Pesquisar este blog

domingo, setembro 06, 2026

CEM SONETOS DE AMOR - PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

 PARA MÉDICA DESCONHECIDA DA MINHÁLMA

I
MATILDE, nome de planta, pedra ou vinho,
daquilo que nasce da terra e perdura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo verão irrompe a luz dos limões.
Nesse nome navegam navios de madeira,
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que deságua em meu coração calcinado.
Ó nome descoberto sob uma trepadeira,
como a porta de um túnel desconhecido,
que se comunica com a fragrância do mundo!
Ó, invade-me com tua boca abrasadora,
investiga-me, se quiseres, com teus olhos noturnos,
mas, em teu nome, deixa-me navegar e dormir.
II
AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até a tua companhia!
Os trens continuam rodando sozinhos sob a chuva.
Em Taltal, a primavera ainda não amanhece.
Mas você e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos desde as roupas até as raízes,
juntos no outono, na água, nos quadris,
até sermos apenas você, apenas eu, juntos.
Pensar que custou tantas pedras que o rio carrega,
a foz das águas de Boroa,
pensar que, separados por trens e nações,
você e eu tínhamos simplesmente que nos amar,
com todos confusos, com homens e mulheres,
com a terra que planta e cuida dos cravos.
III
AMOR ÁSPERO, violeta coroada de espinhos,
matagal eriçado entre tantas paixões,
lança das dores, corola da ira,
por quais caminhos e de que modo te dirigiste à minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram até mim?
Que flor, que pedra, que fumaça revelaram minha morada?
O certo é que a noite aterrorizante tremeu,
o amanhecer encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celestial,
enquanto o amor cruel me cercava sem trégua
até que, lacerando-me com espadas e espinhos,
abriu em meu coração um caminho ardente.
IV
VOCÊ SE LEMBRARÁ daquela ravina caprichosa
para onde os aromas palpitantes subiam,
de vez em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Você se lembrará dos dons da terra:
fragrância irascível, barro dourado,
ervas do matagal, raízes loucas,
espinhos encantados como espadas.
Você se lembrará do buquê que trouxe,
buquê de sombra e águas em silêncio,
buquê como uma pedra coberta de espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos para onde nada espera por nós
e encontramos tudo o que está esperando.
V
NÃO TE TOQUE a noite, nem o ar, nem a aurora,
apenas a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas do teu país perfumado.
Desde Quinchamalí, onde foram feitos teus olhos,
até teus pés, criados para mim na Fronteira,
tu eras a argila escura que conheço:
em teus quadris toco novamente todo o trigo.
Talvez tu não soubesses, araucana,
que quando, antes de te amar, me esqueci de teus beijos,
meu coração ficou lembrando-se de tua boca,
e eu andei pelas ruas como um ferido,
até que compreendi que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões.
VI
NAS FLORESTAS, perdido, cortei um galho escuro
e, sedento, levei seu sussurro aos lábios:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que, de tão longe, me parecia
gravemente oculto, coberto pela terra,
um grito abafado por imensos outonos,
pela escuridão úmida e entreaberta das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos da floresta,
o galho de aveleira cantou sob minha boca
e seu aroma errante subiu pelo meu julgamento
como se de repente as raízes me procurassem,
aquelas que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei, ferido pelo aroma errante.
VII
“VOCÊ VIRÁ comigo”, eu disse, sem que ninguém soubesse
onde e como batia meu estado doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada além de uma ferida aberta pelo amor.
Repeti: venha comigo, como se eu estivesse morrendo,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Ó amor, agora vamos esquecer a estrela com espinhos!
Por isso, quando ouvi tua voz repetir:
“Você virá comigo”, foi como se você desatasse:
a dor, o amor, a fúria do vinho aprisionado,
que, de sua adega submersa, subisse,
e mais uma vez, na minha boca, senti um sabor de chama,
de sangue e de cravos, de pedra e de queimadura.
VIII
SE NÃO FOSSE porque teus olhos têm a cor da lua,
durante o dia, com argila, com trabalho, com fogo,
e, aprisionada, tens a agilidade do ar,
se não fosse porque és uma semana de âmbar,
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e ainda és o pão que a lua perfumada
elabora, espalhando sua farinha pelo céu,
oh, amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe, posso ver tudo:
vejo em tua vida tudo o que é vivo.
IX
COM O GOLPE da onda contra a pedra indomável
a claridade irrompe e estabelece seu tom rosado
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma única gota de sal azul que cai.
Ó magnólia radiante desatada na espuma,
viajante magnética cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal quebrado, deslumbrante movimento marinho.
Juntos, você e eu, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas constantes
e derruba suas torres de arrebatamento e brancura,
pois na trama desses tecidos invisíveis
da água desenfreada, da areia incessante,
sustentamos a única e perseguida ternura.
X
SUAVE é a bela, como se música e madeira,
ágata, tecidos, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erguido a estátua fugaz.
Para a onda ela direciona sua frescura contrária.
O mar molha pés polidos, moldados
à forma recém-esculpida na areia,
e agora é seu fogo feminino de rosa
uma única bolha contra a qual o sol e o mar lutam.
Ai, que nada te toque, a não ser o sal do frio!
Que nem mesmo o amor destrua a primavera intacta.
Bela, reflexo da espuma indelével,
deixe que seus quadris imponham na água
uma nova medida de cisne ou de nenúfar
e que sua estátua navegue pelo cristal eterno.
XI
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem me alimentar, em silêncio,
o pão não me sustenta, o amanhecer me enlouquece,
procuro o som líquido dos teus pés durante o dia.
Estou faminto do teu riso escorregadio,
das tuas mãos da cor de um celeiro furioso,
tenho fome da pedra pálida das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma amêndoa intacta.
Quero devorar o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do rosto arrogante,
quero devorar a sombra fugaz de teus cílios
e, faminto, vou e venho farejando o crepúsculo,
procurando por ti, procurando teu coração quente
como um puma na solidão de Quitratúe.
XII
MULHER PLENA, maçã carnal, lua quente,
aroma denso de algas, lodo e luz esmagados,
que clareza sombria se abre entre tuas colunas?
Que noite antiga o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e estrelas,
com ar sufocante e tempestades bruscas de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos derrotados por um único mel.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
teus margens, teus rios, teus minúsculos vilarejos,
e o fogo genital transformado em deleite
corre pelos finos caminhos do sangue
até se precipitar como um cravo noturno,
até ser e não ser senão um raio na sombra.

  PLABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY

  

POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Nenhum comentário: