[A BALADA DOS ENFORCADOS]
IRMÃOS que nos sobreviverão,
Não sejais duros de coração connosco,
Se sentis compaixão pela nossa miséria
Deus recompensar-vos-á com a Sua misericórdia.
Vêem aqui cinco ou seis dos nossos pendurados:
A carne, que alimentamos tão bem,
Já podre, foi devorado,
E os ossos que restarem em breve tornar-se-ão cinzas, pó.
Que ninguém se ria do nosso sofrimento,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Se vos chamarmos, irmãos, não devais
Desprezar-nos, mesmo que tenhamos sido executados
Com toda a justiça… Como bem sabem
Que nem todos os homens são sensatos;
Perdoem-nos, já morremos, estamos
Perante aquele que nasceu de Maria,
E que a sua graça não se esgote
E que nos proteja dos raios infernais.
Estamos mortos, que ninguém nos incomode,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
A chuva esvaziou-nos e lavou-nos
E o sol enegrecido e ressecado;
As urracas e os corvos esvaziaram-nos os olhos,
Arrancaram as barbas e as sobrancelhas.
Quando vivíamos, nunca descansávamos;
Agora, dependendo do vento,
À sua vontade, finalmente, balança-nos,
Mais picotados do que um dedal.
Nunca façam parte da nossa irmandade,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
Príncipe Jesus, que reinas acima de tudo,
Não deixes que o Inferno nos devore:
Não temos nada a resolver lá.
E vocês, não se riam de nós,
Se não, rogai a Deus que nos absolva a todos!
BALADA EM FRANCÊS ANTIGO
Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho , corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.
BALADA EM FRANCÊS ANTIGO
Fossem os santos apóstolos
Vestidos com a aurora, com a cabeça coberta por amitos,
Cingidos com a estola sagrada
Com aquilo que se apanha o diabo pelo pescoço
Consumido pela sua própria maldade,
Tal como o frade leigo morre,
Arrancados desta vida
Como se fossem levados pelo vento.
Que sejam de Constantinopla
O Imperador da Mão Dourada
Ou o muito nobre rei de França
Exaltado acima de outros reis,
Quem, para maior glória de Deus,
Construiu igrejas e conventos…
Por mais venerados que fossem na sua época
Já se foram com o vento.
Seja de Viena ou de Grenoble
O Golfinho, corajoso e sábio,
Ou de Dijon, Salins e Dole
O primogénito,
Ou outras pessoas da sua comitiva,
Arautos, trompetistas, escudeiros,
Por muito bem que se coma e se beba,
Vão passar com o vento.
Os príncipes estão destinados à morte
Tal como todos os que aqui respiram;
Por mais que nos inquietem ou atormentem,
Passarão como o vento.
Balada
[«DA MARGOT GORDINHA»]
Porque é com prazer que amo e sirvo esta bela
Consideram-me vil ou desprezível?
Ela tem as qualidades que eu procuro.
Por amor a ela, ostento um escudo e uma adaga.
Se chegarem clientes, corro a buscar um jarro
E perco-me no vinho sem causar confusão.
Sirvo-lhes água, queijo, pão e fruta,
Se pagarem bem, digo-lhes: «Bene stat»,
Voltem aqui quando estiverem no cio,
Para este bordel que nos acolhe.
Mas, às vezes, há mau humor de sobra
Quando a Margot vem deitar-se e não tem dinheiro;
Então não consigo olhar para ela, detesto-a.
Pego na roupa dela, saias, cinta,
E juro-lhe que as guardarei como garantia do seu pagamento.
Põe-se de braços cruzados, Anticristo!
Ele grita comigo e jura pela paixão de Jesus Cristo
Isso não vai incomodar, porra. Então, vou tomar algo que me acalme
E bem debaixo do seu nariz, carimbei o meu selo.
O deste bordel que nos acolhe.
Depois, fazemos as pazes, e ele solta-me um belo peido,
Mais inchado do que um besouro rola-bolas.
Enquanto se ria, deu-me um soco na cabeça,
«Vai-te embora», diz-me ele, e arranha-me as coxas.
Nós os dois, bêbados, dormimos como pedras,
E ao acordar, quando lhe ronca o estômago,
Ele senta-se em cima de mim, para que eu não estrague o seu fruto;
Debaixo dela, gemo, e ela deixa-me mais liso do que uma tábua,
E divertimo-nos até não podermos mais
Neste bordel que nos acolhe.
Por mais que sopre o vento, por mais que haja geada ou granizo,
tenho o meu pão garantido.
Sou um malandro, e a minha malandra segue-me.
Quem é melhor? Um para o outro.
Estamos empatados: tal rato, tal gato,
Somos uns malandros, e é assim que vivemos,
Desprezamos a honra, e ela despreza-nos
Neste bordel que nos acolhe.
FRANÇOIS VILLON - TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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