I
Caibo de não caber em mim
e há tanto tempo lhe espero
que caibo mesmo sem caber.
Em agonia eu vivo a vida
deste sofrimento imenso
porque vivo, vivo a espera
daquela que me escolheu.
Minha angustia lhe fiei os dias,
todo o meu ser compactuei
que caibo mesmo sem caber.
Esta passagem estranha vida
de angustia, que sofro ferido
faz-me ser um cativo sem cela
e meu coração, côdea de ilusão,
de tão cativo que já sou morena,
que caibo mesmo sem caber.
Ai! Como é vazia e de sombras
este instante que perece tudo!
Estas palavras de toscos ornatos
que se perdem nos vãos do vazio!
De pensar que em silêncio ficarei,
me abre mesmo um hiato no eu
que caibo mesmo sem caber.
Como as auroras são monótonas
e os amanheceres de fúteis brilhos
nesta espera que se desvela utopia
de se saber que as coisas fluem,
que caibo mesmo sem caber.
II
Paráfrase de São João da Cruz
Em uma noite escura d´alma,
com ânsias, em amores inflamados
eu me verti nesta ventura morena,
entre os meus sonhos desejados
sai de dentro de mim sem ser notado
estando aí minha cama sossegada.
Noites escuras e seguras d´alma,
pelo secreto onírico disfarçado,
de escuros e encerrados gritos,
estando aí minha cama sossegada.
Em uma noite escura d´alma,
em segredo, que ninguém me via,
nem olhava os horrores e clamores,
sem outra luz que me guiava morena,
senão pela qual o meu coração ardia.
Esta me guiava pela noite escura
mais certo que a luz do meio-dia,
aonde esperava ao olhar-me
quem eu bem sabia não caber,
em parte de donde nada parecia
ser esta parte perdida de mim.
Oh noite que me guias-te n´alma!
Oh noite suprema mais que a manhã!
Oh noite que me reuniste tão pleno
amado com amada uníssonos,
musa em Amada transfigurados!
Em meu peito florido de mágoas
que mesmo solitário aguardava
ficou adormecido na noite escura
e eu a resgatava entre os delírios
de imagens alquebradas do dia
do qual ventos do céu lhe tocavam.
O ar da tarde que me tangia
quando por mim só passou
e eu em seus cabelos me perdia
em pele tão rubra e serena
que em mim eu não mais me cabia
e todos os sentidos me suspendeu.
Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos esquecidos.
III
Caibo de não caber em mim
De olhar a luz de seus olhos
Na fluidez de seus cabelos
Na imensidão de quando vai.
Caibo de não caber em mim
Quando fico a recitar versos
Na chegada da madrugada
De silêncios e barulhos densos
Caibo de não caber em mim
Quando te penso tão distante
Nas imagens de seus sonhos.
Caibo de não caber em mim
Na escuridão de seus cabelos
Nesta pele tão alva e morena.
Caibo de não caber em mim
Quando fico em mim parado
Nesta ânsia de te imaginar.
Caibo de não caber em mim
Quando eu soçobro no olvido
Ao sussurrar esta que não há.
Cabendo de não caber em mim
esquecendo-me deste meu eu,
meu rosto se reclinou tão só
cessando todo subterfúgio noturno
estando aí minha cama sossegada
e aos seus olhos já sendo olvidado.
Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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