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sábado, setembro 05, 2026

POEMAS DE PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY


 A AFIADEIRA
Lilia…, neque nent
Sentada à janela azul, a afiadeira,
Onde o jardim melodioso se balança,
O som do torno antigo a embriagou.

Depois de beber o azul, farta de fiar mimosa
Cabelo, tão escorregadio entre os teus dedos, evasivo,
Ela sonha, e a sua cabecinha inclina-se.

O arbusto e o ar puro tornam-se uma fonte viva
Que, à luz suspensa, rega deliciosamente
O jardim do descanso, com as suas flores perdidas.

Um caule, onde o vento errante repousa,
Rende-se à saudação vã da sua graça estrelada,
Dedicando magnificamente a sua rosa ao velho torno.

Mas a sonolenta fia uma lã isolada;
A sombra frágil entrelaça-se misteriosamente,
Tecida com o fio dos seus dedos adormecidos.

O sonho desenrola-se com uma angelical
Preguiça, incessante, no doce fuso crédulo,
Os cabelos ondulam ao sabor do carinho…

Por trás de tantas flores esconde-se o azul,
Tecelã envolta em luz e folhagem:
O céu verde está a morrer. A última árvore arde.

A tua irmã, a grande rosa onde sorri uma santa,
A tua testa etérea exala um perfume com o seu hálito
Inocente, e pensas que estás a definhar… 
Estás a extinguir-te no azul da janela onde fiavas a lã.

HELENA

Azul! Sou eu… Volto de uma visita às grutas
Da morte, o som da onda ao rebentar,
E vejo as galeras novamente nas auroras
Ressurgir da sombra com os remos de ouro.

As minhas mãos solitárias chamam os monarcas,
Cuja barba de sal divertia os meus dedos.
Eu chorava. Eles cantavam as suas vitórias sombrias
E os golfos que saíram do seu barco pela popa.

Ouço as trombetas profundas e as cornetas
Militares a marcar o ritmo do movimento dos remos;
O canto dos remadores dá início à agitação,

E na proa heróica, os deuses, exultantes,
Com o seu sorriso antigo que a espuma profana,
Estendem-me os braços, indulgentes e esculpidos.

ORFEU

… Sob os mortais, eu, Orfeu, o admirável,
Inspiro-me! Dos circos puros desce o fogo,
E da montanha nua faz um troféu majestoso
De onde surge o ato retumbante de um deus.

Se o deus cantar, destrói o local poderoso.
O sol observa com horror as pedras que se movem,
Uma planta inédita desperta admiração
Altas paredes de ouro harmonioso de um templo.

Canta, Orfeu, sentado num céu resplandecente!
A rocha anda, tropeça e cada pedra-fada
Sente-se um peso novo que se perde no azul do céu!

De um templo ao ar livre, a tarde banha o voo,
E ele próprio reúne-se e organiza-se no ouro,
Com o imenso espírito do grande hino na lira!

A ABELHA
A Francisco de Miomandre

Por mais delicada e por mais mortal que seja
Que seja a tua ponta, abelha loira,
Não coloquei, no meu cestinho delicado,
Mais do que um sonho de renda.

Fura o recipiente no centro,
Onde o Amor morre ou adormece;
Que algo vermelho de mim mesmo
Que surja, na curva, a carne rebelde!

Preciso urgentemente de uma chave de fendas:
Um mal vivo com um final feliz,
Mais vale isso do que um tormento adormecido!

Que a minha mente se ilumine
Por este minúsculo indício de ouro,
Sem a qual o Amor morre ou adormece!
 
SONETO A NARCISA

Ó, agarrado pelas tuas mãos, frescas como flores,
A minha testa já não pensa em nenhuma outra coroa;
Essa lucidez que o Amor envolve
Uma sombra suave perturba a fonte das lágrimas.

Respirando do teu seio o calor profundo,
Tanta felicidade transborda no coração que se entrega,
Que ao preço do doce destino que o teu olhar me ordena
A glória não passa de uma estranha desgraça para mim.

Deixo desaparecer os meus desejos eruditos;
O meu verdadeiro tesouro brilha para mim nos relâmpagos sedosos
Dos teus olhares ricos às luzes vivas!

O que tu sentes por mim, eu adoro nos teus olhos.
Oh, fode com as tuas mãos, fechando a minha coroa
Do rubi de um beijo, beija a testa que te ama!

ODE AO JASMIM

Os teus olhos estão no meu coração, incrustados nas pedras,
E os traços luminosos dos seus olhares vagos
Queimam com fogo vivo a noite dos meus pensamentos,
Ó Presença imanente, ó Tu que estás em toda parte,

Tu que rodeias toda uma margem tão doce
Que um dia sem ti é para mim como um dia de ferro,
Que me oprime com um peso que o meu suspiro repele
E que termina num século completo no inferno...

Enquanto tudo o que vive à minha volta me irrita,
E que dentro de mim a própria obra é um sonho importuno,
Para Ti, eu fujo para Ti, como um pássaro se abriga,
E a alma obediente ao teu perfume secreto,

Respiro em espírito o mais terno dos quartos,
Onde, entre roupa limpa, perto das flores, perto do fogo,
A força do amor que sonha em seus membros
O sorriso que eu amo receberá o meu desejo.

Eu dissipar a estrada, e voando para o deleite,
Eu abolei sob os meus pés os graus preciosos
Que levam até ao limiar do teu cálice sedoso
A minha sede de reencontrar os teus verdadeiros olhos.

A minha espera pelo amor está cansada de fingir;
Quero bebê-los e fechá-los e vê-los suavemente
Reabrir-se, quando o excesso de felicidade de se unir
Permite-nos sorrir com o teu estremecimento.

O SALGUEIRO

Trema, caia suavemente. Um sopro te ama, salgueiro.
Que faz tremer em ti o sonho de um ombro.
Brisa? Ou o meu único suspiro, tão simples e tão repentino
Que eu exale amor por este jardim flutuante.
Nas suas flores, o meu olhar engana a dor da espera
O passo, a voz, a mão e, depois, todo o ser terno,
Essa Tu toda minha que sinto a tornar-se,
A quem a hora que morre pode de repente unir-me
E aí vem ele! Eu sinto.

A minha boca finalmente te recebe!
A abordagem causa um tremor na alma.
E os meus olhos, embora cheios de folhagem e luz,
Vejo-te atrás de mim, toda corada de amor.

Trema, caia suavemente! Um sopro te ama, salgueiro...
Mas já não preciso pensar num ombro,
E esse sopro não é mais o sopro de um único coração.
O tempo vencido sucumbe, e o beijo vitorioso
Da ausência sem nome da qual um nome me liberta,
Bebe na sombra, em longos goles, o fogo que nos dá vida!

CANÇÃO MUITO VIVA

Por que eu gostaria de te amar?
Se não fosses tu
Com quem se abrevia
A hora universal?

Que estranho!
Todo o amor escorre,
Pego na armadilha do amor
Que nos encanta...

Ó belo clarão
Entre a carne e a carne
Que os corações se comuniquem!

E que verdadeiros tesouros
Licores extremos
Confundam os corpos!…

Às vezes, penso na tua infância e gosto.
O que me contaste ressoa muito longe, na sombra anterior.
E eu gosto...

Depois, depois... oh não, não gosto de tudo o que veio a seguir.
Essa flor colhida, esse primeiro toque.
A tua juventude, o teu coração.
Oh, eu odeio os deuses, o acaso e tudo mais.
O que fez com que não fosse o que deveria ter sido
Que sejas sempre toda minha.

Eu me divido ao pensar no passado que não foi
Como as pitonisas preveem o futuro.
Eu profetizo de costas
E o meu amor é de tal perspicácia
Que eu nos vejo a viver uma vida
Tão luminosa
Se pureza e voluptuosidade
Tão terno e tão determinado
É inteligente, é doce.
Oh, que dias e que noites
E que sonhos confusos e que despertares cantantes...
Nós teríamos nos conhecido, nos encontrado no tempo
Como eu era vivo, acreditando que era um anjo
De espírito duro, alma bastante estranha
E eu queria mergulhar meu olhar
Em toda a profundidade do mundo
E eu teria-te levado para o fundo
Para te amar com todo o meu orgulho.

PAUL VALÉRY - TRAD. ERIC PONTY
 
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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