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terça-feira, outubro 27, 2026

ODE - SYGOGNES - PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

 Ele era pobre e deveu à sua miséria um primeiro sucesso. Foi durante o último ano do século XVI que um livreiro de Paris conseguiu uma cópia de uma ode que circulava pela cidade, e cujo autor era Sygognes. Ela tinha como tema um certo casaco, que o poeta devia considerar entre seus conhecidos.

Casaco, dos casacos mais finos,
Para sempre livre da pinça
Por tua cruel pobreza,
E tua natureza incomparável,
Casaco, no entanto, venerável,
Por tua extrema antiguidade,
Este casaco, que nunca teve no mundo
Vestimenta que se comparasse a ele,
Era outrora de um tecido bastante fino;
Agora não se pode distinguir
Se era sarja, pano ou linho,
Pois a pobreza está chegando ao fim.
Era de um jeito honrado,
Primeiramente, um casaco de festa
Enfeitado com um colarinho de veludo
E um forro de frisa,
Depois, logo em seguida, mudando de estilo,
Tornou-se um casaco para o dia a dia.
Não há jeito nem maneira
De se usar uma peça de roupa
Que o pobre não tenha conhecido.
Já foi túnica sem mangas,
Mudando de aparência aos domingos,
Aplicado a todos os usos:
Muitas vezes, durante o frio,
Serviu de cobertor
Contra a agressão da noite
E, de maneira diferente,
De cortinas de céu e de pante
De fundo e de borda em sua cama.
Também foi usado como bolsa
E, mais tarde, serviu de capa,
Sobre algum cavalo prestado;
O criado que saía em missão;
Que nunca teve experiência nem garantia, 
Muitas vezes o carregou nas costas.
O casaco, essas são coisas confiáveis;
Já passou por dezessete forros;
E mudou de cor várias vezes.

O cinza foi sua cor original;
Mas, desde então, de outra forma,
O verde alegre lhe foi designado;
Depois, mudando para outro tom,
Tornou-se da cor de folha morta;
Em seguida, foi tingido de castanho:

Na última tintura,
Foi tingido de preto, a cor mais confiável,
Raspado, remendado e virado do avesso;
Foi testemunha, embora sem ser,
Dos golpes de bastão que seu dono
Recebeu e não desferiu.

Ele o acompanhada de vez em quando,
Seu dono, aonde quer que ele vá;
É conhecido nas prisões,
No Hôtel-Dieu, na taberna,
De onde muitas vezes sai sem lanterna
E, na maioria das vezes, completamente nu,

Ele possui, de maneira incrível
E com graça especial,
A propriedade da cobra,
Pois tantas vezes quanto o desgaste
Lhe causa algum corte,
Tantas vezes ele se recobra.
Esse casaco é tão maleável
Que parece uma toalha de mesa 
que nunca serviu para comer.
Uma coisa o reconforta
É que nunca o levam para 
as batalhas nem para o perigo.

SYGOGNES - PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

  

  POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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