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segunda-feira, agosto 24, 2026

A Musa Sobre o Tempo - Eric Ponty

 

Uma jovem mulher sob um louro alvo;
vi-a mais branca e mais fria que a neve;
sem ter sido tocada pelo sol por muitos e muitos anos;
e sua voz, seu belo rosto e seus cabelos;
me agradaram tanto que a tenho diante dos olhos;
e sempre a terei, esteja eu na colina ou na margem.
Então, meus pensamentos estarão na margem,
onde não se encontra folha verde no louro;
quando meu peito estiver pacato e meus olhos secos,
veremos o fogo nevar, a neve arder;
não tenho tantos fios nestes cabelos
quantos eu gostaria de esperar por aquele dia durante anos.
Mas como o tempo voa e os anos fogem,
de modo que se chega à morte num instante,
seja com cabelos escuros ou brancos,
seguirei a sombra daquele doce louro
sob o sol mais ardente e pela neve,
até que o último dia feche estes olhos.
Nunca se viram olhos tão majestosos,
nem em nossa época, nem nos primeiros anos,
que me derretem como o sol derrete a neve,
de onde brota a margem lacrimosa
que o Amor conduz aos pés do duro louro,
cujo copo é de diamante e ouro.
Temo mudar de rosto e de cabelos antes
que, com certo dó, os olhos me despontem
meu ídolo esculpido no louro vivo,
pois, se não me engano na conta, 
que, suspirando, vou de margem em margem,
noite e dia, no calor e na neve.
Por dentro, fogo; por fora, neve pura de seus cabelos,
apenas com esses pensamentos, com outros velos,
sempre chorando, irei por todas as margens,
para talvez despertar dó nos olhos
de alguém que nascerá daqui a mil anos,
se esse louro puder viver tanto tempo.

Na doce época da juventude,
que viu nascer e ainda quase em seus primórdios
o desejo selvagem que, para meu mal, cresceu,
pois cantando a dor se ameniza,
cantarei como vivi em liberdade
enquanto o Amor, com desdém, 
se alojou em minha morada;
depois contarei como, por culpa,
me elevou-me demais e o que disso me aconteceu,
pelo que me tornei exemplo para muita gente;
mesmo que minha dura disgra
esteja escrita em outro lugar, de tal forma que mil canetas
já se cansaram dela, e em quase todos os vales
ressone o som dos meus suspiros profundos,
que dão credibilidade à vida penosa.
E se aqui a memória não me ajuda,
como costuma fazer, desculpe-lhe os tormentos
e um pensamento que só lhe causa angústia,
tal que faz com que ela vire as costas a tudo o mais
e me faz esquecer de mim mesmo à força,
pois aquele que está dentro de mim 
é o meu certo eu, e eu sou apenas a casca.
Digo que, desde o dia em que o Amor, pela primeira vez,
me atingiu, muitos anos haviam se passado,
de modo que eu já havia mudado minha aparência juvenil,
e, ao redor do meu coração, pensamentos gelados
havia formado uma camada quase adamantina,
que não permitia que o duro sentimento se abrandasse;
nenhuma lágrima ainda molhava meu peito,
nem perturbava meu sono, e o que não existia em mim
parecia-me um milagre nos outros. Lasso, o que sou? O que fui?
A vida e o fim, e o dia louva a noite;
pois, ao ouvir o cruel sobre o que falo,
até então atingido por sua flecha,
não tendo ido além da saia,
ele levou em sua comitiva uma mulher poderosa,
cuja presença pouco me valeu ou me vale
engenho, força ou pedir perdão;
E os dois me transformaram no que sou,
transformando-me, de homem vivo, em um louro verde,
que, mesmo na estação fria, não perde suas folhas.
Como eu me senti quando, pela primeira vez, percebi
minha pessoa transfigurada,
e vi os cabelos se transformarem naquela folhagem,
da qual já esperava que se fizesse sua coroa,
e os pés com os quais me apoiei, me movi e corri,
como cada membro responde à alma,
tornarem-se duas raízes sobre as ondas,
e ambos os braços se transformarem em dois ramos!
Nem menos ainda me arrepia
o fato de ter sido coberto por penas brancas;
naquele momento em que, fulminada e morta, jazia;
minha esperança, que se elevava demasiado alto;
pois, como eu não sabia onde nem quando;
eu a reencontraria, sozinha, chorando,
ali fui levado por ti, e à noite vagava,
buscando nas margens e nas águas;
e nunca mais minha língua se calou,
enquanto pude, sobre sua queda maligna,
por isso assumi, com meu canto, a cor de um cisne.
Assim, percorri as margens amadas,
de modo que, quando queria falar, sempre cantava,
implorando misericórdia com voz estranha;
nem jamais, em tons tão doces ou tão suaves,
souber fazer ressoar os lamentos amorosos
que fizessem o coração, áspero e feroz, se humilhar.
Como foi ouvir isso? Pois a lembrança me atormenta.

O tempo passa e as horas estão tão prontas
para conduzir a viagem,
que não tenho tempo regular
nem mesmo para pensar em como corro rumo à morte;
mal surge no Leste um raio
de sol, que, ao chegar à outra montanha
do horizonte oposto,
você o verá por passagens longos e sinuosos.
As vidas são tão curtas,
tão pesados e frágeis os corpos
dos homens mortais,
que, quando me vejo tão distante
daquele majestoso rosto,
sem poder mover as asas com o desejo,
pouco me resta do alívio de sempre,
nem sei por quanto tempo viverei neste estado.
Todo lugar me abruma onde não vejo
aqueles majestosos olhos suaves
que guardavam as chaves
dos meus doces pensamentos enquanto a Deus agradou,
e para que o duro exílio me afligisse ainda mais,
se durmo, passagem ou me sento,
nada mais peço, jamais,
e o que vi depois deles me aborreceu.
Quantas montanhas e águas,
quanto mar, quantos rios
me ocultam aqueles dois olhos,
que, como um belo céu sereno no meio do dia,
dissipam minhas trevas,
para que a lembrança delas me consuma ainda mais,
e o quanto minha vida era alegre naquela época,
que a presente, amarga e enfadonha, me ensine.
Ai de mim, se ao refletir se reaviva
aquele desejo ardente
que nasceu no dia em que eu
deixei para trás a melhor parte de mim,
e se o amor se vai para o longo olvido
Quem me leva à isca?
Para que minha dor cresça,
e por que, em vez de ficar calado, não me domo?

ERIC PONTY

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