tão tíbio engolindo o mundo.

Este é tédio! _ Olhar carrega choro involuntário,
sonha cadafalso fumegante seu assovio
Tu conheces leitor, este mostro delicado
_. Hipócrita leitor – meu semelhante – meu irmão!

Eric Ponty