ERIC3PONTY@YAHOO.COM
Eu, Doutora, não sou algum banqueiro,
Que viva de guardar alheia grana;
De tosco fato, d ’expressões passageiras,
Dos frios beiços, e dos sóis tão amado.
Tenho próprio missal, e nele avisto;
Dá-me vinho, saliva, fruta, azeite;
Das alvas ovelhinhas tiro há efígie,
E mais as finas lãs, de que me avisto.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu aspecto numa fonte,
Dos anos inda não está fartado:
São pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a foz celeste;
Nem falo letra, que não seja minha,
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos fortes da aventura,
Só apreço lhes dou, gentil Doutora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser penhora.
É bom, minha Doutora, é bom ser dono
De um antanho, que cubra livro, e prado;
Porém, gentil Doutora, o teu agrado
Vale mais q’um Lenheiro, e mais q’um trono.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa afetuosa, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos morena
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Doutora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os prados levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, a nédia grana.
Já destes bens, Doutora, não conciso:
Nem me cega a paixão, que o fundo arrasta;
Para viver feliz, Doutora, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Irás a divertir-te na capoeira,
Sustentada, Doutora, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta joga jogadores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Doutora bela,
Graças à minha Estrela!
Depois de nos ferir a mão da sorte,
Ou seja, neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas expressões os senhores.
I
É gentil, é Doutora a minha Altéia;
Das tranças, a modéstia de seu rosto
Que inspiram no meu jeito maior gosto
Que ver o próprio verso quando ondeia.
Mas, lendo o lindo peito de Dircéia
A nova sujeição me verso exposto;
Ah! que é mais jocoso, mais decomposto
Que a pura esfera, de anil astros cheia!
Prender as duas com grilhões estritos
Se uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres gestos.
Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de escrito dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.
II
Num fértil seio de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Formosura mostrava
Com alegre expressão o seu tesouro.
De uma parte, um montão de prata e ouro
São letras de valor o pão curvava;
Daqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grana e louro.
- Findou – diz-me então – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna as concedo, vai, da cura.
Escolhi, acordei, e não vi a fada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca passa há passar de ser sonhada.
III
Enganei-me, enganei-me – paciência!
Sendo acreditei às vezes, que cri, Ormia,
Que a tua singeleza então igualaria
A tua mais que angélica pura aparência.
Enganei-me, enganei-me – paciência!
Se para ao menos conheci que não devia
Pôr nas mãos de uma externa galhardia
Desse prazer, o sossego e a inocência.
Enganei-me, fatal, com teu semblante,
E nada me admiro musa de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.
Mas tu perdeste mais em me enganares:
Que tu não acharás se um firme amante,
E eu posso então traidoras ter milhares.
IV
De ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama furtar no feito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não olhares meus, na minha mente.
Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Desconheço ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que está alma sente.
Talvez que então bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é farta,
Por inocente assim melhor lhe assista;
Pois quando só na ideai ma retrata,
Debuxa dos fortes com que prende a vista,
Camufla as obras com que ofende, ingrata.
Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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