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sexta-feira, setembro 18, 2026

EM LOUVOR PARA DONIZETE GALVÃO E DORA FERREIRA - ERIC PONTY

 

 
POETA - TRADUTORA - DORA FERREIRA DA SILVA 
 

I

Meia-noite. Ao meu lado me recolho.
Meu Deus! E este soneto! E, agora, vede:
De franca da ardência orgânica da sede,
Morde-me o verso ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar soneto de outra parede...”
— Digo. Ergo-me a versar. Fecho o ferrolho
E olho o fado. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente verso a minha rede!

Pego de pena. Esforços faço. Chego
Ao fazê-lo. Minh ’alma se concentra.
Que nutre produziu tão feio parto?!

A Consciência soneto é este morcego!
Por mais que a gente pena, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em verso quarto!

II

De onde ele vem? De que soneto bruto
Vem essa voz que sobre as nebulosas
Que de incógnitas criptas misteriosas
Feito as estalactites que dum furto?!

Vem da psicogenética e falsa luta
Do verso de moléculas nervosas,
De, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, então pois, quer e executa!

Vem do encéfalo soneto que a constringe,
Chega em seguida às farpas da laringe,
Tísica, tênue, física, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a agarra,
Mas, de repente, e quase farta, esbarra
No embalo dessa língua paralítica!

ERIC PONTY

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

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