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segunda-feira, fevereiro 27, 2023

SOR JUANA DE LA CRUZ- 16 SONETOS - TRAD.ERIC PONTY

Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana ou Juana de Asbaje (de Asuaje, segundo alguns), chamada de A Fénix da América e também de A Décima Musa. Escritora barroca nova-espanhola (mexicana), poetisa e dramaturga da segunda metade do século XVII. Nasceu em um povoado do vale do México, San Miguel Nepantla, próximo a Amecameca, e aprendeu náhuatl com seus vizinhos. Filha natural, sua mãe foi a "criolla" Isabel Ramírez de Santillana e seu pai Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca, militar espanhol da província basca de Guipúzcoa (Vergara). Descobriu a biblioteca de seu avô e assim tornou-se aficcionada pelos livros. Aprendeu tudo o que era conhecido em sua época, isto é, leu os clássicos gregos e romanos e a teologia do momento. Aprendeu português por conta própria, assim como latim, o que fez como autodidata em vinte lições. Como se sabe a partir dos dados que se mencionam em algumas de suas obras, o fez escutando as aulas que eram dadas à sua irmã, isto às escondidas. No entanto, também podemos saber disso por Marco Aurelio Almazán.

Quando adolescente, esteve na corte vice-real mexicana, e sobre esse tempo há muitos poucos dados biográficos, ainda que se saiba que foi dama de companhia da vice-rainha Marquesa de Mancera. Quis entrar na Universidade e em algum momento passou pela sua cabeça vestir-se de homem, mas, no final das contas, concluiu que era menos disparatado tornar-se monja. Depois de uma tentativa fracassada com as Carmelitas, cuja regra era de uma rigidez extrema que a levou a um período de convalescência, ingressou na Ordem das Jerônimas, onde a disciplina era algo mais relaxada. Tinha uma cela de dois andares e governanta. Ali passou a sua vida, escrevendo versos sacros e profanos, canções a cada Natal, autos sacramentais e duas comédias de capa-e-espada. Também serviu como administradora do convento, com bastante habilidade.

Com a erudição acumulada durante anos de estudo, correspondia-se com os grandes nomes do mundo hispânico, tendo escrito até ao Papa. Sóror Juana escreveu literatura centrada na liberdade, o que era um prodígio naquela época. No seu poema Hombres Necios ("Homens Estúpidos"), ela defende o direito da mulher a ser respeitada como ser humano e critica o sexismo da sociedade do seu tempo, gozando dos homens que condenam a prostituição, ao mesmo tempo em que aproveitam a sua existência. Além de livros religiosos como a Bíblia, que representavam certamente mais de 90% dos livros que chegavam à América na época, há relatos de que ela possuía obras atípicas para um cidadão da América do século XVII, como escritos de Leibniz, dentre outros.

Sóror Juana viu-se envolvida em uma disputa teológica, a raiz de uma crítica privada que realizou sobre um sermão do muito conhecido pregador da época Antônio Vieira, que foi publicada pelo bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que a prefaciou sob o pseudônimo de "Sóror Filotea", o que provocou a reação da poetisa através do escrito Respuesta a Sor Filotea ("Resposta a Sóror Filotea"), onde faz uma inflamada defesa do trabalho intelectual da mulher. Por esse valoroso texto e por outras obras suas como a acima mencionada Hombres Necios, Sóror Juana pode ainda ser considerada, com justiça, como a primeira feminista das Américas.

Pouco antes de sua morte, Sóror Juana foi obrigada por seu confessor a desfazer-se de sua biblioteca e de sua coleção de instrumentos musicais e científicos. Deve-se lembrar que, naquele tempo, a Santa Inquisição estava ativa. Morreu aos quarenta e três anos, durante uma epidemia, tendo, antes disso, chegado a socorrer várias de suas irmãs.

Entre suas obras se conta uma grande quantidade de poemas galantes, poemas de ocasião para presentes ou aniversários de seus amigos, poesias de salão sobre costumes ou amizades sugeridas por outros, letras para se cantar em diversas celebrações religiosas e duas comédias chamadas Amor es más Laberinto ("Amor é mais Confusão") e Los Empeños de una Casa ("As Obrigações de uma Casa").

Em que satisfaz com receio à retorica do canto

Esta tarde, meu bem, quando te falava,
Feito em teu rosto de tuas ações via,
Que com palavras não te persuadia,
Que o coração me vezes desejava;

E Amor, que meus intentos ajudavam,
Venceu o impossível parecia,
Pois entre o canto, que dor se vertia,
Meu coração desfeito destilava.

Baste já de rigores, meu bem, baste,
Não te atormentem mais dos céus tiranos,
Nem vil receio tua calma contraste

Com sombras néscias, com indícios vãos,
Pois já em líquido humor viste e tocaste
Meu coração defeito dentre tuas mãos.

Ao seu retrato

Este que vês, engano colorido,
que dessa arte ostentando seus primores,
com falsos silogismos destas cores,
és cauteloso engano do sentido.

Este, em que de lisonja há pretendido,
excursar desses anos dos horrores,
e vencendo do tempo dos rigores
triunfar desta velhice e deste olvido,

És um vão do artifício do cuidado,
és uma flor que ao vento delicada,
és um resguardo inútil para é dado.

És uma néscia diligência errada,
és um afã caduco, bem olhado,
és cadáver, és pó, é sombra, és nada.

Quem contém uma fantasia contenta com amor decente

Distinta, sombra do meu bem esquivo,
imagem do feitiço que mais quero,
bela ilusão por quem alegre morro,
doce feição por quem penosa vivo.

Se ao ímã de tuas graças, atrativo,
serve meu peito obediente desse aço,
para que me enamoras lisonjeiro,
se hás de burlar-me já fugitivo?

Mas ostentar não podes, satisfeito,
de que triunfa de mim tua tirania;
que ao que deixas ilusas laço estreito.

Que tua forma fantástica uniria,
pouco importa burlar braços e peitos
se te lavra prisão minha ilusão.

Prossegue o mesmo assunto e determina que prevaleça a razão contra o gosto

Ao ingrato que me deixa, busco amante;
ao que amante me segue, deixo ingrata;
constante adoro há quem meu amor maltrata;
maltrato há quem meu amor busca constante.

Ao que trato de amor, falo diamante,
e sou diamante ao que do amor me trata;
triunfante quero ver ao que me mata,
e mato ao que me quer ser tão triunfante.

Se há este pago, sofre meu desejo;
se rogo aquele, meu decoro enojo:
de ambos modos infeliz eu me vejo,

Porém já, por melhor partido escolho,
de quem não quero, ser violento emprego,
que de quem não me quer, vil me despojo.

Ensina como um só emprego em amar é razão convivência

Fabio: No ser de todos adoradas,
são todas as beldades ambiciosas,
porque tem de se arar por ser ociosas
se não as vem destas vítimas tão findas.

E assim, se de um só são seres amadas,
Que vivem da Fortuna querelante,
porque pensam que mais que ser formosas
constitui-se deidade ser rogadas.

Mas já sou em aquisição tão medida,
vendo há muitos, meu zelo desvanecido
e só quero ser tão correspondida.

Daquele de meu amor atenção cobra;
porque é o sal do gosto ao ser querida:
que dana ao que se falta e ao se que sobra.

De amor, posto antes sujeito indigno, é emenda alardear arrependimento

Quando do meu erro e tua vileza veio,
comtemplo, Silvio, de meu amor errado,
qual grave és a malícia do pecado,
qual violenta à força deste desejo.

A minha memória apenas eu creio
que pudesse caber aqui meu cuidado
a última linha do depreciado,
ao término final de um mal emprego.

Já bem quisera, quando chego verte,
vendo meu infame amor, poder negá-lo;
mas logo a razão justa me adverte.

que só se remedia em me publicá-lo:
porque do grande delito de querer-te
só és bastante pena, confessá-lo.

Prossegue em seu pesar e diz que um não quisera aborrecer tão indigno sujeito, por não lhe ter assim acerca do coração

Silvio, já te aborreço, e um condeno
ele que estes da sorte em meu sentido:
que difama ao ferro ao escorpião ferido,
e há quem rastro, mancha imundo o barro.

És como do mortífero veneno,
que dana há quem o verte inadvertido,
e no final, és tão mal e és tão pérfido
que há um para aborrecido não és bom.

Teu aspecto vil minha noção ofereço,
ao que com susto me o contradiz
por dar-me já a pena que mereço:

pois quando considero o que me diz,
não só a ti Carrera, que te aborreço,
porém a mim pôr o tempo que te quis.

De uma reflexão dá pista com que mitiga a dor duma paixão

Com a angústia desta mortal ferida
dum agravo de amor me lamentava
e por ver si na morte que me chegava,
procurava que fosse mais crescida.

Toda no mal a da alma divertida
pena por pena dor sua que somava
e em cada circunstância ponderava
que sobravam mim mortes a uma vida.

E quando ao golpe de um e doutro tiro
rendido o coração dava penoso,
sinais de dar do último suspiro.

Não sei com que destino prodigioso
voltei em meu acordo e disse: Que me admiro?
Quem em amor há sido mais feliz?

Efeitos mui penosos do amor, e que não por grandes se igual com os tesouros de quem lhe causa

Ver-me, Alcino, que atada da corrente
de amor, passo em seus ferros oprimidos,
misera escravidão, desesperada
de liberdade, e de consolo tão alheio?

Ver-me da dor e angústia n´alma plena,
tão ferozes tormentos lastimados,
e entre as vivas chamas abrasada
jugar-se por indigna de sua pena?

Ver-me seguir sem alma um desatino
que já mesma me condeno ao meu estranho?
Ver-me derramar sague no caminho,

Seguindo dos vestígios dum engano?
Mui admirado está? Pois me vês, Alcino?
Mais merece da causa de meu dano.

Ao que em vão, quer reduzir o método racional ao pesar dum zeloso

Que é isto Alcino? Como tua cautela
Se deixa vencer de um mal é zeloso
Havendo com extremos de furioso
As demonstrações mais que da loucura?

Em que se ofendeu Celia, que se apura?
O por que amor das culpas de enganoso
Se não asseguro nunca, poderoso
A eterna possessão de tua formosura?

A posição de coisas temporais
Temporal és Alcino, e és do abuso
Ao querer cultivá-las sempre iguais

Assim que do teu erro e da tua ignorância,
Pois Fortuna e Amor, de coisas tais
Domínio não há dado, senão o uso.

Só com aguda generosidade esforça o ditame que seja a ausência maior que o mal ciúmes

O ausente, do zeloso, se provoca,
Aquele com dor, este com a ira,
Presume-lhe à ofensa que não lhe olha,
sente aquele à realidade que toca.

Este tempera, tão sua fúria louca,
Quando em seu discurso em favor delira
E sem intermissão aquele suspira
Pois nada em sua dor se fez opaca.

Este que aflige dúbio sua paciência
Aquele sofre certos seus desvelos
Este que a dor opõe resistência

Aquele sem ela sofre desconsolos,
E se és pena de dano, ao fim da ausência,
Logo é maior tormento dos ciúmes.

Que dá meios para amar sem muita pena

Eu não posso ter-te e nem desejar,
Nem sei porque, ao desejar-te lhe ter
Se encontra um não sei que para querer-te,
E muitos se sei para esquecer-te.

Pois nem queres ansiar nem me emendar,
Eu contemplarei meu olhar da sorte,
Que a metade se incline aborrecer-te.

Ao que outra metade se incline a amar-te,
Se ele se lida queremos, faça modo,
Que és morrer ao estar sempre porfiando:
Não se fale mais ardor nem suspeita.

E quem a metade ao todo, não quer todo,
E quando me está lá está fazendo
Sabe que estou fazendo a desfeita.

Discorre inevitavelmente o canto à vista de quem ama

Mandas, Anarda que sem canto assista,
A ver teus olhos, e do qual suspeito
Que ignorar a causa que és quem há feito
Querer já empreenda tanta conquista.

Amor, senhora sem que me resista,
Que tem fogo do coração desfeito,
Como faz ferver sangue está no peito,
Vaporiza em ardores pela vista.

Buscam logo meus olhos sua presença,
Que centro julgam de seu doce encanto,
E quando minha atenção te reverência.

E que dos visuais raios, entre tanto
Como falam sua branca residência,
O que saiu vapor, se volte canto.

Um zeloso refere comum pesar que todos padecem, e adverte a causa ao fim que pode ter luta dos efeitos

Já não duvido, Lisarda, que te quero,
Ao que eu sei de que tens me agravado,
Mas estou tão amante de tão arraiado
Que efeitos que distingo não profiro.

De ver que ódio e amor te tenho, deduzo
nenhum estar pode estar em sumo agrado,
pois não pode o ódio tê-lo ganhado,
sem haver-lhe perdido amor primeiro.

E se pensas que n´alma que se quis,
Há de estar sempre sua afeição ligada,
De tua satisfação vã eu lhe aviso.

Pois se amor e ódio hão dado a entrada,
O que baixou do sumo a ser remisso,
De o remisso passará a ser do nada.

Soneto que explica há mais sublime qualidade do amor

Já adoro a Lisi, mas eu não pretendo,
Que Lisi corresponda com fineza,
Pois se julgo possível sua beleza,
Ao seu decoro e minha apreensão ofendo.

Não empreender, somente, és o que empreendo:
Pois sei que merecer tanta grandeza,
Nenhum mérito basta, e és simpleza
Obrar com o mesmo que eu não entendo.

Como coisa concebo tão sagrada,
Sua beleza que não me quer ousadia,
A esperança dar uma leve entrada:

Pois cedendo a sua minha alegria
Por não alcançar ao ver mal-empregada
Há um penso que sentira vê-la minha.
SOR JUANA DE LA CRUZ-TRAD.ERIC PONTY
ERIC PONTY-TRADUTOR-LIBRETISTA




sábado, fevereiro 11, 2023

Peregrino de Dante e o Amante de Petrarca - TRAD. ERIC PONTY

É Dante, contudo, com quem Petrarca parece continuar a correr diálogo no Canzoniere, fazendo dele o derradeiro elogio de imitá-lo do princípio ao fim. Quando Virgílio chegou a Dante com a força de um texto completo no Inferno I, oferecendo-se como guia para fora do Peregrino dilema moral, o trabalho de Dante pode ter dado o mesmo tipo de ímpeto para Petrarca. Ele pode figurar como aquele a quem os primeiros poemas apolonianos do Canzoniere são abordados, o precursor cuja Beatriz é reconstituída numa Laura quase cristã no poema 4 e em muitos poemas para adotar. Ambos os poetas produziram obras que cresceram a partir de certas ironias implícitas na forma e no estilo escolhidos; visam, por incongruência e irresolução, uma verdade humana fundamental. Embora nos seja pedido que acreditemos, tanto na Vita nuova e o Canzoniere, que cada poeta se pôs a falar com a voz de um homem reformado, piedoso e celibatário que conquistou as suas fraquezas, suposição deve ser testada em cada passo do caminho (mesmo bem dentro da  Divina commedia, no caso de Dante).
Em ambas as coleções, os Familiares e dos Canzoniere, o progresso espiritual é ganho em última análise por meio de uma reavaliação, na reorganização e poda, mas também pelo meio da interpolação dos editados e do material interpretativo que chama a atenção não só para o indivíduo como uma pessoa única, mas para o homem como reflexo do seu tempo. Tal material em todas mensagens, trazidas à tona na escrita, sugerem que Petrarca concebeu a ideia cedo na vida para se estilizar deliberadamente como homem agostiniano predestinado, aquele que, pelo menos em parte, não pode afirmar o controlo sobre suas paixões, que procura o novo e o estranho para o seu próprio bem. Atrás de desta máscara uma personalidade mais integrada, baseada no humor, curiosidade, e inteligência dos seus amigos e correspondentes para ler nas entrelinhas e decidir por si se a voz que estava a falar era a do poeta ou a do ator.
Numa estrutura tão dramática, a fraqueza de carácter é forjada em força não através do bem ventoso nas intenções e discurso hiperbólico, mas através de uma breve introdução da experiência bruta, Fortuna, os seus semelhantes, e a si próprio. Cada um deles, o Peregrino de Dante e o Amante de Petrarca, é um homem em formação; dos criadores da sua autobiografia fictícia, por outro lado, estão de pé de forma distinta, e, misteriosamente fora dele, tendo-se destacado judiciosamente da sua própria vida.
Estas são meditações de alguém cujas expectativas estão a ser gradualmente do exterior para o interior, esvaziado de Laura a fim de apoiar Francesco no seu confronto com a sua própria morte. Agarrando-se a qualquer que seja o terreno verbal que auferiu, ele parece passar pela dor para conseguir uma medida de separação entreter-se das preocupações metafísicas.

4

Aquele que mostrou a tua providência sem fim,
E arte por meio de uma obra maravilhosa,
Que fez este e aquele outro hemisfério,
E que criou Jovi mais suave do que Marte.

E que desçam está terra fulgurando,
Páginas que tinham oculto vero durante tanto tempo,
Tirou Pedro das redes e também João,
Fazendo deles parte do reino dos Céus.

Com o teu surgimento, não propôs Roma para a graça,
Mas recomendou a Judeia, por sobretudo,
Sendo agradou-lhe exaltar toda humildade.

E agora de uma cidade pequena Ele deu-nos,
Um sol tal que agradecemos à Natura e ao lugar,
Trouxe ao mundo está adorável senhora.

6

Até hoje, o meu desejo insano está perdido,
Para perseguir está senhora se entregou em voo,
E luz e já libertos das armadilhas do Amor,
Voa antes da minha corrida lenta por ela.

Quando, chamando-o de volta, mais o mando,
Pela porta segura, quanto menos ela me presta atenção;
nem ajuda estimulá-la ou virá-la,
Para o Amor pela tua própria natura torna-a restiva;

E quando à força toma ele próprio as rédeas,
Sou deixado lá no arnês do teu senhor,
Contra a minha vontade me monta até à morte,

Apenas para chegar ao loureiro onde está junto,
Fruta amarga, uma vez provada, que aflige,
Em vez de confortar as feridas de outrem.

10

Gloriosa coluna sobre a qual se apoia,
Nossa espera e a grande fama do Lácio,
Para quem até a ira de Jovi com chuva,
Ainda não se afastou da vera passagem:

Não existem cá palácios, teatros, galerias,
Em vez de um abeto, uma faia, um pinhal...
Entre a relva verde e a montanha próxima,
Onde nós em poesia descemos e subimos...

Elevar nossos intelectos da terra para o céu;
Há um rouxinol que está na sombra,
lamentando doce chora durante a noite.

Sobrecarrega cada alma com axiomas de amor;
Por bondade, só vós corta a perfeição,
Mantendo-se aqui longe de nós, meu senhor.

12

Se a minha vida pode resistir à angústia amarga,
E todas essas que foram tuas lutas por mim,
Para ver o brilho dos teus lindos olhos,
Senhora, ofuscada pela força dos seus últimos anos,

E o teu cabelo fino dourado a alterar-se em prata,
Ver-vos desistir de grinaldas e roupas verdes,
Vosso rosto pálido que em todos os meus infortúnios,
Agora faz-me lamentar lenta e tímida,

Então o Amor, pelo menos, tornar-me-á assaz ousado,
Para que possa revelar-vos o meu sofrimento,
Os anos, os dias, as horas, como eram.

Deve o tempo trabalhar contra os meus doces desejos,
Pelo menos não vai impedir a minha dor de receber,
Algum conforto trazido por suspiros tardios.

17

chuva amarga de lamentos escorre-me pela cara,
soprando com um vento de suspiros de angústia,
se os meus olhos se voltarem para si a sós,
De quem estou dividido do homem.

Não há dúvida do seu sorriso doce e suave,
acalma o ardor de todos os meus desejos,
E me salva do martírio ardente,
desde que mantenha o meu olhar fixo em vós;

mas logo o meu espírito arrefece de repente,
quando vejo, ao sair, essas estrelas fadadas,
virando o teu suave movimento da minha visão.

Soltem-se, enfim, por aquelas duas chaves amorosas,
alma abandona o coração para o acompanhar,
e, no fundo do pensamento, rasga-se a si.

133

Amor fez de mim um alvo para as tuas setas,
Neve ao sol, como a cera dentro de uma fogueira,
Como a névoa ao vento; e agora estou rouco,
Senhora, de mendigar dó - e vós não se importa.

De teus olhos saiu o golpe mortal,
Contra os quais o tempo e o lugar não têm qualquer bem;
Só de si vem (levamos isto com ligeireza),
Sol, o fogo, e o vento que me fazem tal.

Os teus pensamentos são setas e o seu rosto um sol,
Desejo, fogo: com estas armas de uma só vez,
Amor perfura-me, ele deslumbra-me e derrete-me;

E o vosso canto angélico e as vossas palavras,
Com o vosso hálito doce a que não resisto,
Compor a aura perante a qual foge a minha vida.

134

Não encontro paz, nem estou em guerra,
Tenho medo e espera, e abraso e sou gelo;
Voo sobre os céus, e deito-me na terra,
E não agarro nada, e abraço o mundo.

Mantém-me proibido quem não cerra nem abre,
Nem me mantém por ela nem liberta o nó de forca;
Amor não mata, nem perde às minhas correntes;
Quer-me sem vida, mas não me arrebenta.

Eu vejo sem olhos, grito sem língua;
Anseio por perecer, e peço ajuda;
Eu odeio-me e amo outra pessoa.

Cresço com dor e rio com todas minhas lamúrias;
Não gosto tanto da morte como da vida:
Por sua causa, senhora, sou assim.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quarta-feira, fevereiro 08, 2023

ODE ANACREONTE - PARÁFRASE ANACREONTE - ERIC PONTY

EROS, AO OBSERVAR-ME, SUPÔS-ME UM CARVALHO DO BOSQUE,
COM SEU MACHADO PROSTOU-ME DE MOEMA.
E ME ATIROU A TORRENTE COTIDIANAS.

PERDIDO DE MOEMA, MERGULHO DEBATENDO-ME
ENTRE AS ONDAS DO COTIDIANO.
MOEMA ME DESPREZA.

NUM MISTO DE ANSEIO
NÃO SEI SE AMO OU ODEIO.
EROS DEIXOU-ME, SÓ, MINHAS MÁGOAS.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

domingo, fevereiro 05, 2023

ODE ANACREONTE PARÁFRASE DE ROSARD - ERIC PONTY

Servir feito de regresso
neste grande lustre Douro
Eu beberei dos lábios de Moema
que dos infernos nos deu
a doce lira de telena doçura.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

sábado, fevereiro 04, 2023

ODE ANACREÔNTICA PARÁFRASE DE SILVA ALVARENGA - ERIC PONTY

EU SOU GENTIL MOEMA AMARO SOU CATIVO,
PORÉM NÃO ME VENCEU A VIGÍLIA ARMADA
DE ATENÇÃO E FEVOR,
MAS UMA ALMA SOBRE TODAS ALTIVA VEJA
NÃO CEDE A OUTRA ESPERA QUE NÃO SEJA
A TENRA MÃO DO LOUVOR.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA


sexta-feira, fevereiro 03, 2023

ODE ANACREÔNTICA PARÁFRASE DE BOCAGEM - ERIC PONTY

OS TEUS PRISIONEIROS,
MOEMA AMARO QUE DEVEM
CONHECER DEFINIR-TE
DE QUAL TE DESCREVEM.

ÉS CRITÉRIO, AFIRMAM,
FLORECIDAS FLORES,
SEDENTA DE AMORAS
INIMIGA DOS HORRORES.

ESCORAM CARPINDO
DE QUE FERES ENLEIAS,
COM ÁUREOS VIROTES,
FLORECIDAS ROSAS.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

Aria para Semiramis -Paul Valéry -Trad. Eric Ponty


À alva, caros raios, minha testa sonha com teu diadema!
Assim que se ergue, ele vê com dum olho que dorme,
Sobre mármore absoluto, o tempo de palidez é pintado,
A hora sobre mim desceu e cresceu até ao douro.

... "Exista! ... Seja você mesmo finalmente! diz a Alvorada, ,
Ó grandeza alma, é tempo de formar um corpo!
Apressar a propuser um dia digno de rebentar,
Entre tantos outros fogos, os vossos tesouros imortais!

Já, contra a noite, a trombeta amargar luta,
Com um lábio vivo atacar o ar gelado;
Ouro puro, de volta em volta, rebenta si próprio,
Recordar todo espaço pra os esplendores do ido!

Voltem ao aspecto real! Saiam das vossas sombras,
E como o nadador, nesta plenitude do mar,
Calcanhar todo-poderoso expulsa-o das águas escuras,
Deixem monstros do seu sangue gerarem na sua cama!

Venho do Oriente para agradar os seus caprichos!
E venho para vos oferecer minha mais pura comida;
Que a sua chama se alimente do espaço e do vento!
Venha juntar-se ao brilho do meu presságio"!

- Respondo! Saio desta minha profunda ausência!
O meu coração puxa-me mortos contra quais meu sono,
Estes versos grandes águia rebentar com o poder,
Leva-me para longe! ... Voo até ao sol!

Levo apenas uma rosa e fujo... A bela seta,
Para flanco!... Minha cabeça dá à luz multidão de passos.
Suba, O Semíramis, dona de uma espada,
Que de coração sem amor brota a única honra!

Seu olhar imperial tem sede do grande império,
A quem o seu ceptro duro faz sentir felicidade.
Atreve-te ao abismo!.... Passe última ponte de rosas!
Aproximo-me de si, por perigo! Mais orgulho zangado!

Estas formigas são minhas! Estas urbes são minhas coisas,
Estas passagens são atributos da minha autoridade!
O meu reino é uma vasta pele de uma besta!
Matei então o leão que usava está pele;

Mas ainda do cheiro do fantasma feroz,
Flutua com morte, e guarda o meu rebanho!
Enfim, ofereço ao sol segredo dos meus encantos!
Nunca tinha dourado num limite tão gracioso!

Da minha fragilidade sinto gosto dos alarmes,
Entre o duplo apelo da terra e dos céus.
Refeição do meu poder, orgia inteligível,
Que quadrado leve de telhados e florestas!

Assentar aos pés da pura e divina vigília,
Desta calma remoção de eventos secretos!
Paul Valéry -Trad. Eric Ponty

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA 

A ABELHA E A FLOR - ERIC PONTY

 A ABELHA SUGA À FLOR DE MOEMA O SEU MEL E SEGUE ZUMBINDO POR AMARO:” OBRIGADA” A FLOR BEM SABE – É QUE LHE DEVE RENDER GRAÇA.

ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA


quarta-feira, fevereiro 01, 2023

INQUIETUDE DORME. PARÁFRASE DE ANECREONTE - ERIC PONTY

TRAZEI A TAÇA DE MOEMA,
SE EU BEBO, A INQUIETUDE DORME.
CESSE MURMURRO, NASÇA A CANÇÃO,
BEBIDA MORENA CLARA!
EU FENECEREI NUMA HORA DETERMINADA.
QUER QUETRA OU NÃO.
POR QUE PASSAR TANTO TEMPO PENSANDO NESTA VIDA?
BEBAMOS DOS LÁBIOS DE MOEMA,
LÁBIO LIBERTADOR,
POIS QUANDO A TAÇA É ENORME
MAIS A INQUIETUDE DORME.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA



terça-feira, janeiro 31, 2023

UMA PARÁFRASE A ANECREONTE - ERIC PONTY

COMPREI POR UMA DRACMA UM CUPIDO DE CERA
OBRA PRIMA DE UM ARTESÃO.
O PUS SOBRE O LEITO
SUPUS QUE FOSSE QUEIMAR EM MEU PEITO.
MAS A NOITE É ESCULPIDA DE MISTÉRIOS E MURMURA
E MOEMA COROOU-SE DE SALSA
E A CHAMA SENDO DENSA
QUEM DISSOLVEU FORAM AS ESSÊNCIAS DE MOEMA.

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA



PARAFRASE DE SILVA AVARENGA PARA MOEMA - ERIC PONTY

NESTE BOSQUE ALEGRE SORRINDO
SERÁ SOU AMADO AFORTUNADO
MOEMA DESEJO SER MUDADO
NO MAIS LINDO BUQUÊ DE ROSAS.

ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA 


O PALÁCIO ESPANTADO. - EDGAR ALLAN POE - TRAD. ERIC PONTY À MOEMA

No mais verde de nossos vales
Por bons anjos inquilinos,
Duma vez um palácio justo e majestoso…
Tal Palácio esplêndido – reluziu em sua mente
No império do monarca Pensamento…
 Ali jazeu!
Nunca o serafim lavrou um pinhão
Sobre tal textura meio justa.
Anúncios amarelos, gloriosos, dourado do mar,
Se em seu teto nadava e escorria,
 (isto—tudo já—jazia no ancestral
Sendo há muito tempo,
E todo ar alegre que se enxotava,
Se naquele afetuoso dia,
 Ao difuso das muretas apinhadas e lívidas,
 Dum odor alado que partiu…
Errantes naquele prado afortunado,
Por meio de duas vidraças formosas, colinas
Se tais Íntimos em oscilação musical,
Duma lei de alaúde bem enfadado,
 Em contorno de um trono onde, assentado
Se em tal posição de sua auréola bem harmônica,
O tal governante do império foi visto.
Se tudo com pérolas e rubis intensos
Era-lhes a passagem do palácio da comitiva,
Por aonde veio manando, correndo, manando,
E se sempre mais coruscante,
Duma tropa de Ecos, cujo afetuoso precisar
Era-lhes apenas para cântico,
Em vozes de encanto soberano,
Tal acúmen e astúcia de sua majestade.
Mas tais coisas más, em roupagens de dor,
Agrediu a alta riqueza da antiquada.
(Ah, ausentemos carpir-se! -por nunca prantear
Se deve alvorada sobre esse desolado!)
E se ao redor de sua mansão a prestígio
Se Isso ruborizou e prosperou,
São apenas uma história pouco recomendada
Dos tais ancestrais das eras muito inumadas.
E os errantes, hoje em dia, dentro daquela colina,
Por meio das vidraças fulguradas a encarnado percorrer
Tais Extensas feitios, que se mexem fantasticamente
Se uma harmonia desarmônica,
Enquanto, aleitar um escarneço temível célere,
Por meio da passagem lívida
Duma arrepiante caravana que percorre para sempre
E não rir igual, mas não ria antes.
1838.
EDGAR ALAN POE - TRAD. ERIC PONTY


ERIC PONTY-POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

 

domingo, janeiro 29, 2023

A QUEDA DA MORADA DE USHER - EDGAR ALLAN POE - TRADUÇÃO ERIC PONTY - FRAGMENTO

PARA MOEMA

Durante todo um dia monótono, escuro e sem som, no Outono do ano, quando as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, eu tinha passado sozinho, a cavalo, por um trecho singularmente sombrio do país, e, ao longo do tempo, encontrei-me, à medida que as sombras da noite se aproximavam, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como foi—mas, com o primeiro vislumbre do edifício, um sentimento de insuportável desânimo impregnou o meu espírito. Digo insuportável; pois o sentimento não era aliviado por nada daquele meio agradável, porque poético, sentimento com o qual a mente geralmente recebe até mesmo as imagens naturais mais severas do desolado ou terrível. Olhava para a cena antes de me levantar para a mera casa, e para as simples características da paisagem do domínio—sobre as paredes sombrias—sobre os olhos vazios—como as janelas vazias—sobre alguns sedimentos de hierarquia—e sobre alguns troncos brancos de árvores decadentes—com uma depressão total da alma, que posso comparar com nenhuma sensação terrena mais propriamente do que com o sonho do folião sobre o ópio—o lapso amargo na vida quotidiana—a hedionda queda do véu. Havia um gelo, um afundamento, um enjoo do coração—uma tristeza de pensamento não redimida que nenhum gozo da imaginação poderia torturar em nada do sublime. O que foi—fiz uma pausa para pensar—o que foi que me enervou tanto na contemplação da Casa de Usher? Era um mistério totalmente insolúvel; nem podia eu lutar com as fantasias sombrias que se apinhavam sobre mim enquanto ponderava. Fui forçado a voltar à conclusão insatisfatória, de que, embora, para além de dúvida, existem combinações de objetos naturais muito simples que têm o poder de nos afetar assim, ainda a análise deste poder está entre as considerações para além da nossa profundidade. Foi possível, refleti, que uma simples disposição diferente dos pormenores da cena, dos detalhes da imagem, fosse suficiente para modificar, ou talvez aniquilar a sua capacidade de impressão dolorosa; e, agindo com base nesta ideia, reguei o meu cavalo à beira do precipício de um alcatrão negro e espantoso que jazia em luxúrias sem ruídos junto à habitação, e olhava para baixo—mas com um arrepio ainda mais emocionante do que antes sobre as imagens remodeladas e invertidas do sedimento cinzento, e dos troncos horríveis das árvores, e das janelas vazias e com aspecto de olhos.

No entanto, nesta mansão de tristeza, propus a mim próprio uma estadia de algumas semanas. O seu proprietário, Roderick Usher, tinha sido um dos meus companheiros de boa vontade na infância; mas muitos anos tinham decorrido desde o nosso último encontro. Uma carta, porém, tinha-me chegado ultimamente numa parte distante do país—uma carta dele—que, na sua natureza extremamente importunada, tinha admitido não ter outra coisa senão uma resposta pessoal. O EM. Deu provas de agitação nervosa. O escritor falou de doenças corporais agudas - de uma desordem mental que o oprimia—e de um desejo sincero de me ver, como seu melhor e mesmo seu único amigo pessoal, com o objetivo de tentar, pela alegria da minha sociedade, aliviar a sua doença. Foi a forma como tudo isto, e muito mais, foi dito—foi o coração aparente que acompanhou o seu pedido—que não me deu lugar a hesitação; e por isso obedeci imediatamente ao que ainda considerava uma convocação muito singular.

Embora, como rapazes, tivéssemos sido até mesmos associados íntimos, no entanto, eu realmente conhecia pouco o meu amigo. A sua reserva tinha sido sempre excessiva e habitual. No entanto, estava ciente de que a sua família muito antiga tinha sido notada, o tempo fora de si, por uma peculiar sensibilidade de temperamento, manifestando-se, através de longas idades, em muitas obras de arte exaltadas, e manifestadas, tardiamente, em repetidos feitos de caridade munificente, mas discreta, bem como numa devoção apaixonada às complexidades, talvez até mais do que às belezas ortodoxas e facilmente reconhecíveis, da ciência musical. Tinha aprendido também o facto muito notável de que o caule da raça Usher, por muito honrado que tenha sido, tinha apresentado, em nenhum momento, qualquer ramo duradouro; por outras palavras, que toda a família estava na linha direta da descida, e tinha sempre, com variações muito triviais e muito temporárias, deitado. Foi esta deficiência, considerei, enquanto atropelava em pensamento a perfeita manutenção do carácter das instalações com o carácter acreditado do povo, e enquanto especulavam sobre a possível influência que um, no longo lapso de séculos, poderia ter exercido sobre o outro - era talvez esta deficiência de questão colateral, e a consequente transmissão não evolutiva, de pai para filho, do património com o nome, que tinha, longamente, identificado os dois a ponto de fundir o título original da propriedade na denominação pitoresca e equívoca da "Casa de Usher" - uma denominação que parecia incluir, na mente dos camponeses que a utilizavam, tanto a família como a mansão da família.

Eu disse que o único efeito da minha experiência algo infantil - o de olhar para baixo dentro do alcatrão - foi o de aprofundar a primeira impressão singular. Não há dúvida de que a consciência do rápido aumento da minha superstição - por que não o deveria eu chamar assim? -servido principalmente para acelerar o próprio aumento. Tal, há muito que eu sei, é a lei paradoxal de todos os sentimentos tendo o terror como base. E poderia ter sido apenas por esta razão que, quando levantei novamente os meus olhos para a própria casa, da sua imagem na piscina, cresceu na minha mente uma estranha fantasia – um tão ridículo, de facto, que me limitei a mencioná-lo para mostrar a força vívida das sensações que me oprimiram. Tinha trabalhado tanto na minha imaginação, que acreditei realmente que sobre toda a mansão e domínio ali pendia uma atmosfera peculiar a si próprios e à sua vítima imediata...

Sacudindo do meu espírito o que deve ter sido um sonho, fiz uma leitura mais restrita do aspecto real do edifício. A sua característica principal parecia ser a de uma antiguidade excessiva. A descoloração de idades tinha sido grande. Fungos minuciosos espalharam por todo o exterior, pendurados num fino emaranhado de teias dos beirados. No entanto, tudo isto, para além de qualquer dilapidação extraordinária. Nenhuma parte da alvenaria tinha caído; e parecia haver uma inconsistência selvagem entre a sua ainda perfeita adaptação de partes, e o estado de desmoronamento das pedras individuais. Nisto havia muito que me fazia lembrar a totalidade ilusória do trabalho em madeira velha que apodreceu durante longos anos em alguma abóbada negligenciada, sem qualquer perturbação do sopro do ar exterior. Para além desta indicação de extenso apodrecimento, contudo, o tecido deu pouco sinal de instabilidade. Talvez o olho de um observador escrutinador possa ter descoberto uma fissura pouco perceptível, que, estendendo-se do telhado do edifício em frente, desceu a parede em ziguezague, até se perder nas águas sombrias do alcatrão.

Ao reparar nestas coisas, cavalguei sobre uma curta estrada para a casa. Um criado à espera levou o meu cavalo, e eu entrei no arco gótico do salão. Um criado, de passo furtivo, conduziu-me, em silêncio, através de muitas passagens escuras e intrincadas no meu progresso até ao estúdio do seu mestre. Muito do que encontrei no caminho contribuiu, não sei como, para elevar os sentimentos vagos de que já falei. Enquanto os objetos à minha volta - enquanto que as esculturas dos tetos, as sombrias tapeçarias das paredes, a escuridão do ébano do chão, e os troféus armoriais fantasmagóricos que se agitavam à medida que eu passeava, não passavam de assuntos a que, ou demasiado semelhantes, eu tinha estado habituado desde a minha infância - enquanto hesitava em não reconhecer o quanto tudo isto me era familiar - ainda me perguntava como eram desconhecidas as fantasias que as imagens vulgares estavam a agitar. Numa das escadas, conheci o médico da família. O seu rosto, pensava eu, usava uma expressão misturada de baixa astúcia e perplexidade. Ele acossou-me com trepidação e passou-me adiante. O camareiro abriu agora uma porta e levou-me à presença do seu mestre.

A sala em que me encontrei era muito grande e sublime. As janelas eram longas, estreitas e pontiagudas, e a uma distância tão grande do chão de carvalho negro que eram completamente inacessíveis por dentro. Fracos clarões de luz carmesim abriam caminho através das vidraças de treliça, e serviam para tornar suficientemente distintos os objetos mais proeminentes à volta; o olho, contudo, lutou em vão para alcançar os ângulos remotos da câmara, ou os recessos do teto abobadado e tristonho. Cortinas escuras penduradas nas paredes. O mobiliário geral era profuso, sem conforto, antiquado e esfarrapado. Muitos livros e instrumentos musicais estavam espalhados, mas não conseguiram dar qualquer vitalidade à cena. Senti que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de tristeza severa, profunda e irredimível pairava sobre mim e impregnou tudo.

À minha entrada, Usher levantou-se de um sofá sobre o qual tinha estado deitado a todo o comprimento, e cumprimentou-me com um calor vivaz que tinha muito dentro, pensei no início, de uma cordialidade exagerada - do esforço limitado do homem Ennui do mundo. Um olhar, contudo, sobre o seu rosto convenceu-me da sua sinceridade perfeita. Sentámo-nos; e durante alguns momentos, enquanto ele não falava, eu olhava-o com um sentimento de metade de pena, metade de espanto. Certamente, o homem nunca antes tinha alterado tão terrivelmente, em tão breve período, como Roderick Usher! Foi com dificuldade que me pude levar a admitir a identidade do ser que estava perante mim com o companheiro da minha infância. No entanto, o carácter do seu rosto tinha sido sempre notável. Um cadáver de tez; um olho grande, líquido e luminoso sem comparação; lábios um pouco finos e muito pálidos, mas de uma curva de uma beleza suprema; um nariz de um delicado modelo hebraico, mas com uma largura de narina invulgar em formações semelhantes; um queixo finamente montado, falando, na sua falta de proeminência, de uma falta de energia moral; cabelo de uma suavidade e tenuidade mais do que semelhante a uma teia; - estas características, com uma expansão desordenada acima das regiões do templo, compõem um semblante não facilmente esquecido. E agora, no mero exagero do carácter prevalecente destas características, e da expressão que elas estavam habituadas a transmitir, havia tanta mudança que eu duvidava de quem falava. A agora terrível palidez da pele, e o agora milagroso brilho do olho, acima de tudo assustava-me e até me assustava. O cabelo de seda, também, tinha sido sofrido para crescer todo o cabelo desgrenhado, e como, na sua textura selvagem de aranha, flutuava em vez de cair no rosto, não podia, mesmo com esforço, ligar a sua expressão arábica a qualquer ideia de simples humanidade.

POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY

sábado, janeiro 28, 2023

TRÊS POEMAS À MOEMA - ERIC PONTY

Depois de deixar nossas marcas
No único poste
Nós partimos
Ela para o oeste
Eu para o leste
Com uma promessa
Se encontrar novamente
Por esse poste
Num ponto de encontro,
Mas nunca percebemos
Nas sereias o Ciclope e o zangado Poseidon
Embora nós nunca pensámos da cara do barqueiro.


Na noite de cristal vou encontrar você novamente no plaza 
Pela mesma estátua que nos viu separando 
Que frio de outubro de manhã 
Você a oeste eu a leste 
A partir do ponto de encontro
De duas vidas como linhas de triângulo 
Eu vou chegar a você segurando um livro 
Na minha canhota
Lado e dum cravo nos outros apenas no caso 
De você vir olhando a comover minhas emoções
Apenas no caso de você chegar no anseio de beijar 
Como que na fria
Manhã de Outubro estávamos separados.



Cozido café na janela
Olvidados são 
Os esforços dissimulados
Como homens de idade 
Cercar a queima braseira
Recordando histórias da velhice 
Sonho dos jovens 
Futuras amigas e façanhas em arbustos 
Ou sob 
O olho vigilante da lua 
E um isolado carteiro em suspiros
Para a carta de amor ele nunca teve! 

ERIC PONTY - POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA

quinta-feira, janeiro 26, 2023

Uma Lírica para Moema - SONETTOS DANTESCO - TRAD. E ADAPT: ERIC PONTY


I

O Deus do Amor com seu arco me atraiu aqui,
Pois estava olhando pra uma flor que odeia,
Quem tinha plantado a cortesia,
No jardim do Prazer; e lá ele esboçou.

Tão ligeiro que me pareceu que ele voou,
Então disse: "Eu o mantenho em meu poder".
Então ele gosta, não por minha causa,
A de cinco lampejos, eu ficaria satisfeito.

A primeira não é Moema: pra os olhos do coração,
Então passou por mim; segundas, Angelicança:
Isso me deixou calmo; felizmente não é.

A terceira cortesia foi, Santo Doutor;
A quarta, Empresa, que me causou dor;
A quinta apelar com a Boa Esperança!

II

Do mês de janeiro, e não o mês de maio,
Foi quando ergui o Amor à senhoria,
Em que eu me coloquei alma em sua bagagem,
E eu lhe prestei uma homenagem;

E para maior certeza eu lhe dei em fardo,
Deste coração, que não tinha ciúmes,
Ele me deu a argúcia e eu lhe emprestei olhos,
E ele sempre continuava marcando maio.

Então ele pegou o coração e disse: "Amigo",
Eu sou um servo Severo mui forte;
Mas de quem eu preciso, com certeza eu lhes digo.

A quem minha graça ainda não pode falhar,
E de boa esperança outras mim eu tenteio-nos,
Insinuar que eu o forneço com o seu mandamento".

III

Com chave de ouro ela parou meu coração 
Amor, quando falava assim comigo; 
Mas primeiro, ela fez a rede e a casou, 
Sim não adianta lutar contra coração.

E então ela disse: "Eu sou você, senhor",
E tu és de mim fiel juramentado:
Agora veja que seu coração não está partido,
Se não for de bom e leal amor prá razão.

E pensa em trazer a paz ao coração,
A punição que ele vai sofrer por mim,
Antes de dar-lhe minha sentença;

Por mui vezes, semelhará que irás morrer:
Uma hora de alegria terá, outra de boas-vindas;
Mas então eu dou o argumento de guerreiro".

IV

Com grande modéstia e paz ao coração,
Eu prometi a Amor sofrer sua dor,
E cada membro, que eu tinha, e cada veia,
Ela estava disposta a fazê-los seus;

E só ela me servirá neste meu armário,
É firme, e nem nunca se confunde mais:
“Dentro da tulha eu terei espírito ou lena",
Eu não vou fazer isso quando eu sair". 

E então ele me disse: 'Amigo meu!,
Já lhe dei melhores promessas do que cartões:
 Fazei-me adorar-vos, pois sou vosso deus;

E todas as outras crenças postas de lado,
Nem Lucas nem de Mateus ou de Marcus,
". Então tudo será, e, está desprendido!

V

A razão partiu, ouvindo-me falar,
Então me lembrei que eu tinha,
grande amigo, a quem eu costumava,
Com todo meu desânimo e conforto;

Para que eu não demorasse mui a deparar,
E dizer-lhe como tudo está contido,
A doença para mim, e que me pareceu,
Que ele queria que eu lutasse de todo.

E ele disse: "Cara, tenha há certeza",
Pois essa sujidade está sempre em uso,
Quem, pra pôr-se, se mostra imaturo e duro.

Retornar a ele e não permanecer:
Com modéstia, em breve ele terá amadurado,
Já tanta coisa não parece fel nem santo prato'.

VI

Para Bel-Semblante e para Doce-Resguardo,
Ela me enviou o agradável bosque para ir,
Em seu jardim, e que eu as bacias de flores,
Tampouco já carrega lançado ou dardo:

Para o canalha foi feito tão covarde,
Que era mandatório pra mim aprendê-lo;
Mas as todos não queriam que eu entrasse nela,
Seda não é noite dentro da noite.

"Portanto, que a castidade e os ciúmes,
Eles lhe colocam Medo e Vergonha,
Em lhes guardar, isso não faz tolice;

E um vilão que compõe cada mentira,
Olhe para ela, que nasceu no Lenheiro,
E durante mui tempo eu fiquei distraído!

VII

Da muita glória que me entrou no coração,
Aquela flor preciosa, aquela aulia tão aulia,
Contar ou dizer por mim não é possível;
Mas eu vou contar quanto o mar ficou agitado.

Quem cobiçou e despertou os ciúmes,
E a Castidade, que cada um dorme;
Pelo qual eu era do jardim banido,
E por isso vou contar com você forte.

Onde a Bela Consciência era uma prisão,
A quem o amor então diminuía por sua destreza;
E como ele insensatamente voltou para mim.

E durante mui tempo eu fiquei distraído,
E quando ela retornou pra mim em Motivo,
Que eu poderia encontrar neste mundo.

GILBERTO DE MENDONÇA TELLES E ERIC PONTY

terça-feira, janeiro 17, 2023

Publicado em por Athena MAX RICHTER—NOVEMBER (Music Video 2020) – por Eric Ponty

 


1—O estado musical

O estado musical não é uma ilusão, porque nenhuma ilusão pode dar uma certeza de tal amplitude, nem uma sensação orgânica de absoluto, de incomparável vivência significativa por si só e expressiva em sua essência.

Nesses instantes em que ressoamos no espaço e o espaço ressoa em nós, nesses momentos de torrente sonora, de posse integral do mundo, só posso me perguntar por que não serei eu todo este mundo. Ninguém experimentou com intensidade, com uma louca e incomparável intensidade, o sentimento musical da existência, a menos que tenha tido o desejo dessa absoluta exclusividade, a menos que tenha sido possuído de um irremediável imperialismo metafísico, quando desejara a ruptura de todas as fronteiras que separam o mundo do eu.

Se o estado musical faz associar, no indivíduo, com um estado de egoísmo absoluto  nesta maior das generosidades tal qual nos alude Emil Cioran – O Livro das Ilusões sendo que Cioran nos põe este questionamento muito ao propósito que nos refletiremos que é Max Richter – November  (Music Video 2020).mp4:

Queres ser só tu, mas não por um orgulho mesquinho, mas por uma suprema vontade de unidade, pela ruptura das barreiras da individuação, não no sentido de desaparição do indivíduo, mas de desaparição das condições limitativas impostas pela existência deste mundo. Quem não tenha tido a sensação da desaparição do mundo, como realidade limitativa, objetiva e separada, quem não tenha tido a sensação de absorver o mundo durante seus êxtases musicais, suas trepidações e vibrações, nunca entenderá o significado dessa vivência na qual tudo se reduz a uma universalidade sonora, contínua, ascensional, que evolui para o alto em um agradável caos.

E o que é esse estado musical que nos conduz Max Richter—November  (Music Video 2020).mp4 senão para um agradável caos cuja vertigem é igual à beatitude e suas ondulações das iguais e de tais arrebatamentos musicais?

2—Desprovido de presente. 

Havendo um conhecimento que paga peso e está alcance ao que um faz; para o todo, ausente do mesmo, carecendo de fundamento. Puramente, fazendo aborrecer inclusive esta ideia de objeto, expressa naquele saber extremo segundo o qual passa ser igual cometer ou não cometer um ato, uma vez que nos implica duma satisfação também extrema: a de poder repetir, em cada encontro, que nada de quanto se faça merece a pena, que nada está realizado por um rastro algum de sustância, que a «realidade» se escreve num campo da insensatez. Tal conhecimento mereceria ser chamado póstumo, já que se apresenta como si o que faz conhecer estivera vivo e não estava vivo, de ser desta reminiscência de ser. «Sendo coisa passada», ao dizer de todo o que realiza neste instante mesmo do ato, do qual, dessa maneira, ficando para sempre desprovido de presente.
3—Distância do Mundo

Não seria mil vezes preferível retirar-se à distância do mundo, longe de tudo o que provoca seu tumulto e suas complicações? Nós renunciaríamos assim à cultura e às ambições, nós perderíamos tudo sem obter nada em troca.


Mas que podemos obter neste mundo? Para algumas pessoas, nenhum ganho importa, porque eles são irremediavelmente infelizes e solitários. Mesmos abertos a tudo receber dos outros, ou a tudo ler nas profundezas de suas almas, em que medida seríamos capazes de esclarecer seus destinos?


Se sós na vida, nós perguntamo-nos se a solidão da agonia não é o próprio símbolo da existência humana. Lamentável fraqueza a de querer viver e morrer em sociedade: existe alguma consolação possível na última hora? É preferível morrer só e abandonado, sem afetação e mentiras. Eu provo apenas desgosto por aqueles que, na agonia, dominam-se e impõem-se atitudes para provocar uma impressão. As lágrimas somente são quentes na solidão.


Todos aqueles que querem cercar-se de amigos na hora da morte, o fazem por medo e incapacidade de afrontar o seu momento supremo. Eles procuram, no momento essencial, esquecer sua própria morte.
4—Fenômeno de um eclipse.

Quaisquer que tenham sido nossas exposições anteriores, não foram a única causa da mudança de minha orientação quanto esta tentativa de um ensaio sobre Max Richter—November (Music Video 2020); também contribuiu em muito um fenômeno mais natural e muito mais doloroso: a densidade destas imagens que achamos em, Max Richter November (Music Video 2020) – tais como seus sintomas que não enganam; por um acaso, começamos a dar cada vez mais sinais desta tolerância, anunciadores desta melodia do violino, nos parecendo, de algum transtorno íntimo, de algum mal, sem dúvida, de uma fonte incurável de nossa época frente o cotidiano e os fados do mundo.


O que me alarmava ainda mais era que já não tinha força nem para desejar a tal sorte de November (Music Video 2020); ao contrário, escutá-lo e compreendê-lo, se tal November (Music Video 2020) comparava seu fel com o nosso: se o Music Video se faz existir, e, se na decadência inominável, estávamos contentes com sua existência.


A densidade da música e das imagens em November (Music Video 2020) se nossos ódios, fonte de nossas alegrias, se apaziguavam, diminuíam dia a dia e, ao afastar-se, levavam consigo o melhor de mim mesmo. O que nos resta a fazer? Para que abismo estou escorregando? Me perguntava sem cessar durante o November (Music Video 2020). À medida que November (Music Video 2020) demonstrava esta energia declinava sobre sua melodia, se acentuava esta inclinação para a tolerância de sua compreensão como uma imagem incomparável em November (Music Video 2020) que é fenômeno de um eclipse.
A Música  Existencial

1—O estado musical

Nesses instantes em que ressoamos no espaço e o espaço ressoa em nós, nesses momentos de torrente sonora, de posse integral do mundo, só posso me perguntar por que não serei eu todo este mundo. Ninguém experimentou com intensidade, com uma louca e incomparável intensidade, o sentimento musical da existência, a menos que tenha tido o desejo dessa absoluta exclusividade, a menos que tenha sido possuído de um irremediável imperialismo metafísico, quando desejara a ruptura de todas as fronteiras que separam o mundo do eu.

Emil Cioran – O Livro das Ilusões

Se o estado musical faz associar, no indivíduo, com um estado de egoísmo absoluto nesta maior das generosidades tal qual nos alude Emil Cioran – O Livro das Ilusões sendo que Cioran nos põe este questionamento muito ao propósito que nos refletiremos que é Max Richter – November (Music Video 2020).mp4:


Queres ser só tu, mas não por um orgulho mesquinho, mas por uma suprema vontade de unidade, pela ruptura das barreiras da individuação, não no sentido de desaparição do indivíduo, mas de desaparição das condições limitativas impostas pela existência deste mundo. Quem não tenha tido a sensação da desaparição do mundo, como realidade limitativa, objetiva e separada, quem não tenha tido a sensação de absorver o mundo durante seus êxtases musicais, suas trepidações e vibrações, nunca entenderá o significado dessa vivência na qual tudo se reduz a uma universalidade sonora, contínua, ascensional, que evolui para o alto em um agradável caos.


E o que é esse estado musical que nos conduz Max Richter—November (Music Video 2020).mp4 senão para um agradável caos cuja vertigem é igual à beatitude e suas ondulações das iguais e de tais arrebatamentos musicais?

2—Desprovido de presente.


Havendo um conhecimento que paga peso e está alcance ao que um faz; para o todo, ausente do mesmo, carecendo de fundamento. Puramente, fazendo aborrecer inclusive esta ideia de objeto, expressa naquele saber extremo segundo o qual passa ser igual cometer ou não cometer um ato, uma vez que nos implica duma satisfação também extrema: a de poder repetir, em cada encontro, que nada de quanto se faça merece a pena, que nada está realizado por um rastro algum de sustância, que a «realidade» se escreve num campo da insensatez. Tal conhecimento mereceria ser chamado póstumo, já que se apresenta como si o que faz conhecer estivera vivo e não estava vivo, de ser desta reminiscência de ser. «Sendo coisa passada», ao dizer de todo o que realiza neste instante mesmo do ato, do qual, dessa maneira, ficando para sempre desprovido de presente.

3—Distância do Mundo


Não seria mil vezes preferível retirar-se à distância do mundo, longe de tudo o que provoca seu tumulto e suas complicações? Nós renunciaríamos assim à cultura e às ambições, nós perderíamos tudo sem obter nada em troca.


Mas que podemos obter neste mundo? Para algumas pessoas, nenhum ganho importa, porque eles são irremediavelmente infelizes e solitários. Mesmos abertos a tudo receber dos outros, ou a tudo ler nas profundezas de suas almas, em que medida seríamos capazes de esclarecer seus destinos?


Se sós na vida, nós perguntamo-nos se a solidão da agonia não é o próprio símbolo da existência humana. Lamentável fraqueza a de querer viver e morrer em sociedade: existe alguma consolação possível na última hora? É preferível morrer só e abandonado, sem afetação e mentiras. Eu provo apenas desgosto por aqueles que, na agonia, dominam-se e impõem-se atitudes para provocar uma impressão. As lágrimas somente são quentes na solidão.


Todos aqueles que querem cercar-se de amigos na hora da morte, o fazem por medo e incapacidade de afrontar o seu momento supremo. Eles procuram, no momento essencial, esquecer sua própria morte.

4—Fenômeno de um eclipse.

Quaisquer que tenham sido nossas exposições anteriores, não foram a única causa da mudança de minha orientação quanto esta tentativa de um ensaio sobre Max Richter—November (Music Video 2020); também contribuiu em muito um fenômeno mais natural e muito mais doloroso: a densidade destas imagens que achamos em, Max Richter November (Music Video 2020) – tais como seus sintomas que não enganam; por um acaso, começamos a dar cada vez mais sinais desta tolerância, anunciadores desta melodia do violino, nos parecendo, de algum transtorno íntimo, de algum mal, sem dúvida, de uma fonte incurável de nossa época frente o cotidiano e os fados do mundo.


O que me alarmava ainda mais era que já não tinha força nem para desejar a tal sorte de November (Music Video 2020); ao contrário, escutá-lo e compreendê-lo, se tal November (Music Video 2020) comparava seu fel com o nosso: se o Music Video se faz existir, e, se na decadência inominável, estávamos contentes com sua existência.


A densidade da música e das imagens em November (Music Video 2020) se nossos ódios, fonte de nossas alegrias, se apaziguavam, diminuíam dia a dia e, ao afastar-se, levavam consigo o melhor de mim mesmo. O que nos resta a fazer? Para que abismo estou escorregando? Me perguntava sem cessar durante o November (Music Video 2020). À medida que November (Music Video 2020) demonstrava esta energia declinava sobre sua melodia, se acentuava esta inclinação para a tolerância de sua compreensão como uma imagem incomparável em November (Music Video 2020) que é fenômeno de um eclipse.

Conclusão—Max Richter—November  (Music Video 2020)


Busquei a Dúvida em todas as artes e só a encontrei camuflada, furtiva, dissipada nos entreatos da inspiração, surgida do relaxamento do impulso; mas renunciei a procurá-la – mesmo sob essa forma – em música; não poderia renascer: Max Richter—November (Music Video 2020).


Ignorando esta ironia, a música procede não das malícias deste intelecto, mas dos matizes ternos ou veementes desta Ingenuidade – senão tolice do sublime, desta irreflexão do infinito… Se tal piada não possui equivalente sonoro, se chamarmos um músico de inteligente seria o equivalente a denegri-lo. Este atributo o diminui e não tem lugar nessa tentativa de ensaio lânguido onde, como um deus cego, Max Richter—November (Music Video 2020) improvisou com tais arrojos dos universos como apresentou em seu solo de violino.


Se fosse consciente de seu dom, deste seu gênio, sucumbiria a tal orgulho; mas é irresponsável; nascido no oráculo, não pode compreender-se a si mesmo. Cabendo aos estéreis interpretá-lo como nós: este músico não é crítico, senão é um Deus não passa de um teólogo. Se este não é um caso-limite de irrealidade e de absoluto, de ficção infinitamente real, de mentira mais vera que o mundo do qual representa, a música perde seus prestígios logo que, secos ou morosos, nos dissociamos da Criação e o próprio Max Richter—November (Music Video 2020) nos pareceu um rumor insípido; é o ponto extremo de nossa não participação nas coisas de estar no mundo, de nossa frieza e de nossa decadência frente a tal empreendimento.


Max Richter—November (Music Video 2020) se não está zombar em pleno sublime, triunfo sardônico do princípio subjetivo, que nos aparenta ao Diabo nesta composição musical que é Max Richter—November (Music Video 2020)! Quem já não tem prantos para esta música, quem vive apenas da lembrança das que derramou diante de Max Richter—November (Music Video 2020), será um ser perdido: se está clarividência não se fez estéril terá mesmo destruído o tal êxtase de onde surgem mundos do qual pudemos analisar nesta tentativa de ensaio que foi Max Richter—November (Music Video 2020)…

ERIC PONTY

terça-feira, janeiro 10, 2023

RECADO A MOEMA 3 COM SONETO TOTAL PARA MOEMA - ERIC PONTY

Louve-te tanto, meu amor, não apague,
Exatidão mais vero coração,
Louve-te tanto, amiga como amante,
Exatidão diversa realidade.

Louve-te afim, de um calmo amor gestante,
E te amo aqui, presente neste louvor,
Louve-te enfim, com grande liberdade,
Dentro da eternidade a cada chama.

Louve-te tanto como um pastor, simplesmente,
De um amor com mistério e com virtude,
Com um desejo cerrado e permanente.

E de te louvar assim, mui e amiúde,
É que um dia em teu corpo, de instante,
Hei de nascer de amar mais do que pude!

ERIC PONTY