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sábado, outubro 17, 2026

Invocação ao despertar da musa - Eric Ponty

 Conta-me ainda, Musa enquanto vindo
é o calmo sopro ao liquido elemento.
Não longe desse pélago é o tormento indo.
E à direita, ao nascente é a conjura do vento.
Canto VII - IX – Audição de Orfeu –Jorge de Lima

I

Pierre Thomas, não pode pintá –lá em tua extensão,
tinha mistérios demais dissimulados pela tua tez,
exausto e desiludido, solitário subtraiu-se os pinceis
e adentrou para sempre nas margens deste poema.

Pierre Thomas, buscava com paciência e ilusão,
captar o talhe do teu rosto, a tua uma descendência,
a forma primeira que nasceu por entre brancas areias
e a casa onde abrigou o teu enxuto silêncio advindo.

Pierre Thomas, ignorava, porém que não a pintar,
preservá-la entre as efígies cotidianas da manhã,
já cotinha em si, o grande elogio da arte plástica,
porque uma metáfora é senão uma representação
que se esvai decompostas as margens do tempo.

Na tela de fundo azul, fez apenas um esboço tolo,
tua tez de ouro por entre duas pombas enamoradas,
usando uma coroa de ágata e flores alvas e gris,
pensava tosco, captá-la atravessando a Ipiranga
e a rua São João numa manhã de quarta-feira,
só assim captaria toda a extensão impressionista
que deixa os modernos pintores em brancos dias.

Ignorante não perceberá, a tradição de teus olhos,
quantos Saaras feneceram-se nesta neve de areia,
os haréns com histórias que nunca foram narradas,
quantas foram às misericórdias de Deus ao teu olhar,
a vastidão do Império Egípcio, os faraós que eternos
sucumbiram ao simples bocejo de teu cansaço noturno.

Ignorante não perceberá, a tradição de teus cabelos,
estes candeeiros de ouro acessos na rotina das ruas,
que rezam sem orações místicas a angustias profanas,
cinismo asséptico de nossa era neste Éden decadente,
a flor augusta e bela nascente de tua boca derradeira
quando recita maduros poemas femininos japoneses
numa lembrança de Bashô, Buson ou mesmo Issa.

Pierre Thomas, não pode pintá-la em tua extensão,
tinha mistérios demais dissimulados pela tua tez,
exausto e desiludido, solitário subtraiu-se os pinceis,
no desejo de forma e luz que fez a tua dimensão,
este agora repousa sobre o mármore deste poema. 



È como uma flor do desejo solitária,
inteira e densa como forma que a fiou
como acalanto para coisas solitárias
sem vozes, sem redenção à tarde.

Inteira e bela como uma estátua grega,
não o pincel não a poderia elogiá-la,
perderia-se de algo aqui de inspirado
Goya talvez pudesse tê-la eternizado,
mas era um pintor de um outro tempo.

Artistas não dormem, insones, exaustos,
procuram-na entre o jardim desta época,
na tarde vazia desta soturna noite griz...

II

Tua beleza é tal feita como o amor,
onde nada lhe ultrapassam as fronteiras
onde Eva deve ter olhado-a em reflexo
para ter se descoberto como mulher.

Entre as visões do Paradiso, Beatriz,
talvez fosse a melhor delas, apagada,
diante da branquidão alada da tua tez,
não pode Dante sequer pensá-la uma,
e adentrou só e tosco a selva escura.

Os dias perto de ti devem-se parecer
como instantes soprados ao relento,
como naquela nua árvore solitária ali,
e anos passados ao teu lado, elogios
sussurrados para a eternidade voraz.  

III

Homens incrédulos da beleza, não
censurem aquela que por ser bela
floresce entre as manhãs solares,
e arrastam alguns ao desespero,
por se fazer permanente espanto
entre as acácias e as folhagens
que da noturna noite desponta
as cicatrizes e nervuras do dia.

Por entre as sinagogas ou mesquitas
muitos rezam em vão por Paradisos,
diante de ti pode ser celebrado o belo
como altar, da juventude e do amor.

Não terei sido o primeiro ser expulso,
que por um arrasado desespero lato
ficou fatigada ao insone poente a beleza
mesmo Adão, caiu por tal singeleza,
como cai uma maçã de uma macieira. 

Mesmo os sábios se perderam em ti,
com teus feixes de sombras dormidos
estas coisas denominadas de almas,
ao pensarem que havia lhe encontrado
por fim, a visão do Paradiso aclamado,
Jacó deve tê-la visto como um anjo, e
depôs abatido para que lhe abençoasse
na ânsia da eternidade dos dias calmos.

IV

Não posso imaginá-la entre as outras,
meu pensamento não lhe concebe uma
porque mesmo solitária adensa-se efígie
que se desespera por não a captar ainda
na dimensão que te faça perpetuá-la.

No último dia, quando perto do infinito,
quando tudo se postar enfim na treva
quero confundir teu colo com a sombra
onde eu possa me proteger hospitaleiro
nestes cabelos morenos e de candeeiro. 

Interlúdio para uma alma cansada da musa

          Te convido por um instante a passear comigo. Partindo daqui onde estamos e caminhando por três dias em direção ao poente, encontra-se a pequena cidade de Hafiz, esta fica situada num lugarejo perto de Ervália, onde dizem que nasceu um poeta, um exilado que traduziu um nauta de um bêbado barco.

           Em Hafiz, o andarilho pode dialogar com a alma, sem que isto seja um sacrilégio ou um mero exercício metafísico, e pode até mesmo encontrar no coreto uma banda que toca canções de Mahler ou meninas dançam roda ao ritmo de Stravinsky.

            Os habitantes são meio matreiros, pois deixam os corpos envelhecerem a vontade, mas por um estranho mecanismo, dizem que umas rezas separam o corpo da alma, falam que fazem isto quando leem livros de poesia.

             Um verdadeiro lugar onde se pode descansar, onde tudo tem uma delicadeza que deixa a aurora rubra assim que amanhece, onde a ordem não é subvertida pela desordem.

            Quando o corpo velho morre, estes adentram as metáforas dos poetas que ali passam ganhando uma nova existência, e estes surgem de repente apenas com um olho que dizem que magnetizam o outro olhar que está distraindo lendo e encanta este andarilho despercebido.

           Sei que incrédulo dirá que tudo isto não passará de meras balelas de minha parte, meras metáforas de escrevente num instante de tédio em sua noite noturna, mas por um instante você esteve comigo em Hafiz, e os habitantes te viram e já fizeram uma reza enquanto estava magnetizado...

Eric Ponty

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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