Espaço lúgubre indefinido. Uma escada de um casarão vista por detrás onde dê uma aparência onde uma pessoa possa se enforcar.
Coro:
Repara, advertes aquele excelso Trono,
Em cuja adoração parece ajoelha
Reverente o respeito em tantos Astros,
Que igualmente o iluminam, como o cercam.
Desafiando a esplêndida morada
Desse brilhante campo das Estrelas,
Imagino que intentam seus fulgores
Ser em quadros de luz do Sol esfera.
Essa pompa que vês, esse aparato
Enobrece a Deidade mais excelsa,
Heroína imortal, eterno lustre
Da sagrada seráfica obediência.
Cláudio Manuel da Costa:
Não permitiu o Céu que alguns influxos, que devi às águas do Mondego, se prosperassem por muito tempo: e destinado a buscar a Pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado, aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância! Que menos, do que abandonar as fingidas Ninfas destes rios e no centro deles adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a este clima os corações de toda a Europa! Não são estas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos. Turva, e feia, a corrente destes ribeiros, primeiro que arrebate as ideias de um Poeta, deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a terra, que lhes tem pervertido as cores.
Coro:
De uma e outra virtude foi lavrando
O pedestal, em que de tantas prendas
A imagem singular se colocasse
No altar da fama ídolo da Inveja.
Assim crescendo assombro, assim banhando
De resplendor benéfico inda as mesmas
Liberdades, agora vê rendidas
As que de Amor ao jugo viu já presas.
Com sujeição gostosa vão prostrando
Os alvedrios as porções secretas
Do mais livre exercício, porque nada
A tanto império recatado seja.
Ó raro assombro, ó ínclito transunto
Daquelas, de quem sendo cópia bela,
Para glória do emprego, que autorizas,
Herdas o nome, e as virtudes herdas!
Cláudio Manuel da Costa:
Denunciar ou não denunciar, eis meu dilema: será mais justo
que nosso espírito sofrer perdas ou alianças
Com que Desdita, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um tramar da Colônia
E em vão pôr lhes fim? Suicidar… Sumir: De que adianta.
Dizer que lidamos com um Utopia e a amargura
E as mil contrariedades naturais-herança do Império:
Suicidar… Sumir: … Será uma consumação covarde
Que bem não merece e desejamos com fervura.
Sumir… Talvez suicidar: eis onde surge um estorvo:
Pois quando nos damos abertos da desordem da vida,
No descanso da esgotamento o ilusão que tenhamos
Devem fazer-nos vacilar: eis a conjectura
Que confere tão longa história aos nossas desditas.
Quem toleraria os relhos e a chasco do orbe,
A injúria do opressor, a injúria do brioso,
Toda conjuração do mal estado mor,
O cinismo oficial, essas dilações do Rei,
Os doestos que tão negativos têm de suportar
O mérito resignado, quem o aturaria,
Quando conseguisse a mais feita quitação
Com a Escada de um Umbral? Quem induziria fardos,
Pranteando e suando sob a existência exaustiva,
Se o temor de alguma coisa após a destruição,
–Essa comarca ignota cujos confins
Jamais viajador algum atravancou de periferia –
Não nos pegasse a arremessar para outros, não sagazes?
Tal pensamento assim não nos acovarda, e assim
É que se cobre a minha tez natural da disposição
Com o tom lívido e doentio da nostalgia;
E desde que nos atrelem tais reflexões,
Cometimentos de altivo fito e que bem supino pairam
Desviam-se de direção e detêm até ainda
De se apodar tal posição.
Coro:
Para cantar desdita tenros cuidados,
Toma entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi, pois, só esse fúnebre lamento;
Se é, que de indulgência sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu detinha o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os abismos abalados.
Bem sabe, de outros sábios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde trama,
Lhes influiu na lira estro divino:
A canção, pois, que a esta voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz honrado entre vós também de fama.
Pastores, que levais ao monte o gado,
Vide lá como andais por essa serra;
Que para dar infecção a toda a terra,
Basta ver se o seu vulto magoado:
Há andar (vós me vides) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu aspecto encerra
A causa de um tormento tão cansado.
Se a quereis desejar, vinde comigo,
Vereis a formosura, que lhe adora;
Mas não; tanto não sois vosso inimigo:
Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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