Orquídea
Uma flor devorou tua barriga até o fundo
Caule se distende como um dardo sob as entranhas
Escava a carne com tua raiz e tu sacudes
E, aos espantos do coração, ouve-as responder.
É uma flor estranha e rara, de que duma orquídea
Misteriosa, ainda em flor por pouco do tempo
Minha boca a conheceu e me surgiu então na ideia
Submeter, às tuas leis, o orgulho em minha razão.
É por isso que, da tua flor de carne dorida,
Quero fazer lírio puro pra a Virgem Maria,
Faceiro com ouro ruivo e marfim chispante.
Corola em rubis como uma flor estrelada
Carne virginal bateda com ondas de prole
Tua vulva rubra e alva, toda análoga a um lírio.
VULVA
I
Raio do sol nascente acaricia e dourará
Pele marmorizada e os pelos amarelejados
Ah, como excitam meus dedos adolescentes
Grandes pelos loiros que vibram em arrepio da aurora.
Quando corpo cansado faz coxins cederem,
Delicado tufo ilumina sua pele alva
E creio ver brilhar com brilho menos intenso
Sob cabelos menos loiros, a pureza dos seios.
E sob cílios menos longos, olhos em contornos,
Pois teus pelos cresceram em seu odor impuro
Desta espuma é leve e feita de ouro vivo.
E vejo ali os reflexos lusco-fusco amarelo;
Por isso, quero rezar silêncio diante dele,
Como bizantina aos pés de um ícone sagrado.
II
Quando deslizo meus dedos por entre fios vivos
Grandes fios loiros, agitados por arrepio alegre,
Creio estar vivendo uma gigante, em épocas lendárias
E achatar sob minhas mãos as brenhas quaternárias.
Quando minha língua se enrosca em torno em meus dentes
Outra nostalgia assalta para minhas narinas:
Acho que estou bebendo o cheiro das algas marinhas
E mastigando algas sob as rochas escaldantes.
Mas olhos bem abertos bisparam melhor quem eu adoro:
É um tico do oceano em um arrepio amanhecer,
Na espuma de uma onda, uma névoa dourada e viva,
Floco de onda esquecido pela mão venerada
Que moldou, com espuma e do sol nascente,
Tua pele branca e teu corpo esplêndido, Citera!
PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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