Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Exercício 174.

Ninguém fala a exceção. Todos falam a regra. Ninguém fala a exceção. Ela não pode ser falada.
Jean Luc Godard
I

Godard, estou a te escrever desse poema. Tem de saber dessa minha regra, e, da minha exceção. É natural os pássaros murmurarem. Esconderem-se entre à folhagem. Com tantos cantos não se percebe qual o mais intimo. Não tem nada mais a dizer. Mas para quê? Se a regra quer abolir a exceção? Não tendo nada haver com nosso canto, então calamos agoniados, dispersar entre às folhagens.
A poesia não poderia continuar sem às imagens. As imagens são as regras, a poesia sua exceção. Por que tudo no fim tem de morrer? Também existem movimentos aéreos pulsando dentro do poema, e, quando o pronunciamos lendo às imagens, é como se a percebêssemos conosco, de que houvesse exceção. Mas não há. É como se em nossa austeridade gritássemos até os confins desse mundo. Nada mais, percebemos, um dia sonhamos, entre os pequenos arbustos, entre às veredas das serras, que um pássaro em seu canto se olvidou. Nada. É natural os pássaros murmurarem.

II

Lesionados do poema; olhamos a aurora surgindo de nossas janelas. O que, diz ela em doce encanto? Mas nem sempre entreouvimos os sinos, e, não sabemos mais a quem nos reportar. Entre as vogais, as imagens demonstram sentimentos fortes, sentimos de nossa garganta esvair-se por um fio.
É no silêncio, que se fez a regra do encanto. Do silêncio, conseguimos apegar todo o significado? Se percebesse assim, então se pronuncie entre á folhagem. É o silêncio, já não podemos culpar de nossa sofreguidão.
Eric Ponty

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Para Pythia

Poema de Paul Valéry

A Pythia exalta-se da flama,
das duras ventas do incenso
arfante, livres gritos! D alma
alarmante dos flancos ruídos!
Pálida profunda mordida,
desta maça tão pendida
ao ponto ficar putrefata
ao olhar lutuoso desta ausência,
viver árduo perfumador
do fumo tecido furor!

Frestas presas, sombras dementes,
donde domam diabo primo,
dentre perfumado tormento
do prodigo fantasma vaga,
trançando trança colossal,
a deter-se meio desta sala,
pronunciar louco lento ruído,
mover-se negros entusiasmos
ódio aos deuses, presos espasmos,
dando-se findo dos futuros!

Estes martírios fontes frias
enlaçados dedos crispados,
vociferando entre às mentiras
vibra estrangulada serpente:
Ah! Maldita! Dos maus padeci!
Toda qualquer casta é golfo!
Alias! Entre abertos espíritos,
que perdi meu próprio mistério!
Uma inteligência adultera
exerceu o corpo comprimir!

Vá Cruel! Mestra imunda revogue,
corra, corra, oh nobre fermento,
de um falso vácuo tão grosseiro,
fazer puro ventre do amado!
Fazer-se finda cena horrível!
É todo meu corpo arco obsceno
perceber romper desta seta,
como esta prisioneira da infâmia,
implacavelmente ao céu d alma
do meu peito pequeno tem!

Que me fala, à minha paz mesma?
Qual eco respondeu-me: Homens!
Que me ilumina? Que blasfema?
Feitos certos versos escuma,
cacos armados minha língua,
compostos brandir desta arenga,
brisando babar dos cabelos,
mastigados rede desordem,
dum buque do vento mordido
repreendendo-se às confissões?

Oh Deus! Eu não sei deste crime,
tenha-me à dorida vivencia!
Mas se me prende por vitima,
do culto de um corpo vencido,
dos estranhos monstros matados,
são o monstro e a besta renunciada,
doado colar, ao chefe eleito,
quais crinas tocadas dos templos,
como das pálidas lâmpadas,
acesos mármores noturnos.

Então para esse vagabundo,
morte errante da lua enluarada
d água do mar surpreendida onda,
compelindo aos eternos ápices!
São humanos feitos estátuas,
geladas fontes, almas mortas,
para o gélido deste meu céu,
premiadas palavras pessoais,
das árduas pessoas destes divos
silente tolice e do orgulho!

Eh!... Disso que se fez víbora,
em toda sua fonte de frissons,
assombrar a carne assustada,
na pluralidade séqüitos!...
Levar-se uma luta insensata,
retornando então pensamento,
para falsa jóia retornada;
oh memória, feita da magia,
que não trazida desta energia,
dos outros arcanos dos cumes!

Meu caro corpo... Forma optada,
para esse viço que não é,
Afrodite desalterada,
Intacta noite ofertou ao cume,
Transtornar-se dos indizíveis,
da lama de uma ilha sensível,
doce martírio, minha sorte,
qual aliança de nossas vidas,

Diante dádiva das escumas,
tem-se feito corpo da morte,
do meu ombro, destes meus ardis,
desta fonte da negridão,
que jamais se passam do ardil,
derretidos à mesma doçura!
Erguendo-se à minha narina,
das mãos cheias dos peitos viventes,
dos meus braços, belas torrentes,
meu abismo ébria vastidão
profunda, trazida dos ventos!

Aí! Oh rosas de toda lira,
contidas da transformação!
Noite do meu triste delírio,
semelhante à constelação!
Oh templo mudo da caverna,
ou deste furação dos sonhos,
ou até mesmo do céu fez belo!
É preciso gemer, e alçar,
Já não sei qual êxtase abrange,
deste meu cabelo fragmenta!

Tenha-me conhecido estigma,
parecido ao meu pobre peito:
são como dormidos aromas,
da lã macia como rebanho;
tenha-me por vivo amuleto,
tocada esta garganta toada,
embaixo ornatos viperinos,
tonto, livre, dos empecilhos
possuir-me ou murmurar-nos pneuma
honrados laços soterrados.

Do que me perpetra condena,
puros, laços ritos odiosos?
Sombra presa à ossada de burro
servida presa à colméia deuses!
Mais uma virgem consagrada,
da concha nova perolada,
de que nem fez à divindade,
foi sacrificada ao silêncio,
desta mais intima violência,
qual foi feita virgindade!

Porque poderosa criadora,
da autora mistério animal,
composta disso desta raiz,
semear maravilhas do mal!
Não são dádivas que me deram,
tão cridas quando brisa às cordas,
sendo como saltos mais belos,
íntegros golpes dados dorso,
qual, não foi prendido à força,
como deste soar de uma tumba!

Dos clementes, destes oráculos,
destas maravilhosas mãos,
dando caricias dos milagres,
presos presentes subumanos!
São em vão seus comunicados
dos frágeis pontos destes únicos,
comoverem-se do esplendor!
D água calma esta transparência,
toda é tempestade mãe
de uma obscura profundidade!

Vá! Para divina iluminação
não para esse terrível raio,
não advenha da nossa deidade,
como um sonho cruel e claro!
Arriba! Não vai nos instruir!...
Não!... A solidão vem lembrar,
Nesta brecha imensa do ar,
desalenta pálida lágrima
da arquitetura da ruptura,
compor-nos puros desertos!

Não siga para mãos unânimes,
compor minha fronte revolta,
de algumas das supremas faíscas!
Que sorte siga-lhe em seu exemplo!
Ao passar, futuros irmãos,
para estes seus rostos contrários
de uma punida teta pálida
não se percebeu nela marca
se da mesma essência deforma,
das ilhas são belos olvidos.

Negras testemunhas da luz,
que não busca mais... Clamo olhos!
Oh lágrimas fontes primevas,
tão profundas destes seus céus!
toar-se mais amarga demanda!...
Mas deste aprendiz deste maior
da escuridão qual deva unir!...
Presa nossa raça espantada,
A distância desesperada
deixar-nos tempo de morrer!

Ouça, minha alma ouça-me as flores!
Quais destas cavernas são daqui?
Então é isso meu sangue? Jovem?
Rumorosas d ondas tão gratas?
Meu oculto soneto são auroras!
Tristes bronzes, tempos sonoros,
de que irão soar no futuro!
Do baque, coice, de uma rocha,
diminuir-se hora mais breve...
minhas duas castas irão unir!

Oh formidável altitude,
quebrantados destes degraus,
Tenho rumo da árvore vida
à morte demonstra-nos rastros!
Ao longo deste meu mais gélido
dedo sutil desta fiandeira
em tecer-lhe deste cruel rastro!
Destes soluços sobem crise
até de minha nuca ou brisa
quiçá de um crime prazer!

Ah! Brisa das portas viventes!
Faça-nos rachar vãos vedados
grosso rebanho dos terrores,
das cerdas destas pronuncias!
Emergir-nos destas baias fúnebres
ou destes víveres mais tétricos
das fabulosas quantidades!
Saltos, dos sonhos mais saciados,
Oh Horda espinhosa revolta
chegando queimar douro, Lã!
*
Tal qual ainda mais torturado
delírio, grande dos fragores,
da profetiza provocada
pelos ares douro mais rubro;
Mas enfim o céu se declara!
Sua orelha pontífice hilário
da aventura aos versos futuros:
Uma atenção santa observa,
porque uma voz jovem e cândida
partiu destes corpos impuros.
*
Honra dos Homens, Santa Língua,
Discurso profético ornado,
Belas cadeias comprometidas
Do deus desta carne impura,
Clareada generosidade.
Aqui está voz da sabedoria
A soar-nos esta augusta voz!
Quem sabe quando esta soa,
Para Ser a voz mais pessoal
Tanto das ondas e do cedro!

Tradução Eric Ponty

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Via-Crúcis de Minas
I

Quem nasce em Minas
não nasce, destina-se.

Quem nasce em Minas
não é mineiro, é minério.

Quem nasce em Minas
nasce de fato, como fardo.

Quem nasce em Minas
perde o eu, perdeu o mar.

Quem nasce em Minas
cheira a incenso, sobe ao céu.

Quem nasce em Minas
toca-se em sino agônico, natimorto.

Quem nasce em Minas
cose alma, extirpar-se.

Quem nasce em Minas
torna-se mito, farsa.

Quem nasce em Minas
perdeu a asa, afogou no azul.

Quem nasce em Minas
melancólico, sepultado.

Quem nasce em Minas
desconhece liberdade, escravidão.

Quem nasce em Minas
torna-se poeta sem opção, entediado.

Quem nasce em Minas
nasce por Minas, exausto.

Quem nasce em Minas
toca feixe da essência, ouro.

Quem nasce em Minas
ainda não nasceu de fato.

Quem nasce em Minas
pede-se pena, uma reza.

Quem nasce em Minas
nasce com despojos, transladado.

Quem nasce em Minas
nasce com um tumulo. Mercês.

Quem nasce em Minas
nasce com sete palmos, enterrado.

Quem nasce em Minas
escava as entranhas, o tempo.

Quem nasce em Minas
nega-se mineiro, afirma-se.

Ah Minas tal destino inelutável,
descrito no frontispício da igreja.

II

O morador fatigado caminha em vão solitário,
pelas ruas e pelas praças vazias do Rosário,
olha a abóbota da igreja, cujo sino não tange,
do som desajustado fazia chorar os moços,
chamava mais rápido a alma dos antanhos.

Angustiado e exausto, o morador adentra só,
ruas firmes e duras de um calabouço conjurado
escuta os sussurros por entre as alcovas tristes
donde poderiam ter sido muitos estes enterrados,
de permanecerem ainda procurando à irmandade.

III


Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
Dai-nos uma boa hora de morte!!!

Bela e só solene no caixão morta,
respira este ar rarefeito de Minas
desta cerimônia tétrica e de pompa
donde revela-se Boa Morte fúnebre,
ao som aos sinos duros de pedra.

Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
Dai-nos uma boa hora de morte!!!


Bela e só solene no caixão morta,
respira este ar rarefeito de Minas;
mas, desde cedo se aprende a reza
de como se velar, com dor, o morto,
de ansiar, de transcender, este azul.

Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
Dai-nos uma boa hora de morte!!!

Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
nós somos filhos destas Minas,
escutamos desesperados sinos,
dilaceramos, logo, estas almas,
inventamos histórias, cavamos fundo,
temos curvaturas nos olhos doridos,
rezamos por luz em abismos negros,
esperamos angustiados por Sebastiões,
temos as sete espadas fincadas de Maria,
falamos bem baixo num velório.

Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
nós somos filhos destas Minas,
conversamos com fantasmas inconfidentes,
frequentamos também macumbas dos negros,
numa resposta não se extrai destas Minas,
duras, radicadas rochas, misturadas a Pizarro,
embaixo os alicerces, das beiras-seveiras,
betumes das pedras, cemitérios das gavetas,
do alcatruz conduz à límpida água morro abaixo,
do aljube cativamos várias inocentes prendas,
do apipolado terreno nascerá o próximo cemitério,
das cimalhas perspectivam imponência antanha,
da escassez quando à voz lhe tão tange amarga.

Nossa Senhora da Boa Morte,
Nossa Senhora da Boa Morte,
nós somos filhos destas Minas.

Mea culpa porque peguei,
Mea culpa porque me calei,
Mea culpa porque deveria ter silenciado,
Mea culpa por querer uma opinião,
Mea culpa por não ser um dissimulado,
Mea culpa por não ter ainda morrido,
Mea culpa por ter me angustiado,
Mea culpa ao divergir dos escravos livres...

Mea culpa... Mea culpa... Mea culpa...
Minas, cumpra-se então o maldito destino!

Eric Ponty - 2001
Pensando essa madrugada, enquanto lá fora a chuva fazia sua cantilena como num refrão de um conto de Kafka, sobre a finalização de minha tradução de Paul Valéry em dodecassilabos. E no processo de interiorização da voz valeryana em mim, quando percebi, quando tive o ataque de hipotermia meses atrás, que poderia estar levando-o comigo algo dessa centelha. A responsabilidade em relação a esse “texto” adensou mais ainda em mim, para não me tornar um apátrida.

Uma tradução próxima do francês em decassílabos ficaria assim traduzida como exemplo sem ter podido cotejar com as traduções existentes em português. Essa tradução usou como base a edição da Collection A. Lagarde & L. Michard de 1965:

Marcha das pombas sobre o céu plácido
dentre os pinhos palpitam, dentre as tumbas,
justo meio dia mesclado deste fogo,
O mar, o mar, por sempre reinício!
Oh recompensa após o pensamento
do longo olhar resguarda-se dos deuses!

Que do puro trabalho alvo resume,
diamante imperceptível desta escuma,
que só da paz semblante nos conserva!
Quando deste abismo sol repousa,
Obras puras de eterna desta causa,
Que do Tempo cintila, saber sonha!

Do perpetuo tesouro de Minerva,
massa do alívio, visível reserva,
audaz água, céu resguarda em mim,
tanto repouso véu é dessa flama,
meu silêncio! Edifício desta alma,
coberta de ouro com mil telhas! Teto!

Tempo do templo, sol suspira sumo,
ao ponto que me alço e acostumo,
tudo resguarda olhar meu desse oceano
é o Deus na oferenda tão suprema,
cintilação serena nos semeia,
sua altitude em desdém tão soberano.

Como fruta fundida nesse gozo,
como a delicia altera-se sua essência,
numa boca matando de sua forma,
sou fumo deste meu vero tão sumo,
este céu canta esta alma consuma,
alterando seus cais tão rumorosos.

Belo céu, vero céu guarda mudança,
após tanto orgulho, após estranho,
ócio, mais deste pleno poderio,
Eu abandono brilhante cavidade,
Sobre as mansões dos mortos sombra passa
domando-me esse frágil movimento.

Alma exposta das tochas do solstício,
em mim bela sustento-te justiça,
destas suas luzes são armas piedade!
Eu te rendo à pureza tão primeva:
Resguarda-me!... Mais junta à luz
Suposta sombra meio triste do sitio.

Sabe falsa cativa da folhagem,
do Golfo comedor das magras cercos,
são meus olhos cerrados viço oculto,
deste corpo ogro faz da placidez,
da cabeça atirada ossos à terra,
deste pensar inerte de que ausento.

Discreto, sacro pleno prado fogo,
do fragmento terrestre dado à luz,
sitio me dá domínios destas tochas,
misto ouro destas pedras sombrias árvores,
fazendo deste mármore suas sombras;
Deste mar fiel tangendo minhas tumbas!

Oh Cadela esplendida expulsa idólatra!
Quando do solitário do pastor,
Eu perpetuo carneiros misteriosos,
deste branco rebanho minhas calmas,
distantes das prudentes brancas pombas,
destes sonhos altivos, anjos zelos.

Aqui é o futuro do descanso,
deste inseto arranhou da secura,
tudo é bruto, ardido ressoa ar,
já não sei da severa desta essência...
A vida vasta tão livre desta ausência,
É tão doce amargura alma clara!

Aqueles, que me conhecem de longa data sabem dessa minha responsabilidade em relação a esse texto, ou qualquer outro, que ainda esteja em processo de maturação, que sempre retorno numa busca desesperada para tecer algo dessa centelha. Minha consciência em relação ao texto, talvez possa ser traduzida, com a mesma emoção nessa constatação de George Steiner, que considero primordial:

É neste ponto que o credo de Spinoza e o de Kafka encontram-se com a conduta de Sócrates, Um pensador de verdade - um pensador da verdade – deve saber que nenhuma nação, nenhuma organização política, nenhum credo, nenhum ideal moral e nenhuma necessidade, ainda que a de sobrevivência, vale o preço da falsidade, da mentira consciente para si mesmo ou da manipulação de um texto. Steiner está nos dizendo da responsabilidade de se “colocar as tintas” ou de interpretar um texto equivale a trair a centelha divina de Deus. Ele nos acresce que de “Esse conhecimento e essa observância são sua pátria. É a falsa leitura, são os erros que fazem dele um apátrida.”, pois, não podemos falsear com o sentido move-nos o texto.

Para não me tornar um apátrida em relação a mim, e ao “chamando” valeyanano, que fiz meu modo de operação “tradução de modo aberto e transparente acidental" como a métrica do dodecassilabos me fez incidir num equivoco de achar que havia encontrado o mêtro correto, quando não o havia. Traduzir leva anos de responsabilidade, e, de maturidade seja essa em relação à “solução” encontrada, ou há nós mesmos para não tornarmos um apátrida.

Eric Tirado Viegas (Ponty)

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

O Cemitério marinho
Minha alma, não aspires à vida imortal,
Todavia a exaustão do possível.
PÍNDARO, Píticas III, ep. 3

Essa tradução é dedicada a todos tradutores de Paul Valéry

Do teto descansado do prado de pombas
palpitar dos pinheiros por entre jazigos.
Meridiano do sol perpetra-se altivez,
do pélago do início desdouro do mar,
da compensada oferta deste pensamento,
da placidez graduada do olhar desses deuses!

Ostentação da exímia luz do presumido
deste extenso diamante, impalpável onda
na qual ideada paz purificada idéie!
Quando doirada luz do sol pascer do abismo
sua pura lide eterna da causa exilada,
é tempo de saber é do tempo de idear.

Altivo do tesouro templo da Minerva,
desta imponente calma, visória reserva,
desta rumorosa água asilada visão,
exaltada labareda deste grado sonho.
Silenciosa morada pascida desta alma,
recoberto doirado de mil telhas!Teto!

O Templo deste tempo egrégio suspiro!
Ascendo candidez desse cume afeiçôo,
do oceânico olhar castiço nestes deuses
dedicados perfeita da maior oferenda,
cintilação paz terna tanto espargida,
dos labéus soberanos destas altitudes.

É sumo do deleite fundido da fruta,
deformada delícia distraída da boca,
perpetrando contornos nestes ausentados.
Fenecido futuro à minha emanação,
do cantarolar caldo trespassado alma,
das brasas estrondosas vãs do pontilhão.

Vero formoso céu sinto transfigurei!
Após tanto do orgulho dos estranhos ócios
encarregado ainda dos plenos domínios,
liberto dos grilhões embevecidos brilhos,
destas casas dos mortos da sombra passar
domesticando frágil, deste pastorear.

As tochas de solstício da alma desvendada,
sustento-te, eu luz da admirável justiça,
recompensadas dores, inúteis piedades
deste modesto hábito primo. Pressinto-as.
Do límpido ofertar-me das suas claridades
por serem avejões meio destes embasados!

Só para mim? Se for para mim só, também
colhido coração – fonte desta epopéia -
êxito candidez esvaída da bravura
desta interna confiança desta rumorosa:
fosca amarga cisterna ressoada de mim
deste continuo vácuo do futuro d alma.

Do Sábio habitante só desta ramagem,
golfo devorador nestas folhagens débeis,
-sigiloso deste êxtase sentidos meus -;
é da carcaça arrasta rematar da lástima
cantar-me fronte do ósseo terreno vultoso?
As centelhas meditam destes meus ausentes.

Sacrílego, do pleno fogo sem matéria
do fragmento terrestre dedicado luz!
Cândido sitio aéreo do douro Brandão
das insolentes árvores tão maturadas
deste mármore vasto brilho avejões!
Oh mar fido acalmado destas minhas tumbas!

Oh idólatra arreda essa cã presunçosa!
E quando sorridente pastor solitário,
apascenta carneiros deste misterioso
cândido gado meu nestas serenas covas,
quanto das ajuizadas pombas repudiem,
estes incertos sonhos, dos anjos curiosos!

Visto daqui esta é calmaria do futuro
deste nítido inseto raspou da secura
desta brisa sofrida, exaurir das ruínas,
não tenho sigilosa essência da existência.
A vastidão da vida liberta presença,
do doce é amargo, claro é o espírito.

Dos encravados mortos sós deste terreno,
resguardando mistério do mal infrutífero,
elevado meio-dia, pousada superfície,
meditando-se a si, próprios harmonizarem,
fronte cabal, diadema deste irretocável
segredo interior sou da transformação.

Deste temor mais intimo só eu domino!
Do remorso da minha própria imprecisão
de efeitos contornados do grado diamante...
Deste anoitecer fez-se opressivo do mármore
vagando deste povo nas raízes dos cedros,
tomaram já partido deste lentamente.

Liquefeitos se fiaram em espessas ausências,
rubra argila embebida desta branca espécie,
Dádiva do viver transpôs-se destas flores!
Destes mortos postados destas frases intimas,
desta arte reservada almas tão singulares?
Larvas depositadas fundiram-se às lágrimas.

Se destes alaridos virgem irritada,
olhos dos dentilhões das pálpebras molhadas,
dos cintilantes gratos seios destes ardores,
dos lábios abrasados rubros dedicados
são desta extrema dádiva acudiu-lhes dedos,
por baixo desta terra, composto foi jogo.

Desta sua alma graduada, devaneio casual
desta esperança franca das nuanças engano
do desastroso olhar cobriu da onda dourada?
Ter-me-á canto do árido? Oh admirável!
Se de tudo escuta! Presença porosa
da sagrada impaciência fez-me fenecida!

Magra imortalidade tão sombria doirada,
desta consoladora morte maternal
do aprazível ardil da devotada argúcia,
do carpido da morte, fez-se o seio fatal!
Quem não te reconhece, e quem não desarrima,
do esbranquiçado crânio deste riso eterno.

Destes pais de profundas cabeças tão ermas,
dos carpidos do peso das largas pazadas,
desta terra fizeram confundidos passos,
deste roedor certeiro, verme irrefutável,
paragem falecida, terno desta tábua,
do essencial da vida, não figura mais.

Quem sabe se do amor, desse ódio de mim próprio?
Se próximo de mim mais encoberto dente,
dos quais vários dos nomes não se nominar,
ao envolver-nos! Observa, suga, sonha e alcança,
minha carne de manta resguardado leito,
pertencer-me d alguma coisa da sua vida!

Zenão, Atroz Zenão!Do Zenão desta Eléia!
Soa desta trespassada flechada adejada,
vibrar voeja, contudo, jamais retrocede!
Do ruído engendrou flecha sua que me assassina.
Ah! Deste sol! Qual sombra cágado de Aquiles,
da alma entorpecida longínquos dos passos!

Não!... Não... Da chispa! Sucessivas eras!
É desta brisa verve à forma absorta frágil!
O Peito da nascente da aragem solver
fresquidão deste pélago lançou-me corpo
reprimindo-me da alma. Oh pujança salgada!
Corramos já marouço arribar-nos vivo!

Oh sim! Do imenso mar dotado dos delírios,
de pele de pantera, chambre perfurada
dos mil destas quilíades divos deste sol;
da Hidra do absoluto embicado azul
mordiscar cintilante cauda da extensão,
fazendo-me alarido silêncio tecido.

Alçados ventos! … Fugaz tentar durar!
Ar imenso acende enclausurado livro,
Do pó finório ousou-me misturar das rochas!
Voem páginas das minhas ondas tão espraiadas!
Destas vagas irrompam-se águas jubilosas.
do repousado teto faiscado dos focos!


(Observação: Minha tradução tem obrigação de ter solução inédita. Não podendo repetir nada de ninguém, por isso pode parecer fugir ao original valeryano. Por isso em dodecasssilabos, do qual só existe uma tradução que desconheço o teor.)
Paul Valéry - Trad em dodecassilabos - Eric Ponty- 1996 -2009
Versos marítimos à brisa costeira
p/ Efigênia Coutinho
I

Ser terrestre, trivial cantar-me um dia;
travar guerras, refrãos, aos alçam voos,
à justiça do mar com suas vãs águas,
com meu olhar marinho nessa destra.

No sonho dessa glória do clarim,
do murmúrio do vão desse instrumento,
das rosas quase murchas dessa lira,
cerrar esses sonidos que lealdam.

Quem de mim cantou ao mar ao invasor,
cara lapidação furtou das águas,
desse mármore frágil da sibila.

Toca de nós esse eco tão longínquo,
não há vassalos cujo riso amor
das murtas do momento tecem musa.

II

Que seria se acaso tomasse
das lanças desse deus marinho?
Se Minerva com o brio ornasse,
louro olhar nas plácidas águas?

Adornar com lança da morte,
sabedoria na mão consorte,
branda lira ecoada espraiar,
esquecido gesto do bosque?

Vasto como raio é o verso,
a escrever-se nessas águas
ambicioso como trovão,
no majestoso véu marítimo

Eric Ponty

Sábado, Outubro 17, 2009

Responsabilidade de colocar as tintas
Ao Eduardo Lara Resende

Segundo Robert Musil, quando, ao longo de vários anos, alguém é obrigado a percorrer exposições de pintura, acaba um dia por cunhar a expressão "colocador de tintas". "Colocador de tintas" está para pintor assim como "colocado r de letras" está para escritor'. A palavra ordena fenômenos intrincados; logo esses fenômenos intrincados são os modos operacionais da escrita, e, do modo que o escritor chega a ela ou a expressa. O que importa aqui é a responsabilidade do texto, ou seja, o que a qualifica, ou seja, à transcendência.
A meu ver não interessa o grau de verdade, que o escritor produz, mas, se o reproduz com qualidade da imanência. Essa validação da imanência se dá pela produção da escrita, e não interessa como "Colocador de tintas" a produz, mas, sim se nela inerentemente há uma voz autêntica independe se essa voz tenha que reproduzir uma sociedade donde essa voz vive, ou seja, sua ideologia.
Se for contrária essa verdade, então o estado que é que responde pelo individuo, não sendo mais uma sociedade de direito, ou mesmo de espírito, pois, o estado não está acima de Deus, e nem eu creio que Deus esteja acima do estado. Ambos são complementares assim como as “vozes” que são os agentes, que formam uma sociedade. Se a vontade do estado está acima da representação do individuo, então não é mais um estado de direito ou democrático Não há razão que haja uma possibilidade de dignidade ou de vida. É nisso que respalda o meu pensamento ético e artístico.
Segundo esse mesmo Robert Musil: “Parece também que, depois de algumas centenas de milhares de anos, os colocadores de tintas se aborrecem e mudam de "estilo". O que vem a ser um estilo, nota-se de imediato tão logo adentremos um recinto de exposição” A meu ver o “estilo” se dá pelo modo operacional de se perceber o mundo, ou pela carga emocional, que esse “colocador de tinta” seja capaz de o re-produzir individualmente. É nisso que João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar que se qualificam, por essa “imanência”, ou seja, pela qualidade técnica da densidade expressa. Para mim não interessa como “colocaram a tinta”, mas se a colocaram com imanência. É disso (imanência) que Rilke nos aludiu em suas cartas.
Robert Musil também elucida: Outra vantagem da pintura é o fato de ela deter uma técnica. Escrever qualquer um pode fazer. É provável que pintar qualquer um também o faça, mas já não é tão comum. Criaram se técnicas e estilos para acobertá-Io. Afinal, pintar tão bem quanto um bom pintor não é algo de que qualquer um seja capaz, requer estudo. As crianças que nas escolas primárias sabiam pintar, despertando nossa justa admiração, foram reprovadas na Academia de Arte; mas também o acadêmico, à procura de um novo método, tem de aplicar-se com afinco se quiser adotar o traço infantil que substitua seu traço convencional. Pois não passa de um erro histórico acreditar que os mestres fazem escola, e que a escola é feita pelos alunos!; Musil está enunciando, que individuo tem força como representação acima da sociedade que o produz. É por esse motivo que não acredito em arte coletiva, por ser uma falsificação última dessa realidade. Não é porque todo mundo tem voz, que está qualificado a ser um artista, mas, se é capaz de levar ao estado cabal a sua imanência.
É por isso, que essa “imanência”, se dá pela adversidade do estado ou sociedade, senão essa “imanência” será apenas uma extensão cabotina da realidade, mais falsa e mendaz que a vida, do qual a liberdade não a ratifica. Para esses indivíduos restam apenas à morte ou o exílio como representação (preservação) da individualidade quando essa posta em xeque pela sociedade que o produziu.
Eric Tirado Viegas (Ponty)

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Epifanias para Igreja São Francisco de Pádua de Tiradentes



I
A noite é uma taça de vinho
escorrendo as estrelas do céu.

No alto daquele morro a igreja
de São Francisco de Pádua
sem adornos outros edifiquem.

A manhã na sombra das árvores
para os raios não se desfigurem
da tez de abocanhar montanhas.

Minha alma clama ao nada ao nada
escute-a predizer nesse azul da tarde
com a voracidade de nutrir minérios.

II

Amanhã quem sabe não irá chover,
com as violentas flores d’água
de enorme pedrada sobre os telhados.

Por isso nesta tarde, irei até igreja,
com a alma vestida desse nada,
de sentir os seus óleos litúrgicos

Na minha solidão pescando sombras,
do silencio da dignidade de olvidar,
lágrimas ruivas da sexta-feira santa.

III

Silêncio. Agora daqui se faz à missa,
no púlpito reza o padre com coração,
detrás do cemitério ouve Ave Marias,
daqui chorando está suspensa ave.

Sepulcrais pássaros olvidam tempo,
rigorosos em dar dores, rezas, falanges,
alma apenas ardida do ícone de Cristo,
apocalíptico grito-me nesses relógios.

IV

De Santo Francisco de Pádua da serra,
fulgor dessa luz do momento da cruz,
cruzeiro tão simples, tão pio desse céu,
a aldeia lá em baixo espelho guarda.

V

As janelas adormeceram, guardando para si, as sombras dessas pilastras. Os vidros ausentes, talvez vindos de Lisboa em caravelas de Europa. Uma sombra lamenta-se no beiral de uma dessas casas. O lamento é rude, tem à luz do querosene das quintas feiras mal dormidas, quando seu José ia a São João del- Rei em lombo de burro.

E a serra de São José prostrada pelo vento frio vindo das outras aldeias. No vento vinha consigo outros hábitos dos homens de minerar o mineiro da Vila Rica. O cheiro amorfo de algumas putas, o bafo do cigarro de palha, das vozes oprimidas de alguns índios. Do movimento da pedra esfacelar-se contra o campo involuntário.


VI


Continuaram levando coisas
minério, sonho dessas almas,
adentraram as virgens matas,
fundarem assim suas dinastias.

Nessas horas da serra serena
o vale começa a sua vida
das vertentes e as fontes.

A brisa da manhã toca nas almas
faz renascer dos seus destinos.

Na praça bailam as moças,
cantam tristes fados das terras
em violas improvisadas.

O primário destino abissal
dura pedra de árdua obra
secundário destino límpido
da foz correndo da serra
do terceiro destino violeta
basbaque branco duma rosa.

Minha terra tem fonte e serra,
tem a esposa que eu espero,
tem o hálito de silenciar astros
quando a noite tomba na serra
força de cavalo cortando o vale
quando a água escorre quieta
passando calma no seu vestido.

VII

Tenho um coração sofrido
de colecionar Ave Marias
são pedras de um cemitério
quiçá judeu. Desmesuradas
sombras de carregar as serras
de falar a chuva aos terrestres
desses caminham pelas terras
sem silenciar-se na minha alma.

Não me perguntem pela manhã
com hálito de acácia pela tarde
de odor do fenecer pássaros.

VIII

Os que aqui passam desconhecem
esses caminhos que levam a você,
de como foi trazido, por caravelas,
o devoto que devotou os seus votos.

Por isso esses estão agora em mim,
conversam comigo de suas manhãs,
mostram caras tangidas de tanger,
por isso esses se agregam comigo,
surgem das pedras, dos caminhos,
são senão sombra efeitos dos raios.

Assim são as suas casas amigos,
assim também são suas rezas,
porque apesar da pedra, mofo,
vieram contritos nos caminhos,
acenderam velas, fizeram votos,
transportaram no lombo do burro,
sandálias, mantos, saias e cruzes,
hoje olvidam o ladrar das tardes.

IX

Os vi pela janela do mural.

No fim de semana no inverno,
consumiam-se os olhos das serras,
o queijo na mesa dessas Minas
donde a sombra perfaz as ruas
das mordidas das luzes morteiras,
desta névoa suave de sexta-feira,
descortinavam-se o seu frontal.

O hálito branco como hábito das
confrarias dos que saíram à rua
professando esse o credo Cristo.

E ali o silêncio, o meio dessas efígies
são desses prisioneiros desse tempo
desordenados pelo tanger horas
das suas almas intensas do toar
da fonte escorrendo à límpida fala,
ritmo incessante da matriz distante.

Eric Ponty

Prezado Eric,
Meu nome é Silvio e trabalho como editor de conteúdos para Babylon Ltda. (www.babylon.com), uma das maiores empresas mundiais no ramo de dicionários e glossários em linha. Recentemente lançamos dois serviços de tradução e dicionários online totalmente gratuitos. Gostaria de saber se você tería interesse de usá-los e escrever um post em seu blog sobre eles. Se você tiver interesse em participar, não hesite em entrar em contato comigo e lhe mando informações mais detalhadas. Muito obrigado. Atenciosamente,
Silvio Branco

Reposta:
Caro Silvio Branco
é uma honra ter sido lembrando e citado por essa empresa que é
Babylon Ltda. no meu blog, onde tento demonstrar o meu trabalho árduo fazendo o poema. É claro que sim pela lembrança e convite.
com apreço
Eric Ponty.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Cântico à Primavera

Longe, longe a distante primavera,
acolhe sussurrando o romper manhã
raios longínquos do sol que lhe anunciam,
riem bucólica à fonte à Natureza.

Brame! Brame! Os polens destas flores,
dos ousados favônios desses prados,
dos galhos lhes acenam desse bosque,
fazer-se deste estio nessas campinas.

Dos tristes bosques choram aos murmúrios,
dessa aurora de cuja tez do inverno,
traz dessa bata branca desse vale.

Longe...longe chegou ave tecida,
aos umbrais dessas serras tão distantes,
destes ledos rios, Vênus amorosa.

Eric Ponty
http://www.avspe.eti.br/coutinho/poesiaamigos/narureza2.htm