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terça-feira, novembro 03, 2026

De amar, minha Letícia, a formosura - Eric Ponty

 P/LETÍCIA CARVALHO

De amar, minha Letícia, a formosura
Não se podem livrar formosos peitos.
Adoram os faróis; e os mesmos lutos
Aos grilhões que despido estão cá jeitos.
Quem, Letícia, despreza uma realeza,
A voz da razão precisa;
E se tem homilia, pisa
A lei, que lhe falou a Natureza.
Despida entrou no véu. O grande do céu
Uma vez se mudou em luva de ouro;
Outras vezes tomou as várias normas
Do funeral de Tebas, grelha e touro.
O próprio Deus da Farra desumano
Não teve de amor ileso;
Quis a Vênus, e foi preso
Na rede, que lhe armou o Deus Vulcano.
Mas sendo amor igual para os viventes,
Tem mais desculpa, ou menos está chama:
Amar formosas faces acredita,
Amar os peitos de algum modo infama.
Que lê que Jove amou, não lê nem alopra,
Que ele amou vulgar donzela:
Lê que amou a Dânae em pelo,
Depara que roubou a linda Europa.
Se amar uma bondade se desculpa
Em quem ao próprio Véu, e ferra move:
Qual é a minha glória, pois igualo,
Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
Amou o Pai dos Deuses Soberano
Um semblante peregrino:
Eu adoro o teu divino Vênus,
O teu divino rosto, e sou humano.

 ERIC PONTY

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